27 setembro 2010

SOLIDÃO ATROZ




Atormentas o meu corpo, ó seiva mortal

Atravessas o meu peito como lâmina fria.

Ao Ignorar impassivel o meu drama carnal

Tu recobres de sombras a minha alegria.



No silêncio da noite, sorrateira apareces

Engodando o meu peito com tua presença

Meu desejo e sonho, tu suave amorteces

Permutando a minha fé pela indiferença.



Companheira cruel que aprisiona o humano

No porão monótono em silêncio sepulcral

Nele, tu o cobres com os teus desenganos

E transforma sua ventura em tristeza brutal.



És cilada e aguilhão que perturba meu viver

És sofrimento mudo que me estimula a fugir

Do trivial aconchego que embala o meu ser.

Da tua lúgubre teia, quem poderá resistir?



Meus olhos estão cegos para o mundo exterior

Desfalece o meu corpo, e deparo-me sem voz.

E em delírio me escondo, tal qual um desertor

Quando te aproximas de mim, ó solidão atroz!



Guarabira, 27 de setembro de 2010

Por Levi B. Santos

10 comentários:

Jailson Freire disse...

Prezado Levi, imagino que só seria possível a um poeta escrever tal poema se o mesmo nos permitir enxergar através de uma pequena fenda o que se passa no interior de sua alma.
Muito profundo!
Deus te abençoe.

Eduardo Medeiros disse...

Que belo poema, Levi.

Sempre depois de ler um poema seu eu fico meio assim como se tivesse em suspensão...páro, releio, tento absorver todo drama, toda alegria, toda verdade e toda vida que eles sempre possuem.

Depois de ler teu poema, não sei por que mas Freud explica, lembrei-me do brado atroz de um certo Saulo de Tarso:

"Quando pois, este ser corruptível tiver revestido a incorruptibilidade e este ser mortal tiver revestido a imortalidade, então cumprir-se-á a palavra:

A morte foi absorvida na vitória.
Morte, onde está tua vitória?
Morte, onde está o teu aguilhão?"

E aí, mestre, o que diz a psicanálise profunda sobre o famoso dito do apóstolo?

Marcio Alves disse...

LEVI

Embora os poemas sejam muito mais para se lerem com a alma e sentir com o coração, o seu belo poema me fez também refletir com a razão sobre a solidão que nada mais é do que o máximo sentimento de que há momentos na vida de que o homem será como uma ilha, onde experimentará dores, angustias que por mais que o outro (ou, outros) nos amem muito, não conseguirá sentir e nem poderemos compartilhar totalmente essas mesmas angustias.


Portanto, solidão não é somente se está sozinho, mas principalmente está muito bem acompanhando, rodeado de pessoas que nos amam e ainda sim, se sentir sozinho, único no universo.


Que nessas horas sejamos fortes, pois nada melhor do que o tempo como uma chuva a lavar e levar de nós essa sensação de desamparo cósmico....pelo menos parcialmente e temporariamente.


Abraços

Isa Medeiros disse...

"Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Artur da távola (o brasileiro).

Mas sei que às vezes ela chega. É momento de repensarmos nossos caminhos, refletirmos sobre o porquê de ele estar nos deixando sós...

A multidão de pessoas pode nos fazer sentir sozinhos. A multidão de pensamentos também.

Levi Bronzeado disse...

JAÍLSON


É isso aí, meu caro amigo e poeta!

Quando todo nosso esforço de sonhar e de pensar atinge o ponto vazio dessa grande represa que é a alma, surge então uma poesia, uma música, uma escultura, etc.

Freud, uma vez, disse, que as Artes são como centelhas divinas ofertadas ao homem.


Abraços,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

EDUARDO


De vez em quando o apóstolo Paulo, para fugir do seu fantasma SAULO, explodia em frases emblemáticas.

Essa passagem paulina que você trouxe à baila, é uma das mais profundas.

Parece que estamos vendo o fundador do cristianismo, com sua carne vibrante, querendo desvendar a sua inefável VERDADE, que o GOZO imaginário, o fazia antecipar o dia em que iria finalmente pertencer à invisível e total PRESENÇA.

Se isso, como diz Marcio, é ilusão — Bendita seja sobre nós, essa ilusão que nos faz cantar, poetar e sonhar nos momentos de SOLIDÃO.

Levi Bronzeado disse...

MARCIO


Sentimos SOLIDÃO, porque somos seres FALTANTES.

Aqui, vai para você, um trecho de Françoise Dolto – Psicanalista da Escola Freudiana Francesa, sobre essa nossa companheira diuturna:

“És tu também, SOLIDÃO, quando as casas dos homens estão cheias de seu haver conquistado, seus espaços preenchidos com seu FAZER produzido, és tu que lhes revelas o ABSURDO dos seus prazeres, no melhor do seu cotidiano transformado em monotonia”.


Abraço solitário (rsss)

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

ISA


Você tem a capacidade de dizer muita coisa em poucas palavras (fruto da era digital – rssss)

Acredito que existem dois tipos de solidão ( não sei se isso é
maniqueísmo meu – rsss):

1.A SOLIDÃO boa é aquela que regenera —, é aquela que nos alivia, como uma cerveja bem geladinha em momentos de muito calor.

2.A SOLIDÃO má é aquela que destrói ao nos levar a um isolamento doentio.

Mas, nada como uma boa música para espantar o tédio. Como a SOLIDÃO cantada por Paulinho da Viola:


"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.

| Desilusão, desilusão
| Danço eu dança você
| Na dança da solidão.


Abçs,

Levi B. Santos

Gresder Sil disse...

Explica-me uma coisa Levi, por que parece que quanto maior a cidade e mais moderna maior é solidão dos indivíduos no meio da multidão.

Não sei, mas para mim cidades como são Paulo e seus metros ruas e trânsitos me parecem existencialistas demais, me produz uma tristeza, tristeza que só vai embora quando eu vejo na estrada o céu escuro e imenso, me sinto conectado ao mundo a tudo que pulsa, mas no meio das pessoas me sinto um nada no meio do nada.

Por que você pode me responder?

Porque esta tristeza existencialista na noite iluminada pelas árvores de pedra em oposição à quietude profunda da visão límpida do céu estrelado?

Levi Bronzeado disse...

GRESDER


Um poeta ou pensador jamais vai se acostumar com a Selva de Pedra das cidades grandes que coisifica as pessoas, tirando-lhes a sua essência e os transformando em robôs à serviço do “progresso”.

Para não nos transformamos em um ISSO ou AQUILO, só nos resta, em certos momentos, escondermo-nos sob o manto do pavilhão cósmico estrelado, para nos deliciar com a quietude e o cavalheirismo da “imago paterna ou Dei” internalizada no nosso mais profundo âmago.