27 novembro 2014

Objeto Vivo



Dizia Weber: “o desempenho de cada indivíduo é matematicamente medido, cada homem se torna uma engrenagenzinha da grande máquina e, ciente disso, sua única preocupação é saber se poderá tornar-se uma engrenagem maior.”

O escritor e poeta americano, Thomas Stearns Eliot (1888—1965), em “O Coquetel”, trata da coisificação do homem. Como peça de uma grande engrenagem, o indivíduo, enquanto durar, está fadado a exercer o seu papel, quer nas fábricas, escolas, órgãos do governo, tribunais, presídios, igrejas, lojas, corporações militares, hospitais, etc. Como no mito do herói grego Sísifo, o ser humano está sentenciado a carregar, diuturnamente, a grande pedra até o cume do monte, mesmo sabendo que após seu árduo trabalho, pela força da gravidade, ela retornará ladeira abaixo. O mito nos mostra que a tarefa dolorosa de subir a montanha com o fardo e ter alívio na descida, é uma constante. Freud, por certo, deve ter retirado dessa história, subsídios para formular a teoria ou conceito de “princípio do prazer” versus “princípio da realidade”.

O trecho poético de “O Coquetel”, de Eliot, através de uma situação crítica, nos oferece um exemplo contundente de como o homem da vida moderna se sente despersonalizado ou reduzido a uma coisa:

“...tomemos uma operação cirúrgica.
Na consulta com o médico e o cirurgião,
Ao ir para a cama na casa de saúde,
Ao falar com a enfermeira-chefe, você ainda é sujeito,
O centro da realidade. Mas, estirado na mesa,
Você é um móvel numa oficina
Para aqueles que o cercam, os atores mascarados;
Tudo o que existe de ‘você’ é seu corpo
E  o “você” é retirado.
Há uma perda da personalidade;
Ou melhor, você perdeu o contato com a pessoa
Que supunha ser. Já não se sente tão humano,
Você fica reduzido à condição de um objeto —
Um objeto vivo, porém não mais uma pessoa.
Isso está sempre acontecendo, porque se é tanto um objeto
Quanto uma pessoa. Mas a gente se esquece disso
O mais depressa que pode. Quando você se veste para uma festa
E vai descendo a escada, com tudo a seu redor
Arranjado para sustentá-lo no papel que você escolheu,
Às vezes, ao chegar ao último degrau,
Há um degrau além do que seus pés esperavam,
E você vem abaixo num solavanco. Por um momento,
Você teve a experiência de ser um objeto
À mercê de uma escada malévola.


Yannis Gabriel, em “Freud e a Sociedade”, disse: “Poucas pessoas avaliaram tão bem quanto Eliot, o sofrimento dos indivíduos em sua vida pública e em suas relações pessoais”.


“...Aprendem a evitar as expectativas exageradas,
Tornam-se tolerantes com eles mesmos e com os outros,
Dando e recebendo, nas ações costumeiras,
O que há para dar e receber”. (Eliot. T. S.)

“O homem se transformou num autômato” — disse Erich Fromm. “O homem virou uma coisa” — acrescentou Marcuse. Será que existe uma fórmula diferente da fornecida acima por T. S. Eliot, para se conviver pacificamente em uma sociedade tecnicamente globalizada e despersonalizada?




Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de novembro de 2014

Site da Imagem: Ibahia.com

13 novembro 2014

O Efeito Sazonal Assusta



Por conta do feriado do próximo dia 15, saí hoje, com a finalidade de antecipar as compras de hortaliças e frutas que seriam realizadas no final de semana. Após fazer o  apanhado dos citados alimentos em um dos Sacolões de minha cidade, tive um susto: a soma dos produtos que adquiri para consumo durante a semana, na pontinha do lápis, teve um aumento de mais de 20% em relação à semana anterior.

Resolvi não por a culpa no governo e acreditar no ministro Mantega que, apesar de já saber que não vai continuar no governo Dilma, vem se desdobrando para explicar as causas da inflação que por ora está assustando os consumidores. Disse ele: “a elevação nos preços dos alimentos é sazonal”. Ou seja, o ministro falou que era a falta de chuva que vinha causando a alta dos alimentos.

 20% de inflação, em uma semana, no setor de hortifrutis, convenhamos, não seria algo estarrecedor para se colocar toda a culpa na conta de São Pedro? Mas decidi acreditar que os 20% que paguei a mais em relação à semana anterior, não foi efeito reprimido da ressaca eleitoral.

Sabedor de que em um passado recente, o “chuchu” foi responsabilizado pela inflação durante mais ou menos dois meses, decidi procurar a opinião de um especialista em Economia, nessa área.

 Para que serve o Google?

 Em alguns segundos, encontrei a resposta: O professor, Rogério Gomes de Economia alimentar da Unesp de Araraquara – SP dá o seu veredicto: “a alta do preço dos alimentos está relacionada à seca que atingiu às lavouras dos EUA”. [Vide Link]

Conformei-me com a resposta do Especialista. Afinal, o mundo está globalizado tanto para o que é bom quanto para o que é mal: isto eu já sabia. Só não sabia que a culpa recaía sobre o malfadado país, EUA, tão cantado e decantado pelo seu progresso tecnológico em todas as áreas de saberes.

Através de minhas recentes pesquisas, detectei que foi de lá (dos EUA), que o nosso atual secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Marcio Holland, foi buscar a grande descoberta científica de que o ovo tem até mais nutrientes que a carne.

Deve estar bem fresquinho na memória de todos, o pedido que o ministro fez aos brasileiros para trocar por ovos a carne de preço bastante elevado — o que ocasionou uma reprimenda por parte da Dilma(Como pode, na reta final das eleições, um ministro sair com uma explicação científica altamente prejudicial à candidata ao cargo maior da república?).

A nutróloga Tâmara Mazaracki, membro da Associação Brasileira de Nutrologia, confirmando a afirmação “fora de tempo” do ministro, explica que a carne vermelha pode ser substituída, sim, por ovos e outros tipos de alimentos, como cogumelos, laticínios e sementes (Vide Link). O conselho do ministro, contrário ao script eleitoreiro, afinal, tinha lá sua veracidade comprovada pela ciência.

Como os hortifrutis são imprescindíveis na manutenção adequada do funcionamento do organismo humano e, a meu ver, não há substitutos à altura deles, esperemos que na falta de resposta de São Pedro, os EUA (o berço de todas as tecnologias avançadas) façam chover sobre o seu quintal (O Brasil)  barateando esses alimentos que, por ora, pesam tanto no nosso bolso.

Tomara que a decisão de bombardeamento de nuvens, tomada há três meses pelo Governo de São Paulo, dê resultados satisfatórios[Vide Link]. Se tudo ocorrer bem (São Pedro ajudando São Paulo) o efeito sazonal (a seca) que a todos prejudica de forma veemente, não será mais culpada de produzir índices inflacionários tão elevados nessa época do ano. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de novembro de 2014

Site da Imagem: Agenda Pública

01 novembro 2014

Os Mortos de Javé e Alah em Véspera de Finados



O bloqueio da Esplanada das Mesquitas efetuado pelo governo de Israel, ontem (dia 31) ―, o primeiro em 14 anos, foi motivado pela morte do Yehuda  Glick ― profeta das hostes javelianas que liderava um movimento pela reconstrução de um novo templo judeu nesse local "sagrado". 

Do lado ocidental é assim: os cristãos vêem a reconstrução do Templo de Salomão como um sinal inequívoco da volta do Messias (que dizem ter ressuscitado há quase dois mil anos), para arrebatar a sua igreja. Quanto mais quente for o conflito e quanto mais gente morrer defendendo os seus deuses mais os fundamentalistas cristãos, de braços erguidos e olhos arregalados para as nuvens, dizem em êxtase: “Ora vem Senhor Jesus!”

O “Céu” e o “Inferno”, como placas tectônicas, estão sempre em atritos nessa região. Nessa véspera de Finados, a luta insana ou louca dos deuses, por ora, resultou em uma morte para cada facção divina. Poucas horas depois de ser morto o judeu que pregava e sonhava  com a reconstrução do Templo de Jerusalém no local da Mesquita muçulmana, o palestino Moataz Hejazi foi assassinado, de acordo com preceito da Torah, que preconiza o “olho por olho e dente por dente”. Foram duas vítimas na véspera de finados: tomara que fique só nisso. Mas, segundo o que se noticia, as tensões podem se agravar no final de semana.

A Folha de São Paulo, de ontem, dá uma sucinta explicação para se entender o conflito imaginário entre os deuses Javé e Alah na mente dos neuróticos de um lado e de outro:

“A Esplanada é gerida desde as cruzadas por religiosos muçulmanos. Israel que ocupa Jerusalém Oriental desde 1967 controla o acesso ao local, mas mantém um veto a manifestações religiosas a todos os não muçulmanos, como medida de segurança”.

Vale salientar que o último fechamento da esplanada foi devido à visita do profeta e ministro de Javé, Ariel Sharon, que em setembro de 2000 invadiu o local sem ter conversado com Alah.

Para complicar ainda mais o imbróglio sagrado-infernal, o monte Moríá, onde no século VII foi construído o Domo da Rocha ― a Mesquita de Al-Aqsa ―, segundo a análise de Diogo Bercito, é local considerado sagrado pelos judeus. É que a tradição sugere que foi ali que Abraão se dispôs a sacrificar seu filho, no que seria o primeiro infanticídio em nome de Javé. Diogo Bercito é jornalista da Folha, formado em Filosofia, Letras, e estudioso de línguas orientais.

Quem tiver um pouco de inteligência, sem dúvida, irá concluir que toda essa ação montada não passa de uma jogada política, para que se concretize a hegemonia de Israel na região, e se cumpra os vaticínios vétero-testamentários de destruição dos que não seguem o deus único e verdadeiro da tradição judaico-cristã. Javé e Alah, nas mentes dos fundamentalistas, continuam a se digladiarem no sentido de fazer ver qual deles vai levar a melhor. (rsrs)

Segundo, Nilton Bonder, líder da Congregação judaica no Brasil, todo este conflito fabricado tem na praga do convencimento, a sua raiz. Diz ele:
“A idéia que norteia nossa civilização ocidental é que para um lado ter razão o outro tem que necessariamente, estar errado. [...] A luta pela afirmação de uma nação judaica vai contra a maioria das correntes no seio do judaísmo [...]. Paradoxalmente é em Israel que a visão sionista está tendo o custo mais alto, por um processo típico do retorno do recalcado”.

Bernardo Sorj, formado em História pela Universidade de Haifa, PhD em Sociologia pela Universidade de Manchester, diz algo extramemente duro, em seu livro “Judaísmo para o Século XXI”:

O Judaísmo moderno acabou, mas não sabemos como enterrá-lo. [...] A imposição de uma língua única, o esforço, em boa medida fracassado, de criar uma cultura judaica secular “naturalista” e o desapreço pela diáspora como fonte de valores e de vivência criativa foram elementos constitutivos do esforço normatizador e disciplinador da ideologia e do sistema educacional que se implantou em Israel”.

A Esplanada da Mesquita e das ruínas do templo de Salomão tem sido palco da luta ente o bem e o mal. Cada facção, ver Satã na outra que professa o deus de nome diferente. Na verdade, ele projeta o “satã” que habita em si próprio. Plagiando Nilton Bonder, “Satã não seria tão importante e não causaria tantas mortes se as questões que ele traz à luz na mente de cada fundamentalista não fossem as grandes questões humanas.”

Que os exércitos de Javé e de Alah façam uma pausa nesse dia de Finados e reflitam sobre os seus desejos de destruição que tantas vítimas fizeram e ainda fazem: justamente àquelas que não professam o mesmo deus. Acabem de uma vez por todas com a história de que só o seu deus salva, e que o do outro é que leva a perdição.  O maior mal da humanidade é o desejo de triunfo teológico que, ainda em plena pós-modernidade, infelizmente, vem marcando grandes conflitos; guerras, que certos religiosos, em sua imaginação, percebem como se fossem ordens emanadas de seus deuses vingativos e sanguinários.


Por Levi B. Santos

Guarabira, PB


Site da Imagem: culturabrasil.org

20 outubro 2014

Maquiavel e a Corrupção




Acredito que no Brasil nunca se falou tanto em corrupção, quanto vem ocorrendo nesta campanha presidencial entre Dilma e Aécio. Já não se suporta mais tanta lavagem de roupa suja sendo exibida pelos candidatos nos meios de comunicação ― um verdadeiro “vale tudo”, rotulado como “debate de ideias”, entre dois “vendedores de bondades” postulantes ao cargo máximo da república.

Não há como deixar de recorrer ao famoso conselheiro dos príncipes da idade média ― o italiano Nicolau Maquiavel (1469 ―1527) ―, para se compreender bem a agressividade e os desaforos trocados entre os dois meliantes.

O filósofo e historiador americano e ex-consultor do Conselho de Segurança dos EUA, Michael A. Ledeen, em seu livro ― “Maquiavel e a Liderança Moderna” ― mostra de forma inteligível o quanto os lideres políticos contemporâneos, com a sua tendência em perdoar os grandes erros de todo o mundo, estão se descuidando daquilo que preconizava Nicolau Maquiavel.

O autor de “O Príncipe” (o preferido de Napoleão), em suas lições, falava sobre a importância de punir os grandes malfeitores de uma forma a mais dramática possível, para que influísse no estado psicológico do povo. Sobre o efeito da punição, diz Michael A. Leeden (página 156/157) de seu livro: “Em primeiro lugar, o povo sente um assombro reverente pela violência do ato, que derruba por terra algum personagem poderoso. Isso lhes mostra que mesmo os mais poderosos estão sujeito à justiça da Lei [...]. O segundo elemento psicológico é a ‘satisfação’, o tipo de catarse por que passa à platéia enquanto assiste uma tragédia clássica. [...] Nossos expurgos periódicos de políticos corruptos são exatamente o tipo de coisa que Maquiavel tinha em mente, seja Watergate nos EUA, a destruição da velha classe política italiana, ou a humilhação de políticos e gerentes no Japão.”

O autor de “Maquiavel e a Liderança Moderna” faz ver que os conselhos de Maquiavel não estão desatualizados, foram apenas substituídos por outra forma de pena. Afirma ele: “Hoje ao invés de tirar a vida se destrói a reputação e a carreira dos corruptos, mas o efeito sobre o público é o mesmo, especialmente porque muitos de nossos carrascos modernos são jornalistas e comentaristas de TV que proporcionam o palco necessário e levam o drama a uma grande platéia. Não há nada que lembre tão eficazmente ao povo que seus líderes precisam agir dentro dos limites legais quanto botar na cadeia alguns homens poderosos que se acreditavam acima da lei ou destruí-los por meio do escândalo”.

Em tempos de maquiagem de contas públicas, lavagem da dívida do país para patrocinar superávits mentirosos, diante de bate-bocas com alto potencial demagógico e acusações sem limites entre debatedores guiados por marqueteiros de ocasião, torna-se imperativo registrar uma magistral fala de Tocqueville, que tem muito a ver com essa trágica palhaçada de atores “mal” treinados, montada nos sofisticados palcos de nossos principais canais de Televisão para elevar a audiência e o faturamento das emissoras.  

O povo nunca penetrará no escuro labirinto das intrigas palacianas e sempre terá dificuldade em perceber a torpeza que espreita sob os modos elegantes, os gostos refinados e a linguagem graciosa. Contudo pilhar a bolsa do povo e vender os favores do Estado são artes que o mais ordinário vilão compreende e espera praticar por sua vez.”

Por último, quero aqui ressaltar o emblemático epílogo da obra de Michael A. Ladeen (página 179):

“As regras de Maquiavel se apóiam numa claríssima visão da natureza humana. Se você acha que as pessoas são essencialmente boas e, quando deixadas por conta própria, criarão comunidades amorosas e bons governos, você nada aprendeu com ele”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de outubro de 2014

16 outubro 2014

Tempos em Que a Pureza Pode Ser Fatal





Maximilien de Robespierre (1758 ―1794), líder da Revolução Francesa que, sob o lema “liberdade igualdade e fraternidade”, encantou o mundo de sua época, defendendo com toda tenacidade a República e o seu ideal de democracia social.  

Ontem (dia 15), na coluna de Mônica Bergamo (Folha de São Paulo), Walter Feldman ― coordenador da campanha de Marina Silva à Presidência da República ― disse algo profundamente filosófico para reflexão de todos: a pureza não existe nem em nossas vidas”.

A pretensão de ser um "ser puro" foi explorada ao máximo pelos dois candidatos à Presidência de nossa República. Passaram cerca de duas horas em rede nacional pela TV Bandeirante trocando farpas e desaforos que nada têm a ver com o termo DEBATE. 

Não poderia deixar de destacar, aqui, o que Robespierre, provavelmente desiludido e pouco antes de ser guilhotinado, deixou escrito. Disse ele:

“Quando é que o povo será educado? Quando tiver pão suficiente para comer, quando os ricos e o governo deixarem de subornar penas e línguas traiçoeiras para enganá-lo... Quando acontecerá? Nunca”. (trecho de “Pureza Fatal” na VEJA de 11 de  Novembro de 2009)

Comentando, ontem (dia 15), a digladiação entre integrantes da Rede Sustentabilidade, Walter Feldman, coordenador da campanha de Marina, aconselhou a todos digladiadores de ocasião lerem o livro “Pureza Fatal” ― obra que fala de como a pretensa pureza de Robespierre levou a França ao terror, com ele destruindo seus próprios companheiros.

Para quem não lembra, o próprio Robespierre, confundindo a realidade com seus ideais e desejos, assumiu o papel de um ser puro, uma espécie de sacerdote. Mal sabia que estava contaminado por sintomas de esquizofrenia auditiva em que “vozes religiosas” sopravam aos seus ouvidos: “impeça qualquer defesa diante do Tribunal Revolucionário!” 

Em obediência aos ditames de uma pureza que a religião persegue, o defensor da “liberdade, igualdade e fraternidade” ordenou a execução dos adversários da revolução francesa. Todos sabem no que deu a “Pureza Suprema”: Robespierre e a sonhada república fundiram-se em um único e mesmo tirano.

O livro Pureza Fatal ― Robespierre e a Revolução Francesa, de Ruth Scurr, nos remete a refletir sobre as picuinhas, bajulações, charlatanismos e lavagens de roupa suja que, hoje, sob o rótulo de debate entre candidatos à Presidência da República, invadem os nossos lares e tiram o nosso sono.

Como todos sabem, e a religião ratifica, o “dom de iludir” é muito forte, e a platéia raramente resiste à tentação de dar uma espiada no desempenho dos artistas em cena. Já se fala que o próximo debate entre Aécio e Dilma baterá todos os recordes de audiência. Indubitavelmente teremos mais uma reprise de troca de acusações e tiradas de efeito: cada um querendo ser mais puro e mais transparente. No fundo, os debatedores sabem que devem seguir a estratégia  maquiavélica: atenção máxima para não cometer sincericídio (“ato falho” ― revelar verdades inconvenientes que deveriam permanecer ocultas).

Dom de Iludir” ― fenomenal canção do grande letrista da MPB, Caetano Veloso, define de forma precisa e poética o “Divino Poder de Iludir”. Não deixe de conferir essa emblemática música caetaneana, caro leitor/eleitor. E se quiser (e cai bem), substitua a palavra “mulher”(da letra da modinha) por “revolucionário”, “reformador”, “salvador da pátria”, “governo novo-ideias novas”, etc.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de outubro de 2014

05 outubro 2014

O Estado e o Uso do Papel Higiênico



Na França, Luis XIV, apelidado de “Rei Sol” cunhou a célebre frase: “O Estado Sou Eu”, que resumia bem o poder absoluto que encarnava em seu tempo (1638 ― 1715).

É em época de eleições que postulantes a governo dos estados e da presidência do Brasil revestem-se da onipotência presente em Luis XIV. De lá para cá, o espírito que movia o venerado rei Francês, virou uma obsessão irremediável, particularmente, desde os tempos imemoriais da forçada “proclamação da República” pelo marechal Deodoro da Fonseca.

Como é do conhecimento de todos, o Estado Brasileiro se imiscui em todas as áreas de nossa vida, instituindo normas, regras e métodos sobre como viver e se comportar de acordo com o que pensa ser bom e politicamente correto para si.

O Estado, na falsa ilusão de fornecer proteção à população, chega a se meter onde não devia: tentando regulamentar até os hábitos ou preferências do indivíduo. Quando muitos, hoje (dia 05), são obrigados a sufragar nas urnas nomes que mal conhecem para reger seus destinos, nada melhor que ler a última crônica que João Ubaldo fez antes de partir dessa para outra.

A genial crônica desse fenomenal romancista tem por título, “O Correto Uso do Papel Higiênico”. Deixo-a abaixo transcrita para a reflexão do sofrido e idealista eleitor brasileiro que, neste domingo(dia 05), sai da tranqüilidade de sua casa para, segundo as leis do país, exercer seu suposto direito de cidadania:

"O correto uso do papel higiênico"
Última crônica escrita pelo imortal da Academia de Letras, João Ubaldo (1941 ― 2014), publicada no jornal “O Globo” em 18 de julho de 2014:

“O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.
Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.”

P.S.:
Fica a cargo do eleitor, advinhar qual candidato (ou candidatos) à presidência da república, tem na alma, a intenção que o texto maravilhosamente revela.

Guarabira, 05 de outubro de 2014

Site da Imagem: tribunadaimprensaonline

18 setembro 2014

Raízes do Preconceito




É a partir da infância, que sentimentos de aversão ao outro são introjetados na psique. Esses primeiros afetos vão definir a personalidade, o mundo de sensações e relações do indivíduo em seu desenvolvimento.

 Na minha época de aluno do curso primário, lembro-me bem de um dos alertas que as mães, pais e professoras davam regularmente: “tenham cuidado, não brinquem com os moleques de rua!” ― os marginalizados, como hoje são definidos. Tempo em que os mestres e tutores repeliam com rigidez tudo que pudesse colocar em risco a integridade psíquica dos educandos. A escola funcionava como um filtro de depuração da “impureza” e maldade presumivelmente existentes nos encarcerados, desempregados e deseducados (sempre os lá de fora). Era na hora do recreio da escola que nos soltávamos e dizíamos rindo aos borbotões: “se a professora soubesse do que estamos aqui a tratar e falar, nos expulsava”.

Fomos educados (treinados) e amansados por um sistema rigoroso, uma moenda que recalcava os desejos e afetos considerados tabus. Só restava um caminho para sobreviver sem muito atropelo: nos identificarmos com a postura de nossos mestres pais e tutores.

Não percebemos que padrões construídos na infância, e que hoje mal nos lembramos, deixaram suas ressonâncias na idade adulta. Sutilmente, essas sementes plantadas na tenra idade criaram raízes. Hoje, nem notamos, mas a seiva absorvida através das raízes continua correndo em nossas veias, agindo em nós, e em nossa vida de relação. Tal qual o nosso sistema imunológico, sentimos a febre, mas nem percebemos que este sintoma é produzido por anticorpos que na tenra idade se formam para reagir contra “corpos estranhos” que invadem ou ameaçam o nosso organismo.

Como crianças, assimilamos o padrão comportamental de nossos ancestrais, que com um pudor exagerado e recalques em relação à sexualidade, detinham um suposto “poder” e uma suposta “verdade”. E assim, fomos apreendendo comportamentos defensivos contra nossos próprios desejos. Desejos esses, que os nossos mestres, pais, pastores e padres consideravam indecentes, perversos ou coisa do diabo. Aprendemos que expor certos sentimentos era extremamente perigoso. Para sobreviver, fomos, aos poucos, aprendendo recalcar ou negar afetos ―, emoções puras e fisiológicas da idade.

Padrões de comportamentos foram forjados na infância a partir de sentimentos reprimidos. Desejos foram sepultados dentro de nós, pois, se viessem à tona perante nossos superiores, nos causariam extrema decepção.

Como raízes solidamente fincadas sob camadas de argila, assim era o nosso indevassável baú de segredos nos primeiros anos de escola. Quando uma ponta de anseios considerados “maus” emergia, nos sentíamos constrangidos ou demasiadamente envergonhados.

Para esconder ou recalcar os desejos, considerados ilícitos, criamos máscaras. O grande perigo residia em nos confundirmos demais com essas máscaras que, com o passar do tempo, podiam colar-se aos nossos rostos, dando a impressão de ser a continuidade da nossa própria pele.

Quem não se lembra dos termos, imbecil, idiota e burro, frequentemente brandidos por nossos educadores? Hoje, adultos, apesar de entendermos a razão dessas pulsões ou impulsos, percebemos ainda baterem à nossa porta, os efeitos dos afetos repudiados lá no início de nossa formação.

Como tudo se cria  a partir do que já se tem, fundamos uma nova versão de quem já fomos. Um dos efeitos colaterais decorrentes dessa operação é fatalmente o fenômeno da projeção: o mascarado é sempre o outro; o intolerante ou preconceituoso é sempre o outro.

O poeta e escritor americano, Robert Bly, diz algo emblemático sobre esse melindroso tema: 

...os aspectos sombrios é como um saco invisível que carregamos nas costas. À medida que crescemos, colocamos no saco todos os aspectos de nós mesmos que não são aceitáveis para nossos familiares e amigos.” Diz ele ainda: “acredito que passamos as primeiras décadas da vida enchendo esse saco, depois, passamos o restante tentando tirar tudo que escondemos”.

Mas será que, como adultos, retiramos tudo que escondíamos dentro do velho baú? Ou na tentativa de se ver livre desses resíduos, os jogamos inconscientemente no saco do outro?

Os arqueólogos, escavadores da psique dizem que o preconceito está a serviço do Eu narcísico: Tudo funciona como a imagem do outro (o diferente), estivesse sempre ameaçando o espaço de Narciso.

Uma genial estrofe de SAMPA, de Caetano Veloso, diz muito sobre a nossa eterna procura por um Eu ideal. O verso poético desse grande compositor da MPB parece trazer à superfície fragmentos que estavam enterrados firmemente no subsolo mental. É escavacando minuciosamente esses restos radiculares que iremos, com certeza, encontrar resquícios da seiva do preconceito de achar que é feio tudo aquilo que não reflete a nossa imagem no espelho:


“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes”.




Por Levi B. Santos

Guarabira, 18 de setembro de 2014

08 setembro 2014

BANALIDADE DO MAL em Tempos Sombrios ― Uma Reflexão



  Diante de um mar de putrefação e sórdidos procedimentos que enlameiam a nossa república, reduzindo àqueles que deveriam zelar pelo bem público à meras peças de uma máquina  articuladora da improbidade e do enriquecimento ilícito, resolvi trazer à tona um ensaio da filósofa Márcia Tiburi, publicado na revista CULT  N° 183.

Os numerosos casos de desmoralização que atualmente têm se intensificado no governo, no Congresso e em nossas principais instituições, instigou-me a colocar em destaque, logo no início, o epílogo do texto da filósofa. Faço isso com o intuito de debruçarmos mais sobre o “porquê” da corrupção ter se tornado uma coisa normal ou banal em nosso país, representada pelo freqüente  “toma lá dá cá” entre a esfera pública e a privada.

“Em um país como o Brasil, em que a banalidade do mal realiza-se na corrupção autorizada, na homofobia, no consumismo e no assassinato de todos aqueles que não têm poder, seja Amarildo de Souza, seja Celso Rodrigues Guarani–Kaiowá, uma parada para pensar pode significar o bom começo de um crime a menos na sociedade e no Estado transformados em máquina mortífera”. [Epílogo do Ensaio da filósofa Márcia Tiburi à revista CULT]

  Hannah Arendt






“Hannah Arendt, filósofa que dá nome ao filme de Margarethe von Trotta, é autora de uma das obras filósoficas mais importantes do século 20. A diretora opta por retratar a filósofa como uma pessoa comum, a professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Fixa o enredo do filme no período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Tenta mostrar o que se passava com a filósofa, o cenário que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo. O motivo era a análise desmistificatória de Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se desse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual à tanta gente, causou mal estar.

Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa quanto crítica relativa à “banalidade do mal”. Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que realmente se passava com a subjetividade de um homem como Eichmann.

Arendt não tomava sua condição de judia como superior à sua posição como pensadora comprometida com a compreensão de seu tempo. A condição judaica era, para ela, condição humana. Não menos, não mais. O problema da subjetividade, das escolhas éticas que implicam liberdade e responsabilidade, era a questão central no momento em que se tratava de pensar e realizar a política.

A performatividade da tese

No filme, fica claro que aqueles que se manifestaram furiosos ou ofendidos contra a tese de Arendt de fato não a compreenderam. Isso porque a tese da banalidade do mal é uma tese difícil, não por sua lógica, mas por seu caráter performativo. Aquele que é confrontado com ela precisa fazer um exame de sua consciência particular em relação ao geral e, portanto, de seus atos enquanto participante da condição humana. A banalidade do mal significa que o mal não é praticado como atitude deliberadamente maligna.  O praticante do mal banal é o ser humano comum,  aquele que ao receber ordens não se responsabiliza pelo que faz, não reflete, não pensa. Eichmann foi caracterizado por Arendt como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”, como um imbecil que não pensava, que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência. Heidegger, o filósofo nazista que diz ter se arrependido de aderir ao regime, era, no entanto, um gênio da filosofia e, contudo, não era diferente de Eichmann.

Aterrador, no entanto, é que entre Eichmann, o imbecil, e Heidegger, o gênio, esteja o ser humano comum. Eichmann não era diferente de qualquer pessoa, era um simples burocrata que recebia ordens e que punha em funcionamento a “máquina” do sistema, do mesmo modo que cada um de nós pode fazê-lo a cada momento em que, liberado da reflexão que une, em nossa capacidade de discernimento e julgamento, a teoria e a prática, seguimos as “tendências dominantes” como escravos livres, contudo, de si mesmos.  Sair da banalidade do mal é fazer a opção ética e responsável na contramão da tendência à destruição que convida constantemente cada um a aderir.

A banalidade do mal é, portanto, uma característica de uma cultura carente de pensamento crítico, em que qualquer um – seja judeu, cristão, alemão, brasileiro, mulher, homem, não importa – pode exercer a negação do outro e de si mesmo”.