12 novembro 2015

Esconder Para o Outro Não Sofrer




Negar Para Não Sofrer"       
   
Essa arte eu aprendi logo cedo
Aprendi desde os tempos das primeiras letras
Negar para não sofrer
Já adulto, agindo como o débil aluno de outrora
Fiquei tenso, de rosto avermelhado
Quando Ela me perguntou:
Estás a esconder algo de mim?”
Neguei para não sofrer.

[Levi B. Santos]



Os filhos de uma cliente minha compareceram ao consultório com a finalidade de receber o resultado anátomo-patológico de uma biópsia de colo uterino que, 40 dias atrás, eu tinha realizado em sua mãe. No recinto, ao notar a ausência da senhora que tinha se submetido ao procedimento preventivo, perguntei de imediato para a filha que, pelo jeito de se portar, denunciava ser a responsável pela paciente.

Por que não trouxe sua mãe para eu explicar o que deu no resultado do seu exame?

Antes de me responderem, a tríade de irmãos de sangue, em silêncio, confabularam pelos olhos, fazendo com que eu percebesse que algo de suma importância estavam combinando. O perfil físico da filha demonstrava claramente que tinha mais idade que seus dois irmãos. Tomada por um certo nervosismo, evidenciado pelo esfregar constante das suadas mãos, fez sinal de que ia me falar em segredo, ao mesmo tempo que cochichava ao ouvido de minha auxiliar, para que a mesma se ausentasse da sala por um pouquinho de tempo.

Doutor, a gente quer saber se o exame de minha mãe deu “aquela doença”(o sempre impronunciável, câncer)! Nós todos, de comum acordo, viemos aqui para dizer ao senhor que nossa mãe não pode saber que tem essa maldita doença ― disparou a filha, meio trêmula e com olhos esbugalhados.

O senhor promete, diante de Deus e da Virgem santíssima não revelar nada sobre sua doença? É por amor e para que ela não sofra tanto que resolvemos tomar esta decisão arrematou a filha, ansiosa pela minha aquiescência.

Tudo bem, tudo bem! Se é assim que vocês desejam, serei comedido em minhas elucidações ― respondi bem a vagar, como quem caminha em terreno escorregadio.

Ocorrências como a que acabei de narrar, não são raras e têm me levado a acuradas reflexões. Nas minhas longas leituras, tenho procurado explicações sobre esse mecanismo psíquico da “Negação” que, por ser de natureza inconsciente, é projetado no OUTRO (ente querido), objeto de nosso suposto amor. Se pudéssemos entender que a criança que fomos um dia continua encarnada no fundo obscuro dos porões de nossa mente, iríamos por certo concluir que a determinação tomada pela família em esconder a doença fatal de sua progenitora se enquadraria naquilo que os estudiosos da Psique denominam “Auto-engano”, ou seja, quando racionalizamos que se deve esconder de um ente querido nosso a doença grave de que é portador, sob a alegação de que é para evitar seu sofrimento, na verdade, estamos, por um processo de identificação com o doente, nos deslocando inconscientemente no sentido de evitar o nosso próprio desprazer. Não era assim que agíamos quando na tenra infância, para não sofrer castigos, evitávamos contar aos nossos pais as maldades e atos considerados proibitivos ou vergonhosos que praticávamos junto aos coleguinhas de escola?

Acessando as memórias de nossa infância iremos, fatalmente, perceber a quantidade de fatos maus ou desabonadores que escondíamos dos nossos genitores para não sofrer sua reprovação dura que, quase sempre, resultava em surras ou privação de determinadas liberdades. Às vezes, nossos pais até que procuravam adivinhar o que lá no íntimo escondíamos, quando em casa, depois de voltar da escola, aparecíamos cabisbaixos e desconfiados pelo canto das paredes. “Você está com cara de quem está escondendo algum malfeito na escola, seu moleque? Desembuche logo! ― inquiria o pai ou mãe com um ar grave. E para não sofrer negávamos tudo com a cara mais deslavada do mundo.

O “mal” ou doença daquela senhora, segundos os filhos, ela não poderia saber, por hipótese nenhuma. Resolvi nada interpor sobre o acordão engendrado entre eles. Fiquei a perguntar a mim mesmo: se pelo menos, os filhos da desditosa mulher, hoje já bem maduros, pudessem entender que o mal praticado e ocultado da mãe ou do pai, no tempo de sua meninice, sob forma de um sentimento culposo, estava naquela ocasião a aflorar. Se eu pudesse, pelo menos, aclarar o que estava por trás de suas racionalizações (ou desculpas esfarrapadas), usando o pouco do que tenho aprendido na área da Psicologia. Em criança, por diversas vezes, para não sofrer, enganei meus pais. E agora, estava eu diante de adultos-crianças que numa linguagem defensiva esboçavam as mesmas reações de um passado que não mais lembravam. Por terem ludibriados seus pais na aurora de suas vidas, os filhos sentimentalmente interligados, de forma unânime, estavam ali tramando em meu consultório apagar ou esconder a sombra de um passado, que o mal incurável de sua terna mãe fizera emergir de suas próprias entranhas psíquicas indestrutíveis.

Eu sabia que de nada adiantaria entrar no terreno das elaborações de cunho psicanalítico, tentando argumentar que por trás do imediatismo aparentemente honesto e justo das resoluções que por ora estavam tomando, algo gravado indelevelmente nos arquivos da vida mental infantil, tinha sido reativado, fazendo com que agissem daquele modo.

Pascal, admirável e profundo pensador do século XVII, já dizia que havia no coração razões que a própria razão desconhecia. Mas será que numa consulta de meia hora de duração eles poderiam compreender como a mente funciona? Poderiam eles intuir que os sentimentos da antiga criança que, para não sofrer escondia da mãe ou do pai àquilo que considerava um mal ou coisa altamente reprovável, estavam ali reverberando em suas atitudes e gestos aparentemente generosos?

Será que eles acreditariam que não estavam tentando proteger a sua mãe, mas sim, tentando se resguardar da intensa ansiedade provocada por um sentimento ilhado em suas profundezas psíquicas que diante daquela situação conflitante, voltara a incomodar?

Na música popular brasileira, o entrelaçar da filosofia e da psicologia exprime ou resume maravilhosamente tudo que eu tentei explicitar nesse curto ensaio. É o que mostra esse pedacinho de apenas duas linhas da emblemática canção Revelação de Clésio e Clodô, magnificamente interpretada pelo cantor cearense Fagner:

Quando a gente tenta/De toda maneira/Dele se guardar/Sentimento ilhado/Morto, amordaçado/Volta a incomodar”.



Por Levi Bronzeado dos Santos
Guarabira, 12 de novembro de 2015

2 comentários:

eduardo medeiros disse...

Procuro ensinar ao meu filho que ele pode falar para os pais qualquer coisa de errado que ele fizer. Que se ele contar, não será castigado (o maior castigo para ele atualmente é ficar sem assistir Netflix). Mas eis que me deparo com a esquiva do moloque. Sábado ele grudou uma massinha de modelar no cabelo e eu lhe disse para não fazer mais isso, e ele com carinha de "menino consciente" falou "tá bom, papai". Eis que ontem, fez a mesma coisa e a mãe o surpreendeu pendurado na pia tentando tirar a massinha do cabelo... apreensivo disse à mãe: "não diz pro papai por que ele vai brigar comigo" rs

Levi Bronzeado disse...

Quanto às ordens severas do Pai, a mãe põe tudo a perder, não é Eduardo?

No mais das vezes, a mãe vira confidente e advogada do filho(pecador) perante o Pai, como no Auto da Compadecida do saudoso Ariano Suassuna:

“A COMPADECIDA - Isto, João!
Tenha coragem, não desanime, que eu estou aqui, torcendo por você...”
(rsrs)