20 março 2008

A PÁSCOA NOSSA DE CADA DIA



Para ser comemorada, a Páscoa tem lá os seus dias marcados no calendário do tempo, e como rito, ocorre uma só vez durante o ano. Porém, se refletirmos melhor sobre o seu mais profundo significado, iremos compreender que ela se faz presente em nós, todos os dias.

A palavra “páscoa” deriva-se do hebraico (pessach), que significa “PASSAGEM”. Os Judeus comumente a comemoram, em referência a sua saída do Egito para a terra prometida, quando perseguidos pelos exércitos de Faraó, efetuaram a passagem pelo mar vermelho a pé enxutos, sem que ninguém houvesse sido tragado pelo obscuro e tormentoso oceano.

Precisamos entender que a páscoa deve ser algo permanente em nós. Estamos sempre de passagem pelos revoltos mares da vida, e não devemos andar ansiosos, pois cada dia tem o seu mal a ser vencido, como se referiu Cristo em Mateus 6: 34. Consequentemente, a cada dia, temos de enfrentar a nossa páscoa individual. A cada dia temos que superar um “mar vermelho” de aflições. “Não digas jamais que chegastes; porque tu és passageiro em trânsito”, escreveu o poeta Egípcio Edmond Jabès, reconhecendo que estamos sempre caminhando, sempre de passagem. E o solo que se pisará amanhã, nunca será o mesmo de hoje. Nesse sentido, enquanto aqui vivermos, somos seres sem terra, sem pátria, vagando por caminhos nunca dantes navegados. Caminhar pela penosa estrada da vida, enfrentando desafios, é andar continuamente em páscoa, e como um estrangeiro, viver sempre de passagem. A cada dia, a cada manhã, colhemos experiências novas, ouvimos “cânticos novos”, como os de Davi: “Pôs um cântico novo na minha boca [...] (Salmos 40: 3)”. A vida é um caminho sem volta. A mulher de Ló, na sua caminhada, parou, e ao desejar voltar transformou-se em estátua, por recusar conhecer o novo, o desconhecido que tinha pela frente. Toda vez que por medo, por comodidade ou por resistência não nos abrirmos para o novo, e ficarmos sempre a remoer o passado com repetições e rituais vãos, estaremos nos tornando objetos fixos ou estátuas.

Cristo na sua passagem pelo mundo, mediante a novidade de vida que pregava, não foi aceito pelas pessoas intransigentes em seus conceitos. Muitos não o aceitaram por que viam nele um destruidor dos paradigmas em que estavam fortemente firmados. Não suportaram ver um Cristo tomando vinho com os pecadores; escandalizaram-se ao ver uma prostituta derramar sobre os pés do Salvador um caríssimo perfume, para logo depois, com os seus longos e sedosos cabelos enxugá-los com carinho. O religioso de conceitos imutáveis, não aceita ser um errante, não quer enxergar no seu caminhar, uma nova paisagem a cada passo. Ele teme ser abalado em sua estrutura, ao se abrir para a contemplação daquilo que não concorda, ou não deseja ver.

O Talmude, livro guardião da transmissão judaica, não admite uma leitura fixa, imutável, isto é, uma leitura que impeça a produção de novos pensamentos. Ele está sempre aberto a novos significantes, não se abstendo de apreender o novo, que vai surgindo com o nosso caminhar, com a nossa páscoa individual e diária.

O medo de naufragar no obscuro oceano, nos paralisa, impedindo a nossa passagem por entre as revoltas águas, que são as tormentas da vida, quando esse “eu” imobilizado e petrificado, não mais consegue ir a lugar algum.

Para viver em constante páscoa, é necessário ter consciência de que devemos estar com o nosso entendimento em constante renovação. Em outras palavras, isto significa que devemos nos desfazer da rigidez estática religiosa carregada de preconceitos, para que possamos aceitar de bom grado, a existência das múltiplas faces de um Deus que está sempre em movimento.


Ensaio: por Levi B. Santos

Guarabira, 20 de Março de 2008

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