06 agosto 2010

“Ensaios & Prosas” Faz Quatro Anos


Foi no dia 06 de agosto de 2006, que resolvi adentrar no mundo da internet. Substituí o papel por uma tela de computador, e a minha caneta troquei por um teclado. De lá para cá, já se vão quatro anos que vivo engolfando a minha alma nesse recanto cibernético. É de frente a uma telinha luminosa que eu me exercito na arte de escrever como também na arte de ouvir, e, enquanto passam as páginas cinzentas dos dias e as páginas negras da noite, vou interagindo com uma grande rede de amigos virtuais, com os quais me identifiquei, talvez por terem histórias muito parecidas com a minha.

Talvez, quem sabe, esse desejo impulsivo de Ler — Escrever — Ler — Escrever... que me anima, seja um reflexo dos meus treze e quinze anos de idade, quando encolhido sob as tábuas de um banco de minha velha mãe, comercializava roupas e tecidos na Grande feira de Sábado em Alagoa Grande (PB). Era nos intervalos entre as vendas que eu me escondia a fim de matar a fome de leitura.

Lembro-me daquela época como se fosse hoje. E não é que pareço sentir o júbilo incomum que tomava conta de mim, quando esparramado no chão de cimento e pedra lia com avidez incomum, velhos jornais e revistas semanais, como O Cruzeiro e Manchete, que eram usadas como papeis de embrulhos para as roupas comercializadas. Recordo que recortava secretamente, com todo esmero, os artigos de Rachel de Queiroz, de Mário de Moraes e de David Nasser, para guardá-los em casa a sete chaves, no fundo de uma mala, sem saber que naquele solitário e nobre ato, estava inaugurando a minha primeira e rústica biblioteca. Passam na minha mente, agora, as grandes coleções de ensaios e crônicas do cotidiano daquela época, que se perderam, decerto, nas arrumações de casa efetuadas de tempos em tempos. Por achar que todo aquele monte de papeis velhos e encardidos de nada valia, alguém, provavelmente, deve ter jogado fora todo o meu acervo literário dos tempos de minhas primeiras incursões no mundo fantástico das letras.

Hoje, embora sentindo o peso da idade, posso assegurar que não desvaneceu a chama que me queimava o peito nos tempos de outrora. Nesse intercâmbio virtual intermediado pela PALAVRA, tenho feito muitas amizades. São inúmeros os amigos com quem troquei idéias e confidências, a maior parte deles está no quadro de seguidores no topo do blog. Entre os seguidores amigos, destaco Leonardo Gonçalves, Danilo Fernandes e Luis Paulo que foram os primeiros da blogosfera a me incentivarem, republicando com coragem e ousadia diversos ensaios “heréticos” de minha autoria em seus blogs de Apologética.

A todos que nesses quatro anos, interagiram aqui no “Ensaios & Prosas”, especialmente os amigos do peito da "Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola"[C.P.F.G.], da qual faço parte, dedico-lhes a minha primeira postagem publicada em 6 de agosto de 2006.


............. CONTOS ESCONDIDOS

..........

.........Ah! Se realmente soubesses...

.......A minha alma empolgada

.......Embebida nos teus contos.

..........Seria aquilo inveja?

.......Versos enfim escondidos

........Por não saírem de mim?



........Se foi inveja escondida,

......Hoje o que agora escrevo

........É fruto de tua escrita

.....Pois ela encontrou guarida

.......Fez ninho, gerou, nasceu

........No coração deste velho

........


........Me deste total apoio

....Ao leres meus pensamentos,

......Que p’ra contê-los teria

.....Que negar a própria fonte,

.Que por ser tua e também minha

.......Quis jorrar esta poesia.


Guarabira, 06 de agosto de 2010

Agora, ouça o editor do blog no seu velho piano alemão, tocando "Feira de mangaio" do saudoso sanfoneiro paraibano Sivuca.

25 julho 2010

INSTANTES


......A Vida é feita de encantos,

......Da beleza inefável das cores,

......De desencontros e espantos,

......De fel, de lágrimas e licores,

......De vestes, trapos e mantos,

......De adornos, suor e dores,

......Do riso e também do pranto.



......Na estrada árdua e comprida,

......Me puseram como figurante

......Nesse grande teatro da vida.

......Assumi meu papel, confiante,

......Carregando uma alma dividida.

......Vi o perto, no entanto distante

......Da chegada no cais da partida.



......Cegou meus olhos a claridade

......Do dia pleno, cuja luz é crua.

......A noite trouxe a obscuridade

......Pra revelar a minha alma nua.

......E num instante de felicidade,

......Em nostalgia eu vi a minha rua,

......Ouvi ecos de uma tenra idade.



......Vida de instantes vagos e fluídos,

......De efêmeros gozos adocicados,

......De um branco-preto esmaecido,

......Pelo tempo em tons amarelados.

......Para que não sejam esquecidos,

......Ficaram em flashes registrados

......Como bordados em cetim tecidos.



......Por Levi B. Santos

........Guarabira, 25 de julho de 2010

20 julho 2010

HOMEM RACIONAL

Desde que a razão se abrigou em seu peito, ele tem procurado incessantemente esmiuçar o terreno movediço dos sentimentos. A sua casa atual já não é aquela de sua infância, de que ele relembra com saudades; não é a mesma casa onde alimentou os seus sentimentos edipianos. Depois que foi picado pela mosca azul da “sabedoria”, os seus sonhos deixaram de ter aquela eloqüência pueril do tempo em que os “objetos” que povoavam o seu quarto emoldurado de menino, exibiam uma arquitetura sentimental indefinível.


Mas esse homem racional persegue, incansavelmente, com unhas e dentes o ideal abstrato de sua cultura. E o corolário negativo desse ideal é rechaçado como um lixo a ser jogado fora. Entretanto, o resíduo dos sentimentos primitivos “amputados” não lhe deixa em paz, porque a influência dos mitos internalizados no mais profundo do seu ser desconhece a física, a matemática e outras ciências exatas.


A verdade desse homem desconhece que a realidade moderna é uma representação, e por mais que ele tenha a intenção de torná-la “neutra” ou imparcial, não consegue, devido a carga afetiva que o rodeia. Um novo sentido do “real” foi adotado por esse homem racional, que o distancia, consideravelmente de qualquer outro sentido vigente do passado. A verdade científica o deixou frio, e alheio às forças do passado que ainda o rege. A procura de um outro “deus” mais concreto, é sua meta, e isto, o faz viver a ilusão de um dia poder conciliar a imagem divina e paterna do inconsciente judaico-cristão, com os deuses imaginários de outras instâncias religiosas.


Esse homem racional se inquieta com o tal deus paradoxal nomeado à semelhança humana, que se aninha no coração, amoldando-se a forma imaginária, individualizada e sentimental de cada ser. Esse deus com sua verdade abstrata carregada de ambigüidades não o apetece nem mais o entusiasma.


Esse homem é alguém do século XXI, um sonhador apaixonado pela técnica e pela ciência, tentando reorganizar o mundo inteiro para apaziguar os afetos opostos que habitam a sua própria alma. Ele verbaliza em palavras as suas ideias básicas sobre humanismo e liberdade, e assim, vai tirando da somação interminável e asfixiante dos fatos cotidianos a seiva que alimenta o seu projeto de depuração do mundo metafísico civilizacional.


Esse homem é o meu duplo. Está dentro de mim ─ é o meu “eu” racional.



Por Levi B. Santos

Guarabira, 20 de julho de 2010

14 julho 2010

UM LIVRO EM ABERTO

A Escritura Sagrada em sua leitura dinâmica não obedece à temporalidade linear, pois em cada época e em cada geração, o leitor é convidado a reinterpretar subjetivamente àquilo que lhe foi transmitido.

A memória da saga judaica não pode ser estabelecida como algo fixo ou morto. O processo histórico entre o povo de Israel e seu Deus, hoje, retorna para nós em forma de ecos ou sons repetidos e percorre um caminho que nunca foi trilhado antes.


É impossível se apoderar do texto sagrado para sempre, pois ele é a tradução fiel da capacidade subversiva da linguagem criativa, linguagem esta que está sempre se renovando em seus sentidos, no mundo visível-invisível de nossas experiências. A sua singularidade, às vezes contraditória, revela simplesmente o nosso lado humano paradoxal.


A Escritura funciona como um sonho de um sonhador analisado, cuja interpretação, no início da análise, é uma, e no final ganha um nova re-significação. Por isso mesmo, as suas narrativas são infinitas através dos tempos, em outros termos, não existe texto sagrado fechado. Ela, no seu processo de transmissão, entrelaça presente, passado e futuro. A leitura de Deuteronômio (29: 14 e 15) explicita que os textos sagrados formam um livro aberto, e não fechado como muitos entendem: “ E faço esta aliança com o seu juramento, não somente convosco. Que hoje estais aqui conosco perante o Senhor nosso Deus, mas também com aqueles que não estão aqui conosco”.


O que a tradição judaica tem a nos ensinar, é que ela não é herança preservada pela fixidez de uma transmissão mecânica. A abertura da escrita sagrada nos dá o direito de reinterpretar a sua memória através de uma aventura infinita, em que os traços a ser reescritos traduzem a percepção histórica de cada geração.


O ritmo, o timbre, o som da melodia sagrada e os seus movimentos são reinaugurados por nós, que vivemos numa eterna passagem, numa eterna páscoa.


Em cada releitura, renovamos signos, tornando novas a cada manhã, as palavras das Escrituras Sagradas de um povo rico em afetos transcendentais forjados em sua estrangeiridade. Freud ─ o “Judeu sem Deus”, foi buscar na psicanálise esse “conhecido-desconhecido”, esse “estrangeiro de si mesmo” que habita em cada um de nós em sua verdade transitória; foi buscar na desconstrução das representações míticas do povo hebreu, os fundamentos da alteridade, a partir do país do “outro”.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 14 de julho de 2010

06 julho 2010

OBSESSÃO E FUGA





.....................Apagar meus vestígios e limpar minhas manchas.
..............................Para quê? ─ Se o desejo retorna!
.....................Na masmorra do castelo, a obsessão acorrentada,
.....................Como uma criança perversa, ruge vigorosamente:
..........,....................O que sou? ─ Sujeito ou objeto?


...................Evito o confronto. Pasteurizo-me para viver neutro,
.............................Normatizando-me para ser notado.
...................Ancoro-me na minha totalidade indivisa e aparente.
...................Buscando adaptar-me, enterro a minha singularidade
.............................Na ilusão de que serei compreendido.


...................Liquido minhas certezas na unidade ilusória do “não ser”
.................................Defensivamente cadaverizo-me.
...................Caminho a esmo, como autômato numa lenta travessia,
...................Exibindo orgulhoso as astúcias de uma razão organizada,
................................Para manter das ideias, a solidez.


...................Retraio-me diante das sombras cavernosas das normas
...................................Numa fragilidade angustiante.
....................Para impedir que se espalhe, o que se deve guardar,
.,...................Deixo-me levar no mar das hábeis argumentaçõeses,
.................................Numa dança muda de palavras vãs.



...................Por Levi B.Santos

...................Guarabira, 06 de julho de 2010

13 junho 2010

BABEL ─ Ou o Início da Civilização


Homens vindos do Oriente encontraram-se numa planície para o projeto de edificação de uma torre que alcançasse os céus. Tratar-se-ia de uma metáfora da condição humana o motivo de construírem com tijolos e não com pedras, representando a precariedade dos meios, e a própria transitoriedade da vida humana?

Eles jamais imaginariam que a construção lenta, se arrastando por centenas de anos tinha maior significado que o próprio edifício.

Para esse grandioso empreendimento foi necessário inventar as matemáticas, a engenharia de solo, criar uma Universidade que formasse especialistas em fundações e outras ciências de apoio como, Direito, Administração, Sociologia e Psicologia, pois era imensa a quantidade de funcionários e familiares envolvidos no projeto.

A certa altura, ocorreu-lhes uma idéia tremendamente assustadora. Imaginaram que houvessem sido criados por um ser supremo. De repente, passou por suas cabeças o pensamento de que construir uma torre até os céus seria o desejo de regressar ao seio do Criador, ou de imitá-Lo. Pararam a construção quando um Teólogo apareceu anunciando-lhes que o Criador tinha o dom de transformar cada palavra em coisa, e isto os aturdiu.

Após uma Assembleia Geral, chegaram à conclusão de que eram escravos das palavras, e que para fugir desse imbróglio precisavam de inúmeras línguas. “Assim sendo, nossa torre será múltipla, equívoca e sempre diversa de si mesma; a palavra permanece, mas seu sentido sofrerá metamorfoses” ─ disseram eles.

Criaram idiomas, tradutores, dicionários, especialistas em literatura. Com o tempo diversos acampamentos periféricos foram crescendo e se transformando em cidades em torno dos alicerces da torre, que depois cresceram e se transformaram em Nações distintas, cada uma com sua língua e seu deus particular. Surgiram leis e relações internacionais para evitar as guerras idealistas entre as nações.

Muitas lendas, profecias e interpretações ardilosas foram se acumulando com o passar dos séculos. Um profeta defendia que o projeto da torre havia se cumprido, apesar de tudo até ali não passar de um monte de livros escritos. “Por força da multiplicação das línguas, os livros empilhados dariam para chegar aos céus” ─ argumentavam alguns.

Outra profecia mais incisiva garantia que a construção de Babel nunca seria concluída, porque isso implicaria no futuro uma destruição da suposta torre por golpes desferidos por um punho gigantesco.

Três mil anos se passaram desde o início desse monstruoso e imaginário projeto lá no Oriente, mas há quem diga, reinterpretando antropologicamente o mito, que a torre já existe, sendo tão somente a própria cultura humana, tendo a civilização como subproduto de uma obra gigantesca que foi esquecida ou que continua a se realizar de forma inaparente.

A torre de Babel, por conseguinte, talvez esteja por todas as partes de nosso indeciso mundo. Construí-la é tão absurdo quanto desistir da idéia.
A palavra inscrita no coração dos homens converteu-se em várias línguas, e se inscreveu no corpo de cada um como sua Sagrada Escritura.

Enquanto não se descobrir o sistema último de tradução de todos os livros reunidos numa torre denominada “Escritura Definitiva”, vamos recheando de palavras o nosso vazio, produzindo continuamente uma destradução do projeto antigo que nos foi legado, sabendo, de antemão, que o final será como uma fábula cuja moral ficou em aberto.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de junho de 2009

06 junho 2010

DA IMPOSSIBILIDADE DE SER UM QUANDO SE É DOIS




Jacques Lacan, psicanalista francês falecido em setembro de 1981, foi quem realizou a releitura de Freud para o nosso tempo, e ensinou que o amor é o desejo impossível de ser um quando há dois. Noutras palavras, é o desejo impossível da completude.

Ouvimos frequentemente em nossa vida de relação: “Fulano(a) não me completa”, como se a completude existisse. Trata-se de um mito originário da Grécia que se perpetua no nosso imaginário. Segundo esse mito, nos primórdios, a forma humana era uma esfera com quatro mãos, quatro pernas, duas cabeças e dois sexos. Os seres humanos se deslocavam para frente e para trás e, ao correr, giravam sobre os oito membros. Seu orgulho e sua força eram tamanhos que, para enfraquecê-los, Zeus os cortou pela metade. Para os gregos, o corte deu origem ao amor, que junta as metades, e de dois seres faz um.

Num dos seus seminários, Lacan retomou esse mito para ensinar que, na verdade, o amor é o “desejo impossível de ser um quando há dois”. Em outras palavras, é o desejo impossível da completude, já que o desejo de um sujeito nunca coincide inteiramente com o do outro. A coincidência que o amante pode celebrar é a da crença na liberdade do amado. Uma crença que se expressa assim: “Faça o que você deseja porque o seu desejo é o meu; com essa compreensão a relação se renova continuamente, e se perpetua, tornando-se possível”.

A paixão cega, mas o sentimento amoroso ilumina. O amante não precisa perguntar ao amado o que este quer, pois quem ama sabe a resposta.
Mas se amar significasse essa perspectiva de buscar a fusão de dois em um, curar um meio ser humano transformando-o em um ser completo, essa reunificação, funcionaria como se cada ser humano estivesse na expectativa de uma segunda chance de invadir o Olimpo.

O amor, considerado como desejo de fusão com a alteridade, encontra em Hegel seu maior defensor. A noção de amor tem um papel central na sua filosofia, especialmente nos textos da juventude. Para Hegel, o amor é o impulso inerente do ser vivente em direção à unificação com o outro. Os amantes formam um todo, em que cada um é igual no poder: “Somente no amor somos um com o objeto, sem que ele domine, ou seja, dominado” ─ diz ele em uma anotação do verão de 1797. O amor, do jeito que Hegel compreende, é uma unidade equilibrada de opostos e presta um serviço inestimável na história: estabelecer comunhão, comunidade e comunicação entre os seres humanos.

Muitas pessoas nutrem um terrível vazio existencial porque querem existir mudando os outros, querem se realizar no outro, acham que têm todas as respostas para ele, querem “anular a diferença” alheia para se sentirem bem. Por isso é tão comum encontrarmos deficiência no próximo. Sempre achamos que se ele mudasse nisso ou naquilo tudo seria melhor e ele, inclusive, seria mais feliz, esse é o velho hábito da intromissão perniciosa nas desconhecidas terras do mundo da diversidade, que queremos moldar a gosto pessoal, talhando a igualdade como forma de encontrar a fictícia solução para tudo que nos importuna ou contraria os interesses. Muitos conflitos nascem exatamente nesse ato de apropriação indevida da conduta e da forma de ser do próximo. Não sabendo considerar-lhe a singularidade, tentamos combater a diferença ou, o que é pior, adotamos a indiferença...



Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de junho de 2010


02 junho 2010

OS DEUSES DA BOLA UNEM-SE NA ÁFRICA


A origem do mês de JUNHO vem de Juno ─ a Rainha das Deusas e mulher do deus Júpiter. Ela estará reinando nos gramados da África do Sul por trinta dias, sob a forma de uma BOLA ─ encantadora em suas cores e perfeita em suas curvas.

Nessa época, mais do que nunca, sentimos o desejo incontrolável de libertar a criança e a bola que existem em cada um de nós.

Portanto, aqui fica o meu conselho: comprem muitas bolas verdes e amarelas e as espalhem pelo pátio na hora do recreio da escola de seus filhos e, se possível, aumentem o tempo do intervalo do prazer recreativo, que transgride a ordem, pois é tempo de COPA. Escola rima com bola. E se os mestres ranzinzas continuarem com medo das boladas, encharquem-nos com os versos redondos do saudoso poeta esportivo Armando Nogueira. Prosas, versos e crônicas nunca rimaram com bolas em armários. Tirem-nas das prisões e soltem aos montões, pois é tempo de COPA.

É tempo de eleger a bola como centro de toda teoria pedagógica, como fez Froebel (1897) fascinado pelo poder mágico e perfeito de sua forma, que em movimentos divinos, atrai corpos musculosos em movimentos indescritivelmente belos. Nada mais divinamente terreno, que acompanhar o rolar, o vôo, o pulo rítmico e sinfônico dessa poderosa esfera arquetípica que está enraizada no mais profundo do nosso ser, e se liberta à cada quatro anos para reinar com os deuses de cada país do futebol.

Não se esqueçam que os jogos de bola eram praticados na França, em festividades da Igreja, desde o século V, e, na Inglaterra, após o século XII, no período carnavalesco, em batizados e casamentos. Jogar é um exercício de puro amor, porque jogar é sempre jogar com alguém. Entre as muitas modalidades de jogo de bola, o futebol é o mais apreciado pelos deuses, pelo seu sentido mítico-religioso que corresponde à necessidade coletiva da recreação. O futebol como a sinfonia impar do reino encantado da bola, transmite esse dinamismo celestial que une raças e povos, os mais diversos, num tapete impecavelmente fofo e verde ─ cor da esperança que amima os corações dos moços, velhos e crianças.

A pelota na Idade Média estava relacionada com o jogo rude da péla (jeu de paume) praticado na França, com duas variantes: péla comprida e curta; a comprida, de origem rural, com raízes no culto solar, era jogada ao ar livre. A bola era golpeada à mão nua, depois com raquete. A péla curta jogava-se em espaços cobertos.

Na mitologia antiga a bola aparecia como símbolo do poder dos deuses e controle sobre o homem, e nos contos como meio de aproximar amantes. Já nos tempos modernos, a forma de mover (subida e queda da bola) são símbolos da existência humana.

O espírito desse divino esporte já reinava desde os antigos gregos e em muitas culturas tribais. Contemplar os deuses brincando de bola constrói a visão de que o brincar faz parte da vida divina, assim como, os embates em que se envolvem. O espírito do brincar e brigar com a bola além de encher os olhos enfatiza, também, as dualidades de afetos ou sentimentos que permeiam nossa alma, como o conflito e a paz, a ordem e a desordem, a racionalidade e a irracionalidade, a espontaneidade e o controle.

Ah, os deuses! Só eles poderiam aperfeiçoar e tornar o futebol a arte que mais encanta entre as demais artes. Foram eles que trouxeram a arte divinal do futebol que hoje une os povos, promove a auto-estima, a inclusão social, e ainda mais, o seu campo de jogo também é o do combate ao racismo. É no retângulo verde de um estádio multicor, que a cada quatro anos, brancos, negros, índios, e diferentes povos de várias tonalidades religiosas se juntam para uma disputa que é mais uma festa da multiculturalidade em torno de uma deusa, denominada BOLA.

Seja bem-vinda a deusa da PELOTA aos gramados verdes da África do Sul, para nos proporcionar um retorno ao “reino encantado da criança e da bola”, de que um dia fomos protagonistas.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de junho de 2010