07 maio 2007

CORRAM - QUE AQUI TEM DENGUE!





Chovera torrencialmente durante todo o dia daquele Sábado. Ao iniciar a noite, a chuva deu uma trégua, o bastante para minha esposa, meu filho caçula e sua namorada animarem-se para comparecer a um estudo e um ensaio musical na igreja, como acontece de praxe todos os finais de semana.

Fui levá-los de carro até o templo, de forma apressada, pois já estava passando das vinte horas. Lá chegando, para a nossa surpresa, a igreja estava praticamente vazia. Estirei meu pescoço duro de artrose por entre a janela do automóvel e avistei apenas o porteiro ao lado da porta de entrada. Minha esposa, porém, saiu resoluta para o interior do templo, sem aceder a minha argumentação de que não haveria trabalho naquela noite, pois pelo meu relógio já passava das oito e trinta da noite e não tinha um “pé de cristão” ali dentro.

O meu filho e sua namorada não titubearam um só minuto, resolveram voltar comigo para casa. No caminho, ele pediu para ficar no centro da cidade, perto de uma pracinha. Pelo olhar dos dois, pude concluir que, na falta do trabalho espiritual resolveram dar uma namoradinha. O lado espiritual, desta feita, ficaria para o domingo. Dessa maneira, estaria feito o equilíbrio entre a “carne” e o “espírito” de que tanto falou o apóstolo Paulo em suas cartas.

Estava eu muito bem sentado em uma poltrona da sala de minha casa, no exato momento em que caía um “toró” daqueles. Nem vinte minutos fazia que tinha chegado a casa, e estava lendo restos de noticias de alguns jornais do dia, quando de repente irrompe minha mulher no meio da sala, parecendo um pinto ensopado de água. Toda molhada, mas com um ar de satisfação, como quem tinha saído vitoriosa de uma grande enrascada. Foi logo dizendo com a voz ofegante, com o ar de quem tinha acabado de levar um enorme susto:

─ Meu filho, escapamos de pegar uma “dengue” daquelas.

Joguei os meus jornais para o lado e perguntei, já querendo rir:

─ Como? Eu lhe deixei na igreja, imaginando que mesmo na falta dos alunos para o estudo bíblico, você iria orar por um bom pedaço de tempo!

Não, olha o que aconteceu ─ diz ela com os olhos esbugalhados. ─ Eu estava com uma amiga minha, no subsolo da igreja( recinto destinado aos estudos bíblicos), olhando uma para a cara da outra sem ter o que fazer. Sentado lá mais na frente estavam dois encabulados irmãos de fé, também “paradões” como duas estátuas, em um constrangido silêncio. Foi quando a minha amiga cochichou ao meu ouvido: “não fica bem para a gente ficar aqui, sem assunto, olhando para esses dois homens. Vamos embora?”. Neste mesmo momento em que conversávamos, um dos homens deu um pulo de lado, gritando:

─ Corram! Que aqui está empestado de mosquito da “dengue”.

Segundo minha esposa, aquilo tinha sido a providencial “senha” que Deus mandara para todos saírem dali em desabalada carreira, justificando dessa forma a interessante fuga. Eu, a essas alturas estava embolando de rir, pelo acontecimento trágico e ao mesmo tempo cômico. Ora, pensava eu com os meus botões: “quem já viu um negócio desses?. “Fugirem de um local sagrado, para poderem se refugiar em um lugar mais seguro do que a própria igreja”?.

É mais um dos paradoxos existenciais humanos ─ concluí já refeito do riso. Porém cheguei a conjeturar comigo mesmo: “eles estavam no subsolo, um lugar úmido, de pouca luz e de aspecto sombrio, que na verdade tinha tudo, menos aquela áurea sublime do interior da igreja, por isso, foram tolhidos pelo medo”. Penso que se estivessem na nave da igreja, eles não iriam de maneira nenhuma temer a “dengue”. Caso isso viesse acontecer, seria o cúmulo dos paradoxos. Foi nesse momento que me lembrei do que tinha lido algumas vezes no Velho Testamento: “o lugar chamado de ‘profano’, era exatamente em um determinado local fora do templo”, ratificando o que se diz sempre nas pregações: “que de fora, ficarão os cães”. Refletindo dessa forma, a minha mente fazia uma justificação para a inusitada debandada dos medrosos personagens daquele local obscuro, que servia mais para ensaios, aulas e almoços festivos, que para estudos bíblicos.

Continuava a chover naquela noite e a minha mente insone, por alguns minutos, vagueava, criando suposições que tinham a ‘dúvida’ como fonte de toda especulação. E eu pensava: “Será que os que não tinham ido à igreja tinham ficado em casa assistindo novelas na TV?” “Ou será que a torrencial chuva de inicio de inverno, afugentara a todos para as suas alcovas de cobertores macios e bem quentinhos?”.

Veio-me então outro pensamento: “Como foi inocente o irmão, ao dar o brado para todos correrem dos mosquitos da ‘dengue’, em plena noite, quando, de há muito, se sabe que o fatídico mosquito só pica as pessoas durante à tardinha”. “Por que o irmão confundira o inseto transmissor da dengue com a popular ‘muriçoca’?”.

Do mesmo modo que de uma terra úmida e fértil brotam os mais variados tipos de vegetação, assim estava a minha imaginação a brotar todo tipo de pensamento: “Será que o citado irmão não dera uma cochilada, e tivera uma visão dos perigosos mosquitos transmissores dessa temível doença? Nesse caso, fazendo uma interpretação literal do sonho, ele não mentira, uma vez, que o mosquito da dengue tem as pernas listradas na cor branca e preta, e a muriçoca tem as pernas de uma só cor”. "Ou será que esse irmão para sair do embaraçoso e angustiante silêncio, inventara essa história de dengue como um álibi para a inusitada fuga”?

O certo é que não houve nem estudo, nem ensaio musical naquela noite fria de inverno. As portas da igreja se abriram e se fecharam sem que nada acontecesse, a não ser a enigmática historia não decifrada dos “mosquitos-fantasma” da “dengue”, a espantar os quatro membros que ali estavam inseguros na penumbra fria e silenciosa do porão do templo.

Pelo resto da noite chuvosa tive sonhos assombrosos, de um zoológico enorme contendo inúmeras jaulas, com insetos gigantes a me atordoarem o sono. Eu podia ver, lá estavam os mesmos mosquitos que o irmão vira em sua visão no subsolo da igreja. Só que no meu sonho, os “mosquitos-fantasma” portavam enormes e cabeludas patas listradas de branco e preto, dirigindo-se ameaçadoramente em minha direção.

Acordei na madrugada de domingo com o corpo cansado e todo dolorido. E pensei por último: “Estou com dengue”. Verifiquei a minha temperatura: estava em trinta e seis graus. Fiquei aliviado. Minha esposa ao meu lado roncava a sono solto. Tranquilizei-me com a certeza de que o mosquito da dengue não me picara.

05 maio 2007

CULTO DE DESPEDIDA





A nossa despedida vai ser na Igreja Central de Jaguaribe em João Pessoa. Olhem, espero vocês lá como sem falta” ─ dizia-me o casal Leni (minha irmã) e seu esposo João Camilo, há poucos dias.

Irão assumir um trabalho de missões na Bolívia ─ lugar muito distante, de uma cultura e língua diferentes da nossa. Não posso negar que esta decisão nos surpreendeu, deixando Bazinha (a nossa mãe), Davi (meu irmão) Luza (minha esposa) e Célia (minha cunhada) que formam a parentela mais próxima, meio ressabiada, acostumados que fomos a viver sempre juntos, desde os tempos de meninos. Vivíamos no “bom sentido” à semelhança do seriado da TV Globo: “A grande família”.

Há umas duas semanas, eu fazia uma analogia com o que o evangelista S. João escreveu sobre Cristo lá na Palestina ( João 1, 11), dizendo para João Camilo em tom de brincadeira: “É, você veio para os seus (Paraibanos), mas os seus, ( principalmente os ‘pessoenses’) não o receberam”. Contudo, lá naquele mundão longínquo, os “hermanos” bolivianos estarão a sua espera de braços abertos.

Quanta coragem! Especialmente da parte de Leni. Em um sonho que Camilo me contou há alguns meses, ela aparecia só com água pela cintura, não mergulhada por inteiro como ele, no mar aventuroso do ideal evangélico. João via sempre a sua esposa com a água pela cintura em seus sonhos espirituais. Acho que a despedida se torna mais dolorosa e dura, para quem não está mergulhado até a cabeça. Mas, cá comigo, penso que a parte mais difícil ficou com a mulher, que pela sua própria natureza, tem a sua razão primordial de existir, representada pelo apego a casa, aos seus móveis escolhidos com tanto esmero, seus quadros, seu quarto, e por fim ao filho e as filhas que foram geradas dentro de si. Imagino como foi doloroso para ela, ter que se desfazer de tudo que possuía de bens materiais, digo isso, não pelo valor monetário, e sim pelo valor simbólico da cada objeto. A cada móvel que saia de sua casa, ia embora uma parte de sua história vivida com amor e intensidade. Lembro-me muito bem da bela e lustrosa mesa da sala de jantar, tendo ao redor lindas e confortáveis cadeiras. Em ocasiões como essas, parece que até os móveis de casa são dotados de sentimentos, de tão acostumados ficamos com eles, vendo-os todos os dias por um longo período de tempo. Era em torno daquela mesa que ela sentava sempre com o esposo e os filhos. Aconchegada no belo e macio sofá de cetim ela contava sempre o que havia de melhor para o esposo.

A despedida do casal João-Lena, após todos esses longos anos de convivência juntos no mesmo ninho familiar, certamente, vai fazer o comboio de cordas do coração de todos nós gemer uma música saudosa. O camarada João é um antigo guerreiro calejado na arte de governar, administrar e solucionar grandes “abacaxis”. Vendo por este lado, concluo ser mais fácil para ele superar a dor da separação dos amigos. Contudo, quando ele, por qualquer motivo, se mostrar cansado, creio que a Leni não fraquejará em substituí-lo no comando, como fez a Débora da Biblia (sem querer tirar a coragem peculiar do sexo forte).

Quanto à velha Bazinha (nossa mãe), vamos ter que respeitar com paciência, certos posicionamentos seus. Seu coração de mãe tem razões que a nossa própria razão desconhece. Há alguns dias, na hora do tradicional almoço (a dois) das quintas feiras em que faço atendimento médico em A. Grande, ela, como mãe extremosa, disse racionalmente para mim uma grande verdade: “é muito bom mandar o filho do outro para pregar lá no fim do mundo”. “Todos ficam contentes, mas ninguém quer mandar o seu filho. Não é tão bom! Por que o chefe não manda o... ... ...( final censurado).

Quanto a mim, não gosto de despedidas, apesar de saber que a “despedida” é também uma “chegada”. A despedida é como um barco que vai se afastando da gente. Quem está nele, em pouco tempo, só nos verá como simples pontinhos no horizonte. Para os que estão aguardando do outro lado do mundo é uma “chegada”. Para nós, que aqui ficamos é uma “partida”.

Quando desaparecermos do horizonte de vocês, outros pontinhos aparecerão do outro lado do mundo, e crescerão à medida que o barco for chegando a Santa Cruz de La Sierra.

Ao se afastarem do nosso convívio, encontrarão o fascinante lugar que tanto sonharam. Então, a vida, essa imensa “roda” que não pára de girar, trará para vocês um novo ciclo de amizades e experiências, que substituirão os dramas e comédias da “Grande Família” que aqui fica.

Lá nas noites frias dos “Andes”, quando a saudade apertar, na certa, Leni cantará acompanhada do seu violão, a canção: “o exilado” (hino 36 da Harpa Cristã). Então, de olhos úmidos e fechados, por um instante, viajará na imaginação até João Pessoa e Alagoa Grande ─ seus dois torrões de memoráveis e gratificantes momentos.

Ainda bem, que para o nosso consolo: “DEUS CRIOU A INTERNET”.

Crônica por Levi B. Santos. Guarabira, 06 de maio de 2007

14 abril 2007

A AGONIA DO HOMEM GLOBALIZADO






Nestes últimos dias, o tecnicismo global tem nos afetado de maneira assombrosa, acarretando uma surdez progressiva, que não nos dá mais trégua para ouvir os sussurros que saem do coração. Este mundo globalizado, fabricante de intocáveis paradigmas, cada vez mais atravanca a nossa capacidade de pensar, de auto-refletir, de exercer o nosso espírito critico. Mais do que nunca, se faz necessário reler os conceitos e pensamentos daquele que foi o maior psicólogo da história: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2, 27). Esta frase (fruto de uma auto-reflexão), citada por Cristo há mais de dois mil anos parece ter caído no vazio. Em suma, o grande mestre estava ali conclamando o homem, a fim de que ele pudesse despertar para exercer o espírito crítico, numa tentativa de resgatá-lo desta grande condenação que é a ignorância. Ali, Ele estava levantando a bandeira da liberdade para um povo escravo de fórmulas pragmáticas. Cristo, em outras palavras estava dizendo: Olha homem de “pensar” preguiçoso, eu não quero fazer de ti “atividade meio”, e sim “atividade fim”. “Não és escravo do sábado, pois ele existe para te servir como quem serve a um Senhor”. “Não estás a reboque de uma norma. Se esta norma anda a te escravizar, não há mais razão para a sua existência”.

No mundo contemporâneo o homem se tornou escravo de uma máquina pensante e criadora de necessidades supérfluas, que o obriga a valorizar os seus ditames, sob pena de ter que ficar à margem do processo “civilizatório”. O homem voltou ao seu lugar preferido ─ a função de “atividade meio” a serviço de um fim ─ o pensamento globalizado. O homem não é mais dono de sua história. A globalização já traçou o seu caminho, interferindo no seu destino, dirigindo-o para um rumo desprovido e sem sentido do “ter por ter”.

Estamos sendo arrastados por este espírito globalizante de um modo quase imperceptível. Não é a toa, que de dois em dois anos somos pressionados a trocar nosso computador e celular que a mídia condena como obsoletos. As telas se multiplicam, se colorem de uma maneira fascinante. Adquirimos estes aparelhos digitais, sem que tenha sido uma questão de gosto. Não é uma questão de escolha, mas sim de um imperativo absoluto, uma necessidade indiscutível para poder ser visto como um ser moderno. É o filho que diz para o pai: “No próximo ano serei mais livre e feliz, pois irei ganhar o meu aparelho de MP3, com uma memória triplicada”. Só que ele se esquece, que enquanto o tecnicismo científico aumenta a memória do seu aparelho, a sua capacidade mental vai atrofiando por falta de exercitar a “auto-reflexão”. Ele não "pensa", por isso, não contesta, não duvida daquilo que lhe diz a mídia. E vai vivendo, digo, vegetando, por esse mundo afora como o escravo do SÁBADO, de que Jesus falou há dois mil anos.

Esse monstro, denominado de “mundo da técnica”, tem até o seu lado positivo, mas os seus efeitos são devastadores sobre o pensamento e a vida do homem. Ora, se a vida é um incessante avaliar crítico daquilo que temos nos tornado, podemos deduzir que somos mortos ambulantes, por não termos mais tempo para nos dedicar a observação reflexiva de coisas mais simples que estão a nossa volta.

É oportuno que façamos um pequeno exercício de reflexão, através de uma simples pergunta feita a nós mesmos.

Hipoteticamente falando: “Digamos que Cristo viesse conviver conosco hoje, e fosse submetido ao totalitarismo do pensamento global. Será que Ele teria tempo para criar tantas parábolas como o fez no seu tempo?”.

A resposta seria obvia: “Não”. Parábolas são frutos de uma minuciosa e intensa reflexão sobre a natureza humana, e o seu mundo ao redor. O Cristo globalizado não teria tempo para se dedicar ao exercício da subjetividade do livre-pensar, que deixa o homem liberto para criar algo em prol do seu semelhante, sem depender de qualquer pressão, ou de conceitos globais pré-fabricados.

Aliás, a “reflexão” é inimiga do pensamento global, pela simples razão de que ela, para se efetuar, demanda tempo, tranqüilidade, ambiente de silêncio e paz, ao contrário do seu opositor, que estimula o individuo a ficar refém de um número maior de informações a ser absorvidas em uma menor quantidade de tempo. O homem então se rende aos pressupostos técnicos-científicos e segue numa vida fútil e mecanicista, onde o que mais se vê é balbúrdia, angústia e correria. As necessidades criadas pela globalização são crescentes, e ele não se dá conta que já não tem mais um minuto sequer para "pensar", e consequentemente entender que a sua singularidade e individualidade estão sendo solapadas. Esquece que o seu tempo de vigília permanece o mesmo desde os primórdios, não lhe dando chance para tantos afazeres. Quando algum “pensador” pára, a fim de conversar com o outro (ser globalizado) sobre o sentido da vida, este, de imediato, fala sem pensar: “Tempo é ouro, não se pode perder com besteiras”. Consultando sua agenda eletrônica diz: “Ainda hoje tenho de realizar muitos compromissos”. “Tchau. Passe bem!”. E sai desabaladamente transpirando de suor em seu automóvel, percorrendo vias barulhentas deste caos infernal que é o trânsito, rumo aos templos do consumismo chamados "shoppings". Enfrenta aparentemente satisfeito, engarrafamentos monumentais provocados por outros, que como ele, se deixam levar pelos atrativos irresistíveis do mundo escravocrata do pensamento único.

O homem desta forma, se veste com uma roupa que não é dele, e segue um roteiro traçado pelo ideal globalizante. Ensaia diariamente o seu papel de ser falante, sem acordar para perceber que não passa de um fantasma no grande teatro da pós modernidade.

Ensaio por Levi. B. Santos

Guarabira, 14 de Abril de 2007

24 março 2007

FRAGMENTOS DE UMA FOTO-ANÁLISE





Ligo o velho computador, que já conta com mais de sessenta a nos de uso, e tento resgatar fatos registrados em sua memória há cinqüenta e cinco anos. Porém, o cérebro ─ esta máquina eletrônica criada por Deus ─, trava, destrava, trava de novo, esquenta. Enfim, conformo-me com os pequenos e significativos fragmentos colhidos com muito esforço.

Olho e observo detidamente por longos minutos a foto encardida pelo tempo. Não há como negar, que é a expressão facial, o que chama de imediato a atenção. Não é preciso ser psicanalista coisa nenhuma, para identificar a mensagem que os olhos da foto transmitem: MEDO e DESASSOSSEGO.

Algo como uma lufada de vento frio e penetrante, refresca a minha mente, abrindo-a para ver e sentir a verdade do meu ser, captada em frações de segundo naquela foto de 1951. O meu verdadeiro “eu” estava ali exposto através do olhar inocente dos meus verdes cinco anos de idade. Menino pobre, e ao mesmo tempo rico de estranhos sentimentos, cujos olhos, a maneira de uma navalha, rompia o envoltório da carne, para retratar a solitária agonia que ia dentro da alma. Ali naquela foto, a minha atitude expectante de uma medrosa obediência, decepcionou por certo a platéia que assistia ao espetáculo, constituída por meu pai, minha mãe, uma tia que me serviu de babá nos meus primeiros anos de vida, e o velho e rabugento fotógrafo com sua geringonça em forma de caixa de engraxador de sapatos sustentada por um tripé.

Quanto atraso! Naquela idade ainda não aprendera a posar para uma foto. Isto é, não sabia representar para um público ávido de imagens fabricadas. Hoje, uma criancinha de dois anos de idade, mesmo com um coração vazio, sem querer, e atendendo aos pais, sabe esboçar muito bem um sorriso de alegria, frente a uma câmera digital.

Há algumas semanas, minha velha mãe ao observar a antiga e encardida foto, dizia para mim:

─ Eu me lembro. Estavas com muito medo do “lambe-lambe”.

“Lambe-lambe”, era como se chamava popularmente o tirador artesanal de fotos, que saia de casa em casa oferecendo seus serviços. Acho que ele tinha esse nome, por lamber os dedos, enquanto reproduzia a foto em uma bacia com água e emulsão química. A geringonça de produzir imagens tinha a cor preta, com uma cortina de pano preto em forma de fole onde o fotógrafo enfiava a cabeça, e um bisaco também preto, onde ele metia o seu braço e a sua mão direita para bater a foto. Aqueles panos pretos me metiam muito medo, pois se assemelhavam a uma mortalha.

Quinze dias após aquele sofrido dia, em que expus para os outros um sentimento que tinha tudo, menos alegria e satisfação, chega o “lambe-lambe” com a foto ampliada. Foto esta, recebida com desgosto, pois ali, não estava o retrato de uma criança alegre, que os meus pais tanto gostariam de ver e mostrar aos amigos. Ali, estavam as ruínas de uma infância remota cercadas pelo medo, que não podiam ser mais reparadas. Eu suponho, que os meus pais viram nesta foto a imagem de um menino ausente, constituída de estranheza e timidez, como uma estátua construída de pedra e cal, mais reveladora do que encobridora.

Cá estou eu, o sessentão, olhando de novo a velha e surrada foto. Recolhendo do baú da memória, fragmentos perdidos de um tempo em que fui mimado como objeto de desejos dos meus pais que tanto ansiaram pelo nascimento do primogênito. De inicio, eles desejaram cores fortes, mas só recolheram sombras. Enquanto eu morria de medo na claudicação intermitente dos primeiros passos, eles riam de prazer do meu cambalear incerto. Fui forjado no caldo dos sentimentos verdes e imaturos de duas crianças (adultos), que no frescor de seus vinte anos se tornaram pais.

A fotografia revela claramente a teimosia do meu semblante, expressão real de quem não pôde corresponder ao que os jovens pais tanto esperavam. Contudo, resta o consolo de ter estampado ali, a fiel imagem de quem se sentia realmente desamparado, triste, e ameaçado por temores vindos não sei de onde. Se hoje, neste teatro que é o mundo, sou forçado a representar, não posso negar que naquela foto ficou registrado o meu verdadeiro “eu”: todo bem vestidinho, de sapatos da moda e meias de linho como quem vai para uma festa, porém, desejoso de fugir urgentemente daquele perigoso ambiente. Com um ar de quem está contrariado, ao ver a sua alma sendo captada pelo “lambe-lambe”, para uma posterior exibição de sua tristeza emoldurada.


Crônica de Levi B. Santos. (Guarabira, 23 de Março de 2007)

17 março 2007

DO ANZOL PARA O AQUÁRIO







O desejo do homem de esquadrinhar o que existe no interior do outro, é tão forte, que ele chega a esquecer do seu próprio coração. E numa ânsia ousada, luta para tomar posse do outro, quando muito mal cuida dele próprio. Esse homem não é senhor de si, mas quer ter a certeza do destino do seu semelhante. Ele diz para si mesmo: “Eu já estou seguro”. Ao olhar para o outro que lhe serve de espelho, tranqüiliza-se, pois vê nele a sua própria imagem refletida.

Agora, o espelho quebrado, já não reflete mais a imagem ilusória de duas almas em um só corpo. Ele se entristece e se indigna ao contemplar aqueloutro que outrora, de tão parecido em idéias, pensamentos e costumes comportava-se como se fosse o seu duplo. E esse homem, ao invés de se contentar em viver aprendendo com as diferenças, junto com aquele que lhe é agora estranho, procura por todos os meios torná-lo um igual.

Esse homem se vê só e perdido. E para sair de sua solidão, resolve reconstruir o templo, consertando o véu que foi rasgado de alto a baixo por Cristo. Este véu reparado volta a esconder um altar, que não havia mais razão de existir. É lá neste altar refeito, que ele se sacrifica a fim de afugentar os seus medos e temores.

Ele não sabe, ou faz de conta que não sabe, que o “muro” que separava os de pensar diferentes, como os judeus e os gentios, foi derrubado para que ele pudesse compreender seu próprio ser, na estranheza do outro.

Esse homem não visita mais o livro do Gênesis, pois não gosta de “museu”. Não entende, que lá nos primórdios da criação, Deus deixou um ser diferente dele, chamado EVA, para que ele pudesse iniciar o “jardim da infância” do aprendizado com as diferenças. Porém, o que este homem adora, é fazer do outro “objeto” de seu desejo.

Ele quer a todo custo retomar a posse daquele que era o seu espelho. Então, ao avistar aquele que era o seu duplo, abre a boca e dá uma “profetada”, dizendo que é por amor. Com a mão em punho, dá um soco no ar e o ameaça: Tu virás, nem que seja pelo “anzol”.

Pobre “pescador de anzol”. Esqueceu que a pescaria que Cristo ensinou a Pedro, era de rede. Que insanidade, pescar almas aflitas com anzol. Pedro até que tentou este tipo de pescaria, fazendo das minhocas dos gentios, iscas para o seu anzol, de cuja vara pendia uma linha frágil chamada “circuncisão”.

Esse homem aprendeu esse tipo de pescaria, com os “fariseus”.

As iscas dos fariseus eram de imitação. Eles se acostumaram a pegar aqueles peixes incautos, que tomados pela fome dos olhos, não enxergavam a arma letal que se escondia por dentro da isca. Os peixes mais belos eram retirados ainda vivos dos seus anzóis e colocados em “aquários”, cujas paredes denominavam de “doutrina”. E ali, os pobres peixes ficavam a nadar na insípida água de seu novo templo, chamado tanque, ou aquário ─ , representação esdrúxula do real oceano criado por Deus.

Esse homem fica horas, e mais horas, estático, diante destes “templos-aquários”, apreciando os movimentos estonteados dos peixes a se baterem contra as paredes de vidros (doutrinas), numa tentativa inútil de se livrar da prisão onde foram confinados. Esse homem, no entanto, ignora que eles, os peixes, foram violentados com a perda da liberdade.

Esse homem, ou é surdo, ou faz ouvidos moucos para o que Cristo está a bradar:

─ Atenta-te para me ouvir ó insensato homem! ─ Eu vim ao mundo para encurtar a distancia entre ti e o meu Pai. Não quiseste; preferiste erigir um púlpito, ou altar para ficar bem distante de mim. Eu vim para conversar contigo, como os irmãos fazem a hora do jantar, sentados ao redor de uma mesa. Eu queria te tratar como a um irmão, e não ser adorado e temido como um ídolo. Queria te ver vestido na simplicidade dos comuns, mas preferiste paletó e gravata. Os pequeninos têm medo de se aproximar de ti, pois estás muito diferente com esta vestimenta e, além do mais, coberto por um véu que eu já tinha rasgado de uma vez por todas lá na cruz do “calvário”. Soerguesse de novo o altar que foi destruído com o templo, para adornar o teu céu ficcional com os inocentes peixinhos, criados por meu Pai para serem livres. Esqueceste, que a maldição da força do “anzol”, eu quebrei lá na cruz. Agora, abre os teus olhos, e recolhe o teu anzol. Quebra os teus aquários, e devolve estes peixes ao meu mar, de onde nunca deveriam ter sido violentamente tirados.

SE O FILHO VOS LIBERTAR, VERDADEIRAMENTE SEREIS LIVRES. (João 8,36)

04 março 2007

A REDE do MEIO-DIA na CASA de MINHA MÃE


Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a idéia de que “a vida é um eterno retorno”. Pois o tempo gira, gira, gira, e nos leva sempre ao mesmo ponto de partida. No meu caso, esse "eterno retorno" nada mais é que uma espécie de  mergulho que faço em meu passado remoto. É de lá que trago à tona fatos marcantes e prazerosos de um tempo idílico que indelevelmente ficaram gravados em minha memória afetiva.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, esse aposento ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos de idade.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dava o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas nunca ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, falavam por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “ Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?

Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço deitado em minha rede vêm do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castigava há muitos anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias de doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado e meio dormindo, vou ouvindo seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

─ Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas vai desfilando suas queixas:

─ Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui...

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo em meio ao cansaço:

─ Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E assim, bem junto a minha rede, após o almoço, ela vai desfiando, um por um, seus     queixumes, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

─ Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─, continua falando minha mãe.

Essa sua ultima queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, e falo sério para ela:

─ A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, minha mãe se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

─ Já são quase duas horas da tarde, meu filho! Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba e café com biscoito “delicia” lá na mesa!

O cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde, nunca abandonou. No horário exato dizia: “levanta”! E eu, preguiçosamente saía em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participava desse rito médico-sentimental. Às vezes o sono era tão forte, que dormia eu em minha aconchegante rede e dormia de sono solto a minha velha mãe ao meu lado em uma cama de solteiro. Éramos acordados pelo toque irritante de uma antigo telefone de cor preta. Corra meu filho a atendente avisou que a fila para atendimento está pronta! ─, gritava minha mãe com ar de preocupação. 

Ligeiro, como um raio, me dirigia a passos largos em direção ao ambulatório do Hospital da FSESP de Alagoa Grande, que ficava a uns duzentos metros da velha casa de minha saudosa mãe.


Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007

26 fevereiro 2007

O APRENDIZ DE VIOLÃO E O SEU MESTRE (in memorian)

José Gonçalves no Pão de Açucar - Rio de Janeiro - 1957








Eu sempre gosto de ficar no terraço da casa de minha mãe, por alguns momentos, olhando o tempo e as pessoas passarem, toda vez que visito a minha cidade. Em uma dessas minhas visitas fui testemunha de um resto de conversa jogado fora por dois velhinhos que se encontraram casualmente bem junto a mim, ali na calçada. Achei bastante interessante e de grande significação, aquele adágio popular, citado por um deles: “quem de moço não morreu, de velho não escapa” Refleti muito sobre este velho ditado, sobre a verdade e a certeza que ele encerra.
No apertado terraço da casa de mamãe, onde estava vendo aqueles dois velhinhos conversando, jamais passou pela minha mente, que ali mesmo, após alguns dias, receberia a notícia da morte do mestre e amigo José Gonçalves (esposo de minha tia Alice, por parte de pai).
Ultimamente tenho perdido amigos mais velhos do que eu, que foram marcos referenciais na formação de minha personalidade. José Gonçalves foi um deles.
Ele esteve sempre presente em minha memória, desde o tempo em que tinha meus sete ou oito anos de idade. Toda vez que pego do meu violão, vejo a criança que fui, de olhar circunspeto e corpo estático, completamente extasiado observando o mestre José Gonçalves na sala de sua casa, que ficava defronte a minha, na rua 13 de Maio, em Alagoa Grande, dedilhando garbosamente o seu violão e cantando com sua melosa voz de barítono, o seu predileto hino em “Lá menor”. Foi ele que incutiu em mim o gosto pela música e pelo violão. Não conto as vezes em que eu o ouvia lá de minha casa, cantando com sua voz forte e carregada de emoção, o poético hino ao som do seu velho violão. Tenho guardado na memória um trecho desse hino, que diz mais ou menos assim:


“Em trevas medonhas, vivi no mundo a vagar...
Meu barco sem leme, veio a mim um grande temporal...
Um leme novo me deu. Colocou no meu barco uma luz.
Que nunca se apagará, em todas as trevas ele há de brilhar..."

Este cântico tornou-se a marca registrada dos encontros musicais que faço atualmente com o meu filho George. Essa melodia saudosa de letra poética, creio eu, fez moldar o meu gosto pela música em tom menor.
Nos cultos de domingo, na igreja, quando ouvia o pastor anunciar: “vamos ouvir um hino pelo irmão José Gonçalves”, devido a minha pouca altura de menino, eu ficava na ponta dos pés, me empertigando todo à frente dos adultos, a fim de ver o “mestre” cantar e tocar aquele belo cântico. Lembro-me bem, que ele sempre usava nestas ocasiões um terno de linho branco bem engomado, contrastando com o seu violão de cedro reluzente, que tinha as laterais do bojo na cor de vinho tinto. Este instrumento fora feito com todo o carinho pelo marceneiro e exímio tocador de “cavaquinho” José de “Sinda”(esposo de minha tia Elcina ─ irmã de meu pai ).
Em meados do ano passado, já cansado pelo peso da idade, com o corpo desgastado pelas doenças que o afligiam há um bom tempo, resolveu fazer a que seria a sua última visita a Alagoa Grande ─ cidade de seu coração.
Lá no terraço exíguo da casa de minha mãe, conversamos por alguns minutos. Na oportunidade cantei baixinho para ele uma estrofe do velho hino. Notei que ele acompanhava o compasso da música, com os dedos tamborilando sobre os joelhos. Parei de cantar quando vi os seus olhos banhados em lágrimas. Só Deus sabia o que se passava em nossos corações. Naquele nosso último encontro faltou o velho companheiro “violão”.
Parafraseando o saudoso hino, agora posso dizer: “Deus colocou no seu barco uma luz que nunca se apagará”.

Ao mestre, com saudades.
Do seu grato aprendiz ─ Levi.


Guarabira, 26 de Fevereiro de 2007

21 fevereiro 2007

ADEUS POR UM INSTANTE





Não fui para o enterro de meu avô, nem vou a funeral algum. Já disse aos meus pais que se meus olhos não se fecharem primeiro para eternidade, não irei sepultá-los. Digo isso não por maldade, egoísmo ou desamor, mas porque quero sempre estar com fresca memória da imagem das pessoas “vivas” em minha mente. E ainda que alguém vocifere: “Mas e as últimas homenagens?”. Devo dizer que depois da morte, a vida física acabou, e segue-se o juízo. Por isso, as homenagens devem ser prestadas em vida. Infelizmente terei de comparecer ao meu enterro, deste não posso mesmo escapar.

Meu avô Alcides era austero. Era rispidamente sério, e às vezes, com carranca de meter medo. Mas de quando em vez, se transmutava num impagável contador de “causos” engraçadíssimos. “Causos” estes que não só arrancavam risos da platéia encantada, porém que também o divertiam muito e amiúde. E era nessas horas que ele deixava escapar um sorriso maroto que se desenhava furtivo em seu rosto severo.

Nunca me esqueço de que logo que entrei na Academia, no primeiro ano, um professor de português, do curso de Direito, nos trouxe um texto para ser estudado e qual foi o meu espanto ao deitar os olhos sobre o papel. Era a história de São Saruê, tão soprada aos meus ouvidos pelo meu avô nos meus tempos de infante. A história da terra dos rios de leite, dos montes de carne assada, do chão de tapioca e beiju ... e por aí ia. A história eu conhecia bem de tão contada e recontada. Grande foi o meu espanto ao vê-la escrita, datada e assinada. O que para mim não passava de uma fábula perdida na noite do tempo, estava ali com toda riqueza de detalhes que só eu conhecia, e ainda mais, era de um tal de Camilo não sei das quantas, de Guarabira. Hoje eu sei que foi meu avô, muito travesso, que criou toda aquela maravilhosa alegoria que confunde-se com a história da gastronomia regional( aliás, que ele amava tanto). Com um pseudônimo teceu o fabuloso conto, tudo bem escondido e publicado na surdina, e que somente agora eu descobrira, só para embevecer e embalar a imaginação dos netos ávidos pelas suas histórias fantásticas. Esse conto de São Saruê nunca me saiu da cabeça. Uma rica herança de meu avô.

Meu octogenário avô já não fazia anos, ele simplesmente durava. Do alto da ladeira onde se fincava inscrustada a sua casa, ficava ele, sempre imponente, sentado em sua cadeira antiga, a contemplar o imenso “mundo de meu Deus”, o seu mundo “sem fim”. Era ali sentado que mostrava uma face de sua personalidade que muito me chamava à atenção, a Valentia. Ainda que mutilado pela praga da enfermidade que lhe consumia a alma e carcomia incessantemente suas carnes, meu avô era valente em todas as acepções da palavra. Ali sentado dizia que ia fazer e desfazer. Mandava e desmandava. Do alto de sua imobilidade era ágil com as palavras. Desconstruía o mundo e resconstruia tudo a sua maneira, ao seu sentir. Quixotesco, lutava altivo contra seus moinhos de vento, fazia ali suas revoluções e derrubava impérios. Era opinioso. Argumentava muitas vezes com bravura, braços ao ar. Tinha convicções fortes, posicionamentos duros, algumas vezes puerilmente conflitantes e um coração frouxo para as lágrimas que lhe chegavam rápido a qualquer emoção, por menor que fosse.

Mas como eu disse, sempre valente. Valente por ter de enfrentar tão cedo a tragédia de uma diabetes que o privou de tantos prazeres. Uma doença que lhe trouxe dissabores terríveis, ceifando alegrias indizivelmente honestas, como comer a se fartar de tudo que é doce e gostoso, ou de uma boa caçada no meio do mato, ainda que não pegasse nada, só pelo prazer de sentir pisar a terra, sentir o cheiro do mato ... Isso ele não fazia mais. E se fazia era sempre “carregado”, “levado”... Não! Meu avô que era homem de “independências” nunca aceitou de bom grado ser “carregado”, era homem demais para isso. Sempre resolveu tudo com a força de seus braços. Manteve mulher e filhos em épocas difíceis, assim como na natureza, cumpriu o papel do macho a proteger as crias, buscar o alimento... Esse era o meu avô-provedor.

Certamente, grandes traços de sua personalidade se explicam, ao se observar suas grandes frustrações diante das lutas a que teve de sobreviver. Perdeu no desabrochar do amadurecimento da vida, grandes deleites que podia ter desfrutado com a esposa, os filhos, os netos... Assim como esta carta, sua vida foi repleta de reticências cruéis, porém, apesar de tudo, sempre enfrentou as intempéries com soberba valentia. Era tão valente que só deixou a vida quando realmente desistiu da vida. Porque enquanto quis viver permaneceu guerreiro, resistiu ao furor das mais tenebrosas borrascas e sempre sobreviveu. Meu avô teimava em viver.

Minha já desgastada memória de concurseiro, abarrotada de artigos infindáveis, decorados a duras penas, não me permite mais lembrar de muita coisa sobre o meu avô. Porém, me lembro agora de algo que era sagrado em sua casa, o café da tarde. Aquilo era praticamente uma Instituição. Meu avô se preparava todo para sair, muitas vezes com um de seus velhos bonés a tiracolo. Descia a íngreme ladeira e ia ao encontro das fresquinhas fornadas de pão da padaria que ficava bem perto de sua casa. Nós, os netos, ficávamos ansiosos esperando aquela tão aguardada hora da tarde, em que o nosso avô aparecia com o saco de pães quentinhos, prontos a nos alegrar o paladar. Na mesa, devorávamos rápido o café delicioso de minha avó Percides com o pão do vovô, e toda a comilança era embalada pela história de São Saruê, que nessas agradáveis horas da tarde o avô Alcides adorava contar.

Lembro-me agora também, de que uma vez meu avô inculcou de comprar um sítio, mesmo sob os protestos veementes de alguns parentes mais chegados. O velho sítio tornou-se em pouco tempo a menina dos olhos dele. A casa-grande era abastada de espaço, com piso de cimento grosso batido, selada com portões de madeira que serviam de albergue a um sem número de cupins órfãos. A casa era ladeada por um espaçoso terraço onde nos abrigávamos nas tardes quentes, e era cercada por “pés” de tudo.

Recordo-me especialmente de uns cajueiros e laranjais frondosos. Lá tínhamos feijão, macaxeira, entre outras culturas de que não me lembro bem, e uma “casa” de fabrico de farinha mandioca. Não é preciso muito esforço para lembrar-me da dolorosa ferroada que sofri de um marimbondo enfezado de um laranjal, me amargando um dos dias em que visitava o sítio. Comíamos galinha de capoeira guisada com “bolinhos” de feijão verde com farinha. Assávamos castanha em latões do lado da casa. Espetávamos milho pra’ comer bem tostadinho depois de assado na fogueira improvisada. Deitávamos no terraço da casa para a sesta refestelante ao sopro suave da brisa morna da tarde... Eu era muito menino, porém tenho algumas lembranças bem vivas... Ali no sítio meu avô se realizava. Era o mais feliz dos homens, e mais homem que qualquer outro homem. No SEU sítio meu avô era REI. Aquele era seu mundo, seu reino, sua terra mais genuína, seu remanso mais precioso. Ali estava inteiro de alma, sem qualquer máscara ou fingimento, na completude do seu ser. Em harmonia com a terra, com a natureza, com o “mato” bem verde. Até hoje eu acho que aquele sítio era mesmo uma extensão de meu avô...

Penso que meu avô Alcides tinha cabelos brancos de avô de verdade. Óculos antigo, pesado e grave, como todo avô que se preze deve ter. Tinha a fala rouca e brava para reprimendas, entretanto voz mansa e pastosa para as doces histórias contadas aos netos. Como todo avô de respeito, tinha reumatismo, dor nas costas, pente antigo, talquinho cheiroso, calçolão, espingarda enferrujada e roupa bem velhinha de que gostava vestir. Cadeira velha pra’ só nela se sentar; manias e esquisitices diversas que só o avô legítimo apresenta. Cochilo fora de hora, sonhos a valer, esquecimento e rugas que fazem um verdadeiro avô. Usava “chapa”, apetrecho aliás, que só o autêntico avô possui( e não se engane, dentadura de gente em que não falta um ou dois dentes verdadeiros, atesta que o cidadão não pode ser avô, ou é um embusteiro). Avô que é avô, conta história e aumenta um pouco a alegoria, puxa a brasa pra’ sua sardinha, e nisso meu avô era “craque”. Avô que é avô guarda a casa, bota os netos pra’ dormir, faz carinho tímido, meio que sem jeito; não desaba na frente da gente, chora escondido pra’ que a gente não veja; é fortaleza nas horas de angústia; é super herói de poucos movimentos, cabelos brancos, travestido de vovô; se levanta da cama com o sol raiando cedinho. Avô que é avô, é serio às vezes, outras é bonachão e irreverente. É engraçado e displicente, desajeitado. Umas vezes é carrancudo e teimoso, outras vezes é doce e terno. Umas vezes é de cismar em não ir, outras é “Maria vai com as outras”... E meu avô sabia ser tudo isso... E ir inventando e se reinventando... Como um avô de verdade deve ser...

Despeço-me de meu avô na esperança de revê-lo inteiro, de “corpo” e alma (ou espírito, como queiram), sem tristeza ou qualquer dilaceração dolorosa do passado, lá na Glória. Porém, enquanto caminho por estas terras áridas, sempre a acompanhar o encarquilhar do mundo, quero não apenas espelhar-me no exemplo de sua valentia, de sua coragem e atitude diante das agruras da vida, mas quem sabe mesmo sorver, como quem bebe um elixir ou uma poção, um pouco da bravura intrépida, valentia descomunal e da coragem singular que lhe inspirou uma vida inteira.

Adeus por um instante, meu avô.

De seu neto, George.

(Este texto é dedicado à memória de meu avô e a prima Eloisy, a quem ele tanto amava)


18 fevereiro 2007

LÁ SE FOI O VELHO ALCIDES






Iniciava o mês de dezembro de 2006. Em uma de minhas inúmeras idas a residência do meu velho sogro e amigo Alcides, senti um nó na garganta ao contemplá-lo num estado de sofrimento físico e mental intenso. Estava ali sendo consumido pela velha diabetes descompensada que lhe afetara a visão, os rins e o cérebro. Seu olhar era o de quem estava prestes a partir. Dirigiu-se para mim com os olhos marejados e a voz fraquinha embargada pela emoção: “Levi! Eu já me sinto um morto”. Vim saber por uma de suas filhas, que ele tinha falado que partiria em uma dessas festas de fim de ano.
O homem que tantas vezes enfrentara a morte, já vinha me surpreendendo há muito tempo em sua trajetória de enfermidades, saindo de situações críticas em várias entradas em CTIs. Perguntava para mim mesmo: “Será que ele não vai buscar forças para sair de mais um quadro grave, como este que estou presenciando?” A sua força de vontade de viver, até então, era muito grande, e eu achava que esse desejo intenso dele, em não se render às evidências médicas, era o fator primordial de suas muitas recuperações. Quantas vezes, eu não fui testemunha ocular dos difíceis momentos em que tudo apontava para um desenlace final, e ele surpreendentemente saía do “coma”. O homem realmente era imprevisível.
Naquele dia estava diante de mim um outro Alcides. Já sem forças para andar, para falar, e se alimentar com as próprias mãos. Resignado. Certo de que a sua passagem se daria até final do ano em curso. Eu, como médico, jamais ia concordar com este triste vaticínio. Lembro que na ocasião disse para ele: “Os pensamentos do homem não são os pensamentos de Deus, Seu Alcides!” “O Sr. Não vai morrer este ano”. Ao dizer estas palavras, recebi como resposta o seu olhar desapontado, que revelava mais a tristeza da finitude humana, do que a esperança de um dia poder em sua cadeira de rodas, conversar descontraidamente comigo, como fazia comumente no final das tardes dos dias em que estava de folga do meu trabalho. Naquelas tardes, quando a sua saúde ainda não dava sinais de que o seu fim estava próximo, eu me regalava ouvindo as suas aventuras contadas de uma maneira peculiar, que só ele magicamente sabia relatar. Eram histórias ditas com tantos e interessantes detalhes, que na minha imaginação parecia estar fazendo com ele uma viagem sentimental de volta no tempo, vendo com os olhos da alma o mundo encantado em que ele vivera em uma época distante.
Chegara o Natal. Foi no almoço tradicional deste dia, quando toda a família estava reunida em torno da mesa, que eu notei o semblante do velho Alcides Leite diferente. A alegria e a esperança voltaram a se estampar naquele rosto. Não podia alimentar-se com as suas mãos, mas estava feliz, com a sua filha caçula a levar o alimento a sua boca com um carinho todo especial. O desejo ardente de viver tinha novamente nascido em seu coração.
Subi a ladeira da Sta. Terezinha, entrei em sua casa, fui até o seu quarto e falei: “Estamos em 2007, Seu Alcides e o senhor ainda está aí contando sua história”. Aquilo que o senhor pensava que ia acontecer, era tudo produto da imaginação humana”. “Tá vendo ─ disse eu. A gente não sabe o dia da partida, só Deus é quem sabe.”
Daquele dia em diante ele passou a se sentir mais animado. Passou-me a responsabilidade de fazer o que fosse necessário em benefício de sua saúde. Inclusive de levá-lo para ser atendido por especialistas em João Pessoa. Estava até disposto, se fosse o caso, a ser hospitalizado no Hospital da Unimed. A partir daquele momento, lutou contra a morte por mais de quarenta dias. O diagnóstico de que os seus rins estavam quase paralisados, não o esmoreceu. Durante todo este período nunca reclamou nem se lamentou. Era um homem acostumado às dores. Afeito aos maiores tipos de sofrimento.
O prognóstico a cada dia que passava, era muito ruim. Os exames periódicos demonstravam a caminhada fatídica para uma paralisação total dos rins. Porém ele não desanimava. No dia em que viajou para Capital do Estado e recebeu do médico a noticia de que deveria fazer urgentemente hemodiálise três vezes por semana, chegou a sua casa triste, não pelo diagnóstico, mas pela recusa de suas filhas em não terem deixado o mesmo lanchar uma tapioca com bastante coco e queijo derretido que tanto desejava naquele momento, como fazia antigamente quando eu viajava em sua companhia.
Na segunda semana de Fevereiro a sua doença se agravou profundamente. Estava ofegante, como se estivesse morrendo afogado em seus próprios líquidos pulmonares. Foi diagnosticado um edema agudo de pulmão, e internado urgentemente no CTI do Hospital Regional de Guarabira. Não entregou os pontos. Lutou por oito dias. Todo cheio de sondas, mangueiras, fios. Respirando com a ajuda de aparelhos. Eu o visitava três vezes por dia. Hora nenhuma perdeu a serenidade. Eu via ali um valente guerreiro a desafiar a morte.
No oitavo dia, os exames que eram realizados diariamente apontavam para um quadro irreversível. Ali eu já tinha certeza de sua passagem iminente para outra vida. Na manhã desse dia, uma quinta-feira, lhe fiz minha última visita. Aproximei-me do seu leito e falei alto ao seu ouvido: “Seu Alcides! Quer ir p´ra casa hoje?” Ele não respondeu. Os olhos já sem reflexos, banhados por uma nata, já não viam mais coisas deste mundo terreno. Repeti a pergunta: “Se estiver me ouvindo, faça um sinal: quer ir para casa hoje?” Ele com muita dificuldade levantou o polegar direito por entre os lençóis, em sinal positivo. Saí dali sem compreender, pensando comigo: “Como é que um homem num estado desse, ainda sente o desejo de voltar para sua casa. É muita fé mesmo”.
Não tinha a mínima idéia de que a casa a que ele se referia era uma outra casa, onde não havia dor, nem tristeza.
Depois, olhando para o velho sogro e amigo no ataúde, pude observar atentamente, que o seu rosto irradiava uma tranqüilidade que não era desse plano. Nunca tinha visto em minha vida uma expressão tão perfeita de serenidade.
É, não tenho dúvida nenhuma: ele dormia o sono dos justos.


27 janeiro 2007

O SÃO JOÃO DE ARMANDO PEDREIRA






Armando Pedreira atribuía as lembranças que agora estavam a assomar em sua mente, às últimas e intensas reflexões que realizava, principalmente em suas noites mal dormidas.
Naquele dia voltara a ser criança. As recordações de tão vivas, pareciam deixá-lo gozando de novo as delicias de uma época marcante de sua infância. Perguntava para si mesmo: Por que naquele momento viera à tona aquelas cenas, que ele em toda a sua vida de adulto jamais tinha evocado com tamanha clareza de detalhes?” Poderia agora mesmo citar uma por uma, todas as pessoas que moravam naquela rua. Realmente nunca dissera aos seus pais com medo de uma tremendo carão, mas, lá no fundo de sua alma ele achava aquela festa, a coisa mais bela que acontecia todos os anos em sua vida. Tudo era inusitado desde as primeiras horas da manhã. Os preparativos, como a colagem de bandeirolas de papel celofane nas cores vermelha, verde, azul e branca, em logos fios de linha “urso” para serem pregadas nos pontos mais altos das casas; folhas verdes enormes de palmeiras para serem fixadas nas paredes das residências. Ficava meio encabulado, pois no bangalô em que morava, seu pai avisava de antemão, que não permitia pregar a linha de bandeirolas no frontão de sua casa, pois aquilo era coisa do diabo, dizendo sempre nestas ocasiões: ‘Você meu filho tenha cuidado, não se junte com esta molecada. Nós somos um povo separado e santificado para Deus’. ‘Este povo que está nesta alegria mundana vai tudo para o inferno’. Ao ouvir estas palavras de seu progenitor, aflorava-lhe um sentimento de culpa, por não conseguir tirar da cabeça, ou negar a satisfação que sentia em seu ser, a qual aumentava, à medida que se aproximava a grande noite de São João, quando ao soar da melodia sinfônica da Ave Maria, precisamente às seis horas em ponto, as pessoas acorriam para frente de suas casas a fim de acender as tradicionais fogueiras". "Lembrava-se perfeitamente de que ao anoitecer, saía correndo por toda a extensão da rua de barro batido, numa extensão de mais ou menos uns duzentos metros, a contar as fogueiras de cada lado da rua. Enumerava as maiores e mais altas, que quase sempre ficavam a frente das residências dos mais ricos".
Tinha lá as suas estatísticas, pois concluía assim: “este ano deu seis fogueiras a mais que o ano passado”. Ah! Que inveja sentia por não ter o direito de soltar pelo menos aqueles chuveiros de gotas belas e fosforescentes que exalavam muita fumaça branca. O cheiro da pólvora dos traques, dos beijos de moça, dos mijões, dos ratinhos e das pequenas bombas, inebriava-lhe. Escondido em um dos becos de sua casa, após saborear pamonhas e canjicas com queijo de coalho e café quente, se contentava em soltar algumas estrelinhas miudinhas cujas faíscas não chegavam a mais de um centímetro de comprimento. Dizia para ele mesmo: “Não acredito de maneira nenhuma, que Deus vá se zangar por eu está me divertindo com isto”.

Nas noites de São João que coincidiam com os cultos na igreja, ficava acabrunhado, muito triste por perder a maior parte daquele espetáculo, e saia de casa bem devagarzinho para o templo, a fim ter mais tempo para apreciar a beleza esplendorosa daquelas lanternas pregadas nas paredes de fora das casas, acima de cada janela e portas. Lanternas em forma de pirâmides, de cubos, umas redondas como fole de sanfona, em forma de estrelas de variadas cores escondendo a luz tremulante das velas em seu interior.
Pedreira lembrava-se de uma daquelas noites de S. João, em que a lua cheia dava um toque todo especial, e os balões multicoloridos começavam a ser soltos pela gurizada alegremente alvoroçada. Logo, logo, os balões de variados tamanhos estariam subindo, levados pelos ventos em meio a um céu límpido, transformando-se em pouco tempo em pequeninos pontinhos de luz bruxuleante, em meio às estrelas cintilantes. Naquela noite ele perdera a maior parte da festa, pois o dirigente do culto se estendera demais no seu sermão, fazendo-o perder as maravilhas das girândolas preparadas, num dia em que o céu estava maravilhoso, centrado por uma lua que parecia naquela ocasião espargir um brilho diferente como nunca tinha presenciado.
Numa espécie de mergulho em si mesmo, refletia agora:
“Será que meu pai, quando criança, não teria experimentado aquela mesma sensação que me dominava naqueles momentos idílicos das noites juninas?”

A insensibilidade de seu temivel pai fez evocar nele aquelas impensadas admoestações, que pregava em sua antiga igreja, nos cultos da última sexta-feira que precedia ao dia de S. João, quando pedia insistentemente aos crentes, que não deixassem de maneira nenhuma os seus filhos saírem com os mundanos das ruas a soltar fogos, e a pular diante das fogueiras”. Se a festa junina coincidia com o dia de culto, Pedreira dizia assim: “tragam todas as crianças, sem exceção, para igreja bem cedinho, antes do acender das fogueiras”. Quando a festa mundana não coincidia com o dia de culto, falava desta maneira: “Prendam todas em casa. Os mais rebeldes tranquem em quartos e ponham os mesmos para dormirem cedo”.
Depois de sua polêmica renúncia, isto é, da compreensão profunda sobre as raízes de suas velhas e absurdas atitudes, o pastor Pedreira num exercício de memória, entendia agora tudo perfeitamente. Ora, ele em sua outrora admoestação doutrinária, queria proibir os filhos dos fiéis de sua antiga igreja, de provarem aquela sensação prazerosa que ele mesmo sentira, quando criança, nas famosas noites de S. João, em que escondido de seu pai natural se deliciava com os folguedos juninos. Compreendia agora, que ao presidir aquela instituição, estava ali, sem saber, investido da autoridade de seu antigo pai. Era como se o fantasma do seu ex-pai estivesse a reprovar a sua atitude de ter praticado na meninice algo grave e pecaminoso e não ter tido a coragem de lhe confessar.
Como expiação por tudo que cometera em oculto de seu pai, pelos prazeres não revelados daquelas memoráveis noites de muitos anos atrás, Pedreira procurava se redimir em suas exortações costumeiras de final de semana, perante um Pai espiritual (simbólico), dizendo a frente dos seus fiéis: “Pelo amor de Deus, não deixem as suas criancinhas participar desta festa pagã, que só tem coisas diabólicas a oferecer”.
Com a memória já mais ativada pelas intensas reflexões diuturnas, fizera uma interessante volta no tempo, indo buscar um fato inusitado do inicio de seu mandato em sua antiga igreja: Um dia, quando saía do templo, após o culto, em direção a sua residência, para não pecar, ele procurava em vão, não olhar para aquelas tentadoras lanternas luminosas de formatos variados pregadas nas paredes, que tantas alegrias lhe dera nos tempos de criança; algumas já estavam apagadas, pois as velas já tinham se derretidas todas, não fornecendo mais o alimento para a luminosidade. Sem querer, mais adiante pára, a fim ver uma lanterna junina enorme instalada em um casarão suntuoso de dois andares. Ao sentir que tinha caído em tentação, imediatamente reage tapando os olhos com as mãos, dizendo baixinho: “Está repreendido em nome de Jesus”.
Agora, com mais maturidade, ele tinha consciência de que, o que lhe ocorrera naquela ocasião, quando fora traído pelo próprio subconsciente, se originara dos desejos reprimidos daquela fase tão bela e significativa da sua infância, quando estático diante das casas dos mais ricos ficava por longos minutos se deliciando com a beleza das luminosidades fortemente coloridas das lanternas multiformes. O que acontecera ali em sua caminhada para casa, após o culto, reacendeu nele o sentimento de culpa, fazendo-o repreender o seu próprio inconsciente, como se aquilo que lhe chamara a atenção, fosse uma coisa satânica.

Já adulto, casado e com filhos, parecia ainda ver o seu sisudo pai, em sua velha cadeira de balanço, na sala de estar, o admoestando desta forma: ‘Você Pedreira, como um menino crente, tem que ser diferente dos demais’! Seu pai nunca viera saber que no coração do filho, tudo era diferente do que ele pensava. O menino Pedreira queria, era ser igual aos outros, na espontaneidade lúdica daquela noite. Ainda era muito pequeno, para poder sentir ódio daqueles seus amiguinhos cujos pais tinham religião diferente da sua. Após os festejos da noite, ele entrava cabisbaixo em casa. Seu pai e sua mãe juntamente com suas tias, ainda estavam na sala conversando sobre fatos corriqueiros do dia-a-dia. Nessas ocasiões não faltavam as tradicionais fofocas. Passando sorrateiramente entre eles, após pedir licença, escondendo as mãos com as unhas cheias de pólvora, ouvia a ladainha de sempre: ‘Isto lá é hora, de um menino filho de pais crentes chegar em casa! Vou marcar uma hora no meu relógio, para durante este tempo você ficar ajoelhado pedindo perdão a Deus, pela petulância de ter se misturado com esta cambada de moleques, filhos de pais desordenados’. Então, ele, com os seus desejos já plenamente satisfeitos, ajoelhava-se ao lado da sua cama. Não ligava muito para os puxavantes de orelha, que o faziam despertar do inevitável cochilo, e ouvir logo em seguida os gritos do seu enfezado pai: ‘Seu safado, tá me enganando! Ore aí! Ore, para seu pai ver. E ele dizia da boca para fora, pois não podia mentir para Deus: “Senhor me perdoe pelo pecado que cometi em desobedecer a meu pai”. No fundo, ele achava o seu pai um chato, orgulhoso e inconveniente por menosprezar seus amigos das noitadas juninas. Às vezes, pensava que a oração de uma criança incompreendida poderia se reverter contra quem a estava castigando injustamente.

“Dou graças a Deus, porque, mesmo numa idade já avançada, ele me fez conhecer um pouco de mim, o bastante, para entender que julgava nos outros, aquilo que eu mesmo possuía em secreto” ─ dizia agora, um velho e nostálgico Armando Pedreira. Os evangelhos dizem: “que ao julgarmos os outros, estamos julgando a nós mesmos”. Tinha lido tantas vezes aquela passagem bíblica, e só agora despertara para uma compreensão mais profunda das verdades ali contidas.
Armando Pedreira hoje, no dia de São João, gosta de ficar sentado em uma espreguiçadeira, lambendo os dedos melados de canjica, relembrando sem nenhum sentimento de culpa, os seus tempos de menino. Participando alegremente da algazarra das crianças libertas do fardo do medo, sem necessidade de se esconderem dos pais. Rindo de alegria ao ver aquela meninada soltando chuveiros iguais aos de outrora, ao redor de uma fogueira, cantarolando hinos no ritmo esfuziante de “forró”, ao som da sanfona, de um zabumba e de um pandeiro.
Numa granja toda iluminada por lanternas coloridas, semelhantes àquelas de antigamente, ele agora, se esbalda de contentamento, com o coração livre das velhas e amargas ameaças de castigo.








13 janeiro 2007

O PODER DE UMA SINFONIA





Moisés e Armando Pedreira estavam tomando parte, enfim, de um culto fora do trivial, algo diferente do café com leite de sua antiga instituição religiosa. No inicio da reunião, Amadeus pediu aos ouvintes que se concentrassem bem nas músicas que iriam ouvir, citando uma frase de Schopenhauer, que ele mesmo modificara: “A música clássica é um exercício metafísico no qual a mente não se dá conta de que está filosofando com Deus”. Os dois convidados escutavam de inicio, um som suave como uma brisa. Porém, logo, o som das notas irrompeu como um vulcão em inicio de atividade, numa sonoridade melódica nunca experimentada pelos dois, infundindo em suas receptivas almas um estado de ânimo imaginavelmente criativo. Uma sinfonia sem vozes, maravilhosamente executada, estava sendo extraída de instrumentos como: violinos, violoncelos, flautas, oboés, fagotes, clarinetas e trompas. Todos os participantes estavam estáticos em um significante silêncio, que dava até para se ouvir o bater de asas de um inseto. Foi quando surgiu primeiro, suavemente, depois em tom crescente, a beleza extra-subjetiva dos acordes, mergulhando os corações numa harmonia indescritível, fazendo-os esquecer as paixões, tristezas e outros estados melancólicos da alma, espalhando uma emoção carregada de uma inefável serenidade. A melodia ora irradiava uma aspereza dissonante, ora uma flutuante sensação de estranhamento. Os intervalos melódicos eram intercalados por picos de marcantes e envolventes acordes seguidos de um pianíssimo decrescente, deixando na alma uma progressiva sensação de um deslizar suave do alto de uma montanha mágica.

Moisés e Armando Pedreira jamais imaginaram que a música tivesse este efeito de os transportarem a um mundo tão fantástico, num fenômeno nunca dantes experimentado. Antes, não tinham a idéia de que se pudesse extrair da música, este requinte de enlevamento através de uma sincronia de ritmos agressivos alternados com ritmos suaves, de uma beleza melódica extraordinária. Agora, escutavam atentamente cada sibilo, cada roçar dos dedos ágeis dos músicos a deslizar sobre as cordas afinadas dos instrumentos. A música transformava-os em um só corpo coletivo. As notas musicais pareciam se confundir com eles, identificando-os com os outros, seus irmãos, numa efusão prazerosa de felicidade e êxtase.

É verdade que apesar do silêncio exterior ─ pois todos estavam estáticos, ─ as suas almas estavam impregnadas de uma paz, de um tranqüilo e sereno contentamento, sem necessidade daquele êxtase pesado e barulhento de sua antiga igreja. O que estavam experimentando não era um êxtase cotidiano, banal e vulgar, como o êxtase provocado pela velocidade extrema em um bólido. Esse tesouro melódico que agora descobriram, através da interpretação magistral de uma orquestra, deixara nos seus espíritos uma calma e uma felicidade indizível, num acontecimento sem precedentes.

Os dois estreantes deste novo ninho estavam tendo agora a noção exata do poder da música tocada. Viam que para enlevo da alma, não se necessitava de nada, além do desfilar de notas harmoniosas executadas com perfeição por um instrumento simples como, por exemplo: uma rabeca. Só agora eles sentiam um alívio espiritual que não podia ser expresso em palavras, assim como sentiu Saul quando Davi tocou em sua harpa uma melodia sem imperfeições, porque o Divino é perfeito. Uma só nota soada desafinada era tudo que o diabo queria para por toda a melodia a perder. Uma nota desafinada seria como uma pitada de fermento que leveda toda a massa.

Quantas vezes os dois ex-ministros ouviram esta frase da boca de Aparecido: “cantem e toquem de qualquer jeito. Deus não está ligando para a perfeição na execução musical”. Contudo, eles chegaram agora à conclusão, que existe uma coisa que se pode usufruir aqui na terra, e que não será diferente lá no céu: “a perfeição harmoniosa de um concerto musical”.

( Trechos do capitulo XXII do livro de Levi B. Santos.

“PREGADORES DE SI MESMO” ─ em fase de acabamento.)