13 fevereiro 2011

SOBRE O NOSSO CARÁTER EGOÍSTA



Grande parte de nossa insatisfação reside na busca da felicidade pela via egoística. Freud disse em “Mal-Estar na Civilização” – Editora Imago (pág. 85): “Há uma tendência humana de isolar do ego tudo que pode tornar-se fonte de desprazer”.

Diz Erich From, em seu livro “TER e SER” – Editora Zahar (página 192): “A ambição e cobiça são tão fortes, não porque sejam inerentes à natureza humana, mas devido à dificuldade em resistir à pressão pública de ser lobos entre lobos”. Há nesse livro uma referência muito emblemática, que faço questão de destacar aqui, sobre como funciona o nosso caráter egoísta:

“Eu quero tudo para mim mesmo; que ao possuir não compartilhando tenho prazer; que me devo tornar cobiçoso porque, se meu objetivo é ter, sou mais na medida em que tenho mais; que devo me sentir em antagonismo com todas as demais pessoas: meus clientes a quem devo enganar, meus competidores a quem devo destruir, meus trabalhos a quem devo explorar. Nunca posso estar satisfeito, porque não há fim para os meus desejos; devo ter inveja daqueles que têm mais e temer aqueles que têm menos. Mas devo reprimir todos esses sentimentos a fim de me apresentar (aos outros como a mim mesmo) como o tipo de ser humano que todos aparentam ser: sorridente, sensato e sincero.”

Admiramos os cavalos e as torres que se movem no tabuleiro do jogo de xadrez, e pensamos: “Ah, como seria maravilhoso se eu pudesse me movimentar como as torres, os bispos e os cavalos!” — e esquecemos o nosso potencial de “peão”, que no seu movimento gradual e constante representa a estratégia da alma no jogo da vida. Ele (o peão) aparentemente não é nada, mas dentro dele está o potencial de ser “rainha”.

O rabino, Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil, conta-nos uma história emblemática, na qual se pode perceber a raiz da insatisfação humana latente em nossa alma, alimentada pelo ideal de EGO:

Um professor procurou seu rabino para lhe pedir ajuda e mudar de carreira. Ele estava cansado de ensinar e muito invejoso daqueles que sempre tinham tempo para relaxar, podendo se dedicar a sua família e ter uma atividade mais criativa e intelectual.

“Ensinar é muito cansativo” — ele reclamou. “São tantas horas de preparação, sem contar o tempo das aulas e as intermináveis dúvidas dos alunos! Não é por acaso que não tenho nem tempo nem energia para usufruir daquilo que os outros aproveitam”.

Chegando a casa do Rabino, este, o recebeu com a seguinte frase:

Estes são os descendentes de Noé (em hebraico Noé quer dizer conveniente ou relaxado). Em outro trecho está escrito: ‘Estes são os teus deuses’

O professor então respondeu:

“O que o senhor diz é verdade, mas está escrito também que Noé ‘andava com Deus’. O que isso significa?”

O rabino respondeu:

“Cada um de nós tem o seu caminho particular com Deus. Alguns o fazem através de sua arte, outros de seu trabalho e outros de sua criação intelectual. Sempre vemos os caminhos dos outros como sendo mais fáceis e agradáveis que o nosso, já que não sabemos das dificuldades inerentes a cada caminho. Porém se você abandonar o seu caminho por outro, você vai se descobrir perdido, porque está adorando o caminho e não o objetivo. Continue lecionando e ensinando, meu filho. Trabalhe com intensidade naquilo que você se instruiu. Este é o seu caminho através do qual você anda com Deus.”

O professor então sinalizou com a cabeça demonstrando que entendera as palavras do rabino. (O Sagrado – de Nilton Bonder – página 62 e 63)

É isso mesmo, o anseio pela satisfação irrestrita dos instintos, às vezes, nos tira do lugar onde deveríamos estar, levando-nos a abandonar o caminho verdadeiro em troca dos prazeres e recompensas de um falso e idolatrado objeto. Se sou um peão no tabuleiro de xadrez da vida, o meu jogo se trava na condição de peão. O peão, apesar de ter em si o potencial de ser uma rainha, jamais conseguirá a realização idealizada de um dia, ser o cavalo, o bispo ou a torre.

O nosso caráter egoísta que visa apenas o êxito pessoal, e que tem como pilar básico o canibalismo social, só poderia dar como resultado o sistema atual em que estamos inseridos, sistema esse, que sempre será movido pelo perigoso combustível do hedonismo, da idolatria e do egocentrismo.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 13 de fevereiro de 2011

7 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Shalon, Levi!

Parabéns pelo texto que muito nos ensina.

Será que a resposta não estaria em cada um descobrir a si próprio?

"Homem, conhece-te a ti mesmo". Por acaso esta frase não se aplicaria à boa vocação e ao desenvolvimento dos nossos talentos?

Abraços.

Levi Bronzeado disse...

Caro Rodrigo


Quando alguém apela para analisar suas estruturas psicológicas, numa introspecção íntima, o que é que encontra senão o vírus da competição para ser o melhor?!

O livro de Gênesis, traduzido de forma metafórica, descreve a nossa cruel ambivalência. No nosso céu sinônimo de nosso inconsciente essa semente egoística está presente na guerra entre nossos afetos profundos, simbolizados pelas figuras dos anjos em revolta nos lugares celestiais.

É na adolescência que mais sentimos a presença desses anjos em rebelião contra Deus – que na psique é representada pelo superego (eu costumo substituir essa palavra pela figura da “imago paterna”)
Guardamos ainda no velho computador interior (cérebro) algo daquela memória que não podemos deletar.
O adolescente egoísta apresenta relações de amor e paixão que surgem com toda a força, para abruptamente se romperem pouco tempo depois de iniciadas. Por um lado atira-se entusiasticamente com toda fruição na vida da comunidade, para depois quedar-se numa ânsia de solidão irresistível. Os adolescentes são aqueles que oscilam entre a cega submissão a um líder, mas por outro lado se rebela contra toda e qualquer autoridade. São egoístas e materialistas, mas ao mesmo tempo cheio de um idealismo grandioso, variando entre o otimismo leviano e o pessimismo sombrio.

E quando mergulhando no meu abismo interior encontro esse adolescente, não resisto e digo como Paulo aos Romanos:

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?

Paulinha disse...

Amigo,

Passei aqui porque você me despertou com aquele tão significante fragmento deixado em meu blog.

Muito obrigada pelo texto que veio em boa hora...

Estou num desânimo tão grande, e você veio como um anjo...anjo Levi. Rss..

Realmente o que precisamos ver é o potencial que temos inseridos em nós, e não ficarmos cobiçando o caminho ou trajeto de alguém.

Pois temos mesmo o potencial de sermos "rainha", mesmo sendo peões..como bem ressaltado em seu texto.

Muito obrigada...

Eduardo Medeiros disse...

levi, muito significativo este teu texto. por que temos que padronizar tudo? o ideal de sucesso? foi a nossa própria ambivalência quem criou esta nossa sociedade e eu e você nos vemos presos aos seus conceitos de "sucesso" e "competição". será mesmo que a máxima do nazareno que o maior é o que serve faz sentido nesta geração?

lembrei-me de um antigo livro que li de paul yong cho onde ele dizia que orava muito para ser o novo billy grahm e um dia ele "ouviu" deus lhe dizendo que não queria um billy grahm pois ele já tinha um, ele queria agora um paul yong cho.

Levi Bronzeado disse...

EDU

Parece que foi assim que Cristo pediu ao Pai em oração pelos seus discípulos: “Não quero que os tire daqui, mas que os guarde da corrupção do mundo”.

Mas como é difícil aceitar que estamos em um beco sem saída, presos a mercê de forças sociais e econômicas, incontroláveis e “anônimas”, submetidos à estupidez e à ambições pessoais, ambições essas que um dia foram nossas — passadas por nossos ancestrais. Digo que “foram nossas”, porque em nossa tenra idade fizeram com que esses “fantasmas” habitassem à nossa imaginação. E o reflexo disso tudo dura até hoje.

Por outro lado, o passado(ainda presente no dia a dia) apesar de nos assombrar, não impede de termos uma nova visão do futuro.

Sonhar é preciso... (rsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Oi, Levi.

Tudo bem?

Concordo que esa competição de adolescente é algo que nos atrapalha e impede a manifestação do brilho que há em cada um, tornando as ações humanas bem medíocres. Entretanto, é preciso que a cooperação prevalesça sobre o sentimento de competição! E isto produz justiça.

Abraços.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Paula, amiga. Tenha ânimo. Você é uma rainha! Seja forte e corajosa! Lembre-se destas palavras que o Eterno disse a Yeshua (Josué):


"Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, você e todo este povo preparem-se para atravessar o rio Jordão e entrar na terra que eu estou para dar aos israelitas. Como prometi a Moisés, todo lugar onde puserem os pés eu darei a vocês (...) Ninguém conseguirá resistir a vocês todos os dias da sua vida. Assim como estive com Moisés, estarei com você; nunca o deixarei, nunca o abandonarei. Seja forte o corajoso, porque você conduzirá este povo para herdar a terra que prometi sob juramento aos seus antepassados. Somente seja forte e muito corajoso! (...) Não fui eu que lhe ordenei? Seja forte e corajoso! Não se apavore, nemd esanime, pois o SENHOR, o seu Deus, estará com você por onde você andar". (confere com trechos de Js 1.2-9; NVI)


Não quero aqui fazer nenhum discurso tipo esses teólogos da prosperidade, mas vejo no texto uma exortação para que o homem de Deus (ou a mulher de Deus) tenha ânimo nas suas ações.

Moisés já tinha morrido. Não adiantava mais prolongar o luto. Agora os israelitas tinham que atravessar o rio Jordão e seguir em frente para conquistarem a terra prometida aos patriarcas. Assim, eles tinham que confiar no Eterno, acreditar e lutar sem voltar atrás.

Igualmente nós vivemos nossa existência dentro de um propósito. Há uma Canaã a ser conquistada e o que precisamos é agir com coragem diante da vida, marchar, lutar e vencer.