26 abril 2012

A ARTE DE CRIAR “FACTOIDES”




Por Levi B. Santos



Foi o escritor norte americano, Norman Kingsley Mailer, que em 1973 criou o termo “factoide”. Ele definiu factoides como fatos que inexistiam antes de aparecerem em uma revista ou periódico ― destinado a manipular a emoção da Maioria Silenciosa (Fonte – Aulete).  Este termo já foi bem absorvido pela nossa cultura tupiniquim, e serve, na maioria das vezes, aos que estão entronizados no poder.

O grande factoide do momento se chama “Cachoeira” e, às vésperas do que já se denominou o “Julgamento do Século” (O Mensalão), como  poderosíssima força de uma gigante cachoeira, vem com o propósito nobre e “sublime” de provar que todos são “farinha do mesmo saco”.

Numa briga encarniçada, esta semana, engalfinharam-se os representantes maiores de nossa republiqueta e seus fiéis vassalos petistas, para ver quem seria o alçado ao posto maior da investigação do faz de conta. O indicado para RELATOR foi o Odair Cunha do PT de Minas, que já deu o seu primeiro pontapé na bola, ao dizer: “O Carlinhos, suposto líder de um esquema de exploração do jogo ilegal, e pivô das “investigações”, só será ouvido pelos paralamentares da CPI mista, no momento adequado. (Fonte: site TERRA)

O criador do factoide do “Grande Circo Brasileiro” do momento, já disse a que veio, ao dar o seu tom maquiavélico, na voz do próprio relator, dando a entender que ela não chegará ao andar de cima. (rsrs)

Enfim, a CPI de Cachoeira começou esta semana, e a nós da platéia, só resta sentar em nossas poltronas ao lado de uma tigela de pipocas para assistir a mais um episódio de um filme interminável a que um dia deram o nome de “gigante pela própria natureza” que, no fundo no fundo, desde a sua “afundação” tem se transformado na “Casa da Mãe Joana”, onde todos se locupletam e fazem o que querem ao seu bel prazer.


Site da Imagem:  verdadebancoop.wordpress.com
Assista agora, caro leitor e amigo, a este sensacional vídeo –, o primeiro da nossa mais recente Novela do Horário Nobre: “O Factoide  Cachoeira” -  Elaborado pela Turma do "CQC"


11 abril 2012

O “Jardim da Infância” do Brasil — Ou o “Eterno Retorno”.




Esta semana dediquei-me a leitura de um livro espetacular de Eduardo Bueno — “A Coroa, a Cruz e a Espada” — que trata da chegada do nosso primeiro governador Geral às terras do “Pau Brasil”. A narrativa agradável saída da pena desse finíssimo escritor, me fez mergulhar no “jardim da infância” da nossa nação de 450 anos atrás.

Durante a leitura dessa obra, às vezes, tinha a nítida sensação de estar lendo a revista Veja ou a Folha de São Paulo com suas manchetes chamativas sobre  nepotismo, clientelismo e corrupção generalizada em todos os setores de nossa vida pública atual.

Mas vamos voltar no tempo, o tempo da nomeação do nosso primeiro governador Geral, pelo rei de Portugal — D. João III.

Mas não é que o nobre Tomé de Souza, só aceitou o cargo de Governador Geral da Colônia oferecido por dom João III, quando embolsou dozes meses de salários adiantados (400 mil reais). Tomé de Souza, em meados do século XVI, era lembrado na corte pelas suas coleções de frase célebres, publicadas no livro, “Ditos Portugueses Dignos de Memória”. “Todo Homem é Fraco e Ladrão”, é uma das frases célebres registradas por ele nesse livro.

Em 1549 uma trupe de corruptos e degredados zarpou de Portugal rumo às nossas terras: autoridades fiscais, ministros da fazenda, desembargadores, juízes, ouvidores, escrivães, almoxarifes, burocratas e o primeiro bispo do Brasil — Pero Fernandes Sardinha, que mais tarde provocaria uma onda de indignação na colônia ao perdoar os pecados dos fiéis em troca de dinheiro.
Eduardo Bueno, que pesquisou mais de 300 obras históricas, narra em detalhes,  a infância do nosso país, nascido em um “berço esplêndido” de corrupção e malversação do tesouro público.

Qualquer leitor desavisado que abrir esse livro a partir da página 64, com certeza, pensará que ele está descrevendo as bandalheiras que ocorrem nos tempos atuais na Capital da República. Passados quase quinhentos anos,  o que se vê no império petista, infelizmente, nada mais são que reprises de fatos como estes, que o autor brilhantemente, aqui, expõe em seu emblemático livro:

Pero Borges que foi nomeado ouvidor-geral pelo rei de Portugal, cargo que pode ser comparado, hoje, ao de ministro da justiça não tinha a ficha limpa, mas mesmo assim, foi promovido a desembargador, como prêmio para ajeitar a Colônia que vivia um caos com suas Capitanias hereditárias.  Em 1543, Borges, quando ocupava o cargo de corregedor da justiça em Elvas, no Alentejo, próximo a fronteira com a Espanha foi encarregado pelo monarca para supervisionar a construção de um aqueduto. As verbas se esgotaram sem que a obra estivesse pronta[...]. [...]Ante o clamor do povo, D. João III autorizou a abertura de um inquérito. As investigações comprovaram que Pero Borges desviara 114.064 reais — o equivalente a um ano de seu salário, como corregedor”.

Depois de quase meio século da chegada do primeiro governador geral, o nosso país tornou-se “adulto” (ou adúltero?). Hoje é a sexta economia do mundo e tem o maior programa eleitoral de distribuição de renda aos pobres e marginalizados — o bolsa família, criado pela turma do PT que ainda planeja se eternizar no poder, assaltando os cofres públicos com métodos cada vez mais sofisticados.

Olhando para trás, para a tenra infância desse “gigante adormecido”, não há como deixar de perceber que a figura do velho Pero Borges, parceiro do D. João III, se multiplicou e sobreviveu até os dias de hoje.

Os parceiros do Rei da atualidade, como nos velhos tempos, não dormitam; estão em plena atividade para reaver os seus poderes. Ávidos por verbas e enriquecimento ilícito, eles, com o beneplácito do Rei Lulla, tramam à la Pero Borges, se saírem de forma heróica e gloriosa do que denominam de perseguição  das elites pela imprensa. O Rei já saiu em defesa dos seus mensaleiros dizendo em alto e bom som: “Esse tal de mensalão nunca existiu”.

Incrível, como o passado longínquo da velha colônia portuguesa está tão perto de nós! — é o eterno retorno de que fala Nietzsche, senão vejamos o que diz o escritor Eduardo Bueno nesse parágrafo, sobre a infância de nossa "pátria mãe gentil”, nos idos de 1550:

“A Instituição, ainda assim, mantinha uma estrutura bastante simples: era composta apenas por um presidente, seis desembargadores, um porteiro, sete escrivães e um tesoureiro. Todas as sextas-feiras à tarde esses homens se reuniam com o Rei para discutir a formulação e a correção das leis, a designação de novos magistrados e condição política e legal do reino. Os encontros se davam  na Casa de Despacho dos Desembargadores do Paço, logo chamada de “casinha”.

“Nada mudou no Quartel d’Abrantes”, ou seja, pouca coisa mudou: o congresso brasileiro não funciona nas sestas-feiras.  Só até as quintas-feiras é que a trupe pode se reunir.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 11 de abril de 2012


Site da imagem:  joelbueno.blog.uol.com.br

31 março 2012

Por Que Esse “Cale-se” (ou cálice)?!


Por Levi B. Santos


“Quem vê o Filho vê o Pai” ―  quantas vezes ouvi essa frase!
Tu eras forte, e eu brincando, te imitava em tudo.
A nossa intimidade era tanta, 
A ponto de na tua poltrona bela e aconchegante
 Sentir-me como uma extensão de ti.
De uma lúgubre noite, lembro-me bem,
Em que choraminguei bastante
Quando me disseste, que a dureza da vida, teria de enfrentar
Sozinho, cambaleando sem o auxílio de tuas mãos.
Hoje, precisava estar tão perto de ti.
Mas pareces nem notar a minha aflição.
Estou confuso. Da última vez que quis fraquejar,
Tremi diante de tua sentença:
“Você não é mais criança, faça o que bem entender!”
Nenhuma palavra de ânimo, nenhuma ajuda.
Deixaste-me face a face com o meu fardo.
Fizeste silêncio quando mais te queria ouvir
Ah, já sei!.  Um raio de lucidez aportou em mim:
Seria penoso demais para ti, olhar o meu mísero estado.
Seria demais para um pai poderoso
Ter que humilhar-se na pele de um filho escarnecido.
Será por isso que te escondes de mim?
Nunca me senti tão fraco, tão esvaziado e deprimido.
De ti não esperava o agora.
E como uma criança frágil e desamparada,
Temendo que a luz se apague,
Caminho sem nunca chegar ao ponto de onde parti.
Meus projetos e sonhos como bolhas, explodiram no ar.
Por que fui abandonado? Por quê?
És implacável e forte! Tua vontade sempre prevalece
Ao não ter que me dar respostas.


 “Enquanto ele clamava  para que o Pai não o abandonasse, a Mãe estava ao seus pés”  (Mariani Lima)



 Site da Imagem: reencontros-dinamc.blogspot.com

28 março 2012

Sem Millôr, Meu Mundo Ficou Menor




Morreu hoje, Millôr Fernandes, o patrono dos cartunistas brasileiros que fazia a minha alegria e a de muitos na década de cinqüenta.

Era um meninote iniciante na arte da leitura. Com 13 anos de idade freqüentava a casa de uns amigos, cujos pais tinham melhores condições financeiras que os meus, para me deleitar com a leitura das seções da revista O Cruzeiro” ― o único semanário a circular por todo o país,  nessa época (anos 50), inclusive aqui nos cafundós do brejo da Paraíba.

As seções dessa revista que despertavam mais a minha curiosidade eram a do “Amigo da Onça” – de Péricles, a “Reportagem Que não Foi Escrita ― de Mario Mascarenhas, a “Última Página “ ― de Rachel de Queiroz e o “Pif Paf” ― de Millor Fernandes.

No teatro ele foi um exímio na arte de divertir. Em1972, ano em que fazia residência médica no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de assistir a uma de suas peças mais aplaudidas pelo público ― “Computa, Computador, Computa”.

Nas minhas andanças pelas livrarias e sebos sempre gostava de entrar em contato com as pérolas de seu vasto repertório humorístico. Recentemente tive o prazer de reler algumas obras clássicas de Molière e Shakespeare, popularizadas em edições de bolso, em que ele foi o tradutor.

Essa foi a segunda grande perda, em menos de uma semana, de monstros sagrados que fizeram a alegria do país no campo da comédia e do humor.


Guarabira, 27 de março de 2012
Site da imagem: veja.abril.com.br

23 março 2012

Chico Se Foi ― O País Ficou Mais Triste



 Morreu hoje à tarde o maior humorista do Brasil, Chico Anysio, prestes a completar 81 anos de idade.

No ano de 1972, eu fazia residência médica no Hospital Souza Aguiar – Rio de Janeiro – Estado da Guanabara e, lembro-me bem, costumava não perder os seus sensacionais programas: Chico City” e “Chico Anysio Show”.

Os brasileiros estão órfãos do famoso criador de mais de duzentos personagens que nos fez rir por cerca de quarenta anos.

Já bastante debilitado, há alguns meses, conseguiu reunir forças para participar daquele que seria seu último programa. Essa apresentação na TV ocorreu em abril de 2011, quando com voz rouca e embargada, reeditou a velha Salomé, entrevistando a presidente Dilma por telefone.

O vídeo imperdível de sua última aparição na TV, encarnando a SALOMÉ, o internauta e amigo(a) pode conferir, abaixo:




Guarabira, 23 de março de 2012

Site da imagem:  uol.com.br

12 março 2012

NO TEMPO DAS SERESTAS






 Casas fechadas, ruas desertas
La vem  o seresteiro dolente
Sempre nas noites de sábado
Sob um céu de lua reluzente
A dedilhar o seu saudoso pinho
Remexendo o coração da gente


Da modinha melancólica
Guardo doce recordação
Dentre as muitas cantigas
Uma chamava a atenção
A ‘Casinha Pequenina’
Que a ouvia com emoção.


Nas serestas imaginárias
Hoje eu escuto essa canção
Na voz inconfundível e doce
Da saudosa Nara Leão
Que há setenta nos deixou
Órfãos do seu vozeirão.


A Casinha Pequenina ― modinha de 1906, de autor desconhecido, era uma das mais cantadas por trovadores nas noites nostálgicas de minha adolescência. Foi gravada, originariamente, pelo grande intérprete e seresteiro carioca, Sílvio Caldas.

Nara Leão (1942 ― 1989) estaria completando setenta anos de idade nesse começo de ano. A Musa da Bossa Nova, como era chamada por amigos e fãs fieis possuía também uma alma seresteira. No vídeo abaixo, a sua voz meiga e serena, acompanhada de um plangente violão, nos traz de volta a magia encantadora dos saudosos Tempos das Serestas.



Por Levi B.Santos
Guarabira, 12 de março de 2012


https://www.google.com/search?q=A+casinha+pequenina+-+nara+le%C3%A3o&oq=A+casinha+pequenina+-+nara+le%C3%A3o&aqs=chrome..69i57j69i64.16123j0j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8

08 março 2012

Confissões de um Bibliófilo



Esta semana conferi o curta-metragem que recebeu o Oscar 2012 de animação ― “Os Fantásticos Livros Voadores do Sr.Morris Lessmore”. Trata-se de uma aventura silenciosa ― um libelo ao livro impresso, em que um solitário e triste homem se vê, repentinamente, envolvido num turbilhão de livros voando ao seu redor. As folhas e letras dos livros são arrancadas pela força avassaladora do furacão —, uma crítica ao mundo da leitura digital. Entre os livros há um que não consegue alçar voo, e volta sempre à mão do seu dono. Tudo, acompanhado por uma bela e envolvente trilha sonora.

O filme animado teve o condão de evocar os velhos tempos em que o transtorno obsessivo por livros se apossou de mim. E lá se vão 49 anos, quando dentro de um banco de feira em que minha mãe comercializava confecções, fazia as minhas primeiras incursões pelo mundo da leitura. Lia com júbilo incomum artigos de Raquel de Queiroz, David Nasser e Mário de Moraes que eram publicados nos semanários “O Cruzeiro”, e “Manchete”. As folhas das revistas que iriam servir de papel de embrulho para as confecções que eram vendidas no meio da Feira, antes de ser usadas para essa finalidade, eu, cuidadosamente, recortava todos os ensaios que achava atraentes, para guardá-los num caixote secreto em casa, naquilo que se tornou a minha primeira biblioteca.

Lembro-me, também, dos dois primeiros livros que li com sofreguidão na minha adolescência: “A Ilha do Tesouro” de R. L. Stevenson, e “Os Miseráveis” de Vitor Hugo. De lá para cá, não tenho passado um mês sequer sem a companhia desse amigo silencioso — o Livro.

Tinha e ainda tenho a mania de cheirar as folhas macias dos livros novos, à medida que devoro com os olhos o conteúdo literário. Foi por isso que recebi dos meus colegas de ginásio o apelido de “cheira-cheira”. Aliás, duvido muito que exista algum bibliófilo que não tenha esse vício. O meu filho mais velho tem a mesma mania de gostar do aroma que exala das páginas de um livro novo.

Lembro-me de quando o dinheiro era pouco eu corria aos sebos para adquirir livros usados. Ficava meio triste porque eles não me permitiam o prazer das cheiradas que dava nos livros saídos do prelo com suas folhas estalando de novinhas. Sabe como é, os livros usados, além do visual feio de suas páginas ásperas e encardidas, exalam odor de mofo, tendo que se ler de longe, a fim de evitar espirros e irritação nas narinas.

Grande parte do meu tempo, o monstruoso mundo digital tem me tomado, sem que consiga fazer-me substituir o livro real pelo virtual (os e-books). Se depender de mim as livrarias continuarão, por muito tempo, como salões templários da magia e do poder cativante dos livros.

A leitura através da telinha de um computador, ou de um Tablet, até agora, não tem me dado o mesmo prazer de um bom livro lido em uma rede ou espreguiçadeira. Sou blogueiro há cinco anos e não consegui ainda ler um livro on line ―, provoca-me náuseas. Para mim, a leitura virtual é como uma comida sem tempero, insípida e inodora.

Para deleite dos portadores de Transtorno Obsessivo Crônico (TOC) por livros, que não se renderam aos e-books, trago o vídeo de imperdíveis 15 minutos do ganhador do Oscar de animação 2012 — Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore:





   Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de março de 2012

02 março 2012

Jerusalém Virou a Disney de Jesus




Estamos às vésperas da semana santa. As empresas de turismo religioso carregam nos seus marketings: “reserve hoje, como sem falta, sua passagem para Israel. Decida-se rápido”. Como diz a letra proselitista do hino cristão pentecostal: “...não deixe para amanhã, hoje Cristo te quer libertar”.

As agências de viagem do comércio gospel anunciam freneticamente: “Visite os lugares sagrados e volte de lá revigorado”. Em outras palavras, vá ao paraíso para depois voltar ao inferno que é o batente cotidiano pela sobrevivência aqui nas terras de dom João VI, Lula, Dilma e Sarney. (rsrs)

E por falar no eletrizante frenesi de gente de todas as nações do mundo que vão tomar literalmente as ruas de Jerusalém na época da páscoa, não poderia deixar de lado um ensaio emblemático (janeiro de 2010), de Luiz Felipe Pondé, psicanalista, filósofo da PUC e Colunista da Folha de São Paulo. Como ele retrata de maneira leve e bem humorada as procissões idólatras das “terras sagradas”.

O internauta que resolveu não fazer esse tipo de turismo religioso na semana santa, pelo amor de Deus, não deixe de conferir esse imperdível ensaio tirado da pena cômico-satírica do fenomenal Luiz Felipe Pondé:

A Disneylândia de JESUS

"O mundo acabou. Não viaje. Assista a filmes em casa ou vá para cidades sem graça no interior. O mundo foi tomado por um tipo de praga que não tem solução: os gafanhotos de sucesso da indústria do turismo.

O horror começa nos aeroportos, que, graças ao terrorismo fundamentalista islâmico, ficaram ainda piores com seus sistemas de seguranças infernais. Esse mesmo terrorismo fundamentalista que faz as “cheeleaders” dos movimentos sociais sentirem “frisson” de prazer na espinha.

Uma grande figura do mercado de análise do comportamento me disse que, em poucos anos, só os pobres (de espírito?) viajarão.
Tenho mais certeza disso do que da aritmética de 2 + 2 = 4.

Aeroportos serão o último lugar onde você vai querer ser visto. Gostar de viajar pode ser um forte indício de que você não tem muita imaginação ou opção de vida.

Veja, por exemplo, o que aconteceu com os lugares sagrados de Jerusalém. Aquilo virou uma DISNEYLÂNDIA de JESUS. Imagino que, dentro de alguns anos, teremos atores fracassados do terceiro mundo vestidos de Judas-patetas, Maria-Branca de Neve, Tio Pôncio-Patinhas, Pedro-Duck, e claro, Mickey-Jesus-Mouse.

Locais religiosos sempre atraíram todo tipo de histeria. A proximidade com ela pode fazer você duvidar da existência de Deus.
Ateus são fichinha em comparação à histeria religiosa como argumento contra a viabilidade de um Deus bom e generoso. Nesse caso, a náusea faz de você um ateu.

Às vezes, tristemente, a diferença entre visitas belas a locais sagrados parece ser apenas o número maior ou menor de nossos semelhantes crentes em Deus.
Ou, dito de outra forma, o inferno é o lugar onde tem muita gente em surto místico.

Jesus deve ter uma paciência de Jó, com seus fiéis cheios de máquinas digitais e filmadoras chinesas querendo devassar a intimidade de sua mãe e de seus discípulos mortos já há tantos séculos.
Aliás, estou seguro de que, em breve JESUS será “made in China”. Se assim acontecer terão razão aqueles que afirmavam ter sido ele um messias “fake”?

Pessoalmente, torço para que Jesus sobreviva a essa nova “paixão”, por obra da qual ressuscitar deverá ser algo como um show de efeitos especiais feito por computação gráfica barata. Os fiéis pós-modernos deram um novo significado à expressão nietzschiana “Deus está morto”. Nesse caso Deus virou batata chips de free shop.

No início dos anos noventa, ainda era possível ir à Catedral de Córdoba, na Espanha, e experimentar sua beleza moura. Já em meados do ano 2000, ela era um terreno baldio para as invasões de gafanhotos.
Hoje estive (escrevo dias antes de você ler esta coluna) na Igreja da Agonia, em Jerusalém, conhecida também como igreja de Gethsêmani, local onde Jesus teria suado sangue antes de ser preso. Um belíssimo local.

Em seguida, alguns passos descendo a ladeira do monte das Oliveiras, fui a outro local maravilhoso que não vou dizer qual é porque espero que ninguém fique sabendo; assim, quem sabe, esse lugar ainda durará algum tempo, antes de virar mais um Hopi Hari de Jesus com seu ruído de famílias de classe média em excursões místicas.

É importante dizer que já fui a esses locais inúmeras vezes e que, portanto, tive o desprazer de ver Jerusalém virar uma cidade devastada pela horda de tarados com máquinas digitais e filmadoras chinesas. Além de suas camisetas com slogans pela paz mundial.

Depois da destruição de Jerusalém pelos romanos por volta do ano 70 d.C., vemos agora a infestação da cidade santa pelos histéricos pentecostais e seus berros em nome do Espírito Santo.

Além, é claro, dos judeus ortodoxos obsessivos mal-educados e dos muçulmanos fanáticos, com seu grito bárbaro “Allah Akbar” (Deus é grande). A população secular de Jerusalém é cada vez mais oprimida pelos homens de preto da ortodoxia judaica.

Alguns desses são mesmo contra o Estado de Israel, porque só o Messias pode reconstruir o “verdadeiro Estado judeu”. Acho que deveriam ser todos despachados para o Irã. Enfim, um filme de horror estrelado por fanáticos, batatas e patetas.

Aeroportos, aviões, hotéis e museus parecem liquidações de lojas".

(Luiz Felipe Pondé ― via Paulopes.com.br)

Guarabira, 02 de março de 2012


Site da imagem: Paulopes.com.br

22 fevereiro 2012

Do Gnosticismo à Psicanálise Junguiana ― Um Percurso





No intuito de demonstrar a íntima relação entre as ideias gnósticas dos primeiros cristãos e a psicologia, recorro ao teólogo e estudioso da psicanálise, Carl Gustav Jung que, corajosamente, analisou as expressões religiosas, não pelo lado da fé, mas pelo seu conteúdo arquetípico.

O introspectivo Jung era filho de um Pastor protestante, e, quando criança diz ter experimentado “Deus” como um irresistível desejo atuando dentro de si. Sentiu todo o impacto da imago paterna atemorizante e poderosa em seus sonhos. Mais tarde, como estudioso da alma humana, veio a romper com Freud, seu melhor amigo, para decididamente, explorar as camadas profundas do inconsciente num campo em que o pai da psicanálise mais temia ―, o das religiões.

Certa vez, respondendo aos que o criticavam por violar os atributos de Deus, Jung, assim respondeu: “Não pretendo de modo algum discutir a existência de Deus, mas permito-me por as afirmações humanas sob uma lente. Estou inteiramente ciente de que nenhuma de minhas reflexões toca o Incognoscível”

Sobre a aproximação dos conceitos gnósticos com a psicologia, a historiadora das religiões, Elaine Pagels, em seu livro ― “Os Evangelhos Gnósticos” — Editora Objetiva, afirma: “a Psicoterapia e o Gnosticismo têm em comum, a fascinação pelo significado não-literal da linguagem”. Diz ainda a autora: “o evangelho de João encontra-se impregnado pelo pensamento gnóstico. Há uma afinidade indiscutível do “Prólogo” do Quarto evangelho com a gnose, no tratamento que ele dá aos temas: luz/trevas, novo nascimento, definição de “vida eterna pelo conceito de conhecimento”.

“A Treva não está na matéria nem na carne, ela provém da rejeição pelo ser humano da verdade que o deve vivificar”, observouLeon Dufour, no seu livro ― “Leitura do Evangelho Segundo João IV” (página 230)

Os Gnósticos, em sua maior parte, viveram nos primeiros séculos da Era Cristã. Aliás, foram os cristãos e os judeus ortodoxos, e não eles, que criaram esse termo conceitual para denominá-los.

O “Evangelho da Verdade” ou Gnose Kardias (conhecimento do coração) tem conceitos comuns à psicanálise. Os gnósticos que o escreveram podem ser considerados como os primeiros profissionais da psicologia profunda, pois em sua concepção visavam mais uma transformação interior do indivíduo. Na gnose há um desejo de fusão com o ser original ou primevo e, de certa forma, se faz sentir a presença de um sentimento nostálgico de se alcançar a unidade com o absoluto.

Stephan A. Hoeller, em seu livro, “A Gnose de Jung” (página 46) cita algo interessante, relativo ao pensamento gnóstico:
“O conhecimento do coração, em favor do qual os gnósticos se empenhavam não podia ser adquirido por meio de uma barganha com Jeová, através de um tratado ou aliança que garantisse bem estar espiritual e físico ao homem, em troca do cumprimento servil de um conjunto de regras [...]. [...] Também não negaram a importância da missão do personagem misterioso, que era conhecido pelos homens como o rabino Joshua de Nazaré. A Lei e o Salvador, os dois mais reverenciados conceitos de judeus e cristãos tornaram para os gnósticos apenas meios para um fim maior que esses mesmos conceitos. As suas dúvidas relativas à encarnação física de Jesus e sua reinterpretação da ressurreição enfureciam os judeus e cristãos ortodoxos, assim como, os muçulmanos e os budistas”.

C. G. Jung, tinha uma profunda simpatia pelo gnosticismo, por ver nele, não um conjunto de doutrinas, mas a expressão mitológica de uma experiência interior. Os gnósticos foram pioneiros em trazer uma profusão de significativo material, onde se podia colher profundas percepções da estrutura da psique, do conteúdo inconsciente coletivo. Foi estudando incansavelmente as expressões míticas dos gnósticos que Jung formulou a teoria dos arquétipos. Para ele, os arquétipos existem tanto na luz como nas sombras da mente. No mundo da luz, encontram-se deuses e deusas de inquestionável numinosidade e indescritível sabedoria e beleza, enquanto que nas trevas habitam os monstros demoníacos nutridos pelas sombras da personalidade humana. Tudo em consonância com o que diz o Evangelho de Filipe: “A verdade não veio nua ao mundo, mas em modelos e nas imagens”.

Há quem diga que Jung era um gnóstico, justamente por ele considerar que a bondade e a obediência às leis morais não eram requisitos substitutivos para se chegar à plenitude do ser. Sobre esse ponto, diz ainda Stephan Hoeller (Gnose de Jung, página 82): A psicologia gnóstica sempre admitiu que a divisão artificial ou a fragmentação da plenitude do ser entre o bem e o mal consistia numa armadilha das forças tirânicas empenhadas em manter a humanidade acorrentada. Dividindo a vida em metades separadas e ordenando ao ser humano que aderisse a uma dessas metades, com exclusão da outra, o poder demiúrgico levou a humanidade a cometer violência contra o lado sombrio da alma, e induziu-a a autocondenar-se a um estado de fragmentação e de culpa”.

No Livro “Eclipse de Deus”, de Martin Buber (página 129), há um diálogo entre ele e Jung, em que o último faz a seguinte declaração: “Por causa do caráter terrivelmente paradoxal de nossa existência, é compreensível que o inconsciente também contenha uma imagem paradoxal de Deus, que não se harmoniza bem com a sublimidade e pureza do conceito dogmático de Deus”.

Mas sobre essa afirmação aparentemente ambígua de Jung, existe uma formulação análoga, que se encontra registrada no Evangelho Gnóstico de Filipe, senão vejamos:

“Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons e nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Assim é que cada um se dissolverá em sua origem primordial”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de fevereiro de 2012

Site da imagem: gnosisonline.org


******************************************************
FONTES bibliográficas:


11     Stephan A. HoellerA Gnose de Jung ― Editora Cultrix
22.     Aniella JafféO Mito do Significado na Obra de Jung ― Cultrix
33.     Martin Buber Eclipse de Deus ―  Verus Editora
44.     Elaine PagelsOs Evangelhos Gnósticos ― Editora Objetiva
55.     Leon Dufour Leitura do Evangelho Segundo João IV ― Editora Loyola
66.     Coleção de Nag Hammadi  ― Evangelho de Filipe
77.     Frank McLynn ― ‘JUNG – Uma Biografia’Record Editora

15 fevereiro 2012

Das Procissões do Brasil Colônia ao Carnaval





O famoso pesquisador, historiador e crítico musical, José Ramos Tinhorão, no seu livro, As Festas no Brasil Colonial”, mostra como o cortejo sacro (as procissões católicas) no tempo do Brasil Colônia se misturou ao “profano” e influenciou enormemente o que hoje temos como, Festas Carnavalescas, ou tríduo momesco. Tinhorão descreve com riqueza de detalhes e farto material histórico como se processou a mesclagem dos valores sagrados ibero-europeus com os valores indígenas e africanos na Bahia, por volta do século XVI.

Segundo o historiador, em 1580, os alunos do colégio dos Jesuítas na Bahia, encontravam nas procissões uma oportunidade de extravasamento dos seus desejos carnais. Na data comemorativa do “Corpus Christus”, havia um bloco denominado, “O Mistério das Onze Mil Virgens”, uma procissão de oportunismo lúdico, que angariou a simpatia da maioria da população.
As festas carnavalescas de ruas e as diversões em ambientes fechados, como os bailes públicos, tiveram aí a sua origem.

Sobre o caráter de diversão da procissão dos alunos do colégio dos Jesuítas, o francês Le Gentil de La Barbinais quando passava por São Gonçalo, a convite do vice-rei Vasco Fernandes Cesar de Menezes, narra como se desenrolavam os desfiles lúdicos nos arredores de São Salvador:

“Partimos em companhia do Vice-Rei e de toda a Corte. Próximo a igreja de São Gonçalo nos deparamos com uma impressionante multidão que dançava e pulava ao som de violas e atabaques, que faziam tremer toda a nave da igreja. Tivemos, nós mesmos que entrar na dança, por bem ou por mal, e não deixou de ser interessante ver numa igreja padres, mulheres, frades, cavalheiros e escravos a dançar, misturados a gritos de ‘Viva São Gonçalo do Amarante!’.
Nas procissões do Espírito Santo, o padre Frei Antônio religioso do Carmo tocava viola publicamente com o Cônego de Angola – o padre Manoel de Bastos, e entre eles no mesmo carro alegórico, uma Vicência crioula forra de Ouro Preto, vestida de homem cantava o ‘Arromba’ e outras modas da terra. O bispo D. Antonio do Desterro era um folião inveterado e saia para farra na procissão usando como peruca a cabeleira da imagem de Cristo, isto em fins de 1759. Os lundus e os fados criados no século XVIII, mais tarde, se transformariam nas  precursoras da música popular moderna”.
“Os grupos de manifestantes barulhentos que desfilavam na semana da Quaresma tinham nomes muito parecidos com os blocos carnavalescos atuais: cornetadas, troças, chocalhadas, latadas e caçoadas”.

Tem mais: Os estandartes atuais dos blocos carnavalescos e escolas de samba continuam como cópias fiéis dos que eram içados pelos fiéis nas fogosas procissões do Brasil Colonial.

P.S.:
Perdoe-me o grande pesquisador José Gomes Tinhorão, mas eu vou ficar com o Almirante que, numa música carnavalesca escancarou toda a verdade: Tudo começou no dia 21 de Abril de 1500 com a descoberta, por acaso, do Brasil, exatamente dois meses após o carnaval, como mostra o vídeo abaixo:




Por Levi B. Santos
   Guarabira, 15 de fevereiro de 2012


Fonte de Referência: José Gomes Tinhorão“As Festas no Brasil Colonial” ― Editora 34