17 maio 2012

O Magnetismo das Catedrais e dos Cinemas de Outrora





 Joseph Campbell, em “O Poder do Mito”, faz uma alusão emblemática ao Templo, como lugar sagrado onde revivescências ou experiências primitivas são revisitadas. Chegou assim a dizer: “Um Templo é uma paisagem da alma. Ao entrar numa catedral, você penetra num mundo de imagens espirituais. A mensagem das cavernas (entre o tempo e os poderes eternos) de algum modo deve ser experimentada ali”. 
Como adentrar a uma Catedral, observar atentamente e em silêncio suas bem talhadas colunas, suas abóbadas com pinturas a exalar mistérios, seus vitrais multicoloridos, e não sentir nada?

Não sei, mas esse sentimento que Boff denominou “oceânico” me invadia o peito sempre que adentrava o espaço sagrado das salas de cinemas da velha Cinelândia – Rio de Janeiro, nos idos de 1972. Cada sala, com sua peculiar arquitetura, devassavam o meu velho porão de afetos, de um modo particular. O cinéfilo sabe muito bem o “por quê” de se chegar minutos antes do início da sessão de um filme.

O cinéfilo dos tempos do rádio e da vitrola apreende, mas não sabe transpor em palavras a aura que o envolvia quando diante de luzes acesas das naves dos antigos cinemas deleitava-se com a formosura dos traçados bem trabalhados das paredes interiores, com a sensacional cortina escarlate sanfonada e seus contornos de reluzentes cordões na cor amarelo-ouro a desenhar um intricado das mais variadas formas geométricas. Diria Campbell que, o nobre sentimento de se religar a algo que perdemos na nossa origem ― o “Eterno Retorno” nietzschiano ― estaria, tanto no espaço sagrado das catedrais quanto no espaço mágico de uma sala de cinema.

Há quem não suporte assistir filmes numa telinha de LCD, em casa. Para esses, e aí eu me incluo, o barulho dos automóveis na rua, o murmúrio das pessoas por perto, o toque do celular e outros ruídos, impedem que se perceba o magnetismo que o “sagrado” espaço das antigas salas de cinema nos oferecia. O interior da Catedral, e a sala de Cinema exerciam fascínio idêntico sobre o homem. O expectador em sua poltrona na sala de cinema alimenta-se subjetivamente dos mesmos ingredientes. Ali, na sala de cinema, o silêncio, a escuridão que lembra o útero materno, o quadrado mágico das quatro paredes suntuosas funcionam como um espelho, a refletir o escondido e o recalcado que há no homem.

Jean−Louis Baudry, em sua obra, “O Aparelho”, vê semelhanças entre o mito da Caverna de Platão e a projeção cinematográfica.

“O cinema, para Baudry, constitui a realização material aproximada de um objetivo inconsciente, talvez, inerente a psique humana: o desejo regressivo de retornar a um estágio anterior de desenvolvimento, um estado de relativo narcisismo no qual o desejo podia ser satisfeito por uma realidade simulada e envolvente... [...].” ―  diz Roberto Stam, em seu livro “Introdução a Teoria do Cinema” (página 186 – Editora Papirus).

Em uma anônima poltrona da sala de cinema é que o expectador se transforma em protagonista. Ali, cada um, reage e raciocina de acordo com sua estrutura temperamental. Uns sob o impacto da emoção chegam até desmaiar, outros dão vazão a seus instintos de anarquistas, outros descarregam sobre os personagens da tela, sua carga de recalques e, aparentemente, saem da sala aliviados, até o próximo filme; ou como um crente, até o próximo culto.

O olhar dos críticos de cinema, hoje, talvez não seja o mesmo do anônimo solitário que em sua poltrona, outrora, interagia com a história filmada.

Há casos inesquecíveis, como o clássico “Memórias” de Woody Allen, que tanta celeuma provocou no meio acadêmico do cinema: o seu autor, na época, foi condenado como “rancoroso” e “mesquinho” porque o filme irônico, de forma sarcástica, atacava indiretamente os próprios críticos cinematográficos.

Alguns filmes geram prazer, enquanto outros geram desprazer (subtendendo-se aqui, o gozo masoquista). A sala de cinema (não sei hoje, mas ontem), representava o espaço onde, por alguns minutos, se rompia com a solidão existencial. Agradava-me os filmes de terror, que tanto atraíam a meninada do meu tempo, o expectador tomava o lugar da vítima ou do monstro, num processo de identificação em que sentíamos medo, mas de forma que não temíamos a nossa própria segurança.

Infelizmente, a pós-modernidade esterilizante dos sentimentos, tem mostrado o seu lado negativo, vinculado mais a princípios mecânicos. O vertiginoso avanço tecnológico que fez criar novas necessidades a serem satisfeitas pelo homem, roubou-lhe o pouco tempo que tinha para dar ouvido aos reclames da alma, deixando como única opção, para ser visto como ser da era cibernética, a rendição aos ditames midiáticos que preconiza: “viva em conformidade com o “status” de uma civilização cada vez mais utilitarista, e o resto é besteira”.

 P.S.:

Sou um velho anacrônico, em cujo peito moram ressonâncias saudosas dos espaços místicos-sagrados-mágicos dos antigos cinemas, como o Rex e o Plaza em João Pessoa – Pb; o Odeon, o Palácio, o Metro-BoaVista, o Pathé e o Império, na velha Cinelândia do Rio de Janeiro da década de 1970.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 17 de maio de 2012

 Imagem 1:  Foto do Cine Odeon – Cinelândia - Rio de Janeiro
 Imagem 2:  Nave da Catedral de Granada                    

10 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caro Levi,

Que bom você ter vivido no Rio num tempo onde os velhos cinemas ainda sobreviviam. Início da década de 70 ainda era aquela ditadura braba do regime militar, um período de censura, repressão ideológica e de fechamento de muitos centros culturais. Mesmo assim, os cinamas não acabaram. Muitos filmes de qualidade ainda eram permitidos pelos milicos.

Nesses praticamente 100 anos de cinema, muita coisa mudou. Na primeira metade do século XX, os cinemas chegaram a ser espaços onde a elite social das cidades brasileiras encontrava-se para esnobar e daí a justificativa para tanto luxo. Jovens aproveitavam o escurinho da sala para namorarem sem os olhares controladores dos mais velhos. E a criançada sentia-se fascinada por aquele mundo de fantasias projetado sobre uma tela.

Mesmo quando ainda era a época do cinema mudo, as pessoas sentiam-se atraídas pela mágica dos filmes. Eu, porém, nunca tive paciência para assistir um filme mudo já que nasci em 1976 e, desde criança, fui habituado com os desenhos animados. Ainda assim, não nego que acabei me inteessando por uma reprises do Charlie Chaplin. E como não rir e ao mesmo tempo chorar diante de sua incrível arte?!

Morei na Zona Norte do Rio de Janeiro até meus sete anos. Residia num bairro chamado Grajaú onde os mais velhos contavam sobre a existência de um antigo cinema próximo ao Largo do Verdum. Porém, cheguei a assistir muitos filme no bairro vizinho, a Tijuca, durante boa parte dos anos 80. Lá tinham os cines Carioca e América, ambos na Praça Sans Peña, além de outros que estavam situados dentro de galerias como o Bruni.

Lembro que, na companhia de minha avó paterna, cheguei a frequentar bastante os cinemas. Ela comprova o jornal O GLOBO, via o que estava passando na cidade e íamos de ônibus, metrô ou táxi. Geralmene era mais na tal Pça. Sans Peña onde costumávamos frequentar. Assim que chegava lá, sentia o característico cheiro do amendoim doce. Na fila do ingresso e depois para entrar no cinema, meninos vinham vender balas e ela aproveitava para comprar os doces ali porque lá dentro, depois de passar pelo portão, entre a rua e a salinha de espera, cobravam mais caro. Mesmo assim, eu não deixava de ganhar aquela deliciosa pipoca e o meu copo de refrigerante.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

O tempo passou. O Carioca virou templo da Igreja Universal (mesmo destino da salinha de cinema que existiu aqui no Grajaú) enquanto que o América tornou-se um enorme estabelecimento da Drogaria Pacheco. Muito pouco sobrou da saudosa Tijuca de outrora e quem desejasse assistir um filme no cinema teria que ir ao shopping.

A mesma tendência parece ter se passado em outros bairros e cidades. Quando saí do Rio, vivi em Juiz de Fora e depois em Nova Friburgo. Em ambos municípios, seus velhos cinemas acabaram-se. Lembro que o o apartamentão no qual meu avô paterno morava em Juiz de Fora ficava num prédio onde funcionava um cinema na sobreloja. Chamava-se cine Excelsior. Era bem no Centro da Manchester Mineira, na avenida Rio Branco. Cheguei a assistir umas sessões ali, mas, no final dos anos 90, ele já estava prestes a acabar. Um vereador do PT até tentou mobilizar a sociedade para preservar aquele espaço, mas não houve jeito e o Excelsior, tempos depois, deixou mesmo de existir.

Já em Nova Friburgo, quando cheguei em 1999, não existia mais o cinema antigo. SOmente no shopping da cidade é que tinha (e ainda tem) umas três salas que, na época, pertencia ao Grupo Severiano Ribeiro.

Felizmente, a sociedade conseguiu preservar alguns antigos cinemas como é o caso do Odeon citado no seu artigo. Aliás, de uns anos para cá, os cinemas da Cinelândia estão sendo bem cuidados. Em minha época de criança aqui no Rio, as famílias só assistiam cinema nos bairros pois o Centro era tomado por filmes pornôs onde os frequentadores procuravam um segundo tipo de "programa"... Mas com arevitalização do centro do Rio na era do prefeito César Maia (DEM), o antigo foi voltando a ter valor. Se foi por causa dele, não sei. Acho que talvez tenha sido também por causa do clamor social e das tendências nos dias de hoje.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo!

Por mais que eu gostasse ir ao cinema nos meus tempos de infância e adolescência, sentia um certo vazio quando a sessão terminava. As luzes eram acesas e as portas das ruas abertas. Se a entrada era feita através de uma sala de espera toda luxuosa, aumentando a expectativa ansiosa durante a espera, eis que o final feliz era confrontado com a dura realidade das ruas e do cotidiano: pedintes do lado de fora, família complicada, cobranças escolares, um clima natural com calor, sol e chuva, além da ausência de um final.

Eu diria que, no shopping, o impacto sofrido ao término de uma sessão é menor. Acabando o filme e sendo ainda horário de funcionamento, o frequentador tem como se distrair olhando as vitrines ou fazendo um lanche na praça de alimentação. Ainda assim, as pessoas saem caladas da sala de cinema. Raramente um comenta com o outro sobre o que assistiu. Cada um guarda para si as suas opiniões e caminham.

Acho que assistir filme em grupo pode ser algo bem interessante e os antigos cinemas talvez não voltem mais, exceto quanto aos espaços preservados. Penso que, no futuro, as epssoas estarão mais conscientes sorbe a importância de fazerem isso em espaços de convivência onde, após o término da sessão, haja debates e outras cosias para se fazer. Talvez por isso os shoppings tenham atraído o público dos velhos cinemas junto com o vídeo cassete, substituído neste século pelo DVD. E o meu desejo é que as ruas e as praças tornem-se clubes abertos para o entretenimento social.

Abraços e desculpa-me por ter escrito demais. É que o tema é intetessante e nos faz voltar um pouquinho no tempo.

Valeu!

Levi Bronzeado disse...

Olá Rodrigão

Li todo seu emocionante comentário. Que diferença, hein, do Rio de hoje e o de outrora?

Residi aí durante o ano de 1972. Saía à noite, para teatro, cinema, bares e festinhas e nunca presenciei violência, assaltos e arrastões. Chegava a ir a pé, do Hospital Souza Aguiar, até a Cinelândia, contornando a Pça da República, seguindo pela Pça Tiradentes, Rua da Carioca.

Tem mais, muitas vezes, voltava à pé, após sessão de cinema das 22 horas, sem o medo e a insegurança de que são tomados os habitantes dessa cidade que já foi muito mais maravilhosa, sem o progresso estrondoso que trouxe no seu bojo, muita intranqüilidade e medo de se sair e não voltar para casa.

Que pena , hein?

Eduardo Medeiros disse...

É, Levi, não cheguei a conhecer tais lugares sagrados - tão sagrados quanto às grandes catedrais. A primeira vez que fui ao cinema, ainda garoto, levado pelo meu pai para assistirmos um desenho do Tom e Jerry, me senti exatamente com os sentimentos que você tão bem descreveu.

Aquilo era mágico!!!

Infelizmente depois daquele dia, só voltaria a ir a um cinema aos 17 anos, depois que fui para a escola da Marinha em Vitória no Espírito Santo e lembro-me muito bem do filme: "ET - o Extraterrestre" que fazia naquele ano de 1982 um retumbante sucesso.

Hoje em dia, não conheço aqui no Rio nenhum cinema de rua e nem sei se ainda tem algum dos cinemas da Cinelândia em funcionamento.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caro Levi,

Eu diria que a violência e a degradação do Rio atingiu o seu auge nos anos 90 e que, de uns anos para cá, estamos fazendo parte de um processo de melhora. Algo que logicamente não se resolve com a simples colocação da polícia nas favelas, mas que depende de esforços de toda a sociedade e de investimentos em outras áreas. Principalmente educação e oportunidades de trabalho!

Eu nasci em 1976 e fui criado aqui até 1983, quando então me mudei para Petrópolis (1984) e, no ano seguinte (1985), passei a morar com o meu avô paterno em Juiz de Fora. Naquela década, a violência foi aumentando a cada ano até que, quando retornei pra cuidade, em meados de 1988, a criminalidade estava demais. Na primeira metade dos anos 90, estando eu novamente no estado de Minas, assisti pela TV as lementáveis cenas do arrastão na praia, manchando o final do segundo governo Brizola que em muito deixou a desejar se comparado com o seu primeiro mandato. E há quem o culpe até hoje pela violência, o que de certo modo discordo porque o problema já tinha suas raízes em décadas passadas e foi resultado de um processo social negativo.

Tenho esperanças quanto ao futuro. Desejo que a sociedade abrace a bandeira da pacificação e saia debaixo do paternalismo eststal visto que, quando as Olimpíadas passarem, muitos projetos poderão perder apoio institucional dos governos. Logo, somos nós, o povo, quem temos que amar da cidade cuidando melhor dela.

Abraços.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Edu,

Não faz muito tempo passei por Copacabana e reparei que lá ainda existe pelo menos um cinema de rua - o Roxy.

Lembro que assisti o filme do ET na Tijuca. Não sei se foi no América, ou no Carioca, ou em outro. Lembro, porém, que o filme ainda se repetiu por muito tempo permanecendo em cartaz nos anos seguintes já que ter vídeo cassete em casa era uma raridade nos anos 80. Coisa de rico e pra gente da classe média alta...

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo!

LEVI,

Além da questão da violência, tenho visto no Rio um movimento forte da sociedade pela preservação de seus prédios antigos. Há projetos, inclusive, de revitalização do bairro imperial de S. Cristóvão e da área portuária. Aliás, neste fim de semana, eu e minha esposa estivemos passeando nos velhos museus dessa esquecida região central da cidade, conforme relatei em meu blogue.

Abração!

Gilber†o Ângelo Begia†o disse...

Levi como gosto deste seu blog! Também gosto muito do jeito que fala e compara as coisas com a vida! Hoje decidi indicar seu blog em meu blog rsrsrs

E tentando parafraseá-lo rsrsrs

Será que o cinema e a igreja é uma expressão de que como and a humanidade e nossa alma? Haja visto que cinemas se transformam em igrejas outras coisas e Igrejas se transformam em bares, restaurantes bordéis? Será Levi?

Valeu eu amo seus artigos e suas mensagens!

Levi Bronzeado disse...

Caro Gilberto

Muito grato pela sua avaliação positiva sobre os artigos postados nesse recanto, que me anima a continuar escrevendo. (rsrs)

Acho que era o poder do Mito que, com toda a sua efervescência, me tomava quando adentrava as catedrais, os cinemas, assim como o Teatro. Bem, esse sentimento de ser UNO com o que está ao nosso redor é coisa difícil de se explicar.

A IURD do Edir Macedo, desvirtuou tudo, ao transformar as salas de cinemas em locais para sessão de descarrego.(rsrs)