Torre
de Carl G. Jung em Bollingen – Suíça (1955)
Carl
Gustav Jung, um dos fundadores da psicanálise, nos últimos trinta
anos de sua vida decidiu construir uma Torre à beira de um belo e
tranquilo lago em Bollingen (Suíça), para lhe servir de refúgio.
Nesse pequeno castelo tencionava viver intensamente os conteúdos do
seu inconsciente, longe da algazarra e correria louca das cidades.
Deu início a essa empreitada em 1922. A obra, após várias
reformas, só atingiu sua forma definitiva em 1955, seis anos antes
de sua morte.
Do
seu livro “Memórias, Sonhos, Reflexões” (Editora Nova
Fronteira, 2016 – 30ª Edição) trago um trecho (página 236) que,
em sua essência, está em consonância com os sombrios e fugazes
“Tempos Novos” que estamos a experimentar na atualidade. Em sua
época, o autor já realçava a fluidez da pós-modernidade
que, com seu impetuoso avanço, ambicionava dissolver todo conteúdo
sólido do primitivismo de nossa psique.
Com
a perspicácia de um exímio escavador do nosso fértil solo psíquico, Jung, nos
mostra, de forma contundente, como o mal estar atual, em grande
parte, tem sua causa na pressa e na expectativa doentia de se tomar
posse de um futuro fantasioso e ilusório, rotulado de “novo”.
Vejamos o que diz o psicanalista e profundo estudioso dos meandros da alma humana, nesse precioso retalho de seu expressivo Livro de
Memórias:
Tanto
nossa alma quanto nosso corpo são compostos de elementos que já
existiram na linhagem de nossos antepassados. O “novo” na alma
individual é uma recombinação variável ao infinito de componentes
extremamente antigos. Nosso corpo e nossa alma têm um caráter
eminentemente histórico e não encontram no
“realmente-novo-que-acaba-de-aparecer” lugar conveniente, isto é,
os traços ancestrais só se encontram parcialmente realizados.
Estamos
longe de ter liquidado a Idade Média, a Antiguidade, o primitivismo
e de ter respondido às exigências de nossa psique a respeito deles.
Entrementes, somos lançados num jato de progresso que nos empurra
para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos
arranca de nossas raízes. Mas é precisamente a perda de relação
com o passado, a perda das raízes, que cria um tal “mal estar na
civilização”, a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas
promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente, que o
futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamos-nos
desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente
de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais
do que possuímos, porém de promessas; não vemos mais a luz do dia
presente, porém perscrutamos a sombra do futuro, esperando a
verdadeira alvorada. Não queremos compreender que o melhor é sempre
compensado pelo pior. A esperança de uma liberdade maior é anulada
pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos
quais nos expõem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto
menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos
compreendemos a nós mesmos, e contribuímos com todas as nossas
forças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas
raízes.
O
que concluir enfim, senão que somos incapazes de cancelar o conteúdo
primitivo de nossa psique. Tentar reprimir esse conteúdo seria um
mecanismo de defesa para se evitar o desprazer; sublimá-lo, por sua
vez, seria alcançar um nível de satisfação a que, por exemplo, os
poetas, em seus versos, estão acostumados a experimentar. As
metáforas representativas de seus afetos paradoxais, o artista
retira de suas próprias profundezas mentais, tal qual uma bordadeira
o faz com a agulha e seu novelo de linha: o intrincado bordado, fruto
do exercício de memória, acaba por deixar impresso no tecido toda a
expressão de sua divina arte. Do mesmo modo, acontece com o músico
que, ao organizar ou criar a partir dos elementos arcaicos ou
primitivos de sua psique, presenteia-nos com sua expressiva e
divinal sinfonia; sinfonia que ao reverberar nas cordas de nossos
corações nos contagia de alegria e beatitude.
Mas
o que nos reserva o futuro diante do fulminante progresso
tecnológico? Para evitar o que se considera “desperdício de
tempo”, em nome de um hipotético futuro, o mercado procura tudo
massificar, visando exclusivamente o lucro. “Tempo é
Ouro!. Aqui, você tem tudo de bom sem a necessidade de
demorados momentos de reflexão e esforço mental” —,
diz o lema estampado e oferecido em suas atraentes embalagens.
O
certo é que o passado, a idade média e o que é visto como
antiquado, não morre, mas continua arquivado em nossa memória.
Ressonâncias da trágica, cômica, feliz, inebriante e melancólica
história de nossos ancestrais nunca deixam de fluir em nossa alma.
Foi para ficar em paz e harmonia com a natureza e ouvir os ecos e
vozes ancestrais do seu “eu” interior, em toda sua plenitude, que
Carl G. Jung construiu sua Torre em um local aprazível e evocador
das moradas primitivas da humanidade, bem longe da avassaladora
modernidade que a tudo liquefaz.
É
longe da balbúrdia geral denominada ─
“O Futuro em Suas Mãos” ─,
que se pode escutar a suave melodia que emana de nossas profundezas.
Só realizando essa fuga, será possível reviver gratas sensações
depositadas e esquecidas nos velhos porões de nossa psique. Só
distante do frenesi consumista que a mídia nos impõe é que
poderemos, enfim, revisitar prazeres esquecidos na poeira do tempo,
coisas sublimes que a agitação do nosso dia-a-dia, em nome
de um futuro mecanizado e hostil, inviabilizou.
Por Levi B.
Santos
Guarabira,
04 de fevereiro de 2018