19 maio 2007

ANALISANDO O PASSADO PARA ENTENDER O PRESENTE





Ultimamente, tenho conversado bastante com minha mãe, sobre o tema: “separação” entre entes queridos do mesmo núcleo familiar. O momento se tornou propício, pois nossa irmã Leni está iniciando a arrumação das malas para residir na Bolívia.

O meu sogro tinha partido dessa para uma melhor, há mais ou menos um mês, quando eu dizia para Bazinha, que a minha sogra vinha se recuperando bem da morte de seu querido esposo, pois começara a enfrentar a vida sem lastimações e depressão, que tanto caracterizam a insegurança humana em dissabores, como é o sentimento de perda ao contemplar de perto a finitude humana aqui na terra. Sabemos que esse é um acontecimento que nos está reservado, mas tememos em abordar essa verdade dolorosa que mais cedo ou mais tarde nos acolherá.

Mamãe ao ouvir o relato que fiz sobre minha sogra Percides, respondeu sem hesitação:

─ É! Mas você sabe muito bem que meu caso é muito diferente do de Percides. Sua sogra tem quem cuide dela. Tem Albanize, tem Alda, tem Joelma. E eu não tenho ninguém para me socorrer aqui em casa.

Interpretei a sua resposta como uma racionalização de desamparo, que ao meu ver, colocava sobre os ombros dos filhos que aqui ficariam, a responsabilidade ou incumbência de satisfazê-la em seus ANSEIOS E DESEJOS.

Porém, uma frase sua dita com tanta ênfase me tirou do sério. Às vezes sentimos em nosso relacionamento quando as coisas são ditas da boca para fora, e quando elas partem lá do mais recôndito da alma. O que ela me disse em seguida, merece registro, pois se reveste de profunda significação:

─ É meu filho ─ disse ela demonstrando tristeza. Você sabe que meu caso é diferente. Eu perdi seu pai muito cedo. Cuidar de vocês passou a ser o meu consolo.

Agora, ali, eu estava entendendo toda a sua linguagem. Com a morte de meu pai e seu esposo a projeção dos seus desejos e satisfações, passaram a ser dirigidas aos filhos. Era nos filhos que ela agora investia o melhor dela. A razão maior do seu viver estava doravante representada neles.

No fundo de tudo isso, existe uma explicação de natureza religiosa, pois, muita coisa da tradição judaica foi incorporada inconscientemente por todos nós, herdeiros do Cristianismo (filho do Judaísmo). No bem ilustrado livro: “Uso e Costumes dos Tempos Bíblicos de Ralph Gower, publicado pela CPAD, na página 61 está escrito o seguinte: “Visto que os pais acreditavam que continuavam vivendo nos filhos, estes eram considerados uma grande bênção”. Segundo este escritor do Velho Testamento, a família era, portanto, um “pequeno reino” governado pelo pai. Ele tinha autoridade sobre esposa, filhos, netos e servos. Uma quebra dessa segurança ameaçaria a unidade familiar.

Antes da morte de seu marido e “senhor”, mamãe passou por um grande estágio de aprendizado: Ele desaparecera instantaneamente de A. Grande em direção ao sul do País, sem que ninguém soubesse, deixando muitas dívidas. Mamãe era realmente muito jovem nessa época, quando sofreu o golpe do abandono. Acho que foi por volta de 1955. Porém, o que se viu após esse desfecho não foi desespero, nem lamentações, e sim uma jovem mulher de pulso firme, tomando a frente do comércio de vendas de tecidos e confecções, com tamanha determinação, que conseguiu em pouco tempo, o respeito e admiração de grande parte dos habitantes da cidade. Foi por esse tempo, que ela de ponta a ponta da cidade, ficou conhecida como a mulher chamada: Dona Bazinha (a vendedora de roupas). Nessa mesma época eu tive um sonho emblemático: “Um Senhor todo de branco aparecia na porta de entrada de nossa casa, dizendo: ‘Não te atemorizes, que ele voltará’ Este sonho foi uma espécie de reforço para mamãe suportar a longa espera do seu marido, que mais tarde apareceria com uma grande mala recheada de presentes para todos de casa”.

A chegada de meu pai à sua terra natal foi motivo de muitas comemorações, envolvendo até o prefeito da cidade, O Sr, Telésforo Onofre e o seu filho, o ex- Deputado Estadual Raimundo Onofre. Este último como superintendente da C.E.F nos idos de l969 me ofereceu todo o apoio econômico para montar uma clínica, em deferência ao meu pai, que tinha sido no dizer dele, o seu melhor amigo.

Naturalmente, após o reaparecimento de Moisés, e o seu novo encontro com a linda e ansiosa Aldamira ( apelidada carinhosamente por ele de “ôme”), deve ter havido naquela ocasião, uma nova lua de mel, com novas promessas e juras de amor eterno. O certo é que após algum tempo nasceu Neli, que na pressa, meu pai registrou-a como Leni, cujo nome, muito bem poderia significar: “a filha do pai pródigo que voltara ao lar”.

A partir dessa época, Davi e eu passamos a ficar em um segundo plano de atenção. Ficamos no “canto”, como se dizia comumente, por ocasião do nascimento de uma nova criança no seio da família. Bazinha tinha recebido como prêmio, o seu espelho para se ver refletida. A nova rainha do Lar seria criada, educada segundo os seus preceitos e “a sua imagem e semelhança” como diz o Livro de Gênesis. Ali ela deve ter imaginado: “vou formá-la com os atributos que eu tenho de melhor, porém, sem os meus defeitos”. Procuraria protegê-la das incompreensões masculinas que ela vivenciara no próprio esposo.

Veio a fase de namoro de Leni, sob uma forte fiscalização feita nos mínimos detalhes, por parte da protetora mãe. Bazinha, à maneira judaico-cristã, aprovara a escolha de João Camilo para ser seu genro. Assim como a tradição dos Judeus, a filha não casaria com um “gentio” e sim com um casto rapaz, filho de um “pai sacerdote” (Pastor da igreja local).

Passado muitos anos, Leni, a filha única, já mãe pela terceira vez, tendo a sua primogênita já casada, decide-se viajar para um lugar distante, para servir aos gentios, estrangeiros, de outras raças, justamente àquele tipo de pessoas de que tanto nossa mãe relutara em entregar a sua filha. Aí, é que entra o fator que fez brotar em Bazinha, todos os sintomas que nos faz apegar uns com os outros, e que tem por base a tradição religiosa judaizante que se enraíza em nossas mentes de uma maneira tal, que fica difícil para nós, aceitarmos um dos pressupostos básicos do cristianismo: “Quem não deixar pai e mãe por amor de mim, não é digno de mim”. O que não podemos deixar de lembrar, é que Jesus ao atingir a sua maioridade, que naquela época era aos treze anos, subiu a Jerusalém, deixando os seus pais “a ver navios”. Só depois de três dias é que o encontraram, e nesta oportunidade Maria, sua mãe o repreendeu dizendo: “Filho, por que fizeste isso conosco? ─ deixasse eu e teu pai deveras ansiosos”. Para o povo mais cheio de tradição e de ritos cerimonialistas da face da terra, como era o povo Judeu, a resposta de Jesus foi bastante dura: “Porque estavam me procurando? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?”.

Às vésperas da partida de Lena e João para a Bolívia, gostaria que ficasse sempre na memória da minha velha mãe, o inusitado encontro que tivemos há algumas semanas na casa de Tia Olívia. Ela me disse depois, que saiu revigorada após aquela visita.

Luza, Bazinha e eu, ao chegarmos à casa da minha velha e lúcida tia, encontramos as portas e janelas fechadas. Coloquei o ouvido colado na janela por vários minutos e não ouvi nenhum barulho. “Vamos bater mais na porta, ela pode está dormindo ou adoentada” ─ insisti. As duas que me acompanhavam alegaram que uma pessoa não poderia estar só, num calor daquele com as portas todas fechadas.

Saímos à procura da sua nora, vagueando pelas ruelas da famosa “engenhoca”, como era denominada àquela parte da cidade.

No caminho, pelas ruas estreitas de casas humildes, finalmente encontramos a nora de tia Olívia, a qual, fez esta revelação para nós: “ela é assim mesmo fica sozinha por dias e noites, nem se incomoda. A gente deixa a comida dela na sala e volta para casa”.

De volta a sua residência, bateu-se na porta com mais força, e após dois ou três minutos, tia Olívia apareceu com cara de doente, abrindo a porta de sua casa. Mesmo dizendo que estava acamada com uma virose, a sua face não deixou de irradiar aquela alegria contagiante que lhe é sempre peculiar. Após conversa vai, conversa vem, se perguntou:

─ “Como é que a Sra. consegue ficar numa solidão dessas por tantas horas, sem ninguém a lhe fazer companhia em casa?

Ela respondeu cheia de fé: ─ “ Meus filhos! Eu tenho um General aqui comigo toda a hora. Eu converso com ele, canto com ele o dia inteiro. Não sinto falta de ninguém. Quando estou já sem forças para andar, sem ter, às vezes, nem o que comer, eu peço, e o meu general me manda na hora. Graças a Deus não tem me faltado nada.

A esta altura, Bazinha e Luza estavam completamente abismadas e ao mesmo tempo felizes, vendo aquela demonstração de firmeza, que parecia não ser desse mundo nosso de valores fúteis.

Eu saí dali calado, forçando a minha mente, a fim de me lembrar de um versículo do Novo Testamento que dizia mais ou menos assim: “(...) e Ele vos dará um consolador para que esteja convosco para sempre”.

No caminho, de volta para Guarabira, perguntava para mim mesmo: “Como fazer com que a minha velha mãe entenda e sinta que, mesmo na nossa ausência, ela não se encontra só?”

Crônica: por Levi B. Santos. Guarabira, l8 de Maio de 2007

Um comentário:

Guiomar Barba disse...

Qui crônicaaaaaaaaaaaa. Parabéns!

Me apaixonei por esta família simples e determinada.
Você jamais pode negar que viu um homem de branco, talvez Jesus, talvez um anjo, e que a sua palavra se cumpriu literalmente. rsrs

Eu penso que mesmo vivendo rodeado de pessoas, podemos sofrer uma profunda solidão. Minha mãe era destas pessoas que sempre sentia-se sozinha. Eu creio que a única alegria dela, depois que já não podia ir sempre a igreja, fazer o trabalho de Deus, como ela sempre dizia, era a esperança d vida eterna. Portanto, admirei a ótica da sua tia, e penso que ser alegre depende muito de mim. Com certeza o Espírito Santo nos consola.