Hoje, os pensadores da modernidade, como em nenhuma época, têm de forma surpreendente se voltado para o estudo aprofundado da alma e sua relação com Deus.
Esmiuça-se o Divino como quem disseca um cadáver em uma aula de anatomia, talvez com a finalidade de torná-lo mais científico e mais palatável.
Mas até onde vai essa ânsia devoradora de querer despir Deus do velho roupão?
Vale a pena vesti-Lo com um traje mais apresentável para que a sociedade moderna possa, enfim, se voltar para a espiritualidade?
Será que a imagem do Bom Deus de Israel que se revela e também se esconde, não está ameaçada de desaparecer dos nossos olhos, ao não ter mais estatutos definidos?
Não será verdade, que a consciência do nosso eu pessoal está simplesmente cortada ao invés de consolidada, pois a eterna dúvida vem sempre como recheio no final do bolo, sempre como o resultado final de nossas escaramuças transcendentais?
Será que ao despir Deus do seu antigo roupão, não estaríamos nos precipitando, valendo-nos de todas as nossas formas de suficiências, como se a verdade de Deus tivesse necessidade do nosso brilho e grandeza, para existir?
Será que na ânsia de vestir Deus com uma roupagem mais moderna, não estaríamos exacerbando as nossas contradições ao mais alto ponto, adocicando e aplainando a realidade presente?
Será que ao exercer o nosso moderno diálogo com a divindade, não estaríamos apenas recolhendo pedaços rotos de nossa própria infância perdida?
Será que os fantasmas do nosso mundo interior não estão vindo à luz, de uma maneira grosseira e primitiva como os desenhos toscos que as crianças fazem?
Será que realmente estamos navegando à reboque dos nossos poderosos navios, ou pelo contrário, estamos atravessando um tenebroso oceano, em um frágil barquinho, tal é a nossa condição humana?
O que dizer de nossos pais e avós, cuja evolução religiosa foi harmoniosa quando gozavam de uma saúde psíquica e física dentro dos frágeis limites do que eles percebiam como graça divina?
Será que ao adquirirmos nossas muletas por um preço razoável nas grandes lojas do saber, não estamos contaminando os medíocres felizes que têm sempre a tez florida por estarem bem atrelados, participando de outra felicidade: aquela que se encontra na fé?
Será que a realidade cruel de um Deus dissecado, não vai subtrair o essencial do Velho e compassivo Benfeitor, que envolve a sua criatura no manto confortável da segurança dando-lhe entusiasmo para viver a vida?
Será que na ânsia de estudar minuciosamente o Divino, não estaríamos aviltando a maneira de muitos crerem, ao recobrir o fundo original de sua religião, com outros tipos de delírio o delírio da razão?
Será que não estamos projetando Deus para fora de uma realidade que nos é inconsciente?
Por hora, só ouvimos os ecos abafados de respostas que, talvez um dia, sejam completamente audíveis.
O Futuro o dirá...
...............“O que será, que será?
................Que vive nas idéias desses amantes!
................Que cantam os poetas mais delirantes!
................Que juram os profetas embriagados!
................Que está na romaria dos mutilados!
........................(Estrofe da canção “QUE SERÁ” - de Chico Buarque)
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Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de fevereiro de 2009




