Dois
jovens pugilistas de Santorini (1550 a.C)
No
mundo todo, particularmente em nossa nação, o que há de mais
selvagem no inconsciente coletivo e individual está sendo exposto de
forma violenta nas redes sociais e demais veículos de comunicação.
Foi refletindo sobre esse instinto agressivo/destrutivo que resolvi
revisitar um trecho que, há mais ou menos 20 anos, grifei no
volumoso livro “Eros e Repressão”, de Rollo May (Editora
Coleção Psicanálise). Trata-se do capítulo ― “O Neurótico
e o Profeta”.
Partindo
de sua experiência com a vasta clientela de neuróticos que atendia
em consultório e, recorrendo ao que Freud já tinha profunda e
minuciosamente analisado em “Mal Estar na Civilização”,
disse Rollo May:
“Nossos
pacientes predizem a cultura vivendo conscientemente o que a massa do
povo conserva ainda inconsciente. […] Hoje, a pessoa que tem
problemas psicológicos carrega no próprio sangue o peso dos
conflitos dos tempos e está destinada a predizer, através de seus
atos e lutas, as crises que mais tarde irromperão de todos os lados
na sociedade”.
Hannah
Arendt, por sua vez, em seu livro “Sobre as Revoluções”
recorreu a Freud (“TOTEM e TABU”), para nos revelar algo
que vem bem a calhar com os momentos atuais de loucura coletiva:
“A
narrativa é clara: qualquer fraternidade de que sejam capazes os
seres humanos nasceu do fratricídio, qualquer organização política
a que tenha chegados os homens, teve origem no crime” ―
afirmou, de forma enfática, a
pensadora alemã de origem judaica, autora de antológicas obras, como "Origens do Totalitarismo" e a que trata do julgamento de "Eichmann em Jerusalém".
No
Mito do Pai da Horda (“Totem e Tabu”, de Freud) os filhos
mataram o Pai Primevo e fundaram a aparente fraternidade
(ensejando a utopia de que tudo seria resolvido de maneira horizontal
pelos irmãos). Ao dizer “aparente fraternidade”, corroboro
com Freud que, em seus escritos, deixou claro que o Pai simbólico internalizado (Superego) nunca deixa de emitir suas
ressonâncias na psique humana. Ele (o
Pai) continua encarnado em nós, como uma das funções estrturantes, senão a
principal, de nosso aparelho psíquico (o arquétipo paterno).
“Após
o ato (fratricídio), a sós,
filhos descobrem que também amavam esse pai; o amor é então,
transformado em sentimento de culpa e a palavra do pai se converteu
em lei simbólica. Este pai morto seria a condição de
retorno da ordem e do estabelecimento de um laço social com a
renúncia dos filhos ao gozo da mãe”. [Que Pai é Esse? ―
Círculo Psicanalítico da Bahia).
O
que Freud escreveu em 1921 continua muito atual, na medida em que os
filhos ainda procuram idealizar um Pai, que não aquele primevo.
Decorrido quase cem anos da primeira edição de “Totem e Tabu”,
em sua febre
ideológica polarizada, os filhos desse Pai imaginário reunidos
numa suposta irmandade, continuam a usar da violência em suas relações inter-pessoais, chegando até, entre nós, a manchar o solo com sangue humano ―
consequência nefasta das pulsões destrutivas e cruéis sobre o
outro que lhe serve de “bode expiatório”.
É
bom ressaltar, aqui, a referência que o psicanalista Jacques Lacan,
nos anos sessenta, fez dos sintomas histéricos coletivos de maio de
1968, na França. Na ocasião, Lacan, se dirigindo aos jovens que
gritavam bordões, tipo ― “É proibido proibir!” ― reverberou
de forma enfática: “Como revolucionários vocês são histéricos a
demandar um novo mestre. Vocês o terão!”.
De
lá para cá, protestos violentos continuam varrendo
vários países de todos os continentes. Tudo acobertado sob o manto
da “democracia”. Na verdade o conflito ocorre primeiro dentro das
mentes doentias de cada grupo. Nos renhidos embates, os polos afetivos
ambivalentes da alma humana são rotulados de direita e esquerda.
Não sabem os revolucionários que nesse confronto estão, apenas,
projetando os próprios recalques provenientes dos porões de seu
inconsciente no outro tido como inimigo.
Não
sabem eles que, desde os primórdios, tese e antítese estão à
procura de uma síntese, e não de um choque destrutivo. Republicanos
e Democratas, Conservadores e Liberais, Intransigentes e
Complacentes, Severos e Lenientes não são mais que adjetivos a denunciarem a dualidade dos afetos paradoxais de nossa alma.
Em
tempos pré-eleitorais o que mais se deseja (consciente ou
inconscientemente) não é unir, nem é buscar no outro o seu próprio
sintoma esquecido ou guardado a sete chaves. O que mais se deseja,
entre os grupos, é rotular o outro de direita ou de esquerda, como
se a identidade negativa e burra estivesse sempre presente no outro e
não no seu próprio Eu. O que talvez não compreendam é que os afetos que tanto identificam o “republicano” quanto o “democrata”
fazem parte de nossa alma dúbia. Alma que ora pende para um lado, ora para outro, tal qual um equilibrista a caminhar perigosamente em uma corda bamba. Essa realidade psíquica
desqualifica qualquer um a ser árbitro para julgar os afetos de
natureza subjetiva do outro.
Parece
que em tempos de acirramento político há uma regressão ou
involução humana, uma espécie de retorno ao tempo em que éramos
bárbaros ou selvagens, retorno ao tempo dos clãs. Tempo em que
éramos cegos para o mal que existia em nós mesmos: só tínhamos a
capacidade de percebê-lo na tribo que considerávamos inferior à
nossa.
De
certa forma, o embate ideológico dos tempos atuais, nada mais faz, que trazer à tona os monstros que estavam adormecidos na psique
humana, desde tempos imemoriais ― como bem fez ver o psicanalista
Christian Dunker, quando no jornal NEXO, em janeiro de 2018,
discorreu sobre “os efeitos da crise política para os
brasileiros”:
“A
massa tem esse funcionamento polar, de precisar sempre segregar os
inimigos para reforçar os laços de identificação [entre iguais].
É como se o funcionamento de massa exigisse a produção de grandes
ídolos que são sucedâneos do Pai, um Pai muito autoritário”
A
História sempre mostrou que é em época de descontrole e vazio de
poder, que a figura paterna (arquétipo patriarcal) ressurge das
profundezas da psique humana com força total. O veneno dessa força
instintiva descomunal ao aflorar nas almas humilhadas, desamparadas e
desesperadas, insinuam, em suas mentes infantilizadas, o desejo ou
anseio de proteção. Proteção, que em ambos polos ideológicos
extremistas (direita e esquerda), se remontam a figura paterna
onipotente (super-ego). Nietzsche, naquilo que fico cunhado de
"eterno
retorno",
já fazia menção a uma tendência de repetição de fatos indigestos no desenrolar da história humana, desde as mais remotas eras.
O
que Freud, com a descoberta da área sombria de nossa psique a que
denominou de “Inconsciente”, conseguiu deixar tão claro, senão a
de que, em tempos de paz, instintos altamente agressivos
representados por paixões ideológicas antagônicas dormem de forma
latente em cada ser humano?
Procurando
entender o que levava os homens a essa forma cruel e extravagante de
conflito, Albert Einstein, em uma de suas muitas cartas enviadas a
Freud, fez a fatídica pergunta: “Por Que a Guerra?”. O fundador
da psicanálise, sendo judeu, ainda mais numa época conturbada de
violento antissemitismo, não quis se estender no tema, revelando,
apenas, que os dois polos representativos da ambivalência humana,
quando em atrito, davam lugar a “pulsões destrutivas”
(Tanathos).
Só
não vê quem não quer, a “indomável psicose coletiva” que
grassa em nossas glebas.
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
16 de setembro de 2018
Nenhum comentário:
Postar um comentário