28 setembro 2011

A MAIS BELA HISTÓRIA - DE UM POETA 'GNÓSTICO'




Que empreendimento extremamente difícil e ingrato é o de se imbuir da tarefa de rotular o OUTRO, de querer conceituar o diferente. Sempre que emitimos um conceito sobre alguém caímos na vala comum do preconceito e da falsidade, pois nada sabemos da subjetividade daquele que nos é estranho. No meio religioso fundamentalista é comum se pensar que aquele que é rotulado de ateu não combina com o supostamente cristão. Ora, se estudássemos com afinco a vida real das pessoas nos surpreenderíamos, pois, com certeza iríamos encontrar muitos ateus e gnósticos amorosos que se preocupam com o bem estar do outro, mais do que aqueles que se dizem cristãos.

Se analisássemos as obras poéticas de alguns rotulados de ateus, não demoraríamos encontrar em suas palavras, raios de uma linguagem divina.

Quem em sã consciência poderia dizer que da mente de um poeta considerado "ateu" ou gnóstico poderia um dia brotar pérolas dignas de registro em qualquer livro sagrado? Aliás, o poeta, é aquele que tem o dom de, através da força de uma persuassão leve e suave, tocar a face do “divino”. É aquele que torna sagrado os lugares profanos; que faz a lama da estrada dos seus pensamentos tornar-se pura como a água e bem alta como o céu.

Todo este preâmbulo foi no sentido de trazer à tona a razão maior dos evangelhos traduzida em poesia, pela pena do genial, Fernando Pessoa.

Quem já se debruçou sobre as poesias desse poeta português, creio eu, não pode negar que elas têm o condão de tocar profundamente no âmago da alma humana.

Foi ele, de longe, quem fez a mais humana e a mais bela narrativa do menino Jesus, que nenhum cristão jamais ousou fazer, digna de ser canonizada e colocada em letras garrafais nas primeiras páginas do livro que conta as boas novas de Cristo — O Novo Testamento.

Como não poderia deixar de ser, a maravilhosa voz de Maria Bethânia, foi a única que se enquadrou para, numa magistral interpretação, transmitir com emoção ímpar as mais belas palavras já escritas sobre o menino que fugiu do Céu.





Poema do Menino Jesus (Fernando Pessoa)


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

24 setembro 2011

A IGREJA – Segundo Escreveu Dostoievski


Fiódor Dostoievski (1821-1881), foi o autor da fenomenal fábula — “O Grande Inquisidor” —, que pode ser considerada um dos pontos mais altos da literatura mundial. Essa história faz parte de um dos capítulos de sua fantástica obra: “Os Irmãos Karamazov”.

O interesse do famoso autor russo foi o de questionar a Igreja católica de seu tempo. Na sua crítica instigante, ele mostra como a instituição religiosa rejeitou a mensagem de Cristo, trocando-a pelo poder político e eclesiástico.

Olhando o atual mercado religioso que sobrevive graças à exploração do “divino”, achei conveniente trazer ecos da emblemática fábula escrita por Dostoievski, visando uma reflexão acurada sobre a religiosidade tão intensamente apregoada de forma desequilibrada em todos os rincões de nosso imenso país.

Richard Elliot Friedman, autor do livro ― “O Desaparecimento de Deus”, da Editora Imago (páginas 209 à 210) ―, expõe com primor os pontos principais dessa emblemática fábula:

Dostoievski (*) apresenta “O Grande Inquisidor” como uma história em forma de “poema e prosa” criada por Ivan, o irmão ateu, que a conta a seu irmão mais novo, Aliocha, o aspirante a sacerdote.

Na história, Jesus volta à terra durante a inquisição espanhola. A narrativa é inserida no contexto da ocultação da face de Deus, quando Ivan diz na introdução: “Quinze séculos se passaram desde que o homem parou de ver sinais vindos do céu”.

“E agora, a divindade aparece novamente entre os homens naquela forma humana em que Ele por três anos conviveu no meio dos homens quinze séculos atrás”. O visitante divino realiza milagres: um cego recupera a visão; uma criança ressuscita. Todos o reconhecem. E, então o velho cardeal que comanda a inquisição o e manda que o capturem e o tranquem na prisão. Na cela da prisão Jesus não diz nada; na verdade, o inquisidor é quem ordena que ele não diga nada, pois “Vós não tendes o direito de acrescentar coisa alguma ao que já dissestes no passado”. “Por que viestes agora para nos atrapalhar?” — diz o inquisidor para Jesus. Nos evangelhos são os ‘demônios’ que fazem esse questionamento a Cristo. E aqui, vai uma crítica ferrenha do autor da fábula, ao Catolicismo Romano: a idéia de que Deus não pode falar nem se intrometer, porque agora “Tudo já foi transmitido por Vós ao Papa, não havendo necessidade alguma de Virdes atrapalhar. “Mas a liberdade é muito difícil e assustadora para as massas, diz o inquisidor, e então a igreja aceitou os três assombrosos presentes do diabo, o “poderoso espírito”.

Em um trecho da narrativa, o Grande Inquisidor diz então a Jesus que ele errou quando resistiu às três tentações do diabo no deserto. O diabo lhe ofereceu milagre, mistério e autoridade, e Jesus os rejeitou. Mas, revela o velho cardeal, a igreja os aceitou. A igreja governa as massas exatamente através do milagre, do mistério e da autoridade; é disso, argumenta o cardeal, que as massas precisam.

Jesus não quis conquistar as pessoas através de atos milagrosos e dominá-las pelo poder; ao contrário, queria que elas tivessem liberdade de escolha.

Por fim, o cardeal declara que o invasor divino deve ser queimado na fogueira no dia seguinte. Mas Jesus ainda calado, apenas se limita a beijar o inquisidor nos lábios — “Essa foi a sua única resposta”. O Grande Inquisidor então abre a porta da cela e diz: “Ide e não volteis mais... não volteis jamais, nunca mais”. E o visitante divino vai embora.

Numa época em que as pessoas não anseiam por outra coisa que bens materiais e misteriosas curas, a fábula de Dostoievski ainda tem o condão de tornar lúcido ou claro que a mensagem do Messias Judeu não foi a de pregar a medíocre liberdade idealista da felicidade terrena a todo custo. Infelizmente, a “autoridade eclesiástica” da modernidade se apossou do “...e sereis livres”, com a finalidade espúria de saciar sua sede de domínio psicológico, político e econômico sobre as mentes receptivas, valendo-se de uma ordem supostamente "celestial" pré-estabelecida em épocas remotas.

Uma liberdade que se centra em um objetivo supérfluo como o de adquirir, de possuir, obter lucro, e o de produzir espetáculos em nome de Deus, não é realmente uma liberdade, é sim, uma alienação.


(*) Dostoievski morreu em 1881. Na juventude passou maus pedaços: doença, pobreza, uma sentença de morte aos vinte e sete anos, acorrentado entre criminosos inveterados na Sibéria. Esse período de sua vida foi decisivo. Foi quando descobriu a força de sua intuição psicológica; mais ainda, foi quando seu espírito se tornou mais doce e, ao mesmo tempo, mais profundo. [Carta a Gast, de Nice, publicada em 7 de março de 1887] . FONTE: “Um Mistério Divino” — Richard Elliot — Editora Imago


Por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de setembro de 2011

18 setembro 2011

QUEM É ESSE HOMEM?!



Que homem é esse

Que apesar de todos os sucessos de fachada

Sente-se amputado de uma parte importante de si?


Desta obra de arte que é a VIDA

Somos nós mesmos os autores?

Se das lembranças de minhas angústias primitivas

O desejo de tecer minha poesia, nasce

É pelo anseio que o OUTRO a analise e a explore.


Por que embelezo o material dos meus sonhos?

É o desejo de atrair do OUTRO a simpatia?

Ou busco no seu passado impressões que também são minhas?


Se a força que se alevanta a partir dele

Faz remexer meu baú de esquecidos fragmentos

Melhor que eu veja o que é comum em todos

Para em um só momento não hesitar

De compreender-me na animosidade.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 18 de setembro de 2011

Site da imagem: coisasdeti.blogspot.com


12 setembro 2011

O Humano em KING KONG




Por que os contos e mitos que usam animais ferozes em seu enredo nos atraem tanto?

Talvez, por serem movidos pelos instintos selvagens é que esses monstros vêm encarnar o que há de mais primitivo em nós.

Perguntado sobre o que havia de tão atraente no conto do Gorila gigante — King Kong, o cineasta, Peter Jackson autor da nova versão da odisséia desse macaco gigante no cinema, conta que o original dessa história já o fascinava desde os 12 anos de idade.

Num nível mais profundo, o combate entre o homem e os monstros jurássicos, que simbolizam a natureza no que ela tem de mais violento e selvagem, talvez esteja no cerne dos nossos anseios mais arcaicos, uma vez, que o projeto humano é o de tentar dominar as forças naturais, colocando-as a seu serviço.

Segundo o psicanalista, Renato Mezan, a história de King Kong nos captura porque encena um roteiro arquetípico gravado em nosso inconsciente — e, tomados de terror e de piedade, como desde que se inventaram as epopéias e as tragédias são tomados espectadores, ouvintes e leitores –– percebemos que é de nós que se está falando: do homo sapiens, o mais feroz dos animais”.(*)

Quem assistiu a esse filme deve está bem lembrado da sexualidade incontrolável e o gozo do domínio presentes nas feições do Gorila diante de sua presa: uma moça, Ann, indefesa, um tanto estúpida, de tamanho minúsculo em relação ao corpo do monstro, mas despertadora da libido masculina cega e brutal. Do Gorila, apesar de tratar a moça com doçura, salvando-a de vários perigos, não se pode concluir que ele a ama. Talvez a “ame” porque a considera sua dama, sua presa.

Para Renato Mezan, o Gorila representa nossos instintos animais, ou quem sabe, a figura do pai primordial, cujo assassinato marca para Freud o início da civilização, a insensibilidade e a truculência dos personagens “civilizados” reafirmam uma verdade incômoda: sob a fina camada da cultura adquirida em uns poucos de milênios, subsiste em nós a virulência das paixões primitivas. Mesmo projetadas num primata pré-histórico, elas não deixam de ser ameaçadoras — e, por isso mesmo, fascinantes em sua crueza originária”.(*)

Quem sabe se de uma maneira inconsciente, o fascínio que faz parar a respiração de cada espectador de King Kong, esteja servindo de catarse, ao nos mostrar o que somos na realidade. Essas duas partes interagem em nós num todo inseparável: Ann, a moça frágil que desperta piedade e King Kong, simbolizando a força e a brutalidade, na verdade, destacam as nossas facetas paradoxais —"somos uma espécie única que tem um lado biológico e de instintos, e outro simbólico e cultural".

Pensar o selvagem é pensar o homem. King Kong repete a narrativa mítica dos velhos contos de fadas, cujas complexidades apontam para os conflitos de nosso aparelho mental. Cada adulto, ao revê esse filme, sem sombra de dúvida, está revisitando a criança de peito que exorcizava seus demônios e seus medos; que projetava seus anseios nas figuras míticas dos fenomenais contos infantis. Aquelas fantasias, para o "bem" ou para o "mal", continuam emitindo ressonâncias no imaginário singular e fundamental de cada um de nós, adultos.

Em suma, a epopéia de King Kong, nada mais é que um sucedâneo dos velhos e maravilhosos contos de fadas, que ainda tem o condão de provocar em nós um apaziguamento das ansiedades geradas a partir da impossibilidade de nos completarmos no plano real.



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(*) MEZAN, Renato - Intervenções [pag. 284 e 286] – Editora Casa do Psicólogo, 1ª Edição 2011


Site da imagem: c7nema.net


Por Levi B. Santos

Guarabira, 12 de setembro de 2011

06 setembro 2011

“Castigo Divino” — Combustível da Política Ocidental


Não tenho dúvida de que o desejo de todo “poder político” do mundo ocidental tem como base um deus talhado segundo os anseios humanos. O essencial aqui é mais a profundeza de uma inconsciência que, a partir da impressão de um deus intolerante, faz o homem revelar-se a si mesmo.

A destruição das Torres Gêmeas nos EUA, que esta semana completa dez anos, ainda emite ecos ou ressonâncias do inconsciente coletivo religioso do tempo das leis Mosaicas.

Segundo grande parte do mundo muçulmano, essa catástrofe foi resultado de uma intervenção de Alá, contra os pecadores americanos. Segundo Bush, ex-presidente dos EUA, tudo foi obra de Satã (que mora do lado de lá) para amedrontar o povo cristão que nos EUA tem o seu maior centro.

Mas há algo mais profundo por trás de todo este contexto de destruição do mal pelos deuses; algo mais maléfico, que é o uso das hecatombes e tragédias para fins político-eleitoreiros.

Note-se que existe sempre uma correlação estreita entre o ato de “satanizar” e o de “divinizar”. Afinal, a “divindade” se enriquece daquilo que o homem inconscientemente projeta sobre o outro, seu inimigo.

Esta semana, o “modus operandi à la Javé” foi exercitado por nada mais e nada menos que a pré-candidata à presidência dos EUA — Michele Bachmann, ao interpretar o terremoto e o furacão que, recentemente, atingiram a Costa Leste desse país, como um aviso de Deus aos americanos.

Disse ela, na velha e corriqueira linguagem do discurso neo-pentecostal:

“Não sei o que Deus deve fazer para chamar a atenção dos políticos. Tivemos um terremoto, tivemos um furacão. Ele está dizendo: vão começar a me escutar?”

Política e Religião aqui se entrelaçam para manter a sua dominação psicológica sobre as pessoas. Não existe maior filão para ser explorado pelos governantes, do que o de se valer dos fenômenos trágicos para atiçar o medo e a consequente agressividade entre grupos religiosos/políticos rivais.

Não são poucos os pastores fundamentalistas nos EUA que alcançaram êxito político ao invadir os meios de comunicação para doutrinar a população americana (os eleitores) na luta contra o “Império do Mal”.

A Michele Bachmann, nesse mês (setembro de 2011) em que a nação rememora as perdas de quase 3.000 vidas, nada fez senão o papel de uma pré-candidata “Cristã” à Presidência dos EUA, apoiada talvez pelos crentes fundamentalistas novos e velhos, e os endinheirados pastores da linha dura Javeliana.

Nesse momento, para gáudio dos americanos feridos em sua auto-estima, não havia presente maior do “deus dos exércitos americanos”, do que esse: a deposição recente do sanguinário Muammar Kadhafi, da Líbia. Não importa, para os soldados de Obama, que o substituto do ditador Líbio seja um outro sanguinário ao estilo “democrata-cristão”. O que importa, por enquanto, é ver a maior nação cristã do planeta (com seu deus Javé), se sentir vingada dos estragos causados pelo exército inimigo do general Alá.

Quanto a Cristo, personagem secundário, e portador da mensagem do “se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”, deixa pra lá...


Por Levi B. Santos

Guarabira, 06 de setembro de 2011

Site da imagem: livrepensar.wordpress.com

27 agosto 2011

HORÁRIO NOBRE NA TV: O Nosso “Coliseu”

Diz a História que o calendário romano tinha 175 feriados. Era por ocasião desses dias especiais que as multidões do meio cultural Greco-Romano dirigiam-se ávidas de sangue ao grande anfiteatro romano – o Coliseu —, onde numa arena real se entretinham com os violentos espetáculos patrocinados pelos imperadores de Roma. Era uma maneira de provocar catarse na populaça, além de desviar a sua atenção dos reais e sérios problemas da polis.

Dando um pulo na História e olhando para o Brasil de hoje, veremos que as ressonâncias das carnificinas romanas ainda reverberam, não mais em anfiteatros públicos, mas dentro de nossas próprias casas, nos horários ditos “nobres”, em que as famílias encontram-se reunidas após o almoço ou após o jantar a frente da telinha (ou telona) de TV.

Quem não se lembra do mórbido espetáculo trnasmitido ao vivo pela televisão — a tragédia de Santo André —, o desfecho, passo a passo, de um crime passional. Lindemberg, tortura e mata a namorada – Eloá, numa transmissão pormenorizada do ponto de vista tecnológico, faturado nos mínimos detalhes pela imprensa televisiva. Poucos foram os que atentaram para as raras manchetes que saíram dizendo a verdade, após o encerramento da sessão macabra desse espetáculo em horário nobre: “a mídia exacerbou a psicopatia e a megalomania que estavam em jogo”.

Antes de praticar o crime, e sabendo da existência do grande aparato tecnológico na transmissão televisiva, Lindemberg, resolveu sair de sua impotência, criando uma autoimagem megalomaníaca para a mídia, ao dizer: “eu sou o cara!”, o que em miúdos, quer dizer: “eu sou o príncipe do gueto, o personagem principal da teatralização”. O ato tresloucado em Santo André, guiado pelos imperadores do coliseu televisivo prendeu a atenção de milhões de telespectadores.

Na verdade, o Coliseu televisivo sempre alcança uma audiência extraordinária em nossos lares, por que cada um de nós é, inconscientemente, um torcedor desse tipo de entretenimento.

Em sua obra, “O Mal Estar na Civilização”, Freud, fez uma emblemática observação que corrobora com tudo que escrevi até agora. Senão vejamos:

“A verdade é que o homem não é uma criatura terna e necessitada de afeto, mas um ser entre cujas disposições deve-se contar uma boa dose de agressividade. Por isso, o próximo não representa para ele somente um colaborador e um objeto sexual, mas também uma ocasião para satisfazer a sua agressividade, para explorar a sua capacidade de trabalho sem a retribuir, para se aproveitar dele sem o seu consentimento, apoderar-se dos seus bens, martirizá-lo e matá-lo”.

Se a força e a violência são dimensões constitutivas das relações humanas; se os heróis e artistas não reconhecem o paradoxo de que também são bandidos e vilões, como definir no grande coliseu em que estamos inseridos, os limites seguros para a reprodução da ordem social de respeito e paz entre os seres humanos?

Na genial tragédia descrita por Sófocles, Édipo, sem saber (ou sem querer), mata o pai e casa-se com a mãe. Na arena do “nosso coliseu” agimos, inconscientemente, vivenciando a contradição dos nossos afetos internos ao nos identificar com os personagens opostos dos trágicos espetáculos midiáticos. Na imagem do bandido preso ou morto ficam satisfeitos os nossos desejos de vingança; sobre as heroínas e os heróis sacrificados ficam as projeções do nosso choro e da nossa compaixão.

E assim, cotidianamente, esse cenário do coliseu de nosso horário nobre vem nos delineando com traços macabros e cruéis, que transformam o corpo do outro em um fetiche para a realização do festival canibalístico das nossas individualidades.

Freud explica...

Por Levi B. Santos

Guarabira, 26 de agosto de 2011

Site da imagem 1: vidanet.org.br

Site da imagem 2: revistanaweb.blogspot.com

22 agosto 2011

NAS GARRAS DO PODEROSO “LEÃO”



É impossível que o homem possa um dia viver isolado. A metáfora bíblica — “Não é bom que o homem esteja só” — por si só, já explica que o OUTRO é imprescindível ou obrigatório para a demanda de nossa satisfação. Lacan, que fez a releitura das obras de Freud, já dizia que, “o individuo por ser incompleto necessita da presença do OUTRO para se constituir como sujeito”.

É em face do PODER que o indivíduo se ordena e se desordena seguidamente para a produção de sua singularidade” —, citou também, Joel Birman, psicanalista, filósofo e professor da USP, em seu livro "Psicanálise Ciência e Cultura" (página 111).

Parece-me que ali, onde está o aglomerado humano, sempre haverá uma espécie de “exército da salvação”, para impor no inconsciente dos prosélitos um modelo a se seguir.

A busca inconsciente pelo poder rege-nos em todos os aspectos de nossa vida. Trabalhamos, e ao recebermos o nosso salário, o que vem logo a nossa cabeça é o desejo de vestir o nu do nosso corpo com roupas de “griffe”. Ora, a palavra “griffe”, significa garra - “é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder —, diz o filósofo e psicanalista Renato Mezan, no artigo “Grifes Vistosas, Prazeres Secretos”, publicado no caderno “Mais” da Folha de São Paulo (14/11/2007). Diz ele, ainda, no seu lúcido artigo:

“Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que “podem” e “mandam”. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro e o relógio (rolex) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado do qual a maioria está excluída. Neste sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos, etc. [...] Na sua vasta porção inconsciente, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói – e o nosso cavalo nem precisa falar inglês.”

A vontade de potência é função inerente da psique humana. A demonstração de poder é um anseio comum em todas as civilizações, e, está presente desde os primórdios. A prática dos faraós do antigo Egito, que mandavam apagar dos monumentos o nome de quem os havia construído, e substituí-lo pelo seu, é um emblemático exemplo.

Na cultura judaica, o espaço delineado entre a força e o símbolo que funda o DIFERENTE, está presente na “Estrela de Davi”. A Estrela de Davi, foi cunhada para representar já uma amostra do poderio de um povo, ao associar no inconsciente judaico, o futuro ao passado no qual os judeus tinham o seu próprio país, e não havia, por enquanto, perseguições religiosas.

É provável que o vistoso escudo de Davi incutisse em que o usava, um sentimento de orgulho, pois aludia a uma figura da maior importância no Velho Testamento. No cristianismo, até a cruz maldita se tornou símbolo de um poder que envaidece. Na concepção do crente, ela é um distintivo representativo de um povo salvo e santo (portanto poderoso) que foi resgatado do meio de um povo imundo e perdido (impotente e fraco).

A tragicidade de um “cordeiro imolado” (Cristo) que é ao mesmo tempo “O poderoso Leão de Judá”, deu a Freud a senha para explorar os elementos paradoxais da psique humana, e assim ver, que a relação do sujeito com o poder é marcada pela contradição, pois o homem tende a perder a sua marca distintiva em face dos OUTROS que estão inseridos no seu mundo cultural.

Nos tempos atuais, a atuação sutil das garras do Leão, no sentido de obter a adesão do outro através da persuasão é uma marca registrada tanto na publicidade, quanto na política, no meio religioso, nas redes virtuais, enfim, nas diversas áreas de nossa sociedade.

Por enquanto, fica aqui a pergunta:

É ingenuidade continuar sonhando com o poder ideal —, aquele que não necessita ser exibido?


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 22 de agosto de 2011

Imagem: http://ciadosblogueiros.blogspot.com/2011_06_01_archive.htm

16 agosto 2011

A Volta (e a revolta) das Algemas



Tudo começou com a frase pronunciada pelo vice-presidente da República, Michel Temer, de que havia ficado chocado com as algemas colocadas em um ex-deputado do seu partido, na ocasião em que foi preso pela Polícia Federal. Um nobre foi algemado junto com mais 36 pessoas lotadas no Ministério do Turismo, pelo crime de desvios de cerca de 30 milhões de reais, segundo reportagem da revista Veja, sob o título: “Turismo na Lama” (edição 2230).

Mas olhando bem, o nobre vice-presidente nada fez de temerário. Ele simplesmente agiu em consonância com a nossa herança cultural. Para ver se tenho ou não razão, recordemos um pouco de nossa colonização em um trecho retirado do artigo − “O STF e o Símbolo das Algemas” — originalmente publicado pelo editor do blog “Ensaios & Prosas” —, no dia 23 de agosto de 2008:

“Qualquer estudante do primeiro grau ao ler ou ouvir a palavra ‘algema’, irá associar esse instrumento repressor ao tempo da escravidão, onde os pesados grilhões de ferro que limitavam a liberdade do indivíduo eram destinados aos escravos e não aos seus senhores. As algemas combinavam perfeitamente com os pulsos musculosos e nus dos escravos, e não com os antebraços cobertos pela indumentária de puro linho branco reservada aos barões”.

“As algemas colocadas em um “joão-ninguém” não gritam e nem criam tanta celeuma quanto os grilhões atados às mãos de um nobre parceiro da República. Pelo contrário, a insensibilidade ao se algemar um desvalido, por fazer parte intrínseca de nossa triste história, já não suscita nas autoridades as mesmas reações de constrangimento”.

O exemplo de Pero Vaz de Caminha, é uma prova inequívoca de que o procedimento de lotear e pilhar as riquezas da nação brasileira vem de muito longe. José Júlio Senna, em seu sensacional livro – “Os Parceiros do Rei” − Editora Topbooks (página 170), conta que o “primeiro cronista” da descoberta do “Gigante adormecido em berço esplêndido” (Brasil), no trecho final de sua carta à D. Manuel (rei de Portugal) relatando o novo mundo descoberto, não se esqueceu de, secretamente, pedir uma graça especial: enviar de Portugal o seu genro, Jorge de Osório, para se locupletar nas terras ricas e belas de Santa Cruz.

Não importa que estejam em época de bonança ou em tempos de crise, os senhores da nossa república sempre foram pródigos em distribuir benesses a custa do tesouro público. Laurentino Gomes, em seu best seller, 1808 (página 189) faz uma referência de como nos tempos de João VI se executavam os ataques aos cofres do império: “O historiador Luiz Felipe Alencastro conta que, além da família real, 276 fidalgos e dignatários régios recebiam verba anual de custeio e representação paga em moedas de ouro e prata retiradas do tesouro real do Rio de Janeiro. Acrescenta ainda, o autor, que mais de 2.000 funcionários reais exerciam funções relacionadas à Coroa. Um dos padres, recebia o equivalente hoje a 14.000 reais só para confessar a rainha. Em 1808, enquanto a sede do governo dos Estados Unidos em Washington tinha 1.000 funcionários, a comitiva de D. João VI tinha 15.000 portugueses, ou seja, a corte portuguesa no Brasil era 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana. Fique claro que, para fugir da censura, o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense, junto a seu editor, foi despachado para a Inglaterra para não incomodar o príncipe regente, João VI.

Mas já se fala hoje, no meio republicano, em medidas para controlar o ímpeto da imprensa. Que essa mordaça nunca venha a ser empreendida, pois, se assim acontecesse ficaríamos sem um meio de expor a nossa indignação, e, cartas como essa abaixo, publicada pelo jornal “O GLOBO” (1° caderno – pág. 08) – de 12 de agosto, sobre os "Parceiros do Rei" instalados no Ministério do Turismo reagindo a atuação da Polícia Federal, jamais chegariam ao conhecimento do país de ponta a ponta:

“Milhões de reais são desviados dos cofres públicos, num escândalo que envolve vários altos funcionários do governo, e o que se discute é se a Polícia Federal abusou no uso de algemas! Que falta de vergonha na cara.” (Roberto Schweitzer – Florianópolis, SC)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 16 de agosto de 2011

Imagem: cloviscunha.blogspot.com

10 agosto 2011

Do Pai Arcaico ao Pai Moderno

O que os filhos fizeram do pai (editor desse blog)



Parece que aquele pai arcaico e guerreiro, à semelhança do Deus judaico, senhor dos exércitos e das famílias, cedeu o seu trono em troca de uma relação de cumplicidade com os filhos, para desempenhar funções jamais imaginadas em eras passadas. O pai de hoje já não consegue ser mais aquele que toma posse do filho para reger o seu destino.

Um exemplo de como eram as relações entre filhos e pais antiquados está presente na “Carta ao Pai”, que o escritor checo, Kafka (1883 – 1924), redigiu e nunca teve coragem de enviar ao seu destinatário. Na carta do autor de “Metamorfose”, que só veio a público após a morte de seu pai, encontramos essa emblemática declaração:

“Da tua poltrona, tu regias o mundo.

Tua opinião era a certa,

qualquer outra era disparatada,

extravagante, anormal”.

Hoje, as descrições da antropologia definem o pai da pós-modernidade como o “Pai Mutilado” que, ao fundar ou permitir uma moderna desordem no seio da família, abalou os velhos costumes centrados no poder coercitivo patriarcal.

Esse pai pós-moderno, já não vê mais o filho como um objeto inteiramente submisso a sua vontade. Por outro lado, o filho moderno também deixou de ser uma coisa para se tornar um sujeito integral.

O fato é que o que antigamente era totalmente imprevisível, hoje, se tornou corriqueiro: pai e filhos, no final de semana, passam horas na cozinha da casa fazendo barbeiragem nos fogões, ou jogando conversa fora após o almoço, trocando impressões de forma divertida sobre assuntos diversos do cotidiano familiar. Foi-se o temor do filho ser repreendido por discordar do pai. Aliás, não são poucos os filhos, que hoje, têm se tornados verdadeiros conselheiros dos pais, antes deles tomarem qualquer decisão importante. A seriedade da família antiga que, exigia uma postura sacra na hora solene das refeições, deu lugar aos incontroláveis momentos de humor, onde a descontração é o que conta, ante um pai espontâneo, rindo dele mesmo, em meio às histórias engraçadas contadas pelos filhos sobre as hilariantes peripécias do seu dia a dia.

A relação “Senhor-Servo” (patriarcal) deu lugar a um vínculo permeado de intensa cumplicidade, onde o pai é mais amigo do filho do que mentor, em que pese a sua condição de provedor. Os laços afetivos são tão estreitos, com visões de mundo tão alinhadas que os próprios pais chegam a aceitar de bom grado que os filhos posterguem ao máximo a sua saída definitiva da casa paterna.

Pais sendo contestados, desafiados e recebendo conselhos dos filhos?! Quem, em santa consciência do tempo dos nossos avós, poderia pensar que fosse um dia acontecer?!

Não sei bem como será a família do futuro após o desmoronamento dos muros rígidos que separavam o terreno da autoridade paterna do que era a área do filho.

Quem diria que o pai-patrão, um dia, viria a ser um exímio trocador de fraldas, fato que por si só, é um indicativo de que os tempos são outros, tempos de servir aos filhos sem pensar em interesses pecuniários, como era comum no passado dos pais que diziam com fervor: “Estou investindo nos filhos, para no futuro ser bem recompensado por eles”.

O terrível julgamento que proibia os filhos de superarem os pais, presente na evocação da famosa frase do poeta e filósofo romano, Horácio “Valemos menos que nossos pais, e nossos filhos valerão menos que nós” hoje, não há mais razão de ser.

Parece mesmo que estamos vivendo uma nova ordem em meio ao que os conservadores chamam de “desordem familiar”, onde o pai, à semelhança do Deus Patriarcal Judaico cansado de guerras, decidiu, de uma vez por todas, desnudar-se de todo poder para se reinvestir da horizontalidade do amor fraternal, em que todos do lar comungam de um mesmo sentimento, sem frescuras.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 10 de Agosto de 2011

05 agosto 2011

O Velho Violão

O blog “Ensaios & Prosas” está completando neste mês de agosto 5 anos de atividade. Para rememorar o tempo em que me iniciava na arte de blogar, decidi republicar uma das primeiras crônicas que postei (agosto de 2006).
Trata-se da narrativa do triste destino que, sem a minha autorização, deram a um velho violão de braço e bojo quebrados - velho amigo e confidente de minhas antigas farras, que por um triz não foi parar no caminhão do lixo. Por sinal, ele ainda se encontra bem guardado no canto de um quartinho no fundo do quintal de minha casa.


O VELHO VIOLÃO


Ao chegar à minha casa, vindo do trabalho, surpreendi-me ao te encontrar, meu antigo companheiro de grandes aventuras, combalido, de braço quebrado e cordas enferrujadas em desalinho, com o teu bojo a despregar lascas de madeira, ainda de pé, encostado a uma pilastra do grande portão da garagem, esperando o Caminhão do lixo que te levaria a um triste destino.

Entre os objetos lá do quartinho, no fundo do quintal, foste o único sentenciado e condenado a ser enviado para o “Lixão”. Certamente julgado por alguém, que te considerou um estorvo entre as relíquias acumuladas ao teu redor, as quais foram consideradas de mais valia.

Quem sabe, se antes de chegares a tua ingrata morada, outras mãos te pegariam, te apalpariam, e após uma complicada reforma, voltarias a alegrar ambientes de um outro dono. Uma coisa eu sei: a tua história por estes trinta e dois anos em que viveste ao meu lado, o teu novo patrão jamais saberia.

Nos desvãos de minha vida, por todo esse tempo, arranquei de ti muitas canções alegres, e algumas tristes. Tal qual uma esposa me acompanhaste na tristeza e na alegria. O teu som se fazia ouvir entre aplausos. Eras cobiçado pela tua postura e beleza. Os que te ouviam admirados, diziam ao te ver de pertinho: É um majestoso instrumento, um “Di Giórgio”. A tua superfície brilhava e refletia tudo ao teu redor, como se fosse um espelho. Tinha um cuidado especial para não seres arranhado em tua tez macia.

Não...! Não posso te dar tão infame destino! Por duas vezes colei as tuas partes quebradas e voltaste a alegrar a minha casa, pelas mãos dos meus três filhos, que cresceram na arte da música, dedilhando as tuas cordas.

Viajaste por tantos recantos do meu Estado, que eu perdi a conta. Em clubes, igrejas, praias e residências de amigos. Em festas de aniversários e outras comemorações, desde os idos de 1974, quando iniciava a minha vida de médico. Lembro-me ainda, no silêncio das minhas noites de insônia, quando a tua voz ficava mais pungente e suave, e, como um bálsamo, fazia-me flutuar em devaneios de um tempo que não volta mais.

O menor tributo que eu poderia te prestar, o fiz imediatamente, ordenando:

Recolham o que resta deste violão ao quartinho! Algum dia haverá conserto para ele.

Dei-te as costas, e saí, na esperança de que futuramente pudesse extrair de tuas cordas sons dolentes. Sons que me acalmavam o espírito nas noites enluaradas e frias de outono, que me inspiravam a tocar as velhas e nostálgicas canções, que nos meus quinze anos, ouvia ao lado de meu pai em sua vitrola antiga, de discos de setenta e oito rotações.


Crônica por Levi B. Santos.

Guarabira, 17 de julho de 2006

“Nossa memória é um mundo mais perfeito que o universo: ela devolve a vida àquilo que não existe mais” (Guy de Maupassant)