25 novembro 2016

A Propósito do Discurso Xenófobo de Donald Trump





Ao ler as memórias de Carl G. Jung (1875 1961), ditadas por ele mesmo a Aniela Jaffé, cinco anos antes de sua morte, cheguei a conclusão de que o lado mau do homo sapiens anda triunfando nos tempos atuais, talvez de uma forma mais perversa do que nos tempos primitivos. Liquidar os anseios da idade média que habitam o homem de hoje é tarefa praticamente impossível.

Apesar das brilhantes descobertas e das aquisições da ciência, as vãs promessas de harmonia brandidas pelos povos poderosos aos mais humildes e marginalizados, particularmente por parte daqueles que estão no topo da pirâmide em matéria de riqueza terrena, têm sido, sem sombra de dúvida, a causa principal de todo o mal estar na pós-modernidade.

Donald Trump o magnata eleito recentemente para reger os destinos da nação mais poderosa e rica do mundo, pasmem, promete fazer um muro de separação entre seu país e o odiado México prova evidente do triunfo do lado selvagem do homem, que responsabiliza a coletividade estrangeira pelos seus próprios preconceitos nacionais. Nunca é demais salientar que a América do Norte sempre foi a sonhada Terra Prometida dos puritanos emigrantes do Reino Unido(os novos filhos de Israel). A travessia tormentosa dessa corrente do protestantismo pelo vasto mar, transformou-se em uma reedição da odisseia do idolatrado líder Moisés e seu povo através do infindável e inóspito deserto, rumo à invasão da terra de Canaã.

Todo o mal secreto do colonizador puritano percebido no outro-estranho provoca em si desagrado ou irritação. A expulsão do estrangeiro tem sido quase sempre a solução doentia ou neurótica adotada para aplacar o ódio dos poderosos aos deserdados e marginalizados. De maneira inconsciente, esse idealismo retrógrado deve ter sido plantado no coração dos que fugiram do Reino Unido para fundar nas terras da América do Norte uma Nova Jerusalém só para eles. A Psicologia mostra que esses recalques ficam submersos nas camadas mais profundas da psique por décadas ou séculos. Mas, um dia, encontrando ocasiões propícias, o que foi recalcado sai de sua latência e volta à tona sob a forma sutil ou mesmo declarada de intolerância.

Carl Jung, depois dos 45 anos de idade, já enjoado de tanto estudar ou analisar os meandros da alma humana, resolveu viajar por diversas regiões do mundo a fim de conhecer profundamente os diversos povos e suas culturas. Enfim, compreendera que para tomar consciência de suas particularidades nacionais de homem europeu branco, necessitava olhar outros povos do lado de fora de sua própria nação (Suíça). Ao realizar uma viagem ao Novo México onde habitava os índios Pueblos, confirmou “o quanto estava aprisionado ou fechado, mesmo na América, na consciência do homem branco. […] Aprendeu de certo modo a ver com outros olhos e a observar o que é o 'homem branco' quando está fora de seu próprio medo”.

A narrativa do encontro de Jung com Ochwiay Biano, chefe dos pueblos, diz muito sobre o modo como os ancestrais dos mexicanos viam o homem branco americano revestido de sua empáfia ou ar de superioridade. O psiquiatra suíço pediu para Ochwiay fazer uma descrição do homem branco que habitava a terra acima de sua fronteira a intitulada Nova Inglaterra:

Veja”, disse o índio pueblo, “como os brancos têm um ar cruel. Têm lábios finos, nariz em ponta, os rostos sulcados de rugas e deformados. Os olhos têm uma expressão fixa, estão sempre buscando algo. O que procuram? Os brancos sempre desejam alguma coisa, estão sempre inquietos, e não conhecem o repouso. Nós não sabemos o que eles querem. Não os compreendemos e achamos que são loucos!”

Perguntou então o professor Jung por que ele pensava que todos os brancos eram loucos. Ochwiay, prontamente respondeu: “Eles dizem que pensam com suas cabeças.”

— “Mas naturalmente! Com o que pensa você?” retrucou Jung, admirado.

― “Nós pensamos aqui” ― disse ele, indicando o coração.

Pela primeira vez na minha vida, disse o professor e psiquiatra (um dos fundadores da Psicanálise), alguém me dera uma imagem do verdadeiro homem branco. Esse índio encontrara nosso ponto vulnerável e pusera o dedo naquilo em que somos cegos.

Jung, filho de pastor protestante, se tornou um estudioso do fenômeno religioso. De sua incursão pelo mundo da religião criou o conceito arquétipo, presente em todos que praticam atos religiosos. Não resistindo a uma abordagem do lado religioso do índio pueblo, perguntou-lhe:

― “O senhor acredita que suas práticas religiosas sejam de proveito para todo o mundo?”. O índio, com muita vivacidade, respondeu:

― “Naturalmente, se não o fizéssemos o que seria do mundo?”. “E, com um gesto carregado de sentido apontou o Sol”.

Precisamos sorrir, ainda que de puro ciúme, da ingenuidade dos índios e nos vangloriarmos de nossa inteligência, a fim de não descobrirmos o quanto nos empobrecemos e degeneramos. O saber não nos enriquece; pelo contrário, afasta-nos cada vez mais do mundo mítico, no qual, outrora, tínhamos direito da cidadania.” [Carl G. Jung ― Memórias, Sonhos e Reflexões ― Editora Nova Fronteira]


Por Levi B. Santos
Guarabira, 25 de novembro de 2016

Site da Imagem: politicalivre.com.br

14 novembro 2016

Similitudes entre a República de Deodoro e a de Temer






● Se não sabia, fique sabendo, que o governo de Deodoro da Fonseca, iniciado em 15 de novembro de 1889, por ser provisório como o de Temer, foi marcado por intensa atividade legislativa.


Dizia-se, como hoje, que a União compunha-se de três poderes harmônicos e independentes entre si: O executivo, o Legislativo e o Judiciário.

O lucro estratosférico das empresas criadas na república de Deodoro permitia uma rápida fortuna aos que delas se associassem.

Os anúncios de jornais de 1889 davam conta de uma república fantasiosamente inventada, um país de papel, composto de títulos, certidões e contratos responsáveis por exuberantes lucros que enchiam os bolsos dos alegres e aparentemente cordiais banqueiros.

Rui Barbosa, ministro da Fazenda de Deodoro da Fonseca, com pouco mais de um mês no cargo, anunciou um programa econômico em tudo parecido com o do economista Henrique Meirelles do Governo Temer. O mote principal era o mesmo consagrado hoje: o de fugir dos empréstimos e organizar a amortização, proibindo terminantemente a contração de novas dívidas.


(Há muito de primitivismo no homem da pós-modernidade. Não seria exagero dizer que caminhamos em um círculo onde o presente já foi passado. Nesse caminhar trocam-se apenas os atores, mas o espírito ou o que faz acionar o motor de nossa ambígua história atual é o mesmo de ontem.
Para compreender porque o enredo histórico trágico-cômico, sem a participação do povo, que estamos assistindo em novembro de 2016 é uma “reprise” do que foi encenado nos idos de15 de Novembro de 1889” ―, leia o livro “1889” de Laurentino Gomes Editora Globo)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de novembro de 2016


20 outubro 2016

Homem, Teu Nome é Paradoxo!




Oh, a Humanidade vive em triste condição!
Nasce sob uma Lei mas prendem-na a outra:
Tende à vaidade, querem-na humilde,
Surgiu enferma e querem-na saudável”.
(Lorde Brooke)



Vendo que o homem paga um custo muito alto ao ceder parte de seus impulsos instintuais originais para poder conviver em um mundo mais ou menos pacificado, disse Freud: “A nossa civilização está alicerçada na supressão dos instintos”.

A constatação de que o instinto não se suprime e de que, por mais que se tente, o máximo que se pode conseguir é represá-lo ou reprimi-lo, fez nascer em toda sua plenitude, o conceito de ambivalência, que também pode significar ambiguidade, ou paradoxo. E esse antagonismo vem de longe. Plagiando o messias do Novo Testamento, eu diria: quem não puder se ver como criança não vai entender nada do reino da ambivalência, do reino dos sentimentos paradoxais ou antagônicos.

Quem não passou pelos primórdios da tal ambivalência na tenra infância? Quem não lembra de que, como criança, amava seu pai e por vezes desejava livrar-se dele?

A contradição é a marca característica do ser humano” já diziam os filósofos e estudiosos da alma. Para se ter ideia de como somos atraídos por um ideal de ego para ser diferente do que realmente somos, nada melhor que alguns dados estatísticos reveladores da contradição ou ambivalência demasiadamente humana que persiste em não nos largar, mesmo já “adultos maduros”. Para que se possa perceber o quanto as imagens secretas que existem em nossa psique estão repletas de desejos antagônicos, recorramos então a uma enquete realizada nos EUA, no final do século XX:

89% dos americanos consideraram a sua sociedade demasiadamente preocupada em ganhar dinheiro; 74% responderam que o materialismo excessivo dos indivíduos era um grande problema social. Pasmem: 76%, em outro quesito, fizeram ver que ter dinheiro os deixava bem consigo mesmo; 76% desejavam ganhar mais, e 74% gostariam de ter uma bela casa, um carro novo e outras coisas dessa magnitude”.

O apóstolo Paulo, em sua epístola aos Romanos, já fazia menção a esse velho conflito. Tanto é, que num rasgo de espontaneidade incomum assim se expressou: Porque eu sei que em mim, isto é na minha psique, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. (Romanos 07: 18). Nesse mesmo diapasão, afirmou, Eduardo Giannetti, a respeito do difícil equilíbrio entre a realidade e o sonho, mundo ideal ou utopia:

Há uma guerra anticolonialista na alma de cada um. Duas verdades medem forças. De um lado, está o princípio da realidade: se o sonho ignorar os limites do possível, ele se torna quixotesco”.

Paul Tillich, em Teologia da Cultura (página 245), já fazia ver a distância enorme entre o “desejado”(aquilo que se deseja para si) e o “desejável” (de fundo coletivo – idealista): “Esse é o nosso destino melancólico desde o começo da história humana e deverá permanecer enquanto houver vida humana consciente”.

O homem, enfim, é esse ser paradoxal que enquanto prega a salvação para os deserdados e marginalizados, trabalha desesperadamente para ficar mais seguro e distante daqueles que diz amar. Temeroso da própria sociedade ergue para si, altos muros eletrificados em torno de suas casas que mais parecem fortalezas em época de guerras. O homem é esse ser que está em um movimento pendular, ora se identificando com o polo que considera “positivo”, ora com o polo “negativo” de sua ambivalência, como bem explicita Kênia Kemp no trecho abaixo, pinçado do seu antológico artigo Identidade Cultural” (“Antropos e Psique” Editora Olho D'água):

Quando queremos nos apresentar a estrangeiros para nos valorizar, trazemos à tona traços da tradição e peculiaridades que nos identificam como brasileiros: a cordialidade, informalidade e alegria. Entretanto, entre nós são comuns expressões depreciativas: 'Brasileiro é preguiçoso'; 'a terra é boa, mas tem um povinho…'. Enfim, qualquer grupo de alguma forma coloca em questão a legitimidade dos traços de sua identidade, que inclusive podem ser modificados, ampliados ou reprimidos. Enquanto forem legitimados, permanecerão”.

Esse ente dúbio sem ter ideia de que tem a alma cindida entre dois polos ou afetos antagônicos, por um mecanismo de projeção bem evidenciado na religião ocidental, acha que o mundo (e não ele próprio) é que está dividido entre ele e os outros; não percebe que nas imagens que tem dos outros que lhe trazem perigo, residem as partes negativas ou rejeitadas de seu próprio ser. Os lá de fora são, como na versão bíblica, “bodes expiatórios” para projeção de tudo quanto percebe de ruim ou pecaminoso, a fim de se sentir purificado. E o que dizer então sobre esse sonoro e belo afeto, que para contrabalançar o ódio (polo negativo) de nossa ambivalência, o denominamos amor? Segundo o famoso psicoterapeuta americano, Rollo May, “...o próprio amor passou a ser problema. Tão contraditório tornou-se na verdade, que alguns que se dedicam ao estudo da família concluíram que “amor” é apenas o nome dado ao controle exercido pelos membros mais poderosos sobre os demais.[ “Eros e Repressão” (pag. 13) Rollo May Editora Vozes]

Mas o conflito humano (ou intrapsíquico), na verdade, se dá sempre entre o que queremos ou idealizamos ser e o que realmente somos. A parábola neotestamentária do “Joio e do Trigo(Vide Link), que algum tempo tinha seus símbolos antagônicos interpretados para identificar e separar as pessoas do “bem” daquelas do “mal”, com o advento da psicologia profunda já pode ser compreendida, em sua forma mais profunda, como metáforas dos afetos ambivalentes ou ambíguos que habitam em cada ser humano. O Inferno são os Outros” célebre frase dita por Sartre , pode ser considerada uma espécie de crítica aos puritanistas, que advogavam a separação entre santos(trigo) e pecadores(joio), sem ao menos perceber que o santo e o pecador, a um olhar mais reflexivo, andam a trocar de papéis de uma maneira sutil ou quase imperceptível. A psicologia junguiana disseca, pormenorizadamente, a paradoxalidade de nossos afetos, tornando mais evidente seu mecanismo de identificação imaginária, como a ilusão de se criar uma imagem pública a partir das características que julgamos aceitáveis, deixando de fora algumas partes mais importantes e saborosas de nós mesmos” (“O Efeito Sombra” Debbie Ford)

Ao discorrer sobre a paradoxalidade da ambivalência na sociedade, Zygmunt Bauman, deixou-nos essa contundente observação:

a modernidade é uma era de ordem artificial e de grandiosos projetos societários, a era dos planejadores, visionários e, de forma mais geral, 'jardineiros' que tratam a sociedade como um torrão virgem de terra a ser planejado de forma especializada[…]. Não há limite para ambição e autoconfiança. Com efeito, pelas lentes do poder moderno, a 'humanidade' parece tão onipotente e seus membros individuais tão incompletos, ineptos, submissos e tão necessitados de melhoria, que tratar as pessoas como plantas a serem podadas (ou arrancadas se necessário) ou gado a ser engordado não parece ser uma fantasia, nem moralmente odioso”. [“O Mal-Estar da Pós-Modernidade” Zygmunt Bauman]

Traduzindo para o mundo pós-moderno, a máxima Quem nos livrará do corpo dessa morte?” dirigida aos Romanos por Saulo de Tarso, penso que ficaria mais ou menos assim: Quem livrará o nosso EU, do peso da Contradição? Quem atentar para essa brilhante enunciação da dúbia alma humana realizada pelo apóstolo fundador do cristianismo, verá que ela está em perfeita consonância com o sujeito da psicanálise, que às avessas do jargão cartesiano “penso, logo existo”, abarca o Homem Paradoxal com esta emblemática frase: Penso onde não sou; sou onde não penso”.


Meu Eu Paradoxal”


Com uma face emancipada e outra dependente
Marcado pela lei dúbia do desejo ambivalente
Vivo como irmãos, despossuídos mutuamente
Sem poder traduzir meu ser incongruente”.
[“Parte Delirante de Mim” – “Ensaios & Prosas” – julho de 2011]




Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de outubro de 2016


13 outubro 2016

Na Caverna Digital






Tem o tempo livre rodeado de aparelhos
Um mundo de informações e imagens a um simples toque
Está sempre com pressa, pois o tempo vale ouro
Imagina que está ganhando, mas deixa que está perdendo
Aquilo que é essencial nas profundezas do seu ser:
Aquela ausência sem preço que se denomina PAZ
A existência moderna de a muito já expulsou.



Em um constante alerta por obrigações pendentes
O progresso tecnológico tomou-o e pariu insônias
Para conciliar de noite, o seu sintético sono
Deglute uma combinação de vários tipos de fármacos
Hoje não sonha mais de modo tão natural
O barbitúrico roubou-lhe o tempo da meditação.
Tempo que foi tragado no efeito colateral.



Das telas, enfeitiçado pela gula informacional
Lhe engoliu o tempo livre que tinha pra conversar
Intoxicado pelo excesso do cibernético desejo
Que se apoderou de si de forma sutil e estranha.
Em seu mundo entorpecido como uma estátua de sal
Hoje é um abúlico de corpo com a alma enrijecida.
Tem mãos atadas ao teclado e olhar na horizontal.



Insensível e adaptado à tecnologia moderna
Segue o homem insensível numa efêmera excitação
Tal qual uma peste epidêmica que degrada a consciência
Não permite nem um olhar para dentro de seu ser
Em um lazer cronometrado, vivendo sem substrato
Nem nota que uma folha verde produz o oxigênio
Com mais sofisticação que um técnico artefato.



Descrito por Platão, o homem em seus primórdios
Vivia preso em correntes numa caverna de pedra
Com a visão distorcida do mundo de lá de fora
Preferia o reino de sombras e não a realidade
Hoje, pensa que é feliz em seu mundo artificial
Dedilhando sem parar de frente para uma tela
Vive sem o calor humano, numa Caverna Digital.




Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de outubro de 2016

Site da Imagem: noticias.uol.com.br/saude


22 setembro 2016

Esquadrinhando Nossa Histórica Cordialidade






Recentemente, li vagarosamente o capítulo “O Homem Cordial” do clássico “Raízes do Brasil” Companhia das Letras edição histórica (2016) comemorativa dos 80 anos do primeiro lançamento (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. A leitura reflexiva sobre a cordialidade dos nossos antepassados evocou em mim o tempo em que a única forma de comunicação à longa distância se dava através das inesquecíveis cartas escritas à pena, com um tinteiro e um mata borrão ao lado. Bons tempos aqueles em que todo mundo, pelo menos nas correspondências, se mostrava cordial: é que a expressão saudações cordiais” era por todos colocada automaticamente no fecho ou final da carta. Existia, também, uma frase cliché ou modelo que erigíamos no começo da carta, antes de se entrar com todo o gás no assunto a ser tratado: “Espero que estas mal traçadas linhas a encontre gozando paz e saúde...”.

Hoje, dirigindo um olhar crítico para o passado, tenho a nítida impressão de que, por vezes, em minhas cartas, usei o termo “cordialmente...” de forma mecânica, como mecânico é todo o bordão que usamos sem nos deter sobre a etimologia ou o significado profundo e bipolar da palavra.

Segundo o escritor Cassiano Ricardo, um dos críticos do grande clássico da literatura brasileira que trata de nossas raízes culturais, o termo cordial não exprime só a polidez na abordagem do outro. O termo pode se referir a outro tipo de polidez ou bondade: “aquela outra bondade do 'faça o favor de entrar' a que se poderia chamar de bondade de sala de visitas: que encanta, mas brilha falso'” (“Raízes do Brasil” edição crítica)

Parece ter razão o crítico do conceito de “Homem cordial” da obra de Sérgio Buarque de Holanda. Na ótica de Cassiano o termo “cordial”, como aquilo que parte do coração, tanto poderia revelar sentimentos de concórdia como os de inimizade.

O brasileiro quanto mais polido sabe tirar partido da própria bondade, e que esse seu recurso se poderia chamar de 'técnica da bondade'. Que essa bondade, no plano social, é o primeiro fundamento de nossa democracia. […]O emprego dessa técnica de bondade data do início de nossa formação biodemocrática. A catequese é, toda, o emprego da bondade como arma política” enfatiza Cassiano Ricardo.

No prefácio à terceira edição de “Raízes do Brasil” (1966), o crítico Antonio Cândido discorre sobre a mentalidade cordial do brasileiro descrita por Sérgio Buarque de Holanda:

O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez”.

O autor de “Raízes do Brasil” acentua o perigo que ronda o nosso “homem cordial” quando, ultrapassando os umbrais de seu círculo familiar, transfere seu “modus vivendi” para a esfera política do estado, por ele compreendida como uma extensão afetiva de seu aconchegante lar:

Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo.

Sobre a nossa suposta “cordialidade democrática”, afirma Sérgio Buarque de Holanda em seu antológico clássico:

A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. […] Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência ou hostilidade”.

O cientista político e ex-presidente do IPEA, Jessé de Souza, em uma entrevista à Folha de São Paulo do dia 07 de agosto de 2016, quando inquirido sobre como avaliava o legado de Sérgio Buarque de Holanda por ocasião do aniversário de 80 anos de “Raízes do Brasil”, assim se expressou:

Sérgio Buarque construiu a interpretação do Brasil mais influente até hoje. Em grande medida ela advém de Gilberto Freire (1900 ― 1987), como a noção de identidade nacional baseada nos afetos e sentimentos supostamente trazida de Portugal. Cientificamente, a validade dessa interpretação é, no entanto, nula. E sua celebração até hoje mostra apenas a miséria de nosso debate acadêmico e, por consequência, de nosso debate político”.

Deitando um olhar pelo viés sócio-político-psicológico, alguns críticos entendem que o Homem Cordial, em pleno Brasil moderno de 2016, continua mais vivo do que nunca. Os espetáculos encenados nos últimos anos em nossa vilipendiada república confirmam os paradoxos da cordialidade sergiobuarqueana descrita há exatamente 80 anos. De tão atual, há quem advogue a mudança do título do clássico de nossa formação Raízes do Brasil para “Jeitinho Brasileiro”.

Como o arcabouço social dos novos tempos é o mesmo dos velhos tempos (sem tirar nem pôr), só nos resta repetir o famoso chavão que, inocentemente, usávamos para encerrar as cartinhas da década de 1960:

Cordiais Saudações,



Levi B. Santos
Guarabira, 22 de setembro de 2016

Site da Imagem: blogarama.com/education

27 agosto 2016

AGOSTO ― Mês dos Grandes Espetáculos em Nossa República






Coincidência, superstição ou obra dos deuses, o fato é que o mês de agosto em nossa república tem sido recheado por grandes espetáculos históricos (risíveis ou não). Citemos alguns: Suicídio de Getúlio Vargas, renúncia de Jânio Quadros e recentemente a fase final do processo de impeachment da presidente reeleita em 2014, transmitido ao vivo pela TV Senado.

Por falar em grandes espetáculos no mês de agosto não poderia deixar de registrar o risível acontecimento promovido por autoridades brasileiras em Paris - França no mês de agosto de 1952. Foi lendo Chatô O Rei do Brasil”, volumoso livro de 600 páginas de Fernando Morais (autor de Olga e a Ilha), que pude tomar conhecimento de um acontecimento insólito (não sei se comum - hoje). O espetáculo foi protagonizado pelo poderoso senador pela Paraíba, Francisco de Assis Chateaubriand. Na época, Chatô mandava e desmandava no país, e não era pra menos, pois era dono de 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, uma revista semanal (O Cruzeiro) e a Cigarra (mensal), afora revistas infantis e uma editora.

Mas vamos ao espetáculo hilário promovido em Paris pelo mega-empresário e senador Chatô. No capítulo de número 30, página 446, do livro “Chatô O Rei do Brasil”, Fernando Morais faz um resumo do que ele considerou o grande escândalo social daquele ano (o célebre baile do castelo de Coberville), espetáculo que, com os devidos créditos, aqui replico:


Segundo suas próprias palavras, o Plano de Chateaubriand era “apresentar à alta sociedade do Velho Mundo, o Brasil verdadeiro, o Brasil que somos nós: um Brasil de mestiços autênticos, mulatos inzoneiros, índios e negros a promover a vasta experiência de cruzamentos no trópico, em vez do falsificado Brasil branco de catálogo dos grã-finos[…]". A oportunidade surgiu quando o costureiro francês, Jacques Fath propôs que os Diários Associados organizassem em seu castelo parisiense uma grande festa de arromba para promover na Europa o algodão brasileiro.

[…] Às nove da noite do dia 03 de agosto um espetáculo de fogos de artifícios iluminou a multidão de 3.000 pessoas que lotavam os jardins do castelo. Só para levar os cem convidados brasileiros, Chateaubriand fretara dois Constellation da Panair, sem contar o voo especial que transportara orquestras, músicos, cantores, sambistas e frevistas. Terminado os rojões, o maestro Severino Araújo saiu do camarim armado atrás do castelo e invadiu os jardins regendo a Orquestra Tabajara da TV Tupi, que tocava um frevo pernambucano. Atrás deles vinham os cantores Elizeth Cardoso, Ademilde Fonseca, Zé Gonzaga, Jamelão e “Pato Branco” (um safoneiro albino que se fazia passar pelo músico Sivuca, que não pudera comparecer). Atrás deles, vinte passistas baianas bailavam e abriam passagem para que pudessem sair de dentro do castelo quatro negros de tanga, carregando uma liteira coberta onde vinham instalada, vestida à la Debret, a esfuziante Aimée de Heeren. Depois dessa abertura triunfal, vinte cavalos saíram em disparada dos fundos do castelo, cada um deles montado por um convidado ilustre (Francês ou brasileiro) vestido de cangaceiro e carregando uma mulher na garupa, também vestida à caráter. A cavalhada foi aberta pelo antropólogo Arbusse Bastide fantasiado de Lampião, levando na garupa a manequim Danuza Leão vestida de Maria Bonita, e fechada por Chateaubriand sobre um alazão e vestido “com uma cópia da fatiota de couro cru que meus antepassados usavam para capar bode no vale dom Piancó”. […] Vestindo um sumário cache-sexe, de peruca de índio e cocar sobre a cabeça, o costureiro e anfitrião Jacques Fath pegou o microfone e anunciou que “a grande festa do Brasil estava acontecendo”.

Sobre o tablado de madeira e som da orquestra Tabajara, fotógrafos dos Associados, de agências internacionais e dos jornais e revistas franceses retratavam o cineasta Orson Welles meio embriagado tentando dançar xaxado com a atriz Ginger Rogers ao lado do ator Jean-Louis Barrault que ensaiava passos de cururu com a estrela Claudette Colbert. Para Chateaubriand, no entanto, aquelas não eram as vedetes mais importantes da festa que só terminaria no dia seguinte, ao raiar do sol. Seu grande tento tinha sido conseguir levar para Corberville duas austeras senhoras discretamente vestidas a rigor, que, sentadas em uma mesa na beira da pista, pareciam sentir enorme desconforto por estar em ambiente pagão: eram Darcy Vargas, mulher do presidente da República, e sua filha Alzira(Fernando Morais em “Chatô – o Rei do Brasil”)

Segundo Fernando de Morais, Carlos Lacerda ao saber das estripulias de Chatô em Paris, no Jornal “Tribuna da Imprensa”, editou um artigo sob a manchete: “205 mil dólares numa festa em Paris”, tendo ao lado um editorial intitulado: “Afronta”. 


P.S.:

Enquanto reproduzia essa espetaculosa festança dos anos cinquenta protagonizada pelo poderoso e influente senador paraibano “Chatô” nos anos cinquenta, ouvia pela TV Senado um dos capítulos do espetáculo “republicano” que, segundo alguns otimistas, se encerrará daqui a dois dias.

Como agosto ainda não terminou, coisas inacreditáveis poderão acontecer. Se nada acontecer, outros agostos virão com seus casos espetaculares.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de agosto de 2016

Site da Imagem: cantinhodosaber.com.br