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06 maio 2021

A Volta das CRUZADAS do 'Deus Acima de Todos'





(Cavaleiro Cruzado)


Logo após o ataque às Torres Gêmeas (Nova Iorque ─ EUA) em 11 de setembro de 2001, o republicano George W. Bush decidiu reacender, em seu país, as ‘CRUZADAS’ da idade média do velho continente. Para nomear ou dar nome a essa guerra como ato de vingança, adotou o discurso maniqueísta de: os que estão do nosso lado são do BEM, e os que estão contra nós são do MAL. Osama Bin Laden foi, enfim, o nome escolhido por Bush para ser o inimigo ideal da nação ferida em seu orgulho; inimigo a ser caçado na Cruzada nominada ou batizada de ─ “Justiça Infinita” ─, sob a égide de um suposto “Deus que estava acima de tudo e de todos”.

O certo é que o conflito contra os muçulmanos (os do mal?), em nome do ‘Deus Acima de Tudo’ da geração do Tio Sam(os do Bem?), após o atentado às Torres Gêmeas, ressuscitou as CRUZADAS do período de 1096 à 1272 ─, guerra que visava a tomada da Jerusalém dos muçulmanos pelos cristãos dos principais países e reinos do velho continente, em um mega-conflito que durou quase duzentos anos. As Cruzadas foram um projeto tão criminoso que São Francisco se indignou a ponto de exclamar: "vim converter os infiéis e descobri que os que precisam de fé não são os guerreiros muçulmanos, mas os soldados de Cristo e,  antes de mais nada, os bispos que os conduzem" (Vide: 'O Livro Negro do Cristianismo' - página 18 - Ediouro)

Na pós-modernidade, estimulado pelo arquétipo dos cavaleiros cruzmaltinos, os cristãos americanos revestiram-se dos símbolos da idolatrada pátria para, num insano ufanismo nunca antes visto, editar mais uma vez a guerra fratricida(de irmãos contra irmãos) para fins terrenos, políticos e mundanos.

Não deu outra, Hollywood, ressurgiu para encetar uma TRÉGUA entre a face mercantil e mais sutil do 'Deus-Pai' da nação ocidental, sob o nome de Javeh, e a contra-face que, na ótica dos combatentes cristãos era a mais ameaçadora desse mesmo 'Deus-Pai', adorada pelos muçulmanos, com o nome de Alah (palavra que na língua árabe representava o mesmo Deus de Noé, Abraão, Moisés e Davi). 
O diretor de cinema, Ridley Scott, finalmente recebeu a autorização para, em 2005, lançar no mercado religioso o filme ─ ‘CRUZADA’ ─, espetáculo bem produzido para angariar a empatia tanto do público ‘cristão’, quanto do público muçulmano.

O presidente dos EUA, com sua mente doentia e perversa,  considerava-se o representante divino da ‘maior potência mundial’, agraciada com o poder de enfeitiçar os súditos, cuja missão principal era a de colocar seu próprio Deus no lugar mais alto do pódio, ou seja, em um lugar ‘ACIMA DE TUDO e de TODOS’, rebaixando aos lugares terrivelmente inferiores o Deus dos muçulmanos que eles consideravam vil. Coube ao republicano, George W. Bush, incendiar sua nação de fundamentalistas cristãos, trazendo de volta o espírito das antigas Cruzadas dos séculos X, XI e XII(tempo em que muitos muçulmanos, para não morrerem, foram obrigados a se “converterem” ao cristianismo).

Ainda hoje, os evangélicos de lá e os de cá do novo mundo usam o termo CRUZADA em suas campanhas de convencimento para ganhar almas para $eus rebanho$.

Pasmem senhores e senhoras, aqui, nas terras de D. João VI, consideradas o quintal do Império do Tio Sam, a ação perversa de se usar frases bíblicas ganhou contornos políticos e mundanos jamais imaginados. Em todas ações escusas e corruptas de propaganda política, intrometem, sem a menor cerimônia, o nome do ‘Deus-Javeh’ como meio mesquinho e ignóbil de angariar votos, apoio das massas e ‘favores’ inconfessáveis.

Os cruzados de outrora, à maneira dos militantes de hoje, eram também chamados de ‘militância de Cristo’ na ferrenha luta pela recuperação dos lugares alegadamente sagrados da Palestina; altaneiros, carregavam uma cruz em lugar bem visível de suas indumentárias, símbolo maior do ‘cristianismo’. Essa ‘Cruz de Malta’ tinha pouca diferença da ‘Cruz de Ferro’ que deu origem a suástica nazista. Por falar em suástica, coincidência ou não, saliente-se, que o morticínio dos judeus campeou tanto através das malditas Cruzadas, quanto sob o regime totalitarista do genocida maior do Terceiro Reich.

Nos dias atuais, mais do que nunca, versículos da Bíblia são pinçados e reverberados em alto som, como formas de seduzir o filão mais conservador da sociedade. “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” ─ é um dos bordões mais usados e abusados, hoje, para fins espúrios e nocivos. Mas esse artifício do reino das trevas vem de longe, e não se constitui nenhuma novidade. A História mostra que Deus, na sociedade festiva, nunca foi instrumentalizado para fins éticos, espirituais, transcendentais ou divinos, mas sim para vergonhosas barganhas e fins profanos. Não custa nada lembrar Hitler, cuja violência foi perpetrada no suposto nome do Deus Cristão. No livro Mein Kampf”, o genocida alemão cita 20 vezes o nome de Deus. No cinturão de todos os soldados ou guerreiros do Fuhrer estava lá escrito: 'Deus está conosco!' ─, lema que na idade média era monopólio da ‘Ordem Teutônica’.

EM RESUMO: a História das CRUZADAS é cíclica, ou seja, a essência de seu passado está sempre se repetindo, ou retornando à cada época de grandes  crises. Na verdade, aquilo que se percebe hoje como mudança, é apenas uma sutil e astuciosa enganação que não resiste ao crivo do tempo e da razão.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de maio de 2021


03 junho 2020

TEMPOS SOMBRIOS NOS CONVIDAM A REVISITAR ADOLF EICHMANN






Há três dias, quando ranços do autoritarismo ameaçavam destruir nossas instituições democráticas, o membro mais antigo, desde 2007, da Suprema Corte, o respeitado nacional e internacionalmente decano, Celso de Mello, veio a público para fazer um alerta mais que necessário, pois estava sendo acusado pelo próprio presidente da república e seus assessores, de ter se excedido na aplicação da lei. Em meio às pressões dos incomodados, o decano do STF, em alto e bom som, comparou o Brasil atual com a Alemanha Nazista.

Aos desavisados que nada conhecem da História Mundial e não sabem que os acontecimentos de cunho autoritário e fascista tendem, vez ou outra, a se repetir no decorrer do tempo, achei por bem trazer à baila as Cavernas de Aladim. Elas, sem sombra de dúvida, ainda estão por aí, a esconder maléficos fantasmas. Para aqueles que estão sempre fazendo releituras do passado totalitarista na História da Humanidade, creio, não ser difícil de perceber o “por quê” dos temporariamente amnésicos ficarem tão surpresos e suspensos com a fala firme do decano. É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando HITLER, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul Von Hindenburg como Chanceler da Alemanha, não exitou em romper e em nulificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder” ─ disse do alto de sua envergadura, o veemente ministro Celso de Mello.

Em meio a três calamidades de um desgoverno, na Política, na Saúde e na Economia, tenho pra mim que, mais do que nunca, é tempo de avivar a memória. Me disponho a fazer um pequeno retrospecto histórico, revisitando a maior autoridade em “Totalitarismo e Banalidade do Mal” ─ a alemã, Hannah Arendt (1906 ─ 1975), historiadora e jornalista política, que participou em Jerusalém do longo julgamento do genocida Adolf Eichmann, responsável direto pelo Holocausto de mais de seis milhões de Judeus que foram exterminados em câmaras de gás nos campos de concentração. Tanto Eichmann, quanto o monstro, Hitler, tinham Adolf como primeiro nome.

No seu magnífico livro ─ “Eichmann em Jerusalém” (Editora Companhia das Letras) ─, Hannah Arendt faz uma desconcertante revelação:Eichmann havia sido descrito pelos PSIQUIATRAS como um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar, uma personalidade pervertida e sádica. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados”.

Os trechos de Hannan Arendt (replicados abaixo), fala da infância de Eichmann, que por incrível que pareça, corrobora exatamente com o pensamento de Freud em seus estudos sobre o desenvolvimento psíquico, quando afirmava que a personalidade, essencialmente, estaria formada por volta dos cinco anos de idade.

A infelicidade, começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, contador da Companhia de Bondes de Solinger, teve 5 filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades.”

Surpreendentemente, Eichmann falando a respeito de seus pais diante dos juízes que o julgavam em Jerusalém, se comportou como uma pessoa ressentida, como bem demonstra o trecho abaixo:

Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver, que na hora de meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém, um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”. (Eichmann em Jerusalém – página 39 - Companhia da Letras)

A reflexão histórica que Hannah, brilhantemente, levou a termo, naquilo que ela mesma rotulou de “Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, que ainda hoje serve como fonte inesgotável de consultas procedidas por políticos, filósofos, historiadores, sociólogos, universitários e psicanalistas, no intuito de se conhecer melhor os meandros maléficos que rondam a psique de um genocida, como foi o caso de Adolf Eichmann.

No dia 11 de maio de 2020 (três semanas atrás) fez exatamente 60 anos que Eichmann foi capturado e sequestrado de um subúrbio de Buenos Aires na Argentina pelo exército Israelense, para ser julgado pela Corte Máxima de Jerusalém, por CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

No último capítulo e começo do epílogo do livro “Eichmann em Jerusalém”, obra de leitura obrigatória para quem quer se debruçar de forma profunda sobre o tema NAZISMO e ORIGENS do TOTALITARISMO, a alemã, filha de pais judeus não praticantes, Hannah Arendt, com seu olhar de águia, foi fundo ao “Coração das Trevas” ameaçadoras das sociedades democráticas de seu tempo.

Fica a cargo do leitor ou da leitora aquilatar o que nesse breve ensaio postado há de semelhança com os momentos atordoantes por que passa a nossa frágil república. Ontem, dia 02, o país contabilizava o total de 31.000 mortes, sendo 1.262 só nas últimas 24 horas, de uma pandemia que, ao que parece, ainda está longe do pico. Inacreditavelmente, essa imensa mortandade, na mídia televisiva, é assunto abordado de forma secundária. A primazia no noticiário na TV, pasmem, cabe as querelas da baixa politicagem ─ uma espécie de ópera bufa que castiga nossos ouvidos durante toda a noite, numa briga sem fim de egos inflamados nos três poderes, sempre girando em torno da figura central de um governo que, incessantemente, incita e desafia as próprias instituições que deveria respeitar. Recentemente, o nosso maior mandatário ao ser inquirido por uma apoiadora sobre os enlutados no dia em que o número de mortos bateu todos os recordes, respondeu de forma curta e grosseira: É o Destino de Todo Mundo!”

Mas voltemos a história do carrasco nazista alemão:

No cadafalso, diante da morte, Adolf Eichmann, ainda teve a audácia de proferir umas de suas frases clichês secas, demonstrando de forma cabal sua total insensibilidade: “Esse é o Destino de Todos!”. Viva a Alemanha, viva a Argentina!.

Assim, escreveu Hannah Arendt, no final do último capítulo “Julgamento, Apelação e Execução” de seu memorável livro:

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que esse longo curso de maldade humana nos ensinou ─ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

Por falar em Banalidade do Mal, é triste a constatação de que em nossa república das bananas esse MAL, esteja simbolizado pelo descaso do governo federal com o infectado que a cada minuto morre de covid - 19 e pelas FakesNews financiadas com dinheiro público, detonadas aos montes nas redes sociais. Até o "Deus que deveria estar acima de todos" vem sendo vergonhosamente BANALIZADO para FINS PROFANOS. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de junho de 2020

13 maio 2020

O PSIQUISMO EM TEMPOS DE PANDEMIA ― BREVES CONSIDERAÇÕES




É na linguagem apreendida desde os meus primórdios que hoje, no ocaso da vida, ainda me ancoro. O que faço com as pulsões, fantasias, astúcias e finezas do meu tempo pueril, senão, dia a dia revolvê-las, reciclá-las ou adorná-las com as plumagens esmaecidas do presente?

Quando as trevas do mundo se me apresentam com toda sua dureza, acossado por uma pandemia horrorosa e mortal de um vírus que escolheu justamente os idosos com suas comorbidades para estabelecer a seleção “natural” mais drástica da pós-modernidade, só me resta empreender uma autoanálise. Então, à guiza de recolher algumas pérolas envido esforços na tentativa de ver, mais de perto, fantasmas escondidos nas profundezas de meu obscuro oceano psíquico, instância essa, denominada por Freud, “O Inconsciente”.

Sob o império das necessidades inerentes ao momento extremamente difícil da atualidade que, no meio religioso, já se nomeia como “o fim dos tempos”, nessa quarentena resignei-me a tatear por dentro de casa, vendo paulatinamente, as páginas cinzentas dos dias tombarem sobre as páginas negras da noite, ante meu débil olhar embaciado pela idade avançada.

Nas noites intercaladas por momentos insones, ainda tenho alguns sonhos de esperança. Ainda sonho me vendo criança, colhendo fragmentos do Jardim do Éden nos idos de 1946, quando em Alagoa Grande nascia eu para a linguagem. Os meus pais, ainda tão jovens e imaturos, saídos de uma curta adolescência, usaram o VERBO, e o DESEJO Paterno/Materno para encarnar-me. Fui o primogênito, e como tal, honrado com o título de provedor da família, como bem simboliza o nome Levi, de origem hebraica, que hoje me faz jus, em todos os aspectos.
O psicanalista francês, Jacques Lacan, que promoveu a releitura das obras de Freud, fazia em seus seminários referências ao “Nome-do-Pai”, junto com a tríade do “simbólico, do real e do imaginário” ─ arquétipo introjetado pelo pai no psiquismo do filho. Mesmo já adulto, quando esse filho dá uma ordem, é a voz ancestral do Pai que fala através dele.

Um DESEJO, Uma PALAVRA, um dia nos fundou. Somos filhos das PALAVRAS. Elas permanecem lá, inscritas em nosso corpo. As ruínas dos castelos que imaginariamente construímos na infância, com certeza, estão arquivadas em nosso cérebro, Para não sermos consumidos, em tempos sombrios como esse que estamos atravessando, ressonâncias se deslocam dos alicerces movediços de nossas lembranças, para amenizar nosso sofrimento.

Embora tendo em mim os sinais físicos da fraqueza inerente à idade, não posso demonstrar abatimento espiritual. Às vezes, me quedo rindo por dentro, ao ouvir da esposa, dos filhos e netos a consoladora frase: “Ele está com aparência melhor!”. Na primavera, quando as belas flores de variadas cores dos boungavilles se derramam sobre os muros do meu quintal, o desânimo dá lugar a rasgos de esperança de novos tempos, novos ânimos, novos ares de felicidade.

Mas a felicidade, cantada em versos pelo nosso poetinha, Vinícius de Moraes, é fugaz, “como uma gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor”.

Não sou senhor de mim, mas também não sou completamente incapaz de me reconhecer na criança que um dia fui. Não posso refletir sobre esse mundo complexo e ilógico que me escorrega entre os dedos, mas posso enxergar o material de que fui forjado para ser, com todas as vicissitudes e ambivalências, o que hoje sou.

Quando eu denomino esse mundo atual de complexo, ilógico e escorregadio, quero com isso dizer, que essa grave pandemia de coronavírus e a consequente banalização da morte em tempo real pela Televisão, está deixando, não só a mim, quanto aos outros inundados de ansiedade e reféns do desamparo. Cada um inquirindo a si mesmo, se será ou não a próxima vítima desse potente e imbatível vírus.

Como seres forjados para a angústia, de certa forma, o desamparo que experimentamos hoje, pode ser entendido, psicologicamente, como uma repetição ou eco do primeiro desamparo: a nossa expulsão violenta do aconchegante ninho materno ─ o Útero ─, quando, mediado pelo choro, passamos a viver em um mundo cruel e inóspito. Talvez, em nível inconsciente, o desamparo primevo, tenha algo a ver com a exacerbação dos sentidos que, agora, frente a uma Pandemia, se mostra quase que incontrolável.


02 maio 2020

O QUE HÁ POR TRÁS DO ─ “QUEM MANDA SOU EU!”




Essa frase ameaçadora faz parte do arsenal de jargões usados recentemente pelo presidente da república. Na verdade, esse grito ameaçador só pode partir de quem gostaria de MANDAR, mas não tem a mínima estatura moral para tal feito.

Aliás, se o presidente tivesse um pouco de tirocínio, iria entender que ele é um servidor público e, como qualquer funcionário público tem o dever, não de MANDAR, mas de SERVIR ao povo brasileiro. Portanto, ele é SERVO e não SENHOR, e estamos conversados.

A dupla da MPB, Baden Powel e Vinícius de Morais, cantando um de seus memoráveis sambas, já frisava ─ “o homem que diz sou, não é” ─, até porque aquele que é poderoso não precisa alardear aos quatros cantos que é ele quem manda, o que, definitivamente, não é o caso do neófito que está desonrando a cadeira presidencial com suas asneiras expostas diariamente nos meios de comunicação. A cada declaração estapafúrdia que o insensato faz, é um tiro que dá no próprio pé, e tome crise atrás de crise no auge de uma Pandemia que ele nega e boicota, incitando a população a não reconhecer como verdadeiros os protocolos médicos do Ministério da Saúde e da OMS. Por sua vez, os ativistas que se submeteram a uma lavagem cerebral sem precedentes, de forma histérica e idólatra o aplaudem e o adoram como se ele fosse o valioso Bezerro de Ouro erigido no deserto do Sinai pelo desobediente e frustrado povo Hebreu.

O que leva o presidente a usar com frequência o brado “Quem Manda Sou Eu!”, senão o desejo insano de fazer do palácio da Alvorada um puxadinho de sua casa. Indubitavelmente, a mistura maléfica do público com o que é privado se constitui uma das práticas criminosas que está levando o governo à decadência moral. A cadeira presidencial não pode ser trocada por um sofá presidencial para acomodar seus inconvenientes filhos, ainda mais na condição de investigados por promotores e Congresso.

Recentemente, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi pressionado pelo presidente para trocar o superintendente da Polícia Federal, Maurício Valeixo, por outro policial federal mui amigo de balada de seus intragáveis filhos (alvo de inquéritos em andamento na corporação). Moro, ao argumentar que o que o presidente estava propondo ali era uma interferência política, recebeu na cara, de forma ríspida e descarada um: é isso mesmo!”, expressão, que não deixa de ser um derivativo do surrado bordão “Quem Manda Sou Eu!”.

Segundo o professor e psicanalista, Mário Corso, as reações exacerbadas do presidente são consequência de uma fragilidade. O sujeito se sente inferiorizado e ataca. Sai em ataque de tudo, mas justamente pela fraqueza intelectual dele. Quando não tem argumento, troca de assunto chutando canelas do adversário. Ele não tem discussão nenhuma. Só ataca o adversário porque ele é consciente da sua fragilidade intelectual”.

Quando o presidente lança na cara do interlocutor o tradicional “Quem Manda Sou Eu!, está agindo em defesa de seu próprio EGO, ou seja, ao lançar mão de um escudo de proteção, ele, inconscientemente, está a reprimir ou recalcar fatos inconfessáveis e crimes não ditos em um abismo secreto de sua psique. Para os que sofrem de infantilismo e insegurança neurótica, o ATAQUE, representado pelo brado ameaçador em pauta, é, ao mesmo tempo, arma de DEFESA.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de maio de 2020



29 abril 2020

DE VOLTA À VELHA POLÍTICA DO “É DANDO QUE SE RECEBE”





No Brasil tornou-se uma prática comum: quando a coisa aperta para o lado do Governo, recorre-se sempre ao Centrão. O presidente Bolsonaro antes de tomar a decisão de render-se aos da política do Toma Lá Dá Cá, afirmou: “Vou encarar com naturalidade qualquer negociação de cargos na administração pública federal”. Uma prova disso é que, ultimamente, tem mantido contatos com o personagem da velha política, Roberto Jefferson (condenado no Mensalão), além de outros do bloco denominado, “Baixo Clero”, no Congresso.

O Centrão, como se sabe, desde o tempo de Sarney tem socorrido todos os presidentes da república, e não poderia ser diferente com o governo atual, apesar de o presidente, em um showmício recente, afirmar em alto e bom som o surrado e velho refrão: “Acabou a Patifaria!”.

O Posto Ypiranga (Guedes) não gostou nem um pouquinho da guinada do presidente, pela simples razão de ver nessa mudança brusca um convite à farra com o dinheiro público.

Nos últimos momentos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, vem recebendo afagos e, conversa vai conversa vem, quem sabe, pode se render ao óbvio contido nessa antológica frase - "Tudo Como Dantes no Quartel D'Abrantes" - lema que, desde tempos imemoriais, já vinha se tornando símbolo representativo da nascente república das bananas, principalmente, no que tange ao desejo promíscuo de fundir a esfera pública com a esfera privada. 

Numa época de tanto descaramento e de tantas transações tenebrosas, não poderia  deixar de trazer, aqui, trechos do diálogo entre Júpiter (o Grande Pai e Rei dos deuses menores de Roma), seu filho Marte (Deus da Guerra) e Apolo (Deus do Sol e da Profecia), escrito pelo grande romancista e cronista político do Rio de Janeiro, Machado de Assis. Em "Os Deuses de Casaca" ele retrata muito bem as cenas burlescas e nada republicanas de seu tempo na cidade maravilhosa.  Na verdade, as cenas do passado, sem tirar nem por, são as mesmas dos sombrios dias atuais, exibidas de forma grotesca no Olimpo de Brasília.

A seguir, alguns trechos da memorável obra Machadiana, "Os Deuses de Casaca":


― Oh! Por mim, ando na pista de um Congresso geral. Quero, como fogo e arte, mostrar que sou aquele antigo Marte – que as guerras inspirou de Aquiles e de Heitor. Mas por agora nada! É desanimador o estado desse mundo. A guerra, o meu ofício, é o último caso, antes vem o artifício. Diplomacia é o nome; a coisa é o mútuo engano. Matam-se, mas depois de um labutar insano. Discutem, gastam o tempo, cuidado e talento, O talento e o cuidado é ter astúcia e tento. […] A tolice no caso é falar claro e franco.  

― Que acontece daqui? É que nesta Babel reina em todos e em tudo uma coisa – o papel. É esta a base o meio e o fim. O grande rei é o papel. Não há outra força, outra lei. A fortuna o que é? Papel ao portador.
A honra é de papel; é de papel o amor. O valor já não é aquele ardor aceso, tem duas divisões – é de almaço ou de peso.
Enfim, por completar esta horrível Babel, a moral de papel faz guerra de papel.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 29 de abril de 2020

30 março 2020

NA “NOITE DO APOCALIPSE” ― EU ESTAVA LÁ

Hospital Souza Aguiar – Rio de Janeiro



A Noite do dia 30 de março de 1972 na cidade do Rio de Janeiro ficou conhecida como “A Noite do Apocalipse”.

Hoje faz exatamente 48 anos que eu, como médico urgentista do Hospital Souza Aguiar, trabalhei por mais ou menos 8 horas ininterruptas dentro de um inferno, dissecando veias para administração de plasma e soros nos pacientes graves com mais de 50% de área corporal com queimaduras de 1º; 2º e 3º. Alguns, a meu lado, apesentavam os músculos do corpo em carne viva já desprovidos da pele. Outros com molambos de pele assadas penduradas por várias regiões do corpo em meio a uma gritaria macabra: Me socorra estou morrendo, e estavam mesmo, pois, à medida que eu e meus colegas de Residência Médica realizávamos a dissecção de veias, os gemidos iam diminuindo paulatinamente, de modo tal, que ao chegarmos para dissecar as suas veias, já não respiravam mais.

De ficar tanto tempo em uma só posição, cheguei a ficar com os pés dormentes. Só depois é que notei que estava com os sapatos encharcados de uma mistura pegajosa de sangue, soro e urina que tomavam toda a superfície do piso da sala de urgência, tendo que por todo esse tempo ficar inspirando aquele cheiro nauseabundo de secreções misturadas a odores de carne queimada.

Agora, em meio a uma pandemia dos infernos que, segundo as previsões da OMS, vai deixar no Globo um rastro de mortos na casa dos milhões, me sinto impotente diante de uma calamidade que se prenuncia apocalíptica.

Sei, perfeitamente, que já não tenho a mesma coragem e a mesma força de outrora quando encarei de frente a tragédia de Reduc em Duque de Caxias, a poucos quilômetros do Hospital vizinho à Praça da República no Centro da Cidade Maravilhosa, transformada, naquela ocasião, em um cemitério antecipado onde parentes choravam seus 48 mortos e mais de cinquenta feridos em estado desesperador.

O clarão que descortinou todo o céu e fez da noite dia, junto ao som altíssimo das explosões de todos os reservatórios de gás da refinaria, e que fizeram tremer as paredes do Hospital e quebrar vidros de algumas janelas ficaram por muitas noites a atormentar o sono em meu leito no quarto andar (reservado aos médicos residentes).

Eu estava lá na noite de agonia que, ainda hoje no Rio de Janeiro é lembrada como ─ “A Noite do Apocalipse”

A primeira imagem no topo da minha narrativa da ideia do horror, em detalhes, daquela grande tragédia em que o Governo Federal preferiu esconder o número de mortos, dentre eles 06 médicos, que nem hoje sabemos quem eram, pois a imprensa da época sob censura não podia revelar seus nomes.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de março de 2020

21 novembro 2019

REVISITANDO O PROFESSOR DE JAVANÊS




Ontem (20), dia da Consciência Negra, o ministro Toffoli trouxe ao pleno do STF o “escritor negro que nunca esqueceu a sua classe” ― Lima Barreto ─, autor do risível “O Homem Que Sabia Javanês”.

No conto, o personagem Castelo criado por Lima Barreto “era um diplomata que chefiava um consulado, mas não sabia a língua exótica que um dia se propôs ensinar”. Em conversa com seu amigo Castro numa Confeitaria exibia orgulhoso as peças que pregava no seu ambiente de trabalho...
Bem, vou parar por aqui. Deixo a cargo do leitor, a leitura ou (releitura) da fenomenal obra desse venerado escritor. E que venham boas gargalhadas.

O voto de Toffoli, que não disse coisa com coisa por mais de quatro horas (no caso COAF), com certeza, será lembrado pelas futuras gerações como um dos maiores fiascos da História do STF.

Mas foi o indefectível Luís Roberto Barroso que, já saindo do plenário, após o truncado julgamento, sapecou a frase que evocou Lima Barreto:

Tem que trazer um professor de Javanês!!!”

Ainda bem que Barroso, um apreciador da boa literatura, chamou-nos a atenção para o memorável conto de nosso corajoso escritor negro - Lima Barreto - na noite do Dia da Consciência Negra.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de novembro de 2019

20 julho 2019

E A LUA SE DEIXOU PISAR






Lá se vão 50 anos. Cursava o quarto ano de Medicina na UFPB, quando na tarde do dia 20 de julho de 1969 as ruas do bairro de Jaguaribe - em João Pessoa, de repente, ficaram desertas. Quase todos acorreram aos seus lares para assistir pela TV (em preto e branco), o homem pousar na Lua. Nesse tempo, residia na casa de uma tia, em um local aprazível, bem no finalzinho da tradicional e festiva av. Vasco da Gama.

Em meio ao chuvisco na tela da TV, deu para ver a poeirinha subir, segundos após Neil Armstrong tocar levemente a superfície da Lua. À medida que o astronauta caminhava desajeitadamente, os sulcos da sola de suas botas espaciais iam deixando fundas marcas na frouxa areia do solo lunar. Meu tio e eu ficamos estáticos diante daquele grandioso espetáculo. A Lua, nos corações dos namorados e poetas, a partir daquele momento deixava de ser fisicamente inacessível, para ser objeto de especulação dos astronautas da NASA.

Lembro que em 1961 (oito anos antes dessa grande conquista espacial), a cantora Ângela Maria (intitulada a Rainha do Rádio), já fazia seu protesto contra a briga entre russos e americanos na louca corrida para ver quem primeiro exploraria a morada de São Jorge e seu dragão. Para os menestréis e seresteiros que, em altas horas da noite derramavam suas vozes dolentes entre sublimes acordes tirados das cordas de seus violões, a Lua era sua indevassável e inspiradora deusa. Os da minha geração, com certeza, jamais esquecerão das sinfonias noturnas que nas noites enluaradas enchiam o ar, estimulando o(a)s jovens insones a sonhar doces sonhos em suas alcovas.

Hoje, a Lua, sem o mistério de antes, ainda dá o ar de sua graça nas fotos tiradas pela “geração smartphone”.

Enfim, venceu o progresso. De nada valeu o apelo ― “Lua... oh Lua... - não deixa ninguém te pisar!” ─ refrão da modinha carnavalesca “A Lua é dos Namorados”, cantada ardorosamente nos velhos carnavais.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2019





15 junho 2018

A Copa de 2018 e Seu Maior Astro ― O Grande Czar Vladimir Putin

Na Foto, Putin Discursa na Abertura da Copa 2018


Em janeiro de 2018, Vladimir Putin, de tronco nu e usando botas, seguindo o cerimonial cristão ortodoxo, fez o sinal da cruz no peito e mergulhou por três vezes nas águas geladas do Lago Selinger, seguindo um ritual que remete ao batismo de Cristo nas águas do Rio Jordão uma espécie de renascimento espiritual. (Vide Link)

O escritor norueguês, Karl Ove Knausgard, cedeu à Revista Piauí nº 138, de Março de 2018, uma pequena amostra de seu livro “Histórias Russas” (página 32). Trata-se de uma coleção de relatos emblemáticos que conseguiu colher em uma viagem que fez à Nova Rússia, precisamente, 100 anos após a revolução bolchevique. O trecho do livro, a ser lançado esse ano no Brasil, pela Companhia das Letras, traz uma entrevista sua com três mulheres que voltavam de Moscou em um velho e barulhento vagão de trem. O pequeno diálogo, abaixo reproduzido, tem tudo a ver com a nova imagem da Rússia e seu venerado Czar.

O escritor/viajante despertando de seu marasmo ao ouvir a palavra “Putin”, pediu, imediatamente, a sua intérprete que traduzisse a conversa alegre das três mulheres russas que estavam acomodadas perto de sua poltrona:

A torrente de língua russa fluía fácil, quase onírica, para um lado e outro do compartimento semiadormecido, e no meio dela ouviu a palavra 'Putin'.”

Ela falou alguma coisa sobre Putin? ―, perguntei.
Falou, sim. Está dizendo que a mãe dela é grande fã do Putin ― revelou, a intérprete,
Amamos nosso país e, pela primeira vez, temos um presidente cristão, um presidente ortodoxo ― disse Natalya.

Em seguida, ela pegou uma revista que estava sobre a mesa para nos mostrar a capa. Nela, todas as fotos eram de Putin. Numa das fotografias ele aparece nu até a cintura.

Está vendo isto aqui? Será que Trump pode exibir o corpo dessa forma? Ele (Trump) é velho. O corpo dele não passa de um amontoado de banha.

As três riram alto.

Já se passaram 100 anos desde a revolução. O que isso significa para vocês?―, perguntou o entrevistador.

Não damos bolas para isso, Natalya respondeu. ― Foram 100 anos sem Deus. Puseram abaixo todas as igrejas. Agora elas estão sendo reconstruídas e a gente pode ir à igreja sem medo. Aqui nesta cidade tem um ícone da Virgem Maria. É muito, muito antigo. Quando acharam ele, estava todo preto. Agora está clareando aos poucos. A cada ano clareia um pouco mais.”

Na abertura do sorteio dos grupos de nações que estariam na Copa do Mundo, impecavelmente vestido, o Grande Czar da Era Pós Moderna afirmou em bom tom: “Temos certeza que impressões inesquecíveis serão deixadas naqueles que vierem à Rússia”.

Depois da vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha em 2014, se eu pudesse ir à Copa na Rússia, não perderia meu precioso tempo indo aos estádios. Com certeza, faria uma viagem idêntica a que empreendeu o escritor norueguês no ano passado. Visitaria os museus da cultura eslava oriental, revisitaria os locais onde nasceram e viveram os autores de “Crime e Castigo”, de “Guerra e Paz” e de o “Diário de Um Louco”. Claro é, que incluiria, Turguêniev, que escreveu “Memórias de Um Caçador” (livro preferido do czar, Putin, que também é louco por caçadas). Segundo pessoas ouvidas pelo escritor/viajante, a beleza do mundo da infância de Turgueniev continua intacta na Nova Rússia.

Não tenho condições de ir a Rússia. Mas, “como o passado está em nós e não no mundo”, resta-me torcer para que o Livro “Histórias Russas” de Karl Over Knausgard, apareça em nossas livrarias na época da Copa. Só assim, entre jogos insossos, viajarei na imaginação pela Rússia dos indômitos e maiores literatos do mundo, como Dostoiévski, Tolstoi e Gorki. Escutarei da boca de seus descendentes contos verídicos e narrativas míticas de um povo que trafegou pelo ateísmo utópico dos bolcheviques e, hoje, quem diria, faz uma espécie de retorno romântico aos braços dos poderosos e moderníssimos czares que dominam o “Mercado Espiritual” da Cruz.

O imbróglio, mais “político/inspiritual” que divino, continua insolúvel, como dantes, pois a figura divina introjetada nas mentes dos eslavos do ultra-moderno Czar, tanto esparge luz sobre os seus simpatizantes, como cobre de sombras aqueles que se recusam a entrar no seu jogo.

As três mulheres que travaram um diálogo com o autor de “Histórias Russas” em seu périplo pela Rússia (ano 2017), na sua santa inocência, exaltavam o poderoso Putin e rebaixavam o gorducho e desajeitado Trump. Se refletissem melhor, veriam que os dois têm algo em comum. Não sei como reagiria o rebanho das eternas ovelhas sofredoras e submissas por natureza, se descobrissem que o deus do profeta Trump, que o incita a atirar ao ar suas ridículas estocadas, tem, em secreto, um relacionamento amigável com o deus cristão do ortodoxo, musculoso e venerado Putin.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de junho de 2018