Na
França, Luis XIV, apelidado de “Rei Sol” cunhou a célebre frase: “O Estado Sou Eu”, que resumia bem o
poder absoluto que encarnava em seu tempo (1638 ― 1715).
É
em época de eleições que postulantes a governo dos estados e da presidência do
Brasil revestem-se da onipotência presente em Luis XIV. De lá para cá,
o espírito que movia o venerado rei Francês, virou uma obsessão irremediável,
particularmente, desde os tempos imemoriais da forçada “proclamação da República”
pelo marechal Deodoro da Fonseca.
Como
é do conhecimento de todos, o Estado Brasileiro se imiscui em todas as áreas de
nossa vida, instituindo normas, regras e métodos sobre como viver e se
comportar de acordo com o que pensa ser bom e politicamente correto para si.
O
Estado, na falsa ilusão de fornecer proteção à população, chega a se meter onde
não devia: tentando regulamentar até os hábitos ou preferências do indivíduo.
Quando muitos, hoje (dia 05), são obrigados a sufragar nas urnas nomes que mal
conhecem para reger seus destinos, nada melhor que ler a última crônica que
João Ubaldo fez antes de partir dessa para outra.
A
genial crônica desse fenomenal romancista tem por título, “O Correto Uso do Papel Higiênico”. Deixo-a abaixo transcrita para a
reflexão do sofrido e idealista eleitor brasileiro que, neste domingo(dia 05),
sai da tranqüilidade de sua casa para, segundo as leis do país, exercer seu
suposto direito de cidadania:
"O correto uso do papel higiênico"
Última crônica escrita pelo imortal
da Academia de Letras, João Ubaldo (1941 ― 2014), publicada no jornal “O Globo” em 18 de julho de 2014:
“O título acima é meio enganoso,
porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o
leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive
pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por
iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam
baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que
estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a
coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do
rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico
comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício
geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais
árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o
papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas,
segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.
Tudo simples, como em todas as
medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos
rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos
banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de
monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros
domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a
instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias
(milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por
escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal,
colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou
enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para
um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia
mesmo.
Agora me contam que, não sei se em
algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de
gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula
o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes
e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros
adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e
desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados,
apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou
hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com
restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns
radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em
todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias
advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como
fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas
excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno
é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos
parar.
Ainda é cedo para avaliar a chamada
lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se
tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no
filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado
a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em
seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue
aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai
cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por
profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um
cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se
mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é
indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma —
chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas
vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não
terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo
e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira
desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a
criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
Sei que esta descrição do
funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve
ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito
desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável
e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente
estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias,
policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma
risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria
social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será
clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido
com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos
até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto
especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos
discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não
mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o
indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto,
não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar
se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de
seus direitos de cama, precatem-se.”
P.S.:
Fica a
cargo do eleitor, advinhar qual candidato (ou candidatos) à presidência da
república, tem na alma, a intenção que o texto maravilhosamente revela.