03 janeiro 2010

O PARAÍSO PRÉ-APOCALÍPTICO DE COLOMBO



A história do homem ocidental está profundamente arraigada à religião. As longas e sofridas viagens dos navegantes à procura das terras no Novo Mundo, foram todas movidas pelo desejo de retornar ao paraíso literal, ao Éden idílico de que fala o Livro Sagrado. O paraíso (ascensão) e o apocalipse (fim do mundo) são antagônicos, isto é, são partes intrínsecas e indissociáveis de nossa natureza paradoxal. Para os grandes descobridores, um Deus supremo não estaria no fim da história religiosa, mas nos primórdios dela.


Seria inútil desmistificar o comportamento e a ideologia do “homo religiosus”, demonstrando para ele que tudo se trata de projeções do seu inconsciente. Os historiadores das religiões reconhecem isto: “há uma unidade espiritual subjacente à história da humanidade”. Numa série de culturas arcaicas tradicionais considera-se que a aldeia, casa ou Templo estão localizados no “Centro do Mundo”. Não faz sentido desmistificar tal crença, chamando a atenção do leitor para o fato de não existir um centro do mundo, por que não vai abalar ou mudar uma concepção que tem implicações cosmológicas, ritualísticas e sociais profundas.


Todos nós sabemos que, a descoberta e colonização do Novo Mundo tiveram lugar sob o signo da escatologia. Esta dimensão escatológica foi gravada a ferro e fogo no imaginário cristão. A narrativa do Apocalipse de João não cessa de se repetir porque é o epílogo do mito fundador de nossa cultura.


Cristovão Colombo não tinha dúvidas de estar prestes a alcançar o paraíso terrestre. Ele estava persuadido de que a profecia relativa à difusão do Evangelho através do mundo inteiro tinha de ser realizada antes do fim do mundo, isto é, antes do apocalipse.


O Antropólogo e Historiador da Religião, Mircea Eliade, faz alusão ao Livro de Profecias de Colombo, no qual ele afirma que o fim do mundo seria precedido pela conquista do novo continente e pela conversão dos pagãos e a destruição do Anticristo. Dirigindo-se ao príncipe João, Colombo assim exclamou: “Deus fez-me mensageiro do novo céu e da nova terra de que falou São João no Apocalipse”.


Tudo isso revela um desejo inconsciente de um reencontro com as nossas origens, traduzidas pelo anseio imanente de renovação de velhos valores e destruição de signos ou expressões já gastos pelo tempo e pela história. De certa forma, todos os movimentos artísticos modernos procuram, conscientemente ou inconscientemente, a destruição dos universos estéticos tradicionais. E nesse movimento o homem sempre procura se reintegrar ao mundo que um dia experimentou pela primeira vez, na aurora de sua vida.


Esse breve ensaio bem que poderia ter outro título, como por exemplo: “Paraíso e Utopia”.



Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 03 de janeiro de 2010

10 comentários:

Marcio Alves disse...

Mestre Levi


De fato, há no homem, em sua mais profunda psique, uma vontade que, transcende a realidade realista, de ir além da sua efêmera existência.


Devido a isto, é que venho à religião.
A religião não inventou a origem da transcendência no homem, mas foi justamente o contrario.
O homem movido por sua vontade interior inventou a religião, que nada mais é, do que os códigos, decifrações e manuais de como transcender.


Pois o “que” já “existi”, restando apenas a religião, a função do “como” transcender!
Pois a idéia central é a mesma em todas as religiões; vida após a morte, restando e sendo diferenciada pelo COMO.


Justamente, na psique humana, é que encontramos, talvez, a maior prova não provada factualmente pela ciência de modo empírico, o transcendental paraíso perdido.


É justamente por isso, e devido a isto, que surge a religião, pois toda e qualquer religião trabalha em cima desta perspectiva, sendo o paraíso o chão de existência e “precisabilidade” da mesma, fazendo do homem seu refém.


Embora, como de fato, tenho afirmado, e continue afirmando, que vivo como se existisse só esta vida aqui, não consigo, por mais que me esforce, e me racionalize a tal ponto, de chegar a os extremos do ceticismo, me livrar totalmente da idéia de transcendência desta vida.


A uma necessidade, mais que biológica emocional e psíquica do homem, que é acreditar na vida após a morte.


Não aceitamos – e nem podemos – o fato de deixarmos de existir.


Mas ao mesmo tempo em que a idéia de um Eder perdido e futurístico é subjacente na subjetividade interiorizada das nossas mais profundas projeções da nossa psique, faz se necessário a crença em uma destruição total de um apocalipse.


Uma idéia não subsistiria sem a outra, são antagônicas, mas paradoxalmente inerentemente inseparáveis.


Assim como céu e inferno, salvação e castigo, esperança e medo são também opostas, mas uma existe por causa da outra, seria uma balança que contrabalanceia e traz consigo equilíbrio cosmo da alma para a alma.


Desejamos o Éden-paraiso, pois temos medo do inferno-apocalipto!


A sensação interna de medo, projetada no nosso inconsciente consciente de um apocalipse vindoura, em forma de morte da nossa habitação corporal, nos remete ao estado de esperança perspectivada de um futuro paraíso transcendente de uma nova roupagem e lugar.


Portanto, vivo minha vida vivendo-a sem viver uma vida futura, mas em meu coração reconheço a impossibilidade e incapacidade consciente de deletar do meu inconsciente psíquico a consciência de um amanhã-futuro após o hoje existencial, um lugar de delicias do paraíso Adâmico, longe do apocalipse final!


Abraços

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Levi Bronzeado disse...

Estimado Marcio


Teus comentários são verdadeiros ensaios. Nesse aqui, só falta colocar um título e postá-lo (rsrsrs)

Somos eternas crianças dependentes do leite materno da nossa velha mãe. O desejo de voltar ao colo daquela que nos acomodou em seu paraíso uterino, permanece em nós, evocando em nós as figuras míticas do Éden.

Em nossa tenra infância tínhamos a ilusão da onipotência de nossos pais e interpretávamos as provações como efeito de seus desejos em relação a nós.

Mas o leite que secou no peito se fez palavra ou linguagem para habitar entre nós, fazendo desse espaço virtual, um recanto para nossas experiências compartilhadas.
É nesses nossos encontros inter-relacionais, sem que se perceba, que disponibilizamos, um para o outro, aos trancos e barrancos, o que vai no nosso “coração vagabundo”.


Um grande abraço,


Levi B. Santos


P.S.: Agora vamos cutucar o Gresder, lá no seu apocalipse. (rsrsrs)

Marcio Alves disse...

Amigo e mestre Levi


A maioria dos meus comentários feitos em seu blog está sendo salvo em World e posteriormente será postado no meu – e do meu sócio Edson – blog.


O seu comentário do meu comentário, também é uma verdadeira perola, pois de fato, sentimos em nosso subconsciente os desejos de retorna as delicias do Éden paradisíaco perdido.


Essa é o grande propósito do blog, passar e receber calor humano afetivo, através das postagens e comentários.


Já o titulo, eu já tenho..............será:

“Paraíso e Utopia”. Rsrsrsrs


Abraços

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Guiomar Barba disse...

Sumi em meio a minha preciosa família, mas não esqueci suas pérolas e desejo de que tenha um ano com mais e mais inspirações e sob plenas bençãos do Altíssimo.

Aproveito para lhe perguntar qual sua visão sobre:

PROFECIAS MAIAS
A primeira profecia diz que nosso mundo de ódio, materialismo e medo, terminará num sábado, 22 de Dezembro do ano 2012. Neste dia a humanidade deverá escolher entre desaparecer como espécie pensante, que ameaça destruir o planeta, ou evoluir à integração harmônica com todo o Universo, compreendendo que somos parte deste Todo, e que podemos existir em uma Nova Era de luz.

A primeira profecia diz ainda que a partir de 1999 teríamos apenas 13 anos para realizar as mudanças de consciência e atitude necessárias para desviar nosso caminho da destruição, e avançarmos para uma nova realidade onde a vida se integra com tudo o que existe.

Abraço.

Marcio Alves disse...

Levi, o seu blog ficou show de bola.

Quer dizer então, que além de filosofo, psicanalista, poeta dos poemas e prosas, tu és também designer de blog? rsrsrsrs


Parabéns!

Abraços

Gláucia Carneiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gresder Sil disse...

Se os homens descobrissem um planeta na nossa galáxia que fosse possível de ser habitando, míngüem mais acreditaria num céu sobrenatural, pois quase todos (exceto os extremistas religiosos) e ate mesmo os cientistas dariam a interpretação ao apocalipse de que a terra seria destruída pela exploração humana conforme as antigas profecias. E que os novos céus seria a vida em outro planeta (não seria Adão e Eva, alienígenas de um antigo planeta distante rsrs).

A que ponto a subjetividade da interpretação pode nos levar, mas ai eu confesso que tem que a ver um ponto absoluto na profecia, pois senão elas ficam a mercê das descobertas humanas e anseios incomnciete da raça como bem narrou o Levi sobre o descobrimento destes novos mundos que foi a América.

A grande verdade do apocalipse é que realmente o que acontece neste mundo como a degradação do planeta e a união dos seres humanos numa ordem mundial de crença e tolerância foram de fato previstas por João. Não que acontecera conforme as tabelas de tempos e ordens das coisas segundo as tradicionais doutrinas escatológicas. Mas num processo imperceptível e de forma que um dia descobriremos que tudo já se cumpriu, pois ate mesmo os grandes eventos que parecem sobrenaturais no livro das revelações acontecerá de maneira tão normal que a humanidade e os cristãos irão viver a plena grande tribulação sem dar conta das coisas. Se já não estamos nela.

Edson Moura disse...

Levi meu querido"mestre Bronzeado", parabens pela nova roupagem do blog...ficou muito bom.

Seu texto é muito interessante...realmente eu nunca havia feito esse tipo de reflexão "hermenêutica".

Longe muitos anos-lúz, estão os meus comentários, dos comentários dos meninos (Marcio, Gresder e Eduardo)...mas é que às vezes gosto somente de ler e "ruminar os textos por um longo período...só assim eles se tornam permanentes em minha memória. (quero guardá-los em meu inconsciente...de verdade)

Este ano veio como uma locomotiva para cima de mim...confesso que a concentração fugiu, e não deu mais sinal de retorno...você está me entendendo né mestre?

Deixe-me colar os cacos do daquele homem primeiro...depois volto renovado.

Eduardo Medeiros disse...

Tu também resolveu mudar né? Que bom...novos ares...só falta agora o Gresder mudar a cara daquele blog a-religioso dele que tem cara de pergaminho antigo...heee

Olha, não sabia que o Colombo sentia-se como um "messias" inaugurador de novos céus e nova terra.

Tenho a obra da Eliade sobre religião, mas confesso que ainda não tive coragem de encarar. Na verdade atualmente, Freud e Jung me tem tomado todo tempo disponível para leitura.

Falando em Freud, você é bem freudiano né não? saudade do seio materno...saudades do pai mantenedor e protetor...

Pegando um cancho no comentário da colega Guiomar, queria dizer que já chegou o tempo dos cristãos se tornarem neo-cristãos e entenderem que o big bang somos nós.

Abraços, poeta-ensaísta

Gláucia Carneiro disse...

Sempre a necessidade de um apocalipse para que algo novo aconteça, ou seja forjado, ou seja criado...