A internet veio para
ficar. Veio para moldar e alterar definitivamente a vida das pessoas. De tão
invasiva, parece até que ela tomou para si a máxima divina da cristandade: “...E
estarei convosco até a consumação dos séculos”. No entanto, algumas
dúvidas sobre possíveis efeitos adversos da evolução tecnológica cibernética estão
a nos incomodar:
●Será que algum dia os computadores
substituirão os professores, na tarefa de formar e informar seus alunos?
●Será que nos tornamos
dependentes dos manuais de informação para tudo quanto é área do conhecimento?
●Será que a enorme gama
de “pratos feitos” no espaço cibernético não vai, um dia, provocar uma
indigestão cerebral incurável, com a nefasta conseqüência: a de castrar a nossa
capacidade de pensar e concatenar nossas próprias idéias?
As descobertas e informações
ocorrem numa velocidade tão intensa, que num futuro próximo, talvez não haja
mais o que se debater ou escrever, pois tudo já estará registrado nos bancos de
dados do espaço virtual. Ou seja, tudo o que viermos a pensar ou imaginar, já
foi pensado e escrito nos sites de pesquisas, como o do gigantesco Google.
Parece que chegou o tempo em que meditar, refletir e examinar as coisas
demorada e minuciosamente passaram a ser operações mentais ultrapassadas. Os
bancos de dados disponíveis nos computadores estão aí, a exercer forte atração
sobre as pessoas, estimulando-as a um simples toque digital resolverem de forma
rápida ou instantânea o que pede a mídia tecnicista.
É do conhecimento de
todos que os novos meios interativos de comunicação, como nunca, vêm investindo
na área infantil. Crianças de três anos de idade já manejam seus tablets com uma
agilidade comparável a de um exímio pianista dedilhando as teclas de seu
instrumento. Empresas como a “Kidscom”, por exemplo, em seu questionário faz uma fatídica pergunta, a ser respondida
por meninos e meninas: “Quem você quer ser quando crescer?”.
“Quando se trata de atitudes e opiniões
das crianças, anuncia o folheto de propaganda dessa empresa, a Kidscom tem as respostas” ― assim,
escreveu Russel Jacoby, no sexto capitulo, sob o título ― “Sanidade a Varejo e Loucura por Atacado” ―
do seu livro, “O Fim da
Utopia” (Editora Record).
O livro, “Drop Dead Healthy” (Morto de Saúde),
editado em 2012 nos EUA, mostra a que ponto chegou a obsessão cibernética. “A. J.
Jacobs, de 45 anos, tomou a
iniciativa de ser o homem mais saudável do planeta: Primeiro construiu um
pedômetro, destinado a contar seus passos nas caminhadas. Depois inventou uma
pulseira para registrar as suas atividades físicas rotineiras, como lavar
louças. Uma faixa presa a cabeça para coletar as ondas cerebrais, e enquanto
dorme, registrar a qualidade de seu sono. Baixou vários aplicativos de smartphone com o qual mede as calorias consumidas num
único dia[...]. Com isso conseguiu emagrecer sete quilos, controlou seu
colesterol e ficou com uma saúde de ferro. Porém, no fim do experimento,
percebeu que estava dando pouco tempo e atenção a sua família, quase virando um
paranóico”. (Vide reportagem “A
Tecnologia Que Vestimos” ― Revista VEJA – Edição 2353).
Outro crítico e escritor ―
o estadounidense, Sven Birkerts ―, explica bem os efeitos deletérios da cybercultura,
ao dizer: “trocamos a reflexão sobre um
problema pelo acúmulo de informações a respeito [...].Quando o impulso
eletrônico é que manda, quando a psique é condicionada a trabalhar com dados, a
experiência do tempo profundo torna-se impossível. Sem tempo profundo não há
ressonância; sem ressonância não há sabedoria.”
Ainda sobre a Sociedade Cibernética,
o renomado psicanalista, Joel Birman, segue o mesmo diapasão
critico, em seu livro, “Estilo
e Modernidade em Psicanálise” (pág. 218): “A linguagem na era cibernética não quer dizer mais nada e não implica
num pacto sagrado entre os sujeitos [...]. Revela-se assim a impossibilidade de
qualquer encontro, mesmo no momento crucial da morte. Esta não é mais um espaço
possível para comunhão humana [...]. Nem a morte pode mais os reunir, pois eles
se transformaram em autômatos no seu autocentramento narcísico, aprisionados
nas suas invenções tecnológicas desvitalizantes”.
Será que, inapelavelmente,
estamos todos condenados a nos transformar em uma nova classe ― a do “Homus ciberneticus” ― aquela formada
pelos que já vivem em clausura de frente para a telinha, e já não mais sente o
cheiro do outro nem o arquejar de sua respiração, tornando-se imune ao olhar e
ao toque do seu semelhante?
Por Levi
B. Santos









