30 outubro 2007

DE VOLTA À TORRE DE BABEL




O fascínio de uma utópica cultura hegemônica, ronda a humanidade desde os tempos mais remotos. Os descendentes de Noé, num primeiro momento, se entendiam através de uma linguagem única, que na tradição judaico-cristã constituiu a primeira forma de pensamento globalizado.

Tomando a construção de uma torre que atingiria os céus, como METÁFORA, iremos entender sobremaneira, as sutilezas que envolvem o dilema do pensamento ocidental frente às outras culturas. Hoje, mais do que nunca, o ocidentalismo tenta ditar regras “universais”, no sentido de impor uma mesma forma de linguagem na convivência entre os povos que têm identidades diversificadas.

Uma pequena reflexão sobre a “Babel” bíblica irá abrir a nossa mente para o óbvio, que é a impossibilidade de sucesso da empreitada daqueles que se arvoram de autores do supostamente “correto e único” em matéria de política e religião.

Para compreendermos melhor o cerne do pensamento global reinante no ocidente, torna-se imperativo reler partes do que está escrito no livro de Gênesis:

“Ora, a terra toda tinha uma só língua, e uma só maneira de falar” ( Gênesis 11:1)

“Disse o Senhor: o povo é um, e todos tem uma só língua. Isto é, o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo que eles intentarem fazer”. (Gênesis 11:06)

“Por isso chamou o seu nome BABEL, porque ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra”. (Gênesis 11:09)

A onipotência de uma só forma de pensar entre as nações seria ousar contra o próprio Deus. O castigo que sobreveio através da “confusão” das línguas, na verdade dera lugar a uma dádiva, que seria a abertura de cada ser humano para o diálogo com o outro ser agora estranho, dono de uma identidade lingüística diferente.

A emblemática frase dos construtores da “Torre que tocaria os céus”: FAÇAMOS UM NOME (Gênesis 11;04), é a mesma que hoje embasa o pensamento hegemônico ocidental. A história está sendo repetida e fadada ao insucesso. O ocidente quer fazer um “Nome” sobre todos os outros, sem se ater para o que há de mais importante na diversidade da linguagem, que é o respeito aos valores dos povos estrangeiros. O mundo ocidental no seu egocentrismo recusa o intercâmbio de idéias e conhecimentos com as outras culturas que lhes são estranhas, esquecendo o que está escrito em Êxodo 22:21: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito”. E o pior: lança como entrave ao diálogo com o diferente, um cristianismo fajuto, que nem de longe lembra o pensamento central da mensagem de Cristo.

Ora, o Cristianismo primitivo, através de suas "boas novas" de que fala o Novo Testamento, imprimiu com marca indelével, o compromisso com a não destruição das identidades dos povos de línguas deferenciadas. Tanto é assim, que no emblemático dia de Pentencoste, os discípulos de Cristo ao serem tomados pelo poder do alto, disseram palavras, cujo teor, os povos de diferentes linguagens, ali ao redor, chegaram a comprender. Aquele acontecimento tornou-se um símbolo de que Deus, doravante, se faria entender no contexto de cada povo, de cada cultura, de cada língua, como bem realça o livro de Atos (2, 9 à 11): "Partos, Medos, Elamitas, os da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia, Panfília, Egito, Libia, Cretenses e Àrabes - todos temos ouvidos em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus".

O que Deus outrora queria mostrar com a diversidade das formas de linguagem, e a pluralidade de pensamentos, no episódio da interrupção da construção da Torre de Babel?

Deus, simplesmente queria que nascesse no coração do homem, o despertar de uma nova forma de convivência, baseada na “singularidade” de cada ser, que é única, e que, como uma impressão digital, não se repete em outro ser. Até dentro de uma mesma comunidade ou grupo familiar, onde se tenta falar uma mesma língua, a singularidade de cada indivíduo na sua transcendência com o divino, é particular, e não pode ser exprimida em palavras. Na maioria das vezes, na tentativa de explicar a nossa interioridade para o outro, somos mal entendidos. Esta é uma das nossas grandes aflições de cada dia: fazer-se entender. Quando não reconhecemos a individualidade particular do outro, expressada em sua peculiar linguagem que nos é estranha, podemos até partir para o acirramento de ânimos.

O aprendizado entre os diferentes é assim mesmo. O nosso interlocutor almeja sempre que correspondamos aos seus desejos. Ele fica feliz ao pensar que somos sua cópia fiel. Ao nos tornarmos cópias, perdemos a nossa identidade, e passamos a viver num estado de alienação, que nos sujeita a depender da consciência do outro, como bem demonstra o Judeu hassídico Martin Buber, nesta construção fraseológica: : “Se eu sou eu porque eu sou eu, e tu és tu porque tu és tu, então eu sou eu e tu és tu. Mas, se eu sou eu porque tu és tu, e tu és tu porque eu sou eu, então nem eu sou eu, nem tu és tu”. Em outras palavras: se eu não posso ser eu, serei apenas um objeto, uma coisa, de que tu tomas posse. Se realmente tu não podes ser tu, serás sempre um objeto, de que tomo posse para depósito dos meus anseios.

A aparente superioridade cultural de um povo, é o maior entrave no aprendizado com as culturas minoritárias. Para o religioso ocidental, torna-se muito mais cômodo transformar o diferente em um seu igual, do que tentar aprender com as diferenças do outro que lhe é estranho. E desta forma vão formando homens-robôs, num proselitismo desenfreado e sem sentido, talvez sonhando em um futuro próximo soerguer uma nova e ilusória TORRE em que todos falem uma mesma língua. Sabemos que a palavra “torre” tem por significado simbólico ─ o “PODER” ─, por isso mesmo, as autoridades das grandes metrópoles procuram mostrar o seu poderio, através de construções de arranha-céus cada vez mais altos. Na verdade esses fenomenais e altíssimos edifícios não passam de uma exteriorização do desejo de “todo poder” que está arraigado no mais remoto recanto da alma humana, vindo à tona, numa espécie de repetição do que ocorreu lá no Gênesis Bíblico.

Por falar em “torres”, os E.U.A. como centro exportador do pensamento globalizado tiveram um dos seus maiores símbolos (as torres gêmeas) destruídos. Ao invés de partir para uma reflexão aprofundada através de uma releitura do Gênesis, reconhecendo à luz das Escrituras, o infrutífero esforço da reedição Babélica, eles açodaram ainda mais os povos de culturas e religiões diferentes. Em meio à tragédia do World Trade Center, ficou famosa a afirmação catastrófica do Presidente Bush: “Quem for contra nós está do lado do mal”. De forma impensada, ele fez ali, no calor da emoção, uma contundente analogia ao que escreveu o existencialista Jean Paul Sartre: “o inferno são os outros”.

O interessante é, que para aplacar a sede de vingança da maior nação cristã do globo, um personagem descendente de Nabucodonozor, chamado Saddam Hussein, foi inapelavelmente caçado para pagar o “pato” ─, logo ele, que nascera ali, bem pertinho da terra onde os herdeiros de Noé atentaram contra o próprio Deus, projetando uma equivocada “Torre” sob uma só língua.

06 outubro 2007

ÉTICA EM POLÍTICA? - FOI UM SONHO, ACABOU



Discorrer sobre ética nos tempos atuais é um exercício extremamente difícil. É como entrar em um terreno movediço, que apesar do esforço empreendido e por mais que se queira, não se consegue sair do arriscado atoleiro.

Como falar em código moral, quando vivemos em um país, cujos dois maiores centros populacionais se tornaram palco de uma verdadeira “guerra civil”, caso do Rio de Janeiro e São Paulo, em que os marginalizados pela sociedade foram obrigados a se organizar como um Estado dentro de outro Estado. Para se ter idéia da gravidade do momento, nessas duas cidades, a violência mata mais do que na atual guerra entre xiitas e sunitas no Iraque. Como falar de ética num país em que o mínimo de direito a uma vida condigna é desrespeitado vergonhosamente e, quando os direitos básicos do cidadão, como saúde, segurança e educação, são espezinhados.

Como médico aposentado, aos sessenta e um anos de idade e trinta e sete de profissão, posso dizer com conhecimento de causa, que vivemos em um país “do faz de conta”. Que nação é essa, em que doenças como a Hanseníase e a Tuberculose grassam por todos os recantos, como nunca se viu, de uma forma que não existia, trinta anos atrás. A “Dengue” que no meu tempo de estudante de medicina, em 1968, nem sequer a estudávamos nos compêndios de medicina, pois não havia necessidade, uma vez que a mesma tinha sido erradicada há décadas, hoje é uma pandemia sem o mínimo controle. Não há recursos para acabar com um simples mosquito, mas há recursos para obras, todas elas superfaturadas, afora dinheiro ilegítimo distribuído aos montes, proveniente de “caixa dois”, que as nossas honradas autoridades políticas, com raras exceções, acham ser uma coisa perfeitamente normal. Esta prática ilegal se tornou uma realidade num país em que a banalização do mal feriu de morte o senso moral e ético que devia nortear todas as consciências, principalmente a consciência dos que legislam para o povo e pelo povo.

Virou uma piada de mau gosto o lema: “Código de Ética e Decoro Parlamentar”. Ultimamente, nobres senadores fizeram das iniciais C.E.D.P: o Código de Espetáculo Deprimente do Parlamento. Em nossas casas, pela “TV Senado”, assistimos nestes últimos dias a um espetáculo espúrio de desrespeito ao cidadão, que trabalha honestamente e ganha com o suor do seu rosto.

Ontem mesmo assistia a uma fria “sessão” de homenagem póstuma a Ulisses Guimarães, numa hora em que se o bom senso prevalecesse ela não teria sido realizada em um recinto, por hora tão ultrajado. O velho Ulisses não merecia tanta falta de consideração. Ainda bem, que na noite seguinte, o “povo de quem Ulisses era escravo” lotou o Maracanã no jogo entre S. Paulo e Flamengo, para num espetáculo respeitoso, belo e emocionante, resgatar de forma inequívoca a memória do velho Timoneiro.

Na TV Senado, ainda tive o desprazer de ouvir dois discursos, que pasmem, foi uma verdadeira sessão de autoflagelação, pois as palavras que saíam da boca daqueles senhores, batiam como se fossem chicotes em suas próprias costas. Se pudesse voltar, o que diria Rui Barbosa ao ver a que ficou reduzida a casa que deveria ser a guardiã dos anseios do povo?

Metaforicamente falando, nada mais resta da cúpula côncava do senado, projetada por Oscar Niemeyer, que pensou, quando da construção de Brasília, “que aquele símbolo retrataria um local propício à reflexão, serenidade, ponderação, equilíbrio, onde pudessem ser valorizados o peso da experiência e o ônus da maturidade”.

Mas foi tudo um sonho. ACABOU.


Ensaio por: Levi B. Santos

Guarabira, 06 de Outubro de 2007

04 outubro 2007

MISTÉRIOS NA NOITE




Eram duas horas e vinte e cinco minutos, quando rompendo o silêncio daquela abafada noite, toca o celular em cima do criado-mudo, onde antes de deitar, ele também punha os óculos e um remédio em gotas para desobstrução nasal.

Despertando do sono, numa súbita reação levantou-se do leito, agarrou o aparelho digital, olhou detidamente o visor: a ligação tinha vindo de sua própria casa, de um telefone fixo que ficava no final do corredor que tinha como início a porta de seu aposento. Notando a ausência da esposa, ao seu lado, ele imediatamente racionalizou: “só pode ter sido ela que discou para o meu aparelho celular”.

Em poucos segundos, já sem um pingo de sono, ele abriu a porta do seu quarto e se surpreendeu ao acender a lâmpada do corredor: lá estava o telefone fixo em seu devido lugar, ninguém o estava usando. Conferiu novamente a chamada no seu aparelho digital, lá estava bem claro: ligação recebida de “casa” às 2:25 de uma sexta-feira que se iniciava. Não demorara nem vinte segundos para realizar todo o movimento de identificação.

Ao invés de atribuir o chamado telefônico ao terreno do sobrenatural, no seu ceticismo, preferiu atribuir tudo a interferências eletromagnéticas de um outro mundo, o mundo digital, e saiu à procura de sua mulher. O silêncio, só cortado de vez em quando pelo cantar dos galos, e latidos dos cães ao longe, era propício ao exercício racional, que faria, na tentativa de arrumar convenientemente as pedras deste quebra-cabeça. Foi neste momento que veio a sua lembrança uma passagem da mitologia grega ─, o famoso “Enigma da Esfinge”, em que o Rei Édipo recebe um ultimato: “Decifra-me ou te devoro!”.

Na caminhada à procura de sua esposa, o que o teria levado, entre outras portas, a abrir justamente àquela do quarto que era reservado aos filhos? “Os meninos", como ele chamava os seus três rapazes, estavam ausentes, residindo na Capital do Estado, distante cerca de cento e quarenta quilômetros. Freud estivesse vivo, daria uma explicação mais ou menos assim para este fenômeno: “o que o levara a girar a maçaneta daquele aposento, teria sido a pulsão instintiva do inconsciente, induzindo-o à realização de um desejo reprimido, que era justamente o anseio de encontrar todos os filhos bem protegidos e dormindo naquele quarto, como em tempos idos acontecia”.

No entanto, em sua mente um pensamento assomava: qualquer pessoa inculta, na sua linguagem simples, diria o mesmo que Freud deduzira cientificamente. Diria mais ou menos assim, com o seu modesto linguajar: “foi o apego aos bichinhos, que fez com que você abrisse a porta do quarto deles”.

Ele agora estava juntando as peças para poder entender o “porquê” de um outro mistério. Ao abrir lentamente a porta do quarto, que era agora dos filhos só nos fins de semana, encontrara sua esposa coberta da cabeça aos pés, ajoelhada junto à cama que era do primogênito. Parecia uma daquelas mulheres árabes, que se vestem com panos longos da cabeça ao chão. Respirando a atmosfera daquele quarto, ele perguntava para si mesmo: estaria ela em genuflexão, a reviver pedaços ou restos da infância perdida dos filhos que saíram de si?

Entendia que era em momentos de transcendência como aqueles, que todos os entes queridos, mesmo os que moram distante, parecem ficar muito próximos em pensamentos. Sendo assim, deduzia que a sua esposa ali naquele quarto, numa devoção solene, poderia estar se sentindo bem pertinho dos filhos, que por muitas noites dormiram e sonharam embalados nos seus cânticos e histórias.

Não sabia porquanto tempo tinha ficado ali, estático, ante a porta entreaberta, observando a sua silhueta na penumbra do quarto vazio, mas ao mesmo tempo cheio de um significante silêncio. Talvez, pensou, ela estivesse sentindo o mesmo que ele. É que tinha vindo naquele instante à memória, os momentos que por tantas vezes partilharam juntos noutras noites insones, em que ora curtiam a algazarra e risos dos filhos, ora preocupavam-se com os choros e gemidos deles, quando estavam enfermos.

Com pés de lã, fechou a porta do quarto e se retirou com o máximo cuidado para não fazer barulho, e não interromper a ligação íntima, que por certo, ela estava experimentando naquele ambiente, exteriormente deserto de sons e de pessoas, porém interiormente rico de sentimentos. Ele não demorou muito para chegar a seguinte conclusão: ali, ajoelhada, estava uma mãe intercedendo pelos filhos, que sabe Deus, estariam nestas horas necessitando de um providencial consolo seu.

Ele já tinha ouvido em várias ocasiões ela falar em “oração de intercessão”. Já tinha presenciado em outras ocasiões, ela levantar do leito nas caladas da noite para fazer este tipo de prece. Ele, às vezes, estranhava aquele ritual, mas ela respondia: “você não sabe o valor que tem a oração de intercessão, ela é poderosa para interferir e evitar que coisas ruins venham acontecer aos nossos”. Falava isso com um tom de voz seguro, que pela janela da alma, que são os olhos, não deixava transparecer sinais de dúvidas.

O sono não chegava. Ele viu em meio à penumbra, ela aparecer sorrateira, e se recolher ao seu cantinho no leito. Depois, observou ao seu lado, ela respirar aliviada, com um ar de satisfação, de quem tinha conseguido algo inefável, e, sem dizer nenhuma palavra, em pouco tempo, estava a dormir profundamente. Numa coisa ela estava em uníssono com ele: era no respeito à grandiosidade significante de um silêncio, que naquele instante não deveria ser quebrado por palavras.

Ele e ela, com certeza pressentiram que em momentos sublimes como aqueles, não havia o que se perguntar, como, também, nada se tinha a responder, até porque a experiência transcendental de cada um, é por si, inexprimível ou indescritível. O silêncio falou mais alto naquela noite, para que a singularidade que varia de ser para ser, fosse preservada.

Depois de algum tempo ele conseguiu por fim apaziguar o sono, certo de que os mistérios da noite são para se curtir no silêncio.

O misterioso toque do seu celular, altas horas da noite, servira de inspiração para uma crônica que escreveria no dia seguinte.

Conto por: Levi B. Santos

Guarabira, 02 de Outubro de 2007

25 setembro 2007

CRISTIANISMO - OU JUDAÍSMO DISFARÇADO?




Uma reflexão sobre o nosso valor máximo, que é a Religião, hoje, se faz necessária, pois vivemos em um mundo de constantes transformações e mutações nos mais diversos campos: da cultura, da ciência, da filosofia e da lingüística, entre outros. Somos um País, na sua grande maioria, “cristão”, divididos entre irmãos católicos e protestantes, que à maneira de duas tribos guerreiras e inimigas, estão a lutar, não com armas físicas, como antigamente se fazia, mas através de uma linguagem rebuscada e revestida de intolerância, que, às vezes, descamba para o emocionalmente agressivo.

Ora, sabemos de antemão, que não há na subjetividade de nossos pensamentos, uma linguagem capaz de definir o Divino. Nenhum homem ou comunidade poderá ter êxito ao pretender encerrar o que é “transcendente” em ritos e dogmas, como afirma com muita propriedade o escritor e estudioso da história das religiões, Roger Garaudy: “Essa auto-suficiência de limitar Deus é a própria negação da transcendência”.

Só realizando uma autocrítica, sem parcialidade, é que vamos entender que o “cristianismo”, desde o primeiro século, sofreu influência de raízes fortes da cultura judaica, grega e romana. Foi assim, que ele pôde sobreviver até os nossos dias. Os Poderes Políticos infiltraram nos ensinamentos de Cristo, suas idéias e seus conceitos. Uma prova disso aconteceu no tempo do Imperador Constantino, quando a igreja cristã foi alçada a religião oficial do Império Romano, e que para isso, teve que ceder em pontos estratégicos de sua doutrina, em troca do amparo legal para seus cultos. A partir daí, a religião e a política passaram a andar juntas. Esqueceram das palavras do Mestre: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

O Judaísmo, apesar de hoje ser professado por um pequeno número de adeptos ─, cerca de três por cento do número de cristãos ─ conseguiu como um fermento, levedar toda a massa religiosa ocidental. De modo que não temos hoje um cristianismo autêntico, e sim um simulacro. A lei mosaica e todo o ritual vétero-testamentário comandam o que se prega hoje, como Evangelho de Cristo. Fala-se então de uma tradição “judaico-cristã”. Para o professor de Humanidades e Ciências da religião da Universidade de Yale “Harold Bloom” (descendente de judeu), esta tradição é uma falácia. No livro: “A mais bela história de Deus”, Hélène Monsacré e Jean Schlegel mencionam a ruptura em relação ao judaísmo provocada pela mensagem, exemplos e comportamento de Jesus, deixando no ar as seguintes perguntas: “Por que Jesus rompeu com sua tradição e seu povo?” “Foi Ele, de fato, quem se afastou do judaísmo ou os primeiros cristãos estão na origem dessa ruptura?”.

Judaísmo e Cristianismo, na verdade, são duas instâncias irreconciliáveis, como bem demonstra o caso De “Saulo de Tarso”, que no zelo pela Lei de Deus, perseguia o próprio Cristo. A primeira vista, Saulo se encontrava diante de um verdadeiro paradoxo, pois no afã de defender o Judaísmo (religião do Pai), perseguia os adeptos do cristianismo (religião do Filho)

“Marc-Alain Ouaknin, rabino, filósofo e professor universitário, afirma que o essencial está na revelação da lei. A ética dos direitos do homem nasceu no Sinai. Desse ponto de vista, o cristianismo nada inventou”. Para ele, no cristianismo, Deus se fez homem. No Judaísmo, Ele se fez texto (Torá).

Ora, se não existe uma cultura “judaico-cristã”, o que há então de religião no mundo ocidental? A resposta será fatalmente esta: o que existe é um judaísmo dúbio revestido com uma capa ilusória, denominada: cristianismo, tendo em vista, que se continua a usar a lei mosaica como instrumento de intolerância e de julgamento, entre os inúmeros “seguidores de Cristo”.

Judaísmo e Cristianismo são antagônicos, desde o tempo do apóstolo Paulo, passando pelas cruzadas, quando se verificaram os primeiros massacres de judeus na Alemanha(1096), em Israel(1099) e na Inglaterra(1188). Segundo Renato Mezan, psicanalista e estudioso da História Judaica, "aqueles acontecimentos fizeram parte de uma barbárie indescritível, que chocou os espíritos civilizados da época, e que tinha como pretexto, recuperar os lugares sagrados, onde se desenrolara a História Sagrada. Foi nessa época que os judeus começaram a ser expulsos dos territórios cristãos, criando-se a figura do ‘judeu errante’. Como expiação pelo assassinato de Cristo, o judeu devia vaguear sem repouso, pelos quatro cantos da terra, até a nova vinda de Cristo.”

Muitos adeptos do cristianismo, ainda hoje, não conseguem se desvincular da influência judaica. Para os seus, prega o amor e perdão; para os de fora prega o jugo da Lei. Assimilaram com o passar do tempo, grande parte da essência da lei mosaica, que sob a forma de uma espada, ainda hoje é usada para excluir aquele que foge de sua doutrina. Em contrapartida, o evangelho de São João, por ser duro contra os judeus, é tido como anátema pelo Judaísmo ortodoxo. Os Judeus de uma maneira geral, não suportam o que está escrito em João 1.17: “Pois a lei foi dada por intermédio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”.

Maria Rita Kehl, escritora e psicanalista, no seu livro "Sobre Ética e Psicanálise" faz uma abordagem interessante sobre a perda da tradição religiosa, afirmando: “a Reforma Protestante criou uma nova relação dos homens com seus semelhantes. Ela veio individualizar a relação dos homens com a palavra de Deus, isto é, com a verdade, tornando-os mais responsáveis pela salvação da alma, ao propor o fim da tutela das autoridades eclesiásticas sobre as manifestações de fé. A quebra do poder absoluto da igreja Católica como detentora da verdade do Pai, possibilitou a emergência de uma multiplicidade de saberes, forçando os homens a uma interpretação pessoal dos textos sagrados A partir daí, o homem é quem decide”. “Onde existe a escolha, a verdade já não é mais UMA”.

Com a emergência do individualismo cristão, o homem ficou mais livre para formar grupos com experiências transcendentais as mais diversas, que numa estranha contradição tornou-se um antivalor, pois a convivência com o diferente trouxe mais problema que solução. A modernidade que veio com a Reforma, decretou a falência das autoridades encarregadas de dizer o que era certo e o que era errado, emancipando o homem para um livre pensar. Esta liberdade trouxe consigo o seu preço: uma infinidade de cultos ao “sagrado” baseado na exclusão do outro semelhante. Estava aberta a porta para os mais mesquinhos sentimentos, que estavam antes recalcados ou reprimidos no inconsciente humano. O maniqueísmo: “do bem está conosco, e o mal está com os outros”, grassou no meio cristão. A partir daí, o cristianismo dá uma grande derrocada, usando os instrumentos da Lei de Moisés, para se impor aos demais. A vingança e o ressentimento passaram a ser a tônica. Amaldiçoar voltou a ser uma palavra muito usada. Nunca se leu tanto o livro de Êxodo, para citar, como exemplo. Não há nada mais atraente para o ser humano, que o desejo de juízo sobre o outro.

A Igreja Católica, a grande prostituta (Babilônia), como passou a ser denominada pelos Protestantes, fez de tudo, para não perder o seu poderio, inclusive, usando dos mesmos meios cruéis contra os insurgentes.

Um dos fatores de maior discórdia entre católicos e protestantes, continua a ser a prática de adoração dos ídolos (imagens de escultura). Para corroborar, esta assertiva, os protestantes recorrem frequentemente a um dos pilares básicos do Judaísmo, citando Êxodo 20.4: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima dos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” Foi justamente este preceito, que fez com que os judeus não se destacassem na arte da pintura e da escultura. Já os cristãos (da Reforma), não se sentem constrangidos em ornamentar os seus templos com imagens da natureza, como: rios, mares, peixes, árvores, sol, estrelas e anjos, etc. Dessa forma, numa espécie de maniqueísmo, obedecem só a primeira parte do versículo (Êxodo 20.4), esquecendo, que as outras representações imaginárias do restante do mandamento, são também proibitivas. Justificam-se, manobrando a Escritura a seu bel prazer.

Por falar em ídolos, direcionemo-nos para a cidade de Éfeso, berço do Filósofo Heráclito, que viveu quinhentos anos antes de Cristo. Foi lá que o apóstolo Paulo, ao contemplar a grande idolatria, dos Efésios, adoradores da grande deusa Diana, promoveu um dos seus grandes embates, contra este tipo de pecado. Interessante, é que Paulo numa lucidez espiritual incomum, ao se dirigir aos habitantes convertidos ao cristianismo, escreveu desta maneira: “Pois bem sabeis isto: Nenhum devasso, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo”.( Efesios 5. 5). Paulo, coincidentemente, ou propositadamente, quis mostrar aos ex-idolatras, e agora cristãos de Éfeso, uma outra idolatria, quem sabe, mais perigosa, que nasce no coração do homem. Admoestou-os, pois este tipo de ídolo, por ser sutil, se instala sorrateiramente na mente contaminando os pensamentos. Estes ídolos sim, podem ser comparados a traves nos olhos. Sem que se tome consciência do ídolo interno, se parte para tirar os ciscos (ídolos visíveis) dos olhos dos outros. São estes lampejos de espiritualidade, que nos fazem admirar a sabedoria do apóstolo dos gentios.

O Ph.D em teologia, Russell Norman Champlin, em sua exaustiva e robusta obra de quase cinco mil páginas (“O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo”), nos dá uma elucidação, com base no grego, à respeito da palavra “idólatra” usada por Paulo naquela ocasião: “No Antigo testamento havia alusão direta à adoração idólatra. Quando no Judaísmo posterior, cessou a idolatria aberta, os Rabinos passaram a interpretar esse conceito de forma mais ampla, fazendo-o referir-se a pecados arraigados, sobretudo a cobiça. E tal interpretação é própria, visto que tais pecados, mormente o da cobiça, se entronizam no coração como se fossem ídolos, sempre indicando alguma modalidade de egoísmo, de tal modo, que o próprio eu, é o deus adorado.”

Uma grande corrente de judeus ortodoxos aprisionou Deus em uma instituição, que para vivenciá-Lo, se fazia necessário adotar uma série de rituais, tradições e sacrifícios. Esqueceram que a Sua palavra se tornou errante, exorbitando o espaço exíguo de suas mentes petrificadas. Os horizontes curtos de sua visão, os deixaram sem entender o sentido de um Deus feito homem.

Na atualidade, o que vem causando sensação no meio religioso é a mensagem de certas correntes ditas “cristãs”, que à maneira de um disfarçado judaísmo, enveredaram pelo caminho perigoso da banalização dos símbolos bíblicos. As subdivisões institucionais religiosas que primam por esse filão, são tantas no intuito de abarcar o “sagrado”, que as pobres almas com sede de justiça, se sentem desorientadas, sem saber onde encontrar guarida, ouvindo de todos os lados, mensagens as mais estapafúrdias e inimagináveis, pelo rádio, jornais, televisão e carros de propaganda, que mais parecem a gritaria louca dos camelôs oferecendo os seus produtos, em meio ao tumulto das feiras.

O que se vê hoje, são profissionais da “fé” usando de mil artifícios, a fim de aumentar os seus rebanhos em progressão geométrica. Algumas almas aceitam as “verdades” apelativas, dirigidas a elas através de ameaças apocalípticas. Outras, à procura de alívio para as suas doenças, adquirem tudo que lhes vem às mãos, até sabonetes fabricados com gorduras derretidas de ovelhas de Israel, oferecidas publicamente pelos supostos guardiões de Deus. Areias do deserto da “terra santa” são comercializadas, a fim de ser espalhadas pelos cômodos das casas, para afastar maus fluidos. Frascos com águas do rio Jordão, para pingar entre as pálpebras, a fim de tirar a concupiscência dos olhos, entre outras cavilações, que em respeito aos de boa índole, aqui deixamos de mencionar. Executam, enfim, uma paródia ordinária, deturpando e abusando dos elementos fascinantes do judaísmo arcaico.

É em meio a esta banalização do “sagrado”, que nos vem à lembrança um Cristo indignado a expulsar os vendilhões do templo. Hoje, em analogia ao que ocorria no antigo templo, comercializam réplicas de símbolos judaicos, com supostos poderes de afastar espíritos imundos, à semelhança dos amuletos usados tradicionalmente no mundo pagão.

Este horrendo espetáculo teatral vem transformando o que resta do cristianismo primitivo, em uma mera comédia, que a cada representação, comprova a irreconciliabilidade da mensagem dos evangelhos com os “pressupostos” do Judaísmo ortodoxo.

Ante um mundo que fez da mensagem de Cristo o maior e mais caro espetáculo da terra, aqui fica um conselho de Paulo, em I Timóteo 6.11: “Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas[...]”.


Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 25 de Setembro de 2007

19 setembro 2007

DESTRUIRAM AS NOSSAS "TORRES GÊMEAS"


Os EUA tiveram o seu 11 de setembro há seis anos. Nunca mais se apagará da memória de seu povo, aquele tão monstruoso e covarde atentado contra a DEMOCRACIA.

Nós brasileiros de todas as camadas sociais temos agora o nosso 12 de setembro, que também ficará na História do nosso País, como o dia em que conseguiram destruir o pilar básico (ética e decoro parlamentar), daquela que foi a nossa maior instituição política: o Senado Federal. A casa que deveria ser a maior trincheira na defesa de causas nobres, se dobrou ao insano desejo de locupletar-se através de espúrias tramas tão transparentemente expostas nos meios de comunicação, que provocaram comentários reprovativos até de ministros da alta Corte Federal.

Para quem ainda não sabe, aquelas duas conchas que embelezavam o prédio do Congresso Nacional tinha um significado todo especial. Pela simbologia do projeto do arquiteto Oscar Niemeyer aquelas duas cúpulas representavam o poder e a relação de contrapesos implícita no sistema bicameral. A cúpula convexa da Câmara, maior e aberta no alto, sugeriria que aquele plenário estava aberto direto às ideologias, tendências, anseios e paixões do povo. Já a cúpula côncava do Senado, menor e emborcada, retrataria um local propício para a reflexão, serenidade, ponderação, equilíbrio, onde poderiam ser valorizados o peso da experiência e o ônus da maturidade.

Porém, vejam o que aconteceu recentemente: fizeram da cúpula fechada do senado, um refúgio para se esconderem da vista do povo, a fim de tramarem sordidamente contra a própria República. Simplesmente, eles ratificaram a perda da credibilidade do poder público em todos os níveis, desmoralizando a sociedade brasileira. Os cidadãos, em sua grande maioria vivem eu um mundo de necessidade, que os deixam de certa forma anestesiados, sem ter as mínimas condições de exercer um julgamento racional. Os votos de 11 milhões de famílias que fazem o sucesso do “bolsa família” são usados como massa de manobra para fins eleitoreiros. Como mobilizar uma sociedade que é obrigada a ver com naturalidade este tipo de corporativismo insano, que nada tem de acompanhamento metodológico.

Se, grande parte da população não tem acesso a uma condigna educação, como poderá se submeter a debates sobre ética e valores morais na coisa pública? Como poderá angariar a capacidade de opinar e de escolher com liberdade?

Eles, os senadores ao assassinarem a ética e a moral, deixaram a sociedade órfã, sem poder reagir vigorosamente na cobrança dos governos por soluções drásticas e imediatas que pudessem extinguir esse estado imoral do “toma-lá-dá-cá” do favorecimento ilícito.

Hoje, quando um mar de putrefatos e vis procedimentos, invade a outrora respeitada instituição do senado, não podemos deixar de citar o trecho de um veemente discurso proferido em 1914, em plenário, pelo destemido senador da República Rui Barbosa, que passamos a reproduzi-lo neste triste momento de vergonha nacional:

“A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal de nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo o nosso descrédito é a miséria suprema desta pobre nação”.
“A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem, cresta em flor o espírito dos moços, semeia no coração das gerações que vem nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas”.
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver se agigantarem os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”



14 setembro 2007

INDENIZAÇÃO POR BÊNÇÃO NÃO RECEBIDA




Uma reportagem escrita no jornal “O GLOBO” do dia 11 de setembro do corrente ano, despertou muito a minha atenção, especialmente, por ter o fato inédito ocorrido no nosso “sublime” e obscuro mundo religioso. Como uma “querela” trágico-cômica protagonizada no âmbito da fé, foi parar na mesa de um Tribunal de Justiça?

Vamos aos fatos.

A manchete no topo de uma das páginas do primeiro caderno de O GLOBO, jornal Carioca de maior circulação no País, trazia a seguinte frase: “Justiça manda Igreja devolver dinheiro de fiel”. Logo a seguir vinha o relato pormenorizado em duas grandes colunas, das quais extraí o “miolo” ou essência desse inusitado “bolo” para uma apurada reflexão minha e do leitor(a).

Pasmem:

“A igreja Universal foi condenada a devolver doação de dois mil reais, corrigidos desde janeiro de 1999, feita por um motorista do interior de São Paulo. De acordo com a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, o fiel foi convencido a fazer o que não queria, com a promessa de que sua situação financeira melhoraria se entregasse o que tinha à Igreja. O desembargador relator da ação na quarta Câmara de Direito Privado sentenciou que o aconselhamento acabou por induzir o apelante a sofrer algum tipo de influência, a praticar ato por ele efetivamente não desejado”.

“Anteriormente, em primeira instância o Juiz Carlos Eduardo Lora Franco da primeira vara de General Salgado-SP, não reconheceu o direito do motorista Luciano Rodrigo, de ter o seu dinheiro de volta, por entender que o Pastor não forçou a vítima a fazer a doação. Ele tinha vendido um Del Rei por dois mil e seiscentos reais, entregando dois mil ao dirigente da igreja”.

“No recurso feito à quarta vara, o motorista alegou que a suposta doação não tinha sido espontânea, no que recebeu o aval dos desembargadores da quarta vara. Um dos julgadores sustentou em suas justificações que, se a preocupação da igreja fosse ajudar de fato o fiel a começar uma nova vida, mais próspero, o mais indicado seria que devolvesse o mais rapidamente possível, o dinheiro do arrependido chofer”.

“Por meio de sua assessoria os dirigentes da igreja disseram que vão recorrer da decisão. Cabe recurso. Os assessores jurídicos da instituição estão providenciando as medidas necessárias”.

O leitor, agora é meu convidado para conjeturar sobre quem estará com a verdade: o motorista, ou a Instituição Religiosa?

Como entrar no universo subjetivo e imaginário das vítimas? É difícil. Missão quase impossível.

É doloroso aceitar que em todo esse imbróglio, o nome de Deus se encontre imiscuído como co-participante de uma vil “querela”, uma vez, que só Ele teria o poder de distribuir as benesses ou bênçãos frustradas.

Pergunto eu, caro leitor:

─ Se, na verdade houve falta de fé por parte do fiel, o negócio ou contrato realizado poderia, ou não, ser anulado?

Digamos que o reclamante estava com intenção de realizar um investimento material e nada recebeu de "bônus", não seria o caso de devolver-lhe o principal, isto é, os dois mil reais?

Por outro lado, promessa “divina” não tem tempo estipulado para se realizar. A igreja poderia muito bem valer-se do caso de Sara, esposa do patriarca Abraão, cujo filho da promessa só veio vinte e cinco anos após ter sido proferida a profecia, tendo mais um agravante: o pai dos Hebreus já contava com noventa anos. Olhando por esse ângulo a igreja poderia ganhar no recurso impetrado, pois o reclamante só teve a paciência de esperar por apenas oito anos (de 1999 à 2007).

Já em favor do motorista há um argumento muito forte: não se pode ter uma certeza absoluta de que o Deus da Universal realmente estava a par do negócio efetuado, uma vez que, para esta emblemática comprovação, teria de constar nos autos o depoimento do próprio Deus em pessoa. Além do mais, na sua decisão, o juiz como um bom cristão, fatalmente irá concluir que Deus é Espírito, e Espírito pela Lei não pode depor. O tempo como "senhor da razão", é quem vai dizer. Aguardemos.

De uma coisa eu tenho quase certeza: não seria aceita pelos veneráveis juízes, por ocasião do recurso, uma suposta palavra em nome de Deus, dita pelos pastores, que desta forma estariam se autofavorecendo. Como supostos “servos de Deus” estariam legalmente impedidos de apelar para o seu Senhor (parte interessada) .

Esse processo vai se tornar realmente uma pedreira para os magistrados.

Caso a assessoria jurídica da igreja seja derrotada no seu recurso impetrado, estará aberto um precedente muito perigoso, daí o seu interesse imenso em ganhar a causa. Já pensou: todo aquele que colaborar com o intuito de ser próspero em pouco tempo, e não for atendido, entrar com um processo contra a instituição religiosa a que pertence? Com certeza, a avalanche de processos dilapidaria paulatinamente o patrimônio da denominação religiosa.

Dentre os vários argumentos para a igreja livrar-se desta briga, existe um bastante genial, se alegaria que tudo funcionaria à maneira de uma loteria, como as da Caixa Econômica Federal. Os perdedores, isto é, os de má sorte, não tinham do que reclamar. Citaria-se por cima, o velho ditado popular: “quem não arrisca não petisca”.

Por outro lado, os advogados da igreja poderiam alegar que a contribuição se trataria de uma doação espontânea e não onerosa ─, negócio jurídico em que uma parte cede fração de seu patrimônio em espécie ou não, com liberalidade, sem estipular um benefício em favor do doador. No último caso, ao gemer os últimos estertores, a igreja poderia afirmar que se trataria de uma obrigação de “meio”, e não de “fim”, como a obrigação que o advogado tem de defender uma causa, sem, no entanto, garantir o êxito de determinado direito. Porém, o advogado do motorista poderia se sair muito bem contrapondo-se ao argumento dos defensores da igreja, alegaria que o seu constituinte teria feito com os pastores, um contrato verbal de troca da sua oferta por futuros benefícios, e, realçaria a sua controvérsia com a célebre frase de São Francisco de Assis: “é dando que se recebe”.

Quando coisas desta natureza chegam a acontecer em lugares que deveriam ser sagrados, realmente podemos afirmar como se costuma dizer no meio religioso: “chegamos ao fundo do poço”, na banalização do que deveria ser Divino. Nunca é demais lembrar um fato acontecido há dois mil anos: os evangelhos relatam com cores fortes, a maneira como Jesus entrou decididamente no templo, a fim de expulsar os que usavam o espaço sagrado para trocas comerciais em nome da fé.

Hoje, quando as negociatas em nome de Deus chegam de forma ignominiosa aos Tribunais, é tempo de se indignar e bradar as palavras de Cristo (Marcos 11, 17): “[...] a minha casa será chamada casa de oração para todas as nações! Mas vós a fizestes covil de ladrões”.

Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 14 de setembro de 2007

28 agosto 2007

MISSÃO CUMPRIDA



É difícil aquilatar se uma determinada missão foi realmente executada satisfatoriamente, ou não, pois os parâmetros ou valores que usamos para este fim, são quase todos regidos por uma forma racional de pensamento, quer pelo que programamos através dos nossos desejos, quer pelo que se depreende das escutas de palavras proféticas. Não quero dizer com isso, que o ‘vaticínio’ seja algo que se deva desprezar. Não senhor! O problema não está na “palavra divinamente inspirada”, e sim, no fato de como chegamos tão facilmente a interpretá-la ao nosso modo.

Ora, sabemos muito bem, que o tempo de Deus não é o nosso. Aquela multidão que recebeu triunfalmente Jesus em Jerusalém, jamais pensou que três anos após aquele acontecimento, o mestre encerraria a sua missão na terra. Arrisco-me até a dizer, que a maioria daquela multidão esperava um “reino terreno”, e não um espiritual, como foi o do nosso Mestre. Foi um ministério curto para tão grande missão, o de Cristo? Na ótica humana (minha), foi. Na ótica Divina, o tempo da missão de Cristo foi simplesmente o necessário.

Como é difícil para nós, revisar os nossos conceitos, os quais, quase sempre, são inconscientemente carregados das sementes da vaidade e do egoísmo. Quando algo não sai como imaginávamos, prontamente rotulamos o resultado como derrota. Olvidamos, que aquele que planta, nem sempre é o que colhe, e que o resultado de uma missão só o futuro o dirá. Na hipocrisia do nosso imediatismo, queremos resultados em curto prazo, para alardeamos em alto-som, o cumprimento do que esperávamos, não para a glória de um Deus, e sim para satisfação do nosso “ego”.

Acredito que poucos, ou quase nenhum dos que estavam ali a receber Cristo com palmas e danças à entrada de Jerusalém, acompanharam-no na caminhada dolorosa do calvário. Não poderiam estar ali, pois as suas cabeças estavam mais programadas para o espetáculo do sensacionalismo exterior, que é mais baseado no que se vê, no que se pega, e no que se mede.

“Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus[...]”. (Romanos 8, 28). Desta forma, é totalmente descabida e insensata a conclusão de que uma missão foi frustrada, só pelo que se vê de palpável momentaneamente. Por mais simples que seja a missão; por mais curta que ela seja no espaço de tempo, só quem a experimentou, é que tem a autoridade de falar: se houve, ou não houve resultados ─, até porque, não fomos nós, os de fora, que doamos o nosso corpo à dureza de uma inóspita jornada.

Por vezes, a incompreensão humana a respeito do desfecho de uma missão no âmbito da espiritualidade, tende a deixar alguns, cabisbaixos. Não importa, se alguns, venham porventura traduzir como fraqueza, a imprevisibilidade de tudo quanto ocorreu. No entanto, o que importa é: que a opinião alheia jamais terá o poder de desestimular os missionários, em outros desafios ─, mesmo que tenham de enfrentar um acolhimento frio, no retorno ao seu torrão natal ─, em contraste com o clima apoteótico que aconteceu em sua viagem de ida.

Crônica por: Levi B. Santos - dedicada aos missionários João Camilo e Leni Bronzeado, que por três meses vivenciaram uma grandiosa experiência em Santa Cruz de La Sierra - BOLIVIA.

Guarabira, 28 de Agosto de 2007

10 agosto 2007

A IGREJINHA DE PALHA




Juan estava radiante. Era o mês de agosto de 2039, no qual, juntamente com o seu pai Pablo, comemoraria o trigésimo aniversário do majestoso templo de Mineros, na Bolívia.

Fazia um frio tremendo, como era comum naquela época do ano, e Juan todo encapotado da cabeça aos pés, reservara aquele dia para dar uma olhada nos arquivos antigos do computador de seu pai, um aparelho de última geração, que era acionado pela simples voz humana.

Diante da potente máquina digital Juan colocou os seus óculos tridimensionais, sentou-se no banquinho fofo e falou pausadamente:

─Arquivos de agosto de 2007! Assunto: Assembléia de Deus Boliviana!

Em milésimos de segundo apareceu na imensa tela de cristal líquido, a foto digital de uma igrejinha em forma de palhoça, em três dimensões.

Fitou demoradamente a foto, até os olhos ficarem umedecidos de lágrimas. A emoção que estava sentindo naquela hora era indescritível. Fora buscar no porão da memória, lembranças dos seus oito anos de idade. Tinha sido naquela igrejinha de palha que ele tinha ouvido pela primeira vez, falar de Um Deus, que tinha um filho chamado Jesus. E que este filho, tinha vindo trazer a verdadeira “luz” para um mundo de trevas tenebrosas.

Juan continuava a olhar detidamente a foto. A igrejinha tinha no lugar da calçada uma cerca de arame entrançado, com plantas trepadeiras fechando o espaço entre os fios metálicos, e um portão de caibo de madeira roliça, ao lado.

Recordava que no local do púlpito estavam três pessoas, que apesar de não serem bolivianas, não lhe eram estranhas: Havia um senhor de olhar penetrante, cabelos bem penteados, portando óculos, com a esposa impecavelmente vestida e o filho ao lado com um olhar meio vago, como um passarinho fora do ninho.

Agora sim, subindo mais a foto na tela do computador, Juan podia ler o que estava escrito na barra inferior da foto: “Agosto de 2007 - visita de João Camilo, Leni Bronzeado e seu filho J.Neto, missionários Paraibanos do Brasil ─ responsáveis pela primeira publicação da foto digital, via Internet, da pioneira igrejinha de Mineros".

Juan lembrava-se do que seu pai dissera naquela ocasião: “graças aos nobres missionários, hoje, todo mundo está tomando conhecimento, e vendo o nosso humilde templo, via satélite”.

Juan olhava a foto com orgulho, dizendo para si mesmo: "bravos missionários, que com enormes sacrifícios, deixaram o aconchego do seu lar no ano de 2007, para em um lugar tão inóspito e distante, fundar a Editora Epístola, lançando as bases da atual: Casa Publicadora da Ass. de Deus Boliviana".

A Editora estabelecida em Santa Cruz de la Sierra, hoje, em 2039, é responsável pela publicação de um acervo cultural-religioso-filosófico que atinge além fronteira. Basta dizer que as lições bíblicas da Escola Dominical estão sendo regularmente distribuídas em todos os paises latino-americanos de língua espanhola. A Companhia editorial que consta de doze departamentos e noventa funcionários é dirigida pelo fervoroso homem de Deus, Hernandes Morales, neto do ex-presidente Evo Morales

Antes de desligar o computador, Juan, com a saudade a lhe apertar o peito, decidiu prestar uma singela homenagem à “igrejinha de palha” que lhe servira de “berço espiritual”. Rabiscou, e não gostando, deletou por três vezes uma pequena quadra, e por fim deixou na memória do computador de seu pai o seguinte verso:


.............................Tenho saudades de ti “Igrejinha”.

.............................És a minha raiz, fincada no chão.

.............................Tu me abrigaste como criancinha,

............................. Hei de guardar-te no meu coração.


..............................( Mineros, 10 de agosto de 2039)

07 agosto 2007

ESCADARIA DE CHATICES!!!





Os congressos e CONVENÇÕES,

xxCom a melhor das INTENÇÕES

xxxxDeixam os nervos em TENSÕES;

...xxxxxDeixam a mil, .os ...CORAÇÕES,

xxxxxxxxAo mostrar mais .INVENÇÕES,

.....xxxxxxxxTal qual insossas REFEIÇÕES

......xxxxxxxxxxxFornecidas ..nas ..PENSÕES.



.............Tudo é coisa muito CHATA,

..............xxQue irrita a gente PACATA,

...............xxxxE que por educação ACATA

................xxxxxxA discussão - INSENSATA.

.................xxxxxxxxRecebe então uma - LATA,

....................................Que tem por dentro a NATA,

..........................................Se comer, ela o MALTRATA.





.............Após passar hora INTEIRA,

.................Acabada a BRINCADEIRA,

.......................Ele enrola a. BANDEIRA.

...........................Levantando da CADEIRA,

..............................E dormente. da TRASEIRA,

...................................Sai sentindo uma ZONZEIRA

.........................................De escutar tanta BESTEIRA.





Prosa em versos de: Levi B. Santos. Guarabira, 07 de Agosto de 2007

05 agosto 2007

MEU AVÔ E SUA REVELAÇÃO BOMBÁSTICA







Eu tinha dezesseis anos de idade quando transcorria o ano de 1962. Meu pai tinha falecido há mais ou menos uns três meses, e meu avô materno decidiu se instalar em minha casa. Acho que a sua decisão foi mais para dar apoio moral e espiritual a uma filha recém viúva e os seus filhos órfãos.

O velho Zé Raulino, meu avô, mudou o clima de relacionamento entre nós, pois ele era muito receptivo em casa, coisa que o meu falecido pai não era. Não me lembro de meu pai ter alguma vez conversado francamente comigo sobre qualquer assunto. Era assim o seu modo de ser: sempre caladão e com um ar sisudo de quem está prestes a brigar. Quando demorava mais tempo em casa, era para ouvir os seus velhos discos de setenta e oito rotações, nas vozes de Núbia Lafaiete, Ângela Maria, Maysa, Anísio Silva, Nelson Gonçalves e aquele de quem ele mais gostava: Luiz Gonzaga. Era quando a voz destes cantores enchia a casa toda com um som poluído pelos ruídos provocados pela agulha (que mais parecia um prego), extraídos de uma velha vitrola em forma de maleta.

Particularmente eu tinha um temor muito grande ao me dirigir a meu pai, pois poderia falar algo que o desagradasse. Talvez, a minha extrema timidez tenha se alimentado dos muitos carões e algumas surras que levei dele, por ter praticado as peraltices tão comuns na infância.

Não me esqueço nunca, tinha mais ou menos uns oito anos de idade, era um dia de Sábado, e estávamos todos em casa reunidos ao redor da mesa, para jantar. Nessa ocasião estava presente o Tio Neemias (cunhado de meu pai), nos visitando. Lembro-me bem do cardápio dessa noite: feijão verde com farinha para ser comido amassado nas mãos, em “bolos”, que antes de ser deglutidos eram molhados na graxa do toucinho de porco guisado, tendo ao lado, um molho feito com o caldo do feijão cheio de maxixes cozidos e pimenta malagueta. Só se ouvia o mastigar da comida gostosa com a graxa a escorrer pelos cantos das bocas dos convivas. Foi quando de repente, quebrando o silêncio daquele momento se ouviu algo como um suave apito vindo de baixo da mesa. Eu fiquei calado e com o rosto espantado de medo e terror, pois sem querer, o ar que tanto eu estava prendendo nos intestinos, tinha saído apitando baixinho no início, e com o meu nervosismo aumentou o tom, porém foi coisa rápida. Talvez por eu ter me prendido tanto, o “peido” saiu daquela forma: assoviando. Meu pai imediatamente diagnosticou: “Foi você seu safado, e interrompeu o jantar para me dar uma sonora surra”. Então no meu quarto, com as roupas molhadas de urina devido às lapadas que tinha recebido, fiquei atrás da porta, revoltado e encolhido, sob soluços, a pensar: ora, apesar de ter sido coisa feia, ele não poderia ter feito isso comigo, porque apesar dos meus esforços, contraindo os músculos glúteos e os forçando contra a cadeira, o “pum” saíra, rompendo a minha resistência. Eu não tinha culpa.

O pior, é que eu estava revoltado comigo mesmo, pois, se eu não tivesse me contraído tanto, na certa, o maldito tivesse saído de forma abafada e espontânea. E sem fazer barulho, seria mais difícil de reconhecer o autor da façanha, pois um diria: “ não fui eu”; outro responderia: “nem eu”; e assim todos se desculpariam. Há quem afirme: quer saber quem foi o autor? Veja quem primeiro gritou. Mas isso é presunção.
Já tinha presenciado em outras ocasiões diante de muitas pessoas, todo mundo negando a autoria da emanação de gases intestinais no ambiente, isto, quando não se ouvia o seu sinal sonoro, e apenas se pressentia o cheiro característico.
Naquela noite fatídica reconheci que tinha sido burro mesmo: era para ter deixado o danado sair sem pressão. Apanhei de graça.

O meu avô tinha tido mais intimidade com o genro, do que todo o restante da família. Ficou triste, porque no seu dizer, meu pai tinha morrido “desviado”. Esse termo ainda hoje é usado para denominar as pessoas que freqüentam a igreja e depois a abandonam. Meu avô tinha conhecimento de que meu pai antes do acidente de moto que o vitimou em via pública, vinha cantando uma música de carnaval. Na concepção sua e de muitas pessoas íntimas, meu pai morrera sem salvação, e que o destino dessas pessoas quando assim morrem, é o inferno.
Passado alguns meses do falecimento de meu pai, ali no mesmo terraço de minha casa, meu avô me chamou para me contar algo que pela sua fisionomia radiante de felicidade, eu pressenti logo que era algo de bom. Ele debruçado na mureta do alpendre dirigiu-se a mim desta forma:

─ Meu filho! Eu tenho uma coisa muito importante para lhe dizer ─ falou em tom solene, após ter dado as suas comuns cusparadas em direção a rua.
Eu sentando no batente do terraço ao lado dele, disse: Me conte vovô, o que foi?
─ Olhe, ontem a noite Deus me deu uma revelação maravilhosa. Ele me mostrou seu pai ( Moisés) no céu. Fique certo que ele não foi para o inferno, como todos estavam pensando. Deu tempo para ele se arrepender ─ disse o meu avô com ar de satisfação.
Eu me juntei à sua alegria naquele momento. Por três meses, meu avô conviveu com a idéia horrenda de imaginar que seu grande amigo e genro, estava se queimando nas labaredas do inferno. No entanto, dali em diante, me uniria a ele, a fim de desfazer a triste imagem que meu pai deixou no coração dos que ficaram.

Meu pai, dois meses antes de morrer, tinha me dado uma bicicleta de presente, por ter passado em primeiro lugar nas provas finais do colégio local. Ora, o que eu mais almejava, era uma bicicleta na cor azul, e ele me dera uma do jeito que eu sonhara. Eu já vinha pensando desde a sua morte: como meu pai depois de me dar um tão precioso presente, tenha tido o inferno como destino. Imaginava que aquilo era uma injustiça, pois ele já tinha sido penalizado com a morte na flor da idade.
Apesar de hoje ser meio cético com esta história de revelação, não nego que a visão bombástica do meu avô, deu-me naquela época um certo alento.
Meu avô era um homem extremamente religioso, e não se aborrecia com as insinuações que eu fazia sobre temas do mundo bíblico. Um dia, no mesmo terraço da casa de minha mãe eu perguntei para ele:

─ Vovô! O Sr. acredita nesta história da baleia ter engolido Jonas e depois de três dias ter vomitado ele vivo?

Meu avô respondeu rápido, sem titubear:

─ Meu filho! Se a Bíblia dissesse que Jonas tinha engolido a baleia, eu acreditaria.

O velho Zé Raulino, naquele seu jeitão de imaginar o céu e o inferno, era tão feliz, sem os questionamentos que faço hoje. Ele cria porque cria, e ponto final.


Crônica: por Levi B. Santos. Guarabira, 05 de Agosto de 2007