31 outubro 2012

HOJE É DIA DE RELEMBRAR DRUMMOND




Hoje é dia de Drummond de Andrade (31 de outubro de 1902   17 de agosto de 1987).
Como homenagem justa, nada melhor que trazer a atriz Fernanda Torres para declamar uma das maravilhosas poesias desse fenomenal poeta de Itabira - MG que tanto encantou e ainda encanta o Brasil: “Necrológio dos Desiludidos do Amor”




NECROLÓGIO DOS
DESILUDIDOS DO AMOR


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.

Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba.
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 Guarabira, 31 de outubro de 2012


Site da Imagem: erudicao.wordpress.com

25 outubro 2012

O Retrato e Seu Negativo



Era assim no tempo de minha meninice: quando necessitávamos de fotos três por quatro para serem postas em documentos, recorríamos aos fotógrafos das praças da cidade, conhecidos vulgarmente como “os lambe-lambes”.

As máquinas fotográficas eram enormes caixotes artesanais sustentados por um tripé, tendo, em uma de suas extremidades, uma espécie de pano vermelho semelhante a um fole de sanfona por onde o fotógrafo enfiava a cabeça para captar a nossa imagem.

 Após o filme ser mergulhado em produtos químicos, como o nitrato de prata, obtinha-se a imagem em negativo em que aparecíamos irreconhecíveis como fantasmas. Mais tarde (cerca de uma ou duas horas) os filmes eram enfim passados para um brilhoso papel-cartolina — com a nossa imagem real em preto e branco.

 Os negativos das fotos nos eram entregues junto com o seu positivo (os retratos). Nunca usávamos os negativos (o não revelado) das fotos, com nossas faces monstruosamente feias, para confeccionar novas fotos. Mas não sei por que teimávamos em guardá-los.

 A história do negativo e do positivo da foto me fez viajar.  Olhando bem, nós — os humanos — temos dois corpos: um para ser mostrado — o público, e outro, que guardamos só para nós — o privado. Um corpo “revelado” que, cotidianamente exibimos às pessoas do nosso convívio, e outro horroroso e “particular”, escondido num baú velho de nossa psique.

Assim como antigamente, ainda vestimos a nossa melhor roupa a fim de posar para as fotos. Hoje, quase não percebemos, mas o negativo das fotos que tiramos, com seu aspecto fantasmagórico, fica retido ou escondido em algum recato de nossa mente, a rir da nossa representação; a rir da nossa indumentária perfeccionista no positivo da foto.

Às vezes, os espectros ou “sombras” dos negativos guardados se movem querendo ganhar poder. É perigoso deixá-las se expandirem. Jogá-las fora, não seria a solução, pois incorreríamos na perturbação do eco-sistema que nos dá equilíbrio e nos mantém de pé. Por mais que desejemos escondê-las, como fazemos com o nosso “nu”, continuarão a existir, cobertas pela roupagem social.

Quem sabe se o “mal estar” da pós-modernidade não seja fruto de ressonâncias de algo negativo por nós guardado que, como um corpo privado, se agita por trás do positivo tão cuidadosamente vestido?

Verdade, é que nas fotos modernas, os atributos de nossas funções públicas continuam a ser mais importantes do que os traços feios de nossa porção negativa — àquela fantasmagórica que não queremos rever nem mostrar, apenas tê-las conosco. Para que torná-las públicas, se os outros não vão reconhecê-las como nossas?

Um retrato que apresenta só o positivo, aos meus olhos é coisa ruim. Não é bom esquecer de que para formatar o positivo nasceu primeiro o negativo. Talvez esteja aí a razão pela qual desconfio do sujeito que quer por que quer convencer-me de que o seu corpo que sai nas fotos é inteiramente público e privado.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 25 de outubro de 2012


20 outubro 2012

Concordar ou Não Concordar — Eis a Questão!




As comunidades virtuais que caracterizam o mundo cibernético guardam o sentimento de uma forte ligação entre seus membros. O sentimento de que têm algo em comum, se faz necessário, como condição essencial para o grupo sobreviver por muito tempo. Via de regra, o motor que mantém a durabilidade de uma confraria ou comunidade são as afinidades, alianças de pontos de vista entre seus membros contra uma minoria invasora que faz o contraponto às suas idéias.

Cada indivíduo, isso é uma realidade, tem essa tendência — a de querer controlar, impor, julgando-se portador de todo saber. Isto, inconscientemente, não deixa de lhe conferir um tipo de poder sutil que é exercido sobre o outro. Aí é onde entra o mecanismo do que é certo e do que é errado, com suas conseqüências de se ter que concordar ou não concordar com a opinião daquele que diz que deseja o melhor para o grupo.

Marcos Palácio, em seu livro “O Medo do Vazio” revela, em uma pequena e emblemática frase, o que está no centro de toda comunidade. Diz ele: “o sentimento de pertencimento é o elemento fundamental para a definição de comunidade”. Isso, não quer dizer que inexista preconceito entre os membros de uma comunidade que se dispõe a ser inclusiva.

João Baptista Cintra Ribas (antropólogo da USP), no seu ensaio, “O OLHAR”, diz algo interessante: “Quando evitamos o encontro com culturas diferentes, corremos o risco de nos aprisionar a preconceitos adquiridos na nossa. Por sermos humanos, temos preconceito (isto é, um conceito ou opinião formado antecipadamente, sem ponderação ou conhecimento dos fatos). O problema não é ter preconceito, mas aprender a lidar com ele para que não se transforme em julgamento sem levar em conta o fato que o conteste”.

Não raramente, nas comunidades virtuais, surge um membro contando de modo eufórico a sua experiência no sentido inconsciente de convencer o outro a ser um como ele. Para esse, a fé ideológica é que dar sustento a sua maneira de experenciar o mundo. Se ele percebe a sua identidade ou realidade como a única, a correta, a dos demais membros, por conseguinte é falsa. Se a experiência de um for supervalorizada pelos demais, pode se tornar um problema para o grupo comunitário, pois ela sendo abstrata e subjetiva diz mais respeito ao sujeito elaborador do discurso.

Quem não se lembra do tempo da adolescência, quando o que nos seduzia era ter uma experiência diferente, maior ou melhor que a do outro? É justamente esse anseio instintivo de competição, que reprimido ou guardado no porão do inconsciente, ainda hoje, emite suas ressonâncias dentro dos grupos ou redes sociais.

Esse jogo de campos subjetivos parece manter a chama do pré-conceito no âmago de uma comunidade, Se não vejamos:

Quanto mais as pessoas concordam, tanto mais a coesão de seu grupo pede a exclusão dos que discordam. Se concordo estou reforçando a convicção do outro. Se discordo, posso estar para meu conforto, fortalecendo as minhas próprias idéias. Se não concordo ou discordo, o outro diz que estou em cima do muro.

Como fugir do corpo desse dilema?

Quanto mais lemos e nos aprofundamos na área do saber, mais solitários ficamos, solitário da cultura de massa. Paradoxo: essa cultura, ao mesmo tempo, individualista, considera a capacidade de nos relacionarmos com os outros, uma virtude suprema.

Alguém ai se lembra de uma forma de viver em sociedade que não leve em consideração o outro — aquele que nos desestabiliza com sua maneira peculiar/estranha de ver o mundo?

Não é necessário concordar com o outro. Não concordar, provocar, também é uma forma de participar. Concordam? (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de outubro de 2012


15 outubro 2012

OUTUBRO ― Mês Especial




No meu tempo de criança, outubro era um dos meses mais chatos do ano, porque todo dia era dia de escola. Era conhecido, apenas como o mês das eleições, as quais eram realizadas de quatro em quatro anos, num domingo. Não me lembro de algum tipo de comemoração, tipo, “dia da criança”, até os meus 18 anos de idade.

Mas a Wikipédia, sempre ela, está aqui a dizer na telinha do meu computador: “o dia da criança foi criado por um político brasileiro — o presidente Arthur Bernardes por meio do decreto n° 4867 de 5 de novembro de 1924”.

Fico confuso, e me pergunto: Por que nunca, nos cafundós da Paraíba, onde resido, essa data, no meu tempo de menino, foi alvo de festividades?

Adiantando-me nas pesquisas Googlianas, lá encontrei a resposta: “Para aumentar as suas vendas, as empresas decidiram criar a Semana da Criança. Os fabricantes de brinquedos, encabeçados pela Fábrica de Brinquedos Estrela, só em 1960, é que decidiram escolher um único dia para a promoção e venda de suas bugigangas infantis, fazendo ressurgir o antigo decreto presidencial até então em desuso”. 
Quanto aos brinquedos da marca “Estrela”, lembro-me bem, só os recebia uma vez por ano, entre os 10 ou 12 anos de idade — por ocasião da engalanada noite de Natal (25 de Dezembro). 

Mas o 12 de Outubro, na minha meninice era conhecido, tão somente, como o dia do Descobrimento da América, e não era feriado. Com o estabelecimento do “Dia da Criança”, o mês que era magrinho em matéria de datas comemorativas, começou a engordar. Mais tarde, esse mesmo dia viria a se empanturrar com o acréscimo de mais uma solenidade — a do dia da padroeira do Brasil (N. S. Aparecida), criada por um decreto em 1980.

Sabedor de que o Dia da Criança foi instituído por interesse puramente mercantil, resolvi de novo recorrer a Wikipédia: lá pude compreender porque os outubros tão tranqüilos de minha infância, hoje, estão congestionados de “feriados”. É que outubro, no nosso calendário, é o mês da entressafra (espremido entre o mês de São João/São Pedro e o mês do Menino Jesus).

O embriagador estímulo pelas comemorações, que não são de graça, foi longe. O leitor pode constatar, abaixo, como ficou o mês de outubro, numa tabela bem atualizada que encontrei no Google:

01/10 — Dia Internacional da Terceira Idade
01/10 — Dia do Vendedor
01/10 — Dia Nacional do Vereador
03/10 — Dia Mundial do Dentista
03/10 — Dia do Petróleo Brasileiro
03/10 — Dia da Natureza
04/10 — Dia das Abelhas
04/10 — Dia do Cão
04/10 — Dia do Poeta
04/10 — Dia do Barman
04/10 — Dia Mundial dos Animais
04/10 — Dia de São Francisco de Assis
05/10 — Dia das Aves
07/10 — Dia do Compositor
08/10 — Dia do Nordestino
09/10 — Dia do Açougueiro
10/10 — Dia da Ciência e Tecnologia
11/10 — Dia do Teatro Municipal
11/10 — Dia do Deficiente Físico
12/10 — Dia da Criança
12/10 — Dia do Descobrimento da América
12/10 — Dia de N. S. Aparecida
12/10 — Dia do Engenheiro Agrônomo
12/10 — Dia do Atletismo
12/10 — Dia do Corretor de Seguros
13/10 — Dia do Terapeuta Ocupacional
13/10 — Dia do Fisioterapeuta
14/10 — Dia Nacional da Pecuária
15/10 — Dia do Comerciário
15/10 — Dia do Professor
16/10 — Dia Mundial da Alimentação
16/10 — Dia do Anestesiologista
17/10 — Dia da Indústria Aeronáutica
17/10 — Dia do Eletricista
18/10 — Dia do Médico
18/10 — Dia do Pintor
18/10 — Dia do Estivador
19/10 — Dia do Profissional de Informática
20/10 — Dia do Controlador de Tráfego Aéreo
20/10 — Dia do Arquivista
21/10 — Dia do Contato
21/10 — Dia do Economista Doméstico
22/10 — Dia do Aviador e da FAB
24/10 — Dia da ONU
25/10 — Dia da Democracia
25/10 — Dia do Dentista
25/10 — Dia do Sapateiro
28/10 — Dia de São Judas Tadeu
28/10 — Dia do Funcionário Público
29/10 — Dia Nacional do Livro
30/10 — Dia do Balconista
30/10 — Dia do Comerciário
30/10 — Dia do Fisiculturista
 30/10 — Dia do Ginecologista
31/10 — Dia do Comissário de Voo
31/10 — Dia das Bruxas
31/10 — Dia da Reforma Luterana


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de outubro de 2012

Site da Imagem: maniadeguria.com.br

09 outubro 2012

Arco-íris Histórico em Brasília





Hoje, enquanto saía a condenação do núcleo político do mensalão, o céu escureceu na capital do Brasil. Houve um começo de trevas, mas sem trovões. Um arco-íris, de repente se formou nos céus de Brasília. Um fotógrafo fazendo de sua máquina um meio artístico, cuidadosamente, disparou o flash, captando a escultura, “A justiça” ― estátua em granito de cerca de três metros de altura, situada em frente ao edifício do STF, tendo ao fundo, um belíssimo arco colorido, como que impedindo a aproximação de nuvens negras sobre o local. 

 A escultura saudada hoje em Brasília por um “arco íris”, representa a deusa grega Thémis, filha de Urano e Gaia considerada a guardiã dos juramentos dos homens. A faixa cobrindo os seus olhos significa a imparcialidade: para não ver diferença entre ricos e pobres, entre poderosos e humildes, entre grandes e pequenos ― Tudo de acordo com o espírito do histórico julgamento em pauta.

Que grande coincidência, o aparecimento desse majestoso arco-íris, justamente quando se selava o maior julgamento do século,  considerado por muitos como o divisor de águas, ao separar o antes do depois, no que diz respeito a impunidade quanto ao crime do colarinho branco. Bem, o significado dessa belíssima foto, só o amanhã dirá.

E por falar em arco-iris, não custa nada lembrar que sua origem deriva da deusa Íris. Íris, na mitologia grega, era a divindade feminina que trazia a mensagem dos deuses para os seres humanos.

Para os que acreditam em sinais nos céus, resta aguardar o que  Íris irá, no futuro, aprontar na Terra-Brasilis; terra que o nosso ancestral Dom João VI, um diaquando ainda não existia a deusa Thémis por essas bandas, saqueou para irrigar os cofres do além-mar.


Por Levi B.Santos
Guarabira,09 de outubro de 2012

Imagem:  Veja.abril.com

27 setembro 2012

A Trindade Bem Humana de Feuerbach




Foi lendo a A Essência do Cristianismo ― maior obra, de Ludwig Feuerbach (1804 ― 1872) —, ainda hoje muito polêmica, que pude compreender o “por quê” de Freud (1856 ― 1939) ter dedicado tanta afeição e reverência a este discípulo de Hegel, a ponto de o considerar seu filósofo por excelência. Se Freud foi o pai da psicanálise, porque não dizer que Feuerbach foi o avô desse campo da investigação da psique humana?

A antológica obra de Feuerbach, publicada pela primeira vez em 1841, continua muito atual e, muitos dos seus conceitos são objetos de análises no campo das ciências humanas.

Nesse fenomenal livro há um capítulo emblemático que despertou a minha atenção de forma especial ― o de número VII ―, que consta de oito páginas, o qual versa sobre o “Mistério da Trindade e da Mãe de Deus”. Talvez, a minha militância no meio protestante, durante a minha meninice, tenha influído em maior grau no desejo de devorar com avidez o denso livro desse humanista, filósofo e antropólogo alemão, nascido em Heidelberg ― Alemanha.

Não resisti, e resolvi trazer à tona alguns trechos em que ele descreve com uma perspicácia incomum, como o religioso percebe dentro de sua essência psíquica o que se convencionou como o “Mistério da Trindade”.

Esse inteligente autor, tão combatido pela elite religiosa do seu tempo, revela verdades profundas da psique, tanto do católico, quanto do protestante; conteúdo que transcrevo aqui, retirado das páginas 96 e 97 da recente tiragem do livro pela Editora Vozes (2007) ― edição, ao que parece, já esgotada:

“O filho (refiro-me aqui ao filho natural, humano) é em si e por si um ser intermediário entre a essência masculina do pai e a feminina da mãe, é ainda meio homem, meio mulher, não tendo ainda a consciência autônoma total, rigorosa, que caracteriza o homem e que se sente mais inclinado para mãe do que para o pai. O amor do filho pela mãe é o primeiro amor da essência masculina pela feminina. O amor do homem pela mulher, do jovem pela moça recebe a sua consagração religiosa (a única verdadeiramente religiosa) no amor do filho pela mãe. O amor do filho pela mãe é o primeiro anseio, a primeira submissão do homem à mulher.

Por isso a idéia da Mãe de Deus está necessariamente unida à idéia do filho de Deus o mesmo coração, o de um filho de Deus necessita de uma mãe de Deus. Onde existe o filho não pode faltar a mãe, o filho é inato ao pai, mas não o pai para o filho. Por que Deus o filho só se tornou homem na mulher? Por que outro motivo a não ser pelo fato ser um anseio pela mãe, pelo fato do seu coração feminino, carinhoso só ter encontrado a sua expressão correspondente num corpo feminino? Na verdade o filho permanece, enquanto homem natural somente durante nove meses sob a proteção do coração feminino, mas indeléveis são as impressões que ele aqui recebe; a mãe nunca sai da mente e do coração do filho. Por isso, se a adoração do filho de Deus não é uma idolatria, também não é a adoração da mãe de Deus uma idolatria. Se devemos reconhecer o amor de Deus por nós pelo fato dele ter sacrificado para a nossa salvação o seu filho unigênito, o que ele mais amava, podemos reconhecer ainda mais esse amor se um coração materno palpita por nós em Deus[...].

[...] O protestantismo deixou de lado a mãe de Deus; mas a mulher preterida vingou-se seriamente dele [...]. [...] O antropomorfismo é certamente disfarçado ao ser excluída a essência feminina, mas só disfarçado, mas não anulado. Certamente não tinha também o protestantismo nenhuma necessidade de uma mulher celestial, porque acolheu de braços abertos a mulher terrena. Mas exatamente por isso, deveria ser suficientemente coerente e corajoso para, junto com a mãe, abandonar também Pai e Filho”.

Foi com sua Trindade bem humana que Feueurbach demonstrou que os afetos (essência) entre “filho-mãe-pai” estavam divinizados no homem. Para ele a Trindade reunia as qualidades ou capacidades psíquicas do UNO, consideradas separadamente. Freud, na formulação do “Complexo de Édipo”, se valeu da mesma “essência” Feuerbachiana para mostrar o quanto o ser humano ocidental em seus primeiros momentos de vida encontra-se alienado a mãe para, em uma etapa posterior, se tornar ambivalente com fases ora de submissão ora de hostilidade, ora de amor e ódio ao pai.

Quem já foi criança guarda lembranças, nem que sejam tênues, do reino dessa Trindade “Pai-Mãe-Filho”, onde as fantasias e  mentiras bem pregadas suplantavam as dores dos castigos e das proibições.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de setembro de 2012

Site da imagem: amagolit.blogspot.com

16 setembro 2012

A FÚRIA DE SEMPRE




A fúria resultante da intolerância religiosa vem tomando corpo ultimamente em todo o mundo. Protestos varreram a imprensa mundial ante ontem, tudo provocado por um filme dos EUA que denigre o profeta Maomé.

 No ocidente, baluarte do iluminismo quem diria? É nesse ocidente onde se estabeleceu o histórico direito de respeitar o outro em sua subjetividade, que uma perigosa combinação de fobia e ignorância se vem preconizando contra o Islã. Não há dúvidas de que somos os maiores hipócritas, pois, como supostos herdeiros da razão não estamos preparados para aceitar aqueles que percebem de modo diferente aquilo que tem como sagrado.

Ignoramos ou fingimos ignorar que somos portadores de um impulso de tendências autodestrutivas. Com que facilidade repetimos para nós mesmos essa tão velha mentira: “isto, só está assim por causa do outro!”. Freud acreditava em um princípio que o cristianismo tomou emprestado da filosofia: o de que o nosso maior inimigo é interno e, de forma definitiva, nos pertencia. Grande verdade!

É pura balela dizer-se que se preocupa com o destino da humanidade. O que queremos realmente é a homogeneização ou massificação em que os limites individuais da subjetividade cultural desapareçam. Lá no fundo, o que queremos é continuar a ver com bons olhos normas sociais e culturais se atritarem em suas fronteiras. Dizemos que é heróico morrer pela pátria e pela religião, sem saber que o motivo desse instinto de destruição é conseqüência da falta de síntese entre nossos afetos paradoxais.

Ali Kamel, redator-chefe da revista Veja, filho de um muçulmano e uma baiana, casado com uma Judia, diz algo que devemos nos debruçar para mastigar melhor: “O ‘inimigo’ hoje acredita que fala com Deus. Para eles o apocalipse não é o fim do mundo, mas apenas uma verdade revelada, inescapável, anunciadora do Reino dos Céus na Terra. O mundo não se dá conta de que, para o neurótico em busca do Paraíso, não há diferença entre morrer para matar dezenas ou morrer para matar milhares”.

A guerra entre os "exércitos de Jesus" e os "exércitos de Maomé" — é mantida pelo mesmo e inflamável gás. Esse é o combustível que, desde os tempos bíblicos imemoriais, através dos livros ditos sagrados, continua a fazer estragos. O mito de Abel e Caim é a nossa marca humana, e como ela está tão presente em momentos como esses, em que a máxima de destruir o outro numa tentativa de apaziguar os nossos conflitos internos se torna mais presente.

O filósofo “herege” Nietzsche, foi um dos que exploraram a dúbia natureza humana.  REATIVO, como todo homem, assumiu a gravidade de seus impulsos inconscientes. Ele percebeu que por trás da doutrina religiosa existia a má consciência ou ressentimento que esgotava a força dos “seus piedosos exércitos mentais” na pretensão de um inalcançável aprimoramento moral.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2012


Site da imagem: oglobo.com

07 setembro 2012

São Ridículos? - Acerte Neles!

Foto do Club Recreativo 31 ― Alagoa Grande ― Construído em 1920



Sempre que acontecia baile no clube recreativo 31 de minha cidade natal ― Alagoa Grande (brejo paraibano), sem ser convidados, lá estávamos nós no parapeito de uma das janelas brincando de arremessar bolinhas de papeis, apostando quem acertava mais as cabeças dos casais que dançavam no majestoso salão da famosa agremiação. Sentíamos excluídos daquele ambiente em que uma classe rica dançava sem perceber ao menos que existíamos. Até ríamos de nós mesmos, por nos vermos imaginariamente dentro do recinto pedindo a mão daquelas ricas meninas para dançar e sendo por elas humilhados, rindo de nossas caras. 


Não sabíamos que estávamos, ali, exercendo a nossa gozação: era como se lá das profundezas do inconsciente, uma voz estivesse a nos dizer: “são seus alvos, acertem neles!”. Quem sabe se nesse atirar de bolotas de papel não estaríamos à procura dos nossos próprios corpos nos corpos alheios que dançavam ao som de belíssimos boleros executados pela grande orquestra paraibana, Tabajara, do inesquecível maestro Severino Araújo.

A minha patota, pela incapacidade de enturmar-se com os rapazes e as moças dançarinas, se via excluída de gozar as “delícias” daquela festa. Jogar peteca nas cabeças dos dançarinos era uma maneira de compensar a nossa baixa auto-estima. Ao mesmo tempo, ali, nas pontas dos pés, agarrados ao gradil da janela, sem nem perceber a frieza da madrugada, o nosso grupo conquistava um lugar no mundo — o de reagir sem ser visto.  

Está certo a psicanálise, quando diz: “contestar ou criticar, não deixa de ser uma maneira de conquistar um lugar ao sol”. Quando também afirma: “O homem necessita das excitações exteriores para agir. Em outras palavras sua ação é no fundo uma reação.”

E não é que comecei a perceber àquela massa esfuziante da sociedade como ridícula?! Naquele tempo nada sabia de Freud, para, pelo menos entender que me tornara um crítico destrutivo. Eles (os de dentro do clube) eram, naquela ocasião, a minha instância crítica. Comecei a achar àquela empolgação dançante regada a uísque, uma farsa. Ali, senti desprezo pela facilidade com que muitos se entregavam a frivolidade.

Guimarães Rosa narra de maneira impar o “jogo dos dois espelhos”, representativos do querer e do não querer, contidos em nosso ser ambivalente, se não vejamos:

 “Os dois espelhos — um de parede e outro de porta lateral, em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por um instante, foi uma figura, perfil humano desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento e espavor. E era — logo descobri... era eu, mesmo!. ― O senhor acha que algum dia eu ia esquecer essa revelação?.”

Mas a revelação “Guimarães-Rosiana” me diz que o adolescente que não conseguia se entrosar com os de dentro do clube, ainda existe escondido num porão secreto de minha psique. Às vezes ele se manifesta contestando os avanços insossos da modernidade; outras vezes, esse adolescente rebelde, até parece pertencer a um grupo avesso à sua família originária, querendo se afirmar como independente. De certa forma, ele continua atirando petecas de papeis nas cabeças dos que não fazem parte de seu grupo — uma maneira de, pelo menos em fantasia, reviver o prazer de bater naqueles que, ilusoriamente, não lhe davam bolas, lá no “gueto festivo” do Clube 31.

A exclusão que cultivávamos era percebida reativamente sob  a forma de ressentimento, como se nela estivesse encerrada a condição que considerávamos perfeita de olhar o mundo, tudo, porque nos esquecíamos de olhar o lado avesso ― coisa que uma sutil pergunta poderia revelar a cada um do grupo a que pertencíamos ―, tipo: ”Eles são ridículos porque nos excluem, ou somos excluídos por não enxergamos o ridículo que há em nós?”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de setembro de 2012