22 julho 2011

Um Deus Mercado Para Nosso Consumo



Na história do primeiro herói hebreu — Abraão, há um chamado a deixar o que se tem: terra e família para ir ao encontro do desconhecido. O deserto é uma metáfora dessa libertação: lá não tem cidades, não tem riquezas, não há lugar para posses. Só se tem o essencial para a vida.

Mas, paradoxalmente à atitude abraâmica, surge lá do centro maior do cristianismo — o EUA, o imperativo de “se TER algo para poder SER”. De lá vêm os ventos “celestiais” que dizem: “sei que um dia morrerei; tenho que garantir a posse de alguma coisa para não perder minha posição social”.

Um exemplo emblemático da voz do deus “Mercado” ocorreu logo após a queda das torres gêmeas nos EUA. O mundo inteiro ainda estava absorto ante a calamidade da tragédia do 11 de setembro de 2001, quando o presidente Bush, mal sabendo o número de mortos recolhidos nos escombros das duas torres, sai para dirigir uma palavra a nação impactada a chorar a perda de seus familiares queridos. A primeira mensagem endereçada por ele à nação minutos após a tragédia foi dizer em alto e bom som: “Não tenham medo, saiam às compras”. Tudo dentro do figurino definido por Zygmunt Bauman, em seu livro “Vida Para Consumo” (A transformação de pessoas em mercadoria): “Para tanto fazem o máximo possível e usam os melhores recursos que têm à disposição, para aumentar o valor de mercado dos produtos que estão vendendo. E os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas. São ao mesmo tempo, os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem”. Contudo, há autores americanos que encontram o lado “bom” desse comércio: dizem que o deus “mercado aplaca a ansiedade e o luto. Vá ver que eles possam até ter um pouco de razão...

O caráter religioso que dos EUA inundou o Brasil, é um fenômeno de cunho puramente mercantil. Os “fiéis” são considerados como mercadorias com valor de uso e valor de troca.

Seria assim, se pudéssemos traduzir a oração inconsciente do crente tipo importação: “Não sou nada! Sou como o deus mercado deseja que eu seja”.

As igrejas viraram empresas, seus membros se tornaram instrumentos despersonalizados dessa megamáquina monstruosa de lavagem cerebral. Para a religião do deus “Consumo” os que não adentram aos seus shoppings vivem no sofrimento eterno do isolacionismo. Seguindo o lema sartreano que diz que o “Inferno são os Outros”, os adeptos dos shoppings “sagrados” têm medo do OUTRO que não freqüenta o seu recinto, pois o considera um doente fechado em si mesmo, um ser que perde o seu precioso tempo a pensar, pensar..., coisa que nas catedrais do consumo se torna proibitiva, por que pensar ou refletir vai de encontro a lógica mercantil religiosa da expansão de vendas dos seus manuais de alcançar a felicidade em dez lições.

E FOI ASSIM QUE O SAGRADO TRANSFORMOU-SE NUM BOM NEGÓCIO LÁ NAS TERRAS DO TIO SAM. QUANDO CHEGOU ÀS TERRAS DE D. JOÃO VI, A COISA DEGRINGOLOU DE VEZ.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 22 de Julho de 2011

Imagem do topo: http://panaceiadosesregulares.blogspot.com/2011/04/os-adoradores-de-dinheiro-e-o-deus.html

P.S.: A foto abaixo mostra uma igreja pentecostal na cidade de Detroit (sede da GM, da Ford e da Chrysler) tendo em cima do púlpito três carros utilitários (um de cada empresa). Fiéis pedem a proteção de Deus pelos fabricantes. Tudo realizado de uma forma "solene" ao som do hino: "Em Busca de Um Milagre" [Acervo da Revista VEJA]


4 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

levi, excelente texto. o capitalismo selvagem não deixa nada de fora dos seus braços longos e poderosos. a verdade é que ele mexe com uma pulsão(não sei se essa é a palavra certa) humana: o desejo de possuir, de ter, de acumular. quando essa pulsão entra na religião, o resultado é catastrófico. perde-se a essência da religiosidade, e faz do seu deus um produto que vende bilhões de quinquilharias por aqui.

e sem dúvida, isso dá prazer para quem está inserido nessa lógica de consumo do sagrado.

Mariani Lima disse...

Oi, Levi!
Adorei o texto! (Só pra variar rs..)
Acho que esse é um fenômeno natural. A relação do homem com Deus está sempre ligada com a sua relação com a sociedade em que está inserida.
Quem é o homem do nosso tempo? Quais as suas necessidades? Esses anseios modernos transformaram o Jeová Senhor dos exércitos em um Gênio capaz de dar muitas dádivas acionado pelo mantra mágico "em nome de Jesus".
Isso tudo não desqualifica a fé, mas sinaliza para onde estamos levando a nossa humanidade, a nossa relação com as pessoas e fatalmente com o nosso Deus insondável e imensamente maior do que supomos.
Grande sua misericórdia mesmo quando tentamos fazer dEle nossa imagem e semelhança. Será que isso tem alguma relação com a frase; "Hoje vemos em parte, mas então veremos face a face?"

Um abração.

Levi Bronzeado disse...

EDU

Há um slogan de propaganda comercial dos automóveis da Ford nos EUA, que diz: “Há um FORD em seu futuro”.

É por uma forma muito parecida que o crente gospel ora internamente, induzido pela mídia do deus da prosperidade econômica. Mais ou menos assim: “Há um deus que vai me dar status no futuro, se eu puser em prática o que ditam os seus manuais”

O fiel- crente vive mais no passado procurando um pai para lhe dar uma moeda ou mesada. Ele procede como uma eterna criança de peito berrando pela mamadeira. (rsrs)


Mariani

É isso mesmo: os anseios modernos de aquisição de produtos foram inteligentemente canalizados pela sociedade de consumo gospel, que fez da figura de Deus seu maior garoto-propaganda.

Abçs, e volte sempre.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Bom tema, Levi!

Triste a nossa sociedade ter chegado a este ponto aqui no sul das Américas. Ainda mais numa época em que a limitação dos recursos naturais, os problemas do aquecimento global, o acúmulo de lixo, a toxidade dos produtos e o gasto enorme de energia têm se tornado uma preocupação cada vez maior.

Contudo, a nossa economia baseada num consumismo irracional vai devorando a Terra e os seus habitantes. O prazer de muita gente está voltado ao consumo. A própria lógica das indenizações reparatórias, o dano moral, é vista como uma compensação em dinheiro pelo prejuízo psicológico sofrido pela vítima em que se entende que, ao receber um cheque do agressor, a pessoa ofendida vai poder "esquecer" a mal a elea causado gastando em bens de consumo.

Lamentavelmente esta é a lógica da nossa sociedade ocidental como se tudo pudesse ser resolvido pelo dinheiro e este servisse de instrumento para a pacificação social (ou não tratar das questões que motivaram o conflito). E a reparação pecuniária formou a até uma indústria no meio jurídico e social, principalmente nos Juizados Especiais Cíveis (os antigos Juizados de Pequenas Causas). Trata-se da "indústria do dano moral".

O devoto do deus mercado torna-se por muitas vezes uma pessoa só, com sérios problemas psicológicos a serem resolvidos e acaba construindo muros nos seus relacionamentos. Seus sentimentos de prazer vão se ligando de maneira tão forte com o consumo e o marketing que ele só consegue se ver gozando a vida com uma roupinha de marca, um bom carro (este é para alguns até uma extensão do corpo).

Entretanto, não se consome o tempo inteiro. Há momentos em que, consumindo muito ou nada, somos confrontados com nós mesmos, com nossos temores íntimos, nossos dramas existenciais e a detestável solidão, Um casal com problemas de relacionamento vai se sentir da mesma forma bloqueado se estiver jantando num restaurante de luxo ou almoçando em casa num domingo. Se estiver num hotel cinco estrelas da Bahamas ou no quarto assistindo TV.

Desejo que um dia a nossa economia mude e que o seu objetivo maior torne-se a satisfação de necessidades, inclusive aquelas que jamais o mercado pode suprir, mas apenas a companhia do outro, o ombro amigo, o diálogo aberto e compreensível, o amor fraterno.

Abraços.