20 julho 2015

Tanto em Atenas Quanto no Brasil





Atenas era a capital do mundo da política, da cultura e da filosofia quatrocentos anos antes de Saulo de Tarso, fundador do cristianismo, fazer menção a um “corpo corruptível” , um corpo que não era imune ao vírus maléfico da corrupção.

Do livro de Eduardo Giannetti, “Auto-Engano”, um formidável e irrefutável trecho do capítulo “Dissimulação Social e Parcialidade Moral” sobre a natureza corruptível do homem, replico aqui, à guisa de reflexão:

O fato é que, por mais diversificada e heterogênea que se conceba a experiência psicocultural da humanidade no longo percurso histórico desde a conquista da linguagem, é difícil imaginar uma sociedade na qual os indivíduos não prefiram ser respeitados a ser desprezados por aqueles com quem vivem, e não prefiram sentir orgulho a sentir vergonha em serem quem são. Mesmo o membro de uma comunidade ultratradicional — alguém que, digamos nem sequer se pense a si próprio como indivíduo enquanto obedece cegamente às normas e tabus de sua tribo ― não escapam de ter de cuidar, vez por outra, de sua imagem e reputação aos olhos dos demais. Mesmo ele só poderá sentir de uma forma individual e privada, no silêncio de sua mente, o terror secreto de que os outros membros da comunidade cheguem a descobrir a sua eventual ― capciosa ou inadvertida ― transgressão da norma”.

Que fique claro que o autor de “Auto-engano” não está fazendo uma apologia à corrupção, tanto é que na contracapa de seu emblemático livro, o editor faz essa enfática declaração:

Para o nosso bem ou nossa ruína, o auto-engano permeia grande parte das opções e julgamentos que fazemos. […] Eduardo Giannetti faz aqui uma reflexão profunda e original sobre a necessidade que tem o ser humano de iludir a si mesmo,”

O cinismo substantivo e dissimulado existe, é inegável, mas o auto-engano e a racionalização sincera também.” afirmou reticente o autor, neste mesmo capítulo, mais a frente.

Quando o oportunismo imediatista que faz com que membros dos poderes de nossa república se enfrentem numa querela sem fim, procurando cada um defender-se dos contornos imprecisos de suas próprias sombras, refletidas no espelho do outro, faz mister citar o sábio grego, Tucídides (460 a.C), pela pena do historiador irlandês, Eric Robertson Dodds:


A tremenda falta de respeito às leis que ocorreu por toda a cidade de Atenas durante a guerra de Peloponeso teve início com essa epidemia, pois, à medida que os ricos morriam e os que antes nada possuíam tomavam conta de suas posses, as pessoas começaram a ver diante dos seus olhos reversões tão abruptas que passaram a fazer livremente coisas que antes teriam ocultado ― coisas que jamais admitiriam fazer por prazer. E, desse modo, vendo que suas vidas e suas posses eram igualmente efêmeras, eles justificavam a sua busca de satisfação rápida em prazeres fáceis. Quanto a fazer o que era considerado nobre, ninguém se daria a esse trabalho, visto que era incerto se morreriam ou não antes de realizá-lo. Mas o prazer do momento e tudo que contribuía para isso tornou-se o padrão de nobreza e utilidade. Ninguém recuava com assombro, seja por temor dos deuses ou das leis dos homens: não dos deuses, visto que os homens concluíram não fazer diferença cultuá-los ou não, já que todos pereceriam da mesma forma; e não das leis, visto que ninguém esperava viver até o momento de ser julgado e punido por seus crimes. Mas eles sabiam que uma sentença muito mais severa pairava agora sobre as suas cabeças, e antes que ela desabasse eles tinham alguma razão para tirar algum prazer da vida.”


O texto acima, de Tucídides, fala do “modus vivendi”, da ganância, da iniquidade e do desrespeito às leis na sociedade Ateniense de dois mil e quatrocentos anos atrás. A sua fala continua tão atual e intimamente ligada à nossa corrupta republiqueta que, sem tirar nem por, poderia ser estampada em nossos principais veículos de imprensa, como a crônica do dia.


Dando um pulo da Grécia (em apuros no momento) para o Brasil pré-republicano de 1882, vamos encontrar um emblemático conto de Machado de Assis “A Sereníssima República”. Como mostra o livro, “Retorno ao Republicanismo” de Sérgio Cardoso, Machado se vale da vida das aranhas, para definir as artimanhas do mundo político de seu tempo, que em nada difere do nosso:


Antes de significar desvio ou roubo do patrimônio público, a corrupção que cabe no conto de Machado significa degradação dos costumes” diz Sérgio Cardoso, bem no início de sua narrativa.


Não poderia deixar de trazer à tona um imperdível trecho do conto machadiano “A Sereníssima República” carregado de humor satírico, retrato fiel da hipocrisia presente nos criadores e gestores dos partidos políticos (sopa de letrinhas da atualidade):


Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o partido retilíneo; outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: as teias devem se urdidas de fios retos e fios curvos, é o partido reto-curvilíneo; e finalmente uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve em que não há linhas de espécie alguma.”


Sérgio Cardoso, no seu livro, faz uma conclusão que, a meu ver, explica muito bem o que se esconde por trás das crises fomentadas nos dias atuais, onde os destinados a permanecerem no andar de baixo são os que verdadeiramente pagam o pato. Diz ele:


Mais do que isso, talvez, o efeito da corrupção política acentua as condições da maioria ao argumento, na aparência, irrefutável de que parece tolice obedecer às regras quando se espera que os demais venham a obedecê-las e quem, porventura, deixa escapar uma chance de obter algum tipo de vantagem ou benefício pessoal nessa sociedade, ainda que trapaceando suas normas, passa necessariamente por otário”.


Em grego, a POLIS deriva de murar. Tanto na Atenas de Tucídides e Péricles quanto no Brasil de hoje, a corrosão desse muro de separação entre o privado e o bem público tem sido fator prepoderante na degradação da sociedade.


Não há como negar que o conluio criminoso entre a esfera pública e o interesse privado, nos últimos tempos, tem sido a causa do assombroso nível de corrupção que assola, de uma maneira geral, as nossas instituições.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2015

11 julho 2015

Fragmentos Sobre Ressentimento




Na Literatura, Política, Psicologia e Sociologia muito já se debateu e se escreveu sobre “ressentimento”. Foi no livro “Aurora”(página 237), que Nietzsche expôs, de forma simples e sem rodeios, o que vai no âmago da alma do ressentido:

Aquele que é incapaz de realizar certa coisa, acaba por exclamar cheio de revolta: 'Que o mundo inteiro pereça!'. Este sentimento odioso é o cúmulo da inveja que gostaria de deduzir: 'uma vez que não posso ter uma coisa, o mundo inteiro não deve ter nada! O mundo inteiro deve não ser!”.

Na atualidade, esse sintoma social, como uma colante vestimenta, anda tão arraigado em nossas vidas, que já o percebemos como coisa mais natural do mundo. Mesmo sabendo que o ressentimento nos prejudica, recusamos sair debaixo de seu guarda-chuva protecional. A doutora e psicanalista da PUC (São Paulo), Maria Rita kehl, logo na introdução de seu livro “Ressentimento” (Editora Casa do Psicólogo) deixou uma pérola de definição sobre o que seria esse afeto que grassa como uma epidemia nos mais variados relacionamentos interpessoais.

Ressentir-se significa atribuir a um outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar. […] O ressentido não luta para recuperar àquilo que cedeu e sim para que o outro reconheça o mal que lhe fez”.

Em todos os setores do mundo contemporâneo, o ressentimento se encontra sutilmente imiscuído na quase totalidade dos conflitos sociais. Para o ressentido àquele que não duvida de suas certezas sintomáticas , o problema está sempre no outro, seu superior na escala hierárquica.

Por sua vez, Jacques Lacan, ao fazer uma releitura de Freud, percebeu que o ressentido, no fundo, “não quer esquecer o objeto perdido”, razão pela qual mantém sua queixa indefinidamente. Ele faz da lamentação seu maior gozo.

Hegel, na dialética do Senhor (àquele que conseguiu ser vitorioso arriscando a própria vida) e do Servo (àquele que abdicou da guerra para não perder a vida) mostra que o ressentido, é o eternamente queixoso que, para compensar o que perdeu, vive inconscientemente adiando sua vingança. A agressividade daquele que se tornou servo para preservar a vida, retorna sobre a forma de ressentimento, afeto este expresso na forma de uma acusação moral contra o seu Senhor (representação daqueles que estão na escala social mais alta).

Discorrendo sobre o ressentimento na esfera política da sociedade brasileira, Maria Rita Kehl, no trecho abaixo, nada mais faz que ressoar o que Nietzsche tão bem dissecou sobre este ambíguo afeto em sua emblemática obra - “Genealogia da Moral”:

Ora, a origem do ressentimento reside justamente no apartamento entre os sujeitos e sua própria potência de agir. Nesses termos, a decepção com as promessas não-cumpridas não predispõe à ação; ela produz um exército de queixosos passivos, prontos a (se)realinhar ao que existe de pior entre os conservadores, como forma de reação amarga e estéril, carregada de desejos de vingança”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 11 de julho de 2015

24 junho 2015

Os Predadores e um Zoológico Sem Dono


Hipopótamo de zoológico inundado invade cidade de Tbilisi - Geórgia



Um colunista brasileiro tem se destacado por seus primorosos ensaios, na maioria, quase sempre relacionados a fatos do risível cotidiano de nossa república. Trata-se de Roberto Pompeu de Toledo, que escreve na última página da revista semanal – Veja. O autor, na atualidade, vem discorrendo mais sobre os acontecimentos da esfera político-administrativa que têm como palco, o Congresso em Brasília.

Aprecio muito seus artigos, tanto pela verve carregada de humor e doces metáforas quanto pelas analogias que interligam as presepadas semanais dos nossos constituintes a fatos pitorescos colhidos de nossa Literatura/História e do mundo internacional.

Pelo que se assiste na TV Senado, TV Câmara e se lê nos principais jornais do país, o Congresso virou uma verdadeira Torre de Babel, lugar conturbado pela confusão de línguas estranhas, onde ninguém se entende. Lá são criadas leis a toque de caixa, leis que se chocam entre si, como a sobremesa bizarra de grilo com chocolate.

Na revista Veja - edição 2431 - que saiu nas bancas domingo (dia 21), Roberto Pompeu de Toledo resume, de forma magistral, a balbúrdia reinante em Brasília nos últimos dias, onde a grande vítima é a Pobre Constituição” (título que encabeça seu artigo). A sagaz analogia, que o ensaísta faz das ações sem nexo dos nossos constituintes com uma enchente ocorrida recentemente nas terras da antiga União Soviética, é digna de nota. Para que o(a) leitor(a) possa comprovar o que digo, transcrevo abaixo, com os devidos créditos, um trecho desse seu antológico ensaio:

Com a autoridade do presidente no chão, o ministério (à exceção da Fazenda) inoperante, o PT disputando com a oposição quem incomoda mais o governo e o Congresso despirocado, os predadores estão soltos. A situação é comparável à de Tbilisi, a capital da república caucasiana da Geórgia, onde uma enchente na semana passada provocou, entre outros estragos, a inundação do zoológico e a dispersão dos animais pela cidade. Deu-se então, segundo inventariou o The News York Times que um urso foi flagrado tentando se equilibrar na janela de um 2° andar, um crocodilo foi visto a espreitar os carros parados numa rodovia intransitável e um hipopótamo acabou pendurado nos galhos de uma árvore. Aqui, a dona do zoológico, de medo de ser demitida, demitiu-se, os funcionários entregaram os pontos e as feras se jogam cada uma a um naco do texto constitucional. A última vítima é o artigo 228, aquele que declara que são penalmente inimputáveis os menores de 18 anos. Ele veio se juntar aos atentados contra a ordem constitucional que, já há algumas semanas, são disparados pela “reforma política” do deputado Eduardo Cunha”.
[Roberto Pompeu de Toledo]


Convenhamos, foi por nosso intermédio que, lá fora, o Brasil ficou conhecido como o país do Carnaval, do futebol fantástico repleto de jogadores exímios em seus sensacionais dribles, sabendo fingir como nenhum outro, diante de suas esfuziantes torcidas.

Por ocasião da primeira aprovação da proposta de diminuição da maioridade penal para 16 anos, parlamentares agiram como se estivessem comemorando a vitória de seu time. Com toda a força de seus pulmões gritaram o estribilho que comumente se exibe nas arenas futebolísticas Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” , como se esse pequeno obstáculo ultrapassado fosse a senha mágica definitiva para o arrefecimento da criminalidade.

E o que dizer da recente manifestação no plenário da Câmara, quando mais de uma dezena de militantes da bancada evangélica, de mãos dadas, rezaram em alto e bom som oPai Nosso? Em êxtase, encerraram a encenação com um “Viva Jesus Cristo!”, pela vitória alcançada com a aprovação da cláusula de crime hediondo para quem profanar símbolos religiosos. Por certo, o sentimento que os dominava naquele momento nada mais era que resquícios do contagiante idealismo religioso das cruzadas da idade média.

De nada adiantou uma figura solitária, abafada pela maioria vitoriosa, a bradar lá do fundo do palco montado: Vamos respeitar a república laica brasileira!

Pois é caro(a) leitor(a), estamos na estação do inverno, propícia a enchentes como a que aconteceu na Geórgia. O nosso Zoológico sem dono pode estar, sutilmente, sendo invadido pelas águas das torrenciais chuvas tão comuns nessa época. O grande perigo é que as feras, antes domadas em seus apriscos, podem sair fazendo estragos ao entrar por caminhos nunca dantes percorridos. Aí, sim, a depredação daquilo que se denominou de bem público pode atingir níveis nunca imaginados.

Como a alegria da maior folia das terras de Dom João VI “termina” numa quarta-feira de cinzas, não custa lembrar aqui o refrão do samba enredo da União da Ilha (Rio de Janeiro) no carnaval de 1978:

Como será o amanhã, responda quem puder...” (bis)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 24 de junho de 2015


Site da Imagem: www.bbc.com/notícias

18 junho 2015

Por Amor aos Necessitados





Quem pode fazer o bem e não faz comete pecado afirmou São Tiago, em seu evangelho. O apóstolo, São Paulo, por sua vez, evidenciou em sua epístola aos Romanos que o amor estaria acima da Lei.

O místico da primeira escolástica, Hugo de São Victor, fez uma categórica afirmação: “Nós amamos a Deus e Lhe servimos mas não buscamos nenhum prêmio, pois não queremos passar por mercenários. Amamos com um amor puro, desinteressado e filial e nada procuramos. Que Deus decida se lhe apraz dar-nos alguma coisa; de nossa parte nada lhe solicitamos. Nós o amamos, mas nada procuramos, nem mesmo Aquele a quem amamos.

Não esqueçamos, porém, da versão mundana do dito de São Francisco de Assis: “...É dando que se recebe”. Segundo o psicanalista Flávio Gikovate, esse refrão (tão usado e vezado no meio político – grifo meu), pode indicar a disposição de dar de si e se dedicar a alguém (ou um grupo – grifo meu) com o objetivo de receber o tratamento que gostaria.

O leitor(a) a essas alturas deve estar se contorcendo, com essa história de amor desinteressado, achando, talvez, que ele não exista.
Está posta então, a questão: existe ou não existe o amor desinteressado?
Para a Psicologia Profunda, mesmo que seja “desinteressado”, esse amor, exige uma gratificação que não precisa, necessariamente, ser retribuída na mesma moeda.

Atualmente, nos meios de comunicação, as pedaladas fiscais que o governo deu com a finalidade de não deixar os bolsistas a ver navios, vêm ocasionando um acalorado debate. Melhor explicando, O TCU não quer dar o aval à inusitada operação posta em prática pela maior autoridade da nação: a de realizar créditos fictícios ou sem lastro nas contas dos necessitados do “bolsa família”, à revelia da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Andei pensando com os meus botões sobre a vexatória situação dos beneficiários do Bolsa Família, quando no calor da campanha (2014) pela reeleição da presidenta, correram o sério risco de não receber seus proventos, pois o orçamento governamental encontrava-se estourado. Pergunta-se: O governo e seus conselheiros mais fiéis, agiram ou não por amor, quando, para não deixar os pobres sem o seu pão de cada dia, recorreram a um artifício acima da Lei para contornar o grave problema?

Muitos condenam o Governo por aplicar dinheiro em outras instâncias de seu interesse, cobrindo um santo e descobrindo outro. Mas como estamos em um país cristão, respaldado nos evangelhos, sabemos que isso é coisa para se deixar vir às claras por ocasião do Julgamento Final, onde cada alma vai dar conta de si e ter pesadas suas obras. Depois de satisfeito o seu desejo, o governo então diria ao Supremo Juiz: os recursos para as pedaladas saíram dos bolsos da minha grande comunidade de fiéis. A bicicleta não é minha, é do povo que me elegeu; eu apenas pedalo nela pra sobreviver e para ser vista como uma grande equilibrista na grande arena política do segundo maior país cristão do mundo.

Quem sabe se Ele, comovido pela fraqueza que permeia o humano, não diria ao apagar das luzes: Eu Sou brasileiro, perdoada estais!



Por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de junho de 2015


Link da Imagem: vejaabril.com.br/blog/reinaldo

13 junho 2015

Breves Considerações Sobre os "Mortos-Vivos" de Dostoiévski






Debruçar-se sobre as obras literárias do fenomenal escritor russo, Fiódor Dostoiévski é o mesmo que mergulhar no profundo e sombrio abismo da psique — instância que à semelhança do tenebroso oceano ― esconde em seu interior monstros, fantasmas e tesouros incrustados em carcaças de embarcações perdidas no tempo.

Nas entrelinhas de seu antológico conto, “Bobók”, o autor revela como funciona o mecanismo psíquico (consciente/inconsciente). Seus escritos de caráter dialógico mostram, de forma nítida e serena, que o desejo do outro está sempre infiltrado em nossas ações e reações. “Cada um de nós é um EU somente porque há um conceito do Outro” — diria mais tarde, Jacques Lacan.

Bobók”, conta a história de Ivan Ivánitch: um bêbado que sofre de alucinações vai a um enterro e, depois de todo mundo ter ido embora do cemitério, resolve descansar um pouco sobre a laje de uma sepultura e, de repente, começa a ouvir vozes abafadas vindo de dentro dos túmulos a seu redor. Os mortos se identificam e começam a conversar entre si, como se a consciência humana continuasse a existir por algum tempo depois da morte. Sabedores que tinham, agora, total liberdade, diferente das condições terrenas, decidem, divertidamente, contar seus causos que, na vida anterior, mantinham guardados sob sete chaves.

Mas por enquanto eu quero é que não se minta. É só o que quero, porque isso é o essencial. Na terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos; mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir. Aos diabos, ora, pois o túmulo significa alguma coisa! Todos nós vamos contar em voz alta as nossas histórias já sem nos envergonharmos de nada. Serei o primeiro de todos a contar a minha história[…]. Abaixo as cordas, e vivamos esses dois meses na mais desavergonhada verdade.” (Bobók – página 35)

Eis que involuntariamente, Ivan Ivánitch, nauseado pelo forte odor de corpos em decomposição dá um sonoro espirro, o bastante para calar os mortos-vivos. Tudo ficou em um silêncio sepulcral.

Não acho que tenham sentido vergonha de mim: haviam resolvido não se envergonhar de nada! Esperei uns cinco minutos e… nem uma palavra, nem um som. Também não dá para supor que tenham temido ser denunciados à polícia; porque, o que a polícia pode fazer neste caso? Concluo involuntariamente que, apesar de tudo, eles devem ter algum segredo desconhecido dos mortais, e que eles escondem cuidadosamente de todo mortal.” (Ivan Ivanitch – página 37)

Traduzindo os elementos do conto “Bobók” pela via metafórica, o que se evidencia? O polêmico Slavoj Zizek faz uma incursão sobre a assertiva dostoievskiana de que “Sem Deus tudo é permitido”. Para ele, o que o escritor russo quer retratar em sua ilustração de um apavorante “Universo sem Deus” em que “tudo é permitido” é o mundo imaginário do fundamentalista religioso. Se o Deus do cristão está lá, irreversivelmente com eles, então poderiam concluir, “Com Deus tudo é permitido”. Por que não?

Mas eis que o espirro inesperado do observador/narrador faz calar os mortos. Paradoxalmente, o que isso significa, senão o entendimento de que o impulso de contar toda a verdade não é livre? A presença incômoda do “outro-ouvinte-testemunha” barra ou impede os “vivos-mortos” de expor sem amarras os seus recalques.

A imagem desse agente ético repressor internalizado é o que Lacan denominou, o “Grande Outro”, que Freud rotulou de Superego, que o mundo judaico-cristão percebe como um Ser antropomórfico radicado nas maiores alturas. Ao que parece, não há jogo sem essas instâncias patriarcais. Diante da impossibilidade de eliminar por completo o olho dessa “imago paternaque espreita o homem de perto, fazer uma trégua ou acordo amigável com ela, seria a solução mais viável.

Para que a fábula dos “mortos-vivos” não se transforme numa “mentira Suprema”, é bom dissecá-la pelo lado avesso. Só desta forma, é que poderíamos colher uma real compreensão do que se passa nos escaninhos desse ambivalente “reino psíquico”.

No mundo judaico-cristão não é raro a citação — “Universo sem Deus” , para expressar o desconforto do crente frente àquele que se diz ateu. O que o fiel piedoso talvez não saiba é que esse “Utópico Universo Psíquico sem Mediador” percebido no OUTRO, nada mais é que a projeção do submundo reprimido da própria religião, recalcada nos porões de sua mente. A proteção rígida do idealista religioso contra o gozo jubiloso do “pagão” não passa de uma reação defensiva contra o que existe no outro – causa de seu desconforto. No fundo, o que ele percebe como “terreno inóspito do pagão sem Deus”, na verdade, é o seu sonho supremo. Como dizia, Chesterton: “...mas dentro dessa proteção desumana, você encontrará a velha vida humana dançando como dançam as crianças e bebendo vinho como bebem os homens, pois o cristianismo é a única moldura para liberdade pagã.”

Na verdade, o que os “mortos-vivos” de Dostoiévski escondem do personagem, Ivan Ivánicth (símbolo do Outro), é o “obsceno gozo compulsivo de sua natureza”. O espirro que fazem calar os mortos, impedindo de contarem suas vergonhas, é o cruel Superego entronizado nas profundezas psíquicas. A volta, enfim, do silêncio sepulcral, é sinal de que os “mortos” continuam mais vivos do que nunca no imaginário do escritor.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de junho de 2015




08 junho 2015

Seu Último Yom Kipur




Morreu na madrugada do feriado judaico da expiação, após tomar a terceira injeção de morfina. Desde o início de sua doença fizera ver que não aceitaria “a paralisia da capacidade pela miséria corporal”. Não mais suportando as dores e o odor forte e fétido que inundava todo o seu quarto, proveniente do câncer de mandíbula que necrosara parte de sua face, de forma lúcida, despediu-se de seu médico de cabeceira, dando-lhe autorização para encerrar de uma vez por todas seu intenso sofrimento. Tentativas frustradas de debelar seu mal renderam-lhe mais de trinta cirurgias e penosas convalescenças.

O barulho lá fora, provocado pelas passadas de muitos judeus em Londres a caminho das sinagogas onde realizariam seus rituais de jejum e orações (Yom Kipur), ele deve ter escutado por um breve tempo até cair num sono profundo para não mais acordar. Coincidência ou não, veio entrar suavemente na imensurabilidade do tempo em uma fria madrugada de um sábado festivo “dia do perdão” ─, cerimonial judaico que em criança junto aos familiares o deixava extasiado por seus cânticos e pela magnífica ceia final.

Fora o criador da ciência da alma, que tem na “culpa imaginária” seu epicentro. A culpa e o perdão teriam alguma coisa a ver com a escolha do feriado sagrado do Yom Kipur, para, ainda em sã consciência, praticar a eutanásia?

Ao divã por ele criado quis dar um propósito aparentemente oposto ao que de fato acontecia no divã confessionário do judaísmo. Foi longe, a pretensão de que sua ciência, um dia, geraria no homem, a ausência de acusação com a concomitante ausência de perdão. Fato este, talvez impossível diante de nossa condição de transgressor, aturdido por afetos ambivalentes provenientes dos desvãos mais íntimos de nosso inconsciente, onde guardados estão crimes não ditos e recalques de toda ordem.

O modo de pensamento talmúdico não pode ter desaparecido de nós confidenciou-lhe, certa vez, um amigo que frequentava as famosas reuniões científicas das quartas-feiras, ao notar que havia uma íntima relação entre as modalidades de interpretação do texto bíblico e a abordagem na análise psíquica. Era evidente a estreita ligação entre a psicanálise e a tradição Judaica. Não custa lembrar que no divã do confessionário da ortodoxia judaica da qual seu pai foi um membro ativo, era através da confissão da culpa a um Pai imaginário que o judeu, por ocasião do Yom Kipur, percebía-se isento ou redimido da própria dor psíquica de culpa. A figura do Superego que criara, não seria uma forma de confirmar que um pai continuava a viver no inconsciente do sonhador?

Diante de seus discípulos, reagia de modo enfático: “o analista não inclui nem exclui, não culpa nem absorve”. Foi rebelde até o fim. Quis ser senhor até do dia de sua morte, provocando polêmica entre os ortodoxos de sua nação ao escolher a comemoração do Yom Kipur para se despedir da vida.

Logo cedo aprendera da mãe a resignar-se aos ditames da condição humana: “um dia teria que retornar ao pó, de onde veio”. O que não se poderia imaginar naquela época, era que, ele mesmo, seria o capataz a dar ordem para o início da metamorfose última sentença javélica registrada no livro de Gênesis ─, tantas vezes repetida por sua genitora nas aulas diuturnas de catecismo religioso.

Por toda a cidade de Londres, seu último refúgio em vida, máscaras de gás eram distribuídas para fazer face aos terríveis bombardeios aéreos que a Alemanha de Hitler iniciara naqueles trágicos dias de setembro de 1939. “Será a minha última guerra afirmou ele ao médico que cuidara de sua saúde nos seus últimos dez anos de vida. A guerra tinha sido um tema recorrente em suas palestras. Só via duas formas de descarregar a libido agressiva que cada um carrega dentro de si: através da pulsão destrutiva (assassinatos, guerras), ou da sublimação, entendendo-se por esta última, a conversão da poderosa energia instintiva humana em criações artísticas, em produções de cunho científico, político ou econômico.


P.S.:

Freud morreu num processo de Eutanásia, segundo Ernest Jones, seu biógrafo. Eu acho necessário que nós possamos ter a coragem, em uma sociedade aberta e plural de discutir essa questão com serenidade, mesmo porque a qualquer instante nós estamos sujeitos a nos transformarmos num objeto passivo de uma decisão politica e biológica a respeito de nossa existência sem que sequer possamos ser ouvidos. Eu acho esta a maior das violências em relação a questão da minha morte”. [Jacob Pinheiro Goldberg]


  Por Levi B. Santos
 Guarabira, 08 de junho de 2015



29 maio 2015

Um Passado Escondido no Presente



Em todos os níveis de relações do nosso dia a dia tendemos a repetir velhas situações, talvez esquecidas na poeira do tempo. Ou seja, os desejos que uma vez nos alimentaram na tenra infância continuam, hoje, em nossos mais obscuros recônditos psíquicos a emitir suas ressonâncias. Por um curtíssimo espaço de tempo chegamos a nos identificar com um efêmero objeto, mas logo logo esse desejo transferencial tende a se apegar a novos objetos, de uma maneira sucessiva. “A repetição de um ato que sem querer encetamos é uma transferência de um passado esquecido” diria Freud.

Enquanto vivemos e desejamos não fazemos outra coisa senão trocar uma presa por outra, senão mudar de influência. Não renunciamos a nada, só fazemos trocar umas coisas por outras. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto. Uma vez adulto, o ser humano, no lugar de brincar, vai recorrer à fantasia.” disse o fundador da psicanálise, certa vez, discorrendo sobre o “Desejo Transferencial” no ato analítico.

Para evidenciar tal fato, o velho barbudo gostava sempre de se reportar a um conto dos irmãos Grimm, intitulado “João Sortudo”. Reproduzo aqui uma sinopse dessa historieta infantil, da qual o cientista, na sua incursão pelo mundo analítico da psique, retirou significativas metáforas:

João sortudo estava sempre trocando seu objeto de desejo por um novo, mais vantajoso. Como a moeda de ouro era muito pesada de carregar, foi convencido a trocá-la por um cavalo que o conduziria sem o esforço de caminhar a pé. Em seguida trocou o cavalo, que o deixava com o traseiro dolorido, por uma vaca aparentemente dócil. Depois agradou-se de um porco dando em troca sua vaca. Mais na frente cedeu o porco por um majestoso ganso, para finalmente trocá-lo por duas pedras de amolar que caíram por acaso dentro de um poço. João, agora, livre das pesadas pedras recomeçou seu caminho à casa da mãe.

Esse conto, na verdade, quer mostrar que o homem na sua luta inglória para aliviar seu sofrimento sucumbe sempre ao poder do objeto. O curioso da história de João é que após várias tentativas na esperança de encontrar algo melhor para satisfazer seus desejos, ele se vê retornando ao oco da primeira forma que o moldou. Não foi à toa que o pai da psicanálise chegou a constatação de que “em um número grande de nossos relacionamentos, por mais superficiais que sejam, têm em seu bojo, a repetição de algum aspecto de nossa vida primitiva. Isso ocorre no âmbito das nossas amizades, das relações profissionais, dos casos amorosos e particularmente dos nossos relacionamentos com figuras de autoridade”.(Transferência na Vida Cotidiana Michael Kahn).

Em cada troca que fazia, João Sortudo desejava alienar-se ao objeto de seus primeiros prazeres, a exemplo das sinfonias e sonatas clássicas, cujos movimentos sonoros que se desenvolvem harmonicamente no decorrer do concerto sempre acabam voltando ao tema melódico inicial. O êxtase final nada mais é que uma variação do tema executado no início da sinfonia. João Sortudo, escravo de um desejo impossível de se realizar, retorna não ao colo idílico da mãe, mas a casa vazia dos primeiros aconchegos e consolos maternos. Dentro da “casa vazia de mãe”, a alma vazia de João sonha com a completude vivenciada nos primórdios, quando se via como uma extensão apendicular daquela que lhe trouxe ao mundo.

Navegando em sentido contrário, facilmente compreenderemos que traços do nosso caráter foram impressos em nossa remota infância. O Desejo de recuperar a completude perdida ainda se esconde sob as camadas estratificadas da psique. Aqui ou acolá, extratos de nosso passado se fazem aflorar em nossas atitudes e racionalizações. Certo é que não existe regressão, mas sim repetição ou transferência de anseios e emoções profundamente entranhadas no inconsciente. Quantas vezes em nosso agir e reagir não somos apanhados de calças curtas? Quantas vezes escolhemos sem saber que por trás de nossa escolha algo nos influencia a agir daquela forma? Talvez isso queira demonstrar que somos seres condicionados pela aproximação de um inusitado passado composto de lembranças fragmentárias que teimam em se intrometer em nosso presente pelas brechas ou rachaduras de um frágil muro protetor de nosso opaco modus vivendi.

Como na dolente canção “Xote da Navegação” de Chico Buarque e Dominguinhos, reproduzida abaixo, às vezes eu me pego em sonho, paramentado de capataz, em um velho barco a navegar para trás.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 29 de maio de 2015

23 maio 2015

UM MOSQUITO BEM BRASILEIRO




Um mosquito, originário do Egito (África) tem, desde os primórdios, feito do Brasil a sua morada predileta. Muito bem conhecido dos habitantes do Brasil Colonial e Republicano, o “Aedes Aegypti” adaptou-se definitivamente ao nosso clima e nosso sangue. Segundo cientistas do Instituto Oswaldo Cruz – Rio de Janeiro, esse mosquitinho de pernas listradas aportou em nossas terras no século XVII, trazido por navegadores e seus navios negreiros. Na sua primeira versão, em 1906, o pequenino inseto foi o transmissor da febre amarela, que tanta celeuma causou na capital da recente república.

O sanitarista Oswaldo Cruz, não conseguiu banir o mosquito das terras de Dom João VI, mas teve o grande mérito de descobrir e administrar nos colonos a vacina contra a febre que grassava de forma epidêmica fazendo muitas vítimas. Enfim, esse incansável médico bacteriologista, enfrentou e venceu a resistência da população que porfiava contra a sua fatal vacina. Querendo ou não querendo foram todos imunizados, inclusive, com o uso da Força Policial. Ficamos, dessa forma, livre de Febre Amarela.

Até 1980 não se conhecia casos de Dengue no Brasil, tanto é, que nas Faculdades de Medicina essa doença não fazia parte da grade curricular de estudos por parte de professores e estudantes.
A OMS em 1958 chegou a afirmar que o Brasil estava livre do Aedes Aegypti. Em um país com dimensão continental como o nosso, não seria muita ousadia ou temeridade afirmar que o fatídico mosquito teria sido exterminado por completo?

Para surpresa nossa, em 1981, foi confirmado a presença de uma muriçoca de pernas listadas no norte do país, precisamente, em Roraima. Lá estava o mosquitinho tão conhecido e estudado por Oswaldo Cruz hibernando na maior floresta do mundo, a amazônica. E aí, foi fácil descobrir que a febre epidêmica que fazia muitas vítimas, a partir do Pará, estava sendo transmitida pelo inarredável pernilongo de bandeira “verde-amarelo-anil”, transmissor da extinta Febre Amarela.

Quem diria que, hoje, apesar dos vastos recursos tecnológicos e científicos existentes, esse mosquitinho de pernas alvi-negras (corinthiano ?, santista?) iria atormentar os paulistanos? Plagiando a letra da canção “Teresinha” de Chico Buarque, o Aedes chegou sorrateiro e se instalou feito um posseiro dentro dos lares . Após infectar todo o norte e nordeste, o Aedes se enfastiou da região árida e quente, mudando a sua Central de atuação para a “cidade-coração” do país São Paulo (quarta maior metrópole do mundo). Por enquanto, o mosquito bem abrasileirado vai repassando para o homem quatro tipos de Dengue, um deles fatal: o hemorrágico. Como na antológica canção paulista, “SAMPA”, de Caetano Veloso, o mosquito vive cruzando diariamente a Ypiranga e a avenida São João com a maior naturalidade. Plagiando o começo de umas das estrofes de “Sampa”, o sem-vergonha do mosquito que se naturou brasileiro, ataca, sem dó e sem piedade, o povo oprimido nas filas, vilas e favelas.

O rei Salomão, que a Bíblia considera o ícone da sabedoria, já dizia: “nada há nada de novo debaixo do sol”. O mosquitinho que resolveu fazer seu ninho no Brasil, obrigando Oswaldo Cruz a pedir auxílio das forças policiais para combater a Febre Amarela nos idos de 1907 é o mesmo que, hoje, tem as Forças do Exército no seu encalço. Há cerca de quinze dias, a Secretaria Municipal de São Paulo reconheceu que vive uma epidemia de Dengue, pedindo urgentemente ajuda das Forças Armadas Federais.

Pelos parâmetros da OMS o índice de 300 casos por 100.000 habitantes configura uma epidemia. A taxa de incidência de Dengue na capital Paulista, chegou neste início de maio a 340 casos por 100.000 habitantes.

Para embananar mais a cabeça dos infectologistas, o Aedes acaba de fazer uma parceria com o vírus, Chikungunya, originário de Angola e Tanzânia. Por enquanto esse tipo de infecção viral, com sintomas parecidos com os da Dengue, porém menos intensos, grassa no nordeste do país.

O arrocho fiscal recentemente promovido pelo governo federal, com cortes de verbas nos já combalidos serviços de saúde, com certeza, deixará o “mosquito bem brasileiro” leve e solto. Sem ser incomodado, em pouco tempo, poderá reinar absoluto do Oiapoque ao Chuí.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de maio de 2015

Link da Imagem: Blognapilha.wordpress,com

11 maio 2015

No Tempo das Histórias de Trancoso





Registram os livros de História que o português, Gonçalo Fernandes Trancoso, com seu livro - “Contos e Histórias de Proveito e Exemplo” - escrito no século XVI, foi quem entre nós, pais e avós da geração antiga, inspirou as mirabolantes histórias sobrenaturais e aterrorizantes contadas nas calçadas das casas após o jantar, quando nem rede elétrica existia.

Os adultos e crianças nas noites enluaradas, sobre tamboretes rústicos de madeira comprados no meio da feira, participavam como atores/autores e ouvintes dos sensacionais contos. O progresso tecnológico responsável pelo aparecimento das novelas transmitidas pelo rádio, foi, aos poucos, afugentando os contadores das histórias de trancoso que antes se esparramavam pelo chão de tijolos a frente de suas residências. Engraçado é que naquela época ninguém sabia, nem se perguntava sobre a origem da palavra “trancoso”. Hoje, a televisão e a internet tomaram o espaço reservado ao criativo ato de contar histórias. As calçadas das casas, nas noites estreladas, agora, encontram-se praticamente vazias, quando muito, se veem dois ou três sentados em confortáveis cadeiras a dedilhar seu smartfone que, como dizem os cronistas atuais, tem o condão de aproximar os distantes e afastar os que estão perto.

Lembro de que naquele tempo, antes das dez horas da noite, já nos recolhíamos aos nossos leitos para esperar o sono chegar, ocasião em que o farto material das lendas e contos de arrepiar que absorvidos ouvíamos apresentava-se num louco intricado em nossos sonhos e pesadelos noturnos. Sonhávamos absurdidades, em tudo, parecidas com os contos de trancoso escutados no nosso pequeno teatro ao ar livre.

Tinha lá os meus dez ou doze anos de idade, quando formalizei a minha primeira biblioteca. Em casa, secretamente, em um canto fundo de um velho baú repleto de cortinados e toalhas cheirando a mofo, guardava com esmero muitos contos de trancoso escritos por Mário de Moraes na famosa revista da época – “O Cruzeiro”. Das edições velhas dessa famosa revista semanal, que eram usadas como papel de embrulho nas mercearias e bancos de feira, eu, disfarçadamente, arrancava a página de “A História Que Não Foi Contada”, de Mário de Moraes, para aumentar o meu acervo de contos fantásticos. O meu repertório de histórias de trancoso tinha sempre muita coisa tirada da pena de Mário de Moraes. Algumas histórias que eu recontava, por temor ou reverência, esforçava-me para não sair do script adotado pelo autor. Mas como quem conta um conto aumenta sempre um ponto, lá estava eu adicionando ou imiscuindo minhas fantasias, numa tentativa de tornar a estória mais cruel e risível para uma plateia sedenta de assombrações e “coisas do além”.

Tenham cuidado com a tal da reforma, pois na ânsia de jogar fora o que se considera imprestável, alguma coisa de importante pode parar no lixo. Foi o que aconteceu com uma reforma que inventaram de fazer em minha casa: visitando o velho baú de panos que cobriam os meus contos de trancoso, dei pela falta do acervo tão cuidadosamente escondido. Com certeza, o(a) reformador(a) dos cômodos do meu lar não deu o mínimo valor às tiras de papel que continham os maravilhosos contos de Mário de Moraes, destinando-as para outros inglórios fins. Minha já grande coleção de trancoso, com certeza, foi parar em algum
lugar menos nobre. É que naquela época, o papel higiênico era artigo de luxo. Nas cidades interioranas era comum o uso de pedaços de papel de revistas e jornais para a precária higiene pós-evacuação intestinal. O certo é que meu árduo trabalho de garimpagem nas revistas velhas já lidas e relidas de “O Cruzeiro” foi por água abaixo. Fiquei por um tempão fulo de raiva pela perda literária irreparável.

Quem sabe se ainda não recuperarei alguns contos de trancoso que foram raptados do meu esconderijo literário no fundo do velho baú de panos de minha mãe?

Uma alvissareira notícia: recentemente, vagando pela internet, descobri que Mário de Moraes (1925 2010) lançou seus melhores contos de trancoso pela Record, em 1968 com o mesmo título da página que assinava em “O CruzeiroA Reportagem Que não Foi Escrita”. Além deste livro (que se encontra esgotado nos sebos e livrarias do país) o exímio autor, que com seus causos estrambóticos sabia, como ninguém, deixar todos de cabelos em pé, publicou outras obras memoráveis, como: “Amor no Cemitério e Outras Histórias de Assombrações”(1968); “O mundo me Ensinou a Pecar” (1976); “História de Um Cachorro Contada por Ele Mesmo” (1977).

Tenho saudades daquelas nobres noites em que as histórias de trancoso reinavam de forma absoluta nas casas simples de gente humilde com tamboretes nas calçadas, como Chico Buarque, de forma poética, tão bem definiu em sua antológica canção.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 11 de maio de 2015

17 abril 2015

A Mesclagem das Procissões Religiosas com o Carnaval de Rua no Brasil Colônia





O famoso pesquisador, historiador e crítico musical, José Ramos Tinhorão, no seu livro, As Festas no Brasil Colonial”, mostra como o cortejo sacro (as procissões católicas) no tempo do Brasil Colônia se misturou ao “profano” e influenciou enormemente o que hoje temos como, Festas Carnavalescas, ou tríduo momesco. Tinhorão descreve com riqueza de detalhes e farto material histórico como se processou a mesclagem dos valores sagrados ibero-europeus com os valores indígenas e africanos na Bahia, por volta do século XVI.

Segundo o historiador, em 1580, os alunos do colégio dos Jesuítas na Bahia, encontravam nas procissões uma oportunidade de extravasamento dos seus desejos carnais. Na data comemorativa do “Corpus Christus”, havia um bloco denominado, “O Mistério das Onze Mil Virgens”, uma procissão de oportunismo lúdico, que angariou a simpatia da maioria da população.
As festas carnavalescas de ruas e as diversões em ambientes fechados, como os bailes públicos, tiveram aí a sua origem.

Sobre o caráter de diversão da procissão dos alunos do colégio dos Jesuítas, o francês Le Gentil de La Barbinais quando passava por São Gonçalo, a convite do vice-rei Vasco Fernandes Cesar de Menezes, narra como se desenrolavam os desfiles lúdicos nos arredores de São Salvador:

“Partimos em companhia do Vice-Rei e de toda a Corte. Próximo a igreja de São Gonçalo nos deparamos com uma impressionante multidão que dançava e pulava ao som de violas e atabaques, que faziam tremer toda a nave da igreja. Tivemos, nós mesmos que entrar na dança, por bem ou por mal, e não deixou de ser interessante ver numa igreja padres, mulheres, frades, cavalheiros e escravos a dançar, misturados a gritos de ‘Viva São Gonçalo do Amarante!’.
Nas procissões do Espírito Santo, o padre Frei Antônio religioso do Carmo tocava viola publicamente com o Cônego de Angola – o padre Manoel de Bastos, e entre eles no mesmo carro alegórico, uma Vicência crioula forra de Ouro Preto, vestida de homem cantava o ‘Arromba’ e outras modas da terra. O bispo D. Antonio do Desterro era um folião inveterado e saia para farra na procissão usando como peruca a cabeleira da imagem de Cristo, isto em fins de 1759. Os lundus e os fados criados no século XVIII, mais tarde, se transformariam nas  precursoras da música popular moderna”.
“Os grupos de manifestantes barulhentos que desfilavam na semana da Quaresma tinham nomes muito parecidos com os blocos carnavalescos atuais: cornetadas, troças, chocalhadas, latadas e caçoadas”.

Tem mais: Os estandartes atuais dos blocos carnavalescos e escolas de samba continuam como cópias fiéis dos que eram içados pelos fiéis nas fogosas procissões do Brasil Colonial.

P.S.:
Perdoe-me o grande pesquisador José Ramos Tinhorão, mas eu vou ficar com o Almirante que, numa música carnavalesca escancarou toda a verdade: Tudo começou no dia 21 de Abril de 1500 com a descoberta, por acaso, do Brasil, exatamente dois meses após o carnaval, como mostra o vídeo abaixo:




Por Levi B. Santos
   Guarabira, 15 de fevereiro de 2012

Fonte de Referência: José Gomes Tinhorão“As Festas no Brasil Colonial” ― Editora 34