31 março 2012

Por Que Esse “Cale-se” (ou cálice)?!


Por Levi B. Santos


“Quem vê o Filho vê o Pai” ―  quantas vezes ouvi essa frase!
Tu eras forte, e eu brincando, te imitava em tudo.
A nossa intimidade era tanta, 
A ponto de na tua poltrona bela e aconchegante
 Sentir-me como uma extensão de ti.
De uma lúgubre noite, lembro-me bem,
Em que choraminguei bastante
Quando me disseste, que a dureza da vida, teria de enfrentar
Sozinho, cambaleando sem o auxílio de tuas mãos.
Hoje, precisava estar tão perto de ti.
Mas pareces nem notar a minha aflição.
Estou confuso. Da última vez que quis fraquejar,
Tremi diante de tua sentença:
“Você não é mais criança, faça o que bem entender!”
Nenhuma palavra de ânimo, nenhuma ajuda.
Deixaste-me face a face com o meu fardo.
Fizeste silêncio quando mais te queria ouvir
Ah, já sei!.  Um raio de lucidez aportou em mim:
Seria penoso demais para ti, olhar o meu mísero estado.
Seria demais para um pai poderoso
Ter que humilhar-se na pele de um filho escarnecido.
Será por isso que te escondes de mim?
Nunca me senti tão fraco, tão esvaziado e deprimido.
De ti não esperava o agora.
E como uma criança frágil e desamparada,
Temendo que a luz se apague,
Caminho sem nunca chegar ao ponto de onde parti.
Meus projetos e sonhos como bolhas, explodiram no ar.
Por que fui abandonado? Por quê?
És implacável e forte! Tua vontade sempre prevalece
Ao não ter que me dar respostas.


 “Enquanto ele clamava  para que o Pai não o abandonasse, a Mãe estava aos seus pés”  (Mariani Lima)





11 comentários:

Guiomar Barba disse...

Um pai sábio, entende que não deve proteger o filho em determinadas circunstâncias, ou fará com que, quando ele saia do casulo, suas asas não tenham a força suficiente para o voo e estará condenado a viver como larva, arrastando-se pelo chão, suportando a duras penas o peso da sua fragilidade.

"Ele verá o fruto do seu penoso trabalho e a sua alma ficará satisfeita."

Beijão poeta.

Mariani Lima disse...

Então, é isso! O amor de mãe afasta o cálice, segura a evolução. O amor do pai e um impulso forte necessário que chama pra fora.
Essa frase : Vc que sabe! eu odiava, cheguei a preferir: fale com sua mãe! fale com seu pai! rsrs...
Linda sua poesia! Vou ler mais uma vez.(Obrigada pela menção)
Abraços! Fica com Deus!

Eduardo Medeiros disse...

Esse negócio de não proteger o filho em certas circunstâncias, não sei não...acho que eu protegeria meu filho em qualquer circunstância.

A doutrina que a teologia cristã criou para explicar por que Deus abandonou o Filho no momento em que ele mais precisava é complicada e mais complica do que explica.

ora, se a morte de Jesus era um sacrifício pelos pecados de toda humanidade, por que Deus lhe virou o rosto e não recebeu o sacrifício como "cheiro suave"?

Por outro lado, devo admitir que têm certas "missões" que os filhos tomam para si onde o pai precisa ficar um pouco de lado para deixá-lo agir por si só. Mas abandonar? nunca, segundo sinto e penso.

Levi, aplausos para a poesia. Ela também é autobiográfica?

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Interessante o texto quando relata a dor subjetiva do filho pelo crescimento e ter que deixar a dependência paterna. Uma boa identificação com o sofrimento de Jesus.

Mas o que dizer do abandono de Jesus na cruz pelo Pai celestial? Será que esta imagem de Deus tão utilizada pelo Messias não seria de certo modo falha? Ou seria falha a nossa idealização paterna?

Por outro lado, vejo em Jesus um rompimento teológico da visão de mundo que considerava o sofrimento humano uma infâmia ou um castigo pelo pecado. Indo além do Livro de Jó, Jesus nos mostra o quanto é natural sofrermos, adoecermos e até mesmo morrermos dolorosamente.

Na cruz, Jesus padeceu. Seu estado de saúde ficou como o de um doente terminal pela desnutrição após ter suportado tão dolorosos castigos impostosn por seus torturadores. Ali o justo teve a mesma sorte dos malfeitores e, através da cruz, foi destruída aquela visão de mundo tosca de que o seguidor do Eterno não pode passar por dificuldades.

Bem, se o Pai abandona Jesus na cruz é porque acontecimentos assim fazem parte da vida, não? E, desta maneira, o abandono do Filho torna-se também a identificação nossa com um Deus também sofredor que se faz presente quando estamos solitariamente suportando as maiores barreiras da vida e os piores vales.

Lembrando os autores do NT, concordo que devemos ter como motivo de grande alegria passarmos por diversas provações (Tiago), ainda que nos traga tristeza (Pedro), sendo que, gloriando-nos nas tribulações (Paulo), passamos a colher frutos como maturidade, sabedoria, fé genuína, perseverança, transformação de caráter, etc. É o que nos ensina o escritor norte-americano Philip Yancey em seu festejado livro Decepcionado com Deus.

Sobre a música do Chico, muito oportuna para a época da repressão militar, podemos transportar o mesmo sentimento para os religiosos de plantão que tentam calar o justo lamento do irmão sofredor, tentando encontrar motivos absurdos para a doença como se estivesse "faltando fé" ou algum pecado causando o mal.

"Até quando falarás tais coisas? E até quando as palavras da tua boca serão qual vento impetuoso" (Bildade repreeendendo Jó em 8.2)

Aí, nestas horas, nada mais adequado do que dizermos àquela concepção repressora de Deus, dizendo para nós mesmos: "afasta de mim este cale-se".

Levi Bronzeado disse...

“Um pai sábio, entende que não deve proteger o filho em determinadas circunstâncias” (Guiomar)

GUIOMAR

Quanto ao emblemático grito de abandono do filho quando mais precisava do seu tutor, a psicanálise freudiana diz que, “se trata da adesão a um pai não-poderoso que, com seu filho, CALA-SE diante da violência e da maldade humana. Por esse filho se revela precisamente um pai esvaziado de sua potência, entregue e abandonado às conseqüências, felizes ou infelizes da liberdade e do desejos humanos” ― Que no fundo no fundo quer dizer o mesmo que você escreveu no primeiro parágrafo do seu comentário. (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

MARIANI

A imagem fala mais alto que as palavras:

"Um filho condenado a morte, estirado numa cruz suplicando a presença do pai, com a mãe agarrada aos seus pés, rogando por ele na hora de sua morte.

Levi Bronzeado disse...

EDUARDO


Para falar com propriedade sobre o que é se sentir abandonado, tenho que recorrer, é claro, a minha biografia (rsrs)

E fica a pergunta:

Quem poderá afirmar que o grito de Jesus, também, não foi ressonância de um abandono primário de seu pai natural ― JOSÉ? (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

“Será que esta imagem de Deus tão utilizada pelo Messias não seria de certo modo falha? Ou seria falha a nossa idealização paterna?”. (Rodrigo)

Essas são perguntas que não querem como resposta o “CALE-SE” do Gólgota, ou “Cale-se” (cálice) da canção do Chico Buarque, Rodrigo.

A essa idealização paterna, ou “Imago Dei”, Freud denominou SUPEREGO. O Super-ego é o sucedâneo ou o substituto do pai ― o primeiro ideal do menino. A imago paterna (na psique) existe desde a mais tenra infância, e é simbolizada ou projetada nas figuras dos heróis, dos vencedores, dos reis, dos campeões, do general que destrói o exército dos inimigos.

Freud dá a entender que o cristianismo, repete uma experiência infantil. O ser humano lida com os elementos que o ameaçam do mesmo modo que acontece com a criança. Ora, a criança aprendeu a reduzir a sua própria insegurança pela confiança, admiração e respeito medroso por seu próprio pai.

Aí, Edu, entra um pouco de minha autobiografia: a obediência ao meu pai era uma espécie de respeito medroso” (rsrs)

Guiomar Barba disse...

Levi e seu Freud a tira colo. rsrs
O homem natural não entende das coisas do Espírito.

O que lhes parece Levi e Edu, que apesar do brado: Por que me desamparate, Ele tenha entregado na mão deste Pai, o seu Espírito?

Edu Jesus era um homem, não era Eduzinho. Ele havia feito uma escolha, sabia o que iria passar desde o Getsêmani, como sabia porque estava sendo desamparado. Ele mesmo disse antes: "Se o grão de trigo caindo na terra não morrer fica ele só, mas se morrer dá muito fruto.

Ele sabia a que estava referindo-se.
Beijão pros todinhos kkkkkkkkkk

Levi Bronzeado disse...

Guiomar

"Ele sabia porque estava sendo desamparado" (Guiomar)

E por que motivo fez essa pergunta, bradando desesperadamente: Pai, pai, por que me desamparaste?

Você, com essa explicação espiritual, quis, em outras palavras dizer que Cristo estava representando um papel, cujo roteiro sabia de cor previamente?

O herege meu pai, nos tempos de minha adolescência dizia: "Não acredito nunca que Cristo tenha sido um ator".

Eduardo Medeiros disse...

Gui, Levi, Rodrigo.

"Pai, por que me desamparaste"?

Essa pergunta, sem dúvida, encontra na psicanálise freudiana uma explicação psicológica válida.

Teologicamente, fica evidente, como mostrou o Levi, que Jesus não entendeu o abandono do Pai, senão, não teria perguntado "por que"?

Ou, teologicamente, podemos dizer que Jesus já sabia que o Pai o abandonaria e seu grito na cruz foi apenas uma retórica. Mas fica a questão: é uma explicação teológica viável?

Ou ele não sabia que seria abandonado mas mesmo assim, confiante, como destacou a GUI, ele "entregou o espírito ao Pai"

Prefiro a interpretação que Jesus buscava com seu sofrimento, adiantar a vinda do Reino de Deus, onde o próprio, inauguraria enfim, o reinado messiânico.

Mas como entendeu Albert Schweitzer, piedoso médico cristão e autor da obra de referência, "A Busca pelo Jesus Histórico", Jesus pôs a roda da história para girar, mas foi esmagada por ela.