15 agosto 2008

UM NOCAUTE EM PLENO SEMINÁRIO




Não estava acostumado a falar para uma platéia, de modo que a timidez aumentava à medida que se aproximava o momento de expor o meu trabalho no seminário de Saúde da Mulher. Fui chamado para tomar lugar à mesa, e, ao pegar o microfone notei que minhas mãos estavam trêmulas, frias e pálidas. Os dados fidedignos que eu tinha em mãos, me transmitiam certa segurança, além de me imbuir de uma tênue tranqüilidade para o que finalmente iria expor. Aliás, eu estava bem documentado, inclusive com fotocópias de fichas ambulatoriais, transparências e laudos histopatológicos referentes aos casos que ia apresentar. Procurei concentrar-me no intuito de afastar o nervosismo que teimava em querer me dominar.

Iniciei fazendo uma analogia. Argumentei que do mesmo modo que um clínico antes de tratar uma amidalite, dirigia o seu “olhar” para as amídalas, examinando-as, assim devia fazer o ginecologista: antes de tratar uma paciente recorrente em suas vulvovaginites, deveria também olhar o seu colo do útero ─, local onde se inserem as lesões precursoras do câncer cérvico-uterino. Acrescentei que, ante a impossibilidade de examinar todas as pacientes, tinha de acordo com justos critérios, selecionado um grupo de risco que seria contemplado com a colposcopia. Sobre o colposcópio, falei que ele era um simples aparelho que nos permitia com grande nitidez olhar o revestimento do colo uterino. Lembro-me bem de outra analogia que fiz na ocasião: disse que a citologia funcionava como uma peneira retendo a areia mais grossa, e a colposcopia como uma peneira um pouco mais fina, filtrava o que a citologia tinha deixado de reter, e, que essas duas instâncias juntas à anatomia patológica, formavam um tripé vigoroso na detecção de um maior número de displasias do colo uterino”.

No momento em que fazia a exposição das transparências, mostrando os gráficos dos casos de citologias negativas com colposcopias positivas confirmadas pelas biópsias, fui surpreendido por um safanão que repentinamente arrebatou-me o microfone que empunhava, tal qual o pulo de uma aranha abocanhando a sua indefesa vítima em suas teias. Era nada mais, nada menos que a figura brevilínea e obesa da Coordenadora do Serviço de prevenção do C.C.U. (Ministério da Saúde) que, sem que ninguém esperasse, tinha deixado o seu lugar na mesa e, com suas roupas frouxas e esvoaçantes, se dirigira rápido em minha direção, bradando destemperadamente:

─ Não admito que um mero assistente de uma Unidade, sem conhecimento de causa, venha denegrir o meu serviço. Outra coisa ─ disse ela, já com a face toda avermelhada. ─ Esse negócio de colposcopia foi coisa inventada por americanos. E, mesmo assim, eles nem a usam sistematicamente por lá. Esse exame não serve para as massas; isso é coisa de rico. Eu só vou admitir que se façam colposcopias, somente nas pacientes cujos laudos citológicos vierem solicitando esse exame, e estamos falados!.

Um clima de constrangimento se abateu sobre todos que estavam na platéia e principalmente sobre os que estavam compondo a mesa redonda. O Superintendente Regional quis contornar a situação, dizendo que tinha havido um mal entendido; que eu tinha sido infeliz na minha exposição, etc e tal.

A coordenadora estava com a voz rouca e cansada, pois tinha me precedido na apresentação de suas já tão conhecidas e gastas transparências contendo dados estatísticos de citologias oncóticas. Transparências estas, que de tanto serem expostas pelo Brasil afora, já tinham uma cor encardida, e mal dava para se ler no telão o que estava escrito nelas.

Após ter sido nocauteado em pleno auge do seminário, ainda encontrei forças para mesmo constrangido dirigir-me aos colegas, que a esta altura eram só ouvidos em meio a um silêncio agora sepulcral. E, mesmo sem o auxilio do microfone que me foi cassado, fui falando pausadamente em tom de vítima:

─ Não há problema algum! Se os senhores quiserem pararei com o programa que me dispus a executar. Agora mesmo, os senhores presentes neste seminário poderiam decidir se continuo ou não ─ disse, sem hesitar, sublinhando sempre que os exames colposcópicos não seriam realizados de forma indiscriminada, e que os mesmos eram destinados a um grupo de pacientes de risco rigorosamente selecionado.

Ainda bem que a coordenadora, já mais calma, pois tinha descarregado toda a sua adrenalina minutos antes, não se manifestou, quando a maioria dos que estavam na platéia assentiu que eu deveria continuar o meu trabalho. Um mais afoito levantou-se e deu sua opinião:

─ Eu acho que o nobre colega deveria continuar o seu trabalho. Sou testemunha ocular de sua dedicação em prol desse programa. Tudo o que ele está propondo fazer é para qualificar melhor o serviço!. ─ concluiu e sentou-se, ante os olhares capciosos dos que não tinham coragem de falar.

Antes do colega terminar a sua argumentação em minha defesa, eu ouvi uma voz abafada, saindo da extremidade esquerda da segunda fileira de cadeiras, dizendo:

─ Senta seu bicho burro! Tu queres ser queimado também?.

Vivia-se o último espasmo da ditadura militar, e, ocorrência como esta, em que um superior hierárquico impunha sem mais nem menos a sua ferrenha vontade sobre os subalternos, tinha que ser aceita como coisa normal dentro do clima de exceção no qual fui acostumado a viver desde os idos de 1965.

Por ocasião do almoço, após o incidente daquela manhã, fui instado por alguns figurões da diretoria regional, a me desculpar pelo mal entendido. Era assim naqueles anos de chumbo: o subordinado, mesmo sendo alvo da ira e agressividade de um superior, tinha que se mostrar culpado e se justificar como causador do embaraço.

Findo o emblemático seminário, o chefe da Unidade onde trabalhava, o qual já estava sendo posto na frigideira provavelmente por ter dito alguma verdade inconveniente, segredou-me:

─ Olha! Sabe o que eu ouvi ontem á noite?

─ Não! ─ respondi, chegando o ouvido o mais próximo possível do meu chefe, para ouvir a sua bombástica revelação.

─ Peguei a coordenadora do C.C.U em “flagra” falando para alguns de sua patota. Ouvi perfeitamente ela perguntando para alguém, se referindo a você: “Quem é esse menino besta metido a pesquisador?”. Após uma pequena pausa escutei ela falar em meio a risos: “O que ele não pode é me impedir de vender o meu PEIXE!”.

Saí dali aturdido e revoltado. Enquanto caminhava perguntava a mim mesmo: “Como poderei crer que exista seriedade na saúde pública desse país, quando a própria autoridade encarregada de um programa de tamanha envergadura, considera-o como um produto descartável, que se pode vender e comprar?”.

Durante o longo período da ditadura militar, me esquivava para não ser domado como animal de circo, o qual é obrigado a obedecer incondicionalmente ao seu dono. O exercício diuturno do poder disciplinador tentou inculcar em mim um espírito dócil, para que nada questionasse, e desse modo, ficasse a mercê da ambição dos “detentores do todo saber”. Entendi afinal, que qualquer idéia inovadora em prol da saúde, vinda de baixo, era sempre considerada uma ameaça ao “status quo”. Compreendi que para manter a inércia mental da maioria dos dirigentes do sistema de saúde, a maior arma era a repressão de qualquer iniciativa ou pensamento contrário aos ditames oficiais.

O GRANDE LEMA ERA ESSE: Quem quisesse crescer e subir na hierarquia dos serviços de saúde pública, que procurasse prosseguir com lealdade vendendo as “sardinhas enlatadas” sem questionar os seus prazos de validade.

Hoje, decorridos vinte e dois anos do fatídico seminário, no que diz respeito a área de saúde da mulher, tudo continua como dantes no quartel d’Abrantes.




Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 13 de Agosto de 2008

3 comentários:

Adriana disse...

Que malandros!Esse é o Brasil,difícil de progredir...kkkk!bjos tio!

Gilber†o Ângelo Begia†o disse...

sacanagem!!!!

Guiomar Barba disse...

Como os apóstolos a minha vontade é gritar: que morram eles de câncer!!!Não seria justo?
É melhor me controlar ou tenho um enfarte.