02 agosto 2015

Foi-se a Utopia: “Tudo é Permitido na República”




Cuidemos de tornar esta vida tolerável; ou, se for demais, que pelo menos sonhemos que assim é” sentenciou Louis-Sébastien Mercier, tomado pelo espírito utópico. Disse isso, em seu livro, “Memórias do ano 2440”, publicado no longínquo 1771.

Longe ainda de 2440 e, em pleno 2015, o que vemos e sentimos, na realidade, é o declínio acentuado dos impulsos utopistas do Homo Sapiens brasileiro, por um mundo mais digno e justo.

Aqui, nas terras de Dom João VI, navegamos em um mar de escândalos nunca vistos ou imaginados. Ninguém mais acredita num futuro promissor. E como se poderia acreditar, quando o que mais se pensa é na maneira mais esperta de manipular a barca do estado que se encontra à deriva?

A situação vexaminosa que estamos enfrentando nos últimos anos, trouxe-me à mente a peça “Ascensão e Queda de Mahagonny”, do famoso dramaturgo alemão, Bertolt Brecht (1898 ― 1956):

No primeiro ato da peça, o procurador Willy e seu subordinado encontram-se perdidos no meio de um vasto deserto. O caminhão em que viajavam à procura de ouro pifou ou emperrou, e não tinha como ir nem para frente, nem para trás. O procurador, então, é tomado por uma ideal, em tudo parecido com o que comumente se ver no submundo de nossa republiqueta. De uma forma muito usual entre nós, o personagem principal do enredo de Bertolt Brecht, dispara:

Bem, tive uma ideia: já que não podemos tocar para frente, vamos fundar uma cidade, e lhe dar o nome de Mahagony, que quer dizer ― cidade arapuca. Ela vai ser como a arapuca que se arma para os passarinhos. Em toda parte se dá duro e se trabalha, mas aqui se goza”.

Enquanto Mahagonny está a espera de um tufão, os grandes e inteligentes homens chegam a uma “sábia” decisão:

Nós não precisamos de furacão nem precisamos de tufão, porque todo o horror de seu poder, nós mesmos podemos fazer.
Não tenham vã esperança/Não há retorno mais/O dia traz bonança/ E logo a noite avança,/mas a manhã jamais.
Quando há algo que podes comprar com grana/ Pega então a grana/ Quando alguém passar com grana,/Dá-lhe uma paulada e toma a grana/ Isto é permitido.
No interesse da ordem/Em benefício do Estado,/Para o futuro da humanidade,/Pelo teu próprio conforto/ Tudo é permitido”.

Com o fim da guerra fria, na década de 1980, a utopia de um mundo melhor e justo, ainda dava ar de sua graça entre os de minha geração. Pensávamos que a gastança de bilhões em armas e bombas, se transportaria para a saúde, educação e para as necessidades comunitárias, como num passe de mágica.

Em nossa tenra e inocente imaginação pululavam heróis, messias e salvadores da pátria mãe gentil. Tempo em que não tínhamos ciência ou noção de que o herói e o vilão ― paradoxais e indissociáveis habitantes da alma humana ―, compunham o enredo fantasioso dos autores de livros de História, com suas máximas por nós consideradas sagradas. Não sabíamos que esses dois personagens internos, no decorrer do tempo, constantemente trocavam de papéis, sempre de acordo com suas temporais conveniências.

Foi-se o tempo da utopia edênica do homem monolítico, que expulsa de si toda a maldade para ser ilusoriamente, só bom. A inteligência manipulativa do Homo Sapiens da atualidade trabalha, incessantemente, para que seu lado vilão não apareça aos olhos dos outros. Uma vez no poder, modificam-se até as leis para que resplandeça perante a sociedade apenas a sua face de herói. 

Na Mahagonny de Bertolt Brecht, assim como nas altas esferas de Brasília (Centro dos três poderes republicanos), tudo é permitido no interesse da ordem e em benefício do Estado, desde que os anseios da plebe não entrem em rota de colisão com o próprio conforto dos legisladores e guardiões das leis. O “tudo é permitido” em nome da governabilidade, lá atrás, no começo da comédia republicana, tinha um outro nome ― “Encilhamento”. Esse termo usado no alvorecer de nossa fantasiosa república (por volta de 1890)correspondia a um desastroso programa econômico de endividamento que transformou o dinheiro da Fazenda em papel. No teatro republicano de hoje, esse nome quer dizer o mesmo que: “Pela governabilidade, tudo é permitido.”
 
Pouco antes das chamas tomarem conta de Mahagonny, um cortejo de manifestantes andando sem ordem, uns contra outros, portam cartazes com os seguintes dizeres:

Esta bela Mahagonny tem de tudo,/Enquanto vocês tiverem dinheiro./Tem o que se pretenda,/Pois tudo está à venda,/ E não há nada que não se possa comprar.”


P.S.:

Na ausência de princípios morais, o que aparece em seu lugar é o oportunismo dissimulado travestido de “boas ações”. Uma vez no poder, os indivíduos são tendenciosos a promover a autofagia, fragmentando-se em grupos rivais a serviço da própria agressividade adormecida.

Ao apagar a luz da Utopia, o Homem Sapiens da pós-modernidade mergulhou na escuridão de uma vida sem expectativa. Dessa forma, além de sombrio, frio e cruel, converteu-se definitivamente em um predador de si mesmo e dos outros. O seu “modus vivendi” está, agora, intimamente ligado ao uso e abuso do instinto humano mais primitivo e perverso  o instinto de destruição.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de agosto de 2015


Link da Imagem: pt.depositphotos.com

4 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

O Brasil carece de admoestadores e motivadores que, à semelhança dos profetas bíblicos, encorajem o povo a reconstruir o país conforme princípios éticos. Se Moisés fez de uma nação de escravos um povo que hoje colhe frutas num árido deserto, podemos também seguir os mesmos passos nos libertando da mentalidade corrupta que tanto atinge aos governantes quanto ao próprio povo. E em oposição ao arquétipo de D. João VI, tivemos aí o nosso Tiradentes que, ao seu modo, amava esta terra de maneira que o seu sacrifício não pode ter sido em vão.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Há que se reconstruir e atualizar essa utopia. As vozes do bem precisam clamar e preparar o caminho da reconstrução nacional!

Levi Bronzeado disse...

A humanidade é uma grande esperança perdida (Tennessee Williams – em “Um Bonde Chamado Desejo”)


O Homo sapiens brasileiro vem aceitando de bom grado, desde a farsa da proclamação da nossa república, o software do fisiologismo, Rodrigo.

O “modus vivendi” é o mesmo de trezentos anos atrás. Quando o rei e seus parceiros estão em vias de naufragar sob denúncias escabrosas, o remédio é fragilizar e desmoralizar as instituições que os investigam, como aconteceu no passado, vem se repetindo no presente, e se repetirá no futuro.

Mudam-se os personagens, mas o ENREDO é e será sempre o mesmo, até o final dos séculos. A história de nossa republiqueta tem sido e será sempre pródiga em paradoxos. Paradoxo como o de atacar as Instituições que os sustentam, quando se sentem ameaçados.

Parafraseando a letra eternizada do Samba “VAI PASSAR”, de Chico Buarque: “A nossa pátria mãe tão distraída nem percebe que está sendo subtraída em tenebrosas transações”

Guiomar Barba disse...

Não há como não gemer lendo seu ensaio.
Mas a minha esperança é que ainda existem aqueles que não se contaminaram com o manjar do rei. Enquanto eles existirem haverá forças para os que estão sucumbindo.

O Messias voltará! Desta vez para estabelecer o seu Reino de justiça.
Parabéns Levi, você é humano, sensível.