
Os evangelistas falam de um messias fazendo uso de metáforas para mostrar as nuances profundas do olhar: “Se o teu olho te escandalizar, arranca-o”. Em outra oportunidade, metaforicamente falando, o “mestre-servo” fez ver que o “cisco” que enxergamos nos olhos dos outros, nada mais é que o reflexo da “trave”, que inconscientemente, existe na nossa maneira de olhar.
Leonardo da Vinci, disse: “O olho é a janela da alma, o espelho do mundo”. “É sempre prudente olhar de frente, mas é difícil olhar para mais longe” — disse uma vez, Churchill. “Ah, se eu pudesse entender o que dizem os teus olhos” — Escreveu o poeta e maestro, Tom Jobim.
Dizem os estudiosos da psique que toda forma de olhar é sempre contaminada por valores que foram introjetados em nosso cérebro, durante a nossa formação e, por esse ângulo, não existe um olhar neutro, pois cada olhar carrega em si, o nosso próprio mundo interior com as nuances dos costumes da cultura da qual fazemos parte.
João Batista Cintra Ribas — doutor em Antropologia pela USP, em seu livro “Antropos e Psique” (pág. 92), nos traz uma interessante reflexão sobre a subjetividade do olhar. Diz ele:
“Imagine uma reportagem de TV sobre um roubo seguido de morte da vítima. Três pessoas estão assistindo o programa: um parente da vítima; um militante pelos direitos humanos; um pesquisador das ciências humanas.
Os três enxergarão o mesmo crime de formas deferentes. O parente da vítima, em função da afinidade, possivelmente verá o crime como uma afronta à sua família, e talvez reivindique a pena de morte para o criminoso. O militante, devido ao caráter da militância, possivelmente verá o crime como um problema social e político e, defensor dos direitos humanos, provavelmente não vai propugnar a aplicação da pena de morte. O pesquisador, se for competente, embora se emocione e repudie o crime, terá de se distanciar emocionalmente, para analisar o que aconteceu e, só então, emitir um julgamento Essa imagem mostra com clareza que o pesquisador deve penetrar a realidade para observá-la de perto, mas é imprescindível que se afaste dela por algum tempo, para poder traduzi-la, analisá-la”.
Em analogia ao relato do Antropologista, poderíamos ressaltar o trecho evangelho de João 8:6, onde se pode perceber que Cristo, para emitir um olhar neutro (ou justo), diante dos doutores da lei que tinham decidido apedrejar a mulher adúltera, teve que se afastar por certo tempo, para refletir sobre o caso, reflexão essa, simbolizada pela metáfora: “escrever na areia com o dedo”.
O nosso olhar é realmente limitador, pois não leva em consideração o fator subjetivo que há no outro, não percebe que a imagem que fazemos de um objeto, pessoa ou relação nunca é a coisa em si. Cada sociedade ou cultura tem uma linguagem, uma maneira de olhar o mundo dentro de suas próprias expectativas. Só nos distanciando do lado emocional que envolve as nossas particularidades, é que poderemos enxergar que as águas que banham as diversas culturas, não estão turvas. Turvos permanecerão os nossos olhos se não forem constantemente reciclados para olhar e permitir admirar-se com o que vê no outro, que apesar de possuir códigos simbólicos diferentes em sua visão de mundo, não deixam de desfrutar da mesma relação transcendental.
Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de maio de 2011










