18 janeiro 2012

DIA FELIZ OU TRISTE?




"Um país onde ser honesto é heroísmo" (Cristovam Buarque)


O Brasil acaba de ser alçado à sexta economia do mundo. Comemora-se com muita emoção e champanhe francês, o extraordinário feito nas altas rodas políticas de Brasília. Afinal, o nosso gigante adormecido é manchete em todos os jornais do mundo.

Porém, eu, como cidadão brasileiro, aposentado do serviço público, não estou alegre. Estou triste.

Cabisbaixo, trago o avesso do Brasil, que encanta o mundo com sua economia funcionando a todo vapor, em um discurso antológico do educador, Cristóvam Buarque, realizado no plenário do Senado em 11 de Novembro passado, que versa sobre “a prática de transformar honestidade em heroísmo em nosso país”.

A homenagem prestada ao batalhão de choque da polícia do Rio de Janeiro que, no cumprimento estrito de sua função, recusou o suborno oferecido pelo traficante Nem, serviu de base para o senador Cristovam Buarque trazer até nós, uma profunda reflexão sobre a origem dos males de nossa sociedade.


 Sr. Presidente, Srs. Senadores, embora o discurso do Senador Jorge Viana fosse especialmente sobre a situação do Acre, no que se refere ao fuso horário, que realmente é de uma distância que não consigo explicar bem – com o horário de verão aqui, Senador Eurípedes, em termos de tempo, o fuso horário de Brasília para o Acre vai ser o mesmo fuso de Brasília para a Europa, pelo menos na parte ocidental dela –, apesar de que o discurso dele tenha sido sobre tudo isso, ele tocou num ponto que tem a ver com a minha fala hoje: é o fato de que nós descobrimos, conseguimos, temos hoje novos heróis no Brasil. São os heróis PMs que recusaram propina e os heróis que conseguiram prender um traficante. E, como disse, há pouco, em aparte, Senador Jorge Viana, de fato foi um gesto de heroísmo. Agora, de fato, é um gesto que traz tristeza, quando a gente percebe que o nosso heroísmo está em não aceitar propina. 

Nós temos de tratar esses jovens PMs como nossos heróis, mas temos de tratar com tristeza o fato de que eles sejam heróis. Nós precisamos fazer uma reflexão em função disso, porque, no Brasil, a corrupção transformou-se numa coisa tão normal que quem não a aceita é herói. Em que momento da nossa história nós erramos que nos transformamos num país em que o heroísmo não está, como já foi em alguns momentos – e nesta semana tivemos uma audiência na Comissão de Relações Exteriores com aqueles que cuidam do cemitério de Pistoia, na Itália, onde foram enterrados os soldados brasileiros que morreram em campos de batalha na Europa, lutando contra o nazismo... Já tivemos esse heroísmo. Mas por que, em algum momento da história, nós nos desviamos do normal, daquilo que deveria ser, caímos no anormal, e os normais viraram heróis? Onde nós erramos? 

Aí a história é longa, Senador Eurípedes. Começa que, durante cerca de 350 anos, neste País, até seres humanos eram comprados, e vendidos, e explorados, e algemados e trabalhavam debaixo de chicote. Aquilo era uma corrupção. As pessoas não percebiam que era corrupção, na época da escravidão, haver escravos. E, aqui e ali, surgiam fazendeiros heroicos: os que soltavam dois ou três escravos. 

Vejam como esta contradição entre o heroísmo que realmente é heroico e o heroísmo por fazer o certo é antiga no Brasil. Os fazendeiros que davam alforria para alguns escravos eram heróis da ética, quando era o normal ou deveria ser o normal, mas não era, porque o normal era a escravidão. Como hoje o normal é a corrupção. 

É preciso fazer uma reflexão. Passamos da abolição. Mas não demos escolas para os ex-escravos. Não demos terras para os ex-escravos. Isso foi uma corrupção. Não fazer a reforma agrária imediatamente depois da abolição da escravatura foi um gesto de corrupção deste País. O latifúndio foi e é uma corrupção. Quando uma pessoa tem muita terra e outra não tem onde plantar o que precisa para comer, isso é roubo, corrupção. Mas a gente não percebe. Então, quando surge um fazendeiro que decide distribuir um pedaço da sua terra, ele é herói. Ele não está fazendo o normal, o certo, o comum; ele é herói. 

Temos escolas boas para os filhos das classes altas, pagando, inclusive, com o dinheiro público. Isso é ou não é uma corrupção se negamos a educação ao filho dos pobres? É uma corrupção. 

Temos um sistema de saúde eficiente para uma minoria da população e um sistema de saúde degradado para a maioria da população. Isso é ou não é uma corrupção? Mas é uma corrupção natural, aceita, comum, até invisível. 

Somos um País de uma tolerância perfeita, total com a corrupção a tal ponto de que quem não aceita propina é, de fato, não podemos negar, um herói. E esse heroísmo merece esta reflexão: onde erramos que se transformou em heroísmo o fato de se fazer o que é o certo, o que é o normal, mas que no Brasil ficou anormal? 

O que acontece é que no nosso País, desde o início, privatizamos o que deveria ser coletivo, o que deveria ser social. A terra, era preciso que servisse a todos, nós a privatizamos. A educação devia ser para todos, nós a privatizamos. A saúde devia ser para todos, nós a privatizamos. Nós privatizamos de tal maneira que não percebemos que é uma forma de corrupção, por exemplo, o vandalismo contra as coisas do Estado. Se alguém quebra vidro de um banco, vai preso. Se quebra vidro de uma escola pública, continua solto. Não é visto como crime. 

O celular quase fez desaparecer os orelhões deste País. Mas quantos orelhões encontrávamos inteiros, sem serem depredados, vandalizados, nas esquinas do Brasil? Raros eram mantidos íntegros. Por quê? Porque pertenciam a todos. Logo, cada um se sentia no direito de derrubar, de destruir, de depredar. 

Isso faz com cheguemos ao ponto de que ser honesto virou um heroísmo no Brasil. 

Isso acontece porque, no Brasil, o tal chamado patrimonialismo, ou seja, nós nos apropriamos do patrimônio que deveria ser de todos, levou a ponto de ser como hoje na política usufruir-se não só de propinas mas até de privilégios que, sendo legais, continuam sendo uma forma também de corrupção, já que é negado aos outros. Nós nos acostumamos com isso. Nós privatizamos o que devia ser de todos. Nós nos apropriamos – daí a palavra patrimonialismo –, o patrimônio coletivo da Nação brasileira virou objeto da cobiça e da apropriação por grupos. Este é o País do corporativismo, este é o País da propina, este é o País de uma coisa nova chamada estadualismo, cada Estado querer para si, sem uma visão global de conjunto, como se fosse possível ser feliz em um país rodeado de miséria. 

Senador Mozarildo, creio que uma sexta-feira permite que se traga aqui o reconhecimento do heroísmo desses PMs, mas se traga também a reflexão de que esse é um heroísmo que deveria ser algo absolutamente normal e não um gesto tão grave de heroísmo. 

Tratamos como natural, por exemplo, os corruptores. Tratamos como natural, por exemplo, alguns que não cumprem com suas obrigações no setor público, porque privatizamos o que deveria ser coletivo. E a consequência disso, Senador Anibal, é que hoje estamos, aos poucos, dividindo a população brasileira entre dois tipos: os cínicos e os céticos.

Os céticos são os que passam a não acreditar mais que é possível um país no qual ser honesto não seja um ato de heroísmo. Muitos estão céticos, e outros estão cínicos, são aqueles que antes diziam “rouba, mas faz; logo, é bom” e que hoje dizem “rouba, mas é um dos nossos; logo, não tem problema” ou aqueles que dizem “rouba, mas todos roubam, por que é que não vou roubar também?”. Isso é cinismo. 

Nós estamos caindo no cinismo, e o mais grave é que uma parcela expressiva da juventude está caindo no ceticismo ou no cinismo. A juventude militante está caindo no cinismo, e a juventude não militante está caindo no ceticismo. Sinceramente, do ponto de vista ético, não tenho dúvida de que o cínico é pior do que o cético, mas, do ponto de vista das consequências para o futuro do Brasil, o cínico e o cético produzirão as mesmas consequências negativas. 

Nós estamos caindo entre o cinismo e o ceticismo, e uma das provas disso é a falta de bandeiras que vemos hoje nas discussões dos problemas brasileiros. Hoje, a colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, escreveu sobre isso. Ela coloca que agora surgiram bandeirinhas – estou usando a expressão que ela não usou –, é a ficha limpa, são os royalties do petróleo, é a meia-entrada na Copa do Mundo, mas está faltando a grande bandeira geral nacional. E, sem uma bandeira geral nacional, não há como sair dessa polarização entre o cinismo e o ceticismo. Quando é que a gente vai retomar a grande bandeira? Será que a grande bandeira da gente é ter a Copa do Mundo, é ter as Olimpíadas? 

Estamos sabendo, é óbvio, que esse esforço pela paz no Rio de Janeiro tem a ver com as Olimpíadas. E eu me pergunto se, passadas as Olimpíadas, será mantida a ordem nos lugares onde há desordem. Ou será que, como já não vêm mais estrangeiros, como o Rio de Janeiro já não vai mais aparecer na televisão do mundo inteiro, os PMs voltarão para os quartéis, as Forças Armadas serão desmobilizadas e entregaremos o que foi conquistado para os bandidos? 

Nessa polarização entre ceticismo e cinismo, eu confesso que tenho dúvidas se o que se faz hoje no Rio de Janeiro com sucesso é para sempre ou é como na velha história brasileira, apenas para que os ingleses vejam. Mas, agora, os ingleses quais são? A Fifa. A gente está fazendo isso por que é o certo ou por que a Fifa quer ou por que o Comitê Olímpico quer? 

É bom sempre lembrar a origem de certas expressões como essa “para inglês ver”. Essa expressão vem de quando se proibiu o tráfico de escravos no Brasil. Na hora de assinar, muitos dirigentes brasileiros eram contrários à proibição do tráfico de escravos. E aí, Senador Mozarildo, uma das justificativas foi esta: “Não se preocupem, é só para inglês ver”. Os ingleses não queriam o tráfico de escravos, nem tanto por ética, mas porque, havendo escravos aqui, ficava difícil eles concorrerem com seus produtos e haver compradores para seus produtos. 

Antes, foi para inglês ver, mas, agora, é para a Fifa ver, é para o Comitê Olímpico ver, ou é para mudar o Brasil? Estamos divididos entre os céticos e os cínicos. É isso que faz com que o heroísmo – há heroísmo, sim, não diminuamos o tamanho do gesto – ocorra apenas para fazer o que todos deveriam fazer. 

Hoje é dia de reflexão e de reconhecimento. Temos de reconhecer o gesto inédito no Brasil de recusar propina de um traficante. Mas é um gesto de reflexão, para sabermos por que isso é heroísmo. Hoje é dia de homenagem a quem fez esse gesto, mas é dia de tristeza, de muita tristeza, por sermos de um País em que ser honesto está virando heroísmo, onde o honesto é herói. Algo está errado! 

Imagine uma guerra em que só um soldado fosse para a guerra! Ele seria herói? Seria herói, mas o país estaria perdido, porque um país não ganha uma guerra com um soldado sozinho. Ou todos nos empenhamos nessas batalhas desse momento, ou vamos fracassar, mesmo dando medalhas a um ou outro herói brasileiro, sem dar a maior medalha ao Brasil. 

Os PMs do Rio que prenderam esse bandido, cada um deles merece essa medalha, mas o Brasil não merece medalha por esse fato. Nosso País, o Brasil, ao contrário, merece o constrangimento pelo fato de que um PM, ao não receber propina, está fazendo um gesto de heroísmo. E insisto que é um gesto de heroísmo mesmo. Não o estou diminuindo, não! E, por isso, é mais grave ainda, por ser um gesto heróico. 

Senador Mozarildo, fico preocupado quando, diante de coisas com que todos estão se alegrando, trago uma dose de tristeza; preocupa-me isso. E sei até que, em política, essa é uma tragédia, porque o que as pessoas querem ouvir é o lado bonito, o lado glorioso, o lado maravilhoso, porque o que querem é jogar para debaixo do tapete o lado negativo. Foi assim durante 350 anos em que alguém ficaria horrorizado se, diante da alforria de alguns escravos, em vez de elogiar aquele fazendeiro, um abolicionista viesse aqui criticar a escravidão. O povo, o Brasil não queria falar de escravidão, queria falar daquele alforrista. Nem queria falar dos abolicionistas, mas daquele alforrista que liberava um, dois, três escravos e que merecia todo o nosso respeito, mas sem esconder a tragédia nacional. 

Lamento trazer essa dose de tristeza no meio do reconhecimento de um ato de heroísmo, mas creio que o papel de cada um de nós não é ficar apenas aqui se deslumbrando com o que aparece; nosso papel aqui é tentar mostrar o que não aparece, o que está nos subterrâneos da sociedade brasileira, não aquilo que está aflorando, de forma bonita, até no gesto de um ou outro cidadão brasileiro. E, nos subterrâneos, o que temos são razões para tristeza, a tristeza de uma corrupção generalizada, de uma sociedade dividida entre cínicos e céticos, numa aliança impossível, que, se fosse possível, não conseguiria construir o país de que precisamos, porque, no lugar de cínicos e de céticos, precisamos de crédulos e de militantes. É preciso crédulos em uma bandeira e militantes por ela. Isso está faltando. 

Insisto na minha pequeninha bandeira: fazer uma revolução que permita que, no Brasil, a escola seja de qualidade igual para todos. Uns podem ter roupas bonitas; outros, não. Uns podem ter casas grandes; outros, casas pequenas. Uns podem ter carro; outros podem andar de ônibus. Mas a escola tem de ser igual, absolutamente igual, para todos. Alguns vão estudar mais que outros, alguns terão mais sucesso que outros, porque têm mais talento, porque têm mais gosto, porque têm mais vocação, porque têm mais ousadia, mas não porque têm mais chance. A chance deve ser igual para todos. 

E acho que devemos fazer uma revolução também na saúde brasileira. Alguns podem ter roupas boas; outros, roupas simples. Alguns podem ter casas grandes; outros, casas pequenas. Alguns vão andar de carro; outros, de ônibus. Mas o hospital deve ser igual para todos, o ambulatório deve ser igual para todos, o remédio deve ser igualmente acessível. 

Há duas coisas que não podem ser desiguais: o acesso à educação e o acesso ao sistema de saúde. Se tudo mais for desigual, é uma desigualdade. Essas duas coisas desiguais são uma imoralidade. 

Essa seria uma bandeira, mas falta credulidade. Ninguém acredita que isso seja possível, como, durante 350 anos, ninguém acreditava que abolir a escravidão era possível, ninguém acreditava nisso. Hoje, ninguém acredita que seja possível pobre ter escola igualmente boa, igualmente bonita, com professores igualmente remunerados, como os ricos. Falta essa credulidade em algumas coisas. 

E aí a gente vê a situação de desigualdade entre as nações. No dia em que nosso herói é um PM que se nega a receber propina, na China, os heróis são os engenheiros e cientistas que conseguiram fazer duas naves se acoplarem no espaço. Veja que diferença! Como lembrou Jorge Viana, enquanto aqui a gente está querendo ocupar alguns bairros de uma cidade, lá eles estão ocupando o espaço sideral. E o pior, Senador Diniz, é que, há 40 anos, os chineses estavam muito atrás da gente em pesquisas espaciais. Os chineses estavam envolvidos com o fim de uma revolução, com o fim de uma revolução cultural, numa briga com a Índia e com a União Soviética, e, aqui, estávamos começando a construir um país. Paramos. E não estamos querendo retomar a dimensão da profundidade de olhar o que está nos subterrâneos da sociedade, querendo apenas comemorar o que está na superfície, na superfície da Copa, na superfície das Olimpíadas, na superfície de heróis que não aceitam propina, ao invés de olhar, nos subterrâneos, uma população em que 40% dos alfabetizados não sabem ler. Não falo dos não alfabetizados. 

Hoje, na televisão, foi divulgado que 46% de jovens médicos não passaram no exame para saber se estavam preparados minimamente. E quem aplicou o exame disse: “O que pedimos foi o mínimo”. E 46% não passaram. E pior, Senador Mozarildo, e V. Exª é médico, só se submeteram a esse exame os que quiseram. E se supõe que os que quiseram são os melhores, porque os piores não iriam se submeter a esse exame.
 
Esses são os subterrâneos. E esse subterrâneo a gente ignora. Aliás, o único subterrâneo de que hoje se fala no Brasil é o subterrâneo do pré-sal, é o subterrâneo físico. Do subterrâneo sociológico, do subterrâneo da sociedade, a gente não quer falar. A gente não se aprofunda e se deslumbra com a superfície e com alguns gestos belos que ocorrem de tempos em tempos, e, de fato, são belos, como esse dos PMS do Rio. E os fatos profundos, lá de baixo, lá de dentro? 

Por favor, não deixemos que o deslumbramento de um gesto obscureça nossa capacidade de ver a tristeza que há nos subterrâneos da sociedade brasileira. 

Era isso, Sr. Senador Mozarildo, que eu tinha a dizer. 
 



08 janeiro 2012

SOMOS TÃO INDEPENDENTES ASSIM?





“Os Vikings eram corajosos por causa do medo de serem desprezados” ― disse certa vez, o humanista e historiador Inglês, Theodore Zeldin. O autor do clássico, “Uma História da Humanidade”, diz que os vikings ao invadir a Normandia, foram inquiridos sobre quem era o chefe deles. Eles então responderam: “Viemos da Dinamarca e queremos conquistar a França. Não temos chefe. A autoridade é igual entre nós. Jamais nos submeteremos a alguém, seja quem for. Jamais aceitaremos qualquer tipo de servidão”.

Diante dos ferozes invasores, havia duas saídas para os da Normandia: lutar correndo o risco de morrer em batalha, ou render-se aos ditames dos vikings. Os Normandos escolheram a ultima opção: baixar as armas por amor à vida. Mas nesse “amor a vida”, na verdade, estava expresso o medo de morrer, quando assim disseram: “Vocês nos protegem do desamparo, e em troca serviremos a vocês em tudo que for preciso”.

E agora? O povo vencido sente-se inferiorizado diante daqueles que não temeram perder a vida, e arriscá-la no campo de batalha. Os Normandos capitularam em troca da segurança. O pagamento pela covardia de não lutar, é submeter-se ao desejo do outro.

Muitas perguntas lá dentro, me perturbam:

Será que hoje, na pós-modernidade, sou realmente “senhor de mim”?

Será que a submissão ainda não persiste, agora, com outra roupagem mais sutil?

Será que ao atar laços sociais, não estou eu buscando algum amparo frente ao enorme sentimento de desproteção?

Não vejo o homem pós-moderno tão independente assim. Vejo-o cada vez mais inseguro de si mesmo, mais indeciso sobre a decisão frente aos problemas de um mundo em transformação. Vejo-o mais dependente das descobertas tecnológicas que o atraem numa teia de necessidades  imperiosas e irresistíveis.

Segundo Theodore Zeldin, “A imagem cristã de Deus mudou por completo, de um tirano atemorizador e colérico exigindo obediência total, para um pai misericordioso e de infinita bondade. A ameaça de punição eterna foi abandonada. A maioria dos cristãos atirou inferno e purgatório na lata de lixo. Todavia, a geração atual gasta mais dinheiro em segurança do que no tempo dos nossos ancestrais”.

O certo é que a nova dimensão religiosa não apagou a dependência que diz que não somos uma ilha de segurança, pois dependemos do desejo do outro.
Hitler, com o seu ímpeto de superioridade foi um que explorou ao extremo o desejo de submissão das massas, para depois se ver dominado pelo medo de estar só.

Afinal, nenhum homem tem o poder de ser senhor e de ser necessário para conduzir outros, sem provocar insatisfação.
Como dizia Martin Buber, em seu mais emblemático livro, “EU e TU” – Centauro Editora (página 15):

“O lugar dos outros é indispensável para a nossa realização. A finalidade de não depender do outro é o contínuo morrer no decurso da vida humana.”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de janeiro de 2012


Site da imagem: danielcotrimp.blogspot.com

03 janeiro 2012

Estava Lá No Começo (Ou Descomeço)





Segundo Martin Heidegger, “o que origina o pensamento é a palavra, e não o contrário”. Françoise Dolto, psicanalista de crianças, em seu livro “Tudo é Linguagem”, corrobora com o pensador alemão, ao reafirmar a primazia e a importância da palavra, que tem na hora do nascimento do ser humano o vagido, como a primeira expressão de comunicação com a mãe.

É durante os primeiros meses de vida que iniciamos a construção de nossa biblioteca mental. Com o decorrer do tempo vamos acumulando palavras nos meandros intricados do nosso cérebro. Algumas delas não nos lembramos mais. São palavras que, de tão bem guardadas ou escondidas, acabaram por nós “esquecidas”. Apesar de não conscientes, estas palavras ainda agem sobre nós, determinando o que somos hoje. O certo, é que temos no nosso cérebro, arquivos acessíveis e inacessíveis à consciência.

O ser humano é nomeado ou recebe um nome antes de nascer. Ele ganha um nome para ser falado ou usado pelo outro ―, seu semelhante. “O ser humano antes de o ser, é essencialmente um ser falado. Ele é falado antes mesmo do seu nascimento” ― já dizia, Jacques Lacan.

Em analogia ao prólogo do evangelho atribuído a João, podemos afirmar: “NO  COMEÇO ERA A PALAVRA...”

Toda essa divagação preambular, foi no sentido de deter-me na sublime arte da poesia, uma vez, que o ato poético é da ordem da palavra. Diz-se do poeta que “ele é o artesão das palavras, que forja o verbo com martelo e bigorna”. Por que não dizer que a poesia é uma centelha divina (dádiva dos deuses ao homem), composta de palavras ordenadas ou desordenadas onde o leitor arranca ou extrai a mensagem singular que irá suavizar a sua realidade amarga.

No filme “Janela da Alma” há uma declaração muito interessante do poeta matogrossense, de Cuiabá, Manoel de Barros. Ele diz: “Eu sou muito abrigado pelo primitivo... Eu acho que o primitivo é que manda na minha alma, mais que os olhos. Eu não acho que entram pelo olho as coisas minhas. Elas não entram, elas vêm, elas aparecem de dentro, de dentro de mim [...]. O olho vê. A lembrança revê as coisas, e é a imaginação que transvê, que transfigura o mundo para o poeta e para o artista de forma geral”.

O poeta, o sonhador, é aquele que consegue enxergar dentro do peito, a criança que foi. É bem nos momentos de solidão que esse filhote imaginário explode, falando, delirando, como se ali estivesse a provocar estremecimentos pueris num corpo já maduro e cansado. O poeta é aquele que faz das palavras o seu brinquedo predileto, é aquele que dentro de si tem uma criança delirando com palavras. Se o poeta é aquele que goza o seu delírio particular, por que não dizer que somos, todos nós, eternos delirantes?!

Aprecio muito os delírios do poeta Manoel de Barros. Foi ele quem, num verso profundamente maravilhoso, traduziu os vagidos infantis inconscientes, aproveitando-se da desconstrução do prólogo Joanino.

Deixe a imaginação fluir, e se detenha, caro leitor e amigo, no significativo trecho poético que fala do nosso começo (ou descomeço):


No descomeço era o verbo
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para a cor, mas para o som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.
(Manoel de Barros)


Site da imagem: faloutchau.com.br

Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de janeiro de 2012

28 dezembro 2011

Pré-visões Republicanas Para o Brasil em 2012







JANEIRO de 2012:

Demissão em massa de todos os ministros de Dilma e admissão de novos, através de um concurso (sem vazamentos?) do ENEM. A prova consta de uma redação de 30 linhas com o tema sorteado, na hora, pela própria presidente. O candidato que apresentar textos ininteligíveis ou com mais de 20 erros ortográficos, perderá seus direitos políticos e diplomas por dez anos. Quem alcançar a maior nota será nomeado presidente da Casa Civil da Presidência.


FEVEREIRO de 2012:

Recesso dos três Poderes em Brasília, para o Carnaval, e Ressaca pós-folia.


MARÇO de 2012:

Deputados, senadores e ministros reprovados no concurso entram no STF com uma ação de inconstitucionalidade contra o ENEM, que deu a maior nota a um deputado que concluiu apenas o primeiro ano do ensino fundamental. Alegam os prejudicados que houve vazamento sobre o tema que a Presidente tiraria no sorteio a ser realizado pela Caixa Econômica Federal.


ABRIL de 2012:

Para tratar do vazamento do rumoroso concurso, o STF, em sessão extraordinária que durou três dias e meio, adia o julgamento do Mensalão “ad infinitum” pelo placar de 6 X 5. A votação foi desempatada pelo voto de minerva proferido pelo presidente da Casa.
Mensaleiros, vestidos com ternos verde-amarelos, comemoram com uma passeata pelas principais vias de Brasília.


MAIO de 2012:

Dilma tem uma medida provisória aprovada no Congresso Nacional, conseguindo a nomeação de dez notáveis sob a batuta do Sr. Sarney, para um ministério tampão, enquanto se investiga o que levou ao vazamento do tema da fatídica redação tirada no sorteio CEF/ENEM.


JUNHO de 2012:

Sarkozy, Ângela Merkel e Obama visitam o Brasil. O Congresso, por unanimidade, aprova a medida provisória transferindo o Governo Federal e sua equipe para Campina Grande - PB e Caruaru – PE, a fim de comemorar e mostrar aos nobres visitantes o maior São João do Mundo.


JULHO de 2012:

Ministério Público entra no STF com uma representação contra as empreiteiras contratadas pelo Governo Federal. O farto volume de documentos que pesa aproximadamente quase 200 quilos comprova, de forma irrepreensível, um superfaturamento em torno de 40% em todas as obras dos estádios brasileiros, sedes dos jogos da Copa do Mundo.


AGOSTO de 2012:

Numa reunião muito tumultuada, os representantes da FIFA foram humilhadamente ovacionados (chuva de ovos) quando decidiam a transferência da Copa do Mundo 2014, do Brasil para os EUA, devido ao não cumprimento do cronograma pré-copa. Neymar, Ganso, Galvão Bueno, Pelé, Ronaldinho e Ricardo Teixeira são consolados ao chorarem copiosamente diante das câmaras de TV. O país da “bola” está consternado, com bandeiras hasteadas a meio pau. “Que vergonha!” ― é o que mais se ouve nos meios de comunicação.


SETEMBRO de 2012:

Dilma sobe nas pesquisas de opinião, após o congresso aprovar a reforma política dissolvendo os partidos nanicos. É a volta do bipartidarismo: os “Contras” e os “a Favor”, isto é, os do “bem” contra os do “mal”, no mesmo molde como funciona nos EUA, entre “democratas” e “republicanos”. Já dizia o sábio bíblico, Salomão: “nada há de novo debaixo do sol”. Então, não custa nada lembrar os velhos tempos da ARENA e MDB.


OUTUBRO de 2012:

Governo reprime com força total o movimento pela legalização da corrupção que começa a pipocar nas grandes capitais. São presos três grandes empresários que confeccionaram mais de dez milhões de camisetas com o logotipo − “LEGALIZE-SE JÁ”.


NOVEMBRO de 2012:

Congresso aprova medida provisória que estende as UPPS do Rio de Janeiro a todas Capitais do país, onde o crescente movimento pelo “legalize-se já” faz perigar a segurança nacional.
Governo estimula o povo a poupar: os juros da caderneta de poupança passam a ser, agora, de 0,4% ao mês. Os juros do cartão de crédito baixam de 25% para 24%, ao mês. Os banqueiros festejam.


DEZEMBRO de 2012:

Todos Papais Noéis do mundo concentram-se no Brasil para comemorar a subida do país da “piada pronta” no ranking dos quatro gigantes do BRIC (bloco composto por Brasil, Rússia, Índia e China). Este posto foi alcançado, graças ao empréstimo brasileiro(sem juros) de 50 bilhões de dólares para o FMI sanar o déficit do seu caixa com a crise do EURO. O ministro, Mantega, comemora com pulos e  urros o grande passo do país rumo ao primeiro mundo.
Os habitantes de Teresópolis, Nova Friburgo, Niterói e adjacências saem às ruas para cobrar do governo as habitações e outras melhorias prometidas depois da devastação e dos desmoronamentos ―, conseqüência da inépcia dos poderes públicos ante as enchentes largamente previstas pela meteorologia na região, em 2010.


P.S.: Qualquer acerto no rol das profetadas proferidas, não será mera coincidência. (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de dezembro de 2012

Site da Imagem: seraquefreudexplica.blogspot.com 

24 dezembro 2011

NATAL É POESIA






Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo,
e muitíssimo agradecida por estar vivendo.
Foi quando teve o pensamento
de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis,
e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes,
e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida,
e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes.
Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer
e morar num caixote à beira da estrada.
Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida,
um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite
e se maravilha.
Chama seu compadre de infortúnio:
“vem cá, homem,
repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este!”
“Para isto vale nascer”.



P.S.:  Este maravilhoso excerto poético, foi extraído do livro "Filandras", de Adélia Prado − Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, pág. 119.

 Por se encaixar muito bem dentro do espírito do Natal, é que decidi dedicá-lo aos meus familiares e amigos da blogosfera.
Tenham todos, um Feliz Natal.



Site da imagem: rofonseca.com

19 dezembro 2011

Uma Canção Nostálgica



Sabemos que é através das primeiras músicas percebidas, que as crianças entram em contato com seus sentimentos e valores interiores: amizade, amor, perda, medo e saudade. As modinhas infantis guardadas na memória do adulto ainda têm a função de apaziguar as forças conflitantes de sua alma paradoxal. São elas que amansam a criança chorona que guardamos no peito.

Era um menino bem pequeno. Na semana que antecedia o Natal, lembro-me bem, os católicos, que eram quase todos da minha rua, ficavam circunspectos, ante o canto dolente da Ave Maria, de Gounod. Essa bela sinfonia era difundida pelos auto-falantes das ruas de minha pequena cidade, sempre às dezoito horas, quando o sol poente por sobre as serras espargia seus mortiços raios, anunciando o fim do dia.

Era justamente nessa época do ano que essa indescritível melodia reverberava com mais intensidade em minha alma, pois me fazia evocar a história bíblica de uma pobre Maria em dores de parto, ao lado de seu esposo. Maria, a marginalizada, que por fim, teve de se abrigar em uma cocheira junto a animais, num longínquo mês de dezembro, para dar à luz ao menino Jesus.

Mas havia uma canção que, na época do Natal, me tocava mais profundamente, e, que os antigos rádios de válvulas difundiam, também, ao chegar da noite. Tratava-se da canção Canta Maria, que Ari Barroso compôs em 1940. Se eu não me engano, esta foi uma das primeiras músicas a infundir melancolia e nostalgia no verdor dos meus anos.

A musicista e cronista Fernanda Takai, em seu recente show, deu uma roupagem mais intimista a essa nostálgica e serena modinha, que achei maravilhosa. Creio que os de minha época, não deixarão de ser tocado pelo penetrante tom melódico e suave que dela irradia. A dolente canção Canta Maria, parece evocar as cantigas de ninar do meu tempo. 
Ouçamos:


Site da imagem: aquimera.com

https://youtube/v6f0DlZD3kw
Por Levi B. Santos
Guarabira, 19 de dezembro de 2011

09 dezembro 2011

Ali Bem Perto do Rio Jordão




O Rio Jordão, onde os evangelhos contam que Jesus foi batizado, deságua no Mar da Galileia junto a pequenos rios que descem das Colinas de Golan (antes denominadas, Colinas da Síria). As Escrituras narram que foi ali nos arredores do mar da Galileia ou lago de Genesaré, a poucos quilômetros da Síria, que Cristo teria recrutado quatro dos seus doze apóstolos, para uma missão que duraria três anos.

O solo dessa região faz parte do “crescente fértil” ― a antiga Mesopotâmia ―, terra “maldita” e “sagrada” de deuses antagônicos que, desde os tempos de Noé, vem sendo alimentada e encharcada com o sangue dos seus descendentes em conflitos infindáveis.

Ao introjetar em suas mentes um deus que exclui o diferente, três religiões e muitos profetas transformaram a região considerada o berço da civilização, em um verdadeiro inferno. Mas os cruzados, de ontem e de hoje, não entendem que os inimigos aos quais desejam destruir, são apenas “espelhos” que refletem o próprio “lado mal” de sua natureza. Que bom seria se eles pudessem conceber a fé religiosa como um diálogo entre o homem e seus próprios “sentimentos de dependência”. Quão bom seria se, a invés de repelir uma parte inerente de si, o religioso entendesse que o dinamismo da alma, gira, graças aos dois pólos opostos intrínsecos da natureza humana.

Por felicidade, os poucos e frágeis momentos de paz entre os povos desse inóspito e cálido deserto têm funcionado como um “oásis”, como um bálsamo fugaz entre fratricidas, naquilo que nesses 2.000 anos de história, resumiram em uma palavra que nem eles acreditam mais — Armistício.

Ao invés da paz interior entre os nossos afetos opostos, pregada pelo pacificador, cognominado como o Messias ― Jesus Cristo, filho do casal Maria e José ―, o que se vê, é o que Freud denominou de “instinto de morte ou destruição”, uma carnificina provocada pelo fanatismo religioso inconseqüente, em que cada grupo de guerreiros ferrenhos rivais crê que fala e luta por Deus.

O jornalista e sociólogo, Ali Kamel, em seu livro “Sobre o Islã” (Editora Nova Fronteira), disse uma verdade insofismável: “para os extremistas religiosos desse deserto fértil, não há diferença entre matar dezenas, ou morrer para matar milhares”

Desta vez, é a Síria (Capital – Damasco) que está em guerra civil que na semana passada atingiu o seu ápice. O cientista político carioca, Paulo Sérgio Pinheiro, que comandou uma equipe do Conselho de Direitos Humanos da ONU para investigar a situação nessa região, dá conta de que, 4.000 pessoas, dentre elas 307 crianças entre dois e catorze anos foram cruelmente torturadas antes de serem assassinadas. (leia aqui a reportagem)

Paradoxo dos paradoxos: muitos, nessa época, extasiam-se percorrendo os embelezados shoppings decorados com temas natalinos, ficam deslumbrados com o espetáculo das luzes coloridas que piscam, ininterruptamente, nas noites engalanadas de suas cidades, encantados com os Papais Noéis que fazem a alegria da garotada do mundo ocidental, a deslizar em trenós entre artificiais estrelas cintilantes e gigantescas árvores da Natal. Enquanto, ali, bem perto do Jordão (rio considerado sagrado pelos cristãos), o que está a ocorrer não é um solene batismo nas águas, como foi o de Cristo ― personagem principal de uma tão sonhada fraternidade entre judeus e gentios ―, mas um batismo de sangue de inocentes crianças que nem ao menos sabem por que estão morrendo.

Relatam os evangelhos que sobre esse Homem sofredor, pesaram os anseios de um povo por um messias que restauraria Israel do jugo Romano. No mais íntimo do nosso ser, ainda reverberam as palavras desse Homem que, lá do alto de um monte, ao avistar a Jerusalém das classes dominadas, entre lágrimas de impotência, fez ecoar: “Quantas vezes eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta os pintinhos seus debaixo das asas, e tu não quiseste”


Ali, na Síria, bem perto do Rio Jordão, onde o intitulado “Filho do Homem”, de 30 anos de idade, iniciava seu périplo em prol da paz e da fraternidade entre as gentes de um mesmo sangue, neste momento, o governo do tirano e insano Bashar Assad, está a metralhar o seu próprio povo nas ruas e nas praças, num quadro não tão diferente daquele do início da era cristã.

Apesar de ter sucumbindo com requintes de extrema brutalidade aos 33 anos de idade, o Homem de Nazaré deixou um legado de vida, que fendeu a História em dois períodos: “Antes” e “depois” Dele.

De Jesus, se diz que sofreu a oposição do espírito de sua época. Tenho uma leve impressão de que o espírito transvestido de natalino, que no mês de dezembro move o mundo ocidental, é o mesmo que incomodou João Batista e o Homem de Nazaré.


P.S.:

Bateu-me uma imensa vontade, e eu não resisti à tentação de, duas semanas antes da ceia íntima e familiar do próximo dia 24, compartilhar com os amigos, um vídeo de Arnaldo Jabor, que trata de mais uma reedição do insolúvel e violento conflito que agora, tem como palco a Síria, ali, bem perto do rio Jordão, onde o filho do carpinteiro José, foi batizado pelo destemido João Batista ―, profeta que mais tarde foi degolado por não compactuar com o corrupto rei Herodes.




Por Levi B. Santos

Guarabira, 09 de dezembro de 2011


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Site da imagem 3: http://veja.abril.com.br

04 dezembro 2011

“Ateísmo 2.0” ― Reaviva o Sentimento “Religa-re”

O filósofo Alain de Botton na escadaria da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (foto: Orestes Locatel)


O escritor e filósofo ateu, Alain de Botton, natural de Zurique (Suíça) afirmou, recentemente, que o mundo necessita urgentemente de um “ateísmo 2.0”, que deixe de lado a luta histérica para provar que Deus não existe, a fim de tirar proveito do que as religiões têm a oferecer.No seu best seller, “Religião Para Ateus”, lançado esse ano pela editora Intrínseca, ele propõe um resgate de tudo que a religião reivindicou como domínio exclusivo de sua área que deveria pertencer a toda humanidade.

Para exemplificar o seu intento, afirmou: “o que existe de melhor no Natal gira em torno de temas da comunidade, festividade e renovação que, na sua ótica, antecedem o contexto em que foram colocados ao longo dos séculos pelo cristianismo”.

Em uma recente entrevista à revista VEJA, Alain de Botton, quando perguntado por que achava que os ateus estavam exagerando no intelectualismo e na racionalidade, assim se expressou:

“O ponto de partida das religiões é que somos crianças e que precisamos de orientação. O mundo secular em geral se ofende com isso. Essa postura ofendida pressupõe que todos os adultos são maduros e devem odiar o didatismo, a orientação e a instrução moral. Mas é claro que somos crianças, grandes crianças que precisam de orientação, de guias que nos lembrem como devemos viver, embora o sistema de educação moderna negue isso, ao nos tratar como seres demasiadamente racionais, razoáveis e controlados. Nós somos muito mais desesperados do que o nosso sistema de educação reconhece. Todos estamos à beira do pânico e do terror quase todo o tempo – e a religião reconhece isso”.

No livro “Religião Para Ateus”, ele descarta os dogmas e o sobrenatural, mas faz uso das ferramentas empregadas pela religião para mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular.

Há descrições ousadas, como esta de retirar da missa e dos cultos elementos para imaginar como deveria ser o modelo do seu restaurante comunitário, que cognominou deÁgape:

“Tal restaurante teria uma porta aberta, uma modesta taxa de entrada e um interior projetado para ser atrativo. A distribuição dos assentos romperia os grupos e as etnias em que normalmente nos segregamos; parentes e casais seriam separados e amigos seriam favorecidos em detrimento de familiares. Todos teriam segurança para se aproximar e dirigir a palavra sem medo de rejeição ou censura. Pelo simples fato de ocuparem o mesmo espaço, os convidados estariam — como em uma igreja — sinalizando sua adesão a um espírito de comunidade e amizade. A proximidade exigida por uma refeição — algo que tem a ver com passar as travessas para os outros, pedir o saleiro a um desconhecido — perturba nossa capacidade de nos agarrar à crença de que estranhos que vestem roupas incomuns e falam com sotaques distintos merecem ser atacados ou mandados para casa [...]. [...] Graças ao restaurante Ágape, nosso medo de estranhos diminuiria. O pobre comeria com o rico, o negro com o branco, o ortodoxo com o secular, o bipolar com o equilibrado, trabalhadores com gerentes, cientistas com artistas.” (Religião para Ateus – páginas 37 e 40).

Freud, foi um que pretendeu, talvez de forma inconsciente, purificar a religião de suas impurezas. Ao sustentar o objetivo do desenvolvimento humano amparados nos seguintes ideais: razão, verdade, logos, amor fraternal, estava, na verdade, corroborando com os princípios éticos de todas as grandes religiões, quer orientais, quer ocidentais, baseadas nos ensinamentos de Confúcio, de Buda, dos profetas e deJesus.

Jung, por sua vez, tratou de transpor para a linguagem psicanalítica, a experiência religiosa de submissão a um poder superior, sucedâneo do pai natural, que no caso da religião é simbolizada por Deus, Javé, Buda, etc, naquilo que foi denominado por ele de"arquétipo patriarcal".

Auguste Comte quis fundar uma religião que não se agarrasse às tradições eclesiásticas, descartando alguns dos seus elementos beligerantes, ao mesmo tempo em que se aproveitou dos aspectos mais relevantes e racionais da Eclésia, para utilizá-los em sua excêntrica teoria.

No fundo, no fundo, não vejo outra coisa em Freud, Jung, Comte e no novato Alain de Botton, que a presença do nobre sentimento RE-LIGARE, afeto este, exteriorizado pela preocupação em compreender as experiências interiores do homem religioso e sua necessidade de rituais de limpeza, cuja finalidade é a de reduzir o próprio sentimento de culpa internalizado em seu ser.

Erich Fromm, discípulo de Freud, certa vez, dissertando sobre o sentimento religioso, disse: "Se focalizarmos nossa atenção na compreensão da realidade humana que preside às doutrinas religiosas, verificaremos que a mesma realidade serve de alicerce a diferentes religiões, e que atitudes humanas opostas se ocultam atrás de uma mesma religião. Por exemplo, a realidade emocional que preside aos ensinamentos deBuda, de Isaías, Cristo, Sócrates e Spinosa, é essencialmente a mesma; o anseio pelo amor, a verdade e justiça caracteriza-a" (Psicanálise e Religião - páginas 77 e 78).

Ora, bem sabemos hoje que, o anseio de paz, de fraternidade e de comunhão entre os diferentes, são ressonâncias de um desejo primitivo de RE-LIGAÇÃO ao "Éden idílico"impresso na gênese de nossa formação (real conceito de religião). Esse sentimento indestrutível arquivado indelevelmente na memória tanto do ateu, quanto do não ateu, como um motor, está sempre funcionando no sentido de expandir os anseios e desejos humanos por um mundo melhor e mais justo.



Levi B. Santos
Guarabira, 04 de dezembro de 2011