02 dezembro 2009

NO INÍCIO ERA A DÚVIDA...



Era um garoto de apenas oito anos de idade, que não conseguia aprender nada na escola, por ser muito confuso da cabeça.

O professor e reverendo Engle, por diversas vezes, chegou a perder a paciência com esse menino agitado e perguntador, de cabelos eternamente despenteados, que se recusava a decorar as lições, diferente dos demais alunos de sua classe, e ainda por cima ouvia mal.

Naquele ano de 1855, o pastor era o único professor da única sala de aula da cidadezinha de Milan, no estado americano de Ohio, perto da fronteira com o Canadá. “Cabeça oca” ─, foi o terrível diagnóstico dado por seu impaciente mestre, o que, de certa forma, contribuiu para que a criança abandonasse a sua carreira de estudante tão cedo. No entanto, à medida que ela crescia, a inquietude, a vontade de saber e o excesso de curiosidade o dominavam cada vez mais.

Lia a Bíblia com avidez incomum. Ficava por longo tempo extasiado com o Livro da história da criação (Gênesis), principalmente a parte que se referia à criação da luz, quando Deus disse: “Haja luz, e houve luz”. Tinha pavor à escuridão, e à noite, em sua cidadezinha, sentia-se incomodado com a fraca luz dos lampiões de gás, que deixava o seu mundo numa penumbra mais triste e melancólica do que as manhãs nubladas da estação de inverno

Um belo dia, lá estava o rapazote com a velha Bíblia de seu pai a tiracolo, imóvel como uma estátua, mal piscava os olhos que se encontravam fixos em Hebreus 11, 1: “Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem”.

Não sabia ele, que a fé iria brotar do imenso território de dúvidas do seu ser. Não sabia que, da dúvida entre aceitação passiva da pequenez do seu mundo e a não conformação com o estado de sua cidadezinha pobre em iluminação, nasceria algo de extraordinário em benefício de toda humanidade. Diariamente, a dúvida ─ sua insistente e inseparável companheira ─ assomava-lhe a alma deixando-o perplexo e mentalmente carregado de pensamentos paradoxais, como as duas correntes elétricas opostas de Faraday. Nas cordas do seu coração reverberava as vozes da ambivalência, sob a forma de gritos: “Posso, não posso? Devo, não devo? Crio, ou não crio algo para clarear a tristonha penumbra em que minha cidade encontra-se mergulhada em suas longas noites?”

A eterna dúvida consumia o seu juízo, deixando-o insone por muitas noites, Às vezes, nesse constante movimento pendular da mente, ficava perguntando para si mesmo: “Nesse meu intento de querer que a noite vire dia, não estarei eu, contrariando o que Deus fez como imutável?

De tanto pensar em inventar algo que iluminasse o seu mundo noturno, ele uma noite sonhou. Sonhou que a sua pequena cidade tinha se tornado uma metrópole, e que nela não havia noite, pois ao por do sol, várias bolotas incandescentes como que soltas no ar, iluminavam-na de tal maneira, que se permitia encontrar até um alfinete no chão de pedras da rua.

O terceiro versículo da primeira página do livro de Gênesis, junto com o que lera na carta aos Hebreus, dera-lhe ânimo incomum para seguir no seu projeto, naquilo que seria sua mais audaciosa invenção. Agora sim, sentia-se imbuído daquela fé, de que o autor do livro dos Hebreus escrevera. O enlevo, que o fazia sonhar acordado, imprimira-lhe no seu espírito a certeza de que não demoraria muito a realização do seu maior intento, tudo era uma questão de tempo. De experimento em experimento, ele chegaria um dia, a criar algo que pudesse resistir à tensão entre o pólo positivo e o pólo negativo da eletricidade, algo que unisse esses dois condutores aparentemente paradoxais, sem provocar explosões ou destruição.

O dia ansiado e sonhado chegara. Surgiu, quase que por acaso, um resistente filamento de carbono que tinha o poder de segurar e controlar a força dos dois elementos contrários e, finalmente, transmitir o clarão que transformaria suas noites de trevas, em dias iguais aos de sol de verão.

............Antes de batizar com o nome de “Resistência”, o filamento incandescente da lâmpada, o inventor tinha lido e refletido sobre o que estava escrito e grifado em sua Bíblia, lá em Efésios 6, 13: “Portanto tomai toda a armadura de Deus, para que possais “resistir” no dia mau e, havendo feito tudo ficar firmes.”

.............Por um tempo, continuou folheando o Livro Sagrado, até que, num ato repentino, pegou de um lápis e escreveu a palavra “lâmpada”, riscando o termo “lamparina” que estava escrito no livro dos Salmos. “Lamparina para os meus pés é a Tua palavra [...]”, ficou assim, na sua nova versão: “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra [...]”.

.............No intuito de rever ou percorrer com a mente todos os seus passos até a grande descoberta, deixou rabiscado na contra capa de sua gasta Bíblia a seguinte oração: “Do escorregadio e minado campo da dúvida, nasceu a FÉ, que me fez ver o amanhã com os olhos do coração, que por meio das aflições dos experimentos infindáveis, infundiram em mim a paciência para que eu perseverasse pelo tempo que fosse necessário, nas mãos de Deus, como um instrumento Seu na consecução de uma dádiva que seria para toda humanidade”.

P.S.: A invenção da lâmpada por Thomas Edison, entre suas muitas descobertas, completou 130 anos no dia 21 de outubro do corrente ano.



"A todo cientista minucioso deve ser natural algum tipo de sentimento religioso, pois não consegue supor que as dependências extremamente sutis por ele vislumbradas tenham sido pensadas pela primeira vez por ele. No universo incompreensível revela-se uma razão ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande engano. Quem julga deduzi-la de minhas teorias científicas, mal as compreendeu. Entendeu-me de forma equivocada e presta-me péssimo serviço..."

(Albert Einstein (1879–1955), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1921)



Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de dezembro de 2009

9 comentários:

Guiomar Barba disse...

Obrigada por esta bela história. Não sabia que a lâmpada havia nascido da união raciocínio mais espírito iluminado... Lí e reli com emoção... Estou passando adiante, uma informação gloriosa...

Por favor, leia no nosso blog a postagem DEEEEEEEEEUS!!!
Abraço com muito carinho.

Marcelo Negreiros disse...

Gostei muito da biografia do Thomas Edison e não conhecia estas particularidades. Que o Senhor continue levantando homens simples mas que trazem grande impacto à humanidade como o caso de Edson.
Também achei muito pertinente a frase de Einstein.

Shalom!

Eduardo Medeiros disse...

Sem dúvida, não há fé; a fé só pode nascer de um estado em que a dúvida embaça os caminhos, esburaca a trilha, faz-nos pisar em falso, nos leva aonde não pensávamos em ir. E nesse processo de caminha-tropeça-cai-levanta do entendimento e das emoções, ela pode surgir e irromper do meio da dúvida para se tornar uma lâmpada para o caminho esburacado da existência.

Excelente post, Levi.

abraços

Marcio Alves disse...

No meu ponto de vista, acredito que exista uma Fé natural, que brota do mais intimo do ser.

Mesmo os mais ateus a possuem.

Fé natural é o sentimento que “empurra”, por assim dizer, toda e qualquer pessoa, a tomar atitudes levando-a, a acreditar e ter esperança que conseguira o que deseja.

Só de, a pessoa levantar de manhã e ir para o trabalho, enfrentando e vencendo muitos obstáculos, na esperança de conquistar o pão de cada dia, isto se chama Fé, mesmo que não seja exatamente a Fé como crença em Deus, porém é Fé como crença na vida.

Parafraseando e redefinindo Fé de Hebreus 11:
“Ora, a Fé natural é a certeza de que vou conseguir o que desejo, mesmo sem ter provas visíveis de que as alcançarei”. (Autor: Marcio Alves)

Levando isto para o campo das ciências – onde a meu ver, é isto que você faz, mestre Levi.

Podemos afirmar que todo cientista – mesmo sendo ateu – possuiu ou possui a Fé natural, pois criaram do nada as maiores invenções da humanidade.

Neste contexto e sentido, podemos afirmar que Fé e ciência andam de mãos dadas – concordando com você, Levi.

Agora, Fé como religião não precisa necessariamente de provas cabais da ciência, por ser Fé ela é – concordando com o Eduardo.


Um grande abraço


Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Levi Bronzeado disse...

Prezado Márcio

O seu lúcido e sábio comentário teve o condão de trazer à baila a dicotomia: Fé natural e fé religiosa.

Tillich, valendo-se do seu conhecimento de psicopatologia chegou a distinguir saúde e doença na fé. Se os elementos inconscientes predominarem na constituição interior da pessoa, o que se desenvolve não é fé, mas “atos obsessivos de diversos tipos” ─ afirmou ele.

Eu gostaria de saber Marcio, se a fé “religiosa” a que você se refere, acontece da mesma forma, no âmbito dessas grandes religiões: a muçulmana, a cristã, a budista e a Judaica.

Posso está equivocado, mas penso que a intolerância entre os povos tem por raiz, a “guerra santa” (patológica) entre “fé religiosa” e “fé religiosa”. Esses dois tipos de fé não nascem da dúvida, como a fé do “ensaio-ficção” que fiz sobre o inventor da lâmpada.

A fé religiosa levada as últimas conseqüências se alimenta do ódio imediato, inconseqüente e impensável, e não do amor ao inimigo.

Após a destruição das torres gêmeas nos EUA, Bush, em público declarou guerra ao “eixo do mal” (os mulçumanos radicais). Do outro lado Bin Laden e os países árabes que o apoiavam declararam guerra à Satã (Americanos).

Sei não meu caro amigo, mas vou ser sincero: a fé que ando observando nessa minha longa caminhada de cristão, é a fé que divide, é a fé baseada em pré-conceitos, é a fé que acolhe o estrangeiro para despersonalizá-lo. É a fé que ganha almas para depois escravizá-las com mais intensidade, do que quando estavam “perdidas”.

Sobre esse assunto, gostaria que você lesse um texto que postei alguns meses atrás, e se possível , deixasse o seu comentário. Tratra-se do ensaio:

“Das Trevas para a Escravidão Eclesiástica”.

Um abraço fraternal

Levi B. Santos(http:www.levibronze.blogspot.com)

Gresder Sil disse...

.
Eu fiquei muito feliz em descobrir mais um grade da humanidade desescolado, ou seja, um que não precisou da escola para provar ao mundo o seu saber, visto que estudo escolar só serve para os normais pois os anormais rompem essa barreira, falo isso para puxar a sardinha pro meu lado que não passei nem da quinta serie rsrs

Toda grande alma presume um Deus, o que eles não acreditam ou acreditam é que a revelação de Deus ( conforme foi concebida pelos homens) é muito indigna desta ser incrivelmente imcompriencivel

Eduardo Medeiros disse...

Márcio: Sua frase "Fé como crença na vida" pode ser revolucionária, assim como a sua releitura de hebreus (depois me chamam de herege, tá bom!)

Arrisco-me a dizer, que a fé na vida, na existência, no real, é a única fé que precisamos.

Ela por si só, já nos bastaria para encarar a vida de frente; para encarar a vida não só como desafio, mas como construção; fé na potencialidade da vida; fé no que eu "vejo" e por isso, posso transformar.

A fé religiosa seria um "plus" da fé na vida. E essa fé religiosa também só terá sentido existencial se for de "baixo para cima" e não, de "cima para baixo".

A vida, é o sorriso de Deus; quem crê na vida, crê em Deus, ainda que não seja o Deus da religião, como no caso dos ateus; aliás, no meu caso também.

Levi:

"A fé religiosa levada as últimas conseqüências se alimenta do ódio imediato, inconseqüente e impensável, e não do amor ao inimigo."

Toda e qualquer religião organizada tende a ser sectária. E por que isso acontece?

Acredito que fé é fé, independente se seja um budista, hinduista ou cristão que a manifeste. O diferencial será apenas qual o conceito de deus que essa fé propõe.

É daí que sai então as radicalidades sempre negativas da fé religiosa: a tendência de desdizer o que o outro diz; não entendem que cada um deve "dizer" segundo compreende a teologia da sua fé. Logo, fé não é teologia; teologia é a sistematização da fé.
É daí que procede todos os males.

Marcio Alves disse...

Mestre Levi e Eduardo Medeiros, não imaginava que um tão simples e ingênuo comentário iria dar o que falar. (Ops! Escrever. rsrsrs)

Dicotomia? – Caro Levi.

Herege eu? – Caro Eduardo. (Não vem que não tem! Quando o assunto é heresia, você esta disparado em primeiro lugar. Não adianta querer vir e passar o bastão para mim, você já é, o maior herege da blogosfera. Rsrsrsrsrsr)

Vamos tentar dar densidade ao meu comentário anterior:
Na minha concepção da teologia da Fé, há pelo menos 7 aspectos da fé, são elas:

1- Fé na existência de Deus:
Esse é o primeiro estagio da fé, onde ela começa a se desenvolver – a meu ver, esta fé é a mais simples, não dá para acreditar na não existência de Deus. Digo mais; é preciso ter mais fé para não acreditar em Deus, do que para crer.

2- Fé que Deus vai fazer:
No consenso comum evangélico, se desenvolveu este tipo de fé – para mim, você acreditar que Deus vai te curar – por exemplo – não é exatamente fé, isso é otimismo, pensamento positivo, mentalização do sobrenatural.

3- Fé como assentimento intelectual:
É o processo da razão em entender e compreender determinada fé – ou teologia da fé – esta categoria eu gosto muito, pois mesmo sabendo que Deus é aquele absoluto misterioso e abscondido, teimo persistindo em entender – aqui vale aquela expressão: Atirei no céu, para ver se acerto na árvore.

4- Fé como confiança em Deus:
É a fé como confiança no caráter de Deus, quem tem essa fé, descansa nos braços eternal e paternal de Deus.

5- Fé como crença:
É a fé em forma de dogmas, sistematizada.

6- Fé experiencial:
É a fé subjetiva do ser, experimentada e crida a parti da própria experiência do individuo – eu entendo e interpreto a frase de Jung que em uma entrevista dada à televisão inglesa, ao lhe perguntarem se acreditava em Deus, ele respondeu: “Eu não acredito, eu sei Deus”. Este “saber Deus” é reconhecê-lo, senti-lo, vivenciá-lo, experimentá-lo não somente de fora para dentro – contemplando o universo – mas principalmente de dentro para fora – no nosso mais profundo e subjetivo ser – todos os dias da nossa vida, e isto vai além dos limites religiosos.

7- Fé natural:
Muito embora a religião não aceite esse tipo de fé, ela existe é provem de Deus, brotando e fazendo parte do mais intimo do ser.

Ainda que não se creia em Deus, crendo apenas na vida, contudo, se crê na vida, logo se crê também em Deus, pois Deus é vida.

Embora na minha frágil teologia, percebo e experimento Deus como ser pessoal, tudo que vejo no universo me remete a vivenciá-lo.

Fé natural é a fé na vida, que trabalha a partir da perspectiva humana.

Continua............

Marcio Alves disse...

Continuação.......

Por isso, esta na hora de sair do armário existencial e fazer uma declaração que vão chocar alguns (muitos?) crentes: “Apesar de crer em Deus, vivo esta vida como se ele não existisse”.

(Neste ponto, meu caro Eduardo, você foi magistral, não somente leu o meu texto, mas leu meu coração por trás do mesmo)

Não espero por milagres, não busco livramentos, não vivo com expectativas de uma possível intervenção.

Aliás, abro mão de qualquer intervenção de Deus, que me faça ter mais sorte na vida, do que aqueles que sem religião enfrentam a vida com coragem e dignidade.

Vou mais além:
Acredito que a fé natural honra a Deus muito mais do que a fé “do Deus que faz”, que faz do ser humano uma eterna criança dependente.

Deus nos fez autônomo, se Ele quisesse que vivêssemos o tempo todo pensando Nele, já teria aparecido.

Mas Deus se ausenta para dar espaço ao ser humano, para que seja livre e independente – embora tudo que existe e se mova, existe e se move em Deus, pois Ele é a fonte e sustentação de tudo.

Concordo plenamente com Rubem Alves quando diz que se alguém pensa muito no ar que respira é por que tem asma, pois se não tivesse problema nenhum, nem pensaria no ar.

Assim é o religioso, que pensa obsessivamente em Deus, pois tem falta Dele.


Agora mestre Levi em relação ao seu comentário, destaco:
“Sei não meu caro amigo, mas vou ser sincero: a fé que ando observando nessa minha longa caminhada de cristão, é a fé que divide, é a fé baseada em pré-conceitos, é a fé que acolhe o estrangeiro para despersonalizá-lo. É a fé que ganha almas para depois escravizá-las com mais intensidade, do que quando estavam “perdidas”.”

Esta “guerra santa” que todas as religiões promovem – inclusive a cristã – defende – não Deus, pois Deus é vida, portanto a religião ou religiões verdadeiras é toda aquela que defende a vida – mas seus pontos de vista doutrinários, daí é que surge o exclusivismo religioso, que só aquele determinado grupo possui a verdadeira crença e todas estão erradas.

Acredito que a religião de Jesus não é uma religião de dogmas, crenças, mas sim da vida, do amor ao próximo.

Por enquanto fico por aqui..........

Um abraço

Obs: Desculpe-me pela demora em responder seu comentário Levi, esta semana fiquei sem internet devido a uns problemas no meu Speed. Desta forma, acarretou um “transito” nos meus e-mails.

Outrossim, quando tiver um tempinho, com certeza estarei lendo e comentando a postagem que você me indicou que lesse.

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.