21 novembro 2019

REVISITANDO O PROFESSOR DE JAVANÊS




Ontem (20), dia da Consciência Negra, o ministro Toffoli trouxe ao pleno do STF o “escritor negro que nunca esqueceu a sua classe” ― Lima Barreto ─, autor do risível “O Homem Que Sabia Javanês”.

No conto, o personagem Castelo criado por Lima Barreto “era um diplomata que chefiava um consulado, mas não sabia a língua exótica que um dia se propôs ensinar”. Em conversa com seu amigo Castro numa Confeitaria exibia orgulhoso as peças que pregava no seu ambiente de trabalho...
Bem, vou parar por aqui. Deixo a cargo do leitor, a leitura ou (releitura) da fenomenal obra desse venerado escritor. E que venham boas gargalhadas.

O voto de Toffoli, que não disse coisa com coisa por mais de quatro horas (no caso COAF), com certeza, será lembrado pelas futuras gerações como um dos maiores fiascos da História do STF.

Mas foi o indefectível Luís Roberto Barroso que, já saindo do plenário, após o truncado julgamento, sapecou a frase que evocou Lima Barreto:

Tem que trazer um professor de Javanês!!!”

Ainda bem que Barroso, um apreciador da boa literatura, chamou-nos a atenção para o memorável conto de nosso corajoso escritor negro - Lima Barreto - na noite do Dia da Consciência Negra.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de novembro de 2019

18 novembro 2019

AINDA SOBRE OS "ABUSOS DO STF"




A interpretação do Supremo ― no que diz respeito ao momento de prisão do réu ─ vem sofrendo variações conforme as circunstâncias ou contingências que o momento político oferece, o que provoca uma total insegurança jurídica.

Tanto é assim, que Eduardo El Hage, procurador que pediu a prisão de Sérgio Cabral, já teme pela soltura do ex-governador do Rio de Janeiro, condenado a 33 anos de prisão. Somando, todas suas penas chegariam a 267 anos de encarceramento (Leia na íntegra o artigo de Italo Nogueira – na Folha de S. Paulo de hoje, dia 18 de novembro de 2019).
Para El Hage, só haveria um caminho para acabar com o “vaivém” de abstratos entendimentos: o Senado atuar como contrapeso ao que classifica como abusos do STF.

Mas, ao que parece, herdamos toda a gama de atrocidades da dúbia democracia grega em seus primeiros e trôpegos passos.

Foi o dramaturgo Sófocles que, antevendo o destino da capenga democracia de Atenas, colocou palavras lapidares na boca de Creonte, palavras que ressoam de modo mais dolorido em nosso atual e sombrio tempo. O eco daquelas palavras, hoje, mais do que nunca, fazem travar a nossa língua de um amargor muito mais forte e cruel do que o experimentado pelos filósofos do sonho democrático abortado nos tempos imemoriais da frágil Grécia Antiga.

Creonte, ao abrir os olhos para o óbvio ululante, do fundo de seu ser fez emergir essa insofismável verdade, que retrata, sem tirar nem por, o final melancólico do enredo trágico encenado pelos poderes de nossa república das bananas ― versão 2020:

― “Não é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo de sua alma, seus sentimentos e seus pensamentos mesmos, antes de o vermos no exercício do poder”.

Será que os meliantes de nossas ‘sagradas casas’, não percebem que tudo se inicia no vácuo da falta de vigilância, uma vez que o estar sempre alerta no domínio de suas feras interiores, afastaria o narcisismo doentio e infantil responsável pela insana AUTOFAGIA ― processo esse que, ao fim e ao cabo, não deixará ninguém de pé?”


Por Levi B. Santos
Guarabira, PB


31 outubro 2019

AS EXÉQUIAS DO EXCÊNTRICO BIOANALISTA

  

O laboratório era sua segunda casa. A bem dizer, quase todos habitantes da pequenina cidade já tinham passado por suas mãos. Respeitavam-no, pois era a quem recorriam; a quem entregavam seu sangue, seus excrementos sólidos e líquidos a ser examinados minuciosamente.

Na tarde cinzenta e fria de seu sepultamento ninguém ousou dizer uma palavra sequer. O sacerdote esperava que alguém se pronunciasse, antes do féretro descer à cova, mas nenhum tomou essa iniciativa. Aliás, nada podiam fazer, pois estavam perplexos, como que atacados por uma sisudez mórbida, como se uma aura paralisante tivesse caído abruptamente sobre seus nervos e músculos. Uma mistura de perplexidade e tristeza transparecia em todos os olhares.

O silêncio que reinou minutos antes do corpo do cientista descer à sepultura, talvez fosse resultado do clima de extrema religiosidade da população a colidir com a personalidade paradoxal do douto senhor. Talvez, os seus defeitos estivessem a anular as suas virtudes, impedindo os discursos fúnebres, que geralmente se nutrem do lado “bom” do sujeito. O certo é que um clima de temor caiu sobre os que estavam ao pé de sua cova. Uns temiam que surgisse algum antipático a falar, ali, sobre as fraquezas e as excentricidades do defunto; outros receavam que as palavras de elogios ao morto, pudessem desaguar em um sonoro “não é verdade!”.

Não é que deu para ouvir o que uma das garotas, ali presente, balbuciou ao ouvido da outra?! É que o falecido tinha encontrado tantas variedades de vermes nas fezes dela que, ao apresentar-lhe o resultado, chamou-a de “verminosa” ― termo compreendido pela examinada como um xingamento.

Enfim, o doutor era o paradoxo em pessoa ― o que não é novidade nenhuma, pois é exatamente a contradição que caracteriza o humano. Por vezes, pessoas que compareciam a seu laboratório para lhe fazer perguntas sobre resultados de exames, recebiam como resposta, o silêncio, ou, quando muito, o lembrete: “Não abra o envelope, seu médico é quem vai informar o que você tem. Denotando todo seu modo ambivalente de ser, às vezes, quando inquirido insistentemente sobre o que tinha dado nos exames, disparava: Huuuuumm! Parece uma infecção aguda!”.

Não encontrando fórmulas para dizer a verdade, em toda sua plenitude, naquele cair de tarde, a maneira melhor, mais simples e sincera que encontraram foi não emitir opiniões sobre o incrível homem de branco. Na falta de expressões que abarcassem toda a verdade sobre o falecido, resolveram aproveitar o silêncio ou o vazio de palavras do momento para recordar fatos pitorescos e engraçados da vida do doutor ― homem que conhecia muito bem o que estava oculto no sangue e nos excrementos de todos que o acompanhavam em sua derradeira viagem.

As últimas palavras do sacerdote confirmaram o que preconizam os filósofos e estudiosos da alma humana: “Não existe olhar neutro ― ele está sempre carregado de subjetividades nas relações que construímos uns com os outros”.

O enunciado bíblico “... e as suas obras o sigam” recitado pelo pároco no final do ritual fúnebre ―, mudara instantaneamente o ar dos velhos amigos de infância do analista a caminho de sua última morada. A estranheza denunciada pelo olhar deles, talvez se devesse a palavra “obra”. Este termo parece ter sido a senha para que viessem à tona fatos longínquos de suas vidas. É de se pensar que chegaram instantaneamente às suas mentes, lembranças reprimidas do tempo em que depositavam as latinhas com os dejetos dos filhos e netos sobre o balcão de madeira do velho laboratório a serem analisados.
“Eu vim trazer a obra de meu menino para o senhor examinar”  era assim que os ex-colegas de infância, com o olhar cabisbaixo e carregado de vergonha, se dirigiam a esse homem sisudo de avental branco, que passava a maior parte de seu tempo cercado de tubos de ensaios, tendo bem ao centro de uma grande mesa de madeira de lei o inseparável e velho microscópio cheirando a clorofórmio. 

Depois do enterro de um ente querido, comumente, há sempre pessoas que têm o dom de contagiar o ambiente com suas traquinices, como que para quebrar a monotonia de fundo melancólico instaurada em ocasiões como essa. O certo é que ao descerem a ladeira do cemitério, rumo às suas casas, riram muito a respeito do paralelismo lingüístico entre “fezes” e “obras”(*). Até confidenciaram entre si que o falecido poderia (por que não?) ter sua função re-exercida na eternidade.


(*) Há na simbologia mítica uma relação intrínseca entre os significantes “fezes” e “obras”. No Dicionário Psicanalítico de Símbolos, as fezes representam a primeira manifestação criativa e concreta do poder individual; na Alquimia esses excrementos são considerados a matéria prima que acaba se transformando em ouro.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de outubro de 2013

Link da Imagem:

14 setembro 2019

EM RUÍNAS A CATEDRAL DO INÍCIO DE NOSSA VIDA ACADÊMICA (Turma de 1971)





O mitólogo, Joseph Campbell, falando sobre o PODER do Simbólico em nossa realidade psíquica, o comparou a esfera do Sagrado. Disse ele: “Um templo é uma paisagem da alma”.

Fui, não nego, inundado por uma imensa tristeza, ao contemplar o Velho edifício que nos serviu de Templo no início de nossa jornada como acadêmicos de Medicina; templo, agora, em completa ruína e total abandono.

Transtornado, a mim mesmo perguntei e ao mesmo tempo respondi: o que aconteceu com a nossa primeira CATEDRAL? Só pode ter sido vítima de uma violação sacrílega.
Não à toa, os nossos guias ou mestres eram denominados catedráticos. Se vivos fossem, que diriam, hoje, os sacerdotes, Asdrúbal, Amílcar, Aníbal, Vitorino, Genival Veloso, e outros que os arquivos travados de minha memória, por ora, não me permitem trazer à tona?
Só sei que esses denodados guias, foram os primeiros a abrir nossos olhos para o estudo macroscópico e microscópico do corpo humano inerte e fatiado, porém sagrado.

Que extasiantes aulas recebíamos dos veneráveis mestres! Lembro de que, lá fora, enquanto nossos “xamãs”(líderes inspirados pelos espíritos para condução das cerimônias) se preparavam para execução do doce/crucial rito (as aulas), as alamedas que contornavam o Templo Sagrado, nos intervalos das ministrações, nos serviam de espaço profano para extravasamento do lado oposto da dualidade intrínseca de nosso mundo afetivo ou interno, como faz ver bem, Elíade Mircea, no trecho, abaixo, pinçado de seu antológico livro “O Sagrado e o Profano”:

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. Profano é tudo que não é sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os fatos e atos da rotina”.

O certo é que quando adentrávamos nos recintos mais íntimos da Catedral primeira de nosso passado de acadêmico, algo nos transformava: um misto de medo, temor e tremor nos contagiava, algo como uma voz angelical a imbuir em nosso espírito o mesmo sentimento solene que assoma os corações dos fiéis que ascendem ao altar da catedral para, em sua prece dominical, oferecer seus sacrifícios vivos e agradáveis a Deus.

Cada um de nós da turma de 1971, com certeza, guarda célebres lembranças desse longínquo passado. O nosso colega Evaldo Carneiro, portador de uma fantástica memória, foi buscar no baú de seu abismo psíquico, memoráveis lembranças, uma delas retocadas pelo colega Joaquim. Não poderia deixar de ressaltar, aqui, o brilhante passeio histórico que saiu da pena do colega Jaime Xavier.

Quantas imagens, quantas memórias surgiriam se o caleidoscópio do nosso inconsciente coletivo daquele saudoso tempo pudesse, um dia, destravar seus arquivos e deixar fluir seu conteúdo por completo. Com certeza, livro nenhum caberia a autobiografia do nosso primeiro ano de faculdade (peço vênias ao nosso genial biógrafo ― o irmão Fonseca).

Ao olhar demoradamente o que restou de nosso primeiro palácio sagrado, me vieram à lembrança a melodia e a letra de “Saudosa Maloca” magistralmente interpretada pelos “Demônios da Garoa”. O estribilho desse memorável samba, cai bem aqui, como epílogo de minha melancólica descrição:

Saudosa maloca, maloca querida
Din din donde nos passemos
Os dias feliz de nossas vidas”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2019




31 agosto 2019

DA ANGÚSTIA DO JUIZ EM TEMPOS DE POLARIZAÇÕES




“A primeira lição que podemos extrair dos escritos de Sartre diz respeito à natureza existencialmente desafiadora do juiz. Ele é constantemente chamado a fazer escolhas que podem alterar radicalmente o curso de uma partida. [...]Segundo Sartre, o sentimento de contingência permeia a experiência humana da escolha. Por mais certeza que tenhamos sobre uma determinada decisão, temos consciência, não obstante, de que outra alternativa seria possível. Uma vez que cada caminho está cheio de possibilidades, parece que não podemos deixar de aceitar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Sartre argumenta que esse sentimento de responsabilidade inescapável tende a provocar angústia”.

O Trecho acima entre aspas - sob o título - A Solidão do Juiz - é de Jonathan Crowe – replicado da Revista Piauí nº 50 (Novembro de 2010), e trata do dilema do juiz de futebol que, mesmo diante de um lance duvidoso, é obrigado a punir o time que ele supõe ter sido desleal.

Penso que o artigo - “A Solidão do Juiz” - pode ser aplicado aos momentos atuais de nossa frágil república. Ao fim e ao cabo, o veredicto cabe aos magistrados da mais alta instância jurídica. “Rigorosos/lenientes - intransigentes/complacentes” são adjetivos que retratam as características dúbias das almas dos dois grupos políticos que se digladiam para que suas argumentações, racionalizações ou manobras sejam acatadas pelos doutos ministros. 

Sobre o resultado imprevisível do jogo, Jonathan Crowe, assim se expressou:

"O bandeirinha pode sinalizar, os jogadores podem reclamar e a multidão pode rugir, mas em última análise tudo depende do juiz. Este é o momento da decisão, quando o destino do jogo pousa sobre os ombros do árbitro. 

É bom não esquecer do que, aqui, Sartre inferiu: "nenhum juiz está livre do sentimento de contigência"A contigência, que tem como fundamento a incerteza, quer se queira ou não, é produtora de angústia.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 31 de agosto de 2019


27 julho 2019

O Preconceito Que a Gente Nem Enxerga.






As diversas formas de preconceito estão intimamente ligadas à intolerância. Com o advento da psicanálise ficou finalmente demonstrado que esse sentimento hostil se estabelece sorrateiramente durante a nossa tenra infância. Hoje, já adultos, nos vigiamos o tempo todo para não dar expressão àquilo que continua arquivado nos arquivos indeletáveis de nossa mente. A canção - "Revelação" (de Fagner) - fala da cruel e dura realidade desse obscuro afeto: "Quando a gente tenta de toda maneira/Dele se guardar/Sentimento lhado/Morto amordaçado/Volta a incomodar".


Apesar de todo o esforço para não cair nessa modalidade de tentação, o homem, em sua linguagem dubiamente simbólica (ou através de lapsos), vez por outra, deixa escapar ressonâncias de algo que nunca ousou enxergar através de seus olhos internos.


O certo é que o preconceito tem suas raízes profundas fincadas no nosso inconsciente. Por isso mesmo, nem percebemos o quanto ele está a nos influenciar, se imiscuindo sutilmente em nossas decisões.


Seguem aqui algumas perguntas que podem nos levar a dirigir nosso olhar para os fantasmas inconvenientes que nos habitam, sabendo de antemão que induzir à auto-reflexão não é o mesmo que fazer apologia ao preconceito.


Será que realmente somos pessoas sem nenhum tipo de preconceito? Será que a imagem que fazemos de nós para os outros é 100% verdadeira?
Será que lá nos recônditos obscuros de nossa psique não se escondem sementes de intolerância que em nossa vida pregressa foram plantadas em nosso próprio seio familiar?
Será que, em menor ou maior grau, não somos todos preconceituosos?


Em analogia ao convite à reflexão que o Messias dos Evangelhos fez aos fariseus por ocasião da aplicação da pena de apedrejamento à mulher adúltera:
Quem nunca sofreu ou teve preconceito que atire a primeira pedra!”



P.S.:


Fernando Pessoa no capítulo X de “O Guardador de Rebanhos” − fala de um Tu contido em seu próprio Eu. Ao encerrar seu significativo poema, com a frase: “a mentira está em ti”, o poeta demonstra que por meio desse “Ti” é induzido a olhar para dentro de si mesmo. Em seus versos, o insuperável Pessoa sempre recorre a heterônimos. Os heterônimos lhe serviam de receptáculos para projeção de seus próprios recalques.


Leia e reflita bem sobre esse emblemático trecho de ─ “O Guardador de Rebanhos” ―, do fenomenal poeta do “Desassossego”. O poema revela, mais que tudo, a nossa alma de sentimentos dúbios, e, tem muito a ver com o tal preconceito aqui ventilado.


«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?


Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?


Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.


Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti. »


Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de julho de 2019

20 julho 2019

E A LUA SE DEIXOU PISAR






Lá se vão 50 anos. Cursava o quarto ano de Medicina na UFPB, quando na tarde do dia 20 de julho de 1969 as ruas do bairro de Jaguaribe - em João Pessoa, de repente, ficaram desertas. Quase todos acorreram aos seus lares para assistir pela TV (em preto e branco), o homem pousar na Lua. Nesse tempo, residia na casa de uma tia, em um local aprazível, bem no finalzinho da tradicional e festiva av. Vasco da Gama.

Em meio ao chuvisco na tela da TV, deu para ver a poeirinha subir, segundos após Neil Armstrong tocar levemente a superfície da Lua. À medida que o astronauta caminhava desajeitadamente, os sulcos da sola de suas botas espaciais iam deixando fundas marcas na frouxa areia do solo lunar. Meu tio e eu ficamos estáticos diante daquele grandioso espetáculo. A Lua, nos corações dos namorados e poetas, a partir daquele momento deixava de ser fisicamente inacessível, para ser objeto de especulação dos astronautas da NASA.

Lembro que em 1961 (oito anos antes dessa grande conquista espacial), a cantora Ângela Maria (intitulada a Rainha do Rádio), já fazia seu protesto contra a briga entre russos e americanos na louca corrida para ver quem primeiro exploraria a morada de São Jorge e seu dragão. Para os menestréis e seresteiros que, em altas horas da noite derramavam suas vozes dolentes entre sublimes acordes tirados das cordas de seus violões, a Lua era sua indevassável e inspiradora deusa. Os da minha geração, com certeza, jamais esquecerão das sinfonias noturnas que nas noites enluaradas enchiam o ar, estimulando o(a)s jovens insones a sonhar doces sonhos em suas alcovas.

Hoje, a Lua, sem o mistério de antes, ainda dá o ar de sua graça nas fotos tiradas pela “geração smartphone”.

Enfim, venceu o progresso. De nada valeu o apelo ― “Lua... oh Lua... - não deixa ninguém te pisar!” ─ refrão da modinha carnavalesca “A Lua é dos Namorados”, cantada ardorosamente nos velhos carnavais.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2019





27 maio 2019

“TARDES DE DOMINGO” de Um Torcedor Mirim (Anos Sessenta)









No domingo eu escapulia
Para o campo da engenhoca
No quintal de tia Anás
Futebol eu assistia.


Bem atrás de uma trave
Sobre a faxina escondido,
Eu aplaudia as jogadas
Do meu time preferido.


Cada gol era uma festa
A orquestra respondia.
Puxando um frevo alegre
Numa bela sinfonia.


Depois do primeiro tempo
No campo podiam entrar.
Pela frente do estádio
Eu entrava sem pagar.



Juntava umas três moedas
Para comprar as doçuras
Que vendiam na torcida,
Uma verdadeira loucura.


Vendiam amendoim
Laranja Pêra e sorvete
Pirulito e Alfinim
E palitos de rolete.



Geladinhas de refresco
Afora as tapiocas
Tinha doce americano
E pacotes de pipocas.



Iguarias iguais aquelas
Nunca pensei em provar.
Para falar a verdade
Nem em festas no meu lar.



Meu clube era o Tabajaras,
De grandes craques da bola:
Cereba e Lula Teixeira
Não me saem da cachola.


Você veja que loucura
Eu em cima de uma faxina,
Assistindo um partidaço
Com o Treze de Campina.



O Tabajaras em casa
Não perdia uma vezinha,
Mesmo ele jogando ruim
O juiz dava uma mãozinha.



          ..Os jogadores d’outro time,
Gritavam: “juiz ladrão!”
Para nós na passeata
Em cima de um caminhão.


Passando por minha casa
Em caminho obrigatório,
Mamãe se desesperava
Gritando um palavrório.


Sai de cima desse carro
Uma surra tu vais ter.
E eu pulando pels grades
Ía então me esconder.


Dizia então minha mãe
Numa tristeza medonha:
Tu és crente, vagabundo,
Tá me fazendo vergonha.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de Maio de 2019

Site da Imagem: https://www.pinterest.de/pin/372602569151882299/





09 abril 2019

Páscoa (“Pessach”) ― Como Estímulo ao Questionamento e a Conversa Franca







Que bom é continuar aprendendo, mesmo aos 72 anos de idade. Não sabia que, por ocasião dos jantares de PESSACH (A Páscoa, ou comemoração da fuga dos judeus da escravidão no Egito), as famílias judaicas se juntavam para desafiar uma criança a cantar o “Ma Nishtaná”, cuja tradução em nossa língua é: “Por que esta noite é diferente de todas as outras?” como revelou Jaime Spitzcovski (Jornalista da Folha e Integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP), no começo de seu consistente ensaio “Judeus, Política e Mitos no Brasil” (Folha de São Paulo de 25 de março de 2019).

Trata-se de momento revelador de traduções judaicas milenares. A escolha do mais jovem capaz de disparar dúvidas simboliza estímulo, desde a infância, ao questionamento” enfatizou o ensaísta da Folha, sobre esse inusitado significado do Pessach.

A Páscoa, como passagem de um lado tradicional para outro totalmente diverso, começa quando nos dispomos a ouvir de forma desarmada aqueles que nos questionam ou desafiam nossos rígidos conceitos. Conceitos apreendidos que, com o passar do tempo, se tornaram petrificados de um dogmatismo implacável. A visão mais aberta e dinâmica de Jaime Spitzcovski merece uma reflexão mais aprofundada, principalmente por nos tirar daquela defensiva zona de conforto a que nos acostumamos, como bem evidencia esse trecho do seu lúcido ensaio que, com os devidos créditos, aqui transcrevo: “os judeus não constituem comunidades monolíticas do ponto de vista ideológico. […] Existe em seu universo comunitário, gigantesco caleidoscópio de visões de mundo, de práticas religiosas e de ideologias políticas”.

Com relação a pluralidade de entendimentos dentro das comunidades judaicas no Brasil, ressaltou, Jaime Spitzcovski:

Entre judeus brasileiros há bolsonaristas e petistas. Entre os americanos, há democratas e republicanos. Quem crê numa comunidade judaica atuando, no plano político e partidário, de forma homogênea, inspira-se lamentavelmente em mitos medievais”.

Aliás, foi a partir do início do século XVI, como efeito tardio da diáspora entre as tribos de Javé, que o êxodo de judeus de Portugal para as Terras de D. João VI se tornou bem mais intenso (Vide “Breve História dos Judeus no Brasil” de Salomão Serebrenick)

Mas voltemos ao Pessach e seu caleidoscópio de compreensões e incompreensões que, ainda hoje, continua sendo uma fonte inesgotável de aprendizado. Certo é, que releituras ou interpretações realizadas pelo viés do desprendimento e da simplicidade, nas entrelinhas do que os evangelistas escreveram, hoje, são bem vindas, mesmo sabendo que alguns da seara ortodoxa ou conservadora, não resistam em criticá-las de forma veemente.

A História da Igreja mostra que muitos (os hereges) pagaram com suas próprias vidas, por tentarem traduzir a linguagem coloquial dos evangelhos de uma forma que fosse entendida pelos fiéis, que mal conheciam o Latim.

Luiz Felipe Pondé (doutor em Filosofia pela USP, doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP e colunista da Folha de São Paulo), em seu recente artigo de 01 de abril do corrente ano, na Folha, traz à tona um personagem muito conhecido da igreja o Mestre Eckhart ―, condenado pela inquisição, em 1328, por traduzir a Bíblia do Latim para sua própria língua, a Alemã. Graças a sua audaciosa tradução, as narrativas em grego dos evangelistas passaram a ser transmitidas de forma mais humanística e menos carregada de cerimonialismos. 
Para Eckhart, o desprendimento e a intimidade que o ser humano podia ter com Deus era o que, de forma cristalina, mais interessava. Jesus falava em aramaico, que vem a ser o idioma ancestral do hebraico. Nos signos dessas línguas irmãs existia uma mesma raiz, e, dependendo do contexto e do intérprete, o que era verbalizado possuía múltiplos sentidos. Eckhart, como exímio estudioso do Hebraico, sabia que essa língua permitia a existência dos contrários dentro de uma mesma enunciação. Já diziam os antigos escribas: “quando se imprime alma às letras, o sentido de uma palavra pode revelar significações inteiramente insólitas”.

Foi na contramão do que a ortodoxia rígida entendia, que o Mestre Eckhart deu uma interpretação, por muitos de sua época, considerada herética. Lucas, em seu evangelho, conta que Jesus parou na casa das duas irmãs para descansar de “sua dura e atribulada vida pública”. Ambas receberam com alegria o visitante. Enquanto Maria se deixa ficar extasiada ou embevecida aos pés de Jesus, sua irmã, Marta, sem cerimonialismos (no dizer do filósofo L. F. Pondé: “sem se prender a êxtase nenhum”), corre para a cozinha, a fim de preparar um saboroso “café” para seu caro hóspede. A atitude mística/contemplativa de Maria contrastava com o lado humano/íntimo de Marta, diante de seu visitante. Afinal, o Verbo tinha se feito carne para habitar entre elas, e nada melhor que rolar um papo entre goles de chá ou café, antes do sono chegar. Marta, talvez, naquele momento, estivesse celebrando a amizade demasiadamente humana, interpessoal e franca. Como a singularidade da pessoa é algo próprio e intransferível, respeitemos o modo de ser de Maria que, de forma diversa de sua irmã, preferiu aproveitar aquele momento ímpar para cultivar ou extravasar seu lado místico/divinal.

Entretanto, na visão do mestre Eckhart, não existia ocasião melhor para se trocar ideias ou entabular uma conversa mais íntima com um amigo, que nos intervalos entre os goles de “café” que se toma de forma desprendida ou bem espontânea. Quem já se sentou à mesa de uma cafeteria para conversar bem à vontade com amigo(a)s, sabe exatamente o que quero aqui ressaltar.

A lógica do filósofo Eckhart era essa, que o polêmico professor Luís Felipe Pondé, tão bem expressou no seu inspirado texto “Intimidade Com Deus” , publicado em sua coluna na Folha de S. Paulo de 01/04/2019. O seu ensaio é um presente e tanto para aqueles que quiserem esquadrinhá-lo com os olhos e o coração, na páscoa que se aproxima. O pequeno trecho, da sensata argumentação de Pondé, abaixo replicado (com os devidos créditos), não me deixa mentir:

Ter intimidade com Deus não é ficar paralisada diante de sua beleza, mas sim trocar uma ideia com Ele, fazendo um cafezinho na cozinha, lavando uma louça”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 09 de abril de 2019