
O escritor − poeta − romancista é aquele ser que está sempre deixando o reflexo de si mesmo na escrita. A escrita funciona como um espelho que revela o que nós somos fundamentalmente. Por isso é que se diz que deixamos um pouco de nós em cada frase que editamos.
O imortal − presidente do nosso Senado − sempre escreve uma coluna às sextas-feiras na Folha de São Paulo. Lí, reli e refleti bastante sobre o seu último ensaio (de 3 de junho último) cujo título “Tempo Presente”, levou-me a viajar no tempo.
Em seu artigo Sarney, que está nos holofotes da política há cinco décadas, passa para o leitor o seu mal estar existencial, ao iniciar a sua fala dessa forma: “Estou, ultimamente, certo de que um fenômeno está surgindo no mundo atual: a compressão do tempo. Ele está cada vez mais chato e achatado. Parece que a cada dia fica mais curto”.
Ora, como poderia não estar exausto e sentindo a chatice dos dias, uma pessoa que, aos 81 anos de idade, ainda mantém o mesmo jogo de cintura que o fez se adaptar ao regime de exceção dos militares, que o fez e ainda o faz dançar conforme a música, tanto é que vem se mantendo incólume como político influente em todos os governos, seja de direita ou de esquerda, não importando a cor partidária? Como não se sentir cansado e enjoado um homem que esteve nos últimos 50 anos, no centro de vitórias políticas e sorvendo derrotas acachapantes, como as dos tempos do cruzado, em que incitava invasões de supermercados e currais de gados para baixar a inflação galopante de 100% ao mês? Como não sentir no corpo e na alma, o refluxo do peso das aflições quando foi submetido às pressões vindas de todos os lados, por envolvimento nos mais polêmicos escândalos nacionais?
Hoje, aos sessenta e quatro anos de idade, posso afirmar que Sarney povoou o meu passado. Ele está no meu presente. Nos meus tempos de idealista eu tinha esperança no futuro. Mas esse futuro chegou, e com ele veio colado o espectro “Sarney”. Sarney, é, portanto, meu presente, passado e futuro.
Em um trecho do seu ensaio na Folha, ele assim escreve: “Santo Agostinho perguntou e respondeu: ‘Mas o que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei, mas se eu tentar explicar não sei’”
Modéstia das modéstias, Sarney, você é o tempo, cara!!! O tempo do cidadão brasileiro dos da minha idade, registra, do começo ao fim a sua passagem.
Mas, o sábio e astuto imortal, no final do seu texto, sem querer querendo revela um movimento de sub-reptícia “eternidade”, quiçá, de sua verdade escondida, ao citar este trecho do grande poeta T. S. Eliot: “Tempo presente e tempo passado/Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado”.
O ensaio de Sarney na Folha de São Paulo teve o condão de evocar em mim fatos de um passado, que não é presente, nem futuro, posto que ficou definitivamente enterrado. Sei que de nada vai adiantar, mas não custa nada trazer um trecho utópico do velho idealista Rui Barbosa, que eu recitava de cor na sala de aula diante de minha professora, nos tempos em que me iludia com meus gastos livros de História do Brasil:
“A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal de nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo o nosso descrédito é a miséria suprema desta pobre nação”.
P.S.: Sarney, para o bem ou para o mal, pelo menos na política à brasileira, você é meu passado, presente e futuro!
Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de junho de 2011
Imagem: http://www.nanihumor.com/2011/02/sarney-e-cadeira-1.html