27 novembro 2007

O IRRESISTÍVEL "DESEJO" DE TRANSGREDIR

.............................A Ciência desvendando mistérios


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O desejo de transgredir uma norma ou uma ordem pré-estabelecida advinda de uma autoridade, persegue o homem desde os seus primórdios. Foi assim que aconteceu com nossos primeiros pais (Adão e Eva), que no jardim do Éden foram invadidos por este irresistível anseio de experimentar algo que não deveria ser tocado. A vontade de conhecer foi mais forte que o argumento da proibição legalizada. O primeiro casal da história bíblica não resistiu e cometeu o que seria a primeira transgressão.

A sede de investigar, de procurar a razão de tudo, passou a reger o homem, agora mortal e nu. O paraíso do deleite absoluto contrasta agora com a maldição do sofrimento, conseqüência de sua própria escolha. O viver agora passou a ser sinônimo de sofrer. Para amenizar a crueza de ser livre, restou-lhe uma lembrança daquele lugar de gozo, que como uma sombra o leva agora à utopia, à saudade e a esperança de que um dia seja restaurado aquilo que se perdeu. Daí por diante o desejo de transgressão, da ruptura dos contratos sociais, estimula esse homem a desafiar as tradições. Abraão na concepção de sua família e cultura, deve ter sido considerado um “transgressor”, por ter rompido laços de amizade, partindo para uma terra estranha a sua.

A transgressão no sentido de “transcender” foi se multiplicando dentro da História. Jacó transgrediu contra Esaú, Raquel transgrediu contra Lia e José transgrediu contra Judá. Jesus na concepção Judaica foi um transgressor, por ter traído a tradição religiosa. Já do ponto de vista do cristianismo, foram os seguidores do Judaísmo que traíram o Mestre. A questão: “traidor-traído” depende de onde se olha e de que lado se está. Deste modo, Cristo foi o Grande Herói do Cristianismo e ao mesmo tempo ─, transgressor dos valores culturais e religiosos do seu tempo. Aqui, o desejo transgressivo de romper com o “status quo” foi benéfico, pois ocasionou uma ruptura da tradição dos conceitos farisaicos da época, tido como imutáveis. As “boas novas” trazidas por Cristo, permitem no presente que nos transformemos constantemente pela renovação do nosso entendimento, de maneira que o “ser” de hoje não é mais o “ser” de ontem. Nessa renovação para entender o nosso próprio ser (evolutivo que é), transgredimos aquilo que considerávamos correto no passado.

O irresistível desejo de transgredir, em função de um bem maior, aconteceu com as filhas de Ló, que acreditavam que o mundo todo havia sido destruído com a hecatombe que ocorrera em Sodoma e Gomorra. Criam que não havia homens para dar continuidade à sua linhagem (Gênesis19:31); tiveram então a lucidez de embriagar o pai e manter com ele relações sexuais. Assim, as duas filhas de Ló engravidaram e deram a luz aos pais dos Moabitas e Amonitas. A transgressão aqui, não se configura como algo “imoral”, pois as suas filhas agiram daquela forma por se sentirem responsáveis pela continuidade da espécie. A semente da imortalidade, de certa forma, estava ali sendo transferida para os filhos vindouros, numa espécie de compensação para a maior das angústias, que é a “finitude humana”.

Estas duas mulheres da Bíblia (Tamar e Rute), conseguiram através de atos transgressivos restaurar a semente de Israel. Trajando-se de prostituta, Tamar, nora de Judá, o seduziu, gerando a Perez. Boaz que veio da descendência de Perez, foi por sua vez atraído pela moabita Rute (descendente da relação incestuosa de Ló com a filha). Dessa descendência, mais tarde, veio Davi. E assim, de transgressão em transgressão, a mulher tomou sobre si a responsabilidade pela preservação da linhagem da qual viria o Messias.

Passemos a tratar de outro tipo de transgressão, que tem como essência, o desejo de PODER conhecer o que era expressamente proibido ou intocável, numa reedição do que acontecera no Éden. O homem não mais atribui o que acontece em seu próprio ser, a uma força ou entidade vinda de fora, e assume os riscos e as conseqüências de extrair de si mesmo, a verdade científica. Agora, com o “status” de homem-científico, passa a investigar as suas próprias entranhas, ao penetrar no âmbito do sagrado templo feito pelas mãos de Deus. O que era sagrado e intangível passa doravante a ser esmiuçado em seus mínimos detalhes. O homem transgride aquilo que se tinha como “certezas prontas” e “verdades permanentes”, e, em seu lugar abre um novo campo de visão para substituir os dogmatismos ultrapassados.

Não se pode negar, que hoje, a humanidade não consegue sobreviver sem usufruir o néctar desse fruto proibido. A medicina desvendou mistérios e postulados considerados antes imutáveis. O “leproso” que estava amaldiçoado e sentenciado a morrer de forma lenta, perdendo aos poucos partes de suas carnes, numa mutilação macabra, hoje tem a sua cura efetuada em um ou dois anos de tratamento. Nos tempos de Abraão e Davi, quem em sã consciência poderia imaginar que um dia, os olhos, os rins, o fígado, o coração seriam trocados como simples peças de reposição? Aonde chegará esse insuperável desejo de conhecimento daquilo que está encoberto?

Há alguns meses admirei-me ao assistir um “vídeo”, que mostrava um homem com o seu crânio revestido por uma parafernália de fios e “sensores”, ligados a um monitor. Uma voz dizia para este homem que se encontrava deitado em uma espécie de túnel: “PENSE AGORA EM UMA LETRA DO ALFABETO”! Imediatamente aparecia no visor do monitor a letra pensada pelo paciente. Fiquei pasmo, perguntando a mim mesmo: será que a ciência está levando este insano “desejo transgressor” aos extremos de um dia poder ler os pensamentos?

Vemos tudo isso com um misto de temor e sobressalto. Será que à medida que a ciência evolui, os milagres tendem a ficar em segundo plano?

A verdade, é que todos nós, homens religiosos ou não, desfrutamos dos resultados colhidos pelo desejo transgressivo da ciência. Hoje estamos funcionando como uma balança: em um dos pratos colocamos o livro sagrado como regra de fé e no outro prato, colocamos nossas mezinhas e comprimidos, que nos vão aliviando o sofrimento pela vida afora.

Dizem: “a clonagem humana, hoje, é questão de tempo”; e os postulados éticos e morais vão sendo bombardeados pelo invencível desejo transgressivo de um dia criar o homem-robô, um ser sem o sopro de Deus ─, insensível e sem alma. Bancos de órgãos estão sendo montados. Já se pode escolher o filho que se quer ter: a cor dos olhos, a cor da pele, o tipo de cabelo. Doenças que iriam aparecer em idade avançada, hoje, são evidenciadas no feto, sendo convenientemente tratadas no interior do útero, através da manipulação dos genes afetados. As “células-tronco” –, que podem evoluir e dar origem a partes do nosso organismo, já são uma realidade. O mapeamento genético humano através do Projeto Genoma já foi seqüenciado. A próxima transgressão, talvez, seja o mapeamento da alma. A sobrevivência da nossa espécie está, como nunca, ao sabor das impensáveis e presunçosas descobertas científicas, que tanto podem beneficiar a preservação da raça humana, como podem acarretar perigos para o futuro da humanidade.

Lá de cima e em silêncio, o Grande Oleiro contempla este embate entre a razão e a fé, sabendo de antemão que a Ciência jamais vai restaurar a IMORTALIDADE PERDIDA.

O homem seduzido pelo poder do conhecimento ilimitado, luta e sofre, na tentativa de prolongar ao máximo sua vida de pobre mortal aqui na terra. Uma coisa ele não pode negar: lá no fundo do seu coração geme um desejo profundo de retornar ao PARAÍSO PERDIDO. A rebeldia do espírito da Ciência, mesmo rompendo as normas, padrões e paradigmas tidos por nós como sagrados, não consegue apagar a SAUDADE do Éden ─, sentimento este, que tem um efeito moderador no desenfreado ímpeto humano em desvendar mistérios acumulados por milhares de anos.

Ao levantar o véu que encobre o que se encontra oculto, o “homem científico” acaba nos deixando mais céticos. Sentimos, que ao transgredir determinadas tradições arraigadas em nosso ser, uma parte de nós se evapora, deixando-nos menos utópicos, nus e mais transparentes, é quando nos assoma o temor de que um dia a ciência revele com clareza as vilezas do nosso inconsciente.

Não devemos esquecer, que enquanto os mistérios alimentadores de nossa fé vão sendo paulatinamente desnudados, a vida vai perdendo o seu sentido e a sua graça, transformando-se em uma “novela”, cujo final previamente se conhece.

Ao ver os valores tradicionais postos em dúvida e sob investigação de modo irreversível, não posso esquecer de uma tia, que ainda hoje não acredita que o homem foi à lua. Demonstrando felicidade e fé inabalável, ela diz que é tudo “enrolada” ou propaganda enganosa, pois, Deus jamais iria permitir que o homem realizasse tamanha TRANSGRESSÃO. Sobre este tal “desejo transgressor” nem de longe ela quer ouvir falar.

Ensaio: por Levi B. Santos

Guarabira, 26 de Novembro de 2007

07 novembro 2007

A PRELEÇÃO DE ALMEIDA FOI REAL DEMAIS

................................................Pastor Almeida (de terno)


A Segunda Conferência Missionária das Ass. de Deus em Guarabira-Pb, em sua última noite, transcorria como sempre acontece em ocasiões festivas: muitas exclamações de alegrias, muitas aleluias e glórias a Deus. Eu ouvia pelo rádio, os cânticos e os testemunhos emocionados que agitavam a multidão que superlotava a nave do grande templo. Dava-se perfeitamente para ouvir pela emissora, o intenso vozerio.

Porém, algo inédito aconteceu naquela noite. Eram mais ou menos nove e quarenta, quando o preletor Almeida (Mineiro de Belo Horizonte – braço forte de apoio nas missões trans-culturais) foi convidado para dar a sua mensagem. Fez-se um silêncio sepulcral no interior do templo, quando o pregador dissecava com a sua espada afiada, fazendo ver cruamente o que era levar o evangelho às camadas excluídas da sociedade. O silêncio era tão intenso, que daria para se ouvir pelo rádio, um simples rasgar de um papel. Aquele silêncio era uma resposta mais do que clara, de que a palavra falada estava provocando uma profunda reflexão (inclusive de minha parte). Pude escutar a mudança altamente significativa que ocorreu naquele ambiente: o ribombar de vozes em alegria e êxtase, transformara-se repentinamente em um grandioso silêncio. O Pastor Almeida foi feliz e sábio em sua exposição, em consonância com o que diz o autor do livro de Eclesiastes (9, 17): “As palavras dos sábios devem ser ouvidas em silêncio [...]”.

Almeida tocara no ponto nevrálgico da interioridade humana, fazendo aflorar o paradoxo que norteia a nossa existência. Dentre os casos que ele expôs, um, foi de uma contundência cruciante e real. Em um dos seus arrebatamentos, expressou-se mais ou menos assim:

─ Irmãos! ─ Eu vou contar o que se passou comigo, lá em minha cidade: “eu era como um desses jovens bem vestidos, que estão aqui à frente, bem alegres e satisfeitos. Foi no caminho em direção à igreja, que avistei uma mulher em andrajos, parecia ser uma prostituta ou uma drogada, e estava sentada no chão de uma calçada. Algo, como uma voz dentro de mim, dizia naquela ocasião que eu parasse e falasse para aquela mulher. Eu tratei de fazer ouvidos moucos, racionalizando: ora, já estou atrasado para o meu compromisso na igreja. Ademais, com o meu terno todo bonitinho e impecavelmente passado, eu vou me amarrotar todo, vou chegar ao templo no meio do culto e todo desarrumado. Não! Prossegui no meu caminho. A voz mais uma vez ao meu ouvido: fala com aquela mulher! Eu dizia para mim: isso é uma tentação, não posso me demorar aqui e perder tempo, possivelmente, com uma bêbada. Além do mais, o que poderiam pensar os meus conhecidos que me vissem conversando com uma prostituta a uma hora daquelas, em um local suspeito e escuro. Continuei caminhando para minha igreja. A voz pela terceira vez soa: aborda aquela mulher! Não dei ouvido, e pensei: ora, é engraçado eu vou para casa de Deus onde lá todos estão me esperando, e esta voz aqui me atrapalhando”.

“Entrei no templo, alegrei-me bastante junto com os meus irmãos, e esqueci logo aquele fato ocorrido”.

Almeida, nesse momento, dá mais ênfase ao desfecho de sua história, falando desta forma:

“Terminado o culto, feliz da vida, dirigi-me a pé até o ponto do ônibus. Passando de volta pelo local onde estava a mulher, vi um aglomerado de gente. Resolvi espiar por entre a multidão espremida, o que estava acontecendo naquele momento. Esticando bem o pescoço e de pontas de pés, o que vi chocou-me profundamente. Em toda minha vida, jamais esquecerei aquela trágica cena. A mulher estava ensangüentada e morta. Constrangi-me até a morte, ao ouvir aquilo dentro de mim: “Tu foste o culpado”. “Se tivesses parado para ouvir aquela pobre mulher, ela não teria morrido”.

Almeida já emocionado, faz uma pausa e pergunta a platéia:

─ Quem aqui, tem a coragem de colocar bem juntinho de si uma prostituta daquelas bem fedorentas? Quem tem coragem de sentar junto ao um aidético aqui nos bancos? Aqui na igreja é muito bom. Está todo mundo engordando, engordando, e ainda mais cantando hinos como: “Estou pronto, estou pronto. Senhor eis-me aqui...” ─ diz, solfejando a estrofe de um corinho. Sabe quando é que o crente mais mente? ─ fala Almeida. ─ É quando está cantando na igreja. Ninguém que está cantando hinos como esses, atenta para o que está a dizer, e se treme de medo só em ouvir falar que alguém vai a uma missão na África ─ conclui veementemente Almeida.

Um silêncio profundo ─ foi a resposta de todos. Não se ouvia um sussurro sequer.

Não tenho dúvidas, que o inspirado Almeida sacudiu as profundezas do ser humano, de uma maneira, instigante, dura e real. Fustigou o meu coração como os de muito que o escutavam naquele momento. Pena, que a rádio encerrou o programa, pelo adiantado da hora, impedindo que eu e os ouvintes das redondezas pudessem escutar o restante de sua mensagem. Fiquei imaginando: se os organizadores do evento não tivessem demorado tanto, fazendo as costumeiras apresentações dos visitantes, teria dado tempo para que os rádio-ouvintes assistissem até o fim, o tão expressivo sermão do missionário visitante.

Depois de tudo, desliguei o meu rádio, para fazer uma auto-reflexão.

A mensagem de Almeida permitiu-me um olhar mais profundo sobre a verdade ancestral que reside na natureza humana: o “paradoxo” entre o “desejar fazer e o que realmente deve ser feito”. Almeida deve ter refletido e tirado uma grandiosa lição sobre o que aconteceu com ele naquela fatídica noite em Minas Gerais: “O zelo pela tradição do culto, o levara a perder uma alma”. Melhor que tivesse perdido o culto, aproveitando a oportunidade para socorrer aquela alma. O Pastor Almeida deu a entender que na igreja nos abrigamos do mundo, porém, é no trabalho missionário que se enfrenta o desafio de “sair para o mundo”. O que se passou com ele constituía-se em mais uma das muitas contradições do impensado evangelho de resultados, pregado nos tempos modernos: ele se encontrava na igreja onde estavam os sãos, enquanto uma alma se perdia lá fora, sem ter alguém para dar a mão. Esse acontecimento emblemático veio ratificar de forma insofismável o “porquê” do ministério de Cristo ter tido um caráter itinerante, indo ao encontro das gentes sofridas.

Em meio à violência e à maldade campeando de forma nunca vista por todos os recantos, não é coisa fácil abordar aqueles que vivem à margem da sociedade. Ficamos temerosos e sobressaltados ao abordar qualquer estranho que atravesse à nossa frente. Não é assim que aconselhamos os nossos filhos?: “Olhem, tenham cuidado, quando se depararem com alguém estranho e com cara de gente má, não se aproximem! Passem de longe, pedindo a proteção de Deus.”

O caso verídico de Almeida realça o grande paradoxo que nos mete MEDO, e por conseqüência, nos afasta do “IDE” imperativo do evangelho, destinado aos que estão caídos nas sarjetas da periferia das cidades. Preferimos que o desvalido VENHA ao templo, se bem quiser; é mais cômodo e não nos constrange. O MEDO de ser violentado, assaltado ou seqüestrado, nos impede de levar as “boas novas” a esses desamparados da sociedade, principalmente, naquelas horas mais arriscadas (após os cultos de domingo), em que voltamos para as nossas casas, tomados de MEDO e pedindo a Deus não encontrar ninguém pelo caminho. É nessas horas, que nos vem o tão sonhado anseio de poder andar sem sobressaltos. Nos vem também a vontade de confinar todos os marginalizados em um ambiente longe dos nossos, para que não possam nos incomodar.

A preleção de Almeida deve ter levado alguns, naquela noite, a uma reflexão, no sentido de tentar entender a mentalidade do homem rotulado de "moderno", que tem se sensibilizado apenas em seguir a sua própria agenda de realização pessoal, na crença de que com uma boa pitada de fé, receberá uma “sorte grande”, que o possa levar rumo ao poder, à riqueza e à fama.

Reconhecendo a nossa fragilidade (a carne é fraca) e, em meio ao silêncio do fim de festa desta Segunda Conferência Missionária, só nos resta um pedido a fazer: “Senhor, tende misericórdia de nós. Dai-nos mais coragem e ousadia para sair da apatia dos dias atuais”.








30 outubro 2007

DE VOLTA À TORRE DE BABEL




O fascínio de uma utópica cultura hegemônica, ronda a humanidade desde os tempos mais remotos. Os descendentes de Noé, num primeiro momento, se entendiam através de uma linguagem única, que na tradição judaico-cristã constituiu a primeira forma de pensamento globalizado.

Tomando a construção de uma torre que atingiria os céus, como METÁFORA, iremos entender sobremaneira, as sutilezas que envolvem o dilema do pensamento ocidental frente às outras culturas. Hoje, mais do que nunca, o ocidentalismo tenta ditar regras “universais”, no sentido de impor uma mesma forma de linguagem na convivência entre os povos que têm identidades diversificadas.

Uma pequena reflexão sobre a “Babel” bíblica irá abrir a nossa mente para o óbvio, que é a impossibilidade de sucesso da empreitada daqueles que se arvoram de autores do supostamente “correto e único” em matéria de política e religião.

Para compreendermos melhor o cerne do pensamento global reinante no ocidente, torna-se imperativo reler partes do que está escrito no livro de Gênesis:

“Ora, a terra toda tinha uma só língua, e uma só maneira de falar” ( Gênesis 11:1)

“Disse o Senhor: o povo é um, e todos tem uma só língua. Isto é, o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo que eles intentarem fazer”. (Gênesis 11:06)

“Por isso chamou o seu nome BABEL, porque ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra”. (Gênesis 11:09)

A onipotência de uma só forma de pensar entre as nações seria ousar contra o próprio Deus. O castigo que sobreveio através da “confusão” das línguas, na verdade dera lugar a uma dádiva, que seria a abertura de cada ser humano para o diálogo com o outro ser agora estranho, dono de uma identidade lingüística diferente.

A emblemática frase dos construtores da “Torre que tocaria os céus”: FAÇAMOS UM NOME (Gênesis 11;04), é a mesma que hoje embasa o pensamento hegemônico ocidental. A história está sendo repetida e fadada ao insucesso. O ocidente quer fazer um “Nome” sobre todos os outros, sem se ater para o que há de mais importante na diversidade da linguagem, que é o respeito aos valores dos povos estrangeiros. O mundo ocidental no seu egocentrismo recusa o intercâmbio de idéias e conhecimentos com as outras culturas que lhes são estranhas, esquecendo o que está escrito em Êxodo 22:21: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito”. E o pior: lança como entrave ao diálogo com o diferente, um cristianismo fajuto, que nem de longe lembra o pensamento central da mensagem de Cristo.

Ora, o Cristianismo primitivo, através de suas "boas novas" de que fala o Novo Testamento, imprimiu com marca indelével, o compromisso com a não destruição das identidades dos povos de línguas deferenciadas. Tanto é assim, que no emblemático dia de Pentencoste, os discípulos de Cristo ao serem tomados pelo poder do alto, disseram palavras, cujo teor, os povos de diferentes linguagens, ali ao redor, chegaram a comprender. Aquele acontecimento tornou-se um símbolo de que Deus, doravante, se faria entender no contexto de cada povo, de cada cultura, de cada língua, como bem realça o livro de Atos (2, 9 à 11): "Partos, Medos, Elamitas, os da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia, Panfília, Egito, Libia, Cretenses e Àrabes - todos temos ouvidos em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus".

O que Deus outrora queria mostrar com a diversidade das formas de linguagem, e a pluralidade de pensamentos, no episódio da interrupção da construção da Torre de Babel?

Deus, simplesmente queria que nascesse no coração do homem, o despertar de uma nova forma de convivência, baseada na “singularidade” de cada ser, que é única, e que, como uma impressão digital, não se repete em outro ser. Até dentro de uma mesma comunidade ou grupo familiar, onde se tenta falar uma mesma língua, a singularidade de cada indivíduo na sua transcendência com o divino, é particular, e não pode ser exprimida em palavras. Na maioria das vezes, na tentativa de explicar a nossa interioridade para o outro, somos mal entendidos. Esta é uma das nossas grandes aflições de cada dia: fazer-se entender. Quando não reconhecemos a individualidade particular do outro, expressada em sua peculiar linguagem que nos é estranha, podemos até partir para o acirramento de ânimos.

O aprendizado entre os diferentes é assim mesmo. O nosso interlocutor almeja sempre que correspondamos aos seus desejos. Ele fica feliz ao pensar que somos sua cópia fiel. Ao nos tornarmos cópias, perdemos a nossa identidade, e passamos a viver num estado de alienação, que nos sujeita a depender da consciência do outro, como bem demonstra o Judeu hassídico Martin Buber, nesta construção fraseológica: : “Se eu sou eu porque eu sou eu, e tu és tu porque tu és tu, então eu sou eu e tu és tu. Mas, se eu sou eu porque tu és tu, e tu és tu porque eu sou eu, então nem eu sou eu, nem tu és tu”. Em outras palavras: se eu não posso ser eu, serei apenas um objeto, uma coisa, de que tu tomas posse. Se realmente tu não podes ser tu, serás sempre um objeto, de que tomo posse para depósito dos meus anseios.

A aparente superioridade cultural de um povo, é o maior entrave no aprendizado com as culturas minoritárias. Para o religioso ocidental, torna-se muito mais cômodo transformar o diferente em um seu igual, do que tentar aprender com as diferenças do outro que lhe é estranho. E desta forma vão formando homens-robôs, num proselitismo desenfreado e sem sentido, talvez sonhando em um futuro próximo soerguer uma nova e ilusória TORRE em que todos falem uma mesma língua. Sabemos que a palavra “torre” tem por significado simbólico ─ o “PODER” ─, por isso mesmo, as autoridades das grandes metrópoles procuram mostrar o seu poderio, através de construções de arranha-céus cada vez mais altos. Na verdade esses fenomenais e altíssimos edifícios não passam de uma exteriorização do desejo de “todo poder” que está arraigado no mais remoto recanto da alma humana, vindo à tona, numa espécie de repetição do que ocorreu lá no Gênesis Bíblico.

Por falar em “torres”, os E.U.A. como centro exportador do pensamento globalizado tiveram um dos seus maiores símbolos (as torres gêmeas) destruídos. Ao invés de partir para uma reflexão aprofundada através de uma releitura do Gênesis, reconhecendo à luz das Escrituras, o infrutífero esforço da reedição Babélica, eles açodaram ainda mais os povos de culturas e religiões diferentes. Em meio à tragédia do World Trade Center, ficou famosa a afirmação catastrófica do Presidente Bush: “Quem for contra nós está do lado do mal”. De forma impensada, ele fez ali, no calor da emoção, uma contundente analogia ao que escreveu o existencialista Jean Paul Sartre: “o inferno são os outros”.

O interessante é, que para aplacar a sede de vingança da maior nação cristã do globo, um personagem descendente de Nabucodonozor, chamado Saddam Hussein, foi inapelavelmente caçado para pagar o “pato” ─, logo ele, que nascera ali, bem pertinho da terra onde os herdeiros de Noé atentaram contra o próprio Deus, projetando uma equivocada “Torre” sob uma só língua.

06 outubro 2007

ÉTICA EM POLÍTICA? - FOI UM SONHO, ACABOU



Discorrer sobre ética nos tempos atuais é um exercício extremamente difícil. É como entrar em um terreno movediço, que apesar do esforço empreendido e por mais que se queira, não se consegue sair do arriscado atoleiro.

Como falar em código moral, quando vivemos em um país, cujos dois maiores centros populacionais se tornaram palco de uma verdadeira “guerra civil”, caso do Rio de Janeiro e São Paulo, em que os marginalizados pela sociedade foram obrigados a se organizar como um Estado dentro de outro Estado. Para se ter idéia da gravidade do momento, nessas duas cidades, a violência mata mais do que na atual guerra entre xiitas e sunitas no Iraque. Como falar de ética num país em que o mínimo de direito a uma vida condigna é desrespeitado vergonhosamente e, quando os direitos básicos do cidadão, como saúde, segurança e educação, são espezinhados.

Como médico aposentado, aos sessenta e um anos de idade e trinta e sete de profissão, posso dizer com conhecimento de causa, que vivemos em um país “do faz de conta”. Que nação é essa, em que doenças como a Hanseníase e a Tuberculose grassam por todos os recantos, como nunca se viu, de uma forma que não existia, trinta anos atrás. A “Dengue” que no meu tempo de estudante de medicina, em 1968, nem sequer a estudávamos nos compêndios de medicina, pois não havia necessidade, uma vez que a mesma tinha sido erradicada há décadas, hoje é uma pandemia sem o mínimo controle. Não há recursos para acabar com um simples mosquito, mas há recursos para obras, todas elas superfaturadas, afora dinheiro ilegítimo distribuído aos montes, proveniente de “caixa dois”, que as nossas honradas autoridades políticas, com raras exceções, acham ser uma coisa perfeitamente normal. Esta prática ilegal se tornou uma realidade num país em que a banalização do mal feriu de morte o senso moral e ético que devia nortear todas as consciências, principalmente a consciência dos que legislam para o povo e pelo povo.

Virou uma piada de mau gosto o lema: “Código de Ética e Decoro Parlamentar”. Ultimamente, nobres senadores fizeram das iniciais C.E.D.P: o Código de Espetáculo Deprimente do Parlamento. Em nossas casas, pela “TV Senado”, assistimos nestes últimos dias a um espetáculo espúrio de desrespeito ao cidadão, que trabalha honestamente e ganha com o suor do seu rosto.

Ontem mesmo assistia a uma fria “sessão” de homenagem póstuma a Ulisses Guimarães, numa hora em que se o bom senso prevalecesse ela não teria sido realizada em um recinto, por hora tão ultrajado. O velho Ulisses não merecia tanta falta de consideração. Ainda bem, que na noite seguinte, o “povo de quem Ulisses era escravo” lotou o Maracanã no jogo entre S. Paulo e Flamengo, para num espetáculo respeitoso, belo e emocionante, resgatar de forma inequívoca a memória do velho Timoneiro.

Na TV Senado, ainda tive o desprazer de ouvir dois discursos, que pasmem, foi uma verdadeira sessão de autoflagelação, pois as palavras que saíam da boca daqueles senhores, batiam como se fossem chicotes em suas próprias costas. Se pudesse voltar, o que diria Rui Barbosa ao ver a que ficou reduzida a casa que deveria ser a guardiã dos anseios do povo?

Metaforicamente falando, nada mais resta da cúpula côncava do senado, projetada por Oscar Niemeyer, que pensou, quando da construção de Brasília, “que aquele símbolo retrataria um local propício à reflexão, serenidade, ponderação, equilíbrio, onde pudessem ser valorizados o peso da experiência e o ônus da maturidade”.

Mas foi tudo um sonho. ACABOU.


Ensaio por: Levi B. Santos

Guarabira, 06 de Outubro de 2007

04 outubro 2007

MISTÉRIOS NA NOITE




Eram duas horas e vinte e cinco minutos, quando rompendo o silêncio daquela abafada noite, toca o celular em cima do criado-mudo, onde antes de deitar, ele também punha os óculos e um remédio em gotas para desobstrução nasal.

Despertando do sono, numa súbita reação levantou-se do leito, agarrou o aparelho digital, olhou detidamente o visor: a ligação tinha vindo de sua própria casa, de um telefone fixo que ficava no final do corredor que tinha como início a porta de seu aposento. Notando a ausência da esposa, ao seu lado, ele imediatamente racionalizou: “só pode ter sido ela que discou para o meu aparelho celular”.

Em poucos segundos, já sem um pingo de sono, ele abriu a porta do seu quarto e se surpreendeu ao acender a lâmpada do corredor: lá estava o telefone fixo em seu devido lugar, ninguém o estava usando. Conferiu novamente a chamada no seu aparelho digital, lá estava bem claro: ligação recebida de “casa” às 2:25 de uma sexta-feira que se iniciava. Não demorara nem vinte segundos para realizar todo o movimento de identificação.

Ao invés de atribuir o chamado telefônico ao terreno do sobrenatural, no seu ceticismo, preferiu atribuir tudo a interferências eletromagnéticas de um outro mundo, o mundo digital, e saiu à procura de sua mulher. O silêncio, só cortado de vez em quando pelo cantar dos galos, e latidos dos cães ao longe, era propício ao exercício racional, que faria, na tentativa de arrumar convenientemente as pedras deste quebra-cabeça. Foi neste momento que veio a sua lembrança uma passagem da mitologia grega ─, o famoso “Enigma da Esfinge”, em que o Rei Édipo recebe um ultimato: “Decifra-me ou te devoro!”.

Na caminhada à procura de sua esposa, o que o teria levado, entre outras portas, a abrir justamente àquela do quarto que era reservado aos filhos? “Os meninos", como ele chamava os seus três rapazes, estavam ausentes, residindo na Capital do Estado, distante cerca de cento e quarenta quilômetros. Freud estivesse vivo, daria uma explicação mais ou menos assim para este fenômeno: “o que o levara a girar a maçaneta daquele aposento, teria sido a pulsão instintiva do inconsciente, induzindo-o à realização de um desejo reprimido, que era justamente o anseio de encontrar todos os filhos bem protegidos e dormindo naquele quarto, como em tempos idos acontecia”.

No entanto, em sua mente um pensamento assomava: qualquer pessoa inculta, na sua linguagem simples, diria o mesmo que Freud deduzira cientificamente. Diria mais ou menos assim, com o seu modesto linguajar: “foi o apego aos bichinhos, que fez com que você abrisse a porta do quarto deles”.

Ele agora estava juntando as peças para poder entender o “porquê” de um outro mistério. Ao abrir lentamente a porta do quarto, que era agora dos filhos só nos fins de semana, encontrara sua esposa coberta da cabeça aos pés, ajoelhada junto à cama que era do primogênito. Parecia uma daquelas mulheres árabes, que se vestem com panos longos da cabeça ao chão. Respirando a atmosfera daquele quarto, ele perguntava para si mesmo: estaria ela em genuflexão, a reviver pedaços ou restos da infância perdida dos filhos que saíram de si?

Entendia que era em momentos de transcendência como aqueles, que todos os entes queridos, mesmo os que moram distante, parecem ficar muito próximos em pensamentos. Sendo assim, deduzia que a sua esposa ali naquele quarto, numa devoção solene, poderia estar se sentindo bem pertinho dos filhos, que por muitas noites dormiram e sonharam embalados nos seus cânticos e histórias.

Não sabia porquanto tempo tinha ficado ali, estático, ante a porta entreaberta, observando a sua silhueta na penumbra do quarto vazio, mas ao mesmo tempo cheio de um significante silêncio. Talvez, pensou, ela estivesse sentindo o mesmo que ele. É que tinha vindo naquele instante à memória, os momentos que por tantas vezes partilharam juntos noutras noites insones, em que ora curtiam a algazarra e risos dos filhos, ora preocupavam-se com os choros e gemidos deles, quando estavam enfermos.

Com pés de lã, fechou a porta do quarto e se retirou com o máximo cuidado para não fazer barulho, e não interromper a ligação íntima, que por certo, ela estava experimentando naquele ambiente, exteriormente deserto de sons e de pessoas, porém interiormente rico de sentimentos. Ele não demorou muito para chegar a seguinte conclusão: ali, ajoelhada, estava uma mãe intercedendo pelos filhos, que sabe Deus, estariam nestas horas necessitando de um providencial consolo seu.

Ele já tinha ouvido em várias ocasiões ela falar em “oração de intercessão”. Já tinha presenciado em outras ocasiões, ela levantar do leito nas caladas da noite para fazer este tipo de prece. Ele, às vezes, estranhava aquele ritual, mas ela respondia: “você não sabe o valor que tem a oração de intercessão, ela é poderosa para interferir e evitar que coisas ruins venham acontecer aos nossos”. Falava isso com um tom de voz seguro, que pela janela da alma, que são os olhos, não deixava transparecer sinais de dúvidas.

O sono não chegava. Ele viu em meio à penumbra, ela aparecer sorrateira, e se recolher ao seu cantinho no leito. Depois, observou ao seu lado, ela respirar aliviada, com um ar de satisfação, de quem tinha conseguido algo inefável, e, sem dizer nenhuma palavra, em pouco tempo, estava a dormir profundamente. Numa coisa ela estava em uníssono com ele: era no respeito à grandiosidade significante de um silêncio, que naquele instante não deveria ser quebrado por palavras.

Ele e ela, com certeza pressentiram que em momentos sublimes como aqueles, não havia o que se perguntar, como, também, nada se tinha a responder, até porque a experiência transcendental de cada um, é por si, inexprimível ou indescritível. O silêncio falou mais alto naquela noite, para que a singularidade que varia de ser para ser, fosse preservada.

Depois de algum tempo ele conseguiu por fim apaziguar o sono, certo de que os mistérios da noite são para se curtir no silêncio.

O misterioso toque do seu celular, altas horas da noite, servira de inspiração para uma crônica que escreveria no dia seguinte.

Conto por: Levi B. Santos

Guarabira, 02 de Outubro de 2007

25 setembro 2007

CRISTIANISMO - OU JUDAÍSMO DISFARÇADO?




Uma reflexão sobre o nosso valor máximo, que é a Religião, hoje, se faz necessária, pois vivemos em um mundo de constantes transformações e mutações nos mais diversos campos: da cultura, da ciência, da filosofia e da lingüística, entre outros. Somos um País, na sua grande maioria, “cristão”, divididos entre irmãos católicos e protestantes, que à maneira de duas tribos guerreiras e inimigas, estão a lutar, não com armas físicas, como antigamente se fazia, mas através de uma linguagem rebuscada e revestida de intolerância, que, às vezes, descamba para o emocionalmente agressivo.

Ora, sabemos de antemão, que não há na subjetividade de nossos pensamentos, uma linguagem capaz de definir o Divino. Nenhum homem ou comunidade poderá ter êxito ao pretender encerrar o que é “transcendente” em ritos e dogmas, como afirma com muita propriedade o escritor e estudioso da história das religiões, Roger Garaudy: “Essa auto-suficiência de limitar Deus é a própria negação da transcendência”.

Só realizando uma autocrítica, sem parcialidade, é que vamos entender que o “cristianismo”, desde o primeiro século, sofreu influência de raízes fortes da cultura judaica, grega e romana. Foi assim, que ele pôde sobreviver até os nossos dias. Os Poderes Políticos infiltraram nos ensinamentos de Cristo, suas idéias e seus conceitos. Uma prova disso aconteceu no tempo do Imperador Constantino, quando a igreja cristã foi alçada a religião oficial do Império Romano, e que para isso, teve que ceder em pontos estratégicos de sua doutrina, em troca do amparo legal para seus cultos. A partir daí, a religião e a política passaram a andar juntas. Esqueceram das palavras do Mestre: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

O Judaísmo, apesar de hoje ser professado por um pequeno número de adeptos ─, cerca de três por cento do número de cristãos ─ conseguiu como um fermento, levedar toda a massa religiosa ocidental. De modo que não temos hoje um cristianismo autêntico, e sim um simulacro. A lei mosaica e todo o ritual vétero-testamentário comandam o que se prega hoje, como Evangelho de Cristo. Fala-se então de uma tradição “judaico-cristã”. Para o professor de Humanidades e Ciências da religião da Universidade de Yale “Harold Bloom” (descendente de judeu), esta tradição é uma falácia. No livro: “A mais bela história de Deus”, Hélène Monsacré e Jean Schlegel mencionam a ruptura em relação ao judaísmo provocada pela mensagem, exemplos e comportamento de Jesus, deixando no ar as seguintes perguntas: “Por que Jesus rompeu com sua tradição e seu povo?” “Foi Ele, de fato, quem se afastou do judaísmo ou os primeiros cristãos estão na origem dessa ruptura?”.

Judaísmo e Cristianismo, na verdade, são duas instâncias irreconciliáveis, como bem demonstra o caso De “Saulo de Tarso”, que no zelo pela Lei de Deus, perseguia o próprio Cristo. A primeira vista, Saulo se encontrava diante de um verdadeiro paradoxo, pois no afã de defender o Judaísmo (religião do Pai), perseguia os adeptos do cristianismo (religião do Filho)

“Marc-Alain Ouaknin, rabino, filósofo e professor universitário, afirma que o essencial está na revelação da lei. A ética dos direitos do homem nasceu no Sinai. Desse ponto de vista, o cristianismo nada inventou”. Para ele, no cristianismo, Deus se fez homem. No Judaísmo, Ele se fez texto (Torá).

Ora, se não existe uma cultura “judaico-cristã”, o que há então de religião no mundo ocidental? A resposta será fatalmente esta: o que existe é um judaísmo dúbio revestido com uma capa ilusória, denominada: cristianismo, tendo em vista, que se continua a usar a lei mosaica como instrumento de intolerância e de julgamento, entre os inúmeros “seguidores de Cristo”.

Judaísmo e Cristianismo são antagônicos, desde o tempo do apóstolo Paulo, passando pelas cruzadas, quando se verificaram os primeiros massacres de judeus na Alemanha(1096), em Israel(1099) e na Inglaterra(1188). Segundo Renato Mezan, psicanalista e estudioso da História Judaica, "aqueles acontecimentos fizeram parte de uma barbárie indescritível, que chocou os espíritos civilizados da época, e que tinha como pretexto, recuperar os lugares sagrados, onde se desenrolara a História Sagrada. Foi nessa época que os judeus começaram a ser expulsos dos territórios cristãos, criando-se a figura do ‘judeu errante’. Como expiação pelo assassinato de Cristo, o judeu devia vaguear sem repouso, pelos quatro cantos da terra, até a nova vinda de Cristo.”

Muitos adeptos do cristianismo, ainda hoje, não conseguem se desvincular da influência judaica. Para os seus, prega o amor e perdão; para os de fora prega o jugo da Lei. Assimilaram com o passar do tempo, grande parte da essência da lei mosaica, que sob a forma de uma espada, ainda hoje é usada para excluir aquele que foge de sua doutrina. Em contrapartida, o evangelho de São João, por ser duro contra os judeus, é tido como anátema pelo Judaísmo ortodoxo. Os Judeus de uma maneira geral, não suportam o que está escrito em João 1.17: “Pois a lei foi dada por intermédio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”.

Maria Rita Kehl, escritora e psicanalista, no seu livro "Sobre Ética e Psicanálise" faz uma abordagem interessante sobre a perda da tradição religiosa, afirmando: “a Reforma Protestante criou uma nova relação dos homens com seus semelhantes. Ela veio individualizar a relação dos homens com a palavra de Deus, isto é, com a verdade, tornando-os mais responsáveis pela salvação da alma, ao propor o fim da tutela das autoridades eclesiásticas sobre as manifestações de fé. A quebra do poder absoluto da igreja Católica como detentora da verdade do Pai, possibilitou a emergência de uma multiplicidade de saberes, forçando os homens a uma interpretação pessoal dos textos sagrados A partir daí, o homem é quem decide”. “Onde existe a escolha, a verdade já não é mais UMA”.

Com a emergência do individualismo cristão, o homem ficou mais livre para formar grupos com experiências transcendentais as mais diversas, que numa estranha contradição tornou-se um antivalor, pois a convivência com o diferente trouxe mais problema que solução. A modernidade que veio com a Reforma, decretou a falência das autoridades encarregadas de dizer o que era certo e o que era errado, emancipando o homem para um livre pensar. Esta liberdade trouxe consigo o seu preço: uma infinidade de cultos ao “sagrado” baseado na exclusão do outro semelhante. Estava aberta a porta para os mais mesquinhos sentimentos, que estavam antes recalcados ou reprimidos no inconsciente humano. O maniqueísmo: “do bem está conosco, e o mal está com os outros”, grassou no meio cristão. A partir daí, o cristianismo dá uma grande derrocada, usando os instrumentos da Lei de Moisés, para se impor aos demais. A vingança e o ressentimento passaram a ser a tônica. Amaldiçoar voltou a ser uma palavra muito usada. Nunca se leu tanto o livro de Êxodo, para citar, como exemplo. Não há nada mais atraente para o ser humano, que o desejo de juízo sobre o outro.

A Igreja Católica, a grande prostituta (Babilônia), como passou a ser denominada pelos Protestantes, fez de tudo, para não perder o seu poderio, inclusive, usando dos mesmos meios cruéis contra os insurgentes.

Um dos fatores de maior discórdia entre católicos e protestantes, continua a ser a prática de adoração dos ídolos (imagens de escultura). Para corroborar, esta assertiva, os protestantes recorrem frequentemente a um dos pilares básicos do Judaísmo, citando Êxodo 20.4: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima dos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” Foi justamente este preceito, que fez com que os judeus não se destacassem na arte da pintura e da escultura. Já os cristãos (da Reforma), não se sentem constrangidos em ornamentar os seus templos com imagens da natureza, como: rios, mares, peixes, árvores, sol, estrelas e anjos, etc. Dessa forma, numa espécie de maniqueísmo, obedecem só a primeira parte do versículo (Êxodo 20.4), esquecendo, que as outras representações imaginárias do restante do mandamento, são também proibitivas. Justificam-se, manobrando a Escritura a seu bel prazer.

Por falar em ídolos, direcionemo-nos para a cidade de Éfeso, berço do Filósofo Heráclito, que viveu quinhentos anos antes de Cristo. Foi lá que o apóstolo Paulo, ao contemplar a grande idolatria, dos Efésios, adoradores da grande deusa Diana, promoveu um dos seus grandes embates, contra este tipo de pecado. Interessante, é que Paulo numa lucidez espiritual incomum, ao se dirigir aos habitantes convertidos ao cristianismo, escreveu desta maneira: “Pois bem sabeis isto: Nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo”.( Efesios 5. 5). Paulo, coincidentemente, ou propositadamente, quis mostrar aos ex-idolatras, e agora cristãos de Éfeso, uma outra idolatria, quem sabe, mais perigosa, que nasce no coração do homem. Admoestou-os, pois este tipo de ídolo, por ser sutil, se instala sorrateiramente na mente contaminando os pensamentos. Estes ídolos sim, podem ser comparados a traves nos olhos. Sem que se tome consciência do ídolo interno, se parte para tirar os ciscos (ídolos visíveis) dos olhos dos outros. São estes lampejos de espiritualidade, que nos fazem admirar a sabedoria do apóstolo dos gentios.

O Ph.D em teologia, Russell Norman Champlin, em sua exaustiva e robusta obra de quase cinco mil páginas (“O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo”), nos dá uma elucidação, com base no grego, à respeito da palavra “idólatra” usada por Paulo naquela ocasião: “No Antigo testamento havia alusão direta à adoração idólatra. Quando no Judaísmo posterior, cessou a idolatria aberta, os Rabinos passaram a interpretar esse conceito de forma mais ampla, fazendo-o referir-se a pecados arraigados, sobretudo a cobiça. E tal interpretação é própria, visto que tais pecados, mormente o da cobiça, se entronizam no coração como se fossem ídolos, sempre indicando alguma modalidade de egoísmo, de tal modo, que o próprio eu, é o deus adorado.”

Uma grande corrente de judeus ortodoxos aprisionou Deus em uma instituição, que para vivenciá-Lo, se fazia necessário adotar uma série de rituais, tradições e sacrifícios. Esqueceram que a Sua palavra se tornou errante, exorbitando o espaço exíguo de suas mentes petrificadas. Os horizontes curtos de sua visão, os deixaram sem entender o sentido de um Deus feito homem.

Na atualidade, o que vem causando sensação no meio religioso é a mensagem de certas correntes ditas “cristãs”, que à maneira de um disfarçado judaísmo, enveredaram pelo caminho perigoso da banalização dos símbolos bíblicos. As subdivisões institucionais religiosas que primam por esse filão, são tantas no intuito de abarcar o “sagrado”, que as pobres almas com sede de justiça, se sentem desorientadas, sem saber onde encontrar guarida, ouvindo de todos os lados, mensagens as mais estapafúrdias e inimagináveis, pelo rádio, jornais, televisão e carros de propaganda, que mais parecem a gritaria louca dos camelôs oferecendo os seus produtos, em meio ao tumulto das feiras.

O que se vê hoje, são profissionais da “fé” usando de mil artifícios, a fim de aumentar os seus rebanhos em progressão geométrica. Algumas almas aceitam as “verdades” apelativas, dirigidas a elas através de ameaças apocalípticas. Outras, à procura de alívio para as suas doenças, adquirem tudo que lhes vem às mãos, até sabonetes fabricados com gorduras derretidas de ovelhas de Israel, oferecidas publicamente pelos supostos guardiões de Deus. Areias do deserto da “terra santa” são comercializadas, a fim de ser espalhadas pelos cômodos das casas, para afastar maus fluidos. Frascos com águas do rio Jordão, para pingar entre as pálpebras, a fim de tirar a concupiscência dos olhos, entre outras cavilações, que em respeito aos de boa índole, aqui deixamos de mencionar. Executam, enfim, uma paródia ordinária, deturpando e abusando dos elementos fascinantes do judaísmo arcaico.

É em meio a esta banalização do “sagrado”, que nos vem à lembrança um Cristo indignado a expulsar os vendilhões do templo. Hoje, em analogia ao que ocorria no antigo templo, comercializam réplicas de símbolos judaicos, com supostos poderes de afastar espíritos imundos, à semelhança dos amuletos usados tradicionalmente no mundo pagão.

Este horrendo espetáculo teatral vem transformando o que resta do cristianismo primitivo, em uma mera comédia, que a cada representação, comprova a irreconciliabilidade da mensagem dos evangelhos com os “pressupostos” do Judaísmo ortodoxo.

Ante um mundo que fez da mensagem de Cristo o maior e mais caro espetáculo da terra, aqui fica um conselho de Paulo, em I Timóteo 6.11: “Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas[...]”.


Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 25 de Setembro de 2007

19 setembro 2007

DESTRUIRAM AS NOSSAS "TORRES GÊMEAS"


Os EUA tiveram o seu 11 de setembro há seis anos. Nunca mais se apagará da memória de seu povo, aquele tão monstruoso e covarde atentado contra a DEMOCRACIA.

Nós brasileiros de todas as camadas sociais temos agora o nosso 12 de setembro, que também ficará na História do nosso País, como o dia em que conseguiram destruir o pilar básico (ética e decoro parlamentar), daquela que foi a nossa maior instituição política: o Senado Federal. A casa que deveria ser a maior trincheira na defesa de causas nobres, se dobrou ao insano desejo de locupletar-se através de espúrias tramas tão transparentemente expostas nos meios de comunicação, que provocaram comentários reprovativos até de ministros da alta Corte Federal.

Para quem ainda não sabe, aquelas duas conchas que embelezavam o prédio do Congresso Nacional tinha um significado todo especial. Pela simbologia do projeto do arquiteto Oscar Niemeyer aquelas duas cúpulas representavam o poder e a relação de contrapesos implícita no sistema bicameral. A cúpula convexa da Câmara, maior e aberta no alto, sugeriria que aquele plenário estava aberto direto às ideologias, tendências, anseios e paixões do povo. Já a cúpula côncava do Senado, menor e emborcada, retrataria um local propício para a reflexão, serenidade, ponderação, equilíbrio, onde poderiam ser valorizados o peso da experiência e o ônus da maturidade.

Porém, vejam o que aconteceu recentemente: fizeram da cúpula fechada do senado, um refúgio para se esconderem da vista do povo, a fim de tramarem sordidamente contra a própria República. Simplesmente, eles ratificaram a perda da credibilidade do poder público em todos os níveis, desmoralizando a sociedade brasileira. Os cidadãos, em sua grande maioria vivem eu um mundo de necessidade, que os deixam de certa forma anestesiados, sem ter as mínimas condições de exercer um julgamento racional. Os votos de 11 milhões de famílias que fazem o sucesso do “bolsa família” são usados como massa de manobra para fins eleitoreiros. Como mobilizar uma sociedade que é obrigada a ver com naturalidade este tipo de corporativismo insano, que nada tem de acompanhamento metodológico.

Se, grande parte da população não tem acesso a uma condigna educação, como poderá se submeter a debates sobre ética e valores morais na coisa pública? Como poderá angariar a capacidade de opinar e de escolher com liberdade?

Eles, os senadores ao assassinarem a ética e a moral, deixaram a sociedade órfã, sem poder reagir vigorosamente na cobrança dos governos por soluções drásticas e imediatas que pudessem extinguir esse estado imoral do “toma-lá-dá-cá” do favorecimento ilícito.

Hoje, quando um mar de putrefatos e vis procedimentos, invade a outrora respeitada instituição do senado, não podemos deixar de citar o trecho de um veemente discurso proferido em 1914, em plenário, pelo destemido senador da República Rui Barbosa, que passamos a reproduzi-lo neste triste momento de vergonha nacional:

“A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal de nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo o nosso descrédito é a miséria suprema desta pobre nação”.
“A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem, cresta em flor o espírito dos moços, semeia no coração das gerações que vem nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas”.
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver se agigantarem os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”



14 setembro 2007

INDENIZAÇÃO POR BÊNÇÃO NÃO RECEBIDA




Uma reportagem escrita no jornal “O GLOBO” do dia 11 de setembro do corrente ano, despertou muito a minha atenção, especialmente, por ter o fato inédito ocorrido no nosso “sublime” e obscuro mundo religioso. Como uma “querela” trágico-cômica protagonizada no âmbito da fé, foi parar na mesa de um Tribunal de Justiça?

Vamos aos fatos.

A manchete no topo de uma das páginas do primeiro caderno de O GLOBO, jornal Carioca de maior circulação no País, trazia a seguinte frase: “Justiça manda Igreja devolver dinheiro de fiel”. Logo a seguir vinha o relato pormenorizado em duas grandes colunas, das quais extraí o “miolo” ou essência desse inusitado “bolo” para uma apurada reflexão minha e do leitor(a).

Pasmem:

“A igreja Universal foi condenada a devolver doação de dois mil reais, corrigidos desde janeiro de 1999, feita por um motorista do interior de São Paulo. De acordo com a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, o fiel foi convencido a fazer o que não queria, com a promessa de que sua situação financeira melhoraria se entregasse o que tinha à Igreja. O desembargador relator da ação na quarta Câmara de Direito Privado sentenciou que o aconselhamento acabou por induzir o apelante a sofrer algum tipo de influência, a praticar ato por ele efetivamente não desejado”.

“Anteriormente, em primeira instância o Juiz Carlos Eduardo Lora Franco da primeira vara de General Salgado-SP, não reconheceu o direito do motorista Luciano Rodrigo, de ter o seu dinheiro de volta, por entender que o Pastor não forçou a vítima a fazer a doação. Ele tinha vendido um Del Rei por dois mil e seiscentos reais, entregando dois mil ao dirigente da igreja”.

“No recurso feito à quarta vara, o motorista alegou que a suposta doação não tinha sido espontânea, no que recebeu o aval dos desembargadores da quarta vara. Um dos julgadores sustentou em suas justificações que, se a preocupação da igreja fosse ajudar de fato o fiel a começar uma nova vida, mais próspero, o mais indicado seria que devolvesse o mais rapidamente possível, o dinheiro do arrependido chofer”.

“Por meio de sua assessoria os dirigentes da igreja disseram que vão recorrer da decisão. Cabe recurso. Os assessores jurídicos da instituição estão providenciando as medidas necessárias”.

O leitor, agora é meu convidado para conjeturar sobre quem estará com a verdade: o motorista, ou a Instituição Religiosa?

Como entrar no universo subjetivo e imaginário das vítimas? É difícil. Missão quase impossível.

É doloroso aceitar que em todo esse imbróglio, o nome de Deus se encontre imiscuído como co-participante de uma vil “querela”, uma vez, que só Ele teria o poder de distribuir as benesses ou bênçãos frustradas.

Pergunto eu, caro leitor:

─ Se, na verdade houve falta de fé por parte do fiel, o negócio ou contrato realizado poderia, ou não, ser anulado?

Digamos que o reclamante estava com intenção de realizar um investimento material e nada recebeu de "bônus", não seria o caso de devolver-lhe o principal, isto é, os dois mil reais?

Por outro lado, promessa “divina” não tem tempo estipulado para se realizar. A igreja poderia muito bem valer-se do caso de Sara, esposa do patriarca Abraão, cujo filho da promessa só veio vinte e cinco anos após ter sido proferida a profecia, tendo mais um agravante: o pai dos Hebreus já contava com noventa anos. Olhando por esse ângulo a igreja poderia ganhar no recurso impetrado, pois o reclamante só teve a paciência de esperar por apenas oito anos (de 1999 à 2007).

Já em favor do motorista há um argumento muito forte: não se pode ter uma certeza absoluta de que o Deus da Universal realmente estava a par do negócio efetuado, uma vez que, para esta emblemática comprovação, teria de constar nos autos o depoimento do próprio Deus em pessoa. Além do mais, na sua decisão, o juiz como um bom cristão, fatalmente irá concluir que Deus é Espírito, e Espírito pela Lei não pode depor. O tempo como "senhor da razão", é quem vai dizer. Aguardemos.

De uma coisa eu tenho quase certeza: não seria aceita pelos veneráveis juízes, por ocasião do recurso, uma suposta palavra em nome de Deus, dita pelos pastores, que desta forma estariam se autofavorecendo. Como supostos “servos de Deus” estariam legalmente impedidos de apelar para o seu Senhor (parte interessada) .

Esse processo vai se tornar realmente uma pedreira para os magistrados.

Caso a assessoria jurídica da igreja seja derrotada no seu recurso impetrado, estará aberto um precedente muito perigoso, daí o seu interesse imenso em ganhar a causa. Já pensou: todo aquele que colaborar com o intuito de ser próspero em pouco tempo, e não for atendido, entrar com um processo contra a instituição religiosa a que pertence? Com certeza, a avalanche de processos dilapidaria paulatinamente o patrimônio da denominação religiosa.

Dentre os vários argumentos para a igreja livrar-se desta briga, existe um bastante genial, se alegaria que tudo funcionaria à maneira de uma loteria, como as da Caixa Econômica Federal. Os perdedores, isto é, os de má sorte, não tinham do que reclamar. Citaria-se por cima, o velho ditado popular: “quem não arrisca não petisca”.

Por outro lado, os advogados da igreja poderiam alegar que a contribuição se trataria de uma doação espontânea e não onerosa ─, negócio jurídico em que uma parte cede fração de seu patrimônio em espécie ou não, com liberalidade, sem estipular um benefício em favor do doador. No último caso, ao gemer os últimos estertores, a igreja poderia afirmar que se trataria de uma obrigação de “meio”, e não de “fim”, como a obrigação que o advogado tem de defender uma causa, sem, no entanto, garantir o êxito de determinado direito. Porém, o advogado do motorista poderia se sair muito bem contrapondo-se ao argumento dos defensores da igreja, alegaria que o seu constituinte teria feito com os pastores, um contrato verbal de troca da sua oferta por futuros benefícios, e, realçaria a sua controvérsia com a célebre frase de São Francisco de Assis: “é dando que se recebe”.

Quando coisas desta natureza chegam a acontecer em lugares que deveriam ser sagrados, realmente podemos afirmar como se costuma dizer no meio religioso: “chegamos ao fundo do poço”, na banalização do que deveria ser Divino. Nunca é demais lembrar um fato acontecido há dois mil anos: os evangelhos relatam com cores fortes, a maneira como Jesus entrou decididamente no templo, a fim de expulsar os que usavam o espaço sagrado para trocas comerciais em nome da fé.

Hoje, quando as negociatas em nome de Deus chegam de forma ignominiosa aos Tribunais, é tempo de se indignar e bradar as palavras de Cristo (Marcos 11, 17): “[...] a minha casa será chamada casa de oração para todas as nações! Mas vós a fizestes covil de ladrões”.

Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 14 de setembro de 2007