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14 setembro 2019

EM RUÍNAS A CATEDRAL DO INÍCIO DE NOSSA VIDA ACADÊMICA (Turma de 1971)





O mitólogo, Joseph Campbell, falando sobre o PODER do Simbólico em nossa realidade psíquica, o comparou a esfera do Sagrado. Disse ele: “Um templo é uma paisagem da alma”.

Fui, não nego, inundado por uma imensa tristeza, ao contemplar o Velho edifício que nos serviu de Templo no início de nossa jornada como acadêmicos de Medicina; templo, agora, em completa ruína e total abandono.

Transtornado, a mim mesmo perguntei e ao mesmo tempo respondi: o que aconteceu com a nossa primeira CATEDRAL? Só pode ter sido vítima de uma violação sacrílega.
Não à toa, os nossos guias ou mestres eram denominados catedráticos. Se vivos fossem, que diriam, hoje, os sacerdotes, Asdrúbal, Amílcar, Aníbal, Vitorino, Genival Veloso, e outros que os arquivos travados de minha memória, por ora, não me permitem trazer à tona?
Só sei que esses denodados guias, foram os primeiros a abrir nossos olhos para o estudo macroscópico e microscópico do corpo humano inerte e fatiado, porém sagrado.

Que extasiantes aulas recebíamos dos veneráveis mestres! Lembro de que, lá fora, enquanto nossos “xamãs”(líderes inspirados pelos espíritos para condução das cerimônias) se preparavam para execução do doce/crucial rito (as aulas), as alamedas que contornavam o Templo Sagrado, nos intervalos das ministrações, nos serviam de espaço profano para extravasamento do lado oposto da dualidade intrínseca de nosso mundo afetivo ou interno, como faz ver bem, Elíade Mircea, no trecho, abaixo, pinçado de seu antológico livro “O Sagrado e o Profano”:

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. Profano é tudo que não é sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os fatos e atos da rotina”.

O certo é que quando adentrávamos nos recintos mais íntimos da Catedral primeira de nosso passado de acadêmico, algo nos transformava: um misto de medo, temor e tremor nos contagiava, algo como uma voz angelical a imbuir em nosso espírito o mesmo sentimento solene que assoma os corações dos fiéis que ascendem ao altar da catedral para, em sua prece dominical, oferecer seus sacrifícios vivos e agradáveis a Deus.

Cada um de nós da turma de 1971, com certeza, guarda célebres lembranças desse longínquo passado. O nosso colega Evaldo Carneiro, portador de uma fantástica memória, foi buscar no baú de seu abismo psíquico, memoráveis lembranças, uma delas retocadas pelo colega Joaquim. Não poderia deixar de ressaltar, aqui, o brilhante passeio histórico que saiu da pena do colega Jaime Xavier.

Quantas imagens, quantas memórias surgiriam se o caleidoscópio do nosso inconsciente coletivo daquele saudoso tempo pudesse, um dia, destravar seus arquivos e deixar fluir seu conteúdo por completo. Com certeza, livro nenhum caberia a autobiografia do nosso primeiro ano de faculdade (peço vênias ao nosso genial biógrafo ― o irmão Fonseca).

Ao olhar demoradamente o que restou de nosso primeiro palácio sagrado, me vieram à lembrança a melodia e a letra de “Saudosa Maloca” magistralmente interpretada pelos “Demônios da Garoa”. O estribilho desse memorável samba, cai bem aqui, como epílogo de minha melancólica descrição:

Saudosa maloca, maloca querida
Din din donde nos passemos
Os dias feliz de nossas vidas”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2019




08 junho 2018

PERCIDES DEIXA MARCAS INDELÉVEIS EM SUA PROLE (In Memoriam)



Seria impossível em uma crônica, registrar ou falar sobre todas as marcas que Percides imprimiu e deixou nas pessoas que participaram de seu convívio, em especial, filhos, netos e bisnetos.

O certo é que nos últimos meses, lutou bravamente contra a doença que a vitimou Apesar da fragilidade física, nunca esmoreceu nem se queixou dos sintomas atrozes que internamente sentia. Em sua luta invisível contra o declínio provocado pela moléstia, imensas forças de conservação a faziam resistir ao desenlace derradeiro. Todos percebiam que a enfermidade que a consumia aos poucos, não abalara por completo seu espírito forte e guerreiro, nem a impediu de participar das festinhas de aniversário dos seus entes queridos. Foi realmente uma firme coluna, cuja função principal era a de sempre procurar estabilizar sua grande prole nos momentos mais difíceis da vida.

Lembro bem das reuniões regadas a café, biscoitos, queijos e tapiocas, em que ela, ultimamente, fazia questão de expressar seu maior anseio. O desejo de ver a família coesa era tão intenso que, no mais das vezes, a impulsionava a declarar com autoridadde que lhe era muito peculiar: "Deus quer UNIÃO entre a gente!". Nesses momentos, seu ardoroso  pedido remetía-me a conhecida frase atribuída a Agostinho de Hipona (Século IV d. C): "Unidade no essencial; no não essencial, liberdade; em tudo caridade".

Nos últimos dias, com o agravamento de seu estado de saúde, foi levada ao Hospital Especializado em Natal - RN. De tantas visitas que fez a esse nosocômio, a doutora que a atendia duas vezes por mês, chegara a se comportar como uma pessoa da família. Tanto é que a chamava meigamente de vozinha. Com denodo e abnegação fora do comum, a médica (e sua equipe) lhe aplicou os últimos recursos da medicina, durante pouco mais de duas semanas.

Não sei, talvez, o anseio da matriarca viver mais, estivesse relacionado ao fato de que todos ao seu redor desejavam  vê-la, em alguns meses, comemorar seus noventa anos de idade. Afinal, em nossa cultura, os números redondos são marcos de natureza simbólica de que  muito prezamos. 

Nas corridas olímpicas de revezamento, um bastão é repassado de corredores já cansados para os mais descansados. Isso aponta para algo profundamente afetivo que nos é transmitido por nossos antepassados. Sem sombra de dúvida, nossos avós são repassadores de suas subjetividades e espiritualidades para nossos pais; estes, por sua vez, legam os framentos mensageiros aos filhos. Sucessivamente, os filhos repassam essas marcas indeléveis aos netos, na grande caminhada existencial humana.

As vozes ancestrais dos nossos pais e avós, indubitavelmente, não se evaporam, nem se extinguem; elas permanecem em nossos recônditos psíquicos, como que marcadas a ferro e fogo, até a nossa ida para a eternidade. Não há como negar que nosso jeito de ser e de ver as coisas, nossas vozes e todas expressões de nossos sentimentos são ecos que vêm lá de trás, dos nossos ancestrais.

Com a descoberta do DNA/RNA, a Ciência conseguiu demonstrar que os pais imprimem ou transmitem aos filhos muito de suas características, inclusive as de natureza afetiva. Olhando por esse ângulo, podemos dizer que Percides, juntamente com seu esposo Alcides (que foi arrebatado bem antes) são imortais, pois, com certeza, deixaram muito de si em sua grande prole. Lembro, como se fosse hoje, a célebre e emblemática frase dita pelo patriarca da família para seu filho mais novo que, vindo de Campina Grande mensalmente, o visitava no velho casarão nº 1 da ladeira de Sta Terezinha (Gba): Olhando firmemente para Aldeci, tomado de forte emoção, o saudoso Alcides, em seu ocaso, disparou, em meio as lágrimas: “Você, meu filho, é uma parte de mim!!!”. Essa significante frase do saudoso Alcides(meu sogro) teve o condão de evocar em minha mente a frase que Goethe cunhou, na velhice, em forma de verso, registrada em sua obra ̶ “Fausto”: “Os traços de meu ser terreno/Em milênios não desaparecerão”.

Como o presente ensaio trata de marcas indeléveis deixadas por pais e mães nas gerações mais novas, espero que o simples e simbólico verso retirado de um poema que fiz há 10 anos (abaixo replicado), sirva de reflexão e consolo para todos que tiveram o privilégio de gozar da amizade, do carinho e desvelo de Percides Batista de Andrade.

Da garganta me sai esta voz
Expressão dos meus sentimentos
É a linguagem dos meus avós
Transformada em meu alimento
Quando eu falo, falam meus pais
Sou o eco dos seus pensamentos.”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de junho de 2018

21 julho 2017

O Terrível e Venerado Jararaca do Cangaço





Nas palavras do historiador potiguar, Luís da Câmara Cascudo, “José Leite de Santana, era um homem forte, resistente, ágil, moreno escuro, atirador exímio, grande lutador de faca”. Talvez por seu instinto predominantemente cruel, tenha recebido o apelido Jararaca.

Jararaca era um dos mais temíveis do bando de Lampião. A jornalista e ensaísta, Adriana Negreiros, em um artigo sobre os “Anais do Cangaço” publicado na Revista Piauí nº 130(de julho de 2017), conta que Jararaca, homem acostumado a beber mais cachaça que o recomendado, liderava um dos grupos mais ferrenhos dos bandoleiros de Lampião, por ocasião da invasão sem sucesso da cidade de Mossoró – RN, em 1927.

O certo é que após muitas escaramuças o bando de Lampião foi derrotado pela milícia estadual de Rodolfo Fernandes. “Jararaca foi atingido por um tiro no peito. Mesmo machucado e ainda embriagado, conseguiu levantar-se e correr, ocasião em que levou outro balaço na coxa”.

A cela em que Jararaca ficou trancado tinha grades que davam para a rua. Centenas de Mossoroenses amontoavam-se em frente ao local para ver um cangaceiro de perto, como um leão feroz preso a uma jaula de zoológico. Enchiam-lhe de perguntas. Queriam saber quantos homens já havia matado. Se amealhara fortuna no cangaço. Quais eram seus arrependimentos. Até hoje, corre a lenda que, nesse momento, Jararaca teria confessado sentir um único remorso: de aparar crianças com a ponta do punhal. […] O preso revelaria detalhes operacionais da tentativa de invasão de Mossoró. O jornal Correio do Povo traria uma entrevista bombástica com Jararaca: ao repórter, o bandido citara nomes de políticos e coronéis nordestinos que davam proteção e recebiam dinheiro de cangaceiros”. Segundo a autora, Kydelnir Dantas, membro da Sociedade de Estudos do Cangaço, lembra que um dos comandantes da resistência, sustentou que Jararaca havia sido morto com uma coronhada do fuzil de um policial, sem que seu corpo sofresse qualquer decepação. Esse depoimento consta do livro “Lampião em Mossoró”.

Adriana Negreiros que, em 2018 lançará uma biografia da cangaceira Maria Bonita pela editora Objetiva, sobre o herói/vilão Jararaca, faz uma narrativa digna de nota em seu artigo à revista Piauí: Mossoró (RN) tem, de fato, uma relação dúbia com os cangaceiros. 'Chuva de Bala no País do Mossoró', espetáculo teatral em que cerca de oitenta atores encenam a expulsão de Lampião, tratando o intendente Rodolfo Fernandes como herói, é um dos pontos altos da programação cultural da cidade, atraindo multidões de espectadores de toda a região”.

Na Mitologia, a Serpente representa ao mesmo tempo "a vontade de avançar e a vontade de recuar", coisa que devia estar bem presente na psique do temível bandoleiro, Jararaca. Reza a psicologia que essa ambivalência(sentimentos paradoxais) é uma característica indelével do ser humano. 

Diz então, Adriana Negreiros em seus anais do cangaço: o personagem Jararaca depois de ter sido preso, julgado, condenado sem que tivesse defesa, noventa anos depois de enterrado foi inocentado através de um julgamento simulado ocorrido em junho de 2017 na demasiadamente humana Mossoró. Um conselho de sentença, formado por um advogado, um padre, um jornalista, um médico e outros representantes da sociedade mossoroense, pelo placar de 6X1 absolveu o cangaceiro Jararaca.

A temperatura da inusitada e risível descrição da ensaísta chega a um ponto efervescente: “Encerrada a audiência, o juiz, alguns jurados, advogados e jornalistas reuniram-se para almoçar num restaurante especializado em costela da javali. 'Fiquei surpreso com o resultado' disse o juiz Breno Fausto, enquanto esvaziava uma concha de feijão-verde no prato. 'Mossoró é um cidade peculiar. Ao mesmo tempo que se orgulha da resistência absolve um cangaceiro', comentou o juiz'”.

No cemitério de São Sebastião, a uma distância de 10 metros um do outro estão, hoje, o túmulo de Jararaca (o herói do Cangaço) e o túmulo de Rodolfo(o herói da resistência), ambos ostentando em suas superfícies de lousa fria e lisa, flores de variadas cores. A professora Ludmilla Oliveira que participou do juri simulado do famoso Jararaca saiu-se brilhantemente com essa: “Trata-se de um simbolismo. Os resistentes não venceram qualquer um. Venceram Lampião, O rei do Cangaço”. Não ficou para trás a prefeita da cidade, quando agradando a gregos e troianos, assim terminou seu discurso: “O maior resultado do julgamento é o resgate da história da Resistência, independente da absolvição ou condenação”.

Site da Imagem do Topo: https://www.folhetoteca.com.br/marca/costa-senna.html


P.S.:

[Resenha - com citações de trechos do insuperável artigo de Adriana Negreiros, sob o título ― “O Julgamento de Jararaca”. O texto integral, composto de 14 colunas, encontra-se a disposição dos leitores na Revista Piauí nº 130]

Quis o destino que o Juri simulado de Jararaca ocorresse no mesmo dia em que, em Brasília, encerrava-se o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral” (Adriana Negreiros).

O vídeo abaixo replicado mostra a repercussão do Juri de Jararaca (o cangaceiro que virou santo) em rede televisiva no Rio Grande do Norte



08 maio 2016

Na Casa de Bazinha (Nove anos atrás)







Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a ideia de que “a vida é um eterno retorno”, pois o tempo gira, gira, gira e está sempre a nos levar ao ponto de partida.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, ele ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dou o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas não ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, fala por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?


Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço vem do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castiga há anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias dos doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado, meio dormindo, vou ouvindo os seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas ela vai dizendo:

Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui…

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo como sempre:

Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E é assim, bem junto a minha rede, após o almoço, que ela vai desfiando suas demais queixas, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─ continua falando minha mãe.

Essa sua última queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, falo sério para ela:

A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, ela se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

Já são duas horas da tarde. Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba, café com biscoito e “delicia” lá na mesa.

Ela continua com aquele mesmo cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde. No horário exato diz: “levanta”! E eu, preguiçosamente saio em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que ela sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participo desse rito médico-sentimental. Até quando? Só Deus sabe.


Crônica por: Levi B. Santos
Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007



01 novembro 2015

Dostoiévski Vai ao Cemitério


Túmulo de Dostoiévski – São Petersburgo - Rússia


O dia dedicado aos mortos, neste ano, caiu numa segunda feira, proporcionando aos vivos um feriadão em pleno verão. Embora, muitos tenham descambado para um “descanso” de três dias em fazendas, nas praias sob um sol escaldante, em retiros espirituais, em hotéis, bares comunitários, ou mesmo por falta de opção terem que permanecer no deserto de suas próprias casas, creio que uma boa parte da população deve ter reservado esse espaço de tempo para, tradicionalmente, visitar os túmulos dos entes queridos, de saudosa memória.

Eu, particularmente, não costumo ir ao cemitério na festa destinada aos mortos, principalmente pelo fato de me sentir incomodado com o intenso alvoroço reinante no local. É que em ambiente dessa natureza não consigo concentrar meu pensamento na memória do ente querido que partiu para outra, e, por mais que me esforce, é como se estivesse participando do concerto de uma orquestra sinfônica no meio de uma barulhenta feira.

Acho melhor ter o silêncio por companhia e pensar nos que se foram, longe do barulho da multidão e dos ambulantes a oferecerem com toda a força de seus pulmões velas, grinaldas, ramos de flores, misturado a picolés, refrigerantes, salgadinhos e outras extravagantes guloseimas. Não são raros os casos de encontros casuais entre amigos que raramente se veem em torno do túmulo do morto homenageado. Surpreendidos com o inédito da ocasião, os vivos começam a puxar o fio das conversas sem fim guardadas ou esquecidas na poeira do tempo, e, só depois de rumarem para uma cervejinha bem geladinha em um barzinho da periferia da cidade, é que vão se dar conta de que esqueceram o principal  lembrar com reverência seus mortos.

Mas me permitam que eu explique o que tem a ver esse meu falatório com o título que encabeça o ensaio “Dostoiévski Vai ao Cemitério”:

Fiódor Dostoiévski (1821 1881), autor dos clássicos “Crime e Castigo”, “O Idiota” e “Diários do Subsolo”, é um dos maiores romancistas russos, e existencialista mundialmente conhecido pela sua crítica mordaz às práticas religiosas de seu tempo.

Esboçarei aqui uma sinopse do magistral conto BOBÓK, no qual Dostoiévski faz a figura de um bêbado sofredor de alucinações, na suposição de que os mortos, longe do mundo moral que os detinha quando vivos eram, podiam agora, por de lado qualquer tipo de vergonha e contar entre eles seus casos escabrosos, de acordo com o preceito bíblico que diz Deus não é Senhor dos mortos...”. Em analogia a essa referência bíblica, no seu último romance “Os Irmãos Karamazóv”, o autor russo cunhou a célebre expressão: “Se Deus Não Existe, Tudo é Permitido”. Expressão essa, não corroborada pelos analistas, pois se Deus (o Inconsciente, o Involuntário dostoieviskiano) não existe, nada é permitido. Mas, sem mais delongas, vamos a sinopse prometida:

Ivan Ivánitch, sem mais nem menos, resolveu acompanhar um enterro. Já era noite quando os amigos e familiares do defunto se retiraram do cemitério. Ivan, por se encontrar visivelmente cansado e embriagado, intencionou descansar e dormir ali mesmo no cemitério, sobre a laje fria de uma sepultura. De repente, o bêbado começa a ouvir vozes abafadas vindas dos túmulos ao seu redor. Os mortos se identificavam e conversavam entre si, como se a consciência humana continuasse a existir por algum tempo depois da morte. Diferente das condições terrenas, tinham agora, total liberdade de falar de segredos e causos, nunca revelados quando estavam vivos:

Mas por enquanto eu quero é que não se minta. É só o que quero, porque isso é o essencial. Na terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos; mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir. Aos diabos, ora, pois o túmulo significa alguma coisa! Todos nós vamos contar em voz alta as nossas histórias já sem nos envergonharmos de nada. Serei o primeiro de todos a contar a minha história […]. Abaixo as cordas, e vivamos esses dois meses na mais desavergonhada verdade.” [Bobók página 35]

Em um determinado momento, nauseado pelo forte odor vindo de corpos em decomposição, Ivan, involuntariamente dá um sonoro espirro, o bastante para calar a conversa ou prosa entre os mortos, ficando todos em um silêncio sepulcral. Acordado de sua alucinação, o bêbado, enfim, conjectura com seus botões:

Não acho que tenham sentido vergonha de mim: haviam resolvido não se envergonhar de nada! Esperei uns cinco minutos e … nem uma palavra, nem um som. Também não dá para supor que tenham temido ser denunciados à polícia; porque o que a polícia pode fazer neste caso? Concluo involuntariamente que, apesar de tudo, eles devem ter algum segredo desconhecido dos mortais, e que eles escondem cuidadosamente de todo mortal.” [Bobók página 37].



Nesse feriadão, pelo menos na imaginação, Dostoiévski, em sua história carregada de metáforas, nos leva ao cemitério para refletir mais sobre o Outro razão maior do nosso VIVER.

Sobre o conto “Bobók”, interpretando pelo avesso o dito de Dostoiévski, diria, tempos depois, o famoso psicanalista, Jacques Lacan, que fez a releitura das obras de Freud:

Se Deus não existe, nada é permitido”.

Lacan interpreta ou assimila Deus, como o Outro ou o “Grande Outro”, simbolizado pelo espirro nos delírios de Ivan, que faz calar os “mortos-vivos”, habitantes dos obscuros porões de nossa Psique ― tal qual um espelho a refletir a nossa verdade envergonhada.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 01 de novembro de 2015

Link da Imagem: https://pt.wikipedia.org/

08 junho 2015

Seu Último Yom Kipur




Morreu na madrugada do feriado judaico da expiação, após tomar a terceira injeção de morfina. Desde o início de sua doença fizera ver que não aceitaria “a paralisia da capacidade pela miséria corporal”. Não mais suportando as dores e o odor forte e fétido que inundava todo o seu quarto, proveniente do câncer de mandíbula que necrosara parte de sua face, de forma lúcida, despediu-se de seu médico de cabeceira, dando-lhe autorização para encerrar de uma vez por todas seu intenso sofrimento. Tentativas frustradas de debelar seu mal renderam-lhe mais de trinta cirurgias e penosas convalescenças.

O barulho lá fora, provocado pelas passadas de muitos judeus em Londres a caminho das sinagogas onde realizariam seus rituais de jejum e orações (Yom Kipur), ele deve ter escutado por um breve tempo até cair num sono profundo para não mais acordar. Coincidência ou não, veio entrar suavemente na imensurabilidade do tempo em uma fria madrugada de um sábado festivo “dia do perdão” ─, cerimonial judaico que em criança junto aos familiares o deixava extasiado por seus cânticos e pela magnífica ceia final.

Fora o criador da ciência da alma, que tem na “culpa imaginária” seu epicentro. A culpa e o perdão teriam alguma coisa a ver com a escolha do feriado sagrado do Yom Kipur, para, ainda em sã consciência, praticar a eutanásia?

Ao divã por ele criado quis dar um propósito aparentemente oposto ao que de fato acontecia no divã confessionário do judaísmo. Foi longe, a pretensão de que sua ciência, um dia, geraria no homem, a ausência de acusação com a concomitante ausência de perdão. Fato este, talvez impossível diante de nossa condição de transgressor, aturdido por afetos ambivalentes provenientes dos desvãos mais íntimos de nosso inconsciente, onde guardados estão crimes não ditos e recalques de toda ordem.

O modo de pensamento talmúdico não pode ter desaparecido de nós confidenciou-lhe, certa vez, um amigo que frequentava as famosas reuniões científicas das quartas-feiras, ao notar que havia uma íntima relação entre as modalidades de interpretação do texto bíblico e a abordagem na análise psíquica. Era evidente a estreita ligação entre a psicanálise e a tradição Judaica. Não custa lembrar que no divã do confessionário da ortodoxia judaica da qual seu pai foi um membro ativo, era através da confissão da culpa a um Pai imaginário que o judeu, por ocasião do Yom Kipur, percebía-se isento ou redimido da própria dor psíquica de culpa. A figura do Superego que criara, não seria uma forma de confirmar que um pai continuava a viver no inconsciente do sonhador?

Diante de seus discípulos, reagia de modo enfático: “o analista não inclui nem exclui, não culpa nem absorve”. Foi rebelde até o fim. Quis ser senhor até do dia de sua morte, provocando polêmica entre os ortodoxos de sua nação ao escolher a comemoração do Yom Kipur para se despedir da vida.

Logo cedo aprendera da mãe a resignar-se aos ditames da condição humana: “um dia teria que retornar ao pó, de onde veio”. O que não se poderia imaginar naquela época, era que, ele mesmo, seria o capataz a dar ordem para o início da metamorfose última sentença javélica registrada no livro de Gênesis ─, tantas vezes repetida por sua genitora nas aulas diuturnas de catecismo religioso.

Por toda a cidade de Londres, seu último refúgio em vida, máscaras de gás eram distribuídas para fazer face aos terríveis bombardeios aéreos que a Alemanha de Hitler iniciara naqueles trágicos dias de setembro de 1939. “Será a minha última guerra afirmou ele ao médico que cuidara de sua saúde nos seus últimos dez anos de vida. A guerra tinha sido um tema recorrente em suas palestras. Só via duas formas de descarregar a libido agressiva que cada um carrega dentro de si: através da pulsão destrutiva (assassinatos, guerras), ou da sublimação, entendendo-se por esta última, a conversão da poderosa energia instintiva humana em criações artísticas, em produções de cunho científico, político ou econômico.


P.S.:

Freud morreu num processo de Eutanásia, segundo Ernest Jones, seu biógrafo. Eu acho necessário que nós possamos ter a coragem, em uma sociedade aberta e plural de discutir essa questão com serenidade, mesmo porque a qualquer instante nós estamos sujeitos a nos transformarmos num objeto passivo de uma decisão politica e biológica a respeito de nossa existência sem que sequer possamos ser ouvidos. Eu acho esta a maior das violências em relação a questão da minha morte”. [Jacob Pinheiro Goldberg]


  Por Levi B. Santos
 Guarabira, 08 de junho de 2015



25 dezembro 2012

O Natal de João Brandão (Ou o Nosso Natal)





O grande poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), na década de 1970 escrevia crônicas no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro. O seu livro ― “Os Caminhos de João Brandão” ― reúne várias crônicas que foram publicadas nesse jornal do Rio que, na época,  era um dos periódicos de maior tiragem no país.

Dentre as crônicas desse livro, uma me despertou muito a atenção. Trata-se do conto: “Neste Natal”.  Achei a sua narrativa tão atual com o momento porque passa o Brasil, que não resisti ao ímpeto de trazê-la à tona neste fim de Noite de Natal:

Este Natal

Carlos Drummond de Andrade


— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.
E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo.

Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
(14-12-1966)

FONTE:
"Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.

Site da Imagem: sebomeusebinho.com

02 novembro 2012

Vem Ver a Lua



O dia 17 de Novembro, que se aproxima, marca o 53° aniversário da morte de Heitor Villa Lobos (1887 – 1959) ―, insuperável compositor e maestro que elevou a música brasileira a um patamar de destaque no mundo inteiro.

Eu era um rapazote, nos idos de 1962, quando pela difusora local de minha cidade (Alagoa Grande – Pb), sempre ao anoitecer, deixava-me inundar por um estranho sentimento, provocado pelas tristes melodias desse magistral poeta e músico.

Naquele tempo, lembro-me bem, não perdia, por hipótese alguma, as retretas da filarmônica realizadas nos sábados à noite no coreto da praça central de minha cidade. Lá, sentado sobre a grama de um jardim, deliciava-me com os belíssimos dobrados, valsas, chorinhos e boleros executados pelos 21 músicos que formavam a nossa querida banda musical. Vibrava quando a bandinha tocava, com muito esforço, alguma composição do saudoso Villa.

Tirando a “Ave Maria” de Gounod, nada me tocava tão profundamente quanto as sinfonias melancolicamente envolventes de duas épicas composições desse maestro internacionalmente consagrado, que eram difundidas pelos “alto falantes” em meu torrão natal quase todo final do dia: a “Bachiana n° 5” e a “Melodia Sentimental”.

A emocionante e antológica “Melodia Sentimental” fazia parte do poema sinfônico ― “A Floresta Amazônica” ―, obra musical que Villa Lobos compôs, orquestrou e regeu, pouco antes de falecer.

Nesta semana nostálgica, em que a maioria das famílias reverencia os seus mortos queridos, trago, para apreciação dos amigos internautas, o belo fragmento intensamente sentimental desse ícone da música brasileira que me extasiava nos tempos de menino. Verdade é que essa saudosa ária ainda faz gemer as cordas dolentes de um coração já gasto pelo tempo.

A letra da meiga modinha que, recentemente, fez parte da trilha musical do filme, “Deus é Brasileiro”, é da poetisa e embaixatriz brasileira em Nova York, Dora Vasconcelos, falecida em 1973, aos 62 anos de idade.

Já interpretaram essa belíssima sinfonia, renomados cantores, como: Djavan, João Bosco, Zizi Possi, Maria Betânia, Caetano Veloso, Olivia Byington, Elizete Cardoso, entre outros.

Em minha opinião, dentre todos os cantores nacionais, quem mais profundamente e de forma incomum interpretou essa canção foi Zizi Possi, que o/a leitor(a) pode conferir no vídeo abaixo:

Melodia Sentimental:
Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura.
Clara chama silente
Ardendo o meu sonhar.

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada desperta
Vem dar teu calor ao luar.

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor.

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir meu amor e sonhar.
(de Villa Lobos e Dora Vasconcelos)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de novembro de 2012


Site da Imagem 1: daquidepitangui.blogspot.com
Site da Imagem 2: papagaiomudo.blogspot.com

31 outubro 2012

HOJE É DIA DE RELEMBRAR DRUMMOND




Hoje é dia de Drummond de Andrade (31 de outubro de 1902   17 de agosto de 1987).
Como homenagem justa, nada melhor que trazer a atriz Fernanda Torres para declamar uma das maravilhosas poesias desse fenomenal poeta de Itabira - MG que tanto encantou e ainda encanta o Brasil: “Necrológio dos Desiludidos do Amor”




NECROLÓGIO DOS
DESILUDIDOS DO AMOR


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.

Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba.
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 Guarabira, 31 de outubro de 2012


Site da Imagem: erudicao.wordpress.com