26 setembro 2013

O Dilema de Ser Ético




Uma das razões do mal-estar na pós-modernidade, creio eu, reside na tentativa inócua de se ver livre da tradição dos pais, ante o bombardeio intenso de modelos e orientações dirigidas para o gozo e o consumo a qualquer preço. Sobre essa realidade que alicerça a sociedade contemporânea, a psicanalista e escritora, Maria Rita kehl, em seu livro − “Sobre Ética e Psicanálise” (pág. 13) ―, tem algo irrefutável a dizer: “Cada geração se constitui pelo rompimento com o que ainda teria restado de “tradição” para as gerações anteriores. Cada indivíduo se crê pai de si mesmo, sem dívida nem compromisso com os antepassados, incapaz de reconhecer o peso do laço com os semelhantes, vivos e mortos na sustentação de sua posição subjetiva.”

Foi a leitura reflexiva que fiz do artigo escrito na revista Veja da semana passada ―   “Devo Educar Meus Filhos Para Serem Éticos?”  ― do ensaísta Gustavo Ioschpe, que me levou a relembrar a vida esforçada de minha mãe, que se consumia em passar para os filhos os valores éticos que considerava a coisa mais sagrada da vida.

Senti-me na pele desse escritor, quando no seu instigante e fenomenal artigo, descreveu como era a sua própria infância, e o sofrimento despendido para ser um sujeito ético. Disse ele: “Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, e outros que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer não sei. No Brasil atual eu me sinto deslocado”.

O articulista da VEJA se reporta a um trecho emblemático de Hannah Arendt, em seu livro “Responsabilidade e Julgamento”, que não poderia deixar de replicá-lo aqui: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de se confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”.

O velho dilema interno está também presente numa menção marcante de Kant: “O desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo.”

O desfecho desse antológico artigo publicado na revista VEJA, como o brado da letra no nosso Hino Nacional, foi retumbante, e deve ficar muito bem guardado por nós, pais e mães  da atualidade:

“Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar aos nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...” [...]

O ceticismo do jornalista chega a um ponto crítico, nesta citação: “Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim ― pelo contrário ―, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar.”

As palavras de Gustavo Ioschpe reverberaram profundamente em minha alma, ao mostrar uma sociedade pós-moderna que de forma banalizada, evidencia um tipo de “brasilidade” totalmente descolada do caráter ético.

Sabemos, no entanto, que o dilema de ser ético em nossa colônia vem de longas datas. Rui Barbosa, em um de seus maiores discursos no senado, já fazia ressoar esse sintoma, que se tornou um paradigma em época de crises de credibilidade nas relações dos homens com seus semelhantes: 
  
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”


Guarabira , 26 de setembro de 2013


Site da Imagem: lancesnuances.com

23 setembro 2013

Um Presente de Grego




Os gregos foram os articuladores de uma das maiores artimanhas da História ― no que ficou conhecido até hoje como o “Presente de Grego”. Eles puseram ardilosamente um gigante cavalo de madeira colocado bem às portas de Tróia.  Após ficarem deslumbrados com o fantástico presente transportado para dentro de sua cidadela, os troianos foram alegres da vida, dormir sua primeira noite de sonhos maravilhosamente realizados. Mas a alegria durou pouco tempo, pois nessa mesma noite, os soldados gregos que estavam escondidos dentro do imenso cavalo de madeira saíram do seu interior para saquear toda a cidade de Troia.

Essa história tornou-se paradigmática, caindo bem naquilo que se recebe como doação ou oferta e termina em uma bruta dor de cabeça.

A presidenta Dilma, ao retirar de sua vistosa vitrine eleitoreira o programa “Minha Casa Minha Vida” lançado em 2009 ―, empreendeu uma versão do conto do presente grego na área da política e da economia.

O sonho das famílias de pouca renda vem se transformando em uma brutal dor de cabeça. A revista Veja, que saiu às bancas nesta semana, dá conta de que “o índice de inadimplência está em 20%, na população com renda até 1.600 reais (dados da C.E.F). É um número dez vezes maior que a média dos financiamentos imobiliários no Brasil.” Para ler a reportagem completa, Clique Aqui.  

É bom salientar que o atual atraso no pagamento das prestações do “Minha Casa Minha Vida” é dez vezes maior que os créditos podres da grande crise imobiliária ocorrida recentemente nos EUA, que afetou o mundo inteiro. O que se pode concluir é que o nosso governo está, de forma irresponsável, preparando uma bomba relógio para o futuro.

O programa eleitoreiro de Dilma já está sendo apelidado de o “Minha Casa Minha Dívida”. Como sempre acontece nos programas de cunho eleitoral, o governo, sem cerimônia, usa e abusa das transações ilegais, como a de recentemente retirar 10% do FGTS para financiar o presente de grego. No dizer do ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, “O governo compra o eleitor à vista e obriga a sociedade a pagar por ele a prazo”.

Um dia, talvez, o “bom” brasileiro que tem muita fé e diz que Deus é brasileiro, venha colher dinheiro caindo do alto do céu para fazer face as suas futuras dívidas. Quem sabe?   

O imponente e mítico Cavalo de Tróia que os troianos receberam dos gregos e lhes proporcionaram uma noite festivamente comemorada, mas com final desastroso, para não dizer trágico, vem reforçar o meu ceticismo quanto à doações espetaculosas que escondem em seu bojo nebulosas transações.

Não custa nada, relembrar a ano de 2007, em que nos EUA, um milhão de proprietários inadimplentes foram obrigados a devolver suas casas (seus cavalos de Troia) financiadas com o aval do governo americano.

Mas o nosso governo é teimoso: há dois meses lançou o P.P.E.F. (Programa para Piorar o Endividamento das Famílias): uma linha de crédito até 5.000 reais ― “O Minha Casa Melhor” ― Um outro nome para iludir o eleitor.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de setembro de 2013



Site da Imagem: espacodois.blogspot

17 setembro 2013

O Espião e a Espiada




Dilma, hoje (dia 17), bateu o martelo. Fazendo beicinho, disse furiosa: não vou, não vou, não vou aos EUA! O Obama me faltou com o respeito, me espiou e nem me deu satisfação.

A ala do abafa entrou rápido em cena para pedir por tudo no mundo que ela retrocedesse de tal atitude (a de não viajar aos EUA no próximo dia 23, para um colóquio previamente marcado com o maioral da Casa Branca).

Ninguém sabe o que Obama falou ao seu ouvido por telefone ontem à noite. Só se sabe é que depois de vinte minutos de conversa, a presidenta decidiu de forma ríspida suspender a visita que faria ao escorregadio presidente da Disneylândia em crise.

As más línguas dizem que Obama ficou irado com o programa de importação de 4.000 médicos cubanos para o Brasil, e com o pito que levou de Dilma recentemente na Rússia. Com certeza o Obama não está gostando nadinha dessa salada  petista tão em voga nas mesas de bate-papos ― “Brasil-Venezuela-Bolívia-Cuba-Rússia” ―, que está botando o seu MacDonald para trás.

Dilma, recentemente, teve um entrevero ríspido com Obama, na Rússia de Putin. Alguns dizem que ela ficou muito brava com Obama e sua espionagem barata. “E, como vingança resolveu que vai importar uma leva de espiões de Cuba para espionarem o Governo dos EUA”. Bem feito presidenta! (vide esse link)

“A visita de Dilma seria espetaculosa, com direito a baile de gala na Casa Branca” ― escreveu Josias de Souza em seu blog. Parece que o desastrado Obama foi quem perdeu (rsrs).

Tem mais: Dilma está tremendamente irritada com o fato de o Obama está espionando a Petrobrás. Será que ele está tentando copiar a fórmula petista de congelar o preço dos combustíveis sem causar mal estar nos acionistas do Pré-sal?

Os brasileiros, as brasileiras e os fabricantes de automóveis agradecem a presidenta por segurar artificialmente a inflação.

Não é bacana saber que a gasolina do Brasil está 30% mais barata que a dos EUA? Obama, por certo, está com inveja. (rsrs)

O espião americano deve está querendo que a presidenta conte como ocorreu o milagre da transformação de uma gasolina mais cara nas refinarias em uma mais barata nos postos de combustíveis. Será que acertei na mosca?

Dilma agiu bem ao cancelar sua viagem aos EUA. Para o bem de todos e felicidade geral da nação ― Fique Dilma!

Nós, os espiados, temos o que o espião não tem.


Um Lembrete:

Caso a nossa presidenta, de última hora, resolva viajar, não deixe de recitar em alto e bom som, diante de todos os espiões da Casa Branca e bem ao pé do ouvido de Obama, os versos do nosso grande poeta Olavo Bilac, na “Canção do Exílio”:

 “Minha terra tem palmeiras/Onde canta o Sabiá/As aves que aqui gorjeiam/Não gorjeiam como lá”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 17 de setembro de 2013



Site da Imagem: Correiobrasiliense

12 setembro 2013

O Voo Incerto da Coruja



Na mitologia grega, Atena, deusa da Guerra e da Sabedoria, em seu caminhar, nunca se desgrudava de uma coruja pousada em seus ombros.

Essa ave tem a capacidade de ver na escuridão o que os outros seres não vêem. O dom inato de profunda conhecedora daquilo que estava oculto, fez com que esse pássaro se tornasse, na cultura ocidental, o símbolo do conhecimento. O instinto nato de, com olhos arregalados, permanecer a noite inteira vigilante e atenta, fez dela o símbolo maior para os gregos que consideravam o período noturno propício ao filosofar e ao exercício do intelecto.

O século das luzes, tendo a razão como sua maior lâmpada, veio com uma tarefa árdua e quase impossível: a de iluminar as densas trevas da irracionalidade, ou do oculto que existia em cada indivíduo. O ideal iluminista, na época, foi bem representado no quadro de Goya, onde se vê, em destaque, monstros povoando o sonho da razão (vide foto do topo). A pintura do artista reflete um ser frágil, mergulhado em um mundo tenebrosamente onírico, cercado por monstros da irracionalidade a espantar a razão para bem longe.

A certeza, a coerência e a estabilidade do idealismo iluminista deram lugar na pós-modernidade, ao seu paradoxo ― ansiedade da incerteza, a insegurança e o mal estar de um mundo em desordem. Na pós-modernidade a supremacia da razão parece sucumbir ante à re-sacralização do mundo.

 Sérgio Paulo Rouanet, considerado por muitos, defensor da razão iluminista, aponta uma terceira via para amenizar o mal estar da pós-modernidade entre as diversas culturas; uma via que passa pela manutenção e observância de um núcleo mínimo de princípios universais: “Se você tem um mundo dominado por particularismos selvagens sem regras universais que permitam a coexistência não-antagônica desses particularismos, você vai ter um mundo de todos contra todos, uma guerra de culturas.” (Mal−Estar na Modernidade – Editora Companhia das Letras)

O fundador da psicanálise, foi um iluminista. No projeto de Freud, a psicanálise através da deusa razão imunizaria o sujeito contra todos os messianismos. Todavia, em contraste, ele sabia que a natureza paradoxal/pulsional do homem era ineducável. Lá no fundo ele pressentia que os ideais universalistas podiam ser vencidos por paixões nacionais, raciais e religiosas.

“A Coruja e o Sambódromo” ― de S. P. Rouanet (filósofo e ensaísta membro da Academia de Letras) é uma humorada e significativa fábula que tem no centro de sua trama uma coruja (a deusa razão) em um voo incerto.

Trago, com os devidos créditos ao autor, o vôo solitário dessa ave totêmica pelo mundo afora. O ponto final de sua angustiada viagem é o sambódromo, onde se queda profundamente deprimida com o que viu e ouviu:


                  “A Coruja e o Sambódromo”(texto condensado)
 (Mal-Estar na Modernidade – S. P. Rouanet)

A heroína desse ensaio é uma Coruja.  Ela já foi uma voz arrogante, pois representava a razão universal, tanto a teórica, capaz de compreender o mundo, como a razão prática, capaz de legislar para os homens. Mas hoje, anda triste e cabisbaixa,  tiritando de frio e com medo da sombra. Ela lembra com orgulho do seu período de aproximação quando foi canonizada na Notre Dame, transformando-se na deusa da razão [...].

Mas tudo isso é passado. A coruja resolve investigar o presente: quem sabe se no mundo contemporâneo há ainda lugar para ela?

 A coruja resolve viajar [...]. [...] Ela está sendo acusada de ser um pássaro etnocêntrico, que quer transferir para o mundo inteiro hábitos que só valem nos bosques europeus, é um pássaro totalitário, que quer impor seus pios crepusculares a todo o resto da floresta que vêm de centenas de passarinhos diversos, com suas cordas vocais próprias, com sua plumagem inconfundível, e com seus ritos amorosos característicos.

 Ela está interessada em visitar algumas regiões conflagradas do planeta.  Agora que o fim da União Soviética eliminou o risco de uma Terceira Guerra Mundial, ela percebeu perplexa, que a Primeira Guerra Mundial está acontecendo de novo na Iugoslávia. Que a guerra de 1914-18 está incendiando de novo os Bálcãs [...]. Escutando tantas alusões à Eslovênia, à Croácia e a Dalmácia, ela não pode acreditar na dissolução do império austro-húngaro [...]. Mas nada disso a impediu de perceber o essencial: a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças em nome de ignóbeis particularismos nacionais, étnicos e religiosos.

Em Berlim a coruja observa, com nojo, cenas de violência semelhantes as que ocorreram na véspera da  Segunda Guerra. As vítimas, agora,  são turcos, negros e vietnamitas.[...].

Contendo a custo uma golfada de vômito, a coruja vai visitar o outro campo ― o dos discriminados. Ali decerto ela ouvirá opiniões mais racionais. Através do sótão, observa uma festa de estudantes estrangeiros. Há muito vinho e o ambiente é caloroso e fraterno.. Estão presentes um paquistanês, um nigeriano e um brasileiro. É um grupo heterogêneo, mas unificado por uma emoção forte ― o ódio ao europeu ― por uma idéia central ― a especificidade do Terceiro Mundo ―, e por uma ambição comum ―manter a identidade das respectivas culturas. [...]

Desgostosa a coruja voa para o Oriente, recordando-se de que foram os muçulmanos que divulgaram no mundo civilizado a ciência grega, contribuindo para uma visão secular do mundo. Ela pára no Irã. Mas não consegue falar com os poetas Fardusi e Hafiz de Chiraz, como desejava. Os interlocutores estão todos muito ocupados, dilapidando uma adúltera. [...]. [...] A caminho, passa por uma multidão vociferante diante da embaixada da índia. O que tinha se passado? Um dos manifestantes explica: era um protesto contra os fanáticos hinduístas que em nome de Brahma tnham destruído uma mesquita perto de Calcutá. A coruja chega ao seu destino mas não encontra o embaixador. Ele tinha ido a um serviço religioso. Certamente a um mistério de Elêusis, sugere a coruja, esperançosa. Nada disso,  responde o mordomo, foi ouvir o pregador evangélico Billy Graham. Abre-se a porta da embaixada do Brasil, ao lado, e sai uma robusta senhora, com uma faca afiada. Felizmente, a coruja percebe a tempo que a mulher estava mal-intencionada: na ausência de uma galinha preta, uma gorda coruja poderia ser agradável aos exus.

Ainda com o coração aos pinotes, a coruja, atravessa o Atlântico. Ela pousa numa universidade americana. Está se realizando uma assembléia universitária, o  que interessa imediatamente a coruja, animal político por excelência. Discute-se a questão dos direitos humanos no campus. [...]. [...] Um militante gay diz que as liberdades de 1789 se dirigiam apenas aos heterossexuais, enquanto um ativista negro afirma que a Declaração dos Direitos Humanos só pensara na emancipação dos europeus. O mal foi que a revolução visara o homem em geral, e portanto, como correlato, o indivíduo abstrato, em  vez de visar particularidades concretas, como os negros, as mulheres, os índios.[...]. [...] A coruja tenta defender-se, dizendo, por exemplo,  que sua Atenas estava muito longe de discriminar os homossexuais, mas é severamente reprimida por usar essa palavra, em vez de “pessoas de orientação diferente dos heterossexuais"[...]. [...] Ela ainda quer argumentar,  mas desanima quando a “chairperson”  a acusa de ter uma posição individualista, falando em seu próprio nome, em vez de falar como porta-voz credenciada da comunidade zoológica à qual pertence, defendendo os direitos humanos em vez de defender a identidade cultural das corujas, e perdendo, em conseqüência, uma excelente oportunidade de propor um termo politicamente correto para designar a coruja ― por exemplo, “animal com horários notívagos diferentes dos demais dos horários matinais dos demais pássaros”.

A coruja faz nova tentativa e pousa no México, onde um professor como nome de herói de Tolstoi tenta há vários anos desescolarizar a sociedade.  Há dois seminários em salas contíguas. Num deles, o tema é “A Ilusão da Ciência”. Um indiano de Goa diz que a ciência é uma invenção eurocêntrica destinada a subjugar os povos do Terceiro Mundo. Um discípulo de Foucault diz que a ciência é uma prática de poder, destinada a produzir a docilidade social.[...]. [...] Um teólogo de Tubingen declara que a ciência tinha privado o homem de Deus, opinião partilhada por um antropólogo que de tanto estudar uma comunidade religiosa eclética se vestia com um camisolão branco e se julgava a reencarnação de São João Batista.

Aturdida a coruja passa para a sala ao lado. Outro grupo estuda a questão da moralidade.[...]. Um missionário presbiteriano  que dedicara os últimos vinte anos a evangelizar os pigmeus informou que essa interessante cultura praticava o Decálogo às avessas, com grande austeridade:  por exemplo, era eticamente obrigatório desejar a mulher do próximo e insultar pai e mãe, o que provocava enormes sofrimentos, pois esse povo era naturalmente casto e dotado de grande piedade filial.

Mas o ambiente vai ficando irrespirável. Um médico homeopata que tinha se convertido ao Xamanismo enfumaça a sala com fumigações pestilenciais. [...]. [...] As agressões se generalizam, e o seminário termina ingloriamente, com a fuga desabalada dos mais tímidos pelas alamedas do parque. A própria coruja deixa algumas penas na refrega. [...]

Ela chega ao Rio. Ei-la no sambódromo. Há um grande desfile, um carro alegórico cheio de bananas e abacaxis, mães de santo girando com suas saias rodadas. Macunaíma fazendo gestos obscenos para as arquibancadas e um samba-enredo composto pelo modesto autor deste ensaio. O tema é  a emergência entre nós de um novo tipo de humanidade, sensual, espontâneo e intuitivo em tudo diferente da humanidade gringa; o florescimento, em nosso meio,  de um saber próprio, de uma ciência ajustada às particularidades nacionais; e o surgimento de uma nova moral, que convenha ao nosso clima, à nossa formação multirracial e às nossas raízes históricas.

É demais para a coruja. Ela diz coisas sentenciosas que ninguém quer ouvir e voa, deprimida, em direção a um pouso incerto.

P.S.: “Devido não só às discrepâncias existentes entre os pensamentos das pessoas e as suas ações, como também à diversidade de seus impulsos plenos de desejo, as coisas provavelmente não são tão simples assim.” (Freud, em “Mal-Estar na Civilização” ― Editora Imago)     



Guarabira, 12 de setembro de 2013                                                                                                                                                                                                                                                                

30 agosto 2013

CONTRADIÇÕES: Nossas e de Nossa Velha República

Deputado Donadon – ajoelhado no Congresso


Dois meses atrás, as ruas dos grandes centros do nosso país foram tomadas por protestos pedindo o fim da corrupção, o fim dos desvios de dinheiro público através de licitações fraudulentas, o fim da impunidade e do descaso no trato da coisa pública por parte dos dirigentes da nação. Os minguados orçamentos destinados à educação, à saúde e ao transporte público, em contraste com os gastos astronômicos que o Governo Federal torrou nas obras e reformas dos estádios de futebol para a Copa do Mundo de 2014, foram responsáveis pela explosão da indignação popular na recente Copa das Confederações (conhecida no mundo inteiro como a Copa das Manifestações).

Mas não é que o Congresso, nesta semana, deu um tapa na cara de todos que saíram às ruas na Copa das Confederações, ao absolver um deputado condenado pelo STF a 13 anos de detenção. Para o inepto Congresso o deputado com direitos políticos cassados e em regime de prisão fechada no presídio da Papuda, continua deputado (vide link: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=164960)

Para conhecer as raízes do paradoxo dos paradoxos de nossa republiqueta basta dirigir o olhar para trás, e revisitar fatos da História recente do Brasil: Alguns anos depois de derrubada a Monarquia pelo marechal alagoano, Deodoro da Fonseca (proclamador da República), Floriano Peixoto, seu vice e conterrâneo, mergulhou o país numa guerra civil de ponta a ponta.  O paradoxo republicano ficou bastante evidenciado também na Política do “Café com Leite” (1894 à 1930): através de um recurso, hoje, usado e abusado ― o tráfico de influência −, os governadores de São Paulo e Minas Gerais puseram no poder a mesma oligarquia dos tempos da Monarquia. Em pouco mais de cem anos de nossa história republicana, o que podemos observar é que o fisiologismo tem sido uma constante entre os donos do poder ― uma arma indestrutível para manter “tudo como dantes no quartel D’Abrantes”.

Voltando ao caso do “deputado-preso-mas-não-cassado”: até que um dos ministros do STF (corte escolhida pelos que estão no topo do poder republicano), numa estocada bem humorada, deu-me um pouco de alento, estimulando-me ao riso. Disse, risonhamente, o ministro Marco Aurélio: “Os reeducandos da Papuda estão homenageados”, numa clara alusão ao deputado que continua deputado, agora, com exercício no presídio da Papuda. Aliás, o deputado Donadon (de Rondônia) já fez reivindicações sérias para melhorar as condições dos presos, penso, como nunca tenha feito em sua vida de parlamentar. Disse ele: “a alimentação de lá é muito ruim” ― “a água do chuveiro acaba enquanto se está ainda ensaboado” (Jornal Correio Brasiliense)

 Façamos então, uma incursão pela Filosofia política de Noberto Bobbio (1909 – 2004) na tentativa de entender esta nossa herança “maligno-fisiologista-republicana”. O cientista político italiano, reconhecido mundialmente, no seu antológico livro – “O Filósofo e a Política”, sobre a arte de fazer política, faz menção à obra “O Príncipe” de Maquiavel: “aqueles que têm em mãos o destino do Estado precisam combinar as características do leão e da raposa, ou seja, força e astúcia. São duas características que nada têm a ver com a finalidade do bem público; referem-se exclusivamente ao objetivo imediato de conservar o poder, independentemente do uso público ou privado que o governante queira fazer deste poder.” (página 142).

Mas será mesmo que a astúcia (o lado raposa da política) tem o poder de intuir em nós, a piedade ou a comoção? Digo isto, porque fiquei tocado lá dentro de mim, quando pela televisão ví o deputado Donadon mostrar as marcas ainda não cicatrizadas de algemas que foram impostas em seus punhos. Emocionei-me no final da sessão que o livrou da cassação, quando, esboçando um olhar de reverência, ajoelhado e de mãos postas para cima, disse trêmulo em sua prece: “agradeço a Deus que a justiça está sendo feita nesta casa.”


P.S.:

Acho que Freud, vivo fosse, saberia muito bem explicar o “porquê” de nossa alma ser tão republicana. (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de agosto de 2013



21 agosto 2013

O Que a Psicanálise Teria a Dizer Sobre a “Doença” de Nietzsche?




Nietzsche e Freud foram quase contemporâneos.

Um trecho escrito em “Genealogia da Moral” (página 73) muito similar aos conceitos que Freud defendeu, reforça o que muitos dizem ― Nietzsche foi o precursor da psicologia profunda: “Todos os instintos que não se descarregam para fora, voltam-se para dentro ― isso é o que eu chamo de interiorização do homem.” (Nietzsche).

“Freud sabia que Nietzsche trabalhara aplicadamente nisso antes dele. Em sua autobiografia ele escreve que por muito tempo evitara os textos de Nietzsche, porque muitas vezes, as idéias e intuições deste coincidiam espantosamente com os laboriosos resultados da psicanálise.” (Rudiger Safranski)

Quando apresentaram, “Ecce Homo” (obra concluída por Nietzsche nos momentos cruciais de sua “doença”) em uma das famosas reuniões de psicanálise das quartas-feiras, em Viena, Freud, nessa noite, fez uma breve intervenção: limitou-se a desejar um estudo da influência das impressões infantis sobre as grandes realizações do filósofo. (“Ressentimento” ― Maria Rita Kehl ― Editora Casa do Psicólogo)

“Não tenho dúvidas de que cerca de 60% dos transtornos psiquiátricos começam na infância” ― afirmou o psiquiatra Luis Augusto Rohde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro da Associação Americana de Psiquiatria, em uma recente entrevista às páginas amarelas da revista VEJA (31 de julho), onde reforça a idéia de que a vida conflituosa do infante é um fator determinante no aparecimento das psicopatias numa fase tardia da vida humana.

Para Freud, os primeiros anos de vida da criança são determinantes na formação de sua personalidade. Para ele, o psiquismo infantil é mediado pela evolução de sua sexualidade, que se inicia de forma inconsciente na obtenção do prazer no ato da sucção.

Para uma análise psicanalítica do ranzinza Nietzsche, em suas idiossincrasias, como sempre se procede com os analisandos, se faz necessário abordar fatos de sua experiência religiosa quando menino e adolescente. Segundo Freud, somos seres reativos e, como tais, procedemos como uma criança diante do desconhecido que nos ameaça. Não podemos negar que muito do nosso comportamento, tem em sua essência, fatos marcantes do tempo em que éramos crianças. Nietzsche era um artista que combatia o ressentimento e a moral submissa de rebanho, sem ter ideia de que esses inimigos estavam nele, internamente recalcados.

Hoje, através dos estudos no campo da psicologia pedagógica, sabemos que o artista – aquele que se sobressai -, está inconscientemente buscando na própria infância a pureza perdida, assim como o poeta procura em seus versos a liberdade primeva. Sabendo que a relação ambivalente de amor e ódio ao superego (Pai) nasce na nossa tenra infância, o colapso mental de Nietzsche, em linguagem psicanalítica, não representaria por si só, uma segunda infância delirantemente revivida ― O eterno retorno daquilo que ele relutava em não aceitar?

Em Nieztsche, nos seus dois últimos anos de vida, a ambivalência (que caracteriza o humano) floresce em toda sua plenitude, como se pode perceber nesse trecho poético do seu “Zaratustra”: “Fora daqui!/ Ah, fugiu por si/ o meu companheiro/o meu grande inimigo,/ o meu desconhecido,/meu deus-algoz” ― uma espécie de ode repetitiva da poesia que compôs quando adolescente – “Ao Deus Desconhecido”.

A dissociação psíquica de Nietzsche, em sua velhice (atribuída a uma sífilis mal curada), poderia (por que não?) ser explicada como um delirante retorno ao tempo de suas primeiras experiências infantis. Freud, em suas teorizações, dizia que temos um vigia (a censura) que monta guarda para evitar que o sujeito tenha o desprazer de ver seus recalques exteriorizados. É de se pensar que no final da vida de Nietzsche, esta espécie de “vigia” já não mais rechaçava a pulsão dos desejos não realizados e reprimidos em um porão abismal de sua psique  ―  determinando a sua dissociação mental.

Quando vivia seu estado psíquico final, Nietzsche, assim se expressou: “Quanto a minha longa enfermidade, devo-lhe absolutamente mais do que à minha saúde; uma saúde mais elevada que se reforça com tudo aquilo que não pode matá-la. Devo-lhe até minha filosofia: somente o grande sofrimento é o último libertador do espírito. [...] Duvido que o sofrimento nos torne mais morais; no entanto, nos torna mais profundos” ― algo mui próximo da moral cristã, que ele, antes, considerava como se fosse a negação da vida. Ressalte-se que apesar de vangloriar-se de ser o Anticristo, assinava suas últimas cartas com o nome do crucificado. Temos a impressão de que o filósofo barbudo, nos seus últimos escritos, repetia sub-repticiamente a poesia que tinha escrito na adolescência: “Ao Deus Desconhecido” ― análoga a um escrito tumular que o apóstolo Paulo identificou em Atenas.
Nietzsche, em sua “psicose”, (quem sabe?) estaria  projetando o Deus Paulino em Dioniso ― o seu deus poético retratado em sua obra ― Zaratustra.. "Algumas poesias do seu tempo de menino e adolescente revelam o ambiente marcadamente cristão e pietista em que viveu, como demonstram os poemas: Getsêmani e Gólgota, infelizmente inéditos no Brasil" (Paul L. Landsberg ― “Lições e Estudos Sobre Nietzsche).

A psicanalista discípula de Freud, Lou Andreas-Salomé ―, a grande paixão do filósofo ―, foi testemunha ocular de seus últimos momentos: “parecia uma criança dócil”– afirmou sua amada companheira. Na Casa de Saúde de Basiléia (Suíça), onde viveu a maior parte de seus últimos momentos, uma vez, falou para as pessoas ao seu redor: “Gostaria de abraçar e beijar as pessoas na rua”. Ao nascer do dia, dizia para sua mãe: “bom dia minha amada e boa mãzinha”. O Nietzsche hospitalizado, definitivamente, não parecia o ranzinza de antes: uma sensibilidade extrema tirara as máscaras do seu EU frágil?

A afirmação bíblica ―“Nem os loucos erram” ―, embute uma verdade do ponto de vista psicanalítico. Hoje se sabe que os delírios do “louco”, são uma linguagem do inconsciente, à guisa de interpretação, comumente denominadas “fantasias”, pelos psiquiatras. Esses comportamentos estranhos que o louco expressa como sua realidade interna são fantasmas para nós, considerados “os normais”. Mas quem sabe, se por trás do fenômeno a que denominamos demência, não estejam em explosões os componentes reprimidos que cada um de nós guarda em um porão esquecido da mente. A doença psíquica, nesse caso, talvez pudesse ser explicada como uma espécie de libertação. Não foi à toa que o Holandês, Erasmo de Roterdam, em sua maior obra ― “Elogio da Loucura” ― tentou numa linguagem ferina desmascarar muitos que se consideravam hígidos e sábios aos seus próprios olhos.

Nietzsche, segundo o médico, Paul Július Mobius, viveu seus últimos anos em estado de infantilismo. Talvez por voltar a ser menino, é que o estágio crítico de sua “doença”, tenha sido responsável pelo período no qual mais se expressou com grande bondade e ternura ― atributos da fase de criança “boazinha” e “submissa” que um dia foi ―, afetos esses que não desapareceram por completo de seus arquivos psíquicos.

É verdade que, às vezes, tinha lapsos em que reaparecia a antiga “vontade de potência” dionisíaca ou divina. No leito, em um dos seus freqüentes êxtases, assim se dirigiu aos que o assistiam: “Amanhã, quero fazer para vocês, minha boa gente, o tempo mais esplêndido” ― “revela-se aqui, a velha mania de grandeza, reflexo do Superego (Imago Dei), mesclada a uma bondade infantil infinitamente tocante que, como um pensamento mágico, não o abandonara por completo” (Paul L. Landsberg ― “Lições e Estudos Sobre Nietzsche”)

Por que não rotular a fase final da “doença” de Nietzsche como um estado psíquico piedoso, uma vez que foi nesse estágio que se pode perceber, de sua parte, uma entrega sem resistência e com toda a confiança nos braços de seu médico, sua irmã e sua mãe?

O certo é que Nietzsche viveu uma relação psíquica íntima com os “fantasmas” de seu inconsciente, indo muito além do que os psiquiatras da época tinham definido ou diagnosticado como demência.

“O fato é que o filho de um pastor protestante proporcionou o encontro do cristianismo de seus pais com o espírito da Antiguidade grega, para proclamar que o seu Deus é, ainda e de novo, um Deus desconhecido” ― Concluiu Paul Ludwig Landsberg ―, estudioso alemão que tirou muitas lições dos escritos do controvertido filósofo e de suas poesias que exalavam uma extrema piedade.


P.S.:

Diz-se, em psicanálise, que a verdade do sujeito está no inconsciente.
Aquele que consegue se apoderar diretamente do enigmático e fantástico conteúdo de seu inconsciente, deixando-o fluir livremente sem as máscaras da vida social e familiar, é um louco ou um ser de espírito livre? 

Para aqueles que desejam saber mais sobre a loucura (ou libertação afetiva) de Nietzsche, não deixem de conferir o Filme - "Dias de Nietzsche em Turim".


Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de agosto de 2013