29 julho 2012

O Mensalão em Charges de Chico Caruso





Francisco Paulo Hespanha Caruso, o popular Chico Caruso, nascido em 1949 na cidade de São Paulo, é cartunista, chargista e caricaturista de mão cheia. Desde os idos de 1960 vem produzindo seus humorados desenhos, retratos do cotidiano da vida política brasileira. Em sua trajetória já passou por diversos periódicos nacionais, como: Folha da Tarde, Opinião, Movimento, Gazeta Mercantil, Isto É, Veja, Jornal do Brasil e O Globo do Rio. Nesse último periódico, em sua primeira capa vem, nos últimos anos, publicando suas sensacionais e risíveis charges.

Como todos sabem, na próxima quinta feira (02 de agosto) se inicia o que a imprensa considera  o  "Julgamento do Século" ―, o Mensalão

O Jornal O Globo desse domingo (29 de julho), resolveu, às vésperas do julgamento dos mensaleiros pelo STF, escolher, entre muitas, 21 charges publicadas por Chico de 2005 até o presente, no intuito de relembrar cenas da política brasileira do governo petista, repercutidas na imprensa como o esquema de corrupção jamais visto na história recente do país. 


Para reavivar a nossa memória, não custa nada expor o que disse o presidente Lula em rede nacional de televisão em meados de agosto de 2005: "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis. Indignado pelas revelações que chocam o país, e sobre as quais eu não tinha nenhum conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas!".


Replico aqui algumas das 21 charges que foram, em primeira mão, publicadas no blog do Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo:



08 de junho de 2005: - É tudo invenção - diz Delúbio. - Ah bom! -  replicou Lula



24 de outubro de 2006



16 de março de 2006: O publicitário é um túmulo



Novembro de 2006



22 de dezembro de 2011



2012


Guarabira, 29 de julho de 2012

20 julho 2012

PELADA DE RUA (Memórias)





     Quase todo o fim de tarde, a meninada juntava-se em frente a minha casa, um “bangalô” antigo da rua Treze de Maio em Alagoa Grande – Pb,  para as irrecusáveis peladas.

Quem vai, quem vai jogar pelada hoje?  Quem vai? ― Gritavam os peladeiros.

  O campo de jogo era a nossa própria rua, de chão de barro batido, cheio de pedregulhos, que vez ou outra arrancava unhas e pedaços de “couros” de nossos pés ao chutarmos a bola de mau jeito. No final dessa rua, descambando para a Lagoa, ficava a padaria de seu Abdias, onde sempre àquela hora, exalava um cheiro de pão assando, que nos estimulava o olfato.

  Na parte intermediária da rua, ficava a “venda” de seu João Batista, e no outro extremo a venda de seu Zé Rufino. Seu João era um homem bruto e muito rigoroso que sempre implicava com a gente quando conseguíamos convencer os seus filhos - Tota e Pedro Buchudo, a completar o time pela ausência dos titulares. Estes, eram grossos, e faziam muitas faltas com os seus pesões de número quarenta e dois.

  Dois tijolos, distante um do outro cerca de dois metros formavam as traves. Vez ou outra, quando faltavam goleiros, diminuíamos a distância para mais ou menos oitenta centímetros – era  a  “barra oca”. Os capitães, que tiravam a sorte no par ou ímpar para a escolha dos jogadores, eram Eu e Milton de Tia Olívia. Assim eram formadas as equipes com quatro ou cinco para cada lado. Lembro-me bem de alguns astros de pelada, como: Luiz de Mila, Galego de Seu Tininho, Adolfo de Dona Nevinha, Cristóvão do Zumbi, Antonio da Burra, Novinho, e meu irmão Davi apelidado de Galo de Raça por Tia Olívia, devido as suas constantes brigas com o seu filho Milton. É que este último saía sempre com os olhos marejados de lágrimas para casa, abandonando a pelada devido à grossura de Davi, no trato da bola. Era quando a minha Tia aparecia à janela de sua casa, que ficava a dois metros da lateral do campo, gritando:  
                                                                                                                 
──   Vem galo de raça.... Vem p’ra aqui, p’ra ver se tu não toma o bonde errado. Eu não sou como tua mãe não. Eu não aliso, “branco sarará”!   Tu sabe bem como eu sou!   
                                                                                                   
Davi respondia fazendo gestos provocantes, arremedos e caretas. Não levava desaforo para casa. Rara era a pelada que não terminava em briga e palavrões sempre envolvendo o Milton, que tinha o “pavio curto”. Galego, o menor de todos e o mais tímido (talvez por isso, era sempre escolhido para goleiro), ao levar o primeiro, o segundo e o terceiro gols, era expulso de campo pelo capitão Milton com intenso bombardeio de palavras de baixo calão: 
        
  Tira esta rapariga da trave, essa puta veia não pega nada! “Pia” mesmo, uma bola desta, bem fraquinha, o infeliz deixa passar. Frangueiro, frangueiro! ― Deixa a barra ôca  mesmo − completava, vermelho de raiva.

Sempre que o Galego engolia frangos, eu e meus companheiros de time tentávamos contornar a briga, implorando ao Milton para que fosse mais condescendente com o goleiro. Argumentávamos assim: “Olha rapaz, não foi culpa do Galego. Não deixaram ninguém lá atrás para marcar. Olha, que a gente não joga desse jeito. A bola vai de pé em pé, não somos fominha quanto vocês”. 

       Lá vai o Milton marcar o Davi, que mais franzino e mais rápido não driblava, mas ficava ciscando com a bola entre as pernas, terminando sempre por levar uma rasteira. Sempre que ele derrubava um adversário, uma onda de gritos de gritos surgia: “foi falta..., foi falta.! Pára...., pára!”. Era quando Milton, a sua maneira, replicava furiosamente:      
                                                                                                                                    
     ― Falta não! Não aceito! Esse “bosta” aqui, só porque o time dele está ganhando, quer segurar a bola sem sair do canto. Não quer jogar, dá lugar a outro. E assim, terminava mais uma dramática partida de fim de tarde.

            Em outros momentos éramos muito solidários , quando após um daqueles tortos chutões, a bola entrava pelas janelas das casas, quebrando alguns utensílios, fugíamos juntos em poucos segundos, ficando a rua deserta.

 Em uma dessas ocasiões, após um “bicudo”, a bola entrou pela janela da casa da beata Dona Santa, quebrando o seu quadro do Coração de Jesus, que estava pregado em local bem visível na parede da sala. Ainda guardo na memória a nossa carreira desabalada, e a rapidez com que nos escondemos, sob uma saraivada de lamentos, e “pragas” impublicáveis. Encolhidos, atrás de um muro cheio de trepadeiras, de longe, ficamos a ouvir os gritos da devota, totalmente fora de si:

        Ave meu Senhor do Bonfim, quebraram o meu Coração de Jesus! E agora que vou fazer?  Na certa, foram aqueles molestados jogando bola!

Por uma brecha da parede, podíamos ver a velha de óculos na ponta do nariz, saindo para a calçada, caminhado na rua de um lado para outro, praguejando:

          Eles vão me pagar, nem que seja nos quintos do inferno!  

     Esse grave incidente foi o bastante para encerrar de forma triste mais uma pelada. Nesse dia Dona Santa junto com suas amigas que lhe foram prestar solidariedade saíram para se queixar das mães dos jogadores. Lembro que, Davi (meu irmão) e Eu, apanhamos “surras”, com “peia” de dar em jumento. Depois da sova veio a sentença: uma semana sem jogar bola.

      Como éramos fanáticos por bola, esquecíamos rápido, a surra da véspera. Tanto é, que no dia seguinte já estávamos de novo em outra rua jogando pelada. Noutra ocasião, fomos mais felizes com o incidente: a bola, mal chutada, entrou por uma das seis portas da “venda” de Seu José Rufino. Sob intensa correria, ouvíamos só o tilintar de vidros estilhaçados pela pelota. Achávamos o José Rufino um cara muito legal, pois não nos prejudicava, nem reclamava os malfeitos às nossas mães.

    Certa vez, perguntamos a Laerte um dos filhos de Seu José que algumas vezes jogava conosco  —, sobre os objetos quebrados pela pelota na venda de seu pai, naquele dia fatídico A sua reposta nos deu um enorme alívio: Naquele dia, vocês quebraram uns “cascos” de refrigerantes (guaraná Dore, Sanhauá, Crush e Grapette), que por não valerem quase nada, papai nem chegou a se ligar.

    Depois soubemos que Zé Rufino era doido por futebol. Não perdia um jogo do seu time, o Tabajaras Futebol Clube, nas tardes de domingo. Enfim, tínhamos encontrado a razão pela qual ele não reclamava das bolas que involuntariamente eram disparadas contra sua mercearia. Já com as donas de casa, a conversa era outra: com facas bem amoladas e com ar zombeteiro, cortavam a bola em duas metades, jogando-as bem no nosso nariz.  O careca Zé Rufino não tinha este descabimento. Gostando de futebol como ele, seria um enorme pecado não devolver a pelota intacta, mesmo quando a danada se encontrava suja de lama do esgoto da rua, que descia beirando as calçadas. Só penso que o danado do Zé, era bondoso conosco, porque em sua imaginação, devia ver nos peladeiros de rua, os futuros craques do seu idolatrado Tabajara. E não é que um dos seus filhos, o Carlinhos, veio a ser, anos depois, um dos mais afamados atacantes do seu Time de coração , safra das nossas tão saudosas peladas?!


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de fevereiro de 2006


Site da Imagem: reblogando.com

13 julho 2012

Nossa Vida é Uma “Sonata”




Em uma entrevista o Alemão, Fritz Buchtger (1903 – 1978), afirmou: “Eu acho que a música é o reflexo de um mundo interior de essência espiritual, no qual cada pessoa vive nas profundezas do seu inconsciente. O inconsciente, mansão de muitas moradas, não é uma única sinfonia. É antes, um tocador de CDs os mais variados. Muitos são tristes, como a sonata ‘Marcha Fúnebre’ de Chopin”.

Mas o que tem a ver uma sonata de Chopin, de Beethoven ou de Mozart, com o nosso mundo psíquico?

Os estudiosos já chegaram a uma conclusão inequívoca: existe uma relação íntima entre os afetos humanos e a música.

Alain Didier, psiquiatra e amigo de Lacan, disse: “Diremos, por hora, que o impacto da música não é rememorar, e sim comemorar o tempo mítico desse começo absoluto pelo qual um ‘real’, tendo se submetido ao significante, adveio como essa primeira coisa humana, no nível da qual, aquilo que era absolutamente exterior ― a música da voz materna ― encontrou o lugar onde as notas poderão dançar.”

Quem poderá negar o óbvio, de que em nossa vida de adulto estão a reverberar ou se repetir movimentos relacionados a fatos de um tempo que se encontra insepulto na aurora do nosso entendimento, que apesar de não termos dele lembrança, o sentimos lá no nosso mais íntimo recanto?

A sonata é tão demasiadamente humana, que os movimentos registrados em sua partitura são expressos por signos que revelam a intensidade dos afetos humanos. Entre outros, citemos: andante (como o andar humano); allegro (alegre e ligeiro); adágio (terno e patético); allegro ma non tropo (alegre, mas não muito); presto (veloz e animado); grave (divagar e solene); mesto (triste).

Na consecução dessa sublime música, o compositor cria variações ou movimentos sinfônicos, em tudo, idênticos ao desenrolar de nossa vida afetiva. Geralmente, os temas que aparecem no seu começo são repetidos no final. É como se a música estivesse a nos dizer: “Eu sou o Alpha e o Ômega”.

Assim é a nossa vida: todos os temas ou movimentos de nosso relacionamento que foram gravados lá nas nossas origens, aparecem ou se repetem de forma saudosa, quando evocados no ocaso de nosso périplo por este mundo. As variações que experimentamos pela vida afora, são, na verdade, recapitulações dos nossos primeiros passos, de nossas primeiras reações ante um mundo tremendo e fascinantemente belo. Tanto em nossa vida quanto nesse tipo de execução sinfônica caminha uma coletânea de fragmentos indivisíveis e unidos, à guisa de desvelar a verdade oculta e fugidia, desafiadora das nossas convenções banais.

Os sentimentos que nos perpassam em nossos relacionamentos de adultos, em analogia ao que acontece na sonata, estão incessantemente repetindo alguns aspectos de nossa vida primitiva. Toda empatia que demonstramos em nosso meio relacional, hoje, foi pela primeira vez experimentada junto aos nossos pais, avós e mestres. Tudo que ocorre do nosso Éden Humano para frente, não passa de variações de um tema previamente gravado em nossa formação biopsíquica.

 Na grande teia da partitura constituída pela família e a sociedade, o “modo particular de ser” de cada indivíduo, inconscientemente, é trazido para as mais diversas interações que cotidianamente fluem. E nessa interação, os reflexos de nossa história de desejos, decepções, medos e alegrias infantis se repetem e se reciclam com outras nuances ou tonalidades, como na sinfonia clássica. Então, de uma forma metafórica, podemos dizer que nossa vida é uma SONATA.

Não custa nada lembrar o que, cientificamente, já foi comprovado: a música tem o poder de equilibrar o psiquismo em níveis profundos, apaziguando os “monstros” e os “anjos” que o compõem.


P.S.:
Convido agora o caro leitor, a uma viagem interior através do relaxante tesouro melódico a sonata “Ao Luar” de Beethoven , executada pelo nosso renomado pianista, Nelson Freire:





Imagem: lord-blog.com
Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de julho de 2012

09 julho 2012

O “Habeas Pinho” de Ronaldo (In Memoriam)




Aos 76 anos de idade, faleceu anteontem (dia sete), Ronaldo Cunha Lima, natural de Guarabira - Pb. Como político, foi governador da Paraíba entre 1991 à 1994; senador da república (1995 e 2002); deputado federal (2003 e 2007). Em paralelo com a política nunca deixou de exercitar a sua verve poética, chegando a publicar cerca de quinze livros de poesias.

Em Campina Grande, cidade onde passou a maior parte de sua vida, conta-se que numa madrugada de 1955, um grupo de boêmios fazia serenata ao som plangente de um violão. Por perturbar a ordem pública, os seresteiros foram intimados a passar o restante da noite na cadeia. No dia seguinte, foram liberados, mas o pinho ficou retido.

Ronaldo, poeta e freqüentador dos bares de Campina Grande, nessa época, era um advogado em início de carreira. Os boêmios foram então lhe pedir ajuda a fim de que o Juiz da Cidade pudesse liberar o instrumento apreendido.

Usando uma fórmula, até então inédita, o poeta Campinense fez uma petição em versos ao Juiz da Comarca, solicitando a devolução do instrumento musical, no que ficou conhecido em todo o país, como o “Habeas Pinho”, que passo a reproduzir na íntegra:

Senhor Juiz Roberto Pessoa de Souza.

O instrumento do “crime” que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente doutor, é um violão.

Um, violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão.
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura,
Entre ambos não existe afinidades.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música, e é canção,
É sentimento, é vida, é alegria,
É pureza, é néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso é transitório
Mas seu destino não, se perpetua;
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, doutor, que é suave lenitivo
Para alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão.

Mande entregá-lo pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, doutor Juiz!
Em nome da justiça e do direito
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia,
A consciência assim nos insinua.
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite, para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos
Na certeza de seu acolhimento.
Juntada desta, aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.


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No mesmo tom poético popular do requerente, o meritíssimo despachou sua sentença:


Recebo a petição escrita em verso
E, despanchando-a sem autuação
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
É desumana e vil destruição
De tudo que há belo no Universo.

Que seja o sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida, transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.




Guarabira, 09 de julho de 2012

Site da imagem: marciomelo.com


30 junho 2012

Hobbes, Rousseau, Erich Fromm e a “Natureza Humana”






Temos por hábito, chamar de “cordeiros”, os homens que se comportam de maneira politicamente correta, que são obedientes, influenciados a fazer o que lhes é dito ou ordenado. Em contrapartida, temos o costume de denominar de “lobos”, aqueles que nos prejudicam, ou destroem aquilo que temos como convicções inamovíveis.

No livro “O Coração do Homem” (pag. 17), Erich Fromm, diz algo interessante: “foi baseado nessa concepção de que os homens são cordeiros e, portanto, precisam de líderes para tomar decisões por eles, que surgiram os grandes inquisidores e os ditadores [...]”. “[...] Devemos supor que você, eu e a maioria dos homens somos lobos em pele de cordeiro, e que nossa verdadeira natureza se tornará evidente assim que nos descartarmos das inibições que até agora nos têm impedido de agir como feras. Os lobos querem matar; os cordeiros querem seguir. Daí os lobos levarem os cordeiros a matar, a assassinar, a estrangular, e os cordeiros obedecem não por gostarem disso, porém por quererem seguir”.

Vejamos a oposição entre “lobo/cordeiro” nas argumentações dos filósofos Hobbes (1578 – 1679) e Rousseau (1712 – 1778):

O filósofo, Luiz Felipe Pondé (professor de filosofia e religião da PUC - SP) resume bem o paradoxo da “natureza humana”, nas visões de Hobbes e Rousseau, ainda hoje, motivo de grandes polêmicas no meio acadêmico. Diz ele:

“Para Hobbes, a natureza humana é egoísta, amedrontada e traiçoeira. Por isso ele dizia que o homem é mau, e a sociedade o faz menos mau.

Para Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade é que o estraga. Daí ele propor que devemos fazer uma sociedade em que os pobres mandem, porque eles tiveram menos sucesso com a sociedade corrompida existente. A chave de análise de Rousseau está na suposição de que nossa natureza ‘pura’ só deseja o que é necessário. Os ricos puderam desejar além do necessário, e foram corrompidos por eles, os pobres não”.

A tomada do poder na Rússia de 1917, pelo proletariado marginalizado (os bolcheviques) que depôs os ricos Czares, e a tomada do poder pelo proletariado petista recentemente no Brasil, são dois exemplos de que aqueles que se têm como pobres (cordeiros) podem ser tão “ruins” como os ricos (lobos). O que acontece do ponto de vista psicológico, com a descoberta do inconsciente, é que os pobres “cordeiros” terminam por fazer vir à tona o seu lado “lobo” reprimido ou escondido, quando sobem ao poder. Dir-se-ia que o poder tem o dom de tornar “nu” o “encoberto”. É ele que retira a pele de cordeiro (as vestes, o exterior) do homem para tornar visível ou evidenciar o lobo interior.  

O que as metáforas “lobo” e “cordeiro” parecem evidenciar?

Querem evidenciar que, por “natureza”, somos tanto lobos quanto cordeiros. A nossa natureza é ambivalente, paradoxal ou ambígua, como bem explicava Freud: somos dotados de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos). “Quando faço o bem, o mal está comigo” (apóstolo Paulo). É de Horácio (poeta romano – 65 a.C.) esse emblemático verso: “Mais na mente que no corpo jazem minhas dores / Tudo que me prejudica, com alegria eu busco / Tudo que me faz bem com horror eu vejo”.

O poeta Olavo Bilac, em uma de suas poesias, se expressou de forma brilhante e profunda sobre o dualismo dos nossos afetos paradoxais, simbolizados pelo “lobo” e o “cordeiro”. Se não vejamos:

Não és bom, nem és mau; és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas da virtude satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes;

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem, juntamente em teu peito
Um Demônio que ruge e um Deus que chora.

[Olavo Bilac, 1885 – 1918]



Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de junho de 2012

22 junho 2012

Luiz Gonzaga ― A Cara do São João Nordestino




Viva São João!  Estamos no ano do centenário do maior sanfoneiro do Brasil ― Luiz Gonzaga (1912 ― 1989), natural de Exu – Pernambuco. 

Vi na minha meninice, esse monstro sagrado da sanfona tocando em praça pública no centro de minha cidade natal – Alagoa Grande – PB, tendo  a um lado o Zequinha no triângulo e do outro lado o Catamilho no zabumba.

 Eu ali, embevecido, não via as horas passarem. Extasiava-me encostado ao lastro de um caminhão sem as grades, todo ornamentado, que servia de palco para o trio do baião varar a noite com suas belas modinhas, ainda hoje muito executadas em todo o Nordeste. Quem do meu tempo não se lembra das antológicas canções: Asa Branca (1947) Juazeiro (1948) Qui nem Jiló (1949) Paraíba Masculina (1950)?

Luiz Gonzaga, no período de 1950 à 1960, se apresentava nos comícios do interior da Paraíba, contratados por  candidatos a cargos eletivos de prefeito e deputado estadual. De sua música Paraíba Masculina, conta-se, que José Américo de Almeida, paraibano, autor do clássico nordestino “Menino de Engenho”, ficou revoltado, pois, em sua opinião achava que o Luiz estava debochando da mulher paraibana. O lançamento desse emblemático forró na famosa praça da Bandeira em Campina Grande, terminou em tragédia onde três pessoas foram mortas e dezenas foram pisoteadas e  alguns feridos  por tiros  no tumulto da campanha eleitoral de 1950 em que José Américo de Almeida, era candidato a governador da Paraíba. A música foi lançada como jingle do candidato a senador, pela Paraíba, José Pereira  que foi derrotado pelo senador, também paraibano, Rui Carneiro. Nesse tempo os dois maiores partidos eram o PSD e a UDN.

Mas Luiz, junto a seus comparsas, logo saíu em defesa do baião “Paraíba Masculina”, alegando que ele evocava a bravura da Paraíba nos eventos políticos da Revolução de 1930, nos quais se destacaram os paraibanos, ao lado dos mineiros e gaúchos.

Lá em casa, éramos todos pessedistas (Partido Social Democrático), e eu vibrava em passeatas, carregando bandeiras de cor azul celeste, contra os que portavam as bandeiras vermelhas diabólicas dos udenistas (União Democrática Nacional). No fundo tudo era a mesma coisa, pois, os coronéis de um lado e de outro dominavam com afinco os seus currais eleitorais.

Mas deixemos os entreveros políticos de lado, para ouvir esse belo baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, feito em homenagem à Paraíba (gravado também na voz de Gilberto Gil e Marisa Monte) que, ainda hoje, é muito executado nas noites juninas em quase todas as residências de minha cidade natal:



Imagem: Jornal Integração Brasil

19 junho 2012

Rei e Rainha em Clima de São João





Um dos encontros mais esperados na Rio+20 (que vai até o dia 22 de junho) será o de Lula com o novo presidente da França ― o socialista François Hollande. Já a presidenta Dilma oferecerá um coquetel aos diversos mandatários no dia 20 na Arena da Barra. Enfim, um ambiente festivo para tratar do desenvolvimento sustentável, bem à moda das festas juninas que nesse mês pipocam pelo Brasil afora e, de sobra, mostrar aos estrangeiros o paraíso que é essa Terra Prometida, denominada Brasil.

Foi por volta de 1808 na Bahia de São Salvador, que um clima, em tudo semelhante ao da Rio + 20 recendia, para receber a trupe do imperador Dom João VI e de sua amada Carlota Joaquina, que fugia das garras de um imperador francês — Napoleão Bonaparte —, que invadira Portugal. 

Contrariamente ao que ocorreu com o Imperador português, que fugiu desabaladamente para a Terra Brasilis, a fim de não ser morto pelas tropas napoleônicas, Lula, apesar de deposto, mas ainda reinando, é quem irá agora acolher calorosamente a maior autoridade francesa da atualidade em solo brasileiro, em meio a um clima juninamente festivo.

No livro “Carlota Joaquina ― a Rainha Devassa” —, do historiador João Felício dos Santos, há uma descrição fantástica: O autor, também numa atmosfera inebriante de festas juninas, expõe a chegada das esquadras de Dom João VI à São Salvador, depois de dois meses de navegação marítima a céu aberto.

Quem sabe se as ressonâncias desse delirante desembarque imperial não estão ainda a emitir reverberações em ocasiões como essa, da festiva Rio + 20?. São tão parecidos os ecos juninos daquele tempo com os de hoje, se não vejamos:

“Assim, anoiteceu de todo. Fanfarras e luminárias refletiam de todos os lados a alegria popular [...]. [...] E eram foguetes, bombas, rojões, nos altos e no porto; tiros de salvas, estouros pelos quintais, nas praças, nas ladeiras, nos adros, fogos-de-bengala nos arredores, nos sítios, nas chácaras. As mais pesadas festividades grandemente anunciadas com retretas, lanternas chinesas e queima de mais fogos-de-vista.

João Felício, em seu livro, descreve uma inusitada fala da rainha louca Maria I, mãe de dom João VI, que veio de Portugal à força na esquadra imperial para a paradisíaca colônia.  Ao avistar, de longe, a costa da Bahia, a velha rainha começa a delirar:

— Estamos no Brasil? Sim...sim... e os franceses? Onde estão os tiranos desalmados? Os infiéis? — pergunta a rainha-mãe à sua baronesa, que tinha a função de pentear os cabelos da imperatriz.

— Quais franceses, Majestade?. No Brasil não temos inimigos. O Brasil é melhor —, responde a baronesinha.

— O Brasil é melhor?! Como então o Brasil é melhor? — torna perguntar a louca, arrematando: — Agora, quer dizer que Portugal já não presta?

A rainha louca fitando o horizonte e, ao que tudo indica, imaginando que teria saído do inferno napoleônico, esbraveja:

— É bonito...é! Mas meninas, por cá não há diabos? E aquilo acolá, são igrejas? Igrejas de Deus?

De súbito, a louca Maria I entristeceu-se como se principiasse a chorar.

Valha-me São João! Mas o que me deu na cabeça de juntar o desembarque da elite imperial em Salvador ―1808, à festiva Rio + 20 de 2012?.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 19 de junho de 2012