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20 fevereiro 2023

Saudades dos VELHOS CARNAVAIS de Minha Adolescência em ALAGOA GRANDE(PB)

Me identifico muito com a melodia e a letra da marcha-rancho ‘Vila Esperança’ - imortalizada por Adoniran Barbosa em 1968 ─, um tributo que esse compositor, filho de imigrantes italianos, fez a sua amada Vila Esperança' (zona leste de São Paulo).
 Nos velhos carnavais de ruas, na minha adolescência, Alagoa Grande (e a aprazível lagoa do Paó em seu centro)) era a minha VILA ESPERANÇA repleta de foliões, blocos e troças - em fervente animação.
 Se hoje, o carnaval perdeu o brilho da prazerosa inocência, para gáudio dos nostálgicos daquele tempo, faço questão de ressuscitar a bela, tocante e saudosa marchinha ‘Vila Esperança’(vide vídeo abaixo) – iniciada com a voz arrastada e cansada de Adoniran Barbosa (1912 ─ 1982), também autor dos antológicos sambas: 'Saudosa Maloca', 'Trem das Onze', 'Iracema', entre outros. 
 GUARABIRA, 19 de fevereiro de 2023

22 março 2020

A ARTE DE CURAR DOS ANTIGOS BOTICÁRIOS


Anúncio de remédio à base de Quinina – Nossa História – julho de 2005


Estamos todos de Quarentena em meio a uma Pandemia viral. Aproveitando o ócio obrigatório nos imposto por tempo indeterminado, que tal recordar um pouco de Nossa História Colonial, no que diz respeito a Farmacopeia popular no início de Nossa República?

Antigamente, as Drogarias eram conhecidas como BOTICAS, e os farmacêuticos eram denominados BOTICÁRIOS. As boticas geralmente funcionavam junto às casas de seus proprietários. Diogo de Castro, contratado por Tomé de Souza, foi o primeiro que com uma arca portátil de Madeira, na Colônia Portuguesa, iniciou a preparação de mezinhas para “curar” as moléstias do seu Senhor e sua vasta corte.

Como em época de grandes epidemias, costuma-se buscar incessantemente alguma mezinha milagrosa quase sempre derivadas de plantas medicinais no intuito de debelar um mal que se alastra de forma assustadora, eis que o comércio de ipecacuanha e quina, começou a efervescer.

Sobre os Magos de Botica e sua farmacopeia tupiniquim na comercialização da “QUINA”, Henrique Soares Carneiro, doutor e professor de História da Universidade de São Paulo, assim escreveu:

A Quina, Cinchona ledgeriana, a mais eficaz terapia contra a Malária, é o grande exemplo de um medicamento indispensável para a saúde moderna que se originou do saber indígena. Descrita em 1633 pelo padre espanhol, Calancha, a Quina logo se tornou um produto indispensável ao médico jesuíta. A difusão européia dessa casca amarga de uma árvore americana foi dificultada, num primeiro momento, pelas nações protestantes. […]Em 1820, dois químicos franceses isolaram o alcalóide “Quinina” e, após 1860, os Holandeses conseguiram contrabandear sementes que foram aclimatadas em Java” (“Nossa História” julho de 2005)

A pandemia do Covid 19, aqui nas Terras de Dom João VI desperta, por ora, duas propostas que nos meios de comunicações e redes sociais, vêm provocando acaloradas discussões:

● Uma proposta visa administrar a Quinina nos casos sintomáticos de Coronavírus sem ter submetido essa substância à nenhuma avaliação farmacológica. Talvez, quem sabe, evocando a imaginação dos boticários do tempo antigo, que antes do isolamento da quinina já faziam uso do produto bruto, quando ainda não existiam testes científicos para esse fim.

● A Outra proposta diz ser temerário o uso da Quinina, uma vez que não foi testada nem protocolizada e liberada pelo Ministério da Saúde para casos positivos de Coronavírus.

Como médico, não poderia deixar de insistir com esse alerta/esclarecimento:

A Quinina nunca foi testada cientificamente em casos do Covid 19, isto é, não se sabe que efeitos colaterais ou malefícios poderão advir do seu uso, a médio e longo prazo, feito de forma indiscriminada.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de março de 2020

14 setembro 2019

EM RUÍNAS A CATEDRAL DO INÍCIO DE NOSSA VIDA ACADÊMICA (Turma de 1971)





O mitólogo, Joseph Campbell, falando sobre o PODER do Simbólico em nossa realidade psíquica, o comparou a esfera do Sagrado. Disse ele: “Um templo é uma paisagem da alma”.

Fui, não nego, inundado por uma imensa tristeza, ao contemplar o Velho edifício que nos serviu de Templo no início de nossa jornada como acadêmicos de Medicina; templo, agora, em completa ruína e total abandono.

Transtornado, a mim mesmo perguntei e ao mesmo tempo respondi: o que aconteceu com a nossa primeira CATEDRAL? Só pode ter sido vítima de uma violação sacrílega.
Não à toa, os nossos guias ou mestres eram denominados catedráticos. Se vivos fossem, que diriam, hoje, os sacerdotes, Asdrúbal, Amílcar, Aníbal, Vitorino, Genival Veloso, e outros que os arquivos travados de minha memória, por ora, não me permitem trazer à tona?
Só sei que esses denodados guias, foram os primeiros a abrir nossos olhos para o estudo macroscópico e microscópico do corpo humano inerte e fatiado, porém sagrado.

Que extasiantes aulas recebíamos dos veneráveis mestres! Lembro de que, lá fora, enquanto nossos “xamãs”(líderes inspirados pelos espíritos para condução das cerimônias) se preparavam para execução do doce/crucial rito (as aulas), as alamedas que contornavam o Templo Sagrado, nos intervalos das ministrações, nos serviam de espaço profano para extravasamento do lado oposto da dualidade intrínseca de nosso mundo afetivo ou interno, como faz ver bem, Elíade Mircea, no trecho, abaixo, pinçado de seu antológico livro “O Sagrado e o Profano”:

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. Profano é tudo que não é sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os fatos e atos da rotina”.

O certo é que quando adentrávamos nos recintos mais íntimos da Catedral primeira de nosso passado de acadêmico, algo nos transformava: um misto de medo, temor e tremor nos contagiava, algo como uma voz angelical a imbuir em nosso espírito o mesmo sentimento solene que assoma os corações dos fiéis que ascendem ao altar da catedral para, em sua prece dominical, oferecer seus sacrifícios vivos e agradáveis a Deus.

Cada um de nós da turma de 1971, com certeza, guarda célebres lembranças desse longínquo passado. O nosso colega Evaldo Carneiro, portador de uma fantástica memória, foi buscar no baú de seu abismo psíquico, memoráveis lembranças, uma delas retocadas pelo colega Joaquim. Não poderia deixar de ressaltar, aqui, o brilhante passeio histórico que saiu da pena do colega Jaime Xavier.

Quantas imagens, quantas memórias surgiriam se o caleidoscópio do nosso inconsciente coletivo daquele saudoso tempo pudesse, um dia, destravar seus arquivos e deixar fluir seu conteúdo por completo. Com certeza, livro nenhum caberia a autobiografia do nosso primeiro ano de faculdade (peço vênias ao nosso genial biógrafo ― o irmão Fonseca).

Ao olhar demoradamente o que restou de nosso primeiro palácio sagrado, me vieram à lembrança a melodia e a letra de “Saudosa Maloca” magistralmente interpretada pelos “Demônios da Garoa”. O estribilho desse memorável samba, cai bem aqui, como epílogo de minha melancólica descrição:

Saudosa maloca, maloca querida
Din din donde nos passemos
Os dias feliz de nossas vidas”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2019




20 julho 2019

E A LUA SE DEIXOU PISAR






Lá se vão 50 anos. Cursava o quarto ano de Medicina na UFPB, quando na tarde do dia 20 de julho de 1969 as ruas do bairro de Jaguaribe - em João Pessoa, de repente, ficaram desertas. Quase todos acorreram aos seus lares para assistir pela TV (em preto e branco), o homem pousar na Lua. Nesse tempo, residia na casa de uma tia, em um local aprazível, bem no finalzinho da tradicional e festiva av. Vasco da Gama.

Em meio ao chuvisco na tela da TV, deu para ver a poeirinha subir, segundos após Neil Armstrong tocar levemente a superfície da Lua. À medida que o astronauta caminhava desajeitadamente, os sulcos da sola de suas botas espaciais iam deixando fundas marcas na frouxa areia do solo lunar. Meu tio e eu ficamos estáticos diante daquele grandioso espetáculo. A Lua, nos corações dos namorados e poetas, a partir daquele momento deixava de ser fisicamente inacessível, para ser objeto de especulação dos astronautas da NASA.

Lembro que em 1961 (oito anos antes dessa grande conquista espacial), a cantora Ângela Maria (intitulada a Rainha do Rádio), já fazia seu protesto contra a briga entre russos e americanos na louca corrida para ver quem primeiro exploraria a morada de São Jorge e seu dragão. Para os menestréis e seresteiros que, em altas horas da noite derramavam suas vozes dolentes entre sublimes acordes tirados das cordas de seus violões, a Lua era sua indevassável e inspiradora deusa. Os da minha geração, com certeza, jamais esquecerão das sinfonias noturnas que nas noites enluaradas enchiam o ar, estimulando o(a)s jovens insones a sonhar doces sonhos em suas alcovas.

Hoje, a Lua, sem o mistério de antes, ainda dá o ar de sua graça nas fotos tiradas pela “geração smartphone”.

Enfim, venceu o progresso. De nada valeu o apelo ― “Lua... oh Lua... - não deixa ninguém te pisar!” ─ refrão da modinha carnavalesca “A Lua é dos Namorados”, cantada ardorosamente nos velhos carnavais.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2019





27 maio 2019

“TARDES DE DOMINGO” de Um Torcedor Mirim (Anos Sessenta)









No domingo eu escapulia
Para o campo da engenhoca
No quintal de tia Anás
Futebol eu assistia.


Bem atrás de uma trave
Sobre a faxina escondido,
Eu aplaudia as jogadas
Do meu time preferido.


Cada gol era uma festa
A orquestra respondia.
Puxando um frevo alegre
Numa bela sinfonia.


Depois do primeiro tempo
No campo podiam entrar.
Pela frente do estádio
Eu entrava sem pagar.



Juntava umas três moedas
Para comprar as doçuras
Que vendiam na torcida,
Uma verdadeira loucura.


Vendiam amendoim
Laranja Pêra e sorvete
Pirulito e Alfinim
E palitos de rolete.



Geladinhas de refresco
Afora as tapiocas
Tinha doce americano
E pacotes de pipocas.



Iguarias iguais aquelas
Nunca pensei em provar.
Para falar a verdade
Nem em festas no meu lar.



Meu clube era o Tabajaras,
De grandes craques da bola:
Cereba e Lula Teixeira
Não me saem da cachola.


Você veja que loucura
Eu em cima de uma faxina,
Assistindo um partidaço
Com o Treze de Campina.



O Tabajaras em casa
Não perdia uma vezinha,
Mesmo ele jogando ruim
O juiz dava uma mãozinha.



          ..Os jogadores d’outro time,
Gritavam: “juiz ladrão!”
Para nós na passeata
Em cima de um caminhão.


Passando por minha casa
Em caminho obrigatório,
Mamãe se desesperava
Gritando um palavrório.


Sai de cima desse carro
Uma surra tu vais ter.
E eu pulando pels grades
Ía então me esconder.


Dizia então minha mãe
Numa tristeza medonha:
Tu és crente, vagabundo,
Tá me fazendo vergonha.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de Maio de 2019

Site da Imagem: https://www.pinterest.de/pin/372602569151882299/





24 novembro 2018

“A MOÇA DO SONHO” E A “DEMOCRACIA BANGUELA”



Clique na Figura para ver melhor




A canção “A Moça do Sonho” de Chico e Edu Lobo , foi esboçada para o show Cambaio em 2001. Em uma nova e magistral interpretação - foi incluída no recente Show e CD “CARAVANAS” de Chico Buarque.

Foi lá no magnífico Teatro Pedra do Reino – João Pessoa (15 de setembro de 2018 – pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno da eleição para presidente da república), que tive a oportunidade de ver um Chico de pé (com sinais na face, denunciando seus setenta e quatro anos de idade). Impassível, só as mãos meio trêmulas acompanhavam, sob a forma de sentidos gestos, sua voz melancólica. Teatro lotado. Na plateia nenhum pio se ouvia, e as estrofes da dolente canção “A Moça do Sonho” extravasavam de sua boca, agitando e vibrando as cordas dos corações daqueles que estáticos o ouviam sentados em aconchegantes poltronas.


Arrisquei perguntar: Quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó.

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: Quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu.” (Primeira parte de “A Moça do Sonho”)

O poeta é o rei das metáforas.

É impossível pensar em qualquer sonho sem que uma motivação original não tenha passado pela mente: quer seja um desejo, anseio ou impulso. O Sonho simplesmente é produto de uma elaboração dramática que parte dos fragmentos históricos pré existentes no subsolo de nosso aparelho psíquico”. (Já dizia Freud, em “A interpretação dos Sonhos” – página 86)

E Chico, o poeta maior da MPB, por fim, como um exímio artista em “A Moça do Sonho”, exibia seus próprios desejos, seus próprios sonhos, sua utopia, sua esperança/desesperada, seu anseio em retornar ao “Jardim do Éden”, seu gozo imaginário por um venturoso “Milênio de Paz e Justiça” de que trata a religião cristã no livro do Apocalipse Bíblico.
Como metáfora para os dias atuais, por que não traduzir a “Moça do Sonho”, como a Democracia sonhada por muitos, principalmente, em tempos sombrios de mudança de governo?

Sou da época de Chico Buarque, e aprendi nos livros de História que a Democracia (ou sonho democrático) nasceu na Grécia de Péricles e Aristóteles - 500 Anos a.C.. Mas a coitada, creio eu, foi tão maltratada que já chegou ao Novo Mundo desdentada.

A título de realce, não poderia deixar de repetir, aqui, o que escreveu o pai de Chico (o Historiador Sérgio Buarque de Holanda) sobre nossa suposta cordialidade democrática ─ no antológico clássico ─ “Raízes do Brasil”:

A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. […] Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência ou hostilidade”.

E por falar em “sonho democrático”, não é que o cartunista, André Dahmer, da Folha de São Paulo (no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2018) publicou um humorado quadrinho (Vide Figura no Topo do texto) que, muito bem, poderia ter esse título: “Você Beijaria a Democracia Banguela?”

Bem, pelo menos em sonhos (utopia), o poeta maior da MPB deixa implícito na pungente canção, o desejo (que também é o nosso) de um dia encontrar essa “Moça”, e não voltar jamais (que fique claro: com todos os dentes e não banguela)


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a Vida não…


Um lugar deve existir
Uma espécie de Bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre as escadas que fogem dos pés
E relógios que andam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais”. (final da letra de “A Moça do Sonho”)




27 março 2018

NEGAR PARA NÃO SOFRER



 
 
Essa arte eu aprendi logo cedo
 
Aprendi desde os tempos das primeiras letras:
 
“Negar para não sofrer”.

 
 
Na volta da escola por meu pai sabatinado:
 
Brigou com alguém?! — Olhe isso no seu rosto!
 
— Escorreguei, bati com a cabeça na parede.
 
Mostre-me o boletim, quero ver suas notas?!
 
—A professora nesse bimestre não entregou.

 
 
Transformei-me em um artista
 
Na arte de evitar o padecimento pelas cobranças paternas.
 
Aprendi que a negação sempre adia o sofrimento.

 
 
Pra que mentir?!
 
Meus pais já se foram – sou um adulto
 
Agora não preciso mais negar o que sinto em oculto.
 
Eis que num belo dia não pude revelar um DESEJO.
 
A mesma sensação dos tempos de escola
 
Reapareceu. Voltou?!

 
 
Lá estava entranhada a velha opção
 
Lá estava o vigia
 
Que da sala de minha consciência tomava conta.
 
E para não incorrer no risco doloroso
 
De ver o meu desejo ser exposto pelo Rigoroso Guarda
 
Protegi-me com o manto da ansiedade.

 
 
Algo em mim me fez agir como o débil aluno de outrora
 
Fiquei tenso, de rosto avermelhado
 
Quando Ele perguntou-me:
 
“Ainda sonhas acordado?”
 
 
Neguei para não sofrer de novo...

 
Enquanto bradava um “Não” bem forte
 
Em secreto, lá dentro, eu inquiria:
 
“Por que não me abandonaste, ó Pai?!
 
Como gostaria de continuar Te negando
 
Para continuar LIVRE do sofrer!”

 
Por Levi B.Santos
 
Guarabira, 12 de novembro de 2010

 

04 fevereiro 2018

A IDADE MÉDIA, A ANTIGUIDADE E O PRIMITIVISMO DE NOSSA PSIQUE ─ FRENTE AOS “NOVOS TEMPOS”

Torre de Carl G. Jung em Bollingen – Suíça (1955)


Carl Gustav Jung, um dos fundadores da psicanálise, nos últimos trinta anos de sua vida decidiu construir uma Torre à beira de um belo e tranquilo lago em Bollingen (Suíça), para lhe servir de refúgio. Nesse pequeno castelo tencionava viver intensamente os conteúdos do seu inconsciente, longe da algazarra e correria louca das cidades. Deu início a essa empreitada em 1922. A obra, após várias reformas, só atingiu sua forma definitiva em 1955, seis anos antes de sua morte.

Do seu livro “Memórias, Sonhos, Reflexões” (Editora Nova Fronteira, 2016 – 30ª Edição) trago um trecho (página 236) que, em sua essência, está em consonância com os sombrios e fugazes “Tempos Novos” que estamos a experimentar na atualidade. Em sua época, o autor já realçava a fluidez da pós-modernidade que, com seu impetuoso avanço, ambicionava dissolver todo conteúdo sólido do primitivismo de nossa psique.

Com a perspicácia de um exímio escavador do nosso fértil solo psíquico, Jung, nos mostra, de forma contundente, como o mal estar atual, em grande parte, tem sua causa na pressa e na expectativa doentia de se tomar posse de um futuro fantasioso e ilusório, rotulado de “novo”. Vejamos o que diz o psicanalista e profundo estudioso dos meandros da alma humana, nesse precioso retalho de seu expressivo Livro de Memórias:


Tanto nossa alma quanto nosso corpo são compostos de elementos que já existiram na linhagem de nossos antepassados. O “novo” na alma individual é uma recombinação variável ao infinito de componentes extremamente antigos. Nosso corpo e nossa alma têm um caráter eminentemente histórico e não encontram no “realmente-novo-que-acaba-de-aparecer” lugar conveniente, isto é, os traços ancestrais só se encontram parcialmente realizados.

Estamos longe de ter liquidado a Idade Média, a Antiguidade, o primitivismo e de ter respondido às exigências de nossa psique a respeito deles. Entrementes, somos lançados num jato de progresso que nos empurra para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos arranca de nossas raízes. Mas é precisamente a perda de relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal “mal estar na civilização”, a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente, que o futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamos-nos desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais do que possuímos, porém de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, porém perscrutamos a sombra do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não queremos compreender que o melhor é sempre compensado pelo pior. A esperança de uma liberdade maior é anulada pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos quais nos expõem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos, e contribuímos com todas as nossas forças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas raízes.


O que concluir enfim, senão que somos incapazes de cancelar o conteúdo primitivo de nossa psique. Tentar reprimir esse conteúdo seria um mecanismo de defesa para se evitar o desprazer; sublimá-lo, por sua vez, seria alcançar um nível de satisfação a que, por exemplo, os poetas, em seus versos, estão acostumados a experimentar. As metáforas representativas de seus afetos paradoxais, o artista retira de suas próprias profundezas mentais, tal qual uma bordadeira o faz com a agulha e seu novelo de linha: o intrincado bordado, fruto do exercício de memória, acaba por deixar impresso no tecido toda a expressão de sua divina arte. Do mesmo modo, acontece com o músico que, ao organizar ou criar a partir dos elementos arcaicos ou primitivos de sua psique, presenteia-nos com sua expressiva e divinal sinfonia; sinfonia que ao reverberar nas cordas de nossos corações nos contagia de alegria e beatitude.

Mas o que nos reserva o futuro diante do fulminante progresso tecnológico? Para evitar o que se considera “desperdício de tempo”, em nome de um hipotético futuro, o mercado procura tudo massificar, visando exclusivamente o lucro. Tempo é Ouro!. Aqui, você tem tudo de bom sem a necessidade de demorados momentos de reflexão e esforço mental” —, diz o lema estampado e oferecido em suas atraentes embalagens.

O certo é que o passado, a idade média e o que é visto como antiquado, não morre, mas continua arquivado em nossa memória. Ressonâncias da trágica, cômica, feliz, inebriante e melancólica história de nossos ancestrais nunca deixam de fluir em nossa alma. Foi para ficar em paz e harmonia com a natureza e ouvir os ecos e vozes ancestrais do seu “eu” interior, em toda sua plenitude, que Carl G. Jung construiu sua Torre em um local aprazível e evocador das moradas primitivas da humanidade, bem longe da avassaladora modernidade que a tudo liquefaz.

É longe da balbúrdia geral denominada “O Futuro em Suas Mãos” , que se pode escutar a suave melodia que emana de nossas profundezas. Só realizando essa fuga, será possível reviver gratas sensações depositadas e esquecidas nos velhos porões de nossa psique. Só distante do frenesi consumista que a mídia nos impõe é que poderemos, enfim, revisitar prazeres esquecidos na poeira do tempo, coisas sublimes que a agitação do nosso dia-a-dia, em nome de um futuro mecanizado e hostil, inviabilizou.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de fevereiro de 2018