06 janeiro 2010

NO REINO DE SACRÓPOLIS



Sacrópolis é um lugar muito especial. Lá se reúnem gentes de todas as línguas e credos. Lá o Sagrado se reveste dos paradoxos mais chocantes. Os mais bem treinados são equilibristas que andam na corda bamba do saber divino. Lá, as utopias são ferramentas imprescindíveis para se abrir as janelas da realidade. Lá, a pura inspiração iluminadora é derivada da ausência de método, e a arte de pensar garante a liberdade de cada crente.

Em Sacrópolis a norma é romper com as formas pré-estabelecidas, onde cada um dá seu testemunho de sua tocante fidelidade aos suspeitos métodos de reinvenção para se olhar o Sagrado através de lentes caleidoscópicas.

Em Sacrópolis o anacronismo é a regra, onde os conceitos de épocas diferentes cruzam-se, colidem-se, e se desintegram. Lá o presente é condicional, e o futuro é um passado em mutação. A cada congresso ou concílio, o passado ganha um novo sentido pelo trabalho de reinterpretação do REAL. É uma região edênica onde é impossível abarcar toda a realidade. É de lá que saem as idéias à procura de corpos para se encarnar nos corpos dos homens científicos, filosóficos e religiosos. É pouco recomendável morar nessa cidade, a menos que se deseje andar a margem de si mesmo, como fazem os loucos e os poetas.

Lá em Sacrópolis não existe muitos deuses, mas inúmeras faces de Deus. Deus para o Físico desse Reino é massa e força; para o Químico é composto molecular; para o Psicanalista é o inconsciente; para o Teólogo é a transcendência. Em Sacrópolis a Ciência faz e não pensa, a Filosofia pensa e não faz; a Arte pensa fazer, e, todas juntas fazem pensar. Dizem que foi lá que Adão passou a sua infância, onde disse: “faça-se o queijo e o queijo se fez”. As fatias desse queijo, ainda hoje, produzem pensamentos, emoção viva e afetos brutos em seus habitantes.

Lá o Livro Sagrado tem multiplicidade de traduções, e ultimamente está em processo de destradução, para dar sentido ao que não tem sentido. É lá que se satisfaz o imperioso desejo de rechear as palavras com o vazio das traduções teísticas e ateísticas. É lá que as fábulas têm a moral de suas histórias abertas para qualquer interpretação.

Sacrópolis, por conseguinte, é uma força de expressão que designa o lugar concreto onde o pensamento e as idéias se criam, se renovam e se extinguem. Os seus habitantes são híbridos de carne e métodos. Nela se concentra o que se perdeu na realidade comum, ou que nem chegou a haver. Nela nada se cria, apenas se redescobre e se reinventa, num processo infinito de reencarnação conceitual daquilo que, nos primórdios já existia com outra roupagem.

Em Sacrópolis se vive o hoje, sem que ninguém saiba como vai acordar amanhã.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de janeiro de 2010

10 comentários:

Hermes C. Fernandes disse...

Levi, como posso chegar a esta cidade? Não seria ela a mesma apresentada por um tal João, confinado numa ilha do Mediterrâneo? Não seria ela aquela cidade que não tem templos, mas tem praças?
Se é esta, acho que sei como chegar lá... basta ser criança outra vez e perder o medo de ousar pensar.

Que texto esplêndido! Parabéns!

Tony Ayres disse...

Amigo Levi:

A sua Sacrópolis parece unir o intangível ao etéreo; ao mesmo tempo em que torna verossímil o que aparentemente não tem verossimilhança. Lugar curiosíssimo, este que o seu texto apresenta.

Parabéns pela imaginação fértil.

J.Lima disse...

Lervi!
Esse ensaio é uma mescla de Filosofia, psicologia recheado com a magia da poesia!
Meu amigo que profundidade hein?
Acho que você expressou o desejo que está no mais profundo da psique humana, "um lugar", que existe na imaginação, um aconhego perdido, um desejo de voltar...
As vezes fico alguns minutos nessa cidade, acredito que esse é um jardim...
Parabéns!

Marcio Alves disse...

Mestre Levi seu magnifico e exuberante ensaio ficção, nos libertou da letra fria e morta da razão, e nos transportou para o munda da imaginação!


Pois como bem disse Chesterton no seu brilhante livro da Ortodoxia: “A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores”.


É por isso que aos poucos, bem devagar, estou aprendendo a gostar de poesias, romances e ficções, pois de fato, penso tanto que as vezes minha cabeça pensante fica pipocando tantas ideias que chega a doer.


Um caminho aconselhavel para todos os pensadores das “salas dos pensamentos” aplicarem em suas rotinais diarias de leituras de filosofias e teologias, uma boa dose de leituras ficções, romances, poemas e literaturas.


Não que as leituras de teologia e filosofia seja erradas em si, mas como muito bem disse o meu pastor que: “O homem que escreve só teologia e filosofia, no dia em que ele não consegui escrever poesias e poemas, é porque a sua alma esta morta.”


Nisto parece-me que Chesterton concordo, pois ele também diz que: “A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito”.


Obrigado mestre Levi, por nós fazer “flutuar num mar infinito” e sair um pouco desta lucidez da razão, para mergulharmos na imensidão do mar da imaginação!


Abraços

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Gresder Sil disse...

Quando eu li a primeira frase desse post, imediatamente me veio a memória a: cidade do sol, de Tommaso Campanela, de forma que eu pude “prever” tudo o que eu ia ler, pois afinal de contas, contando com a cidade de Platão, a sua e a de Voltaire são já quatro cidades utópicas, que “percorri” só faltando mesmo a Utopia de Thomas More, e quer saber de uma coisa, não gostaria de viver em nem uma delas, e por mais que eu odeie são Paulo (aquela cidade nojenta), preferiria morar lá, tenho instinto de verme, prefiro andar na bosta. (o Edson e o Márcio não vão gostar disso kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk)

Marcio Alves disse...

Gresder seu verme do verme do carrapato,(rsrsrsr) que negocio é este de chamar a minha querida cidade de São Paulo de merda?????


E a sua cidade de Campinas deve-ser um paraiso, não é mesmo??!!!


Literalmente eu tenho que parar de conversar com você, pois estou últimamente ficando muito agressivo, e a culpa é tua!rsrsrsrrs


Abraços furiosos! rsrsrsrs

Levi Bronzeado disse...

De certa forma, é aqui na blogosfera judaico-cristã e na “herética” que pintamos em nossa imaginação, os mais variados paraísos utópicos.

É aqui no Reino Cibernético que falamos sobre Deus com intensidade nunca vista; em outras palavras, falamos e interagimos sobre nossa experiência com o transcendente, experiência essa que tem as suas particularidades peculiares em cada indivíduo.

A Universidade de Deus está aqui na blogosfera, representada pela cidade metafórica “Sacrópolis”.

É aqui que vestimos as máscaras míticas de Deus para nos apresentar no grande palco da modernidade religiosa e a-religiosa. É aqui que contamos histórias para tentar entrar em acordo com o mundo. É aqui que tentamos harmonizar as nossas vidas com a realidade.

Bendita blogosfera que nos faz sentir crianças de novo. É nela que viajamos na imaginação e nos tornamos poderosos e revolucionários.
É nela que construímos castelos, vencemos guerras e transformamos o mundo nosso de cada dia.

Para viver aqui na Sacrópolis é preciso não ter medo de provocar rupturas, escandalizar, chocar e desconstruir.


Abraços a todos que aqui deixaram os seus recados imaginários.


Levi B. Santos

Eduardo Medeiros disse...

Vou-me embora para Sacrópolis
Lá sou amigo do rei
Lá terei pensamentos e utopias que eu quero
Na hora que escolherei
Vou-me embora para Sacrópolis

p.s. com a devida permissão do espírito do Manoel Bandeira.

Jair dos Santos disse...

Não é atoa que o chamam de Mestre, faço coro sem rasgação de seda. Mestre do verso & prosa Levi Bronzeado que poderia se chamar dourado. Fico com Levi Iluminado

Gláucia Carneiro disse...

Em Sacrópolis dança-se a dança das letras, calam-se as palavras, o silêncio é imperioso.

Mas quem tem ouvidos para ouvir ouça o sonido que Sacrópilis não pode calar: são as trombetas que já começaram a soar.