04 novembro 2011

ANTI-SEMITISMO: Uma Abordagem Psicanalítica




Em seu incisivo livro ― “A Questão Judaica” ―, Jean Paul Sartre, de forma corajosa, foge da vala comum de traduzir o anti-semitismo unicamente pelo viés sócio-político-econômico-religioso. Foi através desta obra que ficou mundialmente conhecida a sua frase: “É o anti-semita quem faz o Judeu”.

Sartre, para explicar o anti-semitismo, explorou, de forma convincente, a PROJEÇÃO — um dos mecanismos de defesa do ego, muito bem elucidado por Freud em seus trabalhos. Em psicanálise, PROJEÇÃO, é uma operação pela qual o indivíduo expulsa de si, coisas, qualidades, sentimentos que ele desconhece ou recusa, para localizá-los em outra pessoa ou grupo.
“Se o Judeu não existisse o anti-semita o inventaria” — disse, certa vez, o filósofo francês existencialista.

Douglas Garcia Alves, em seu livro ― “Depois de Auschwitz” ― ressalta bem os componentes psicológicos dos postulados de Adorno e Horkheimer: “O anti-semitismo baseia-se numa falsa projeção. A falsa projeção torna o mundo ambiente semelhante a ela. Os impulsos que o sujeito não admite como seus e que, no entanto, lhe pertencem são atribuídos ao objeto: a vítima em potencial” (página 48)

“O anti-semita escolheu ser criminoso, e criminoso de “mãos limpas”; mais uma vez, foge às responsabilidades; reprimiu seus instintos homicidas, mas encontrou um meio de saciá-los sem admiti-los. [...] O anti-semita é um homem que tem medo, certamente, não dos judeus, mas de si mesmo, de sua consciência, de sua liberdade, de seus instintos, de suas responsabilidades, da solidão, da sociedade e do mundo ― de tudo exceto dos judeus. Aderindo a essa postura, ele não adota apenas uma opinião, mas escolhe também a pessoa que quer ser” (“A Questão Judaica” ― Editora Ática, páginas 34 e 35)

Em “Origens do Totalitarismo” ― volumoso livro, tido pelos estudiosos como valioso instrumento de pesquisa sobre totalitarismo, liberalismo e socialismo, Hannah Arendt, diz: “a complexa psicologia do Judeu médio baseava-se numa situação ambígua: Os judeus médios sentiam simultaneamente o arrependimento do pária que não se tornou arrivista, e a consciência pesada do arrivista que traiu o seu povo, ao trocar a participação na igualdade dos direitos de todos por privilégios pessoais. Assim, a maioria dos judeus assimilados vivia um “lusco-fusco” de ventura e desventura, sabendo que tanto o sucesso como o fracasso, estão ligados ao fato de que eram judeus”. (página 89).

Sobre Sigmund Freud, que teve de fugir para a Inglaterra, perseguido por anti-semitas, assim se referiu o psicanalista Davi L. Bogomoletz, em um artigo publicado na Revista do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos do Rio de Janeiro: "O homem que lutou quase sozinho contra os monstros do lado escuro da mente, lutou também quase sozinho contra a besta anti-semita. Via-se hostilizado por um fogo cruzado — de um lado o alvejavam por seu judaísmo, e de outro por sua psicanálise, e ele sabia que havia algo em comum a essas duas "rejeições". Não fosse ele judeu, os europeus o rejeitariam por causa da psicanálise. Não fosse a psicanálise, ele seria recusado enquanto judeu".

Vale ressaltar aqui a expressão "bode expiatório", usada por Hannah Arendt, para designar uma pessoa ou grupo culpabilizado por algo que o faz alvo de múltiplas emoções, como raiva e medo, além do ressentimento.

Sobre o ressentimento, que é um dos afetos mais evidentes no psíquismo do anti-semita, Maria Rita Kehl, psicanalista da PUC de São Paulo, diz o seguinte, em seu livro ― “Ressentimento” ― Editora Casa do Psicólogo (página 19): “O ressentimento seria o avesso do arrependimento; seria uma cobrança indireta de um bem cedido ao outro por submissão ou covardia”. Na questão judaica, isso, de certa forma, corrobora que em sua queixa, o anti-semita não se arrepende, antes acusa. É algo como uma vingança imaginária.


O fato é que todos nós experimentamos o poder de projeção, milhares de vezes em nossa vida.

“A projeção é um mecanismo de defesa involuntária do ego; em vez de reconhecer as qualidades que desgostamos em nós, as projetamos em outra pessoa. Projetamos nos pais, nos amigos, ou, até melhor, nas pessoas famosas que nem conhecemos. Aquilo que julgamos ou condenamos no outro é uma parte rejeitada de nós mesmos. Quando estamos em meio à projeção, parece que estamos vendo a outra pessoa, mas na realidade, estamos vendo aspectos ocultos de nós mesmos.” — relato sobre o lado obscuro da psique humana, por Debbie Ford, psicóloga da Universidade JFK – EUA, com obras traduzidas em mais de trinta línguas.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de novembro de 2011


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FONTES:

1. “A Questão Judaica” – Jean Paul Sartre – Editora Ática
2. “Origens do Totalitarismo” ― Hannah Arendt – Editora Companhia das Letras
3. “Depois de Auschwitz” ― Douglas Garcia Alves – Editora Annablume
4. “Ressentimento” ― Maria Rita Kehl ― Editora Casa do Psicólogo
5. “Fazendo as Pazes Com os Outros” ― Debbie Ford ― Editora do Grupo Leya

Site da imagem: culturahebraica.blogspot.com

01 novembro 2011

Reminiscências Musicais

Site da imagem: musica-na-agulha.blogspot.com


Nesse dia dedicado aos mortos, quero relembrar canções que marcaram minha adolescência. Na época dos meus nove ou dez anos de idade ainda não havia a energia da CHESF em minha cidade. Existia apenas um velho motor para iluminação das praças principais. O rádio da marca Pyonner, em cima de uma banqueta da sala de estar de minha casa, funcionava ligado a uma bateria de automóvel. Lembro que, balançado para cá e para lá em uma cadeira de balanço daquelas de assento de palhinha, eu me deleitava ao ouvir, extasiado, as músicas dos monstros sagrados da MPB da década de 1950.

Os saudosos cantores, durante quase todo o dia, desfilavam suas vozes melosas nos programas radiofônicos, denominados “Cartão Sonoro”, ocasião em que os locutores desembrulhavam as cartas que os ouvintes enviavam com as suas canções prediletas a serem rodadas em discos de 78 rotações.

O disco, mais parecia um bolachão pesado que deformava quando submetido ao calor do sol; comportava apenas uma música de cada lado. Recordo de uma estante velha onde meu pai guardava, com carinho, coleções de vinil adquiridos como muito sacrifício em Campina Grande ― cidade pólo da região em que morava.

As capas dos discos, quase sempre, eram bem simples: tipo papel madeira com os emblemas, na maioria, da RCA Victor, Odeon e Phillips. Meu pai gostava de ouvir intérpretes, como: Núbia Lafayette, Ângela Maria, Maysa, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Orlando Dias, Anísio Silva, Luiz Gonzaga, entre outros.

Dentre as inúmeras canções que me marcaram, escolhi duas músicas de dois grandes compositores, na voz de uma grande intérprete da bossa nova (dos meus tempos de estudante secundarista). Eles já se foram, mas permanecem, mais do que nunca, vivos em minha memória: Nelson Cavaquinho (29/10/1911―18/02/1986), Ernesto Nazareth (1863 — 1934), Nara Leão (1942 — 1989)


Aos do meu tempo:

Luz Negra de Nelson Cavaquinho e Odeon de Ernesto Nazareth ― na voz de Nara Leão





Por Levi B. Santos

Guarabira, 01 de Novembro de 2011

28 outubro 2011

Salomé, Dilma e os Ministros

Site da imagem: levibronze.blogspot.com



São seis meses de governo Dilma e seis ministros demitidos por corrupção. Não tenho lembrança, nos meus 65 anos de idade, de uma faxina tão ampla como a que vem fazendo a presidente. Que fique claro: sem a ajuda inestimável da imprensa nada teria sido descoberto.

Dilma, que não é tola citou, em seu discurso recente na ONU, a ação positiva e vigilante da imprensa brasileira. (para ler essa matéria, clique aqui).

O personagem de Chico Anísio, a Salomé, criado para importunar o Governo Federal, e cobrar dele medidas enérgicas, anos atrás fez enorme sucesso na TV, e, caso estivesse hoje no ar, com certeza, exibiria um diálogo com a nossa presidente, pelo telefone, algo tipo:

― Ô Dilma, como é que vais de governo? Eu soube que a imprensa, para ti, vale mais do que toda curriola de ministros a teu redor?

― Eu vi teu discurso na ONU. Gostei e me emocionei muito com teu sorriso deslumbrante, no momento em que falavas que a imprensa estava sendo teu maior trunfo no saneamento da corrupção.

― Mas Dilma, tu és totalmente diferente de teu patrono Lula.

― Por que? Estás perguntando por quê?. Ora, é que Lula dava mais tempo ao tempo, até o povo esquecer, sabe?!. Ao chegar o próximo escândalo a gente já tinha esquecido o primeiro. (rsrs)

― Sim, Dilma, eu sei que só tens 37 ministros. Mas Portugal, que nos explorou, tem apenas 16 ministérios ― É, é, vou concordar contigo que eles têm menos problemas que nós.

― Mas tu não achas que na base de um ministro a cada mês sendo jogado na rua, no final de dois anos, não corres o risco de desfigurar o que o teu patrono construiu com tanto trabalho e sigilo em oito anos de mandato?

― És cristã, Dilma?

― Católica, e também Protestante?

― Ah, sim! Faz parte, faz parte... Entendo (rsrs)

―Vou torcer pra ti. Mas vou te revelar um segredo: Tem gente da bancada evangélica que está, agora, só pregando nos púlpitos de suas igrejas, o que o apóstolo Paulo costumava ensinar no começo do cristianismo:

"E quando isto que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir de imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita”. Ou seja: Eles estão pegando uma carona no apóstolo Paulo, para propagar que o fim da corrupção só terá fim na outra vida (kkkkk)

― Dilma! Dilma! Alô, alô, alô....

― Aaaaah, desligou o telefone...


Por Levi B. Santos

Guarabira, 28 de outubro de 2011

23 outubro 2011

Guerra pelo Butim da Copa do Mundo 2014

Site da imagem: toupeirasdobrasil.blogspot.com


A guerra pelo butim da Copa do Mundo 2014 já começou. Segundo um site da Câmara dos deputados, a festança renderá 63 bilhões ao Brasil il il il..., só de impostos.

A porta já foi aberta para a roubalheira sem limites, através de uma monstruosidade, denominada dispensa de licitação de obras para a Copa ― aprovada recentemente na Câmara por 276 votos a favor e 76 contra, sob o rótulo de “Flexibilização de Licitações para Obras da Copa”.

Reinaldo Azevedo, em sua crônica de hoje (dia 22), revela boa parte dos contatos da quadrilha que já desvia dinheiro para ONGS desde o tempo do Todo Poderoso Lulla. Segundo esse colunista, “Faz tempo que o Ministério do Esporte é um caso de Polícia… Federal!! Os próprios órgãos de fiscalização e controle do governo mais ou menos infensos aos esquemas organizados para roubar dinheiro público cobram a devolução de mais de R$ 40 milhões repassados a ONGs que não fizeram o trabalho para a qual foram contratadas. Boa parte delas tem algo em comum: são tocadas por pessoas ligadas ao PCdoB, partido do ministro Orlando Silva, que lotou a pasta de militantes da legenda, muitos deles ex-diretores da UNE, como ele próprio. É o comunismo de resultado… para os comunistas”.

A luta encarniçada pela dinheirama que será torrada pelos diversos estados do país que sediarão a Copa já bateu às portas do Palácio de Dilma, e o desfecho será demorado, pois vai requerer muita negociação nos bastidores para dividir, de uma maneira equânime, o grandioso butim com os mercadores partidários. O difícil é deixar todo mundo satisfeito, pois nessas ocasiões surge sempre àquela velha querela: “Se eu não receber tanto, vou detonar o esquema”.

O humorista, José Simão, que escreve na Folha de São Paulo, falando sobre a a Copa de 2014, afirmou recentemente “que não entende por que estão todos espantados, já que desvio de dinheiro é um esporte genuinamente nacional (Rarará!)

Acredito que o site Youtube.com, até as vésperas da suposta copa 2014, deverá ficar congestionado de vídeos de indignação, de denúncias as mais escabrosas, algo como a pequena amostra, abaixo:


Por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de outubro de 2011


15 outubro 2011

O CUSTO DA DESPERSONALIZAÇÃO




Pessoas que se sujeitam, incondicionalmente, às normas, regras e dogmas que a razão teima em não aceitar, perdem os limites de sua individualidade, ficando eternamente desprovidas de qualquer opinião.

É claro que não podemos olhar com bons olhos normas sociais, políticas ou religiosas que estimulam o indivíduo a castrar a sua capacidade de pensar, a ponto de achar heróico morrer pela instituição ou pela pátria sem saber o real motivo da guerra na qual imaginariamente está inserido.

Entendo que uma pessoa pode participar do seu grupo ou confraria sem que seja necessário abrir mão do seu senso crítico. Dedicar o melhor de si para satisfazer vontades e caprichos de pessoas egocêntricas que não respeitam a subjetividade do outro, não significa altruísmo ou generosidade: é, sim, uma alienação.

Certo é que, nós, como seres da falta e do vazio existencial primevo, ansiamos pela completude e imortalidade. Mas isso não significa que devamos perder o nosso espírito de decisão pessoal, agarrando-se ao que a mídia preconiza como “tábua de salvação”.

Há situações em que dominados pelo MEDO, alguns correm para familiarizar-se com grupos ou instituições eclesiásticas que oferecem aconchegos “espirituais” os mais diversos. No mais das vezes, ao adentrar esses recintos templários são obrigados a carregar fardos pesados, sofrendo uma espécie de descaracterização ou despersonalização que subverte totalmente o sentimento religioso autêntico.

O recalcamento do ”eu” interior desse indivíduo não é exercitado impunemente. Não raro, o indivíduo despersonalizado passa a denegrir a realidade terrestre.

Ao sentir-se todo iluminado pelo que percebe como “luz celeste ou divina”, lançando as suas sombras infernais sobre quem não é de seu grupo, essa pessoa cai na obsessão ou cegueira de não admitir que o “profano” é parte intrínseca de si, esquecendo esse lado obscuro da moeda humana. Consequentemente, esse indivíduo é levado a “satanizar” tudo e todos que estão fora de seu convívio, como se a divindade se enriquecesse daquilo que o homem se despoja. Não consegue se desvencilhar daquele ser de voz tonitruante que, lá dentro de si, se zanga e o intimida. Quando sai do “script”, por enxergar em seus sonhos uma tênue linha além dos medos, sente-se imensamente culpado.

A despersonalização provoca no homem uma dependência ou vício. Como fregueses contumazes de grandes lojas, pagam um preço alto por um produto, sem o qual não pode se sentir participante do status midiático institucional. Nesse estado, ele traduz como “verdadeira” a sua tez florida vista com outros olhos, que não os reais. O seu Deus benfeitor e compassivo nasce do fervor com que é enfeitado, como se fosse simples lata ou latão resplandecente. Diz que essa é a única maneira autêntica de CRER, porque não é aviltado por aquilo que mais reprime ou teme: a dúvida.

Incessantemente, o indivíduo despersonalizado tem que reprimir sua vida interior, para tentar viver de acordo com o ideal de perfeição vigente na sociedade de consumo. Para que isso “aconteça”, ele não titubeia em repelir todo tipo de sensação ou desejo que esteja em desacordo com seu “IDEAL HERÓICO”, mesmo que para isso tenha que abdicar de viver a sua intimidade de forma livre e rica.

Eis a cruel receita para a despersonalização:

“FALAR SEMPRE O QUE LHE FOI DITO” — “OLHAR SEMPRE A MESMA PAISAGEM” — “OUVIR SÓ AQUELA MÚSICA EXAUSTIVAMENTE ENSAIADA”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 15 de outubro de 2011

Site da imagem: seuanonimo.blogspot.com

09 outubro 2011

Inesquecíveis Momentos Com o Meu Amigo “X”

Em minhas conversas com meu amigo “X”, tenho sempre batido numa tecla: a de que aquilo que se pensava no passado como parte da própria vida mental humana constituída por percepções e sentimentos considerados ou como coisas sobrenaturais e estranhas ao EGO, hoje, não mais são atribuídas ao mundo externo, mas entendidos como fenômenos que se originaram na própria psique.

O meu amigo “X”, em uma das cartas a mim endereçadas falou-me de sua vivência de igrejeiro, e a conclusão a que tinha chegado recentemente, é a de que a religião é uma ilusão, ao mesmo tempo em que fazia uma ressalva: a de que não chegara a assimilar essa coisa de “sentimento oceânico” ou sensação de algo ilimitado que eu lhe havia falado tempos atrás. Certa vez, lembro-me bem, ele falou veementemente que, “o crente só é crente devido a promessa de uma recompensa”.

Uma vez, cheguei a refletir silenciosamente, ante o argumento muito forte que ele usou, quando me disse: “talvez o crente seja um mercenário, ‘amando’ e ‘servindo’ a Deus só para ser recompensado por Ele”. Intuitivamente, talvez, estivesse querendo que eu compreendesse que o “amor” cristão não era desinteressado; ainda reforçou dizendo: “Não se ama a Deus, se ama o que ele tem para nos dar”.

E não é que cheguei a aplaudi-lo quando ele, numa tirada sensacional, falou-me que “eram os desejos do crente que talhavam um deus correspondente a sua vontade”. Quando o seu rosto cobria-se de rubor, eu já sabia o que ia sair de sua boca: “Deus não existe!” —, dizia de punho cerrado. Eu entendia a sua linguagem: durante o verdor dos seus melhores anos ele vivera deslocando o seu sentimento religioso para uma figura paterna antropomórfica, que na sua concepção habitava um outro mundo de paz e harmonia — um sucedâneo de seu pai natural, que nunca chegou a realizar por completo os seus desejos e suas fantasias de criança.

Numa ocasião em que dialogava sobre o “sentimento saudoso” de ansiarmos pela completude perdida, ele ficou bastante contrariado quando eu repeli as suas racionalizações, dizendo que, “embora uma pessoa rejeite toda a crença, dogma e ilusão religiosa, não significa que ela tenha anulado o sentimento nobre de ‘re-ligar-se’ a um éden utópico”. Mas o meu amigo não se dando por vencido retrucou imediatamente: “Não consigo identificar em mim esse tal ‘sentimento sublime!”.

O meu amigo demonstrava dificuldade em assimilar o que eu entendia como “sentimento religioso”. No entanto, esse afeto estava bem presente ali, nos momentos idílicos que passávamos trocando ideias. Eu sabia que o vazio ou “buraco” decorrente do primeiro desamparo experimentado, é que fazia surgir em nós o desejo de RE-LIGAÇÃO, que a instituição eclesiástica a qual ele antigamente pertencia, prometia para o fim dos tempos, desde que se submetesse a carregar fardos pesados da subserviência, sem questionamentos, geralmente apresentados como lei divina.

Tentei convencê-lo de que, às vezes, as pessoas esquecem que esse afeto de natureza primária existe, por exemplo, quando se está escrevendo ou lendo um romance, apreciando um quadro de um pintor famoso, ou ouvindo uma música preferida.

Quando ele me falou que, “esse sentimento nobre, ou desejo de se religar a algo perdido na nossa gênese era uma espécie de droga, que deixava o sujeito dependente”, eu retruquei, argumentando que, “a dependência psicológica não só se reflete naquele que não pode viver sem praticar seus rituais religiosos regularmente”.

O meu amigo “X” ficou de cenho franzido, quando fiz a seguinte afirmação: “Às vezes, as pessoas procuram a independência e acabam caindo em uma outra forma de dependência”.

“Pense bem no que vou dizer-lhe” —, falei de uma maneira pausada e enfática: “Nos vínculos afetivos familiares ou virtuais, caro amigo, estamos na verdade exercitando o ‘sentimento religioso’, mesmo que de forma inconsciente”.

Não sei o que se passou em sua cabeça quando cabisbaixo e silencioso ficou por alguns segundos.

Lembro-me que, numa noite fria, regada a cafezinhos com biscoitos, ele riu até não querer mais, quando falei que a primeira recompensa, suficiente para que pudéssemos vencer a dor da renúncia e do desamparo, ocorreu quando nos deram a primeira “chupeta” em substituição às tetas verdadeiras de nossa mãe, quando éramos bebês. Demonstrando desapontamento, ele disparou: “isso tudo é presunção!”. Fez cara feia por não concordar comigo no momento em que fiz ver que “o passado de nossa tenra infância, quando ainda não tínhamos consciência, ainda hoje interferia no agir de nós, adultos”.

Em uma de nossas conversações, ele chegou a torcer o nariz quando falei: “Ao longo da vida adulta, mesmo em pessoas intelectualmente sofisticadas esse sentimento nobre não abandona o homem, antes estabelece novos e fortes vínculos buscando atenuar o desamparo metafísico, que à maneira da antiga chupeta, nos transmite uma sensação apaziguante”.

Recordo-me de um de nossos efusivos encontros, em que citei trecho de um autor que o meu amigo adorava ler antes de dormir — Khalil Gibran: “Homem algum poderá revelar-nos senão o que já se encontra meio adormecido na aurora de nosso entendimento”. Pela reação esboçada, pude perceber que ele tinha entendido onde eu queria chegar.

Nessa noite, ficamos até altas horas divagando pelos caminhos tortuosos e enigmáticos da psique.

Despediu-se rapidamente de mim, prometendo voltar na próxima temporada de verão. Deu para ouvir os seus passos se afastando pelo corredor, e, não pude conter a emoção quando percebi que ele assoviava suavemente e com uma perfeição rara, a canção de Chico Buarque — “João e Maria”, sem saber que aquilo era uma espécie de “prece”, uma forma inconsciente de expressar o seu sentimento de RE-LIGAÇÃO com o poço profundo das coisas passadas, dos desejos rotos e desfeitos do tempo de menino.

Não sei o “por quê” de ter ficado por completo gravado em mim, só a última estrofe dessa emblemática música:

“Agora era fatal/ que o faz de conta terminasse assim/ Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim/ Pois você sumiu do mundo sem me avisar/ E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?”.

Por Levi B. Santos

Guarabira, 09 de outubro de 2011

Site da imagem: blogbielsantos.blogspot.com

04 outubro 2011

O Cristianismo Segundo Nietzsche




Os pais e avós, como Protestantes, semearam no espírito do menino, apelidado de “O pequeno Pastor”, o zelo pela religião Javeliana. Mais tarde, na maturidade, Nietzsche — o brilhante estudioso das escrituras sagradas — passou a reagir àquilo que tinha como essencial e imutável, sob a forma de uma contestação vigorosa ao que tinha apreendido da tradição judaico-cristã.

O filósofo “herege” explorou ao máximo a sua natureza reflexiva, e, como homem reativo assumiu a gravidade de uma crescente interiorização dos seus impulsos inconscientes. Ele percebeu que subjacente à doutrina cristã com seus conceitos morais e regras normativas, existia a “má consciência”, ou RESSENTIMENTO, que esgotava as forças dos fieis ao pretender um aprimoramento moral inalcançável.

Nietzsche notou em suas longas reflexões, uma inversão de valores que implicou uma falsificação de Deus. Dessa forma, Javé, que era reverenciado por grandes festas, como forma de agradecimento pela boa fortuna na colheita, na pecuária, etc., foi transformado em um Javé que castiga e recompensa.

Em, “O Anticristo”, Nietzsche, faz ver que basta o homem sentir o desejo de transgressão para que isso, em si, já seja considerado uma prova suficiente de seu pecado e, como isso representa uma ameaça à salvação da sua alma. A desobediência ao sacerdote ou pastor é tida como desobediência a Deus. Psicologicamente, em toda sociedade organizada em torno do sacerdote, os pecados são imprescindíveis: são autênticas alavancas do poder. O sacerdote vive dos pecados, ele necessita que se peque: Deus perdoa a quem se submete ao sacerdote.

Para Nietzsche o poder da igreja depende que seus seguidores se sintam pecadores. A partir daí, o sacerdote inventa proibições para que, somente assim, haja transgressão e, consequentemente, sentimento de culpa.

Giles Thomas Ranson, sobre Nietzsche e o cristianismo, diz:

“O cristianismo ensina que o reino de Deus está nos corações dos homens, mas traiu essa intuição fundamental quando transformou o Reino em outro mundo, um mundo mais além. Quando se desloca o centro de gravidade da vida no 'mais além', o que para Nietzsche é o nada, tira-se à vida o seu centro de gravidade”.

O filósofo barbudo consegue ver na mensagem dos agitadores sacerdotais, um sutil sentimento de vingança: os homens impotentes sob a égide de seu Deus alimentam a esperança do fim do sofrimento em suas ovelhas doentes, que apenas conhecem uma vontade: a de negar a vida.

Para Nietzsche, a moral escrava sempre nasce de uma REAÇÃO, tipo ressentimento, a qual sempre requer, para se fazer nascer, um mundo oposto, em que os fortes abaixam a cabeça para pedir clemência — os seus instintos tornam-se reprimidos, assim como os do rebanho, para poderem participar, enfim, dos benefícios da sociedade eclesiástica reativa.

Segundo o filósofo e escritor Amauri Ferreira, “Nietzsche atribuía a origem do pecado, da culpa e do ressentimento na cultura Judaico-cristã a uma moral que reprime a vontade de potência que quer expandir-se”.

Para o filósofo, o homem cristão torna-se reativo quando vive limitado apenas à conservação da sua existência, o que faz multiplicar o seu sofrimento e necessidade de viver, cada vez mais, submetido às promessas de recompensa oferecidas pelo poder sacerdotal.

Nietzsche, vê no cristão o núcleo do RESSENTIMENTO. Para ele, só resta ao cristão, como fraco, ressentir-se. “O desejo de vingança no crente é recusado ou reprimido. “No cristianismo, sacraliza-se a vingança sob o nome de justiça — é a fermentação da crueldade adiada, transmutada em valores positivos. No cristão ressentido, a dívida permanece impagável: a compensação reivindicada é da ordem de uma vingança projetada no futuro” (Maria Rita Kehl).

“Juízo final?”: “É aquilo que serve de consolo para os seus sofrimentos por toda a vida. Mas enquanto não vem, preferem viver na fé, no amor e na esperança”. (Renato Nunes Bittencourt — “Nietzsche e o Problema do Ressentimento na Moral Religiosa”)

Diz a história, que no final da vida, Nietzsche, entrou em paranóia (esquizofrenia). Pouco antes de morrer, numa dissociação psíquica tremenda, identificou-se com Deus, quando em analogia a um conhecido versículo de um dos Salmos de Davi, assim escreveu:

“Cantai a mim um cântico novo: o mundo se transfigurou e o céu encheu-se de alegria”.

Ass: “O Crucificado”

P.S.: “Nem os loucos erram” — é bíblico. É no estado de “loucura” que aquilo que se encontra reprimido nos porões abissais do inconsciente, aflora com toda exuberância.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 04 de outubro de 2011


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FONTES:

1. Maria Rita Kehl – Ressentimento – Editora Casa do Psicólogo

2. Amauri Ferreira – Culpa e Ressentimento em Nietzsche – Ciência e Vida “Filosofia” – N° 36 – Editora Escala.

3. Giles Thomas Ranson – História do Existencialismo e da Fenomenologia – Editora EPU

4. Renato Nunes Bittencourt – Nietzsche e o Problema do Ressentimento na Moral Religiosa - http://www.revistaitaca.org

28 setembro 2011

A MAIS BELA HISTÓRIA - DE UM POETA 'GNÓSTICO'




Que empreendimento extremamente difícil e ingrato é o de se imbuir da tarefa de rotular o OUTRO, de querer conceituar o diferente. Sempre que emitimos um conceito sobre alguém caímos na vala comum do preconceito e da falsidade, pois nada sabemos da subjetividade daquele que nos é estranho. No meio religioso fundamentalista é comum se pensar que aquele que é rotulado de ateu não combina com o supostamente cristão. Ora, se estudássemos com afinco a vida real das pessoas nos surpreenderíamos, pois, com certeza iríamos encontrar muitos ateus e gnósticos amorosos que se preocupam com o bem estar do outro, mais do que aqueles que se dizem cristãos.

Se analisássemos as obras poéticas de alguns rotulados de ateus, não demoraríamos encontrar em suas palavras, raios de uma linguagem divina.

Quem em sã consciência poderia dizer que da mente de um poeta considerado "ateu" ou gnóstico poderia um dia brotar pérolas dignas de registro em qualquer livro sagrado? Aliás, o poeta, é aquele que tem o dom de, através da força de uma persuassão leve e suave, tocar a face do “divino”. É aquele que torna sagrado os lugares profanos; que faz a lama da estrada dos seus pensamentos tornar-se pura como a água e bem alta como o céu.

Todo este preâmbulo foi no sentido de trazer à tona a razão maior dos evangelhos traduzida em poesia, pela pena do genial, Fernando Pessoa.

Quem já se debruçou sobre as poesias desse poeta português, creio eu, não pode negar que elas têm o condão de tocar profundamente no âmago da alma humana.

Foi ele, de longe, quem fez a mais humana e a mais bela narrativa do menino Jesus, que nenhum cristão jamais ousou fazer, digna de ser canonizada e colocada em letras garrafais nas primeiras páginas do livro que conta as boas novas de Cristo — O Novo Testamento.

Como não poderia deixar de ser, a maravilhosa voz de Maria Bethânia, foi a única que se enquadrou para, numa magistral interpretação, transmitir com emoção ímpar as mais belas palavras já escritas sobre o menino que fugiu do Céu.





Poema do Menino Jesus (Fernando Pessoa)


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

24 setembro 2011

A IGREJA – Segundo Escreveu Dostoievski


Fiódor Dostoievski (1821-1881), foi o autor da fenomenal fábula — “O Grande Inquisidor” —, que pode ser considerada um dos pontos mais altos da literatura mundial. Essa história faz parte de um dos capítulos de sua fantástica obra: “Os Irmãos Karamazov”.

O interesse do famoso autor russo foi o de questionar a Igreja católica de seu tempo. Na sua crítica instigante, ele mostra como a instituição religiosa rejeitou a mensagem de Cristo, trocando-a pelo poder político e eclesiástico.

Olhando o atual mercado religioso que sobrevive graças à exploração do “divino”, achei conveniente trazer ecos da emblemática fábula escrita por Dostoievski, visando uma reflexão acurada sobre a religiosidade tão intensamente apregoada de forma desequilibrada em todos os rincões de nosso imenso país.

Richard Elliot Friedman, autor do livro ― “O Desaparecimento de Deus”, da Editora Imago (páginas 209 à 210) ―, expõe com primor os pontos principais dessa emblemática fábula:

Dostoievski (*) apresenta “O Grande Inquisidor” como uma história em forma de “poema e prosa” criada por Ivan, o irmão ateu, que a conta a seu irmão mais novo, Aliocha, o aspirante a sacerdote.

Na história, Jesus volta à terra durante a inquisição espanhola. A narrativa é inserida no contexto da ocultação da face de Deus, quando Ivan diz na introdução: “Quinze séculos se passaram desde que o homem parou de ver sinais vindos do céu”.

“E agora, a divindade aparece novamente entre os homens naquela forma humana em que Ele por três anos conviveu no meio dos homens quinze séculos atrás”. O visitante divino realiza milagres: um cego recupera a visão; uma criança ressuscita. Todos o reconhecem. E, então o velho cardeal que comanda a inquisição o vê e manda que o capturem e o tranquem na prisão. Na cela da prisão Jesus não diz nada; na verdade, o inquisidor é quem ordena que ele não diga nada, pois “Vós não tendes o direito de acrescentar coisa alguma ao que já dissestes no passado”. “Por que viestes agora para nos atrapalhar?” — diz o inquisidor para Jesus. Nos evangelhos são os ‘demônios’ que fazem esse questionamento a Cristo. E aqui, vai uma crítica ferrenha do autor da fábula, ao Catolicismo Romano: a idéia de que Deus não pode falar nem se intrometer, porque agora “Tudo já foi transmitido por Vós ao Papa, não havendo necessidade alguma de Virdes atrapalhar. “Mas a liberdade é muito difícil e assustadora para as massas, diz o inquisidor, e então a igreja aceitou os três assombrosos presentes do diabo, o “poderoso espírito”.

Em um trecho da narrativa, o Grande Inquisidor diz então a Jesus que ele errou quando resistiu às três tentações do diabo no deserto. O diabo lhe ofereceu milagre, mistério e autoridade, e Jesus os rejeitou. Mas, revela o velho cardeal, a igreja os aceitou. A igreja governa as massas exatamente através do milagre, do mistério e da autoridade; é disso, argumenta o cardeal, que as massas precisam.

Jesus não quis conquistar as pessoas através de atos milagrosos e dominá-las pelo poder; ao contrário, queria que elas tivessem liberdade de escolha.

Por fim, o cardeal declara que o invasor divino deve ser queimado na fogueira no dia seguinte. Mas Jesus ainda calado, apenas se limita a beijar o inquisidor nos lábios — “Essa foi a sua única resposta”. O Grande Inquisidor então abre a porta da cela e diz: “Ide e não volteis mais... não volteis jamais, nunca mais”. E o visitante divino vai embora.

Numa época em que as pessoas não anseiam por outra coisa que bens materiais e misteriosas curas, a fábula de Dostoievski ainda tem o condão de tornar lúcido ou claro que a mensagem do Messias Judeu não foi a de pregar a medíocre liberdade idealista da felicidade terrena a todo custo. Infelizmente, a “autoridade eclesiástica” da modernidade se apossou do “...e sereis livres”, com a finalidade espúria de saciar sua sede de domínio psicológico, político e econômico sobre as mentes receptivas, valendo-se de uma ordem supostamente "celestial" pré-estabelecida em épocas remotas.

Uma liberdade que se centra em um objetivo supérfluo como o de adquirir, de possuir, obter lucro, e o de produzir espetáculos em nome de Deus, não é realmente uma liberdade, é sim, uma alienação.


(*) Dostoievski morreu em 1881. Na juventude passou maus pedaços: doença, pobreza, uma sentença de morte aos vinte e sete anos, acorrentado entre criminosos inveterados na Sibéria. Esse período de sua vida foi decisivo. Foi quando descobriu a força de sua intuição psicológica; mais ainda, foi quando seu espírito se tornou mais doce e, ao mesmo tempo, mais profundo. [Carta a Gast, de Nice, publicada em 7 de março de 1887] . FONTE: “Um Mistério Divino” — Richard Elliot — Editora Imago


Por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de setembro de 2011