08 agosto 2015

O Software dos Afetos





O software é um programa micro-eletrônico destinado a armazenar uma sequência de instruções escritas, a fim de que tarefas específicas possam ser interpretadas e executadas pelo computador. Acho que poderíamos transportar o conceito desse elemento do mundo cibernético para a vida instintiva do indivíduo (com seus impulsos e afetos). Não é à toa que, pela sua complexidade operacional, comumente se compara o computador ao cérebro humano.

Sendo assim, os dois primeiros softwares humanos corresponderiam ou conteriam as primeiras experiências do bebê: a de gratificação que embute o prazer e a de frustração, representada pelo desprazer. Esses dois softwares centrais, com o tempo se conectariam a softwares secundários, como o da submissão, da inveja, do ciúme, da agressividade contra o intruso, do afeto de afeição e apego. Diríamos que o software dos afetos, que agem a partir do primeiro vagir do bebê, continua a reverberar indefinidamente, toda vez que o adulto se confronta com situações análogas às vivenciadas nos seus primeiros anos de vida.

Recordar, repetir e elaborar” constituiriam a base do mecanismo consciente/inconsciente da psique, diria Freud em “Além do Princípio do Prazer”. Ou seja, as reações instintivas com sua gama de afetos ambivalentes repercutidas no adulto, no fundo, são repetições de cenas que vivenciou em sua tenra infância. A psicanálise faz ver que o modo de inserção do adulto na vida social, está repleta de ecos vindo lá de trás, implantados ou inscritos em softwares do intricado campo mental. Às vezes, tal qual um computador com alguns arquivos travados, conservamos certos gestos ou um tipo de conduta, sem saber que nesses atos compulsivos exibimos um ordenamento previamente programado.

O software responsável pelo sentimento da criança que, para evitar o desprazer de não ter um brinquedo igual ao do seu amiguinho, toma-o e o destrói, é o mesmo que age na vida adulta. Como muito bem definiu, Zuenir Ventura, em seu livro “Mal Secreto”: “A inveja é não querer que o outro tenha”.

Como tudo na vida é repetição, o sentimento de inveja, no adulto, não passa de uma reprise da primeira inveja vivenciada. É para evitar o doloroso desprazer de ver nossos recalques sendo expostos, que reprovamos no outro (o invejoso) o sentimento de inveja que experimentamos primariamente na infância. Dizem os filósofos que, dos sete pecados capitais, só a inveja se esconde. O escritor, dramaturgo e torcedor fanático do Fluminense do Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues, já dizia: “há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médium depois de morto. Uma delas certamente é a inveja”.

Donald W. Winnicott, pediatra inglês, cuidou de crianças adolescentes traumatizadas na época da segunda guerra mundial e, para melhor compreender o seu drama interessou-se pela psicanálise. Ele, por fim, entendeu que a vida social e afetiva do adulto dependia muito da criança que um dia existiu.

Françoise Dolto, psicanalista francesa que dedicou toda sua vida a cuidar de crianças que perderam os pais na segunda guerra mundial, assim se referiu, ressaltando o sofrimento nascido das separações primeiras, dos primeiros sentimentos de frustração e desamparo experenciados por meninos e meninas de seu tempo:

Esses momentos de graça do fenômeno humano que somos para nós mesmos , todos nós conhecemos desde a infância. […] Cada um de nós, quando estreitado pelo sentimento de não ser compreendido, de ter um sentimento impossível de comunicar; sentimento doloroso que faz o corpo estar mal em meio aos outros, em família, em sociedade, num grupo, na multidão, cada um de nós sente a solidão amarga que traduzimos por tédio, angústia, tristeza e melancolia”.

Tanto na criança já grandinha de seis anos de idade quanto no adulto, o software do prazer bebe de uma mesma fonte. O “princípio da realidade”, no entanto, vem sempre se opondo ao “princípio do prazer”, para que não se morra de uma overdose de gozo, como mostra o pequeno excerto abaixo reproduzido.

Um menino de seis anos de idade, ao observar seu irmão mamando no peito da mãe, fala: “Mamãe, eu também quero mamar!”. A mãe responde: “Mas você já mamou...”. E ele exclama: “Mas eu não sabia!”. O menino almeja retornar ao gozo que ele supõe que teve, agora, sabendo… Como se diria, sabendo das coisas… Essa fantasia (ressonância emitida pelo software dos afetos – grifo meu) parece ser a mesma que se revela no dito coloquial dos adultos: “Eu era feliz e não sabia!” [Trecho do livro – “Lacan, o grande freudiano” – de Marco Antonio Coutinho]

O software que agia na primeira fase da existência do indivíduo é o mesmo que ainda hoje ressoa no peito do adulto. Por isso é que se convencionou (e com razão sobrada) que o passado tem muito a dizer ao presente. Às vezes, enxergamos viajando conosco a criança astuta, chorona e rebelde de tempos atrás. Por que não dizer que há momentos em que somos surpreendidos repetindo gestos, cacoetes e atitudes apreendidas e aparentemente perdidas nas brumas do tempo ou encaixotadas em um porão obscuro da mente?



P.S.:

Ao falar em “porão obscuro” e sobre a influência de fatos do passado de criança sobre o nosso cotidiano de adulto, lembrei-me de uns versos que fiz e postei aqui nesse recanto em junho de 2012. O(a) leitor(a) que desejar conferir é só clicar aqui no título Porão Esquecido.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de agosto de 2015

Site da Imagem: techtudo.com.br/noticias

3 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Parabéns pelo texto, Levi.

Observo que diagnosticarmos a criança que viaja conosco torna-se uma percepção de grande importância para superarmos nossos surtos de imaturidade a fim de que tenham duração mais curta e possamos recuperar a nossa lucidez quanto ao nosso processo de crescimento existencial. Do contrário, o ser humano pode levar uma vida inteira tentando superar suas imaturidades.

Há que se dialogar sempre com essa criança! Inclusive para que tenhamos mais qualidade de vida e não sejamos vítimas de nosso próprio comportamento sendo certo que umas das causas da infantilidade pode estar nos ganhos secundários de uma situação. Não seria isto o que ocorre com o menino de seis anos quando quer mamar igual a um bebê, conforme citou em seu texto?

Levi Bronzeado disse...


Levando o escopo do texto (Software dos Afetos) para o que acontece no âmbito dos poderes, seu raciocínio sobre o anseio do menino de seis anos em voltar a mamar vem a calhar maravilhosamente, Rodrigo.

A expressão tão usada e abusada entre nós- “Mamar nas tetas do governo” não deixa de ser um sucedâneo do software que estimula os “bebezãos” a permanecerem, além da conta, alimentando-se sem o mínimo de esforço daquilo que, por lei, não é mais seu. (rsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Inegavelmente é uma imaturidade pessoas usarem do poder político para se enriquecerem ilicitamente e de maneira extravagante deixando a maior parte da população em dificuldades. É triste reconhecer que os nossos políticos eleitos são neste aspecto pessoas imaturas ainda que o sistema também os condicionem a roubar para chegarem ao poder e depois se manterem lá.