09 agosto 2010

O Menino, O Pastor e o “Demônio da Libido”

Durante os seus três primeiros anos, antes de se tornar um sujeito, ele viveu fortemente vinculado à mãe, e, o único prazer que conhecia era apreender com os lábios os seios fartos maternos, a fim de sugar a seiva branca adocicada e pegajosa, que sempre teimava em extravasar pelos cantos de sua boca. Mais tarde, ele iria entender que aquela sensação de gozo ficaria como um marco a estruturar todos os seus desejos instintivos pelo resto da vida. No âmbito da religião, futuramente, ele iria sentir uma espécie de eterno retorno do gozo primeiro, ao ser acolhido no seio de uma bondosa e simbólica mãe, chamada Igreja.

O desmame foi a sua primeira experiência desagradável. Depois que os peitos da mãe foram interditados, ele nunca se contentou com o engodo da velha chupeta oferecida em seu lugar. Foi quando sentiu a sua primeira solidão, a sua primeira ruptura, a primeira frustração e seu primeiro vazio.

Disse-lhe a mãe: “Meu filho, você já está grandinho, a ordem de seu pai, é que já é tempo de você parar de mamar”. Desse dia em diante, um sentimento de raiva passou a lhe rondar o coração, pois ele não suportava a ideia de que a sua mãe seria exclusiva do seu genitor. Durante muitas noites era atormentado por sonhos terríveis, em que um lobo mau, com a cara de seu pai, devorava a sua genitália, e isto, deu lugar a um medo permanente de que seu pai fosse castrá-lo, caso pudesse adivinhar os seus sentimentos libidinosos que tinha com relação a mãe, desde que foi impedido de mamar em suas deliciosas tetas. E não é que em algumas noites chegava a sentir uma sensação extremamente gostosa, quando em sonhos sugava vorazmente enormes peitos, lambuzando-se de leite num prazer incontido e inigualável, que a velha “chupeta” jamais o tinha proporcionado.

Um belo dia, o menino já bem crescido, ouviu no colégio uma palestra de um professor de Ciências, na qual ele explicava que aquela sensação do filho para com a mãe, que mais tarde se estenderia para as professoras, era coisa normal de todo menino em passagem para a idade adulta. Foi então, que na sua cabeça, repentinamente, passou um pensamento: “ora, se sou um menino crente, ‘criado na igreja’, vou é tirar as minhas dúvidas com o professor de minha classe, na escola dominical, pois é ele que tem toda autoridade divina para me dizer a verdade”.

Certa noite, na igreja, um reverendo vindo dos EUA, PhD em “Demonologia Sexual” abordou o tema: “Como livrar-se do demônio da libido, em 7 aulas”; e o menino da história, que não me lembro se era Joãozinho ou Pedrinho, para não perder nenhum dos pormenores, sentou-se na primeira fileira da nave do templo. A perplexidade que o tomou com o sermão do pastor, deixou-o paralisado na cadeira por cerca de uma hora e meia. Para surpresa sua, saíu de lá pior do que entrou, pois, não conseguia entender por que ele, tido por todos na igreja como um menino santificado, deixava-se arder pelo demônio de uma paixão ilícita, nas suas noites insones. Nunca tinha ouvido falar que existia esse tal demônio do sexo, mas aquele pastor gospel renomado, segundo a platéia, tinha sido enviado por Deus para especialmente, expulsar os capetas dessa área carnal, que, no dizer dele, desde cedo vinham se infiltrando nas mentes dos meninos e das meninas do rebanho do Senhor.

Foi por esse tempo, que ele começou a orar e jejuar dia sim, dia não, para ver se aquela casta de demônios desaparecia de dentro dele. Dizia “casta”, por que já não estava só apaixonado pela mãe, como também, pela empregada, pela professora, e pela filha da vizinha, entre outras. Perdera bastante peso com os jejuns prolongados; mesmo com a carne fraca, era só pegar do sono após uma ou duas horas de oração ao pé da cama, que logo, logo, os sonhos eróticos trazidos pelos “demônios” o apavoravam. Várias vezes ele se surpreendeu gritando: “está amarrado em nome de Jesus!”.

Esse menino, agora adulto, continua freqüentando esporadicamente a igreja, mas, durante a maior parte do seu tempo, demonstrando que a ambivalência é coisa intrínseca do sujeito e não pode ser exorcizada, se desnuda por completo, mostrando ao mundo virtual cibernético o que está por trás dessa palhaçada infernal de “demônios”, que maneja a máquina da repressão dos instintos humanos em nome de deus.

Ele diz que amadureceu, mas, o fato é que ainda não consegue se desvincular da “imago materna”, pois, quando a nostalgia dos seios fartos em que se amamentou lhe assoma com muita veemência, ele pega sua bíblia surrada junto com a harpa cristã e corre rápido para a igreja. É lá, que o Pedrinho ou Joãozinho da história apazigua seus deuses e demônios interiores. Lá, os seus demônios da lascívia ficam adormecidos, até que o culto termine e ele desperte de novo para a rotina de sua realidade existencial.


P.S.: O ensaio postado, bem que poderia ter este título: “Uma Doce Nostalgia”



Guarabira, 09 de Agosto de 2010

15 comentários:

Oséias Balzaretti disse...

Levi,

Ao ler o texto, tive a sensação de que o menino personagem ali descrito representa todos nós, homens, criados no “seio” da igreja e que ali foram “alimentados” durante algum tempo de suas vidas.

Assim como a figura materna nos acompanhará durante o resto de nossas vidas, o convívio confortável da santa madre igreja também exercerá em nós a “doce nostalgia” de uma espécie de segurança que sentíamos sob o teto “protetor” do templo.

Isa Medeiros disse...

Levi, este Venerável Mestre não estaria passando pela (nem tão) famosa crise dos 10 anos de idade? Ela acontece quando a pessoa é considerada adulta pelas crianças menores e criança pelos adultos.

Análogamente, não estaria o senhor a lamentar o fato de já não se sentir à vontade entre as crianças assembleianas, ao mesmo tempo em que os Adultos ainda não abrem o jogo pra você, lhe contando os mistérios da vida?...

Desculpa se viajei demais. Abraço.

Levi Bronzeado disse...

Acertou em cheio meu caro Oseias, ao concluir que, "...o menino personagem descrito representa todos nós, homens, criados no seios da igreja..."


Os seios maternos foram o primeiro objeto original que provocou gozo ou prazer no ser em formação.

Dessa doce época não nos lembramos, porque hoje, ela faz parte do nosso lado esquecido, do nosso inconsciente. Lembremos que possuir a mãe seria cometer o incesto.

A Nostalgia surge em nós como decorrência do objeto original perdido e impossível de reencontrar. Do desejo da posse da mãe cortado pelo desmame imposto pelo pai, ficaram no humano, os seus reflexos, representados pelos eternos lamentos, eternos vazios e nostalgia.

É através da Igreja que o crente realiza a posse da figura da mãe num nível psíquico e espiritual.

Pela realização simbólica de reconciliação com o pai (castrador) ele se sente recebendo alento e consolo.. O “gozo” desse fantasioso reencontro é que produz a “suave e doce nostalgia”, de que trata a minha postagem.

Abçs,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

Caro Isa


Não resta dúvida, de que o "sentir-se estranho" no meio de "certas crianças e "certos adultos", é o preço que se paga pelos "mistérios desvendados" (rsrs)

Abçs,

Levi B. Santos

Marcio Alves disse...

LEVI

Segundo a psicanálise o primeiro desamparo sofrido pelo ser humano, não seria o do seu nascimento, quando por sua vez, a criança foi expulsa do confortante e seguro lugar da barriga da mãe, sofrendo sua primeira ruptura???

Este mesmo desamparo que continuará seguindo a todos nós pelo resto de nossas vidas, e talvez por isso, iremos passar a vida inteira buscando nos objetos desejados uma cura para esta dor, que ao invés de aliviar irá trazer mais dor ainda, tanto na saciedade do desejo que trará tédio ao se realizar, quanto frustração ao não ser alcançando???

Abraços

Levi Bronzeado disse...

MARCIO


Você está certíssimo. O primeiro DESAMPARO, surgiu realmente, com o ato violento de expulsão do feto do seu Paraíso Uterino.

A minha intuição no ensaio foi realçar o “Ato de Mamar” e o “Desmame”, pois, a psicanálise considera que o “Mamar no peito da mãe”, se constitui na primeira incursão do ser humano na área da Libido ( prazer oral).

É através do ato de mamar que o bebê vivencia os primeiros afetos de amor e carinho na simbiose que existe entre ele e a mãe. O desmame deve ter fundado o afeto primitivo da nostalgia, nostalgia essa que nos acompanha pela vida afora, e se exterioriza em forma de arte, como, a poesia, a música, a pintura, e também em forma mística, no campo da religião.

Eduardo Medeiros disse...

Levi, essas imagens da psicanálise são de fato, verdadeiras (ainda que atualmente, a psicanálise freudiana tenha recebido várias críticas como você sabe), pois explicam muito bem esse desamparo que temos que passar ao sermos expulsos do “paraíso do útero” e do desamparo ao sermos arrancados do seio materno. A religião cristã nunca lidou bem com o sexo o que resultou em tantos problemas para milhões de pessoas que tiveram que se virar para equilibrar “tesão e oração” rsss

vejo também essa “nostalgia da alma” como uma percepção de que estamos longe da nossa origem (Deus?) e de que a criação, a vida, a existência e o mundo, precisam de uma explicação que nos tire da solidão do acaso, que nos dê sentido, que nos faça sentir que vale a pena viver e de que não somos só um acidente, ou seja, não somos órfãos, temos “pai e mãe celestiais” que apesar de transcenderem a nós mesmos, percebemo-os tão pertos, no íntimo do nosso ser. E matamos essa vontade infantil indo e vindo do seio da mãe igreja, que bem ou mal, ainda nos causa nostalgia.

Levi Bronzeado disse...

Prezado Eduardo


Não me lembro dos tempos do “doce mamar". Contudo, creio que algo ficou esquecido no velho porão dos meus primeiros meses de vida. Acredito que algo tão marcante, não poderia deixar de ser registrado no disco virgem do meu cérebro.

Esse arquivo, com certeza, não foi deletado da nossa massa branca cinzenta intracraniana, ele se encontra perdido na grande floresta de nossos neurônios adormecidos.

Desse primeiro grande registro, que nos foi tirado a força, só sentimos as ressonâncias sob a forma de NOSTALGIAS, ou SAUDADES DO CÉU.


Abçs,

Levi B. Santos

Guiomar Barba disse...

Levi, no caso de ser mulher a destetada rsrs qual o demônio que lhe perturba?

Só não quero que Freud "exprique" rsrs Num sei se ele estava sob efeito...

Abraço.

Levi Bronzeado disse...

Prezada Guiomar

“É comum que o pai alimente a hostilidade entre mãe e filha”, diz a psicanálise freudiana.

Realmente, no âmbito da religião, são as mulheres que levam o fogo sagrado para incendiar as almas aflitas.

Elas são detestadas, de uma forma inconsciente, quando olhadas com certo desdém ou inveja por parte dos líderes eclesiásticos.

Não é à toa, que elas sempre são colocadas nos postos de dirigentes dos círculos de orações, para poder serem vistas e temidas como seres privilegiados que ficam mais próximas do Pai; àquelas que recebem os eflúvios divinos para incendiar a igreja. (rsrs)

Foi apenas uma palhinha (rsss). Se não lhe agradou, peço-lhe minhas desculpas.


Abçs,

Levi B. Santos

Guiomar Barba disse...

Levi, poucas vezes me senti abafada pelo machismo, os melhores líderes com os quais trabalhei me entregavam seus púlpitos.

Senti apenas o peso do ciúme e invejas de líderes medíocres, talvez por isto que gosto tanto das tetas kkkkkkkkk

Abraço.

Descanso da Alma disse...

Olá, Paz e bem, estou compartilhando seu blog no meu blog e gostaria de saber se há a possibilidade de trocarmos nossos links. O meu é www.descansodaalma.blogspot.com

Abraços

Eduardo Medeiros disse...

Levi, é essa a sensaão: saudade do céu...lembrei-me daquela antiga canção cristã que diz:

Da linda pátria estou mui longe
cansado estou
Eu tenho de Jesus saudade
Quando será que vou?

Temos saudade dessa "pátria", desse útero, desse embalo que nos põe para dormir.

Levi Bronzeado disse...

EDUARDO

Você nem sabia, mas eu gosto de citar muito a estrofe desse hino, nas minhas inserções de psicanálise.

O autor expressou nessa poesia, uma das maiores metáforas do sentimento de desamparo junto com o eterno desejo de voltar ao paraíso perdido.

Quando ele diz: "eu tenho de Jesus saudade", é por que já esteve inconscientemente lá, mamando nas "tetas divinas" de sua bondosa mãe.

A saudade é o gozo imaginário do eterno retorno ao nosso jardim de delícias originário.

Não há nada que a impeça de agir, pois ela está sempre nos assaltando sem respeitar, ao menos, a CASA que racionalmente construímos e demos um NOME por nós mesmos.

Levi Bronzeado disse...

Thiago de Azevedo


De há muito, venho acompanhando o seu blog.

Apareça sempre e registre a sua opinião sobre os artigos postados aqui, semanalmente.

Colocarei o seu link na minha lista de blogs.

Abraços,

Levi B. Santos