13 outubro 2009

O QUE APRENDI LÁ NO ÉDEN





...........O Éden não é uma metáfora, muito menos uma alegoria ou parábola. Metáfora não é, senão no sentido trivial em que todos os nomes são metafóricos.

...........No meu Éden imaginário se situam versões utópicas de religião, de poesia e de psicanálise. Na verdade, para mim, essas utopias são gazuas que servem para arrombar as janelas da realidade.

...........Eu estava lá na pele daqueles dois seres angelicais, transformados em criaturas humanas pelo egoísmo de lutar até a morte pelos seus interesses.
...........Para os Egípcios, o mundo acabou com Alexandre. Para os Bizantinos, com o saque dos Cruzados. Para os Incas e os Astecas, com os espanhóis. No entanto, o meu Éden é herdeiro daquilo que não acaba em cada fim de mundo. Nele se encontra o que se perdeu na realidade comum, ou o que nem chegou a haver. O meu Éden está nas memórias do “não ser” de minha mais remota infância.

...........A lógica no meu Éden não objetiva proibir inferências falsas. Não é uma lógica restritiva, mas uma lógica produtiva. Foi a outra criatura, tirada de dentro de mim, que me abriu os olhos para ver o diferente, que me fez do “não ser” um “ser”. Surgira ali a diferença do inesperado que pela primeira vez me fez pensar, investigar e duvidar.
...........Do dia-a-dia de minhas dimensões edênicas, uma via se abriu para superar a relativa paralisia em que me encontrava, quando estava só. Enveredamos agora, eu e a minha “costela encurvada”, pelo caminho dos resultados imediatos. Com o feminino tirado de mim, aprendi que cada um se faz no outro; cada um se vê no outro. Juntos, descobrimos o “verbo” que significa ação. Surgiu então o primeiro diálogo humano sob a forma de uma audácia transgressora que cuidava modelar um novo rosto contemporâneo de nosso Criador, com nossa própria carne e sangue. Porém, Deus não é um alvo abstrato, nem uma necessidade lógica, tampouco um alto edifício em que se harmonizem nossos silogismos e nossas fantasias. Deus não é um destilado inodoro e neutro; nem o feminino nem o masculino de nosso cérebro.

...........Saímos eu e minha costela arfante e falante, do ritmo da marcha de Deus, para se ajustar ao ritmo de nossa própria vida, pequena e fugaz. Queríamos conhecer o efêmero, vibrante e misterioso prodígio da existência, com olhos novos, com ouvidos novos, com paladar e olfato renovados pelo desvairado desejo de ser como o Criador.

Expulsos do Éden descortinou-se a nossa frente o belo e fascinante espetáculo de um mundo anárquico e hedonista.

O Criador vendo o Éden vazio vaticinou que um dia resgataria o homem. A desobediência do homem não seria obstáculo, porque um dia, a Sua palavra escrita em nossos corpos se converteria em Sagrada Escritura.

A saudade do Éden nos persegue invisível por trás dos fenômenos, querendo nos levar de volta àquele lugar vibrante e sobrenatural onde fomos forjados.

Em meio a anarquia desabalada do mundo, a saudade do Éden nos faz afundar nos subterrâneos de nossas almas, numa tentativa inócua de reaver o “não ser” do Paraíso perdido.

......... ......................


...................................DEUS

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos
!...

(Fernando Pessoa)



Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 13 de outubro de 2009



9 comentários:

Hermes C. Fernandes disse...

Belíssimo ensaio. Como é bom encontrar um texto capaz de despertar algo em nós.

Leonardo Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonardo Gonçalves disse...

Caro Levi,

Que andas lendo, amigo? Desculpa as comparações (nada mais bobo que comparações), mas vi algo daquela sensibilidade que conheci nos teólogos neo-ortodoxos, principalmente em um que se situou bem em cima do muro, na fronteira do liberalismo e da neo-ortodoxia, à saber, Paul Tillich.

Contudo, se tiver que escolher entre Tillich e meu amigo Levi, fico com a segunda opção. O Deus de Tillich é muito impessoal. Prefiro o Deus "abelhudo" do A.T., amante arrebatado e as vezes em fúria. Prefiro ainda a expressão amorosa e humana de Jesus nos Evangelhos.

Enfim, o Deus dos poetas loucos, dos soliloquistas, dos existencialistas... O Deus de Barth. O verbo encarnado, Deus-homem (paradoxo e escândalo!) sempre presente nos ensaios de Levi Bronzeado.

Emocionante a leitura!

Um forte abraço;

Leonardo.

Levi Bronzeado disse...

Prezado Hermes

Sou grato pela sua passagem aqui nesse recanto, e pelas suas palavras de incentivo

Aprecio sobremaneira os seus textos, pela clareza e objetividade das releituras de fatos bíblicos, que você traduz de uma forma tão especial e prazerosa.

Um abraço fraternal,

Levi B.Santos

Levi Bronzeado disse...

Prezado Leo


Somos em parte aquilo que lemos.

Como todo discípulo, sofremos
influências de nossos mestres.
Harold Bloom escreveu um grande livro sobre esse tema, “A angústia da Influência”.
Mas a influência é uma dádiva Divina, à medida que nos apossamos do outro, naquilo que ele tem de mais precioso.

Na natureza “tensiva” da atividade poética reside também o paradoxal: às vezes é uma afirmação que nega, e às vezes é uma negação que afirma.

Nunca me cansarei de falar sobre esse Deus que se fez carne (homem) para viver o grande paradoxo: “A loucura da cruz”

Quanto aos grandes pensadores da Teologia: Paul Tillich, Barth, Bultmann , entre outros, não nego que seus argumentos me influenciaram. Que bela assertiva de Tillich: “ A vida precisa ser uma constante afirmação do ‘ser’ à despeito do ‘não ser’”.

Bem, nada do que escrevi nasceu de mim, tudo veio das ruminações de uma alma órfã de pai e sedenta de Deus.

Seu emocionante comentário me tocou profundamente.

Um grande abraço do soliloquista (rsrsrs)

Levi B. Santos

Gresder Sil disse...

Levi:

Ao rever e percorrer novamente este tema: paraíso perdido, e toda essa riqueza de significados poéticos filosóficos no seu texto, você me fez escrever sobre o assunto afim de que eu tome uma posição definida (?) sobre a literalidade da narração da historia da Queda. Escrevi em forma que eu possa aproveitar mais pra frente lá no blog

segue o texto:

Fruto proibido, arvore da Vida, serpente que fala e que anda (ou voa, quem sabe?). Tudo isso soa meio fabuloso demais. Parece uma historia contada para a infância da humanidade.

Ai o homem cresce e se pergunta: mito ou realidade, literal ou fictício. Porque não tudo isso? Porque não a possibilidade de o literal se tornar essencialmente literário. E porque não a literatura ser o retrato poético de uma realidade bruta, crua.

Toda essa sensação de absurdo patético que às vezes sentimos, reincide na realidade de não estarmos no nosso estado natural de ser e existir em Deus e no mundo. A Queda é real, apenas Moises que era meio poético.

Ao se esbarrar no poema do enredo desta historia a mente cética a descarta por completa, como pessoas que ao jogar a frauda suja da criança joga fora o bebe também. Mas e ai! Porque não desse a trama do Éden, Adão e Eva não existiram?

Isso é crucial trata-se de uma necessidade lógica, pois ate mesmo a ciência precisa de um primeiro casal, um adão macaco, uma Eva chimpanzé. A questão não é se eles são personagens reais, mas sim que é absolutamente imperativo que eles tenham que ter existido. Pois estamos aqui, ou não?

De uma coisa eu estou certo, o paraíso e sua perca existiram com toda a sua profundidade de significados e riquezas de interpretações, quer existencial metafísica ou alegórica religiosas. Agora só não me venham contar que a serpente falou, pois isso com certeza é invenção da mente fértil de Eva para ludibriar o coitado do Adão.

Levi Bronzeado disse...

Prezado Gresder


Realmente, o que podemos aprender da história da criação e queda do homem não está na força da letra impressa de forma mítica no Gênesis, está sim nas entrelinhas; está nesse espaço vazio para alguns, porém cheio de simbolismos e signos.

Nesses signos reside toda a gama de afetos, vontade e desejos humanos em relação ao que é transcendente.

Tenho o mesmo ponto de vista seu. Não tem nenhuma graça a história do paraíso perdido, entendida de forma literal.

Se a serpente falou para Eva, na minha imaginação deve ter acontecido dessa forma:

A serpente ornamentou e dourou o fruto da árvore, de um jeito irresistível, como se faz hoje em dia nas Lojas de consumo no final do ano, e lançou a mulher, a seguinte propaganda ou lábia:

Terás o que ninguém tem enfim. Se comerdes deste fruto, serás como Deus ─ disse com melosa voz, a bela e ondulante serpente.

E Eva deve ter pensado: “Deus não”! É impossível. Mas “deusa” eu serei. (kkkkkkkk)


Abçs,

Levi B. Santos

Danilo Fernandes disse...

Levi, depois de ler apaga o comentario acima. Perdi seu e-mail, entao mandei assim

J.Lima disse...

Querido Levi.
Como já percebeu sou fã de leituras que abrangem a psique humana.

O seu texto tem uma profundidade incrível, também como você acredito que a bíblia não é um livro para ser lido de forma literal, buscando significado na letra do texto, mas sim nas entrelinhas do texto, não no escrito de quem escreve, mas na alma do escritor.

Levi tenho comigo que a bíblia é um livro de poesia!Poesia das utopias do homem, dos seus fracassos, é um livro que fala da história de todos os homens que um dia perdeu o éden e agora o seu desejo é reencontra-lo.

Enquanto ele vai tentando reproduzir esse éden perdido no deserto escaldante da existência...
Abraço e mais uma vez parabéns!