24 março 2007

FRAGMENTOS DE UMA FOTO-ANÁLISE





Ligo o velho computador, que já conta com mais de sessenta a nos de uso, e tento resgatar fatos registrados em sua memória há cinqüenta e cinco anos. Porém, o cérebro ─ esta máquina eletrônica criada por Deus ─, trava, destrava, trava de novo, esquenta. Enfim, conformo-me com os pequenos e significativos fragmentos colhidos com muito esforço.

Olho e observo detidamente por longos minutos a foto encardida pelo tempo. Não há como negar, que é a expressão facial, o que chama de imediato a atenção. Não é preciso ser psicanalista coisa nenhuma, para identificar a mensagem que os olhos da foto transmitem: MEDO e DESASSOSSEGO.

Algo como uma lufada de vento frio e penetrante, refresca a minha mente, abrindo-a para ver e sentir a verdade do meu ser, captada em frações de segundo naquela foto de 1951. O meu verdadeiro “eu” estava ali exposto através do olhar inocente dos meus verdes cinco anos de idade. Menino pobre, e ao mesmo tempo rico de estranhos sentimentos, cujos olhos, a maneira de uma navalha, rompia o envoltório da carne, para retratar a solitária agonia que ia dentro da alma. Ali naquela foto, a minha atitude expectante de uma medrosa obediência, decepcionou por certo a platéia que assistia ao espetáculo, constituída por meu pai, minha mãe, uma tia que me serviu de babá nos meus primeiros anos de vida, e o velho e rabugento fotógrafo com sua geringonça em forma de caixa de engraxador de sapatos sustentada por um tripé.

Quanto atraso! Naquela idade ainda não aprendera a posar para uma foto. Isto é, não sabia representar para um público ávido de imagens fabricadas. Hoje, uma criancinha de dois anos de idade, mesmo com um coração vazio, sem querer, e atendendo aos pais, sabe esboçar muito bem um sorriso de alegria, frente a uma câmera digital.

Há algumas semanas, minha velha mãe ao observar a antiga e encardida foto, dizia para mim:

─ Eu me lembro. Estavas com muito medo do “lambe-lambe”.

“Lambe-lambe”, era como se chamava popularmente o tirador artesanal de fotos, que saia de casa em casa oferecendo seus serviços. Acho que ele tinha esse nome, por lamber os dedos, enquanto reproduzia a foto em uma bacia com água e emulsão química. A geringonça de produzir imagens tinha a cor preta, com uma cortina de pano preto em forma de fole onde o fotógrafo enfiava a cabeça, e um bisaco também preto, onde ele metia o seu braço e a sua mão direita para bater a foto. Aqueles panos pretos me metiam muito medo, pois se assemelhavam a uma mortalha.

Quinze dias após aquele sofrido dia, em que expus para os outros um sentimento que tinha tudo, menos alegria e satisfação, chega o “lambe-lambe” com a foto ampliada. Foto esta, recebida com desgosto, pois ali, não estava o retrato de uma criança alegre, que os meus pais tanto gostariam de ver e mostrar aos amigos. Ali, estavam as ruínas de uma infância remota cercadas pelo medo, que não podiam ser mais reparadas. Eu suponho, que os meus pais viram nesta foto a imagem de um menino ausente, constituída de estranheza e timidez, como uma estátua construída de pedra e cal, mais reveladora do que encobridora.

Cá estou eu, o sessentão, olhando de novo a velha e surrada foto. Recolhendo do baú da memória, fragmentos perdidos de um tempo em que fui mimado como objeto de desejos dos meus pais que tanto ansiaram pelo nascimento do primogênito. De inicio, eles desejaram cores fortes, mas só recolheram sombras. Enquanto eu morria de medo na claudicação intermitente dos primeiros passos, eles riam de prazer do meu cambalear incerto. Fui forjado no caldo dos sentimentos verdes e imaturos de duas crianças (adultos), que no frescor de seus vinte anos se tornaram pais.

A fotografia revela claramente a teimosia do meu semblante, expressão real de quem não pôde corresponder ao que os jovens pais tanto esperavam. Contudo, resta o consolo de ter estampado ali, a fiel imagem de quem se sentia realmente desamparado, triste, e ameaçado por temores vindos não sei de onde. Se hoje, neste teatro que é o mundo, sou forçado a representar, não posso negar que naquela foto ficou registrado o meu verdadeiro “eu”: todo bem vestidinho, de sapatos da moda e meias de linho como quem vai para uma festa, porém, desejoso de fugir urgentemente daquele perigoso ambiente. Com um ar de quem está contrariado, ao ver a sua alma sendo captada pelo “lambe-lambe”, para uma posterior exibição de sua tristeza emoldurada.


Crônica de Levi B. Santos. (Guarabira, 23 de Março de 2007)

17 março 2007

DO ANZOL PARA O AQUÁRIO







O desejo do homem de esquadrinhar o que existe no interior do outro, é tão forte, que ele chega a esquecer do seu próprio coração. E numa ânsia ousada, luta para tomar posse do outro, quando muito mal cuida dele próprio. Esse homem não é senhor de si, mas quer ter a certeza do destino do seu semelhante. Ele diz para si mesmo: “Eu já estou seguro”. Ao olhar para o outro que lhe serve de espelho, tranqüiliza-se, pois vê nele a sua própria imagem refletida.

Agora, o espelho quebrado, já não reflete mais a imagem ilusória de duas almas em um só corpo. Ele se entristece e se indigna ao contemplar aqueloutro que outrora, de tão parecido em idéias, pensamentos e costumes comportava-se como se fosse o seu duplo. E esse homem, ao invés de se contentar em viver aprendendo com as diferenças, junto com aquele que lhe é agora estranho, procura por todos os meios torná-lo um igual.

Esse homem se vê só e perdido. E para sair de sua solidão, resolve reconstruir o templo, consertando o véu que foi rasgado de alto a baixo por Cristo. Este véu reparado volta a esconder um altar, que não havia mais razão de existir. É lá neste altar refeito, que ele se sacrifica a fim de afugentar os seus medos e temores.

Ele não sabe, ou faz de conta que não sabe, que o “muro” que separava os de pensar diferentes, como os judeus e os gentios, foi derrubado para que ele pudesse compreender seu próprio ser, na estranheza do outro.

Esse homem não visita mais o livro do Gênesis, pois não gosta de “museu”. Não entende, que lá nos primórdios da criação, Deus deixou um ser diferente dele, chamado EVA, para que ele pudesse iniciar o “jardim da infância” do aprendizado com as diferenças. Porém, o que este homem adora, é fazer do outro “objeto” de seu desejo.

Ele quer a todo custo retomar a posse daquele que era o seu espelho. Então, ao avistar aquele que era o seu duplo, abre a boca e dá uma “profetada”, dizendo que é por amor. Com a mão em punho, dá um soco no ar e o ameaça: Tu virás, nem que seja pelo “anzol”.

Pobre “pescador de anzol”. Esqueceu que a pescaria que Cristo ensinou a Pedro, era de rede. Que insanidade, pescar almas aflitas com anzol. Pedro até que tentou este tipo de pescaria, fazendo das minhocas dos gentios, iscas para o seu anzol, de cuja vara pendia uma linha frágil chamada “circuncisão”.

Esse homem aprendeu esse tipo de pescaria, com os “fariseus”.

As iscas dos fariseus eram de imitação. Eles se acostumaram a pegar aqueles peixes incautos, que tomados pela fome dos olhos, não enxergavam a arma letal que se escondia por dentro da isca. Os peixes mais belos eram retirados ainda vivos dos seus anzóis e colocados em “aquários”, cujas paredes denominavam de “doutrina”. E ali, os pobres peixes ficavam a nadar na insípida água de seu novo templo, chamado tanque, ou aquário ─ , representação esdrúxula do real oceano criado por Deus.

Esse homem fica horas, e mais horas, estático, diante destes “templos-aquários”, apreciando os movimentos estonteados dos peixes a se baterem contra as paredes de vidros (doutrinas), numa tentativa inútil de se livrar da prisão onde foram confinados. Esse homem, no entanto, ignora que eles, os peixes, foram violentados com a perda da liberdade.

Esse homem, ou é surdo, ou faz ouvidos moucos para o que Cristo está a bradar:

─ Atenta-te para me ouvir ó insensato homem! ─ Eu vim ao mundo para encurtar a distancia entre ti e o meu Pai. Não quiseste; preferiste erigir um púlpito, ou altar para ficar bem distante de mim. Eu vim para conversar contigo, como os irmãos fazem a hora do jantar, sentados ao redor de uma mesa. Eu queria te tratar como a um irmão, e não ser adorado e temido como um ídolo. Queria te ver vestido na simplicidade dos comuns, mas preferiste paletó e gravata. Os pequeninos têm medo de se aproximar de ti, pois estás muito diferente com esta vestimenta e, além do mais, coberto por um véu que eu já tinha rasgado de uma vez por todas lá na cruz do “calvário”. Soerguesse de novo o altar que foi destruído com o templo, para adornar o teu céu ficcional com os inocentes peixinhos, criados por meu Pai para serem livres. Esqueceste, que a maldição da força do “anzol”, eu quebrei lá na cruz. Agora, abre os teus olhos, e recolhe o teu anzol. Quebra os teus aquários, e devolve estes peixes ao meu mar, de onde nunca deveriam ter sido violentamente tirados.

SE O FILHO VOS LIBERTAR, VERDADEIRAMENTE SEREIS LIVRES. (João 8,36)

04 março 2007

A REDE do MEIO-DIA na CASA de MINHA MÃE


Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a idéia de que “a vida é um eterno retorno”. Pois o tempo gira, gira, gira, e nos leva sempre ao mesmo ponto de partida. No meu caso, esse "eterno retorno" nada mais é que uma espécie de  mergulho que faço em meu passado remoto. É de lá que trago à tona fatos marcantes e prazerosos de um tempo idílico que indelevelmente ficaram gravados em minha memória afetiva.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, esse aposento ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos de idade.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dava o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas nunca ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, falavam por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “ Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?

Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço deitado em minha rede vêm do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castigava há muitos anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias de doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado e meio dormindo, vou ouvindo seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

─ Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas vai desfilando suas queixas:

─ Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui...

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo em meio ao cansaço:

─ Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E assim, bem junto a minha rede, após o almoço, ela vai desfiando, um por um, seus     queixumes, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

─ Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─, continua falando minha mãe.

Essa sua ultima queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, e falo sério para ela:

─ A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, minha mãe se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

─ Já são quase duas horas da tarde, meu filho! Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba e café com biscoito “delicia” lá na mesa!

O cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde, nunca abandonou. No horário exato dizia: “levanta”! E eu, preguiçosamente saía em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participava desse rito médico-sentimental. Às vezes o sono era tão forte, que dormia eu em minha aconchegante rede e dormia de sono solto a minha velha mãe ao meu lado em uma cama de solteiro. Éramos acordados pelo toque irritante de uma antigo telefone de cor preta. Corra meu filho a atendente avisou que a fila para atendimento está pronta! ─, gritava minha mãe com ar de preocupação. 

Ligeiro, como um raio, me dirigia a passos largos em direção ao ambulatório do Hospital da FSESP de Alagoa Grande, que ficava a uns duzentos metros da velha casa de minha saudosa mãe.


Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007

26 fevereiro 2007

O APRENDIZ DE VIOLÃO E O SEU MESTRE (in memorian)

José Gonçalves no Pão de Açucar - Rio de Janeiro - 1957








Eu sempre gosto de ficar no terraço da casa de minha mãe, por alguns momentos, olhando o tempo e as pessoas passarem, toda vez que visito a minha cidade. Em uma dessas minhas visitas fui testemunha de um resto de conversa jogado fora por dois velhinhos que se encontraram casualmente bem junto a mim, ali na calçada. Achei bastante interessante e de grande significação, aquele adágio popular, citado por um deles: “quem de moço não morreu, de velho não escapa” Refleti muito sobre este velho ditado, sobre a verdade e a certeza que ele encerra.
No apertado terraço da casa de mamãe, onde estava vendo aqueles dois velhinhos conversando, jamais passou pela minha mente, que ali mesmo, após alguns dias, receberia a notícia da morte do mestre e amigo José Gonçalves (esposo de minha tia Alice, por parte de pai).
Ultimamente tenho perdido amigos mais velhos do que eu, que foram marcos referenciais na formação de minha personalidade. José Gonçalves foi um deles.
Ele esteve sempre presente em minha memória, desde o tempo em que tinha meus sete ou oito anos de idade. Toda vez que pego do meu violão, vejo a criança que fui, de olhar circunspeto e corpo estático, completamente extasiado observando o mestre José Gonçalves na sala de sua casa, que ficava defronte a minha, na rua 13 de Maio, em Alagoa Grande, dedilhando garbosamente o seu violão e cantando com sua melosa voz de barítono, o seu predileto hino em “Lá menor”. Foi ele que incutiu em mim o gosto pela música e pelo violão. Não conto as vezes em que eu o ouvia lá de minha casa, cantando com sua voz forte e carregada de emoção, o poético hino ao som do seu velho violão. Tenho guardado na memória um trecho desse hino, que diz mais ou menos assim:


“Em trevas medonhas, vivi no mundo a vagar...
Meu barco sem leme, veio a mim um grande temporal...
Um leme novo me deu. Colocou no meu barco uma luz.
Que nunca se apagará, em todas as trevas ele há de brilhar..."

Este cântico tornou-se a marca registrada dos encontros musicais que faço atualmente com o meu filho George. Essa melodia saudosa de letra poética, creio eu, fez moldar o meu gosto pela música em tom menor.
Nos cultos de domingo, na igreja, quando ouvia o pastor anunciar: “vamos ouvir um hino pelo irmão José Gonçalves”, devido a minha pouca altura de menino, eu ficava na ponta dos pés, me empertigando todo à frente dos adultos, a fim de ver o “mestre” cantar e tocar aquele belo cântico. Lembro-me bem, que ele sempre usava nestas ocasiões um terno de linho branco bem engomado, contrastando com o seu violão de cedro reluzente, que tinha as laterais do bojo na cor de vinho tinto. Este instrumento fora feito com todo o carinho pelo marceneiro e exímio tocador de “cavaquinho” José de “Sinda”(esposo de minha tia Elcina ─ irmã de meu pai ).
Em meados do ano passado, já cansado pelo peso da idade, com o corpo desgastado pelas doenças que o afligiam há um bom tempo, resolveu fazer a que seria a sua última visita a Alagoa Grande ─ cidade de seu coração.
Lá no terraço exíguo da casa de minha mãe, conversamos por alguns minutos. Na oportunidade cantei baixinho para ele uma estrofe do velho hino. Notei que ele acompanhava o compasso da música, com os dedos tamborilando sobre os joelhos. Parei de cantar quando vi os seus olhos banhados em lágrimas. Só Deus sabia o que se passava em nossos corações. Naquele nosso último encontro faltou o velho companheiro “violão”.
Parafraseando o saudoso hino, agora posso dizer: “Deus colocou no seu barco uma luz que nunca se apagará”.

Ao mestre, com saudades.
Do seu grato aprendiz ─ Levi.


Guarabira, 26 de Fevereiro de 2007

21 fevereiro 2007

ADEUS POR UM INSTANTE





Não fui para o enterro de meu avô, nem vou a funeral algum. Já disse aos meus pais que se meus olhos não se fecharem primeiro para eternidade, não irei sepultá-los. Digo isso não por maldade, egoísmo ou desamor, mas porque quero sempre estar com fresca memória da imagem das pessoas “vivas” em minha mente. E ainda que alguém vocifere: “Mas e as últimas homenagens?”. Devo dizer que depois da morte, a vida física acabou, e segue-se o juízo. Por isso, as homenagens devem ser prestadas em vida. Infelizmente terei de comparecer ao meu enterro, deste não posso mesmo escapar.

Meu avô Alcides era austero. Era rispidamente sério, e às vezes, com carranca de meter medo. Mas de quando em vez, se transmutava num impagável contador de “causos” engraçadíssimos. “Causos” estes que não só arrancavam risos da platéia encantada, porém que também o divertiam muito e amiúde. E era nessas horas que ele deixava escapar um sorriso maroto que se desenhava furtivo em seu rosto severo.

Nunca me esqueço de que logo que entrei na Academia, no primeiro ano, um professor de português, do curso de Direito, nos trouxe um texto para ser estudado e qual foi o meu espanto ao deitar os olhos sobre o papel. Era a história de São Saruê, tão soprada aos meus ouvidos pelo meu avô nos meus tempos de infante. A história da terra dos rios de leite, dos montes de carne assada, do chão de tapioca e beiju ... e por aí ia. A história eu conhecia bem de tão contada e recontada. Grande foi o meu espanto ao vê-la escrita, datada e assinada. O que para mim não passava de uma fábula perdida na noite do tempo, estava ali com toda riqueza de detalhes que só eu conhecia, e ainda mais, era de um tal de Camilo não sei das quantas, de Guarabira. Hoje eu sei que foi meu avô, muito travesso, que criou toda aquela maravilhosa alegoria que confunde-se com a história da gastronomia regional( aliás, que ele amava tanto). Com um pseudônimo teceu o fabuloso conto, tudo bem escondido e publicado na surdina, e que somente agora eu descobrira, só para embevecer e embalar a imaginação dos netos ávidos pelas suas histórias fantásticas. Esse conto de São Saruê nunca me saiu da cabeça. Uma rica herança de meu avô.

Meu octogenário avô já não fazia anos, ele simplesmente durava. Do alto da ladeira onde se fincava inscrustada a sua casa, ficava ele, sempre imponente, sentado em sua cadeira antiga, a contemplar o imenso “mundo de meu Deus”, o seu mundo “sem fim”. Era ali sentado que mostrava uma face de sua personalidade que muito me chamava à atenção, a Valentia. Ainda que mutilado pela praga da enfermidade que lhe consumia a alma e carcomia incessantemente suas carnes, meu avô era valente em todas as acepções da palavra. Ali sentado dizia que ia fazer e desfazer. Mandava e desmandava. Do alto de sua imobilidade era ágil com as palavras. Desconstruía o mundo e resconstruia tudo a sua maneira, ao seu sentir. Quixotesco, lutava altivo contra seus moinhos de vento, fazia ali suas revoluções e derrubava impérios. Era opinioso. Argumentava muitas vezes com bravura, braços ao ar. Tinha convicções fortes, posicionamentos duros, algumas vezes puerilmente conflitantes e um coração frouxo para as lágrimas que lhe chegavam rápido a qualquer emoção, por menor que fosse.

Mas como eu disse, sempre valente. Valente por ter de enfrentar tão cedo a tragédia de uma diabetes que o privou de tantos prazeres. Uma doença que lhe trouxe dissabores terríveis, ceifando alegrias indizivelmente honestas, como comer a se fartar de tudo que é doce e gostoso, ou de uma boa caçada no meio do mato, ainda que não pegasse nada, só pelo prazer de sentir pisar a terra, sentir o cheiro do mato ... Isso ele não fazia mais. E se fazia era sempre “carregado”, “levado”... Não! Meu avô que era homem de “independências” nunca aceitou de bom grado ser “carregado”, era homem demais para isso. Sempre resolveu tudo com a força de seus braços. Manteve mulher e filhos em épocas difíceis, assim como na natureza, cumpriu o papel do macho a proteger as crias, buscar o alimento... Esse era o meu avô-provedor.

Certamente, grandes traços de sua personalidade se explicam, ao se observar suas grandes frustrações diante das lutas a que teve de sobreviver. Perdeu no desabrochar do amadurecimento da vida, grandes deleites que podia ter desfrutado com a esposa, os filhos, os netos... Assim como esta carta, sua vida foi repleta de reticências cruéis, porém, apesar de tudo, sempre enfrentou as intempéries com soberba valentia. Era tão valente que só deixou a vida quando realmente desistiu da vida. Porque enquanto quis viver permaneceu guerreiro, resistiu ao furor das mais tenebrosas borrascas e sempre sobreviveu. Meu avô teimava em viver.

Minha já desgastada memória de concurseiro, abarrotada de artigos infindáveis, decorados a duras penas, não me permite mais lembrar de muita coisa sobre o meu avô. Porém, me lembro agora de algo que era sagrado em sua casa, o café da tarde. Aquilo era praticamente uma Instituição. Meu avô se preparava todo para sair, muitas vezes com um de seus velhos bonés a tiracolo. Descia a íngreme ladeira e ia ao encontro das fresquinhas fornadas de pão da padaria que ficava bem perto de sua casa. Nós, os netos, ficávamos ansiosos esperando aquela tão aguardada hora da tarde, em que o nosso avô aparecia com o saco de pães quentinhos, prontos a nos alegrar o paladar. Na mesa, devorávamos rápido o café delicioso de minha avó Percides com o pão do vovô, e toda a comilança era embalada pela história de São Saruê, que nessas agradáveis horas da tarde o avô Alcides adorava contar.

Lembro-me agora também, de que uma vez meu avô inculcou de comprar um sítio, mesmo sob os protestos veementes de alguns parentes mais chegados. O velho sítio tornou-se em pouco tempo a menina dos olhos dele. A casa-grande era abastada de espaço, com piso de cimento grosso batido, selada com portões de madeira que serviam de albergue a um sem número de cupins órfãos. A casa era ladeada por um espaçoso terraço onde nos abrigávamos nas tardes quentes, e era cercada por “pés” de tudo.

Recordo-me especialmente de uns cajueiros e laranjais frondosos. Lá tínhamos feijão, macaxeira, entre outras culturas de que não me lembro bem, e uma “casa” de fabrico de farinha mandioca. Não é preciso muito esforço para lembrar-me da dolorosa ferroada que sofri de um marimbondo enfezado de um laranjal, me amargando um dos dias em que visitava o sítio. Comíamos galinha de capoeira guisada com “bolinhos” de feijão verde com farinha. Assávamos castanha em latões do lado da casa. Espetávamos milho pra’ comer bem tostadinho depois de assado na fogueira improvisada. Deitávamos no terraço da casa para a sesta refestelante ao sopro suave da brisa morna da tarde... Eu era muito menino, porém tenho algumas lembranças bem vivas... Ali no sítio meu avô se realizava. Era o mais feliz dos homens, e mais homem que qualquer outro homem. No SEU sítio meu avô era REI. Aquele era seu mundo, seu reino, sua terra mais genuína, seu remanso mais precioso. Ali estava inteiro de alma, sem qualquer máscara ou fingimento, na completude do seu ser. Em harmonia com a terra, com a natureza, com o “mato” bem verde. Até hoje eu acho que aquele sítio era mesmo uma extensão de meu avô...

Penso que meu avô Alcides tinha cabelos brancos de avô de verdade. Óculos antigo, pesado e grave, como todo avô que se preze deve ter. Tinha a fala rouca e brava para reprimendas, entretanto voz mansa e pastosa para as doces histórias contadas aos netos. Como todo avô de respeito, tinha reumatismo, dor nas costas, pente antigo, talquinho cheiroso, calçolão, espingarda enferrujada e roupa bem velhinha de que gostava vestir. Cadeira velha pra’ só nela se sentar; manias e esquisitices diversas que só o avô legítimo apresenta. Cochilo fora de hora, sonhos a valer, esquecimento e rugas que fazem um verdadeiro avô. Usava “chapa”, apetrecho aliás, que só o autêntico avô possui( e não se engane, dentadura de gente em que não falta um ou dois dentes verdadeiros, atesta que o cidadão não pode ser avô, ou é um embusteiro). Avô que é avô, conta história e aumenta um pouco a alegoria, puxa a brasa pra’ sua sardinha, e nisso meu avô era “craque”. Avô que é avô guarda a casa, bota os netos pra’ dormir, faz carinho tímido, meio que sem jeito; não desaba na frente da gente, chora escondido pra’ que a gente não veja; é fortaleza nas horas de angústia; é super herói de poucos movimentos, cabelos brancos, travestido de vovô; se levanta da cama com o sol raiando cedinho. Avô que é avô, é serio às vezes, outras é bonachão e irreverente. É engraçado e displicente, desajeitado. Umas vezes é carrancudo e teimoso, outras vezes é doce e terno. Umas vezes é de cismar em não ir, outras é “Maria vai com as outras”... E meu avô sabia ser tudo isso... E ir inventando e se reinventando... Como um avô de verdade deve ser...

Despeço-me de meu avô na esperança de revê-lo inteiro, de “corpo” e alma (ou espírito, como queiram), sem tristeza ou qualquer dilaceração dolorosa do passado, lá na Glória. Porém, enquanto caminho por estas terras áridas, sempre a acompanhar o encarquilhar do mundo, quero não apenas espelhar-me no exemplo de sua valentia, de sua coragem e atitude diante das agruras da vida, mas quem sabe mesmo sorver, como quem bebe um elixir ou uma poção, um pouco da bravura intrépida, valentia descomunal e da coragem singular que lhe inspirou uma vida inteira.

Adeus por um instante, meu avô.

De seu neto, George.

(Este texto é dedicado à memória de meu avô e a prima Eloisy, a quem ele tanto amava)


18 fevereiro 2007

LÁ SE FOI O VELHO ALCIDES






Iniciava o mês de dezembro de 2006. Em uma de minhas inúmeras idas a residência do meu velho sogro e amigo Alcides, senti um nó na garganta ao contemplá-lo num estado de sofrimento físico e mental intenso. Estava ali sendo consumido pela velha diabetes descompensada que lhe afetara a visão, os rins e o cérebro. Seu olhar era o de quem estava prestes a partir. Dirigiu-se para mim com os olhos marejados e a voz fraquinha embargada pela emoção: “Levi! Eu já me sinto um morto”. Vim saber por uma de suas filhas, que ele tinha falado que partiria em uma dessas festas de fim de ano.
O homem que tantas vezes enfrentara a morte, já vinha me surpreendendo há muito tempo em sua trajetória de enfermidades, saindo de situações críticas em várias entradas em CTIs. Perguntava para mim mesmo: “Será que ele não vai buscar forças para sair de mais um quadro grave, como este que estou presenciando?” A sua força de vontade de viver, até então, era muito grande, e eu achava que esse desejo intenso dele, em não se render às evidências médicas, era o fator primordial de suas muitas recuperações. Quantas vezes, eu não fui testemunha ocular dos difíceis momentos em que tudo apontava para um desenlace final, e ele surpreendentemente saía do “coma”. O homem realmente era imprevisível.
Naquele dia estava diante de mim um outro Alcides. Já sem forças para andar, para falar, e se alimentar com as próprias mãos. Resignado. Certo de que a sua passagem se daria até final do ano em curso. Eu, como médico, jamais ia concordar com este triste vaticínio. Lembro que na ocasião disse para ele: “Os pensamentos do homem não são os pensamentos de Deus, Seu Alcides!” “O Sr. Não vai morrer este ano”. Ao dizer estas palavras, recebi como resposta o seu olhar desapontado, que revelava mais a tristeza da finitude humana, do que a esperança de um dia poder em sua cadeira de rodas, conversar descontraidamente comigo, como fazia comumente no final das tardes dos dias em que estava de folga do meu trabalho. Naquelas tardes, quando a sua saúde ainda não dava sinais de que o seu fim estava próximo, eu me regalava ouvindo as suas aventuras contadas de uma maneira peculiar, que só ele magicamente sabia relatar. Eram histórias ditas com tantos e interessantes detalhes, que na minha imaginação parecia estar fazendo com ele uma viagem sentimental de volta no tempo, vendo com os olhos da alma o mundo encantado em que ele vivera em uma época distante.
Chegara o Natal. Foi no almoço tradicional deste dia, quando toda a família estava reunida em torno da mesa, que eu notei o semblante do velho Alcides Leite diferente. A alegria e a esperança voltaram a se estampar naquele rosto. Não podia alimentar-se com as suas mãos, mas estava feliz, com a sua filha caçula a levar o alimento a sua boca com um carinho todo especial. O desejo ardente de viver tinha novamente nascido em seu coração.
Subi a ladeira da Sta. Terezinha, entrei em sua casa, fui até o seu quarto e falei: “Estamos em 2007, Seu Alcides e o senhor ainda está aí contando sua história”. Aquilo que o senhor pensava que ia acontecer, era tudo produto da imaginação humana”. “Tá vendo ─ disse eu. A gente não sabe o dia da partida, só Deus é quem sabe.”
Daquele dia em diante ele passou a se sentir mais animado. Passou-me a responsabilidade de fazer o que fosse necessário em benefício de sua saúde. Inclusive de levá-lo para ser atendido por especialistas em João Pessoa. Estava até disposto, se fosse o caso, a ser hospitalizado no Hospital da Unimed. A partir daquele momento, lutou contra a morte por mais de quarenta dias. O diagnóstico de que os seus rins estavam quase paralisados, não o esmoreceu. Durante todo este período nunca reclamou nem se lamentou. Era um homem acostumado às dores. Afeito aos maiores tipos de sofrimento.
O prognóstico a cada dia que passava, era muito ruim. Os exames periódicos demonstravam a caminhada fatídica para uma paralisação total dos rins. Porém ele não desanimava. No dia em que viajou para Capital do Estado e recebeu do médico a noticia de que deveria fazer urgentemente hemodiálise três vezes por semana, chegou a sua casa triste, não pelo diagnóstico, mas pela recusa de suas filhas em não terem deixado o mesmo lanchar uma tapioca com bastante coco e queijo derretido que tanto desejava naquele momento, como fazia antigamente quando eu viajava em sua companhia.
Na segunda semana de Fevereiro a sua doença se agravou profundamente. Estava ofegante, como se estivesse morrendo afogado em seus próprios líquidos pulmonares. Foi diagnosticado um edema agudo de pulmão, e internado urgentemente no CTI do Hospital Regional de Guarabira. Não entregou os pontos. Lutou por oito dias. Todo cheio de sondas, mangueiras, fios. Respirando com a ajuda de aparelhos. Eu o visitava três vezes por dia. Hora nenhuma perdeu a serenidade. Eu via ali um valente guerreiro a desafiar a morte.
No oitavo dia, os exames que eram realizados diariamente apontavam para um quadro irreversível. Ali eu já tinha certeza de sua passagem iminente para outra vida. Na manhã desse dia, uma quinta-feira, lhe fiz minha última visita. Aproximei-me do seu leito e falei alto ao seu ouvido: “Seu Alcides! Quer ir p´ra casa hoje?” Ele não respondeu. Os olhos já sem reflexos, banhados por uma nata, já não viam mais coisas deste mundo terreno. Repeti a pergunta: “Se estiver me ouvindo, faça um sinal: quer ir para casa hoje?” Ele com muita dificuldade levantou o polegar direito por entre os lençóis, em sinal positivo. Saí dali sem compreender, pensando comigo: “Como é que um homem num estado desse, ainda sente o desejo de voltar para sua casa. É muita fé mesmo”.
Não tinha a mínima idéia de que a casa a que ele se referia era uma outra casa, onde não havia dor, nem tristeza.
Depois, olhando para o velho sogro e amigo no ataúde, pude observar atentamente, que o seu rosto irradiava uma tranqüilidade que não era desse plano. Nunca tinha visto em minha vida uma expressão tão perfeita de serenidade.
É, não tenho dúvida nenhuma: ele dormia o sono dos justos.


27 janeiro 2007

O SÃO JOÃO DE ARMANDO PEDREIRA






Armando Pedreira atribuía as lembranças que agora estavam a assomar em sua mente, às últimas e intensas reflexões que realizava, principalmente em suas noites mal dormidas.
Naquele dia voltara a ser criança. As recordações de tão vivas, pareciam deixá-lo gozando de novo as delicias de uma época marcante de sua infância. Perguntava para si mesmo: Por que naquele momento viera à tona aquelas cenas, que ele em toda a sua vida de adulto jamais tinha evocado com tamanha clareza de detalhes?” Poderia agora mesmo citar uma por uma, todas as pessoas que moravam naquela rua. Realmente nunca dissera aos seus pais com medo de uma tremendo carão, mas, lá no fundo de sua alma ele achava aquela festa, a coisa mais bela que acontecia todos os anos em sua vida. Tudo era inusitado desde as primeiras horas da manhã. Os preparativos, como a colagem de bandeirolas de papel celofane nas cores vermelha, verde, azul e branca, em logos fios de linha “urso” para serem pregadas nos pontos mais altos das casas; folhas verdes enormes de palmeiras para serem fixadas nas paredes das residências. Ficava meio encabulado, pois no bangalô em que morava, seu pai avisava de antemão, que não permitia pregar a linha de bandeirolas no frontão de sua casa, pois aquilo era coisa do diabo, dizendo sempre nestas ocasiões: ‘Você meu filho tenha cuidado, não se junte com esta molecada. Nós somos um povo separado e santificado para Deus’. ‘Este povo que está nesta alegria mundana vai tudo para o inferno’. Ao ouvir estas palavras de seu progenitor, aflorava-lhe um sentimento de culpa, por não conseguir tirar da cabeça, ou negar a satisfação que sentia em seu ser, a qual aumentava, à medida que se aproximava a grande noite de São João, quando ao soar da melodia sinfônica da Ave Maria, precisamente às seis horas em ponto, as pessoas acorriam para frente de suas casas a fim de acender as tradicionais fogueiras". "Lembrava-se perfeitamente de que ao anoitecer, saía correndo por toda a extensão da rua de barro batido, numa extensão de mais ou menos uns duzentos metros, a contar as fogueiras de cada lado da rua. Enumerava as maiores e mais altas, que quase sempre ficavam a frente das residências dos mais ricos".
Tinha lá as suas estatísticas, pois concluía assim: “este ano deu seis fogueiras a mais que o ano passado”. Ah! Que inveja sentia por não ter o direito de soltar pelo menos aqueles chuveiros de gotas belas e fosforescentes que exalavam muita fumaça branca. O cheiro da pólvora dos traques, dos beijos de moça, dos mijões, dos ratinhos e das pequenas bombas, inebriava-lhe. Escondido em um dos becos de sua casa, após saborear pamonhas e canjicas com queijo de coalho e café quente, se contentava em soltar algumas estrelinhas miudinhas cujas faíscas não chegavam a mais de um centímetro de comprimento. Dizia para ele mesmo: “Não acredito de maneira nenhuma, que Deus vá se zangar por eu está me divertindo com isto”.

Nas noites de São João que coincidiam com os cultos na igreja, ficava acabrunhado, muito triste por perder a maior parte daquele espetáculo, e saia de casa bem devagarzinho para o templo, a fim ter mais tempo para apreciar a beleza esplendorosa daquelas lanternas pregadas nas paredes de fora das casas, acima de cada janela e portas. Lanternas em forma de pirâmides, de cubos, umas redondas como fole de sanfona, em forma de estrelas de variadas cores escondendo a luz tremulante das velas em seu interior.
Pedreira lembrava-se de uma daquelas noites de S. João, em que a lua cheia dava um toque todo especial, e os balões multicoloridos começavam a ser soltos pela gurizada alegremente alvoroçada. Logo, logo, os balões de variados tamanhos estariam subindo, levados pelos ventos em meio a um céu límpido, transformando-se em pouco tempo em pequeninos pontinhos de luz bruxuleante, em meio às estrelas cintilantes. Naquela noite ele perdera a maior parte da festa, pois o dirigente do culto se estendera demais no seu sermão, fazendo-o perder as maravilhas das girândolas preparadas, num dia em que o céu estava maravilhoso, centrado por uma lua que parecia naquela ocasião espargir um brilho diferente como nunca tinha presenciado.
Numa espécie de mergulho em si mesmo, refletia agora:
“Será que meu pai, quando criança, não teria experimentado aquela mesma sensação que me dominava naqueles momentos idílicos das noites juninas?”

A insensibilidade de seu temivel pai fez evocar nele aquelas impensadas admoestações, que pregava em sua antiga igreja, nos cultos da última sexta-feira que precedia ao dia de S. João, quando pedia insistentemente aos crentes, que não deixassem de maneira nenhuma os seus filhos saírem com os mundanos das ruas a soltar fogos, e a pular diante das fogueiras”. Se a festa junina coincidia com o dia de culto, Pedreira dizia assim: “tragam todas as crianças, sem exceção, para igreja bem cedinho, antes do acender das fogueiras”. Quando a festa mundana não coincidia com o dia de culto, falava desta maneira: “Prendam todas em casa. Os mais rebeldes tranquem em quartos e ponham os mesmos para dormirem cedo”.
Depois de sua polêmica renúncia, isto é, da compreensão profunda sobre as raízes de suas velhas e absurdas atitudes, o pastor Pedreira num exercício de memória, entendia agora tudo perfeitamente. Ora, ele em sua outrora admoestação doutrinária, queria proibir os filhos dos fiéis de sua antiga igreja, de provarem aquela sensação prazerosa que ele mesmo sentira, quando criança, nas famosas noites de S. João, em que escondido de seu pai natural se deliciava com os folguedos juninos. Compreendia agora, que ao presidir aquela instituição, estava ali, sem saber, investido da autoridade de seu antigo pai. Era como se o fantasma do seu ex-pai estivesse a reprovar a sua atitude de ter praticado na meninice algo grave e pecaminoso e não ter tido a coragem de lhe confessar.
Como expiação por tudo que cometera em oculto de seu pai, pelos prazeres não revelados daquelas memoráveis noites de muitos anos atrás, Pedreira procurava se redimir em suas exortações costumeiras de final de semana, perante um Pai espiritual (simbólico), dizendo a frente dos seus fiéis: “Pelo amor de Deus, não deixem as suas criancinhas participar desta festa pagã, que só tem coisas diabólicas a oferecer”.
Com a memória já mais ativada pelas intensas reflexões diuturnas, fizera uma interessante volta no tempo, indo buscar um fato inusitado do inicio de seu mandato em sua antiga igreja: Um dia, quando saía do templo, após o culto, em direção a sua residência, para não pecar, ele procurava em vão, não olhar para aquelas tentadoras lanternas luminosas de formatos variados pregadas nas paredes, que tantas alegrias lhe dera nos tempos de criança; algumas já estavam apagadas, pois as velas já tinham se derretidas todas, não fornecendo mais o alimento para a luminosidade. Sem querer, mais adiante pára, a fim ver uma lanterna junina enorme instalada em um casarão suntuoso de dois andares. Ao sentir que tinha caído em tentação, imediatamente reage tapando os olhos com as mãos, dizendo baixinho: “Está repreendido em nome de Jesus”.
Agora, com mais maturidade, ele tinha consciência de que, o que lhe ocorrera naquela ocasião, quando fora traído pelo próprio subconsciente, se originara dos desejos reprimidos daquela fase tão bela e significativa da sua infância, quando estático diante das casas dos mais ricos ficava por longos minutos se deliciando com a beleza das luminosidades fortemente coloridas das lanternas multiformes. O que acontecera ali em sua caminhada para casa, após o culto, reacendeu nele o sentimento de culpa, fazendo-o repreender o seu próprio inconsciente, como se aquilo que lhe chamara a atenção, fosse uma coisa satânica.

Já adulto, casado e com filhos, parecia ainda ver o seu sisudo pai, em sua velha cadeira de balanço, na sala de estar, o admoestando desta forma: ‘Você Pedreira, como um menino crente, tem que ser diferente dos demais’! Seu pai nunca viera saber que no coração do filho, tudo era diferente do que ele pensava. O menino Pedreira queria, era ser igual aos outros, na espontaneidade lúdica daquela noite. Ainda era muito pequeno, para poder sentir ódio daqueles seus amiguinhos cujos pais tinham religião diferente da sua. Após os festejos da noite, ele entrava cabisbaixo em casa. Seu pai e sua mãe juntamente com suas tias, ainda estavam na sala conversando sobre fatos corriqueiros do dia-a-dia. Nessas ocasiões não faltavam as tradicionais fofocas. Passando sorrateiramente entre eles, após pedir licença, escondendo as mãos com as unhas cheias de pólvora, ouvia a ladainha de sempre: ‘Isto lá é hora, de um menino filho de pais crentes chegar em casa! Vou marcar uma hora no meu relógio, para durante este tempo você ficar ajoelhado pedindo perdão a Deus, pela petulância de ter se misturado com esta cambada de moleques, filhos de pais desordenados’. Então, ele, com os seus desejos já plenamente satisfeitos, ajoelhava-se ao lado da sua cama. Não ligava muito para os puxavantes de orelha, que o faziam despertar do inevitável cochilo, e ouvir logo em seguida os gritos do seu enfezado pai: ‘Seu safado, tá me enganando! Ore aí! Ore, para seu pai ver. E ele dizia da boca para fora, pois não podia mentir para Deus: “Senhor me perdoe pelo pecado que cometi em desobedecer a meu pai”. No fundo, ele achava o seu pai um chato, orgulhoso e inconveniente por menosprezar seus amigos das noitadas juninas. Às vezes, pensava que a oração de uma criança incompreendida poderia se reverter contra quem a estava castigando injustamente.

“Dou graças a Deus, porque, mesmo numa idade já avançada, ele me fez conhecer um pouco de mim, o bastante, para entender que julgava nos outros, aquilo que eu mesmo possuía em secreto” ─ dizia agora, um velho e nostálgico Armando Pedreira. Os evangelhos dizem: “que ao julgarmos os outros, estamos julgando a nós mesmos”. Tinha lido tantas vezes aquela passagem bíblica, e só agora despertara para uma compreensão mais profunda das verdades ali contidas.
Armando Pedreira hoje, no dia de São João, gosta de ficar sentado em uma espreguiçadeira, lambendo os dedos melados de canjica, relembrando sem nenhum sentimento de culpa, os seus tempos de menino. Participando alegremente da algazarra das crianças libertas do fardo do medo, sem necessidade de se esconderem dos pais. Rindo de alegria ao ver aquela meninada soltando chuveiros iguais aos de outrora, ao redor de uma fogueira, cantarolando hinos no ritmo esfuziante de “forró”, ao som da sanfona, de um zabumba e de um pandeiro.
Numa granja toda iluminada por lanternas coloridas, semelhantes àquelas de antigamente, ele agora, se esbalda de contentamento, com o coração livre das velhas e amargas ameaças de castigo.








13 janeiro 2007

O PODER DE UMA SINFONIA





Moisés e Armando Pedreira estavam tomando parte, enfim, de um culto fora do trivial, algo diferente do café com leite de sua antiga instituição religiosa. No inicio da reunião, Amadeus pediu aos ouvintes que se concentrassem bem nas músicas que iriam ouvir, citando uma frase de Schopenhauer, que ele mesmo modificara: “A música clássica é um exercício metafísico no qual a mente não se dá conta de que está filosofando com Deus”. Os dois convidados escutavam de inicio, um som suave como uma brisa. Porém, logo, o som das notas irrompeu como um vulcão em inicio de atividade, numa sonoridade melódica nunca experimentada pelos dois, infundindo em suas receptivas almas um estado de ânimo imaginavelmente criativo. Uma sinfonia sem vozes, maravilhosamente executada, estava sendo extraída de instrumentos como: violinos, violoncelos, flautas, oboés, fagotes, clarinetas e trompas. Todos os participantes estavam estáticos em um significante silêncio, que dava até para se ouvir o bater de asas de um inseto. Foi quando surgiu primeiro, suavemente, depois em tom crescente, a beleza extra-subjetiva dos acordes, mergulhando os corações numa harmonia indescritível, fazendo-os esquecer as paixões, tristezas e outros estados melancólicos da alma, espalhando uma emoção carregada de uma inefável serenidade. A melodia ora irradiava uma aspereza dissonante, ora uma flutuante sensação de estranhamento. Os intervalos melódicos eram intercalados por picos de marcantes e envolventes acordes seguidos de um pianíssimo decrescente, deixando na alma uma progressiva sensação de um deslizar suave do alto de uma montanha mágica.

Moisés e Armando Pedreira jamais imaginaram que a música tivesse este efeito de os transportarem a um mundo tão fantástico, num fenômeno nunca dantes experimentado. Antes, não tinham a idéia de que se pudesse extrair da música, este requinte de enlevamento através de uma sincronia de ritmos agressivos alternados com ritmos suaves, de uma beleza melódica extraordinária. Agora, escutavam atentamente cada sibilo, cada roçar dos dedos ágeis dos músicos a deslizar sobre as cordas afinadas dos instrumentos. A música transformava-os em um só corpo coletivo. As notas musicais pareciam se confundir com eles, identificando-os com os outros, seus irmãos, numa efusão prazerosa de felicidade e êxtase.

É verdade que apesar do silêncio exterior ─ pois todos estavam estáticos, ─ as suas almas estavam impregnadas de uma paz, de um tranqüilo e sereno contentamento, sem necessidade daquele êxtase pesado e barulhento de sua antiga igreja. O que estavam experimentando não era um êxtase cotidiano, banal e vulgar, como o êxtase provocado pela velocidade extrema em um bólido. Esse tesouro melódico que agora descobriram, através da interpretação magistral de uma orquestra, deixara nos seus espíritos uma calma e uma felicidade indizível, num acontecimento sem precedentes.

Os dois estreantes deste novo ninho estavam tendo agora a noção exata do poder da música tocada. Viam que para enlevo da alma, não se necessitava de nada, além do desfilar de notas harmoniosas executadas com perfeição por um instrumento simples como, por exemplo: uma rabeca. Só agora eles sentiam um alívio espiritual que não podia ser expresso em palavras, assim como sentiu Saul quando Davi tocou em sua harpa uma melodia sem imperfeições, porque o Divino é perfeito. Uma só nota soada desafinada era tudo que o diabo queria para por toda a melodia a perder. Uma nota desafinada seria como uma pitada de fermento que leveda toda a massa.

Quantas vezes os dois ex-ministros ouviram esta frase da boca de Aparecido: “cantem e toquem de qualquer jeito. Deus não está ligando para a perfeição na execução musical”. Contudo, eles chegaram agora à conclusão, que existe uma coisa que se pode usufruir aqui na terra, e que não será diferente lá no céu: “a perfeição harmoniosa de um concerto musical”.

( Trechos do capitulo XXII do livro de Levi B. Santos.

“PREGADORES DE SI MESMO” ─ em fase de acabamento.)

19 dezembro 2006

DESPERTANDO REMINISCÊNCIAS





A expressão “terceira idade” veio atenuar ou suavizar a antiga, dura e cruel, porém real palavra: “velhice”. Fase importante da vida, pois, é nela que se montam os últimos cacos ou peças do grande quebra-cabeça de nossa existência, feito de restos de lembranças e experiências vividas por longos anos.
Qual seria a última imagem que teríamos de nós mesmos, ao concluirmos através de uma reflexão aprofundada o grande enigma existencial?
Lembro-me como se fosse hoje. Iniciava o curso médio no Ginásio São José de Alagoa Grande do Paó, quando invadido por um misto de temor e timidez, eu observava meu pai vaticinando para mim, do alto de sua autoridade como chefe da casa de máquinas da FSESP: “você ainda vai ser médico e chefe deste Hospital”! A primeira parte da sua profecia se cumpriu, porém, a segunda parte dela, para minha completa felicidade não chegou a acontecer. Na verdade, não tinha o perfil de chefe duro e mandão que àquela época se exigia. Identificava-me perfeitamente na posição de “servo” e não na de “senhor”. Muitas vezes fui tido como “rebelde” por me indignar com as injustiças cometidas contra minha pessoa, e contra meus iguais. Se me excedi em alguns casos, foi em prol da transparência e justiça no Serviço Público.
É do fruto envelhecido que se retira o azeite. Esse “azeite” na forma de aprendizado para o enfrentamento dos conflitos cotidianos, eu não tive a oportunidade de receber devidamente de meu pai. O destino não me reservou o direito de ouvi-lo no esplendor da maturidade em uma sincera conversa a dois, pois, o mesmo, partiu prematuramente, aos 38 anos, na flor da idade como se diz, sem deixar um último olhar, uma última palavra, ou um último conselho. Ao meio dia de um domingo quente de verão, precisamente no mês de fevereiro de l962 em pleno centro da cidade ele foi colhido violentamente por um “jipe” que saía do acostamento da rua, pela contramão. Entrou em coma, falecendo oito horas depois. Que ironia do destino! Ele tinha ido com sua motocicleta a procura de gelo para um amigo poli traumatizado, que estava agonizando no Hospital. O gelo que trazia serviu para ele mesmo.
Chegarei sem delongas ao cerne da questão. A razão maior desta crônica foi uma cena comovente, que tive a oportunidade de assistir a alguns dias. Se eu pudesse, momentos como aqueles, eu eternizaria fazendo parar o relógio do tempo.
É de um pai na decrepitude, já sem forças para sair do leito, sob o fardo pesado das doenças tão comuns nesta fase sombria da vida, que retiro algumas pérolas de extrema significação, para realizar uma profunda e sincera reflexão.
Logo agora, que acabo de entrar nos umbrais da terceira idade, o acaso me leva a presenciar um velho pai muito enfermo, sentindo-se no ocaso da vida, com a maioria dos filhos ao redor do leito. As suas pernas já não mais obedecem à vontade do cérebro, para um encontro que ele tanto gostaria: sentado à mesa, mastigando biscoitos e bolos com o café quente feito pela esposa, como fazia todas as tardes.
O pai dirige o olhar meigo e detido para um dos filhos que acaba de chegar da cidade onde mora. Aperta a mão dele, e fala emocionadamente: “Meu filho! Você faz parte de mim”! Nesta frase dita entre lágrimas, arrancadas com esforço lá do mais remoto do seu ser, deixou registrada a grandeza, humildade e reconhecimento de um pai frente a um filho. A filha primogênita que se encontra ao lado surpreende-se com a franqueza dos gestos e das palavras ouvidas da boca de seu pai e, fala assim de bate - pronto: “Em toda a minha vida, nunca ouvi do senhor tamanha declaração de amor”! O semblante desse pai irradia por alguns segundos, uma alegria incomum, tal qual o prazer saltitante de um menino ao encontrar, esquecido em um porão, um velho brinquedo que ele tanto amou. Em outras palavras, o que o velho pai estava a dizer, era: “Você é carne da minha carne”! Era como se estivesse a afirmar: “Quando eu partir desta vida, perderás uma parte de ti. E no vazio do que se perdeu, tu o preencherás com lembranças daquilo que de melhor pude te dar”.
Tudo isso fez despertar em mim reminiscências dos meus dezesseis anos de idade, quando perdi o meu pai abruptamente. O último presente que ele me deixou foi um silêncio representado pelo vazio de um quadro emoldurado, tanto por boas, como amargas lembranças eternizadas sob a forma de SAUDADE.

Crônica por; Levi B. Santos
Guarabira, 19 de Dezembro de 2006
















23 outubro 2006

A ORFANDADE NA RELAÇÃO PAI-FILHO




Tanto o pai quanto a mãe, estão sempre aquém daquilo que o filho racionaliza em seus pensamentos e desejos. No crescimento, formação social, cultural e religiosa do filho, algo se perdeu, deixando uma lacuna ou vazio, cuja responsabilidade se atribui erroneamente ao que o pai deixou de ensinar. Não sabe o filho que esta orfandade sentida como “algo que faltou”, será a alavanca que o impulsionará em busca de sua própria identidade, fazendo-o adquirir forças para superar o pai, tentando desta forma, obter satisfação naquilo que não lhe foi oferecido.

Não há nada mais cômodo e tranqüilo para os pais, que ter seus filhos sobre total controle, numa tentativa de evitar a orfandade ou vazio, que na certa mais cedo ou mais tarde os atingirá. O pai não pode escamotear esta verdade: um dia eles, os filhos, terão de escrever a sua própria história, que nem sempre corresponderá necessariamente aos desejos paternos. Quanto mais cedo o filho entender que esta orfandade sempre o acompanhará pela vida afora, melhor será para ele. Pois, só o sobre-humano é que o aliviará no enfrentamento do vazio do “ser em si”. Na ânsia de fugir desta orfandade, ele será sempre refém da “vontade de potência” sobre o medo, sobre o desconhecido, enfim, sobre os desígnios da natureza. Esta vontade de tudo poder, talvez o desloque para um prazer a ser vivido no simbólico e imaginário mundo religioso.

A cultura impôs aos pais, o dever de dar todo o bem estar aos filhos, quer sob a forma de proteção, quer sob a forma de assistência. Porém, tanto os pais como os filhos, devem entender que a lacuna da impotência continuará sempre fazendo parte intrínseca de nossa natureza.

Esta é uma questão cuja resposta é, talvez, muito dolorosa: assumir a condição de ser incompleto, ser faltante. Somos portadores de um vazio pesado demais para carregar. O Cristianismo mui apropriadamente determina: “Que devemos tomar a cruz, e seguir”.

Há uma sede inata que provém da fonte dos nossos desejos mais prementes, que nos impulsiona a fazer perguntas como estas: “Por que esta cruz?”. “Para que?”. “Quem será o culpado ou responsável por colocá-la em nossos ombros”? Na verdade cabe a nós simplesmente tomá-la. Cruz esta, que sob a forma de uma orfandade, nos acompanhará em toda nossa trajetória existencial.

Mas orfandade pressupõe algo que foi perdido. A máxima felicidade sem nenhum esforço, a vontade de tudo ter as mãos, de tudo poder da tenra infância, não encontrou ressonância ou resposta por parte do pai natural. Continuar na caminhada, órfão de um desejo interdito que pesa como uma cruz, é a nossa sina. Deus, agora como Pai espiritual, todo poderoso, é doravante a quem nos dirigimos. É Ele quem amenizará o vazio do nosso ser com a “esperança” de um dia nos fazer banhar nas águas da imortalidade. Porém, enquanto mortal, é responsabilidade nossa assumir esta orfandade. Em outras palavras, não podemos abandonar a cruz, porque abandoná-la seria o nosso próprio suicídio.

Phillipe Julien, psicanalista francês, em seu livro “Abandonarás teu pai e tua mãe” descreve com letras fortes o sofrimento existencial de Cristo ante a crucificação. O filho, sofrendo a recusa da lei do desejo por parte do Pai, brada: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste”? Em outras palavras: Por que me deixaste só na procura de preencher a lacuna sem resposta de teu silêncio? “Criaste e instaurasse um vazio (uma orfandade – grifo meu) a demarcar o meu gozo, deixando-o incompleto”. “Jesus pedia ali uma explicação, supondo que o Pai poderia, se tivesse querido, ter usado do seu poder”. Ora, o homem Cristo sentiu, como qualquer um de nós, a não adesão de um Pai poderoso à vontade do filho. Eis a resposta do Pai: cala-se diante da violência e da maldade humana, deixando o filho entregue e abandonado às conseqüências felizes ou infelizes da liberdade e dos desejos humanos. Na visão do filho, a ausência de resposta o deixara órfão do apoio paterno. Na visão do Pai, em seu significante silêncio, demonstrara a impossibilidade de identificação com o filho ante um desejo que não era o Seu.

O vazio existencial humano, sob forma de uma orfandade, que a primeira vista põe o filho em oposição ao pai, só traria resultado benéfico, quando este mesmo filho chegasse a entender profundamente, que o seu desejo idealizado para fugir do real, teria que ser negado, pois tal anseio contrariava o objetivo de um Pai identificado com uma outra realidade.

Para os jovens de hoje, queremos deixar bem claro o exemplo de Cristo, que assumindo o vazio da impotência humana, deixou-se submeter a todo tipo de humilhação, injustiça e escárnio, sem merecimento, e, no entanto, nunca culpou o Pai pelo seu sofrimento. Cabe então ao filho de hoje assumir a sua trajetória existencial, mesmo cheio de lacunas e vazios deixados por um pai silencioso. Silêncio este, entenda bem, não deve se constituir motivo para ressentimentos que porventura venham atordoar o coração do filho. O silêncio de Deus-Pai, num primeiro instante, poderá significar abandono para o filho, contudo, depois lhe proporcionará estímulo para uma apurada reflexão Mais cedo ou mais tarde surgirá o reconhecimento do filho para com o Pai, expressado nesta singela frase: “Contudo seja feita a tua vontade”.

(Ensaio por: Levi B. Santos. Guarabira, l5 de agosto de 2006)

13 outubro 2006

DIVAGAÇÕES SOBRE “ VARRER O CHÃO”




Há muitas verdades, muitas lições a tirar quando empregamos esta tão significativa expressão: “Varrer o chão”. Comumente ligamos esta frase ao nosso labutar cotidiano, que por vezes nos é imposto como uma obrigação contundente e cansativa, coisa que vai de encontro aos anseios mais profundos da alma, que está sempre a desejar um paraíso, um Jardim do Éden de felicidades infinitas com tudo ao alcance das mãos, sem o mínimo esforço.

Considerando o “varrer o chão” como o nosso ganha-pão de cada dia, cabe lembrar aqui alguns trechos da importante obra “Do sentimento trágico da vida” de Miguel de Unamuno, grande ensaísta espanhol do século XIX, em que ele diz: “Uma vez satisfeita a fome, e esta logo se satisfaz, surge a vaidade, a necessidade ─ que o é ─ de se impor sobre os outros. O homem costuma entregar a vida pela bolsa; mas entrega a bolsa pela vaidade”. Em outro parágrafo ele fala assim: “A curiosidade, o chamado desejo inato de conhecimento, só desperta e age depois de estar satisfeita a necessidade de se conhecer para viver”. Diferente do viver para conhecer. O que se depreende da fala deste famoso ensaísta, é que primeiro vem a luta pela sobrevivência, para depois vir o deleite do filosofar, como bem esclarece ele neste outro trecho: “O homem costuma filosofar, ou para resignar-se à vida, ou para encontrar nela alguma finalidade, ou para divertir-se e esquecer suas penas, ou por esporte ou jogo”.

Finalizando este pequeno exercício de imaginação sobre as agruras do infindo “varrer de chão” cito mais um outro trecho de Miguel de Unamuno, que vem bem a calhar, pela sua riqueza de sentido: “O universo visível, o universo que é filho do instinto de conservação, me é estreito como uma jaula pequena para mim, e contra cujas barras minha alma bate em seus vôos; falta-me no ar o que respirar”.

Varre-se o chão para se poder sobreviver, mesmo a custa da privação da liberdade, em uma gaiola chamada “mundo civilizado”, mundo hostil ao nosso espírito de conhecimento do verdadeiro sentido da vida, que paulatinamente tenta nos transformar em um mero “objeto”, em meio a uma sociedade regida pelo consumismo de coisas efêmeras e irracionais. Felizmente, ou infelizmente, fazemos parte dessa engrenagem.

“Varrer o chão”, necessário é para satisfação do nosso instinto de conservação. Contudo, quando a vassoura estiver a descansar “atrás da porta”, cuidemos das coisas do espírito.

(Ensaio por Levi B. Santos. Guarabira, 25 de setembro de 2006)

12 setembro 2006

OS PRESENTES ─ NOS MEUS SESSENTA ANOS




Oito horas da manhã. Após um plantão médico, encontro-me rodeado pelos presentes que Deus me deu nestes sessenta anos de idade e trinta de casado. Todos com cara de sono para um café surpresa.

Quantos pais, com esta minha idade, gostariam, mas, por motivos os mais variados se encontram impedidos de ter presentes como estes diante de si.

Não posso aquilatar, se é bom ou prejudicial para os filhos, tê-los debaixo do mesmo teto. Uma coisa eu sei: o pão que recebo tem dado para todos. Concordo com minha esposa Luza, quando diz: “Deus não deixará o justo desamparado, nem a sua descendência mendigar o pão”.

O meu primeiro presente recebido está aqui ao meu lado. Luza ─ Mulher de fé inabalável que contagia os nossos corações de uma imorredoura esperança, sem a qual não teríamos força para enfrentar as lutas de cada dia. A sua frase predileta, dita com tanta ênfase é esta: “Deus ainda vai me dá a oportunidade de ver meus filhos realizados. Disto não tenho dúvida”. A sua fé contrabalança a dureza de meu ceticismo. A sua sensibilidade é o contraponto de minha lógica e razão. É quando fica mais claro entre nós, que a razão e a fé têm de andar juntas.

O meu segundo presente: George. “Sobejo da morte”, como era chamado pelos pediatras do AMIP, quando de seus longos períodos de tratamento hospitalar. Superou tudo e venceu. Terminou seu curso superior. Continua lendo e estudando muito, aguardando o seu lugar ao sol. Ultimamente tem sido meu incentivador, auxiliando-me nas redações de minhas crônicas. Caladão. Já deu grande prova de fé e determinação em momentos difíceis de sua vida. Vive atualmente o encantamento de ser Pai de uma menina fora de série.

O terceiro presente: Glauber. Também um pedaço de mim, pelas suas tiradas de humor e presença de espírito inigualável. Alegrando sempre o ambiente e nos tirando da monotonia. Por acaso: rir não é o melhor remédio? Homem de uma paixão avassaladora. Sonhador e idealista. Faz projetos mirabolantes que, às vezes, pensamos que não vai dar certo, mas nos rendemos, pois através da INTERNET ele resolve tudo nos mínimos detalhes, deixando-nos boquiabertos. Sentimentalista que é, está hoje numa dúvida atroz: entre continuar gozando das delícias do lar paterno, ou enfrentar um longínquo mundo desconhecido (Argentina).

O quarto presente: Thiago. Uma porção de mim, pelo seu espírito rompedor. Também passei por esta fase. Ele teve a coragem de numa igreja de estilo conservador, adotar um tipo de música de ritmo moderno. Por isso mesmo, nesse meio, ele se tornou um espelho para os jovens de sua idade. Sabe dosar bem o estudo na escola onde exerce sua liderança e os trabalhos espirituais. Herdou uma fé muito parecida com a da mãe.

O quinto presente: minha nora Mauricéia. Deixou o aconchego familiar, para fazer de minha casa o seu novo lar. É bem-vinda. Sabemos que cada família tem o seu modo de ser. Ela está sendo a ponte entre nós e a sua família. Sendo desta forma responsável pela iniciativa de um rico aprendizado, que estamos usufruindo com os seus. Aqui fica um conselho para ela e George: não deixem que o egoísmo paire sobre vocês, impedindo-os de colherem os frutos de uma interessante experiência à dois.

O sexto presente: Ana Gabrielle. O meu xodó, e o de todo mundo aqui em casa. É ela que tira do sério este velho chato e sisudo. Sou duas vezes pai. E criança de novo ao tentar entender este pequeno ser, que se inicia na arte da linguagem. Sabe Deus, o porquê de só vir atender aos anseios de uma mãe (Luza) por uma filha, no início da terceira idade.

Apesar, da avó está um tanto abatida, pois, já está entrando pela terceira semana de uma virose. Mesmo assim não tem medido esforços em cuidar com muito carinho e dedicação de sua querida neta, observando ensimesmada as sua travessuras e cenas de ciúme.

Diante de todos estes vivos presentes, outros seriam perfeitamente descartados.

MUITO OBRIGADO.

(Crônica lida durante o café surpresa, em 11/09/2006)