08 fevereiro 2011

O Carnaval 2011 Faz Renascer Abraão



José Ramos Tinhorão, historiador da cultura brasileira, em seu livro — “As Festas no Brasil Colonial” — narra como a igreja católica mobilizava massas humanas para eventos de rua, e como eram as concorridas procissões de “Corpus Christi”. Segundo ele, essas solenidades tradicionais do calendário da igreja, com o tempo, foram associadas ao gosto das camadas burguesas, se misturando com o espírito das festas carnavalescas.

O vice-rei Vasco Fernandes Cesar de Menezes sobre uma procissão em Salvador, fez o seguinte relato:

Deparamo-nos com uma impressionante multidão em procissão que dançava ao som de suas violas e zabumbas, fazendo vibrar a nave da igreja. Tivemos nós mesmos que entrar na dança por bem ou por mal, e não deixou de ser interessante ver num cortejo religioso, padres, mulheres, frades, cavalheiros e escravos a dançar misturados, e a gritar: ‘Viva São Goncalo do Amarante!’

O surpreendente é constatar que essa relação lúdica e espiritual, agora, passa a sair dos armários secretos dos tabernáculos sagrados do protestantismo. A procissão católica que no século XIX se desintegrava em folia, está sendo instituída e exaltada, por nada mais e nada menos que igrejas protestantes que, nos primórdios, viam tudo isso como coisa diabólica.

Eis que os tempos mudaram. Pasmem meus senhores! Uma igreja evangélica, entre as quatro maiores em número de fiéis, acaba de exaltar um samba enredo que uma escola de samba paulista ( Pérola Negra) fez para o carnaval de 2011, o qual tem por título: Abraão – O Patriarca da Fé (rima com samba no pé – rsrs).

Com certeza, os rescaldos culturais das procissões-carnavalescas do Brasil colônia, estavam reprimidos nos porões secretos da mente de certos eclesiásticos, cujos seus predecessores as combatiam com muita ênfase, quando denominavam esses espetáculos de coisa vil e pagã.

O casamento do profano com o sagrado, enfim, pode ter sido reatado para o bem ou para o mal (não sei), como acontecia no tempo das procissões católicas que o Tinhorão pesquisou exaustivamente. Ao que me parece, a direção da igreja RENASCER ficou satisfeitíssima com o emblemático enredo, segundo divulgação do site evangélico independente — “FOLHA RENASCER BRASIL” — que, por sinal traz, o vídeo e a letra do samba Abraâmico.

Um fato bíblico, narrado no livro de Êxodo, veio agora a minha lembrança e pode, quem sabe, justificar muito bem a festa carnavalesca em homenagem a Abraão no sambódromo de São Paulo: Miriam, irmã de Arão (assessor de Moisés) comemorou com pulos e danças sob a batucada de tamborins, o sensacional feito de Javé, que permitiu o seu povo atravessar o mar vermelho a pé enxuto.

Agora pergunto eu: “Será que essa ‘imago festeira’ que ficou no imaginário coletivo ou popular, amadureceu ao ponto de ser, pela primeira vez, revivida na avenida de forma esplendorosa?” A Bíblia, por ser o livro mais rico em epopéias e histórias espetaculares, pode se tornar, daqui pra frente, um grande filão onde muitos carnavalescos ou eclesiásticos irão buscar os futuros enredos para suas escolas de sambas. Quem viver verá!

P.S.:

Para entender melhor a evolução das alas dos passistas da epopéia abraâmica, no desfile da Escola de Samba Pérola Negra, é bom que os torcedores levem suas Bíblias para verificar se o samba está mesmo condizente com a palavra de Deus. Constatando que o enredo segue na íntegra a história do Patriarca da Fé, é só cair na gandaia com muito samba no pé. (olha aí a rima)

Segue abaixo, o vídeo com a letra e melodia do samba enredo, para os fiéis começarem a ensaiá-lo, a fim de na arquibancada do sambódromo de São Paulo, não fazer feio, ao sambar e cantar sem desafinar junto com as vozes das alas das baianas, e das celebridades ondulantes em seus carros alegóricos.


12 comentários:

Gresder Sil disse...

Com certeza Levi a bíblia será uma fonte trasbordante e manancial de musica para as escolas de samba, não sei como não foi até agora?

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Talvez o que ainda assuste os evangélicos quanto ao Carnaval é a pouca roupa, o uso descontrolado de bebida alcoólica e o comportamento de boa parte do público que se torna provocantemente libidinoso ou até violento quando surgem as brigas. Aqui em Nova Friburgo, já houve carnavais em que, se não me engano, teve até blocos evangélicos e que tinham por objetivo a evangelização. Foi o que ouvi falar porque não assisti (aliás detesto o barulho que fazem aqui bem perto de casa e ainda com o uso do dinheiro público que financia as escolas). Entretanto, já participei de atividades evangelísticas no Carnaval de 2007 em que o pessoal de dança da igreja onde eu congregava fez vários teatros e exibições de danças rítimas na rua. Obviamente que havia pessoas de outras denominações que não deveriam ver agente com bons olhos... De qualquer modo, prefiro ir pra um retiro espiritual.

Jailson Freire disse...

Meu amigo Levi. Penso que, apesar dos tempos terem mudado a palavra de Deus jamais mudará. Jamais será compatível o santo com o profano. Ou se é uma coisa ou outra. Ou servimos a Deus ou servimos a satanás. O que me veio à memória é o seguinte versículo:
"Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará “ (Gálatas 6:7)

Entretanto, Deus em sua infinita sabedoria e soberania, permite que esse tipo de coisa aconteça, pois precisa arrancar algumas ovelhas desgarradas do meio do lamaçal (carnaval) e para isso, Ele usará até o que para nós é algo escabroso para trazer de volta escolhidos amados do meio de servos de satanás.

Parece contraditório, mas Deus é o único que pode contradizer até mesmo a contradição.
Abraços do seu amigo.

Jailson Freire
CRÔNICAS DE UM OBSERVADOR
www.cronicasdeumobservador.blogspot.com

Conexão da Graça disse...

Levi, essa foi golpe baixo, pois sou pagodeiro e sambista de carteirinha em nome de Jesus!rsrsrs.Gosto da exposição de cultura que as escolas fazem,só não me identifico muito com os as práxis por detrás dos bastidores. Valeu! Agora é ver pra Crer.

Uma abração,

Franklin Rosa

Levi Bronzeado disse...

Gresder e Rodrigo


Essas festas, tal como hoje é o carnaval, eram praticamente inconcebíveis no tempo da chegada ao Brasil dos portugueses, oriundos de uma Europa autoritária, no que diz respeito ao controle teocrático da sociedade. O conceito de pecado, tal como pregam ainda hoje as correntes fundamentalistas, impunha aos cristãos uma vigilância permanente contra os impulsos pagãos-dionisíacos.

A maioria dos eclesiásticos não comungam da idéia de que os “crentes” possam se apresentar na avenida com seus enredos bíblicos, mesmo abdicando do desejo de beber e do sexo. Em tudo isso, eu vejo o forte fator cultural, cujo núcleo pétreo não permite a demonstração da libido sexual de forma pública. Para o cristão só é permitido dar vazão aos seus instintos sexuais, dentro das quatro paredes do seu lar. Só ali ele secretamente pode exercer o seu reinado libidinal da forma que entender.

O fator cultural é forte e está arraigado no inconsciente religioso. No paganismo, os homens agiam como selvagens, de acordo com suas paixões, enquanto os cristãos moviam-se segundo o espírito de Deus e a razão. Assim, o
paganismo implicava no "pecado da carne", no qual incorriam, também, os que cometiam atos irracionais, loucos, não esquecendo que falta de razão, não raramente, identificava-se com alegria.

Há quem diga que a igreja católica evoluiu ao permitir que seus fiéis brinquem o carnaval.

Conta Tinhorão, que em 1852, os estudantes do colégio da Bahia, todo dia 21 de outubro saiam desfilando pelas ruas, vestidos de virgens para relembrar o martírio das 11.000 virgens que foram martirizadas, com a volta de Portugal de um padre carrasco de nome Cristovão de Gouveia. Posteriormente foi criada a Irmandade das Onze mil virgens, já com batucadas e danças (bloco precursor dos desfiles carnavalescos??).

Há quem diga que o carnaval seria a síntese entre os prazeres carnais e o campo do sagrado.

Outros autores vêem o carnaval como uma válvula de escape para as tensões do cotidiano, permitida, controlada e estimulada pelos grupos dominantes, constituindo-se em um recurso utilizado pelo poder para manipular e reforçar a ordem vigente.

A bola está com vocês, agora (rsrsrs)

Anônimo disse...

Meu caro, vc não se informou direito. O tal site não pertence a igreja Renascer. O site oficial deles é www.igospel.com.br

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Oi Levi,

Embora eu entenda que a Igreja reprimiu demasiadamente o sexo, assim como judaísmo tardio, não vejo proveito no que fez o paganismo.

Toda a base Bíblia, entendo eu, vem da Torá e, pelo que interpreto da instrução, o sexo deve ser praticado entre o homem e uma mulher dentro do compromisso matrimonial (não vou nem discutir o absurdo das igrejas brasileiras exigirem a assinatura de papéis para se reconhecer o casamento). Mas a relação entre homens e mulheres desimpedidos é algo remediável quando ambos podem se casar.

Sendo assim, é preciso que o crente vigie em todas as festividades do povo e nos ajuntamentos de pessoas para que a energia libidinosa não o leve a pecar. Pois, a maneira como nos portamos, expomos olhares, descobrimos nossos corpos acabam sendo facilitadores para o pecado sexual, o qual é potencialmente destrutivo para a unidade familiar e faz com que o homem se afaste dos planos de Deus.

Digo isto porque, ao refletir sobre o adultério e a fornicação, tenho compreendido o quanto é nocivo uma esposa separar-se de um marido e buscar novas núpcias. Ou mesmo ter filhos de pais diferentes. A própria criança sofre bastante com a ausência de um pai que se divorciou porque o desejo de quase todo filho é ver o papai e a mamãe juntos no mesmo lar cuidando dele.

Sendo assim, por estes e outros motivos que o espaço não permite detalhar, não aprovo o que muitas pessoas fazem no Carnaval. Mas acho que a festa pode muito bem ser re-inventada e se tornar uma opção para entretenimentos sadios de crianças e adultos. Aliás, eu lembro muito bem que adorava me vestir de súper herói no Carnaval quando ía brincar no clube ou na escola, embora, repetidas vezes (salvo engano), minha mãe comprava fantasia de índio.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo! Acho interessante uma escola de samba homenagear o patriarca Abraão que é pai de todos nós, em quem são benditas todas as famílias da terra.

O que será que a comunidade judaica vai dizer sobre a iniciativa? Estou curioso...

Entretanto, acho que esta separação entre igreja e o mundo às vezes se torna algo que aumenta mais ainda o isolamento social dos evangélicos. É como se o crente fosse um ser de outro mundo, que não se relaciona com ninguém e vive dentro de uma sub-cultura religiosa usando cumprimentos típicos, como "a paz do Senhor, meu irmão", e tendo suas programsações específicas. Ou seja, acabamos nos diferenciando do mundo mais por razões culturais de um povo igrejeiro do que por um comportamento genuíno capaz de mostrar uma santidade amorosa nas nossas relações.

Ano passado o tema da minha igreja atual foi "ser cristão na sociedade" e foi a meu ver bem trabalhado pois começamos a criar meios de conexão com os de fora. Fizemos eventos como o "Bar & Adoração" onde o salão da igreja passou a ser disponibilizado para servir salgados e petiscos com refrigerantes (nada de bebida alcoólica), tocando tanto música gospel como secular. Também iniciamos o "Celebrando a Recuperação" que é um trabalho de cura interior semelhante ao AA aberto a todos. E ainda tivemos um fórum sobre política e consciência, convidando a comunidade e autoridades da cidade que é feito também no auditório (alguns vereadores já vieram lá debater). Ou seja, no mesmo local onde rolam os cultos, temos feito eventos seculares afim de que o sagrado esteja em todos os locais...

Levi Bronzeado disse...

NOTA:

Quero agradecer aqui a colaboração do anônimo, que percebeu que o site Folha Renascer Brasil, apesar de ser evangélico,é independente e não pertence a RENASCER tradicional.

O trecho equivocado foi prontamente corrigido pelo editor do blog, ficando dessa forma:

Ao que me parece, a direção da igreja RENASCER ficou satisfeitíssima com o emblemático enredo, segundo divulgação do site independente — “FOLHA RENASCER BRASIL” — que, por sinal, traz o vídeo e a letra do samba Abraâmico.

Levi Bronzeado disse...

“O que será que a comunidade judaica vai dizer sobre a iniciativa? Estou curioso...” ( RODRIGO)

Bem, Rodrigo, para matar a sua curiosidade, republico abaixo, uma nota da Comunidade Israelita do Rio Grande do Sul, em seu site oficial [http://www.firs.org.br/noticias/o-patriarca-abrahao-na-avenida.aspx], sobre o samba enredo “Abraão — O Patriarca da Fé” da Escola Pérola Negra de São Paulo(2011):

Como enredo do Carnaval 2011, a escola escolheu o tema "Abraão, o Patriarca da Fé"

Objetivo:

"Frente ao caos urbano, turbinado pelo crescimento populacional descontrolado, pelas trágicas reações climáticas e, principalmente, pela banalização da violência, o homem tem travado uma batalha conceitual sobre os seus valores religiosos, dificultando a sua renovação de fé e esperança e, sobretudo, questionando a existência de Deus.
Ao contar a lenda de Abraão, comum as três tradições monoteístas - judaísmo, cristianismo e islamismo -, pretendemos ilustrar a importância, para a sociedade atual, da busca por algo divino para amenizar suas dores e cicatrizar suas feridas, pois nada é por acaso. E assim, como fez o protagonista deste enredo, ter a palavra "acreditar" como ordem, entendendo que para cada um de
nós foi escrito um capítulo exclusivo, mesmo sobre linhas enviesadas, desta grande obra que é a vida.


"Deus se esconde - a fim de que o homem o procure"

Rabi Nahman de Bratslav

Eduardo Medeiros disse...

levi, foi muito interessante ler o que o vice-rei escreveu sobre a procissão de salvador.

"Tivemos nós mesmos que entrar na dança por bem ou por mal" kkkkkk isso é bom demais!! desconhecia tal passagem da nossa rica história.

gosto muito de ver os desfiles das escolas pela televisão; não vou ao sambódromo porque não gosto muito de multidões e há sempre o perigo da violência, mas ao vivo deve ser um espetáculo deslumbrante.

"o maior espetáculo da terra"

taí, levi, acho que você descobriu a inventora do carnaval primordial no meio do povo de javé: mirian com seu tamborim...

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Olá, Levi!

Volto novamente a este artigo de seu blogue afim de compartilhar sobre o quanto poderia ser interessante se pessoas crentes resolvessem criar uma escola de samba com princípios bíblicos e se apresentasse nos desfiles junto com as demais instituições carnavalescas?

Seria bem legal e eu diria até que evangelístico, com todas as possibilidades de se desenvolver composições de músicas seculares que prestigiem a cultura brasileira, o que não deixa de ser uma maneira de falar em Deus. Uma escola de samba em que seus integrantes desfilem com descência e sem consumo excessivo de álcool ou drogas.

Na noite desta sexta, recebemos a visita de uma irmã que, salvo engano, fora criada na Assembléia de Deus. Embora ela esteja hoje em outra igreja, minha ideia deixou-a bem perplexa proque muitos crentes olham para o Carnaval como a "festa da carne", algo ruim e incompatível. Já os católicos também têm uma noção de incompatibilidade, tanto é que, na quarta-feira, eles vão até à missa para o padre colocar cinzas sobre suas frontes. Só as religiões afro é que aeitam o Carnaval e fazem do momento uma oportunidade dde culto para os seus Orixás.

Ora, por que o crente não pode louvar e adorar o Deus único durante o Carnaval?!

Como disse em comentário anterior, já tive a experiência de ir com o pessoal de uma igreja onde me congreguei para fazer evangelismo na praça, muito embora não tenhamos apresentado nada de samba. Em outra ocasião que não participei, a galera até desfilou num bloco, mas cantando só músicas de louvores pelas ruas para perplexidade das igrejas mais fundamentalistas que costumava olhar atravessado os irmãos da Maranata...

Bem, iniciativas destas são ótimas, mas entendo que não se pode reprimir a cultura secular a ponto de restringirmos aos cânticos de louvores. Todas as nossas expressões devem ser de louvor a Deus, inclusive nas comunicações que ainda são consideradas como seculares, muito embora paravras de saudação como um "oi", "bom dia", "como vai" podem muito bem conter em si mesma o reconhecimento do amor divino na existência do nosso próximo. Algo mais ou menos como o "anamastê" indiano, mas de um ponto de vista monoteísta (risos).

Enfim, compreendo que o Carnaval, em tese, deve servir para interagirmos com a sociedade onde vivemos e aí, obviamente, precisamos reconhecer a Divina Presença em todas as ocasiões de sociabilidade.

Termino com esta indagação que inclui o tema adotado em 2010 pela minha igreja atual: como seguir a Cristo em sociedade?

Abraços.