26 novembro 2011

A Corrupção Que Nos Assombra




Francamente, não suporto mais, já cansei de ver as manchetes diárias que saem nos nossos meios de comunicação com denúncias escabrosas comprovadas por farto suporte de documentos, envolvendo as autoridades de nossa República, que deviam zelar pelo bem público.

O Congresso que deveria ser a mais sólida trincheira em defesa da ética e da moral está totalmente desmoralizado. A imprensa é quem vem fazendo a “faxina”, a ponto de em seis meses do governo Dilma, ter descoberto seis ministros com a mão na botija. A meu ver, em nenhum outro país, ocorreu um corte de tantas cabeças ministeriais em tão pouco tempo de governo.

O psicanalista gaúcho, Contardo Calligaris, dá uma explicação bem aprofundada sobre como se formam essas “cabeças corruptas”. Diz ele:

“O Brasil destaca-se nessa triste situação não só porque é forjado na cultura individualista, mas por sua História, sempre vulnerável à corrupção”.

O presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre acrescenta ainda: “a história do país explica muita coisa, pois é fruto de uma cultura específica: instituições, organização social, costumes, crenças e mitos. Na fala e no inconsciente dos brasileiros, há a presença de duas figuras supostamente perdidas no passado: O ‘colonizador e o colono’. O colonizador abandonou a mãe-pátria, Portugal, por uma nova terra, que vai explorar. O que quer dizer explorar?. Conhecer e também arrancar seus recursos. Ele veio impor a sua língua e gozar a nova mãe sem o interdito do Pai. O colono, ao contrário, não veio gozar a América; queria construir um nome, encontrar um nova pai. Ser sujeito”.

Hilda Morana, coordenadora do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileira de Psiquiatria, define o termo Corrupção, no sentido social. Segundo ela, “o típico corrupto é o indivíduo que busca driblar regras em benefício próprio, sem levar em consideração outras coisas que não o próprio benefício”.

Frei Betto, em um artigo recente, faz uma descrição muita apropriada sobre o "perfil do corrupto”, que achei por demais interessante trazê-lo à tona:

“Manifestações públicas em várias cidades exigem o fim do voto secreto no Congresso; o direito de o CNJ investigar e punir juízes; a vigência da Ficha Limpa nas eleições de 2012; e o combate à corrupção na política.

Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece um notório corrupto brasileiro? Foi processado e está na cadeia?

O corrupto não se admite como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca peixe não belisca.

O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.

Há vários tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para extrair vantagens a si, à família e aos amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagar. Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas.

Sua lógica é corrupta: "Se não aproveito, outro sai no lucro em meu lugar". Seu único temor é ser apanhado em flagrante. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais e a cara na TV.

O corrupto não tem escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-no com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.

Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua. É o rei da metáfora. Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor sabe ler nas entrelinhas.

O corrupto “franciscano” pratica o toma lá, dá cá. Seu lema: "quem não chora, não mama". Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção.

O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões, enche o pasto de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira.

O corrupto cúmplice assiste ao vídeo da deputada embolsando propina escusa e ainda finge não acreditar no que vê. E a absolve para, mais tarde, ser também absolvido.

O corrupto previdente fica de olho na Copa do Mundo, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, orçados em R$ 800 milhões, consumiram R$ 4 bilhões.

O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não possui valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.

Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos.


Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de serem eleitos para funções públicas".

Recentemente, o todo-poderoso ex-ministro de Lulla, José Dirceu, em seu blog, deu sua versão sobre o “mar de lama” da política Nacional. Desabafou ele: “A operação derruba ministros está a mil. Nossa mídia fantasiada de objetiva e neutra, mas na prática transformada em partido da oposição, opera no sentido de desmantelar a base de aliados do Governo, e criar um clima de “mar de lama”.

P.S. :

É, eu entendo onde o Zé quer chegar: “o que se passa nos bastidores da “base aliada” não é coisa para ser revelada aos colonos”. Caixa Preta sempre haverá. Ora, o “Caixa Dois” não foi considerado como coisa normal em um discurso de ex-presidente Lula na Televisão? Lembram-se?

O grande nó da questão é que a imprensa “sem rédias” vem descobrindo um jeito de tornar transparentes as paredes das “caixas pretas”. (rsrs)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 26 de novembro de 2011

Site da imagem: pcbam.blogspot.com

20 novembro 2011

Revisitando a “Pietá” de Michelangelo



Foi após concluir a sua maravilhosa escultura, a Pietá, na Basílica de São Pedro no Vaticano que Michelangelo foi aclamado como o maior escultor da época. Olhando o conjunto da obra não há como deixar de se emocionar. “A figura do Cristo morto ainda parece ter vida correndo nas veias. Os olhos abaixados da Virgem, ao contrário da tradição, emocionam pela dor e pela resignação. Seu manto, majestosamente drapeado, arranca do mármore uma leveza inimaginável. Na visão idealista de seu autor, a profunda beleza das duas figuras é a melhor tradução de sua nobreza de espírito” ― retratou o site VEJA na História, sobre a insuperável obra desse artista.

A revista Superinteressante – arquivo 1992 traz a seguinte informação sobre esse grande escultor, contemporâneo de Leonardo da Vinci:

“A morte da mãe, quando tinha 6 anos, marcou sua personalidade e toda sua vida. Entregue a uma ama-seca, na família de um canteiro, um operário que cortava a pedra para construções, ele próprio considerou fundamental para sua vocação de escultor este período em que se misturavam afeto familiar, cuidados maternos e pedra entalhada”.

O Pai da psicanálise, via naquela escultura o resgate da figura feminina, que por longo tempo foi tida como protagonista principal da maldição do pecado original pregada pelo cristianismo. Sabemos que na formulação dos conceitos psicanalíticos que vigoram até hoje, a mãe serviu de base para o entendimento do psiquismo masculino e feminino. Desde a concepção, o bebê vive uma relação simbiótica com a mãe. Nos gens da mãe e do pai estão toda a potencialidade da criatura que irá se desenvolver. A mãe é o veículo responsável pela herança do filho. Filho, que ao receber o patrimônio filogenético dos pais, está sempre a pedir para ser reconhecido e amado.

A psicanalista, Françoise Dolto, uma das fundadoras da Escola Lacaniana de Psicanálise, disse certa vez: "Cada um de nós, ao nascer, é a linguagem do desejo dos pais".

O psicanalista, Rubem Alves, em um texto publicado no Caderno Sinapse da Folha de São Paulo de 12/10/03, se referindo a “Reverência pela Vida”, assim falou: “Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a Pietà de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo”.

A Pietá nos transmite uma força emocional arrebatadora ante a resignação de uma mãe que no momento de intensa dor se separa de uma parte de si, gerada em suas entranhas. O que pensa aquela mãe com seu filho inerte bem aconchegado no seu colo, vítima de uma violência brutal? A tentativa de apreender a intenção que o artista imprimiu na sua magistral obra de arte, me faz reportar à saga das mães brasileiras que perderam e ainda perdem seus filhos em plena flor da idade, vitimas de incompreensões e injustiças de uma sociedade violenta e hedonista.

A fotografia da Pietá de Michelângelo no topo desse ensaio é tão harmônica e perfeita que, a um olhar atento e minucioso, não há como impedir que se seja afetado pela irresistível, apaziguante e poderosa atração que dela emana. Talvez, quem sabe, na sua contemplação, esteja eu me reportando a um tempo idílico de minha tenra idade, quando em meio às doenças da primeira infância, era embalado e consolado pelas saudosas cantigas de ninar no aconchego do colo materno.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 20 de novembro de 2011

12 novembro 2011

ESSE É O MEU PAÍS

Agnelo segura crise dando espaço a Zé Dirceu


No meu país nada funciona a contento. Entretanto, é a imorredoura esperança de que tudo melhore que embala os nossos sonhos. Meu país tem um povo altamente religioso que adora slogans e frases de incentivo, como as que são postas na traseira dos caminhões de cargas que transitam pelas nossas estradas esburacadas, tipo: “JESUS”, “Guiado por Deus”, etc.

Aqui tudo tem cheiro de Deus e dos habitantes de Sua morada. Armazéns, postos de gasolina, motéis, hotéis, têm nomes de Santos. A fé do brasileiro parece ser inata. As expressões: “Se Deus quiser” ou “Deus é Grande” é ouvida em todos os recantos, mesmo por aqueles que são guiados pela “Lei do Gérson” ― talvez a única lei a pegar, aqui na imensidão das terras de Dom João VI ― àquela da propaganda de cigarro Vila Rica, em que o protagonista diz: “Faça como eu, que gosta de levar vantagem em tudo”.

Não importa que sejamos uma das nações mais corruptas do mundo. O que importa é que estamos entre os países que mais enviam missionários para ensinar moral, ética e religião além fronteiras, em mais de uma centena de nações muito menos corruptas que a nossa.

Aqui, o que mais se ouve é; “Guenta firme irmão, tudo vai dar certo!” ― mesmo sabendo que as instituições não funcionam como deviam funcionar.

Aqui, nas hecatombes como enchentes e secas no Nordeste as soluções maravilhosas ainda são os mutirões. Nas áreas sempre carentes da saúde, estão na moda mutirões realizados em plenas feiras: mutirões de exames de vista, de exames de fezes e de sangue, mutirões de pequenas cirurgias, mutirões de cirurgia de cataratas etc ―, tudo feito de forma atabalhoada, sem nenhum critério, sempre coincidindo com épocas de campanhas políticas. Quem perde o mutirão de cirurgias de hérnias, tem de ter paciência, para esperar o próximo período pré-eleitoral (se estiver vivo) para, finalmente, ter chances de ser operado.

Um país que abdica do fornecimento de ações contínuas ou constantes de saúde para recorrer à mutirões esporádicos de saúde, não merece crédito.

Aqui, no trânsito enlouquecido, o individualismo é a regra, pois quem dirige pensa que é o único que está à frente da direção do automóvel. Aqui, nos shows de música na praia ou nos campos de futebol não é nada de mais ficar bloqueando a visão de quem está atrás. Nas salas superlotadas de cinema e de teatro, as pessoas atendem tranquilamente as chamadas de seus celulares, discutindo até com quem as critica.

Aqui, desde as primeiras letras o brasileiro é doutrinado a pensar que o mundo inveja a sua harmônica miscigenação ou democracia racial, que no dizer de Sérgio Buarque de Holanda, fez do brasileiro um “homem cordial”, muito embora, a figura do escravo submisso e do bom senhor esteja sutilmente em voga na sociedade.

Aqui é o país onde os cadernos de classificados dos jornais com ofertas de empregos ainda usam a especificação “deve ter boa aparência” ― que em épocas passadas embutiam o conceito de que, “nenhum negro devia se candidatar”.

Aqui, os partidos são de fachadas, pois todo mundo já está cansado de saber que, se não for o “por fora”, os mensalões, os valeriodutos, os propinodutos, etc, nada é votado no Congresso Nacional. Aqui é o país dos recordes: há um deputado que trocou de partido oito vezes. Aqui, tudo é inédito: na política, os que cometem mais abusos são alçados a assentos no posto máximo da moralidade: “O Conselho de Ética do Congresso”.

Aqui a maioria dos legisladores é astuta. Quando se pergunta: “De que lado o senhor está?”, responde-se: “O Governo mudou, mas eu não. Eu continuo com o Governo”.

Aqui, se deixa tudo para a última hora, a fim de dispensar as licitações, com o já fajuto bordão “urgência urgentíssima” ― método genuinamente brasileiro de encher os bolsos dos apadrinhados e parceiros do Rei. As obras da Copa do Mundo de 2014 que caminham à passos de tartaruga estão aí, e não me deixam mentir.

Aqui, a imprensa é que vem investigando e fazendo a faxina ética, ao trazer a publico, os escândalos que acontecem a cada semana nos bastidores da intricada teia dos conluios ministeriais. Só neste ano, em seis meses, seis ministros foram demitidos pela ação dos investigadores e jornalistas dos maiores periódicos do país, como a Veja e a Folha de São Paulo.

Aqui é o país que luta pela volta do imposto para financiar a saúde e, ao mesmo tempo, é a nação do mundo que mais protela a reforma política, em favor do caudaloso fluxo de corrupção representado pelos desvios de dinheiro público, que só na legislação pós - Lulla já somam cerca de 100 bilhões de reais.

Aqui é o pais das ONGS que recebem doações do governo sem precisar prestar contas.

Aqui é o país onde ninguém dá bolas para a guerra civil provocada pelo tráfico de drogas que mata muito mais que as guerras do oriente médio.

Aqui é o pais onde o governo toma do assalariado, sob a forma de impostos, o equivalente a quatro meses de salários para financiar a sua gastança nababesca.

Aqui é o pais onde os mensaleiros do maior escândalo já registrado na república, estão todos bem instalados em torno do poder público, bem próximos do gabinete da autoridade máxima, isto, às vésperas do que se tem como o maior julgamento da história.

Esse é o meu e o seu país, caro leitor: “Ame-o, ou deixe-o”.

P.S.:

Enquanto estou a escrever sobre o meu país, eis que surge mais uma notícia quente vinda da capital do escândalo (Brasília), saída do forno, hoje − manhã de 12 de novembro:

“Em mais um movimento para retomar o controle do governo, abalado pela maior crise desde que tomou posse, o governador Agnelo Queiroz ampliou o espaço do PT ligado ao ex-ministro José Dirceu na equipe e designou o sindicalista Jacques Pena para a Presidência do Banco de Brasília (BRB). Petista de carteirinha, egresso do Banco do Brasil, ele vai tomar conta da chave do cofre do governo, cujo orçamento, de cerca de 25 bilhões de reais anuais, é todo centralizado no banco”. (Para ler o restante da matéria clique aqui)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 12 de novembro de 2011

04 novembro 2011

ANTI-SEMITISMO: Uma Abordagem Psicanalítica




Em seu incisivo livro ― “A Questão Judaica” ―, Jean Paul Sartre, de forma corajosa, foge da vala comum de traduzir o anti-semitismo unicamente pelo viés sócio-político-econômico-religioso. Foi através desta obra que ficou mundialmente conhecida a sua frase: “É o anti-semita quem faz o Judeu”.

Sartre, para explicar o anti-semitismo, explorou, de forma convincente, a PROJEÇÃO — um dos mecanismos de defesa do ego, muito bem elucidado por Freud em seus trabalhos. Em psicanálise, PROJEÇÃO, é uma operação pela qual o indivíduo expulsa de si, coisas, qualidades, sentimentos que ele desconhece ou recusa, para localizá-los em outra pessoa ou grupo.
“Se o Judeu não existisse o anti-semita o inventaria” — disse, certa vez, o filósofo francês existencialista.

Douglas Garcia Alves, em seu livro ― “Depois de Auschwitz” ― ressalta bem os componentes psicológicos dos postulados de Adorno e Horkheimer: “O anti-semitismo baseia-se numa falsa projeção. A falsa projeção torna o mundo ambiente semelhante a ela. Os impulsos que o sujeito não admite como seus e que, no entanto, lhe pertencem são atribuídos ao objeto: a vítima em potencial” (página 48)

“O anti-semita escolheu ser criminoso, e criminoso de “mãos limpas”; mais uma vez, foge às responsabilidades; reprimiu seus instintos homicidas, mas encontrou um meio de saciá-los sem admiti-los. [...] O anti-semita é um homem que tem medo, certamente, não dos judeus, mas de si mesmo, de sua consciência, de sua liberdade, de seus instintos, de suas responsabilidades, da solidão, da sociedade e do mundo ― de tudo exceto dos judeus. Aderindo a essa postura, ele não adota apenas uma opinião, mas escolhe também a pessoa que quer ser” (“A Questão Judaica” ― Editora Ática, páginas 34 e 35)

Em “Origens do Totalitarismo” ― volumoso livro, tido pelos estudiosos como valioso instrumento de pesquisa sobre totalitarismo, liberalismo e socialismo, Hannah Arendt, diz: “a complexa psicologia do Judeu médio baseava-se numa situação ambígua: Os judeus médios sentiam simultaneamente o arrependimento do pária que não se tornou arrivista, e a consciência pesada do arrivista que traiu o seu povo, ao trocar a participação na igualdade dos direitos de todos por privilégios pessoais. Assim, a maioria dos judeus assimilados vivia um “lusco-fusco” de ventura e desventura, sabendo que tanto o sucesso como o fracasso, estão ligados ao fato de que eram judeus”. (página 89).

Sobre Sigmund Freud, que teve de fugir para a Inglaterra, perseguido por anti-semitas, assim se referiu o psicanalista Davi L. Bogomoletz, em um artigo publicado na Revista do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos do Rio de Janeiro: "O homem que lutou quase sozinho contra os monstros do lado escuro da mente, lutou também quase sozinho contra a besta anti-semita. Via-se hostilizado por um fogo cruzado — de um lado o alvejavam por seu judaísmo, e de outro por sua psicanálise, e ele sabia que havia algo em comum a essas duas "rejeições". Não fosse ele judeu, os europeus o rejeitariam por causa da psicanálise. Não fosse a psicanálise, ele seria recusado enquanto judeu".

Vale ressaltar aqui a expressão "bode expiatório", usada por Hannah Arendt, para designar uma pessoa ou grupo culpabilizado por algo que o faz alvo de múltiplas emoções, como raiva e medo, além do ressentimento.

Sobre o ressentimento, que é um dos afetos mais evidentes no psíquismo do anti-semita, Maria Rita Kehl, psicanalista da PUC de São Paulo, diz o seguinte, em seu livro ― “Ressentimento” ― Editora Casa do Psicólogo (página 19): “O ressentimento seria o avesso do arrependimento; seria uma cobrança indireta de um bem cedido ao outro por submissão ou covardia”. Na questão judaica, isso, de certa forma, corrobora que em sua queixa, o anti-semita não se arrepende, antes acusa. É algo como uma vingança imaginária.


O fato é que todos nós experimentamos o poder de projeção, milhares de vezes em nossa vida.

“A projeção é um mecanismo de defesa involuntária do ego; em vez de reconhecer as qualidades que desgostamos em nós, as projetamos em outra pessoa. Projetamos nos pais, nos amigos, ou, até melhor, nas pessoas famosas que nem conhecemos. Aquilo que julgamos ou condenamos no outro é uma parte rejeitada de nós mesmos. Quando estamos em meio à projeção, parece que estamos vendo a outra pessoa, mas na realidade, estamos vendo aspectos ocultos de nós mesmos.” — relato sobre o lado obscuro da psique humana, por Debbie Ford, psicóloga da Universidade JFK – EUA, com obras traduzidas em mais de trinta línguas.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de novembro de 2011


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FONTES:

1. “A Questão Judaica” – Jean Paul Sartre – Editora Ática
2. “Origens do Totalitarismo” ― Hannah Arendt – Editora Companhia das Letras
3. “Depois de Auschwitz” ― Douglas Garcia Alves – Editora Annablume
4. “Ressentimento” ― Maria Rita Kehl ― Editora Casa do Psicólogo
5. “Fazendo as Pazes Com os Outros” ― Debbie Ford ― Editora do Grupo Leya

Site da imagem: culturahebraica.blogspot.com

01 novembro 2011

Reminiscências Musicais

Site da imagem: musica-na-agulha.blogspot.com


Nesse dia dedicado aos mortos, quero relembrar canções que marcaram minha adolescência. Na época dos meus nove ou dez anos de idade ainda não havia a energia da CHESF em minha cidade. Existia apenas um velho motor para iluminação das praças principais. O rádio da marca Pyonner, em cima de uma banqueta da sala de estar de minha casa, funcionava ligado a uma bateria de automóvel. Lembro que, balançado para cá e para lá em uma cadeira de balanço daquelas de assento de palhinha, eu me deleitava ao ouvir, extasiado, as músicas dos monstros sagrados da MPB da década de 1950.

Os saudosos cantores, durante quase todo o dia, desfilavam suas vozes melosas nos programas radiofônicos, denominados “Cartão Sonoro”, ocasião em que os locutores desembrulhavam as cartas que os ouvintes enviavam com as suas canções prediletas a serem rodadas em discos de 78 rotações.

O disco, mais parecia um bolachão pesado que deformava quando submetido ao calor do sol; comportava apenas uma música de cada lado. Recordo de uma estante velha onde meu pai guardava, com carinho, coleções de vinil adquiridos como muito sacrifício em Campina Grande ― cidade pólo da região em que morava.

As capas dos discos, quase sempre, eram bem simples: tipo papel madeira com os emblemas, na maioria, da RCA Victor, Odeon e Phillips. Meu pai gostava de ouvir intérpretes, como: Núbia Lafayette, Ângela Maria, Maysa, Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Orlando Dias, Anísio Silva, Luiz Gonzaga, entre outros.

Dentre as inúmeras canções que me marcaram, escolhi duas músicas de dois grandes compositores, na voz de uma grande intérprete da bossa nova (dos meus tempos de estudante secundarista). Eles já se foram, mas permanecem, mais do que nunca, vivos em minha memória: Nelson Cavaquinho (29/10/1911―18/02/1986), Ernesto Nazareth (1863 — 1934), Nara Leão (1942 — 1989)


Aos do meu tempo:

Luz Negra de Nelson Cavaquinho e Odeon de Ernesto Nazareth ― na voz de Nara Leão





Por Levi B. Santos

Guarabira, 01 de Novembro de 2011

28 outubro 2011

Salomé, Dilma e os Ministros

Site da imagem: levibronze.blogspot.com



São seis meses de governo Dilma e seis ministros demitidos por corrupção. Não tenho lembrança, nos meus 65 anos de idade, de uma faxina tão ampla como a que vem fazendo a presidente. Que fique claro: sem a ajuda inestimável da imprensa nada teria sido descoberto.

Dilma, que não é tola citou, em seu discurso recente na ONU, a ação positiva e vigilante da imprensa brasileira. (para ler essa matéria, clique aqui).

O personagem de Chico Anísio, a Salomé, criado para importunar o Governo Federal, e cobrar dele medidas enérgicas, anos atrás fez enorme sucesso na TV, e, caso estivesse hoje no ar, com certeza, exibiria um diálogo com a nossa presidente, pelo telefone, algo tipo:

― Ô Dilma, como é que vais de governo? Eu soube que a imprensa, para ti, vale mais do que toda curriola de ministros a teu redor?

― Eu vi teu discurso na ONU. Gostei e me emocionei muito com teu sorriso deslumbrante, no momento em que falavas que a imprensa estava sendo teu maior trunfo no saneamento da corrupção.

― Mas Dilma, tu és totalmente diferente de teu patrono Lula.

― Por que? Estás perguntando por quê?. Ora, é que Lula dava mais tempo ao tempo, até o povo esquecer, sabe?!. Ao chegar o próximo escândalo a gente já tinha esquecido o primeiro. (rsrs)

― Sim, Dilma, eu sei que só tens 37 ministros. Mas Portugal, que nos explorou, tem apenas 16 ministérios ― É, é, vou concordar contigo que eles têm menos problemas que nós.

― Mas tu não achas que na base de um ministro a cada mês sendo jogado na rua, no final de dois anos, não corres o risco de desfigurar o que o teu patrono construiu com tanto trabalho e sigilo em oito anos de mandato?

― És cristã, Dilma?

― Católica, e também Protestante?

― Ah, sim! Faz parte, faz parte... Entendo (rsrs)

―Vou torcer pra ti. Mas vou te revelar um segredo: Tem gente da bancada evangélica que está, agora, só pregando nos púlpitos de suas igrejas, o que o apóstolo Paulo costumava ensinar no começo do cristianismo:

"E quando isto que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir de imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita”. Ou seja: Eles estão pegando uma carona no apóstolo Paulo, para propagar que o fim da corrupção só terá fim na outra vida (kkkkk)

― Dilma! Dilma! Alô, alô, alô....

― Aaaaah, desligou o telefone...


Por Levi B. Santos

Guarabira, 28 de outubro de 2011

23 outubro 2011

Guerra pelo Butim da Copa do Mundo 2014

Site da imagem: toupeirasdobrasil.blogspot.com


A guerra pelo butim da Copa do Mundo 2014 já começou. Segundo um site da Câmara dos deputados, a festança renderá 63 bilhões ao Brasil il il il..., só de impostos.

A porta já foi aberta para a roubalheira sem limites, através de uma monstruosidade, denominada dispensa de licitação de obras para a Copa ― aprovada recentemente na Câmara por 276 votos a favor e 76 contra, sob o rótulo de “Flexibilização de Licitações para Obras da Copa”.

Reinaldo Azevedo, em sua crônica de hoje (dia 22), revela boa parte dos contatos da quadrilha que já desvia dinheiro para ONGS desde o tempo do Todo Poderoso Lulla. Segundo esse colunista, “Faz tempo que o Ministério do Esporte é um caso de Polícia… Federal!! Os próprios órgãos de fiscalização e controle do governo mais ou menos infensos aos esquemas organizados para roubar dinheiro público cobram a devolução de mais de R$ 40 milhões repassados a ONGs que não fizeram o trabalho para a qual foram contratadas. Boa parte delas tem algo em comum: são tocadas por pessoas ligadas ao PCdoB, partido do ministro Orlando Silva, que lotou a pasta de militantes da legenda, muitos deles ex-diretores da UNE, como ele próprio. É o comunismo de resultado… para os comunistas”.

A luta encarniçada pela dinheirama que será torrada pelos diversos estados do país que sediarão a Copa já bateu às portas do Palácio de Dilma, e o desfecho será demorado, pois vai requerer muita negociação nos bastidores para dividir, de uma maneira equânime, o grandioso butim com os mercadores partidários. O difícil é deixar todo mundo satisfeito, pois nessas ocasiões surge sempre àquela velha querela: “Se eu não receber tanto, vou detonar o esquema”.

O humorista, José Simão, que escreve na Folha de São Paulo, falando sobre a a Copa de 2014, afirmou recentemente “que não entende por que estão todos espantados, já que desvio de dinheiro é um esporte genuinamente nacional (Rarará!)

Acredito que o site Youtube.com, até as vésperas da suposta copa 2014, deverá ficar congestionado de vídeos de indignação, de denúncias as mais escabrosas, algo como a pequena amostra, abaixo:


Por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de outubro de 2011


15 outubro 2011

O CUSTO DA DESPERSONALIZAÇÃO




Pessoas que se sujeitam, incondicionalmente, às normas, regras e dogmas que a razão teima em não aceitar, perdem os limites de sua individualidade, ficando eternamente desprovidas de qualquer opinião.

É claro que não podemos olhar com bons olhos normas sociais, políticas ou religiosas que estimulam o indivíduo a castrar a sua capacidade de pensar, a ponto de achar heróico morrer pela instituição ou pela pátria sem saber o real motivo da guerra na qual imaginariamente está inserido.

Entendo que uma pessoa pode participar do seu grupo ou confraria sem que seja necessário abrir mão do seu senso crítico. Dedicar o melhor de si para satisfazer vontades e caprichos de pessoas egocêntricas que não respeitam a subjetividade do outro, não significa altruísmo ou generosidade: é, sim, uma alienação.

Certo é que, nós, como seres da falta e do vazio existencial primevo, ansiamos pela completude e imortalidade. Mas isso não significa que devamos perder o nosso espírito de decisão pessoal, agarrando-se ao que a mídia preconiza como “tábua de salvação”.

Há situações em que dominados pelo MEDO, alguns correm para familiarizar-se com grupos ou instituições eclesiásticas que oferecem aconchegos “espirituais” os mais diversos. No mais das vezes, ao adentrar esses recintos templários são obrigados a carregar fardos pesados, sofrendo uma espécie de descaracterização ou despersonalização que subverte totalmente o sentimento religioso autêntico.

O recalcamento do ”eu” interior desse indivíduo não é exercitado impunemente. Não raro, o indivíduo despersonalizado passa a denegrir a realidade terrestre.

Ao sentir-se todo iluminado pelo que percebe como “luz celeste ou divina”, lançando as suas sombras infernais sobre quem não é de seu grupo, essa pessoa cai na obsessão ou cegueira de não admitir que o “profano” é parte intrínseca de si, esquecendo esse lado obscuro da moeda humana. Consequentemente, esse indivíduo é levado a “satanizar” tudo e todos que estão fora de seu convívio, como se a divindade se enriquecesse daquilo que o homem se despoja. Não consegue se desvencilhar daquele ser de voz tonitruante que, lá dentro de si, se zanga e o intimida. Quando sai do “script”, por enxergar em seus sonhos uma tênue linha além dos medos, sente-se imensamente culpado.

A despersonalização provoca no homem uma dependência ou vício. Como fregueses contumazes de grandes lojas, pagam um preço alto por um produto, sem o qual não pode se sentir participante do status midiático institucional. Nesse estado, ele traduz como “verdadeira” a sua tez florida vista com outros olhos, que não os reais. O seu Deus benfeitor e compassivo nasce do fervor com que é enfeitado, como se fosse simples lata ou latão resplandecente. Diz que essa é a única maneira autêntica de CRER, porque não é aviltado por aquilo que mais reprime ou teme: a dúvida.

Incessantemente, o indivíduo despersonalizado tem que reprimir sua vida interior, para tentar viver de acordo com o ideal de perfeição vigente na sociedade de consumo. Para que isso “aconteça”, ele não titubeia em repelir todo tipo de sensação ou desejo que esteja em desacordo com seu “IDEAL HERÓICO”, mesmo que para isso tenha que abdicar de viver a sua intimidade de forma livre e rica.

Eis a cruel receita para a despersonalização:

“FALAR SEMPRE O QUE LHE FOI DITO” — “OLHAR SEMPRE A MESMA PAISAGEM” — “OUVIR SÓ AQUELA MÚSICA EXAUSTIVAMENTE ENSAIADA”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 15 de outubro de 2011

Site da imagem: seuanonimo.blogspot.com

09 outubro 2011

Inesquecíveis Momentos Com o Meu Amigo “X”

Em minhas conversas com meu amigo “X”, tenho sempre batido numa tecla: a de que aquilo que se pensava no passado como parte da própria vida mental humana constituída por percepções e sentimentos considerados ou como coisas sobrenaturais e estranhas ao EGO, hoje, não mais são atribuídas ao mundo externo, mas entendidos como fenômenos que se originaram na própria psique.

O meu amigo “X”, em uma das cartas a mim endereçadas falou-me de sua vivência de igrejeiro, e a conclusão a que tinha chegado recentemente, é a de que a religião é uma ilusão, ao mesmo tempo em que fazia uma ressalva: a de que não chegara a assimilar essa coisa de “sentimento oceânico” ou sensação de algo ilimitado que eu lhe havia falado tempos atrás. Certa vez, lembro-me bem, ele falou veementemente que, “o crente só é crente devido a promessa de uma recompensa”.

Uma vez, cheguei a refletir silenciosamente, ante o argumento muito forte que ele usou, quando me disse: “talvez o crente seja um mercenário, ‘amando’ e ‘servindo’ a Deus só para ser recompensado por Ele”. Intuitivamente, talvez, estivesse querendo que eu compreendesse que o “amor” cristão não era desinteressado; ainda reforçou dizendo: “Não se ama a Deus, se ama o que ele tem para nos dar”.

E não é que cheguei a aplaudi-lo quando ele, numa tirada sensacional, falou-me que “eram os desejos do crente que talhavam um deus correspondente a sua vontade”. Quando o seu rosto cobria-se de rubor, eu já sabia o que ia sair de sua boca: “Deus não existe!” —, dizia de punho cerrado. Eu entendia a sua linguagem: durante o verdor dos seus melhores anos ele vivera deslocando o seu sentimento religioso para uma figura paterna antropomórfica, que na sua concepção habitava um outro mundo de paz e harmonia — um sucedâneo de seu pai natural, que nunca chegou a realizar por completo os seus desejos e suas fantasias de criança.

Numa ocasião em que dialogava sobre o “sentimento saudoso” de ansiarmos pela completude perdida, ele ficou bastante contrariado quando eu repeli as suas racionalizações, dizendo que, “embora uma pessoa rejeite toda a crença, dogma e ilusão religiosa, não significa que ela tenha anulado o sentimento nobre de ‘re-ligar-se’ a um éden utópico”. Mas o meu amigo não se dando por vencido retrucou imediatamente: “Não consigo identificar em mim esse tal ‘sentimento sublime!”.

O meu amigo demonstrava dificuldade em assimilar o que eu entendia como “sentimento religioso”. No entanto, esse afeto estava bem presente ali, nos momentos idílicos que passávamos trocando ideias. Eu sabia que o vazio ou “buraco” decorrente do primeiro desamparo experimentado, é que fazia surgir em nós o desejo de RE-LIGAÇÃO, que a instituição eclesiástica a qual ele antigamente pertencia, prometia para o fim dos tempos, desde que se submetesse a carregar fardos pesados da subserviência, sem questionamentos, geralmente apresentados como lei divina.

Tentei convencê-lo de que, às vezes, as pessoas esquecem que esse afeto de natureza primária existe, por exemplo, quando se está escrevendo ou lendo um romance, apreciando um quadro de um pintor famoso, ou ouvindo uma música preferida.

Quando ele me falou que, “esse sentimento nobre, ou desejo de se religar a algo perdido na nossa gênese era uma espécie de droga, que deixava o sujeito dependente”, eu retruquei, argumentando que, “a dependência psicológica não só se reflete naquele que não pode viver sem praticar seus rituais religiosos regularmente”.

O meu amigo “X” ficou de cenho franzido, quando fiz a seguinte afirmação: “Às vezes, as pessoas procuram a independência e acabam caindo em uma outra forma de dependência”.

“Pense bem no que vou dizer-lhe” —, falei de uma maneira pausada e enfática: “Nos vínculos afetivos familiares ou virtuais, caro amigo, estamos na verdade exercitando o ‘sentimento religioso’, mesmo que de forma inconsciente”.

Não sei o que se passou em sua cabeça quando cabisbaixo e silencioso ficou por alguns segundos.

Lembro-me que, numa noite fria, regada a cafezinhos com biscoitos, ele riu até não querer mais, quando falei que a primeira recompensa, suficiente para que pudéssemos vencer a dor da renúncia e do desamparo, ocorreu quando nos deram a primeira “chupeta” em substituição às tetas verdadeiras de nossa mãe, quando éramos bebês. Demonstrando desapontamento, ele disparou: “isso tudo é presunção!”. Fez cara feia por não concordar comigo no momento em que fiz ver que “o passado de nossa tenra infância, quando ainda não tínhamos consciência, ainda hoje interferia no agir de nós, adultos”.

Em uma de nossas conversações, ele chegou a torcer o nariz quando falei: “Ao longo da vida adulta, mesmo em pessoas intelectualmente sofisticadas esse sentimento nobre não abandona o homem, antes estabelece novos e fortes vínculos buscando atenuar o desamparo metafísico, que à maneira da antiga chupeta, nos transmite uma sensação apaziguante”.

Recordo-me de um de nossos efusivos encontros, em que citei trecho de um autor que o meu amigo adorava ler antes de dormir — Khalil Gibran: “Homem algum poderá revelar-nos senão o que já se encontra meio adormecido na aurora de nosso entendimento”. Pela reação esboçada, pude perceber que ele tinha entendido onde eu queria chegar.

Nessa noite, ficamos até altas horas divagando pelos caminhos tortuosos e enigmáticos da psique.

Despediu-se rapidamente de mim, prometendo voltar na próxima temporada de verão. Deu para ouvir os seus passos se afastando pelo corredor, e, não pude conter a emoção quando percebi que ele assoviava suavemente e com uma perfeição rara, a canção de Chico Buarque — “João e Maria”, sem saber que aquilo era uma espécie de “prece”, uma forma inconsciente de expressar o seu sentimento de RE-LIGAÇÃO com o poço profundo das coisas passadas, dos desejos rotos e desfeitos do tempo de menino.

Não sei o “por quê” de ter ficado por completo gravado em mim, só a última estrofe dessa emblemática música:

“Agora era fatal/ que o faz de conta terminasse assim/ Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim/ Pois você sumiu do mundo sem me avisar/ E agora eu era um louco a perguntar/ O que é que a vida vai fazer de mim?”.

Por Levi B. Santos

Guarabira, 09 de outubro de 2011

Site da imagem: blogbielsantos.blogspot.com