28 julho 2014

Diálogo  Duelo − Banquete Antropofágico



“Eu sou eu e minhas circunstâncias” disse, apropriadamente, José Ortega y Gasset (1883 – 1995). O eu só existe em função de um Tu” enunciado básico nas obras de Martin Buber.
“O Eu não pode ser pensado de forma unitária, nem tampouco pode ser identificado ao sujeito, ele é um termo verbal cujo uso é aprendido numa certa referência ao outro.” (Lacan)

Apesar de saber que necessitamos do OUTRO para definir o que somos, estamos sempre o desafiando para um duelo. A autora de “Escritas do Desejo” sobre os extremos desse tête-à-tête , diz algo irrefutável: “O outro é aquele que eu quero matar com a arma da linguagem.”

Frank-Lestringant (1982), por sua vez, faz uma magnífica análise do diálogo-duelo entre selvagens, recorrendo ao que Montaigne exprimiu como “momento dialógico do rito Tupinambá”:

“A carne do prisioneiro que se vai devorar não é, de modo algum, um alimento: ela é um signo... [...] o ato do canibal representa uma vingança extremada... [...] Esse esforço para apreender nas práticas do canibal a permanência de um discurso... [...] Sem se demorar sobre as seqüelas do massacre, Montaigne retorna sempre ao desafio da honra, à troca de injúrias, àquela ‘canção guerreira’ composta pelo prisioneiro antes de sua morte. Acabamos, assim, por esquecer que a boca do canibal é provida de dentes. Em vez de devorar ele se limita a proferir. Eram os próprios Tupinambás que separavam a boca que devora daquela que profere: o matador era o único a não comer a carne do inimigo. O ‘cozinheiro dialógico’ não provava dela”.

No duelo dialógico o outro se torna objeto do meu gozo. Mas refletindo bem, eu gozo de mim mesmo, na medida em que procuro ver aquilo que recalquei exposto em um lugar bem visível no outro, a me incomodar.

Lacan diz: No outro (espelho) vejo a minha imagem invertida”. Não suporto ver-me invertido no espelho do outro. Ver aquilo que vive no outro, que imagino ter morrido em mim, querendo se fazer de meu, é insuportável.

Os versos de Marco Lacerda em −“Um Estranho em Mim” , denuncia com fortes tons a angústia que o outro provoca incitando-me a assumir o que tanto combato:

“Em minha alma só nostalgia. A solidão inimiga silenciosa e indestrutível. A angústia se intensifica e percebo que meu rosto revela, em pele sem viço, a história de minha infância. O rancor de minha avó, os sorrisos maldosos na boca de minha tia estão diante de mim, dentro de mim”.

O risco que corro ao duelar com o outro no vai-e-vem de um emaranhado de conceitos e palavras é quedar-me preso em minhas próprias teias.

Na linguagem ou na fala estão implícitos signos que servem para confrontar-me com o outro. Em suma, dialogo para me ancorar no outro, para repelir nele o que não suporto mais, ou para me impedir de entendê-lo.

Foi para isso que nasci: Nascer é ser jogado no campo do OUTRO. Não me autonomeei. Pelo contrário, fui objeto de desejo de outros (pai e mãe). Foram eles que me deram um nome para me chamarem de seu. Daí para frente permaneceu só o desejo ou a ilusão de fazer um nome por mim mesmo.
Ora, se foi por um ato de palavra que advimos ao mundo e adquirimos o estatuto de sujeito, a conclusão lógica que se há de chegar, é que não podemos nos autonomear porque fomos atravessado por uma PALAVRA que já estava inscrita no princípio, lá na nossa gênese.

Segundo Lacan, no nosso inconsciente reside a linguagem de outros que foram formadores do nosso eu. Cada um de nós é um EU em face da linguagem e conceito do outro”.

“Sem o OUTRO seríamos então incapazes de conceituar o conceito de si. O sentido de si é talhado por nossa consciência do OUTRO, do mundo exterior a nós”.

Por Levi B. Santos

Guarabira, 28 de julho de 2014


20 julho 2014

Dilma, Putin e Um Míssil Depois da Copa

Dilma e Putin Assinam Acordo. Três dias antes do abate do Avião Malaio (Foto; BAND/UOL)



Ainda no calor da Copa, pouco depois da reunião com Dilma em Fortaleza (sobre os BRICS), Putin quando voltava para Rússia “soube” que um dos misseis dos separatistas que recebem seu apoio tinham atingido uma aeronave da Malasya Airlines, com 298 passageiros a bordo, na maioria holandeses, sobre o espaço aéreo da Ucrânia.

A presidenta está vivendo realmente seu inferno astral.  Não bem acabou a Copa da Vergonha, as enquetes dão conta de que ela perdeu dois preciosos pontos percentuais nas intenções de votos e a taxa de descontentes com seu governo é a pior desde o inícío de seu mandato. Como que a refletir o placar da Alemanha contra o Brasil na Copa ― a inflação está em 7% e o crescimento em 1%. Para embaralhar mais o que já está complicado, a participação da azarada presidente na reunião dos BRICS em Fortaleza, sob o comando do todo poderoso Putin culminou com uma tragédia de repercussão política mundial: o Abate de um avião de passageiros na região em que seu grande amigo Putin está estimulando uma guerra civil. Segundo a imprensa, Vladimir Putin quer exportar a idéia de que a soberania nacional está acima da universalidade dos direitos humanos. Então vidas humanas metralhadas são coisas secundárias. Em primeiro lugar está a expansão dos domínios territoriais. “Sem nenhum obstáculo à sua frente, Putin deverá continuar subjugando as atividades civis como bem deu a entender em conversas aqui no Brasil”. E Dilma, com uma marionete, fica inerte, assistindo a sua popularidade baixar, com  seus olhos cheios de inveja  vendo a popularidade do seu grande amigo russo passar dos 80%. Não sei, mas ela deve andar sonhando muito, e não ver à hora da republiqueta de D. João VI se transformar em uma Cuba, Venezuela ou Bolívia para que seus índices atinjam picos nunca dantes alcançados.

Surgiu até uma recente piada para boi dormir, em que os adeptos da presidenta aventaram a hipótese absurda de que os mísseis dos separatistas pró-rússsia, desejavam no fundo derrubar o avião de Putin que estava na rota do que foi destruído. É que o horário dos dois aviões parecia estar muito próximos um do outro. Inventar historieta como essa, sem pé nem cabeça, para defender amigos do peito é no mínimo uma afronta as vítimas fatais do desastre (VIDE LINK: Dilma Diz Que Míssil Que  Abateu  Avião  da Malaysia Airlines Poderia Atingir Putin)

Momentos depois da tragédia como o Boeing 777 da Malasya Airlines por rebeldes separatistas pro- Rússia, Dilma abusou da bizarrice discursiva ao tentar defender o companheiro Vladimir Putin. Disse a presidenta que o governo brasileiro não se posicionará sobre a queda do avião malaio até que haja informações mais claras. (Vide LINK: Dilma Faz Discurso Insano Para Defender Putin no Caso da Derrubada de Avião Comercial na Ucrânia)


Em tempo:


 Na aeronave destruída não havia nenhum parente de políticos da base aliada do governo da república das bananas (Tá Explicado: Ahhhhhhh!!)

11 julho 2014

Temos a Petrobrás. Por Que Não a Futebrás?



OPS! Já tem gente da imprensa aconselhando a presidenta Dilma a fundar a FUTEBRÁS. O ministro dos esportes, Aldo Rebelo,  em recente entrevista assinalou  que “o Estado vai sugerir projetos de lei para colocar a seleção brasileira no status que ela deve ter”. Isso tem cheiro de bolivarianismo.  É aquela velha mania dos reformadores políticos (no poder) de criar leis para abafar malfeitorias e tragédias, como a que aconteceu nos sonoros 7X1 impostos ao Brasil pela Alemanha, em ritmo de treino.  O ministro Rebelo andou citando até um projeto maluco do deputado, Otávio Leite, que defende agora a criação de uma Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. (Vide link)

Há quem diga que que no humilhante mineiraço se chegou ao cúmulo de sondar os alemães para maneirarem  a goleada no segundo tempo. 

E o Felipão, que com a seleção voou tanto de um lugar para outro, tomou de um termo usado na aviação para incluí-lo nos anais da Psicologia: “Foi uma PANE de seis minutos” ― repete sempre com olhar atordoado.  Se foi "pane", esqueceu-se  de dizer que o motor da aeronave já vinha apresentando sérios defeitos há meses. (rsrs)

Senhores e senhoras: preparem-se para a formação de um novo ministério no governo petista:  “Ministério contra a exportação de jogadores para o exterior”. O Rebelo já disse: “O Estado não pode ser excluído da competência de zelar pelo interesse público dentro do esporte” (Vide link)

“Não vou criar a Futebrás, mas o governo pode conduzir essa reforma e modernização das gestões” ― disse Dilma, em referência ao projeto de se criar uma estatal para salvar os times de futebol. (Vide Link).

Portanto fiquem de orelha em pé, porque o “Não” desse governo significa “SIM” no futuro. A presidenta simplesmente reverberou a “pane de seis minutos” do Felipão. Não custa nada recorrer à psicanálise para entender que a tal da “negação” é um mecanismo de defesa psíquico (nega-se em público aquilo que no fundo se deseja). A presidenta disse que não vai criar a Futebrás, mas tem o poder de conduzí-la ― o que dá no mesmo (ato falho, ou proposital?).

Freud explica (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 11 de julho de 2014

Site da Imagem:  jornalgalodebriga.blogspot.com.br

21 junho 2014

Como Seria Uma Copa Gospel?





Já se tornou uma regra em nosso meio, dizer que Deus é brasileiro, afirmação essa corroborada pela ajuda que Ele tem dado a nossa Seleção 'Canarinho' que por cinco vezes foi campeã do mundo.

Ora, se Deus é um torcedor fanático do Brasil, por que não usar os recursos futebolísticos como estratégia para propaganda evangelística gospel?

Sabendo que o brasileiro adora ouvir uma transmissão de partida de futebol, por que não mudar a rotina enfadonha e insossa dos cultos de domingo à noite, e passar a executá-la com o sensacionalismo e a emoção dos locutores esportivos? A TV Record (é claro), caberia a exclusividade na transmissão dos jogos. Já pensou no golpe mortal que a TV Globo levaria?
Se a Record já conseguiu levar grande parte dos atores para sua emissora, com certeza a contratação do maior locutor esportivo da televisão seria ‘favas contadas’.
Transmitir um culto como quem transmite um jogo de futebol, é muito mais eletrizante, tendo a grande vantagem de não permitir que ninguém venha cochilar durante o duelo entre os meliantes de Belial e os meliantes dos exércitos da salvação.
O campeonato seria de pontos corridos, e creio que não faltariam times para se inscreverem na Confederação Brasileira Gospel de Esportes. Acho até que devido ao grande número de denominações evangélicas, o campeonato deveria ter uma série A (a principal), e uma chave B (de acesso).

Você caro(a) leitor(a),poderá experimentar agora mesmo, um novo e emocionante estilo de culto neo-pentecostal domingueiro.


Segure-se bem em sua poltrona, pegue seu saco de pipocas bem quentinhas e com reverência, clique no vídeo abaixo, para assistir a uma amostra desse deslumbrante e emblemático culto "futebolístico" narrado por um locutor esportivo "divinamente" inspirado:



Prosa por Levi B. Santos 

Guarabira, 07 de setembro de 2009

Título do Original: "Culto Gospel Narrado Por Locutor Esportivo"

Site da Imagem: http://copagospelfutebol.blogspot.com.br/2013_09_01_archive.htm

14 junho 2014

Não Me Deixaram Falar



Faltava ainda cerca de meia hora para a abertura da Copa. Esse espaço de tempo durou uma eternidade. Em sua cabeça fervilhavam as vozes da dúvida: “Faço ou não faço?. Falo ou não falo?”. Se permitissem, só queria  dizer apenas quatro palavras, e ponto. Lembrou-se de Nelson Rodrigues,  seu autor predileto que tanto gostava de citar em suas falas. A célebre frase do Nelson que dizia que “no Maracanã vaia-se até minuto de silêncio, aumentava mais a sua ansiedade.

Nesse ínterim, parecia ouvir uma voz a lhe dizer: “Tu não estás no Maracanã!  Estás no Itaquerão!  O Itaquerão é do povão corintiano. O Itaquerão é do povão grato pelo ‘bolsa família’! Portanto rompe o script, e fala! Eu porei em tua boca o que hás de dizer!”.

Mesmo sem ser católica praticante, lembrou-se instantaneamente do episódio bíblico da “tentação de Cristo pelo Diabo”. E, em pensamento,  retrucou imediatamente: “Pra trás de mim Satanás!”

Por alguns minutos passou a ver imagens. Viu o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, abrindo a Copa de quatro anos atrás em um discurso tão pequeno que não levou mais que três minutos. Tinha exatamente em mente, as simples palavras do maior representante daquele país Africano, que tem em Mandela, seu maior ícone: “Senhoras e senhores, nós, como país, aceitamos a honra de receber esse grande evento do mundo. A África está feliz. Essa Copa é da África. Declaro aberta a Copa!”

“Não, não! Não seria ela a primeira representante de um país a ser impedida de fazer a abertura da Copa. Vou falar. Não vou cair no conto de soltar pombinhas, no lugar do meu discurso”  ― dizia de si para si.

O Blatter, nesta hora, bate no ombro da presidenta e pergunta o que ela está balbuciando, quando faltavam apenas 15 minutos para o início do grandioso evento.  “Não é de sua conta. Não atrapalhe minhas meditações nesse difícil momento de abertura da Copa!”  ― respondeu a presidenta, com um ar de quem comeu e não gostou.

“Tem nada não. Já que me cassaram o discurso,  no primeiro gol que o Neymar fizer  eu vou pedir que as câmaras  me focalizem, para que a minha alegria de torcedora fanática seja transmitida em três D para o mundo todo. Não é possível que me vaiem, só por que estou comemorando um gol do meu querido Brasil” ― pensou a presidenta com  seus botões.

O endiabrado Neymar  faz o gol da virada, quando o Brasil perdia por 1X0. A torcida comemora em exaustão. A presidenta explode de alegria com os braços para o alto, e recebe desrespeitosas vaias.

Não se passou meio minuto, depois do gol, lá estava  Blatter, morto de vergonha, a consolar a sua amiga:

― Minha cara amiga, feche os ouvidos para essa elite que tem dinheiro de sobra para pagar ingressos caríssimos. Esse povo que está aqui lotando o estádio não é aquele que vai fazer você ser  re-eleita.  Os xingamentos não vêm do povão que você está a ajudar em sua gestão. Essa falta de compostura da elite que diz ser contra a corrupção em seu governo, está em evidente contradição, pois, ela mesma, não reclamou do gol roubado, quando da marcação de um pênalty inexistente pelo juiz (mui amigo) do Japão.

Foi nesse momento que o Todo-Poderoso da Fifa sussurrou de maneira carinhosa aos ouvidos da presidenta:

  “Esse penalty  foi um presente  a  maior colônia japonesa do mundo,  que reside aqui em São Paulo, minha estimada amiga. Anime-se!”

E não é que os dois, dessa vez, riram em secreto sem nenhuma vaia a incomodá-los.


 Por Levi B. Santos

 Guarabira, 14 de junho de 2014


05 junho 2014

Podemos Fazer o Diabo Quando é Hora de COPA

Estação da Luz Superlotada  (hoje)  – São Paulo


Por Lei, a revisão, aumento ou reajuste de salário do funcionalismo público, não podem ocorrer dentro dos 180 dias que antecedem as eleições.

Ante a notícia de que a Polícia Federal entraria em greve nos próximos dias, a presidenta Dilma correu às pressas para uma conversa com seu ministro da justiça, Eduardo Cardozo. A polícia Federal em greve seria o caos do caos, pois paralisaria o forte esquema de segurança nos aeroportos nacionais, e principalmente inibiria a possível nomeação de Cardozo para a vaga do ministro Joaquim Barbosa, que vai deixar o Supremo agora em junho. [Vide Link]

A única solução encontrada para o governo petista sair dessa saia justa foi a de burlar a legislação dando aumento de 16% aos Policiais Federais, à revelia do que o TSE decidiu.  De tudo isso, o que ficou demonstrado foi o poder de fogo da categoria profissional ― Polícia Federal. [Vide link]

Seguindo a regra infalível de que quem tem poder de pressão sobre o governo consegue o seu intento, os metroviários de São Paulo deram início a sua greve, em consonância com o ditado que diz: “Por onde passa um boi passa uma boiada”. “Se passou o aumento salarial dos policiais federais, por que não o nosso?” ― inquirirão os líderes das outras categorias.

O governo de São Paulo, nos últimos dias, evitando tocar no tema ― “aumento dos policiais federais” ―, fez seu “sapiente” julgamento: “a greve dos metroviários é abusiva e de natureza política”.  Deu a entender que estão aproveitando o momento da Copa, pela visibilidade que o evento proporciona. Em suma, o que o matreiro governador fez, foi sair pela tangente. [Vide Link].

O governo, que vaticinou que essa será a “Copa das Copas”, parece que não vai dar bolas para às leis vigentes. Se houver alguma contestação na justiça sobre aumentos salariais concedidos não haverá tempo hábil para uma discussão sobre o que é ou não burlar as leis em ano eleitoral, principalmente diante de um mega-evento como a Copa 2014, que será vista por três bilhões de pessoas no mundo.

 Parodiando a frase - “Eu não posso é perder esse emprego!” ― de Nico Bondade (personagem de Chico Anysio no programa humorístico “Chico City”) a presidenta a essas horas, está a dizer para si e para seus auxiliares mais diretos: “Olhem, Eu não posso é perder essa Copa!”

O sucesso da recente greve dos garis no Rio de Janeiro e a concessão de aumento de salários à P.F vai arder ainda mais a chama do “me dá o que é meu, senão a Copa vira um caos”.  Já pipocam pelo país a oito dias da Copa, movimentos grevistas em 12 categorias profissionais. [Vide link]

Não me surpreenderia, de forma alguma, se Dilma, para se ver livre das paralisações em massa em meio a Copa, decidisse antecipar para todo mundo, os aumentos de salários que seriam dados em 2015 ― ano em que já re-eleita, cobraria a farra com juros e dividendos, através de aumentos na energia, na gasolina, na taxa selic e impostos como, IR, IPI, IOF, COFINS entre outros.

Em março de 2013 ― num discurso que fez em João Pessoa (Pb) ―, a presidenta deixou escapar do seu inconsciente uma célebre e incômoda verdade. Disse: “Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Transportando o mesmo raciocínio político para a esfera do evento “Copa das Copas”, bem que a presidenta poderia dizer: “Podemos fazer o diabo quando é hora de COPA”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de junho de 2014

 Site da Imagem: oglobo.globo.com

26 maio 2014

Maravilhosos Caleidoscópios



Bons tempos aqueles em que não havia televisão, telefone, e nos comunicávamos apenas por cartas postadas via correio. Tempo em que para saber o que ia pelo mundo só tínhamos o rádio à válvula, o qual era quase sempre ligado a uma bateria de automóvel, por não existir luz elétrica na cidade.

Lembro de uma invenção que provocou um grande alvoroço naquela época, principalmente entre as crianças: o tal do Caleidoscópio.

O Caleidoscópio era um pequeno monóculo em cujo interior existiam duas ou três lâminas de espelho; na extremidade oposta às lentes, continham diversos pedaços de plásticos e vidros de diversas cores. Cada vez que fazíamos movimentos rotatórios no monóculo, os minúsculos fragmentos de seu interior produziam imagens geométricas de uma beleza incomum. De forma que passávamos horas e horas com o olho colado ao monóculo apreciando as imagens multicoloridas, que mudavam de forma à medida que movimentávamos o aparelho junto ao olho.

 Era no Sábado – dia em que ocorria a grande feira que vendia de tudo em minha cidade −, que o vendedor de caleidoscópios aparecia. Os adultos, rapazes, moças e crianças com moedas em suas mãos faziam fila para adquirir os fenomenais monóculos. E ficava aquela algazarra; todo mundo falando ao mesmo tempo:

― Olha que coisa linda, aqui no meu monóculo!”.
― Cadê?
― Ahhh, é porque você não viu o meu!
― Minha Nossa Senhora, olha que coisa arretada?
― Putzgrila, no monóculo de vocês não se consegue uma imagem dessa!

Danado é que a formação multicolorida que se apreciava à cada olhadela, nunca se repetia. Naquele tempo não existia a palavra “fantástico”. Para expressar a nossa admiração falávamos os termos que ainda hoje se usam largamente no nordeste, como:  arretado, porreta, putzgrila, caramba, ai dento, da peste.

Dando um pulo de sessenta anos, poderíamos constatar que o caleidoscópio que está hoje em evidência a encantar gentes de todas as idades, é a internet.

Os maravilhosos caleidoscópios das redes virtuais enchem os nossos olhos com imagens e informações de variadas e infinitas tonalidades. Podemos viajar, fazer faculdade sem sair do canto, ganhar medalhas e curar depressão. Como o velho caleidoscópio da história, num desenfreado dinamismo o que é visto e imaginado se modifica em questões de minutos diante dos nossos olhos. Por mais das vezes, lá no fundo, chegamos a nos identificar com o atraente objeto exposto na tela.

Mas esse objeto nunca deixa de refletir a nossa ambivalência: podemos por ele ter ódio e amor. Como acontece com os canibais que devoram as suas vítimas para adquirir algo desejável que existe nela. Ódio e amor também presentes no caçador que apesar de furiosamente matar o leão, para se tornar valente, adora degustar o coração da fera ferida e inerte.

Ao vendedor de monóculos do meu tempo de menino, interessava mais as moedas ganhas no final do dia, que ele guardava com o maior cuidado dentro de uma pequena mala com cadeado. Mas de uma coisa o vendedor sabia: quanto maior a alegria e a fuzarca das crianças e adultos maior a sua venda.

Sem dúvida, há semelhanças entre as extasiantes declarações que fazíamos das imagens do caleidoscópio de ontem e a esfuziante festança que fazemos hoje diante das visualizações dos nossos caleidoscópios virtuais. O que acontecia antigamente com as pessoas diante dos monóculos na feira, ocorre atualmente em nossa algazarra virtual, onde estamos sempre fazendo ver ao outro que a beleza do que estamos a apreciar em nosso caleidoscópio é mais arretada que a que o outro está vendo no dele.

Putzgrila, olha isso aqui!!!” (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de maio de 2014

23 maio 2014

Excrementos e Lixos que Falam de Nós



Desde o primeiro ano de vida o ser humano que nasceu entre fezes e urina, é instado e ensinado a conter e ocultar aquilo que os pais consideram feio e repugnante. É por esse tempo que o arquétipo separador do que é “sujo” e do que é “limpo” inicia a tônica de como funcionará o aparelho psíquico da criança e do adulto, mediado pelo processo civilizatório cultural.
Diz a psicanálise que a primeira criação, a primeira “obra” de arte do bebê – é o seu cocô.

O Psicanalista e escritor, Sérgio Telles, narra o drama de uma mãe em um banheiro com o seu pequeno filho. A pequena exposição de fundo psicanalítico tem por título: “Cocô Volte Aqui!”, e começa dessa forma:

“Um menino de dois anos e meio faz cocô e sempre ao dar descarga fica inconsolável com o desaparecimento do mesmo. Chora muito, abraça o vaso sanitário, e diz: Cocô volte aqui!.

A mãe do menino, por achar a cena repetitiva muito engraçada resolveu filmá-la e colocar nas redes sociais.

O psicanalista Sergio Telles explica que essas cenas repetitivas com relação aos excrementos significam que a  criança está passando pela fase anal, de que Freud identificou como o período das primeiras criações infantis. “Fase em que as fezes são muito valorizadas pelos infantes”. Não à toa que os antigos davam o nome OBRAR (transformar em obra) ao ato que hoje denominamos – defecar.

Com o tempo se aprendeu que o sujo, o nauseabundo e o que fedorento deve-se esconder, como acontece com o nosso próprio lixo cotidiano, restos rotos daquilo que um dia nos causaram prazer
e, agora, se esvaem através da descarga ou se coloca em um saco hermeticamente fechado para ser deposto bem longe de nós e dos outros.
.
A criancinha agarrada ao vaso sanitário implorando que seu cocô levado pela correnteza da descarga, volte, serve de metáfora para que nós venhamos a entender que o outro que  observa o nosso lixo, sabe muito a nosso respeito. Lixo que jamais chegamos a imaginar que estivesse em nós tão enraizado.  

Como naquilo que se fala e se afirma, nem sempre o descartável se torna indescartável por toda a vida, trago à baila um maravilhoso diálogo do humorista e escritor Luis Fernando Veríssimo. Ele nos reserva uma grata surpresa, ao mostrar em forma de prosa, o quanto o “lixo” (metáfora da impureza, do nauseabundo, do que excluímos) detém o poder de destruir nossas máscaras e revelar aspectos de nossa intimidade que gostaríamos de mantê-los secretos.


“O LIXO”
(Escrito em 2008 pelo genial L. F. Veríssimo)


Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam


― Bom dia...
― Bom dia.
― A senhora é do 610
― E o senhor do 612
― É.
― Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente.
― Pois é...
― Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto seu lixo.
― O meu quê?
― O seu lixo.
― Ah!
― Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena.
― Na verdade sou só eu.
― Mmmm. Notei que o senhor usa muita comida em lata.
― É que eu tenho de fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
― Entendo.
― A senhora também
― Me chame de você.
― Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comidas em seu lixo. Champignons, coisas assim.
― É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra...
― A senhora... Você não tem família?
― Tenho mais não aqui.
― No Espírito Santo
― Como é que você sabe?
― Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
― É mamãe escreve todas as semanas.
― Ela é professora?
― Isso é incrível. Como é que você advinhou?
― Pela letra no envelope. Achei que era de professora.
― O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo
― Pois é...
― Más notícias?
― Meu Pai. Morreu.
― Sinto muito.
― Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Hã tempos não nos víamos.
― Foi por isso que você recomeçou a fumar?
― Como é que você sabe?
― De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
― É verdade, mas consegui parar outra vez.
― Eu graças a Deus nunca fumei.
― Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo.
― Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
― Você brigou com o namorado. Certo?
― Isso você também descobriu no lixo?
― Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho. Depois muito lenço de papel.
― É, chorei bastante. Mas já passou.
― Mas hoje ainda tem uns lencinhos.
― É que eu estou com um pouco de coriza.
― Ah
― Vejo muita revista de palavra cruzada no seu lixo.
― É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é?
― Namorada?
― Não.
― Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
― Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
― Você não rasgou a fotografia. No fundo quer que ela volte.
― Você está analisando meu lixo?
― Não posso negar que seu lixo me interessou.
― Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
― Não você viu meus poemas?
― Vi e gostei muito.
― Mas são muito ruins!
― Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
― Se eu soubesse que você ia ler...
― Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
― Acho que não. Lixo é domínio público.
― Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra de nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
― Bom! Aí você esta indo fundo demais no lixo. Acho que...
― Ontem no seu lixo.
― O quê?
― Me enganei. Ou eram cascas de camarões?
― Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
― Eu adoro camarões.
― Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
― Jantar juntos?
― É
― Não quero dar trabalho
― Vai sujar sua cozinha?
― Nada. Num instante se limpa tudo e se põe os restos fora. No seu lixo ou no meu?



“...O mundo dos que procuram a pureza é simplesmente pequeno demais para acomodá-las “  [Zygmunt Baumann – O Mal Estar na Pós Modernidade]



Por Levi B. Santos