26 novembro 2008

ÍNTIMA COMPAIXÃO versus MERCADO GOSPEL




Foi uma oração lida recentemente por acaso, na Internet, que me levou a escrever este ensaio. Há muito tempo já vinha refletindo sobre o “amor” interesseiro, sobre o amor condicionado a determinados paradigmas, que se tornaram jargões no meio evangélico. Percebi no meu meio de convivência a quase unanimidade expressa naturalmente através da seguinte assertiva: “Se não fosse a promessa do céu, e o medo de ir para o inferno, eu estaria no mundo gozando o que ele tem de ‘bom’, estaria ‘pintando e bordando’ ”, como se diz na gíria popular.

A bela e significativa oração de Rabia (mulher Iraquiana - 800 DC), resumiu para mim tudo que eu sempre queria dizer, que há tantos anos estava latente dentro de mim, e eu não conseguia passar para o meu interlocutor, pois não tinha sabedoria ou palavras para expressar convenientemente essa “Grande Verdade”. Algumas vezes que tentei expressar o meu ponto de vista sobre este tipo de “amor” que para existir necessita de uma troca, fui muito mal compreendido.

Gostaria que todos, sem exceção, deixassem as resistências ou parcialidades de lado, para refletir de forma acurada sobre o alto valor metafórico implícito na oração que se segue:

"Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno. Se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso. Mas se eu te adorar pelo que Tu és, não escondas de mim a Tua face”. (Rabia 800 D.C.)

Imediatamente após ler essa interessante e sábia oração, me veio à lembrança a Parábola do “Bom Samaritano”. A oração de Rabia trouxe para bem perto de mim a figura do Samaritano (excluído da sociedade). Samaritano, como os demais, considerado por muitos como um ser da pior espécie. No entanto, moveu-se de “ÍNTIMA COMPAIXÃO”, porque não dizer “AMOR” prestando imediato socorro a um homem que havia sido assaltado, despojado e espancado, e que jazia quase morto a beira da estrada (Lucas 10: 30 à 37).

Não me passa, nem nunca passou pela minha cabeça, que aquele ato de AMOR executado pelo Samaritano estivesse vinculado a alguma coisa em troca. O samaritano excluído e marginalizado viu naquela cena a imagem de si próprio refletida no espelho de sua consciência.

Não! Não! Não tenho nenhuma dúvida, que se houve uma oração por parte do “Bom Samaritano”, foi uma oração idêntica à inspirada por Deus no coração da sua serva “Rabia”.

Amor ao próximo é a maior prova de adoração a Deus (quem fizer a um desses a Mim o faz). Sim, é possível amá-Lo sem pensar em recompensa ou castigo ─, que me perdoe o meu irmão Paulo de Tarso.

Mil vezes acreditar nesse tipo de amor (do Bom Samaritano), do que se render ao “amor” que barganha, que busca os próprios interesses, através de um “pragmatismo gospel” que mais parece um MERCADO de coisas, supostamente apresentadas como sagradas.
Esse espírito de mercado vem de muito longe, pois os filhos de Zebedeu, à época de Cristo, queriam negociar o Reino de Deus, pedindo assentos à direita e à esquerda do Seu Trono. Cuidavam que se devesse servir a Deus por algo que não é Ele mesmo.

Em resumo, a história do “bom samaritano” se converte hoje naquilo de mais emblemático que Cristo deixou para os que querem entender que no relacionamento humano, o AMOR não pode estar atrelado a CONDICIONAMENTOS ou TROCAS. ELE É DE “GRAÇA” MESMO.

A compaixão, de que foi portador aquele samaritano foi espontânea e íntima. Compaixão que não tem esses atributos é pura exibição ou representação. E como qualquer representação, está presa aos falsos valores das estratégias mercadológicas.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 26 de Novembro de 2008

06 novembro 2008

OBAMA ─ ARAUTO DA ESPERANÇA OU DA ILUSÃO?



“Com a recentíssima eleição do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, os americanos renovam seus sonhos e remoçam suas esperanças no verdadeiro “sonho” americano, propalado no passado pelo reverendo Martin Luther King.

Barack Obama não representa somente a vitória sobre o racismo velado de hoje em dia, que encobre as atrocidades do passado, nem tão pouco a ascensão do menino negro e pobre da periferia lutando contra um sistema injusto e excludente. É a vitória do novo contra o velho, a vitória do vanguardismo idealista-progressista contra o conservadorismo arcaico e provinciano do pensamento Republicano. Obama é mais do que o mundo esperava em seus mais lindos sonhos. Obama é a oportunidade mais certa e perfeita no corpo de um homem, a chance mais concreta que os norte-americanos têm de se reconciliarem com o mundo, o momento azado para fazer as coisas certas, no momento propício.

Barack Obama acena como um pequeno fio de esperança que pode ressuscitar os ideais democráticos americanos mais longínquos, esquecidos desde a época da Declaração de Direitos, perdidos na noite do tempo. Obama pode, e tem plenas condições de mudar a forma e orientação política com que a os americanos conduzem os seus laços internacionais com a comunidade internacional, deixando de lado a arrogância monologal americana e repensando as posições arbitrariamente unilaterais que marcaram o governo Bush, no que diz respeito á guerra no Afeganistão e no Iraque, e no que tange as questões ecológicas que versam sobre o aquecimento global e a poluição, podendo rever a sua posição em relação aos tratados. Obama é ainda um sopro de vida para os pulmões tão violados dos Direitos Humanos, e até mesmo pela sua origem humilde e formação humanista, representa um “sinal” de bonança para Cuba, e para por um fim no absurdo de Guantánamo. A vitória de Obama é a vitória da democracia, do multiculturalismo, do diálogo, do pensamento, das idéias, do progresso, do moderno, do humanismo. Obama representa a possibilidade de mudança no diálogo da nação mais poderosa do mundo com o próprio mundo. É como se os americanos agora tivessem a chance de verbalizar suas idéias no mesmo idioma do mundo inteiro. E dependendo dos seus posicionamentos, sendo ele, o homem mais influente e importante do mundo à frente da “máquina americana”, pode influenciar a política mundial, interferindo significativamente na orientação das políticas internacionais em relação às nações subdesenvolvidas e a questão da pobreza e da miséria na África, Índia, etc., pode mudar o foco do pensamento ocidental sobre os grandes problemas do nosso mundo pós-moderno.

Portanto, saudemos a esse jovem negro idealista, que chega à Casa Branca como o arauto benfazejo da esperança em dias melhores, dias tão intensamente almejados por um mundo sedento de Paz e Justiça”


(George Bronzeado)

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O emblemático e empolgante texto acima, relatando os ecos da vitória de Barack Obama, partiu da pena e do coração de um jovem sincero da pós-modernidade, moço já experimentado às asperezas da injustiça que campeia tanto na política, como na economia da maior nação do planeta que vem tomando, de há muito, a responsabilidade de reger os destinos do mundo ocidental e parte do mundo oriental.


Não queria por água na fervura dessa geração que vem depositando tantos anseios, tantos projetos de vida por um mundo melhor com a eleição recente de Barack Obama. Quisera eu ter a mesma ênfase, e a mesma esperança. Porém, no coração cansado de um velho pai, de 63 anos de idade, reverbera um sentimento de frustração imprimido por antigos sonhos inacabados, que se tornaram projetos infinitamente adiados. Na cabeça desse velho estão bem vivas as lembranças de Getúlio Vargas (o defensor do pobre?), de Jânio Quadros (a vassoura que varreria a imundície do país?), de Collor de Melo (o caçador de Marajás?) e mais recentemente LULA e sua turma do “sem medo de ser feliz”.


Assim como aconteceu com Obama lá no hemisfério norte, ocorreu com o nosso atual presidente. Ambos vieram das camadas paupérrimas de um sofrido povo. Para mim e para muitos, a eleição do propalado torneiro do ABC paulista, traria a redenção e a moralização do país, e deu no que deu. Não haveria pessoa melhor para resgatar a moralidade do que aquela que vivenciou as maiores agruras no esturricado e infértil sertão Pernambucano. A esperança que os Americanos hoje depositam em seu novo presidente, foi a mesma que depositei em um homem de dores, acostumado a sentir na pele o peso da miséria, da fome e da exclusão. E o que vi, foi uma monstruosa máquina espoliadora triturar tudo de bom que tinha imaginado, fazendo-me baixar a cabeça, e ter vergonha de ser brasileiro, diante de escândalos nunca antes imaginados.


Assistindo no momento a euforia generalizada em torno de um jovem negro assumindo o trono da maior e mais poderosa nação do mundo, me vem a grande pergunta: “O que fará por uma nação que se diz cristã, um homem de uma raça que, apesar dos ventos do progresso, vem sendo duramente castigada e injustiçada há séculos?". Vejam o que ocorreu com os habitantes de Nova Orleans em sua recente tragédia ─, que como fruto de uma proposital incompetência ─ foram abandonados ao Deus dará, pelas próprias autoridades.


A engrenagem de uma máquina que privilegia o capital em detrimento dos que nada têm, por acaso aceitará em seu mecanismo insano, um Obama decidido a reparar injustiças, a ressuscitar a ética e a honestidade na coisa pública? Ou será simplesmente ele, uma voz no deserto a clamar como João Batista: “arrependei-vos...”.


Ao ver jovens alegres, cheios de ufania, batendo no peito e gritando ─ “Obama, a esperança”, me refaço, me recomponho, procurando não deixar transparecer o desânimo e a decepção que me persegue. De longe, mesmo tocado pelo ceticismo, fico torcendo para que os “Herodes” do mundo globalizado não destruam mais um grande sonho da juventude americana sedenta de justiça.



Levi Bronzeado dos Santos

Guarabira, 06 de Novembro de 2008

03 novembro 2008

LÍRIOS PARA MORTOS E VIVOS



Dia de Finados. A nossa principal praça amanhece multicolorida de flores, contrastando com vestes de cores variadas de pessoas que se espremem, a fim de adquirir ramalhetes destinados a ornamentar os túmulos dos entes queridos que hoje vivem em um outro mundo totalmente desconhecido de nós, os ainda vivos.

As flores que eu vejo nesse dia são flores mortas, de pétalas com pálido brilho, cujo viço artificial é mantido por gotículas de água jogadas de instante a instante por ávidos vendedores. Flores que foram arrancadas cuidadosamente de seus caules para serem trocadas por moedas, que por sua vez serão transformadas no pão farto do mês de Novembro, na mesa dos ambulantes desse mercado espetaculoso de variadas cores e suaves perfumes.

Não sou adepto das flores ornamentando ritual de festa fúnebre. Acho que as flores nasceram para serem apreciadas no seu próprio habitat, que são os campos. Lá, elas são mais vivas, são mais belas, mais misteriosas, mais inspiradoras. O Mestre dos Mestres apreciava mais os lírios, não atados com fitas, nem enfeitando túmulos. Observando atentamente os lírios no campo, Ele foi inspirado a construir uma metáfora, que passados dois mil anos, ainda repercute entre nós, de maneira marcante. Metáfora esta, que serviu de tema a Érico Veríssimo no seu inesquecível livro, “Olhai os Lírios do Campo”.

Dia de Finados é um dia triste, mesmo tendo monte de lírios e muita gente ao redor. Na minha mente um contraste fala mais alto, pois vejo na imaginação, Cristo,tendo ao seu lado uma multidão, e logo ali a sua frente uma plantação de lírios até se perder de vista, no horizonte. Vejo-O parando e observando meticulosamente os lírios flutuantes ante o sopro de uma brisa suave. Vejo-O observando também a multidão preocupada com o que havia de vestir. Vejo-O respirando fundo e falando poeticamente:
“Aprendei com os lírios do campo, como crescem, não trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles”.

Dei uma última olhada na praça de minha cidade e saí para minha casa, deixando atrás uma multidão bem vestida, tendo às mãos flores em sua maioria brancas, que bem poderiam ser, quem sabe, “lírios do campo”.
Mais tarde, tive a impressão de ver muitas pessoas cabisbaixas balbuciando preces inintelegíveis, enquanto outras impassíveis e com o olhar vazio, contentavam-se em observar ramos de lírios murchos deitados sobre uma lápide fria.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 03 de Novembro de 2008

24 outubro 2008

SALVA PELO ECLIPSE




Era sempre naquele intervalo de tempo, entre o final do almoço e o início da sesta que, assim meio a esmo, surgia um tema para ele e sua velha e cansada mãe discutirem juntos, enquanto palitavam os dentes. Ultimamente, ele vinha sempre perguntando sobre fatos relevantes da história pregressa de seus pais, no intuito de estabelecer um paralelo entre a mentalidade das duas gerações. Porém, nesse dia foi ela quem lhe dirigiu os velhos e surrados conselhos que costumava desfiar em ocasiões de dificuldades no meio da família: “olhe meu filho, está na hora de você voltar para a igreja, e se entregar a Jesus. Esse mundo não tem nada mais a lhe oferecer. De uma hora para outra a gente vai embora dessa terra, e o que será de você, sem a certeza da salvação?”.

Nesse dia ele resolvera explorar o tema “salvação”, em conversa com a sua mãe. Após alguns segundos em silêncio, resolveu fazer a primeira pergunta, enquanto molhava a língua com a colherinha cheia do caldo grosso da salada de frutas grudada no fundo da taça. Respirou fundo e perguntou:

─ Como foi a sua salvação mãe, ou melhor, o que fez a senhora procurar a igreja?

─Ah, meu filho. Eu morava no sítio Várzea Grande, quando mais ou menos lá para as três e tanto da tarde, o mundo começou a escurecer. De repente, em pleno dia, as galinhas e os galos começaram a subir nos poleiros. Anoiteceu rapidamente, e eu ouvia os crentes todos alegres orando alto e dizendo que era o fim do mundo, era a vinda de Cristo, e quem não fosse salvo não iria para o céu. Meu filho, eu disse “perna pra que te quero”, e corri desabaladamente para o local onde os crentes estavam reunidos, gritando: “eu também quero ir com vocês, quero ser crente”. Fui me proteger debaixo do teto onde todos estavam unidos de mãos para cima em um só pensamento, aguardando só a hora de ser arrebatada. Depois de alguns minutos o dia foi se tornando claro de novo, e tudo ficou normal. Depois fiquei sabendo que tudo tinha sido obra do tal de “eclipse”.

O filho, no entanto, insiste diante da mãe, dizendo que ela não tinha ainda revelado o sentimento cristão que ocasionara a sua conversão, e ouve dela a frase óbvia:

─ Meu filho, não se faça de burro! É claro que foi o “medo”, que me fez tomar a decisão de ser crente. Eu nem precisei ouvir palavra nenhuma, para me tornar uma pessoa "salva". O medo do fim do mundo me fez correr para a igreja. Chegando lá eu disse: eu também quero ir para o céu junto com vocês. E estou aqui até hoje, graças a Deus.

O filho querendo suscitar na mãe uma maior reflexão acerca dos detalhes narrados em sua conversão, inquiriu-a dessa forma:

─ Quer dizer que o “eclipse” lhe salvou? E onde fica Jesus nessa história toda?

A mãe antevendo aonde o filho queria chegar, muda de assunto e fala em tom de repreensão:

─ Olhe meu filho, aí é onde está todo o seu 'atrapalho'. Você nesses seus estudos, tudo quer saber. - Sabe do que eu tenho medo?

─ Medo de que mãe?

─ De tanto tu estudar, ficar como o filho de Olegário, que leu demais e ficou doido.

A essa altura, ele sabia que não adiantava ir mais além. Afinal, sua mãe além dos 82 anos de idade, era hipertensa e cardíaca e, ele não devia puxar muito pelo seu juízo. Terminou a entrevista para evitar uma dor de cabeça na velha, e saíu para a “sesta” na velha rede do quarto de visita. Lá ele continuou com os seus botões a refletir sobre o tema “salvação”. Deu asas a imaginação, chegando à conclusão de que cada pessoa tem a sua maneira peculiar de relacionamento com Deus. As “boas novas” de salvação da sua mãe, a seu ver, tinha sido o aterrorizante “eclipse”, que a fez decidir-se através do medo. Ainda tão moça, passou a viver em função do seu maior anseio: a vida após a morte, o “céu” de delícias, sem dores, sem eclipses e sem medo.

Enquanto esperava o sono, balançando-se em sua rede na penumbra do quarto, o filho lembrara-se de um trecho do que dissera Cristo na sua filosófica e sábia oração, descrita assim no livro do evangelista S. João: “Ora, a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. Ele entendia que nessa emblemática parte da prece dos Mestres dos Mestres, estava todo o esteio das “Boas Novas” do evangelho. Dessa forma, o gozo da “salvação” ─ a “vida eterna” ─ já seria experimentada “aqui e agora”, não se restringindo apenas a uma vida sem fim, após a morte.

Enquanto a sua mãe cantarolava na cozinha lavando os pratos e talheres, ele chegara à conclusão de que o mais enriquecedor seria, em vida, conhecer a mensagem salvadora, cuja essência não está atrelada a cataclismos como eclipses, terremotos e outros vendavais. A condenação eterna, essa sim, seria ter que continuar nas trevas da ignorância, ou seja, continuar cego para o conhecimento da Luz que está em Cristo.

Entre um cochilo e outro, forçando um pouco o ouvido, dava para ele ouvir o estribilho do hino que a sua mãe continuava a cantar, navegando num mar de louças e caçarolas em sua cozinha. Ele ouvia a sua vozinha fraca e um pouco desafinada dizendo assim bem no final da estrofe: "Aqui na terra nada mais almejo. A vida eterna eu terei lá no céu".

Ao escutar o estribilho do saudoso hino repetidas vezes, chegara a pensar que sua mãe ainda continuava a viver na escuridão do eclipse solar de sua mocidade, mas depois entendeu que "Salvação", "Vida Eterna" e "Condenação Eterna" tinham conceituações que realmente não encaixavam no entendimento dela.

Pressentindo que a linguagem de sua mãe era outra, ele decidiu sensatamente não tocar mais no assunto.
Sabia de antemão que ela tinha outros valores diferentes dos seus; certamente, em sua relação simbólica com o Divino, o medo do fim do mundo transmutado no fatídico "eclipse" fora a causa de sua "redenção". Onde entraria aí a "salvação pela graça" , ele não tinha a menor idéia. Refletindo melhor, entendeu que não adiantava questioná-la, ainda mais sabendo-se que a multiface de Deus é infinita, e cada um tem o céu que imagina, em conformidade com o velho ditado: "em cada cabeça um mundo".



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 24 de Outubro de 2008

22 outubro 2008

COMPRIMIDOS PARA REFLEXÃO

.................(Pensamentos por: Levi B. Santos)


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“Cada um de nós guarda em silêncio um mundo perdido, do qual, temos uma tênue imagem ao observarmos atentamente uma criança”.



“LIVRO ─ Uma caixa de sementes a espera de uma terra fértil para germinar”


“Como tratar os diferentes. Tornando-os iguais a nós, ou aproveitando o que neles nos é estranho para aprendermos mais?”.


“Quando morremos, o que fica não é o que imaginamos que somos, e sim o que os outros imaginam de nós”.


“No céu de nossa existência expulsamos anjos caídos todos os dias”.


“O ofício de escrever é movido pela necessidade da alma, e não do bolso”.


“A fé me faz alçar vôos altíssimos. A razão me puxa para baixo a fim de manter meus pés no chão”.


“REFLETIR ─ é dar uma lufada de ar nos pensamentos”.


“O encontro entre as pessoas, mesmo o mais simples dos contatos, reverte-se mais em possibilidades de ganho do que de perda”.


“É nesse ‘estranho’ familiar que provoca dissensões, onde reside a minha própria verdade recalcada”.


“A vida é um incessante avaliar crítico daquilo que temos nos tornado”.


“A pressa turística de um rosto, nos insere em um mundo de terrores e maravilhas que animam nosso cotidiano”.



10 outubro 2008

GRAÇAS PELAS DIFERENÇAS




Obrigado ó Deus, por este corpo em bela harmonia.
Tantas células, tantos órgãos com tecidos diferentes
Estão sempre funcionando em uma perfeita sintonia,
Levando-me a pensar na convivência entre as gentes.



Te agradeço, teres me dado tantos entes diferentes,
E que naquelas diferenças em que tanto discordava,
Vi certos valores que em mim não estavam presentes
Estimulando-me a paciência de ouvir, pois só falava.



Sou grato por meu fracasso, em querer um só pensar.
Descobri que era só vaidade de uma mente obstinada.
Aquele ser que combatia, hoje vejo com outro olhar;
Não compreendia o outro, pois tinha visão obcecada.



Exatamente o contrário do que pensava aconteceu,
Pois aonde eu via covardia, já não vejo mais assim.
Via uma ação diabólica, mas eram os dedos de Deus,
Abrindo mais os meus olhos para ver dentro de mim.



Grato a Deus nestes versos, por todas as diferenças,
Se tudo fosse unanimidade, o diálogo não existiria,
Renovei o entendimento, e abandonei certas crenças:
De ver no outro um inimigo; julgando-o me defendia.


Versos por: Levi B. Santos
Guarabira,10 de Outubro de 2008

22 setembro 2008

NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos. (Isaías 55: 8)



........................Flutuar
......................No etéreo
........Movimento contínuo de asas
..............Exaltar teus sentidos
.....................CORPORAIS.

.....................Pensamentos
..................Transcendentes
.......Que consolam e fazem sonhar
...............Tal cantiga de ninar
.......................APAZÍGUA.


........................Mergulho
.................... ..No infinito
.........Do imaginário céu das idéias
.............Ilusões, contos d’além
........................IRREAIS.


........................A imagem
.......................Do Sagrado
........Imperfeita, porque és humano
...............O imortal é sem formas
......................IMPENSÁVEL.


.......................Impossível
......................O outro lado
......Da essência e linguagem dos anjos
..................És carnal e és barro
.......................ATERRISAS.



.....................Por: Levi B. Santos

13 setembro 2008

A COMÉDIA DOS PODERES À BRASILEIRA



A panacéia de comicidades que acontece entre os poderes da República do nosso país, nos faz lembrar de fatos ocorridos há duzentos anos, por ocasião da chegada de Dom João VI e sua “troupe” ao Rio de Janeiro. Naquela época deu-se o início da interminável comédia que dura até hoje, no grande teatro chamado Brasil. Aliás, é no presente momento, que com outros coadjuvantes, ela atinge o seu auge de “ópera bufa”. Somos os súditos remanescentes daquele tempo de colônia, cuja maioria dos nativos assistia a tudo sem entender nada. Há dois séculos, os habitantes das terras de Santa Cruz foram obrigados a ver passivamente a degradação dos costumes trazida por uma rainha louca, um rei medroso e uma corte corrupta.

O livro 1808 (lançado em 2007), de Laurentino Gomes, traz um retrato fiel do que foi aquela época, em que os nossos primeiros atores vindos do além-mar deram início a essa trágica-comédia, que hoje, com ingredientes mais picantes, tempera o caldo de nossa triste herança cultural. Dois versos popularmente conhecidos, da era imperial, que faz parte desse denso e significante livro, traduzem mui apropriadamente o sentimento daquele tempo, que não é diferente do de hoje. Vejamos:


Quem furta pouco é ladrão
Quem furta muito é Barão
Quem mais furta e esconde
Passa de Barão a Visconde.

Furta Azevedo no Paço
Targini rouba no erário
E o povo aflito carrega
Pesada cruz ao calvário.



Um capítulo recente dessa comédia foi comentado exaustivamente através dos meios globalizados de comunicação (Rádio, TV, Jornais, e Internet), sendo também motivo de piadas, risos, medos e indignação. Entre outros, este episódio recente, sem sombra de dúvida, ficará registrado na história rizível desse gigante e eternamente adormecido país. Não sei, mas o negócio é tão absurdo, que fica até difícil descrever a hilariante barafunda em que se atolaram os nossos principais atores dos poderes veneráveis da República, quando da prisão cinematográfica do megainvestidor Dantas pela Polícia Federal.
Do que foi veiculado pela imprensa, naquilo que bem poderia ser chamado de a versão brasileira da “Comédia dos erros” de Shakespeare, extraí esta emblemática e chamativa manchete: “O Presidente anunciou que a Polícia Federal vai investigar a ABIN (agência brasileira de inteligência), que colaborou nos grampos telefônicos a pedido da polícia Federal, que agora vai tentar prender os arapongas da ABIN, que fizeram um grampo contra o ministro do STF, que mandou soltar o grampeado Dantas, que a Polícia Federal mandou prender.” De todo esse desvario de incongruências, na gíria popular, dir-se-ia que a cobra mordeu o próprio rabo.
Escrevendo sobre a Polícia de Dom João VI no seu livro "1808", Laurentino Gomes fala do advogado Viana, o mais influente auxiliar do príncipe regente, o qual recebeu a incumbência de por ordem no caos colonial reinante. Foi justamente em 1816 que Viana criou com a aquiescência do manda-chuva da nação, aquilo que seria o embrião da nossa ABIN. A partir daquele ano, um serviço de espionagem estava montado para bisbilhotar a vida dos habitantes dos bairros do Rio de Janeiro. No dizer do autor, “os agentes de Viana eram implacáveis e truculentos”.
O recente imbróglio dos “grampos” que provocou alvoroço entre o Presidente, o STF, a Polícia Federal, a ABIN e o Senado, se tornou o melhor presente que se poderia oferecer ao povão na comemoração dos duzentos anos do Império e sua Polícia. Dessa maneira, as altas personalidades dos três poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo) protagonizaram na pós-modernidade, a melhor e mais hilariante cena da longa comédia iniciada nos tempos de Dom João VI.
Razão teve William Shakespeare quando falou: “Só se conhece um homem de verdade no exercício do Poder”. Parece que os homens que ambicionam os mais altos degraus das altas instituições de uma nação, não resistem ao fascínio de lutar bravamente pelos papeis principais dessa grande “telenovela” que é a comédia da vida política de uma nação, a ponto de cegar para o ridículo dos atos que representam no seu dia-a-dia.
Os súditos de hoje, de tão acostumados já não se indignam mais. Pelo contrário, riem e aplaudem calorosamente os seus inescrupulosos e carismáticos personagens.
Salve o atual Príncipe e sua “troupe”!!!
Até o próximo ATO dessa comédia interminável chamada Brasil.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 13 de Setembro de 2008

03 setembro 2008

EXCESSOS NA PROPAGANDA ELEITORAL



Atinge as raias do absurdo, o que vemos no interior de nossas cidades durante os sessenta dias que antecedem as eleições. Nem parece que vivemos na era de ouro da comunicação, onde tudo que é de informação chega as nossas casas, através da TV, da internet, do rádio e dos jornais. Época de propaganda eleitoral se tornou sinônimo de conturbação, confusão no trânsito, desrespeito ao cidadão, que não sossega um minuto sequer, sem que seja molestado por uma barulheira ensurdecedora de provocar distúrbios auditivos tanto em crianças como
em idosos. Não há o mínimo de respeito ao silêncio no “horário nobre”, no interior das residências. E o que dizer dos engarrafamentos monstruosos que os carros de propaganda e passeatas provocam nos dias de feira, perturbando o ir e vir dos pais e mães de famílias, que cumprem a obrigação semanal na compra de produtos para a sua sobrevivência.

São os próprios candidatos e partidos que, numa atitude insana, decidem como, e o que veicular para chamar atenção do eleitor. Se não respeitam o mais simples código de convivência; se não entendem que estão ferindo o direito do outro, como irão se comportar esses candidatos quando estiverem com o poder nas mãos?

O STF recentemente se pronunciou sobre a propaganda eleitoral de forma até certo ponto sutil, dando um basta nos shows-comícios que torravam uma parcela considerável dos nossos suados impostos. Agora há pouco um Juiz Pernambucano proibiu carreatas em sua cidade. Quando aqueles que se arvoram em reger os destinos de um povo, sem nenhuma parcimônia, desrespeitam a tranqüilidade de uma cidade, só resta a Justiça se pronunciar de forma dura.

Não há mais razões para tantos excessos, distorções e abusos praticados nas ruas em nome de uma insensata propaganda eleitoral. Se em cada recanto, em cada casa, a mais longínqua que seja, existe um rádio ou um televisor para transmissão das idéias (se é que existem) dos candidatos, não há como tolerar a baixeza e a infantilidade gritada aos quatro cantos das cidades, em serviços de alto-falantes ajustados ao máximo de sua potência.

Comícios, carreatas e passeatas são modelos de campanhas que, de tão desgastados e ultrapassados, não deviam fazer parte do cardápio político atual. Nos tempos antigos essas formas de propaganda política tinham sua razão de ser, pois o cidadão não dispunha dos modernos meios de comunicação que se tem hoje.

A letargia e a inércia mental contaminam a muitos nessa época de alvoroço e intranqüilidade. Tudo é feito de uma maneira escancarada e vergonhosa, como se os eleitores fossem meros receptáculos para deposição de idéias estapafúrdias com rótulos de “política saudável”. Alguns mais afoitos chegam até usar o nome de Deus em suas artimanhas eleitorais. Outros picham frases esdrúxulas e sem sentido nos muros e paredes residenciais num verdadeiro atentado às regras gramaticais mais simples de nossa língua. Desse modo o país vai vivendo o paradoxo de ter um sistema de votação eletrônico exemplar, ao lado de um modelo obsoleto de campanha eleitoral que nada esclarece. Antes, ludibria e confunde a cabeça do humilde eleitor.



.......................Texto de: Levi Bronzeado dos Santos

.......(Reproduzido no Jornal Correio da Paraiba de 02/09/2008)

.......................Guarabira, 03 de Setembro de 2008

30 agosto 2008

DOS JULGAMENTOS E DAS SURPRESAS




Em nossos relacionamentos pessoais estamos constantemente exercendo racionalizações sobre o outro. Quer conscientemente, quer inconscientemente, estamos a valorizar certos ideais ou verdades pré-estabelecidas que nos são de suma importância. Temos os nossos valores que se confrontam com os ideais do outro. Muitas vezes, aquilo que mais prezamos, é desprezado pelo nosso semelhante, por nossos familiares, ou nossos amigos. Às vezes, os nossos valores parecem-nos tão importantes e inquestionáveis que chegamos a pensar que todas as pessoas deveriam aceitá-los.

Cada pessoa é um ser único neste mundo, tem a sua própria história de vida, tem a sua própria “visão de mundo”. Devemos refletir que ninguém é obrigado a sentir o que sentimos, da forma como sentimos. Os julgamentos que fazemos são puramente subjetivos, pois cada um percebe de modo diferente as suas convicções. Às vezes, colocamos o outro em um patamar inferior, por não conseguir perceber ou se expressar a nossa maneira sobre determinados sentimentos ou idéias. Não é por acaso, que somos apanhados de surpresa toda vez que subestimamos ou superestimamos o nosso próximo. É de nossa própria índole este maniqueísmo de pensamento: “Ele é bom ou mau?” “Está certo ou errado?” “É superior ou inferior?”. É entre estes dois pólos, entre estes dois extremos, que realizamos a maior parte do nosso jogo de julgamento de valores.

Subestimamos o outro quando o julgamos incapaz de ter determinada virtude. Superestimamos o outro quando o achamos inatingível em suas qualidades ou virtudes.

Os julgamentos que engendramos cotidianamente em nossa mente, a respeito do outro, trarão como conseqüências as inevitáveis “SURPRESAS”, que de acordo com nossas racionalizações, denominamos de Surpresas agradáveis ou Surpresas desagradáveis. Diante de algumas surpresas ficamos tristes; diante de outras ficamos alegres.

Entre os inúmeros exemplos, colhi um, para demonstrar como um julgamento por “superestimação” pode nos proporcionar uma “surpresa desagradável”:

Uma pessoa sofreu uma grande decepção que lhe deixou arrasada, quando soube que um ‘casal exemplar’, na mais sublime concepção conjugal da palavra, cometeu uma gigantesca insensatez. Esta surpresa lhe trouxe um gosto amargo, pois julgava o “perfeito casal” supracitado, acima de qualquer suspeita. Nesse caso, a elaboração de um julgamento prévio, em nível pré-consciente, fez o sujeito da ação, projetar no outro um ideal inatingível. A imagem do casal foi se solidificando paulatinamente, como se estivesse sobrepondo argila, camada sobre camada. Quando aquilo que se tem a respeito do outro, como imagem definitiva, desmorona, traz sempre em conseqüência uma surpresa desagradável. No centro de tudo está a superestimação, a qual é sempre fruto de um falso julgamento.

Não é bom fazer do nosso próximo um baluarte de segurança, ética e moral, imaginando que nunca poderemos alcançá-lo, pois aquilo que a gente coloca tão alto se desmancha no ar, podendo ocasionalmente nos levar de roldão. Ficamos frustrados por um dano imaginário, tristes por ter perdido um referencial que estava se vivenciando como algo real. O casal da história acima tinha se tornado um símbolo da “verdade aparente” do outro.

A queda ou fraqueza daquele que nos servia de referencial nos traz um sentimento de tristeza; um sentimento de que algo dentro de nosso ser se perdeu. A superestimação engendrada quando se atribuiu uma perfeição inumana a dois simples mortais (o casal da história) foi responsável pela surpresa desagradável.

Com a perda daquilo que idolatrávamos vai embora uma máscara que possuíamos, e que tanto prezávamos, pois era com ela que nos víamos no espelho do nosso relacionamento humano. Ao arrancar esta máscara de nosso rosto, sentimos a dor, de que com ela, foi embora um pouco de nossa pele. A surpresa decorrente de um julgamento por algo que superestimamos, dói demais.

Quando tomamos consciência do falso julgamento que provocou em nós essa tristeza, nos refazemos, renovando nosso pensamento para prosseguir pelo mundo afora procurando não nos surpreender tanto. Façamos nossas as palavras de parte do segundo versículo, do capítulo doze, da carta de Paulo aos Romanos: “...Mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.”

Um outro tipo de SURPRESA é a que nos agrada, nos causa alegria, e levanta nosso “ego”, a qual, também, não deixa de ser fruto de um falso julgamento engendrado no mais recôndito de nossa mente. Esta é por subestimação, contrária àquela que foi por superestimação.

Para explicar a surpresa por subestimação tomemos entre os demais casos, este como exemplo: “um dos nossos filhos que considerávamos relapso nos estudos decide-se prestar um exame dificílimo. Racionalizamos logo em nossa imaginação, que o mesmo por não ter capacidade, não vai ter um bom desempenho, e um belo dia tomamos conhecimento de que o mesmo conseguiu ser aprovado. Então saímos logo a propagar a tão grata surpresa”. Fomos surpreendidos. Porém esta surpresa não incorreu em tristeza, como no primeiro caso do ‘casal perfeito’. De inicio a sensação que nos invade é de vergonha, pois julgávamos o filho incapaz. Só depois de uma reflexão apurada, é que temos a humildade de reconhecer que algo de bom veio de onde menos se esperava. É sempre assim: só esperamos algo de bom daquele “bem direitinho”, daquele “bem comportado” que reza pela nossa cartilha. A subestimação, no caso do filho considerado incapaz, adveio de uma projeção de nossa fraqueza em nosso próximo, fruto que foi, de nossa própria baixa auto-estima “Então nos flagramos dizendo: ‘não esperava nunca que ele fosse aprovado’. Se parássemos para pensar melhor, veríamos que primeiramente subestimamos aquele filho, para em conseqüência sermos surpreendidos por ele. Diante desta surpresa, nos alegramos, porque aquilo que pensávamos que era fraco, era forte ─ numa analogia ao que Paulo falou aos Corintios (... pois quando estou fraco, então é que sou forte). Somos desta forma, sempre traídos quando fazemos juízos de valores em relação ao nosso semelhante. Não temos a capacidade de realizar justo julgamento, pois, julgamos pelo que vemos e pensamos e não pelo que existe no coração do outro.

Quanto nos causa prazer citar a parte final de Apocalipse 20:4: “... e foi lhes dado o poder de julgar”. Por enquanto, para nós mortais isto é impossível. Na outra vida, talvez possamos exercer esse dom com justiça e sobriedade, sem aquele tempero de vingança que até em sonhos permeia nossas ações nesse mundo competitivo e hostil.



Ensaio por: Levi B. Santos

29 agosto 2008


CARO(A) INTERNAUTA

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26 agosto 2008

A ROTINA



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23 agosto 2008

O STF E O SIMBOLISMO DAS ALGEMAS




As algemas postas no poderoso Sr. Daniel Dantas por ocasião de sua emblemática prisão, produziram na corte de justiça máxima do país, uma inusitada reação, que tem tudo a ver com a nossa história. O legado sobre algemas, que todos nós brasileiros estamos familiarizados, através dos livros e filmes históricos é outro. Talvez um psicanalista explicasse melhor a causa do mal-estar que estas algemas provocaram nos senhores juízes do Supremo. Jung, um dos maiores estudiosos da alma humana diria que os dotados de poder reagiram de acordo com o seu próprio inconsciente. O “inconsciente” sendo a sede dos mitos, dos símbolos religiosos e dos padrões sociais e culturais de um povo, é sempre instado a dar uma resposta, quando fica diante de uma situação em que um modelo tradicional corre perigo, de ser usurpado em seu próprio significado.

Ao assistirem no horário nobre da TV, as cenas chocantes de uma alta personalidade da esfera social, de paletó e gravata, sendo vítima de um instrumento que não condizia culturalmente com o seu padrão social e político, os juízes, de um modo inconsciente, se sentiram na própria pele da vítima. Ali estava um homem igual a eles ─ das altas esferas do poder político ─ sendo “vilipendiado” publicamente. Sendo assim, tiveram uma reação natural em defesa da própria casta a que pertencem, e não poderia ser diferente.

Recordemos um pouco da nossa colonização. Qualquer estudante do primeiro grau ao ler ou ouvir a palavra “algema”, irá associar esse instrumento repressor ao tempo da escravidão, onde os pesados grilhões de ferro que limitavam a liberdade do indivíduo, eram destinados aos escravos e não aos seus senhores. As algemas combinavam perfeitamente com os pulsos musculosos e nus dos escravos, e não com os antebraços cobertos pela indumentária de puro linho branco reservada aos barões.

Hoje, o tratamento indigno do tempo da escravidão está destinado aos pobres e desvalidos que vivem à margem da sociedade. O caso “Dantas” suscitou todo um clamor vindo de cima, no sentido de coibir com veemência o uso das algemas na prisão de cidadãos que não oferecem perigo à sociedade. Evocando princípios humanistas, os ministros de uma tacada só preservaram os “arquétipos sociais” imprimidos nos tempos da “Casa Grande e Senzala.”

Os senhores do Supremo bem que poderiam citar Fernando Pessoa, no seu poema, Emissário de um Rei desconhecido: “sou emissário de um Rei desconhecido, eu cumpro informes e instruções do além[...]. Inconscientemente me divido entre mim e a missão que o meu ser tem. E a glória do meu Rei dá-me o desdém por este humano povo entre quem lido”.

Ao tentar maquiar a vergonha da indignidade desse vil instrumento de prisão, os juízes aproveitando-se do ensejo, legislaram rápidos para favorecer uma elite da qual eles mesmos fazem parte, sem que a sociedade tivesse a oportunidade de entender o motivo real da decisão, vinda das entranhas do "poder".

As algemas colocadas em um “joão-ninguém” não gritam e nem criam tanta celeuma quanto os grilhões atados às mãos de um megainvestidor ou banqueiro qualquer. Pelo contrário, a insensibilidade ao se algemar um desvalido, por fazer parte intrísseca de nossa triste história, já não suscita nas autoridades as mesmas reações de constrangimento.


Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de Agosto de 2008

19 agosto 2008

ALMA FLUTUANTE


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.................És alma leve. Nesta terra errante, vagas,

.................Em meio a dissabores e momentos de prazer.

.................A esperança e o medo, cujo peso te esmaga,

.................São filhas da dúvida, que habita o nosso ser.



..................És alma que flutua, impelida pelos ventos.

..................Te aparece o medo, quando pensas o ruim.

..................Quando almejas o bem em sóbrios momentos,

..................A esperança aparece dentro do teu ser enfim.



...................O medo e esperança são ondas do teu vagar,

...................Que lutam e se alternam na imensidão do mundo,

..................E, como pólos fincados não se deixam arrancar;

...................Bebes deles a seiva que fazem o teu ser, fecundo.



...................Nas ondas da esperança que tu desejas gozar,

...................Surgem os ventos do medo que te trazem o sofrer.

...................Que entre estes dois afetos, deixa-te flutuar.

...................Conforma-te ó alma, este é o nosso viver!



..........No abismo do medo cujo símbolo é o mar,

..........Temeroso flutuas, mas sem nada alcançar

..........E a esperança invisível que é metáfora do ar,

..........Faz tão leve o teu peso que te leva a pairar.



...................Disse o apóstolo Paulo com certeza e pujança,

................ “Quando queria o Bem, com ele estava o Mal”.

...................Se o mal é filho do medo, e o bem da esperança,

...................Num dia vagas em calma, noutro em vendaval..




......................Versos por Levi B. Santos

......................Guarabira 19 de Agosto de 2008



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