02 abril 2015

A Ceia Totêmica Cristã


"Tomai, comei; isto é o meu corpo" (Jesus)



Um ritual antropofágico dos tempos pré históricos, ainda hoje, continua sendo  reproduzido com toda sua grandeza simbólica na cerimônia da Eucaristia (igreja católica) e nas cerimônias da Santa Ceia (igrejas protestantes e evangélicas). Em tais rituais, os membros reconhecidos como irmãos são convidados a comer um pedaço do corpo de Cristo e a beber seu sangue, que no caso, são simbolizados pelo pão e pelo vinho, à semelhança da refeição totêmica que Freud narra em seu livro “Totem e Tabu”, a qual ele considera o mais antigo festival da humanidade. Para ele, a repetição desse ato memorável estaria encravada nas origens do pensamento religioso cristão.

“Quando o homem partilhava uma refeição com o seu deus, estava expressando a convicção de que eram partes de uma só substância; e nunca partilharia essa ceia com quem considerasse um estranho” (Freud – Totem e Tabu – pag 162)

Em “Totem e Tabu”, Freud utiliza o mito da morte do Pai primitivo para compreensão da gênese da religião cristã. Ele vê um paralelismo do mito cristão com o totemismo.

“A força ética da refeição sacrificatória pública repousava em idéias muito antigas da significação de comer e beber juntos. Comer e beber com um homem constituía um símbolo e uma confirmação de companheirismo e obrigações sociais mútuas” (Totem e Tabu – pág 161)

Na ceia totêmica, cada um dos participantes ao ingerir simbolicamente um pedaço do corpo do Totem adquire a sua santidade. Pelo ato de devorá-Lo realizavam a identificação com Ele, adquirindo sua força. A refeição totêmica surge como uma forma e um esforço de apaziguar o Pai, e mitigar o sentimento de culpa por se ter entronizado o Filho no lugar de Deus-Pai. O próprio ato pelo qual o Filho oferecia a maior expiação ao Pai conduzia-o ao mesmo tempo, à realização de seus desejos contra o Pai. Cristo, Ele próprio, tornava-se Deus em lugar do Pai, deslocando a religião paterna (Judaísmo) para a religião filial (cristianismo)

Nesse sentido, Philippe Julien, psicanalista Francês, no seu livro “Abandonarás Teu Pai e Tua Mãe” — página 79 (Editora Comp. de Freud), diz o seguinte: “O cristianismo começa com a morte do Pai Todo poderoso, por que Ele se esvaziando do seu poder, deixa de intervir na história, fazendo, para o bem ou para o mal, nascer o desejo do outro”.

Freud vê aspectos do paradoxo humano no totemismo, em que o fato do crime e do sentimento de culpa dos filhos da horda primitiva que matam o pai primevo, tanto pode gerar a concretização do desejo como a negação dele, constituindo aquilo que denominamos em psicanálise: “ambivalência emocional”.

Mircea Eliade, em seu livro Aspectos do Mito” (pág. 93) — diz que “as cerimônias religiosas são festas de recordação, com um significante — o de apreender o mito central, ou seja, o assassínio da divindade e suas conseqüências”.

“Na psicologia de Jung, ao celebrar a última ceia, o crente estaria comendo a sua própria carne e bebendo o seu próprio sangue; isso tinha um significado: o de que ele devia reconhecer e aceitar o outro que há em si mesmo” — escreveu Edward Edinger no seu livro, “Arquétipo Cristão” (página 63)

O aspecto da “refeição do Totem”, que recobre a última ceia, mostra Cristo representando o “Anthropos” — o homem total original.

Na iconografia primitiva, a Última Ceia era representada por uma refeição à base de peixe, e remonta ao Banquete Messiânico da lenda judaica, na qual a carne do Leviatã — o monstro marinho —, é servida aos devotos. O Leviatã habitava as profundezas obscuras do oceano, e isso em psicanálise tem um paralelo — “o Inconsciente”, que analogicamente, representa as profundezas abissais e temerosas da psique. Esse mesmo monstro aquático — símbolo das forças poderosas do inconsciente — aparece na epopéia poética e mítica do personagem, Jó: “Se puseres a mão sobre ele (o Leviatã), lembrar-te-ás da peleja e nunca mais o intentarás. Toda a esperança de apanhá-lo é vã; o homem será derrubado só em vê-lo.” (Jó 41:8-9).

A tradição mítica cristã diz que, na aparição de Cristo na Galiléia depois de sua morte, Ele comeu peixe com favo de mel junto aos seus discípulos. Tanto o peixe dessa refeição sobrenatural ou intra-psíquica de Cristo como o grande peixe Leviatã da lenda judaica, representam os conteúdos da psique primordial e seus reflexos percebidos na consciência. A ceia é o processo “revelatio” em que o “o imenso tesouro” que jaz oculto em nós, passa a ser observado no outro, nosso irmão, num processo que Jung denominou individuação” (vide - O Mito do Significado de Anniela Jaffé — editora Cultrix — página 82)

A ceia totêmica de Cristo fez nascer na religião a “função fraternal”, sugerindo que o semelhante, o “irmão”, tem um impacto estruturante/desestruturante, entretanto, necessário na constituição da nossa individualidade, desde que cada um faça o seu mergulho, para provar do estrangeiro que há em si, na figura de um Leviatã que habita nas profundezas do obscuro e temível mar do inconsciente.

P.S.:

A psicanálise preocupa-se apenas em analisar o conteúdo da psique expresso no mito. A existência psicológica é subjetiva e verdadeira, porque o conceito de verdade não está ligado ao palpável e ao que é demonstrável racionalmente, mas ao que é percebido sensorialmente, de forma individual ou em grupo”. (Erich Fromm — Psicanálise e Religião – página 21)

O mito é considerado como o maior patrimônio espiritual da humanidade. “Os mitos resultam de experiências humanas coletivas, sem que seus produtores tenham consciência da autoria deles, pois são projeções das interpretações do mundo interior e exterior transformadas em imagens, metáforas ou representações e expressões da própria realidade”. (Ernest Cassirer Mito e Linguagem – Editora Perspectiva)




Por Levi B. Santos

Guarabira 13 de dezembro de 2010



FONTES:

1.    Freud, Totem e Tabu — Editora Imago

2.    Philippe Julien, Não Abandonarás Teu Pai e Tua Mãe — Editora Companhia de Freud

3.    Mircea Eliade, Aspectos do Mito Editora Edições 70 (Portugal)

4.    Edward Edinger, Arquétipo Cristão  Editora Cultrix

5.    Anniella Jaffé, O Mito do Significado — Editora Cultrix

6.    Erich Fromm, Psicanálise e Religião — Editora Zahar

7.    Ernest Cassirer, Mito e Linguagem    Editora Perspectiva

8.    Bíblia Sagrada, Livro de Jó.


Link para ler os comentários à postagem original: 

http://levibronze.blogspot.com.br/2010/12/ceia-totemica-crista.html

16 março 2015

Breve Ensaio Sobre Delação



Quem não se lembra do tempo da meninice, quando delatar alguém da curriola de amiguinhos traquineiros era um ato de traição irreparável?

Lembro-me bem de que, certa vez, todos de minha classe na escola primária ficaram de castigo quase o dia inteiro, por não atender ao pedido da professora que, de forma áspera, queria porque queria saber o autor da malfeitoria realizada por um de nós às escondidas.

Por outro lado, era comum no meu tempo de menino, o pai dizer para o filho: “fale a verdade sobre o que realmente aconteceu, que o seu castigo será bem menor!”. Às vezes, a autoridade paterna até nos presenteava pela delação de mãos postas que fazíamos.

Mas o que levava a criança a apresentar aquele tipo de comportamento diante da professora: ter que delatar aquele que fez o malfeito com aquiescência de todos?

Refletindo bem, na maioria das vezes o aluno não delatava  o outro, porque tinha medo de ser, depois, punido rigorosamente pelo colega delatado.

Naquele tempo quem se arvorasse a ser delator, ficava de bem com a autoridade (o professor ou mestra), mas em contraposição ficava eternamente marcado, pelos coleguinhas que diziam entre si: “tenham cuidado com o ‘dedo duro!’”.

E aí entra o velho Freud, com seus, até então, insuperáveis mecanismos de defesa psíquicos: “todos nós usamos esse mecanismo de defesa — a NEGAÇÃO, que não é necessariamente patológico. Não poderíamos levar a vida sem eles. Esses mecanismos só se tornam um problema ao serem utilizados pelo ego de modo excessivo e inflexível” [Freud Básico − de Michael Kahn]

O delator sempre apareceu na história como uma figura infame. Foram os casos de Calabar e Joaquim Silvério dos Reis” — conta, Altair J. Aranha em seu “Dicionário Brasileiro de Insultos”. Todo estudante de História sabe muito bem que Joaquim Silvério só delatou os inconfidentes Mineiros em troca do perdão de sua dívida junto à Fazenda Real.

A história de nossa república está pontuada por diversos casos de delação. Ainda está bem fresca em nossa memória, uma das mais trágicas delações: a de um irmão que denunciou o outro que estava na presidência, ocasionando seu impeachment e desgosto profundo em sua mãe, culminando por levá-la à morte depois de um prolongado coma. [Vide link

Nunca antes na história desse país tanto se falou no recurso da delação premiada (mal necessário), quanto hoje se noticia nos meios de comunicação. Como o Brasil é o país onde tudo acontece em escala descomunal, o Procurador Geral da República, com o aval do STF, já expôs à nação a sua longa lista de parlamentares supostamente envolvidos no Petrolão. Através do instrumento jurídico, "delação premiada", alguns que estão preventivamente presos deduraram seus ex-companheiros. Supõe-se que serão investigados naquilo que Rodrigo Janot (cujo mandato termina em setembro) já denominou “o maior esquema de corrupção revelado no país”. Acontecerá isso mesmo?


Um Acordo de Leniência (?)

A professora Alexandra (Dona Xanda) chega à nossa classe no grupo Apolônio Zenaide, tinha lá os meus oito ou nove anos de idade e, de forma esbaforida, pergunta:

Quem pegou a caixa de giz colorido que estava aqui perto do quadro negro?

Ninguém delatou ninguém. Todos responderam quase em uníssono:

— Não fui eu, fessôra. Não fui eu... Eu nem sabia que tinha giz colorido aí em cima!
— Nem eu...
— Tampouco eu...

Lembro que, dessa vez, a fessôra não fez questão de investigar a fundo o ocorrido. Afinal não era ela, mas o diretor da escola, quem comprava as caixas de giz.
Dona Xanda, no íntimo, sabia perfeitamente que essa artimanha de responder “eu não sabia”, era uma desculpa esfarrapada dos seus pupilos. No 'NÃO", lá dentro, de forma reprimida se escondia o SIM. 
No fundo no fundo, a professora sabia que estava sendo leniente, e seus alunos, de igual modo, sabiam que estavam sendo coniventes, ao não apontar os que se apropriaram de algo que não era deles. 


Por Levi B. Santos

07 março 2015

Godot e a Lista de Janot



Repórteres, jornalistas e o mundo político brasileiro passaram quase toda esta sexta feira (dia 06), a esperar ansiosamente a lista de Janot. Já passava das 22 horas quando, pelo canal televisivo Globo News, saiu, enfim, o malfadado listão de Rodrigo Janot, autoridade máxima do Ministério Público. Não se passaram nem cinco minutos e os principais jornais dos EUA já comentavam sobre a abertura de investigação das principais figuras políticas brasileiras envolvidas no mega-escândalo da Petrobrás.

Numa analogia a famosa peça teatral, “Esperando Godot” de Samuel Beckett, a frase “Esperando Janot”, foi muito citada durante a semana nos meios jornalísticos.

Na aplaudida e mundialmente conhecida peça, “Esperando Godot”, dois andarilhos, Estragon (gogo) e Vladimir (Didi), enquanto esperam a chegada de Godot (que nunca vem), jogam conversa fora.

O título dessa peça de Samuel Beckett (1906 – 1989), nesses últimos dias, serviu de mote para a tão esperada lista do Procurador Geral da República, Janot, com os nomes dos parlamentares envolvidos no maldito petrolão. O que tem a ver Godot, com Janot, não sei. Mas, relendo a peça teatral, algo me surpreendeu logo no início do primeiro ato. Fica a critério do leitor(a) deduzir se, o trecho que aqui replico de um diálogo inspirado no julgamento do Messias (nos Evangelhos), há alguma coisa a ver (ou não) com o rolar dos acontecimentos recentes da republiqueta fundada por  Dom João VI.

                      [Enquanto Esperam GODOT]

Vladimir (Didi): Assim matamos o tempo. (Pausa) Eram dois ladrões crucificados ao mesmo tempo que o Salvador. Se...
                    Estragon (gogo): O que, quem?
Vladimir: O Salvador. Dois ladrões. Diz-se que um deles foi salvo, e o outro condenado.
Estragon: Salvo de que?
Vladimir: Do inferno
Estragon: Vou-me (senta-se quieto)
Vladimir: E, entretanto... (Pausa) Como é possível que?... Suponho que não te aborreço.
Estragon: Não escuto.
Vladimir: Como é possível que, dos quatro evangelhos, só um conte os fatos desta forma? Não obstante os quatro estavam ali; vamos... não muito longe. Só um fala de um ladrão salvo. (Pausa) Bom, Gogo, de quando em quando se podia colocar vaza.
Estragon: Escuto
Vladimir: Dos quatro, só um. Dos três, dois nem sequer o mencionam, e o terceiro diz que ambos lhe insultaram.
Estragon: Quem?
Vladimir: Como?
Estragon: Não entendo nada. (Pausa) Insultar a quem?
Vladimir: Ao Salvador.
Estragon: Por quê?
Vladimir: Porque não quis salvá-los.
Estragon: Do Inferno?
Vladimir: Não, homem, não. Da morte.
Estragon: Nesse caso...
Vladimir: Os dois deveriam ser condenados.
Estragon: E depois?
Vladimir: Mas um dos evangelistas diz que um se salvou.
Estragon: Vá, não estão de acordo; nada mais.
Vladimir: Alí estavam os quatro. E só um fala de um ladrão  salvo, por que acreditar em um a mais que os outros?
Estragon: Quem lhe acredita?
Vladimir: Pois todos. Só se conhece esta versão.
Estragon: Somos tontos.
Vladimir: Puff (Cospe).
Estragon: Formoso lugar! (volta-se, avança até a bateria e olha para o público). Rostos sorridentes. (Volta-se até Vladimir). Vamos
Vladimir: Não podemos.
Estragon: Por quê?
Vladimir: Esperamos ao GODOT.


P.S.:

Refletindo bem, a peça “Esperando Godot” e a Lista de Janot, na verdade, têm algo em comum. Samuel Beckett teceu sua peça sob o pessimismo e as cinzas da segunda guerra mundial. O Procurador Rodrigo Janot, de igual modo, trata de recolher o que sobrou das ruínas de uma república em seu triste ocaso.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de março de 2015


02 março 2015

“Banco Sem Dinheiro”



Há mais ou menos três meses, na agência do Banco do Brasil de Guarabira (9ª cidade da Paraíba - em população e PIB), onde resido, uma prática está se tornando comum: a de deixar sem dinheiro os seus terminais eletrônicos destinados a saque nos finais de semana, principalmente quando os feriados caem numa sexta ou numa segunda feira.

No último final de semana, cheguei à agência e dei de cara com a frase, “Banco Sem Dinheiro”, estampada em sua grande porta de vidro tipo blindex. Encontrei muitos revoltados reclamando da falta de consideração do Banco para com o cliente. Mas, notei algo terrivelmente doloroso: usuários dessa mega-instituição financeira, falavam que o emblemático AVISO refletia a mais pura e cristalina verdade. Diziam eles: “A verdade é que se a metade da clientela resolver retirar o que tem em aplicações, o Banco do Brasil não vai ter como pagar”.

Esse fato, por si só, demonstra o quanto a tensão e o medo têm chegado aos mais distantes rincões do nosso país. Creio que o apelativo aviso — sem dinheiro” deste final de semana  colado em lugar bem visível na agência não se deve a incompetência de sua direção local, mas, sim, fruto de uma ordem de contenção vinda lá de cima, para fazer face à gastança desenfreada realizada em nome da tão cantada e decantada governabilidade.

Eis a avassaladora manchete que está correndo nas redes sociais e nos principais jornais do país: “Brasileiros Retiram Dinheiro da Poupança, e o Sistema Bancário Começa a Ruir”.

Para se ter a ideia do nível de descontrole na gestão da coisa pública, a Caderneta de Poupança que vinha, há muitos anos, pelo menos, sendo renumerada de acordo com a inflação mensal, chegou aos meses de Janeiro e fevereiro desse ano a ser indiretamente confiscada nos seus rendimentos em quase 60%. A inflação de janeiro foi de 1,24%, a de fevereiro bateu nos 1,33%. Enquanto isso, a Poupança foi corrigida em apenas 0,5%/mensal. Se isso não for confisco, o que é então confisco?

A situação é tão nefasta que a maior fuga de recursos das instituições bancárias nos últimos 20 anos aconteceu exatamente nos dois primeiros meses de 2015 [vide link]. Que fique claro: o dinheiro retirado pela população está sendo usado para recuperar o seu poder de compra que vem sendo paulatinamente corroído a olhos vistos.

O negócio vem se agravando cada vez mais, e o horizonte é realmente sombrio. Quando a maior autoridade da república vem a público dizer que vai lançar um programa que facilita o fechamento das empresas via on-line em questão de minutos (Vide link), tem-se aí uma amostra indiscutível de que o país está iniciando uma grave recessão. O bloqueio nas estradas do país realizado por caminhoneiros que fazem o escoamento da produção de alimentos e têxteis, que já dura mais de uma semana, vem causando prejuízos de mais de um bilhão de dólares, com as lideranças políticas desarticuladas a bater cabeça sem que consigam solucionar o grave descompasso [Vide link].

A Agência de classificação de risco, Mood’s, já deu o sinal vermelho para os investidores externos debandarem do país. Como sem investimentos não há dinheiro na praça, a frase “Banco Sem dinheiro” colada na porta do Banco do Brasil de minha cidade, talvez esteja sinalizando para nós, contribuintes/correntistas, uma verdade inconveniente que o governo, em vão, tenta obscurecer.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de março de 2015

Imagem do topo: Foto do Interior da agência do B.B. de Guarabira - Pb

27 fevereiro 2015

Reminiscências do Rio de Janeiro — Nos Seus 450 anos




Domingo próximo (01 de Março) o Rio de Janeiro estará comemorando seus 450 anos de fundação. Foi na cidade maravilhosa que passei todo o ano de 1972, realizando Residência Médica (pós graduação em Ginecologia) no maior Hospital da América Latina —, o Souza Aguiar, privilegiadamente situado de frente para a bucólica Praça da República (Centro do Rio). Tempos bons àqueles, que não se ouvia falar em violência, drogas, tráfico, etc.

Diferentemente de hoje, a paz era coisa muito habitual na cidade cartão postal do Brasil. Quase todo final de semana saía do Hospital caminhando à pé por mais ou menos uns três quilômetros, para assistir a última sessão dos filmes mais badalados — nas espetaculares salas de cinemas da famosa e bela Cinelândia. Lembro que um dos filmes chegou a fazer uma fila de mais ou menos cem metros: foi o “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Após conferir as sessões de cinema, voltava tranquilamente caminhando pelas calçadas do Largo da Carioca, entrando na avenida Mem de Sá, passando pela Tiradentes, Quartel do Corpo de Bombeiros, e  o restaurante Português " O Lisboeta". Lembro que chegava ao quarto andar do Hospital (destinado a residência dos médicos-estagiários) já no início da madrugada, sem medo de ser abordado por transeuntes que cruzavam o meu caminho. Parece incrível, mas, durante toda minha estada nessa cidade nunca presenciei um assalto, briga, ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo que nunca perdia os clássicos do meu time (Fluminense) com os rivais, Flamengo, Botafogo e Vasco. As partidas entre esses grandes clubes ocorriam sempre às tardes de domingo. Vestido com a camisa tricolor, com um radinho de pilha ao ouvido, lá estava eu no meio da galera do velho Maracanã, sob uma nuvem intensa de pó de arroz, aplaudindo, eufórico, os craques do Clube das Laranjeiras (Félix, Jair Pereira, Gerson canhotinha de ouro, Denilson e Lula, entre outros).

A FOTO que repliquei no topo do texto é do Hospital Estadual Souza Aguiar. Na rua, defronte a sua entrada, o Cordão do Bola Preta, em sua estréia no sábado de Carnaval, fazia  percurso obrigatório, com uma parada de vinte minutos para a alegria de funcionários e doentes que se espremiam nos janelões dos seis andares do enorme nosocômio, a fim de assistir a Folia em sua homenagem, oferecida pelo tradicional bloco carnavalesco. Naquele tempo, os desfiles de escolas de samba eram realizados na Av. Presidente Vargas, há poucos metros do Hospital. As arquibancadas de madeira eram instaladas quatro ou cinco dias antes do sábado de carnaval.

A Escola de Samba campeã naquele ano (1972) foi a Império Serrano, com o belíssimo e esfuziante samba, “Alô Alô, Taí Carmen Miranda”.

Para conferir esse memorável samba, é só clicar no vídeo abaixo:



Por Levi B. Santos. - Guarabira, 27 de fevereiro de 2015

08 fevereiro 2015

Ambivalência do Homem e de Seu “Deus”



Pelo que me consta, a palavra, ambivalência, foi usada pela primeira vez por Eugen Bleuler, psiquiatra suíço (1857 —1939), e tinha a ver com atitudes e comportamentos contraditórios ou dúbios presentes na psique dos indivíduos. Esse termo, posteriormente, foi redefinido por Freud, como afetos contraditórios, tipo amor/ódio, projetados pela pessoa em um mesmo objeto. Freud observou em suas longas e profundas análises que, primitivamente, os impulsos amorosos e hostis foram dirigidos ao pai natural no período da tenra infância do sujeito.

O menino Sigmund, filho de Jacob (grande conhecedor da Torah) nutria pelo pai um respeito comovente e ao mesmo tempo uma espécie de frustração, ao vê-lo incompetente e imprevidente em seus negócios. Poderíamos, por esse ângulo, concluir que ele possuía afetos ambivalentes de amor e ódio com relação a seu pai. Esses sentimentos ambíguos presentes em Freud no tempo de sua meninice, dentro de seu imaginário de fundo religioso passaram a ser projetados no Deus todo poderoso dos Judeus. Na tradição judaica não havia como o homem pensar em Deus sem transferir a ambivalência (percepção de afetos opostos) para uma entidade paterna adorada, temida e impronunciável, como as Escrituras Sagradas fazem ver na epopéia do líder político-religioso e suposto fundador do Estado Hebraico, Moisés. O homem que conta a história de Javeh, inconscientemente (ou em linguagem mítica), transfere sua ambivalência (características dúbias) para seu Deus, ambivalência esta que, no mito, é representada pelo “poder de criar o bem e o mal, a partir de Si”.

O Mito evidencia que para funcionar o plano divino de um Deus ambivalente, necessário se fazia criar a figura do Diabo.  Mas aí é que surge o grande problema: na mente do crente, uma barreira intransponível se interpõe, pois, segundo Jung, “...Javé, moralmente ambíguo, tornou-se um Deus exclusivamente bom, e, contrapondo-se a ele, o demônio reunia todo o mal em si.  Jung, na verdade, percebia que o homem religioso ocidental,   recalcava defensivamente para as profundezas de seu inconsciente o que em si o perturbava, sem perceber que nessa idealização estava dividindo sua divindade moral em duas. Como meio de evitar o desprazer, reprimia ou projetava no OUTRO seu próprio lado diabólico.

O insaciável desejo humano de expulsar de si àquilo que mais repudia ou de romper com o pólo obscuro da ambivalência está bem simbolizado na história mítica do Gênesis bíblico, quando Javeh expulsa de Si ou do seu séquito o rebelde Lúcifer (e seus numerosos anjos), que Lhe fazia oposição dentro de sua morada celestial.

Mais de duzentos anos antes do aparecimento do conceito psicanalítico “ambivalência dos afetos humanos” refletida em um Deus, Baruch de Espinosa no seu denso “Tratado Teológico-Político”, publicado em 1670 (página 27), já falava da ambiguidade presente nos sentimentos dos hebreus projetados na figura de Javé: “...a Escritura costuma descrever Deus à semelhança do homem, atribuindo-lhe mente, vontade, paixões, até mesmo um corpo e um hálito, assim também utiliza muitas vezes espírito de Deus por mente. [...] a própria revelação de Deus variava de profeta para profeta, conforme o seu temperamento, a sua imaginação, e suas opiniões. Se o profeta estava alegre revelavam-se-lhe as vitórias; se pelo contrário, ele era macambúzio, revelavam-se-lhe guerras, suplícios e todos os males.”

O pensamento de Espinosa a respeito do Deus dos Judeus, transportado para os dias atuais, seria explicito, mais ou menos, dessa forma: a “imago-dei” percebida pelo fiel em sua psique resulta do estado emocional em que se encontra, ou seja, o que ele  percebe como um ser sobrenatural extra-corpóreo (que premia e também castiga) pode tanto lhe fornecer uma sensação de completude beatífica, como um sentimento de culpa, de derrota ou frustração.

Jung, por sua vez, afirmava: “...esse duplo aspecto da imagem do pai é característico do arquétipo em geral: é capaz de efeitos diametralmente opostos e atua na consciência como Deus se comporta para com , isto é, de modo ambivalente.” De certa forma, essa ambivalência, em ricos elementos metafóricos, está bem demonstrada no Mito da Criação, quando um Deus coloca no meio do seu jardim, a árvore do mal e do bem. Em seu livro, “Resposta a Jó”, Jung faz ver que a divindade (monoteísta?) é ambivalente, pois em si, contém tanto o lado diabólico (o lado escuro ou de sombra) quanto o reluzente ou benéfico. 

Sabemos o quanto é difícil, senão impossível, o homem descrever a história de um Deus (atuante em si) sem projetar Nele seus afetos ambivalentes ou contraditórios. Às vezes, para não ser esmagado pelo peso da ambivalência, o homem projeta o seu lado mal, obscuro ou de sombra, no outro (até nos amigos ou familiares), ou até mesmo em si, quando, de boa fé, diz: “Que diabo tomou conta de mim para fazer tal coisa?”

A ambivalência dos afetos em Saulo de Tarso, apóstolo fundador do cristianismo, era percebida como uma espécie de luta no ar entre potestades diabólicas e divinas. O conflito interno que ocorria dentro do seu palco mental, era compreendido (de forma mítica) como forças externas personificadas do mal e do bem a se confrontarem nos lugares celestiais. Com a descoberta do inconsciente tornou-se evidente que as características ou afetos que julgamos inaceitáveis em nós, por um mecanismo de defesa psíquico, são projetados em figuras tidas inferiores, como bodes, capetas, cobras, diabo, hereges, etc.

Zigmunt Baumann, em “Vida em Fragmentos: Sobre ética pós moderna”, para mostrar que a ambivalência faz parte da condição humana, alude a cena primordial da ambivalência experimentada lá atrás, nos primórdios de nossa existência e sua correlação com o nosso comportamento de adulto, hoje. No dizer desse escritor, “o projeto moderno postula um mundo de ambivalência moral". Para esse polêmico sociólogo, a Moral é contingente e ambivalente, pois flui da incerteza dos desejos humanos. Em O Mal-Estar da Pós Modernidade” (página 90), Zigmunt faz uma afirmação emblemática com relação à constante ambivalência humana que perpassa o nosso universo, e que na mente do religioso adentra o âmbito dos deuses: “...tudo a ganhar, nada a perder por se ter o conhecimento da endêmica e incurável ambivalência, e por se abster de uma cruzada antiambivalência (afinal, suicida).”

Ao invés da luta inglória que tenta santificar e demonizar os afetos que compõem a nossa ambivalência, seria bem mais produtivo, se usássemos a Parábola relatada nos evangelhos sobre o “Joio e o Trigo” para compreender e admitir que em nossas atitudes e racionalizações ora somos “trigo”, ora somos “joio”.



Por Levi B. Santos

Guarabira, 08 de fevereiro de 2015

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