22 julho 2016

Temor a Ataques Terroristas nas Olimpíadas Vira Paranoia



Treinamento contra atos de terrorismo no metrô do Rio de Janeiro


A paranoia (ou pensamento delirante crônico) de que atentados terroristas são passíveis de acontecer nas Olimpíadas que se aproximam, pode acelerar o sentimento de intolerância latente na alma humana. O grande perigo que todos nós corremos é o de constrangermos ainda mais pessoas que pareçam diferentes, ou seja, de pele mais escura” afirmou o jurista americano Christopher Kutz, professor de jurisprudência e política social da Universidade de Berkeley (Califórnia), depois dos atentados às Torres Gêmeas nos EUA.


Por sua vez, o americano Thomas Sanderson do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos dos EUA, respondeu algumas perguntas no site do Jornal Nexo, afirmando, logo de início, que a Olimpíada no Brasil pode ser um potencial alvo, ressaltando ao mesmo tempo que leis antiterror também acabam sendo usadas para justificar excessos.

Confiram trechos da entrevista de T. Sanderson no Jornal Nexo.

Jornal Nexo:

O Brasil aprovou uma lei antiterror. Movimentos sociais temem que essa lei sirva para criminalizá-los. Como balancear o terrorismo com a preservação de direitos?

Thomas Sanderson:

Infelizmente, muitos países que aprovam legislações antiterrorismo fazem um uso abusivo desses novos poderes e miram movimentos de protesto e de oposição. Isso acaba enfraquecendo a democracia e gerando instabilidade, que é exatamente o tipo de coisa que o Estado Islâmico deseja. Então, quando os serviços de segurança e os políticos agem de maneira abusiva, eles acabam se tornando serviçais de grupos extremistas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

Jornal Nexo:

O Brasil tem capacidade e conhecimento suficientes para se proteger?

Thomas Sanderson:

Mesmo os melhores serviços de segurança do mundo, como os dos EUA, de Israel, do Reino Unido, da França, foram incapazes de impedir que todos esses ataques ocorressem.

Jornal Nexo:

As redes sociais são armas de propaganda e recrutamento de grupos terroristas. Como isso funciona?

Thomas Sanderson:

A propaganda é uma ferramenta de recrutamento e de influência. O Estado Islâmico recruta pessoas que estão marginalizadas. O grupo empodera essas pessoas com promessas de aventura, de salários, de justiça, de vingança, de redenção e de uma missão divina, que é proteger e construir o Estado Islâmico. As imagens publicadas nas redes sociais oferecem evidências vívidas desses benefícios, influenciando novos membros em potencial. E nós temos zero ou muito pouca condição de fazer uma contraposição a isso.

Sobre a Manchete da Folha de ontem (dia 21) “Governo Monitora Cem Suspeitos com o Terror no País”:

Não há muitos detalhes mas, em princípio, parece que a cultura do vazamento e do espalhafato policial ajudou a produzir uma ação pouco eficiente e, talvez, desastrosa com esta prisão dos suspeitos de se organizaram para a prática de terrorismo nos Jogos Olímpicos. [Jornalista Fernando Brito]

Até a cidade da Padroeira do Brasil não escapou da paranoia:

Principal destino do turismo religioso do Sudeste, Aparecida, no interior de São Paulo, está na lista das cidades sob risco de ataques terroristas, segundo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O município, que vai hospedar a delegação russa de ginástica rítmica, abriga o maior templo católico do país e deve receber mais de 550 mil turistas nos fins de semana durante os Jogos Olímpicos [www.odia.ig.com.br]

O Brasil, mais que as grandes potências, está preparado para qualquer tipo de atentado:

Um General disse durante a audiência que, para garantir a segurança da Rio 2016, o Brasil prevê "a criação de um centro anti-terrorista" com especialistas norte-americanos, britânicos, espanhóis e franceses. O Ministério da Defesa criou uma  estrutura temporária chamada Comando Conjunto de Prevenção e Combate ao Terrorismo que integra todas as capacidades e poderes das Forças Armadas, específicas contra o terrorismo. "Tudo que existe de capacidade de contra terror na Marinha do Brasil, no Exército Brasileiro e na Força Aérea foram agrupados neste comando conjunto para que nós colocássemos essas capacidades à disposição durante os Jogos Olímpicos", explicou o general Mauro Sinott.

Tem mais essa para aquecer ainda mais a paranoia:

Uma vistoria do Sindicato dos Médicos do estado do Rio de Janeiro e do Conselho Regional de Medicina do RJ nas unidades de saúde municipais, consideradas referência para o atendimento durante a Olimpíada, revela que os hospitais estão superlotados e não há condições para que atendam a demanda que pode ser gerada por um evento de grande porte. [Portal G1]


Bem, caro leitor, a paranoia que toma conta do país a duas semanas do início das Olimpíadas, pelo visto, tende a aumentar de intensidade. Com certeza, operações antiterror nunca vistas no mundo serão veiculadas, em seus mínimos detalhes, nos meios de comunicação. Aos que têm mais de 55 anos de idade, para evitar o estresse e problemas cardíacos de graves repercussões, aconselha-se não saírem de casa; vejam tudo pela telinha ou telona de TV em seus macios e confortáveis sofás, servindo-se de pipocas, caso não sejam hipertensos.


Por Levi B. Santos

13 julho 2016

O Velho Conselho Está de Volta: “Procure se Infectar Para Ser Imunizado”





Era bem criança quando por ocasião das epidemias de sarampo, varíola , Coqueluche e tracoma (conjuntivite purulenta por Chlamydia tracomatis). ouvia as mães dizerem: Deixem as crianças brincarem juntas; é melhor que peguem logo a doença para ficarem livres dela”. Não havia ainda a vacinação em massa para essas doenças infecto-contagiosas e as crianças sadias se misturavam com as doentes sem saber que estavam com este tipo de inciativa procedendo a tal imunização pelo contato com os infectados. Quanto mais cedo a criançada pegasse a doença mais rápido ficaria imune a essas moléstias.

Uma fala recente da parte de um ministro da saúde me deixou de orelha em pé, ao evocar os tempos antigos em que as mães fazendo as vezes de agentes leigos de saúde davam seu apoio a imunização natural por contato dos sadios com os doentes.

Em meados de janeiro de 2016 a infeção viral denominada Zica, proveniente dos confins da África estava causando um pânico danado na população brasileira, especialmente por afetar fetos durante a gestação. Como os projetos de desenvolvimento da vacina contra Zica estava num impasse devido ao longo tempo que se teria para que se pudesse abranger o grande número de mulheres que estavam em vias de engravidar, o ministro Marcelo Castro, em uma conversa com jornalistas, saiu com uma solução à moda antiga:

Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Nós vamos dar para as pessoas em período fértil. E vamos torcer para que as pessoas antes de entrar no período fértil peguem a zika, para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa da vacina” ―, afirmou perante a imprensa.

À maneira das mães do meu tempo de criança rude na década de 1950, o ministro da saúde estava ali como que a convidar as crianças do sexo feminino a pegarem logo o Zica. Não deixe de conferir o vídeo histórico abaixo replicado:




A presidente Dilma, após a decisão do ministro da saúde pela imunização natural das mulheres forçando-as a pegarem Zica o mais rápido possível, em um discurso na Abertura da Conferência Nacional de Saúde, valha-me Deus: confundiu o vírus da Zica e da Chikungunya com o mosquito aedes aegypti:

E, agora, eu queria destacar uma questão, que é uma questão que está afetando o Brasil inteiro, que é a questão da vigilância sanitária: gente, é o vírus Aedes aegypti [que ela pronuncia “aegipsi”] , com as suas diferentes modalidades: chikungunya, zika vírus. Nós temos de tratar a questão do Zika vírus com muita seriedade”. Vale a pena conferir o  risível vídeo abaixo replicado:




As mulheres adultas de antigamente não tinha os recursos fenomenais da Televisão para propagarem suas condutas nos casos de epidemias que assolavam o nordeste do país naquele época. Mesmo com a ausência dos recursos tecnológicos de rápida comunicação que se tem hoje, as mães de família dos velhos tempos, em razão da falta de vacinas, realizavam a seu modo suas ações preventivas estratégicas de casa em casa a favor da imunização que consideravam bem natural, ao permitir que crianças sadias entrassem em contato com as doentes o mais rapidamente possivel para ficarem livres das doenças infecciosas que assolavam ruas inteiras.

Quem em sã consciência poderia imaginar que em plena era de imenso progresso na área científica a autoridade maior em Saúde do País viria incentivar as mulheres a se deixarem infectar por perigosos vírus a fim de adquirir imunidade, com o suposto intuito de evitar anomalias fetais em suas futuras gestações.

Pelo andar da carruagem pode-se presumir que algo de apocalíptico existe no ar em matéria de Saúde Pública: E quando todos adoecerem então virá o FIM”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 12 de julho de 2016



Link da imagem do Topo: http://www.leovillanova.net/wp-content/uploads/2015/05/Maio-20-05-15-Aedes-NET.jpg


29 junho 2016

"Credo Católico” e “Credo Psicanalítico” ─ Interseções





O Pai, é o grande herói da criança, principalmente em seus primeiros passos. É para essa figura que o adulto-criança, como ser faltante, transfere seus mais prementes anseios e desejos de completude. Esse “vínculo de amor”, de modo inconsciente, acompanha o homem em todo o seu desenvolvimento. De acordo com David E. Zimermann, essa espécie de relacionamento afetivo, como um pensamento mágico, está presente no homem primitivo: em suas crenças nos mitos e ritos, se fazendo presente até nas modernas ciências e nas culturas vigentes. Esse vínculo de amor tem sido enfocado, a seu modo, nas diferentes instâncias: mitologia, religião, filosofia, literatura, ciências e mais recentemente na psicanálise. Na psicanálise, entre o analisando e o analisado, esse vínculo foi nomeado “amor de transferência” sentimento este que a experiência religiosa, à sua maneira e de modo especial tomou-a para si.

A búlgara, Julia Kristeva, que antes de sua formatura em psicanálise foi professa da religião cristã ortodoxa, vê a experiência religiosa como um equivalente da análise psíquica, uma vez que ambas são propiciadas por um pacto de confiança recíproca. “A análise começa num momento comparável ao da fé, que é estabelecimento do amor de transferência. Eu tenho confiança em você e espero algo em contrapartida” assinala ela em seu livro, No Princípio Era o Amor (editora brasiliense).

Diferentemente do desejo de obter algo em contrapartida, que acontece com o fiel em face do Credo do Pai Todo Poderoso, Kristeva faz a seguinte contraposição em defesa do “Credo Psicanalitico”: “No entanto, a análise termina com a constatação de que não poderia haver contrapartida sem que eu me alienasse ao benfeitor”.

Júlia Kisteva dá a entender que enquanto o Credo católico do Pai Todo Poderoso reflete um amor transferencial (Apego ? Alienação? entre o fiel e o pai imaginário) “o discurso analítico fala de uma humanidade que aceita perder, para reconhecer-se em pura perda.”

O homem religioso preso a transformação imaginária de um mundo imundo e corrupto em um mundo purificado deposita seu penhor, seu desejo, sua força mágica no seu Deus ou Pai Todo Poderoso. Sua adesão à figura desse Pai Todo Poderoso e Sua fantástica narrativa gratifica-lhe com a glória futura. Segundo Kristeva, “O credo analítico, ao contrário, revela-nos verdades desagradáveis no mais das vezes a respeito de nossos próprios interesses psíquicos com que construímos nossos pactos amorosos, profissionais e conjugais. Tudo isso permeado por incertezas políticas, econômicas em meio a um vazio ideológico pouco propício a uma modificação”.

Lou Andreas – Salomé única mulher e ousada poetisa (Vide Link) a participar das reuniões psicanalíticas das quartas-feiras na casa de Freud (Viena) , em seu livro “Carta Aberta a Freud” (página 63 – Editora Princípio – 1931) faz uma menção emblemática ao homem piedoso em face de seu credo religioso:

Não nos esqueçamos de que no nosso próprio campo, vozes se têm levantado para nos alertar quanto a irmos longe demais, ou seja, por assimilarmos projeções grosseiras do desejo do divino às “espiritualizações” das quais ele é objeto. Para torná-lo bem científico têm-se passado conteúdos religiosos sob a luz da filosofia e da ética. Mas o senhor me conhece bastante para saber que nada me repugna tanto quanto despir a Deus do seu velho roupão para vesti-lo com um traje mais apresentável, a fim de introduzi-lo na alta sociedade.”

Por sua vez, falando aos católicos em um seminário na cidade de Paris, Jacques Lacan (realizador da magistral releitura das obras de Freud nos últimos tempos), surpreendeu a todos ao declarar que a religião triunfaria sobre a psicanálise (Vide “Triunfo da Religião" – Editora Zahar):

A religião tem recursos que nem se pode imaginar. Basta ver por enquanto como ela fervilha. São capazes de dar um sentido a vida humana. [...]Eu sou São João e seu 'No Começo Era O Verbo'. Para a análise, é verdade, no começo é o verbo(palavra, linguagem). Se não houvesse isso, não vejo porque a gente estaria nessa, juntos” concluiu surpreendentemente Jacques Lacan em uma entrevista à imprensa”. [Na íntegra, a entrevista de Jacques Lacan à Agence Central de Presse em Paris em 20/04/1974 – está reproduzida no Site Lacaneando Link: https://lacaneando.com.br/entrevista-a-imprensa-do-dr-lacan/]


Por Levi B. Santos
Guarabira, 29 de junho de 2016



24 junho 2016

Escravos da Pós-Modernidade





Desde que o mundo é mundo se apregoa que a justiça, a educação e a Ciência um dia triunfarão e o homem deixará de ser escravo do próprio homem. O que mais se fala hoje é: “estamos cada vez mais progredindo. O avanço da Tecnologia está aí para nos libertar do atraso". Acreditamos que aos poucos estamos conseguindo a tão sonhada liberdade que nossos pais não tiveram. Mas será que não estamos hoje tanto ou mais escravizados quanto foram os nossos ancestrais? Até que ponto nos libertamos dessa herança? O lema idealista de Tiradentes “Liberdade ainda que tardia” ― ainda ressoa em nossos ouvidos, fazendo vibrar as cordas enferrujadas dos nossos corações. O vazio existencial impulsiona-nos ainda a sonhar com um utópico paraíso de paz.

Era o medo de morrer que induzia os antigos escravos a permanecerem submissos a seus Senhores. O espectro desse medo, com sua sombra forte e lúgubre, como nos primórdios, sufoca ainda o nosso desejo de liberdade.

Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, fez um pequeno e emblemático intróito sobre a dialética ― “O Senhor e o Escravo”:

"Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar a sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, que náo teme por a sua vida em jogo. O outro que não ousa arriscar a sua vida, é vencido. O vencedor não mata o vencido, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo “servus”, que agora conservado pelo Vitorioso se torna um eterno devedor.

Como toda moeda tem o seu lado avesso ou oposto, passemos a exibir a outra face da teoria de Hegel: "O Senhor só é senhor em função da existência do escravo. O Senhor depende da consciência do escravo para ser reconhecido como tal”.

O historiador inglês, Theodore Zeldin, em “Uma História Íntima da Humanidade”, tece algumas considerações sobre o paradoxo“liberdade-escravidão”, evidenciando que as pessoas crescem “fatigadas de obediência”, da mesma forma que evoluem “cansadas de liberdade”.Alguns escravos lograram assegurar sua autonomia mesmo sendo forçados a um trabalho desprezível, fingindo aceitar as humilhações, representando um papel de forma que o Senhor vivesse na ilusão de que detinha o comando, em consonância com o provérbio favorito do escravo jamaicano, que diz: “Passe por tolo para obter vantagem”.

O proprietário romano de escravos, Plínio (77 d.C.) ―  apelidado de  ―, "O Velho", no intuito de demonstrar que ele era também um escravo, assim escreveu: “Usamos os pés de outra pessoa quando saímos, usamos os olhos de outra pessoa para reconhecer as coisas, usamos a memória de outra pessoa para saudar as pessoas, usamos a ajuda de alguém para permanecer vivos. As únicas coisas que guardamos para nós mesmos são os prazeres.”

Mas o sonho da sociedade utilitária pós-moderna ainda continua sendo, como nos primórdios, o de um dia poder viver como um Senhor. Não sabem esses candidatos a senhores que ao tentarem abandonar as vestimentas de escravos, estarão se tornando dependentes de outros tipos de Senhores: os robôs da tecnologia niilista, a ciência agressiva, poderosa e insensibilizadora de nossos afetos.

Zigmunt Bauman, sobre a “pós modernidade líquida”, disse: “o homem pós-moderno faz tudo em nome da segurança. Ele quer ser livre e junto com este desejo vem a insegurança que o leva ao pânico”.

Concluindoa escravidão nunca será abolida do mundo. No máximo ela será trocada por novas formas de escravização. Lutar para ser livre já se tornou cansativo e doloroso demais.

Tinha razão Theodore Zeldinquando assim escreveu: “Cada geração procura somente o que pensa lhe faltar e reconhece apenas o que já conhece". No entanto, a despeito dos novos anseios de liberdade, muito do que as pessoas fazem ainda é governado pelos velhos modos de pensar”.

Já que estamos a falar sobre “Senhores e Escravos”, não podeira deixar de abordar um tipo de escravismo que campeia na pós-modernidade, e vem tomando conta de nós, de uma forma sutil e poderosa. Na maior parte do nosso tempo, navegamos muito mais pelo oceano da internet ou em redes virtuais, do que em conversa com os familiares que estão, em corpos, mais próximos em
nossos lares. Dependentes do “Senhor” ― “Mundo Cibernético”― progredimos e ao mesmo tempo retornamos a viver como os escravos de antigamente que não tinham família e não deviam lealdade a ninguém,salvo ao seu Senhor.

A evolução tecnológica que nos tirou das matas, é a mesma que nos aprisiona nas selvas de pedras e de silício. Boa parte das doenças que assolaram a humanidade de outrora, hoje, são facilmente debeladas; em contrapartida não conseguimos fugir do trabalho desvairado, do esgotamento nervoso, da depressão e do estresse. Levados por uma correnteza implacável continuamos escravos de nós mesmos.





Ensaio de Levi B. Santos, publicado originariamente no Blog. C.P.F.G. (Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola) em abril de 2012.

23 maio 2016

As Duas Almas do Lulismo: Um Olhar Psicanalítico

As duas faces do Deus Romano Janus (museu do Vaticano) – simbolizam o dualismo sobre-humano das ideologias


O conceito de inconsciente criado por Freud fez cair por terra a soberania da consciência. A descoberta de que o nosso complexo “eu” não era mais detentor daquela aura de superioridade que se pensava até então, terminou por provocar uma reviravolta nos campos da ciência, religião, filosofia e política. O determinismo do inconsciente tomou a expressão javélica “Eu Sou o que Sou!” para si, deixando a esfera da consciência ao sabor de suas influências, como bem afirmou Erich Fromm em O Medo à Liberdade”: “O homem moderno vive na ilusão de saber o que quer, quando de fato ele quer o que se supõe que deva querer”.

Foi no decorrer de 1970 que o filósofo marxista Louis Althusser, para explicar os raízes psicológicas dos conflitos de natureza ideológica, trouxe para o campo da Teoria Ideológica os conceitos freudianos como, inconsciente, mecanismos de defesas psíquicos, o Superego e as identificações imaginárias que começam a se formar após os primeiros cinco anos de idade. Chegou-se a conclusão de que o substrato psíquico denominado inconsciente tem um papel preponderante na constituição do sujeito. Por essa ótica, as vinculações ou fantasias infantis reprimidas seriam responsáveis pela socialização dos desejos numa idade mais madura do indivíduo. Nos iludimos quando imaginamos que podemos livremente escolher e ficar com o “polo aparentemente bom” de nossa ambivalência psíquica. Vez ou outra, sem que percebamos, lá estamos a nos identificar com o polo antagônico de nosso aparelho psíquico, constituído de afetos negativos que publicamente repudiamos. A identificação com a pessoa que não queríamos ser, é uma espécie de desmascaramento que o inconsciente nos prega enfim, uma verdade inconveniente que geralmente é rechaçada pela consciência para que o indivíduo agarrado monoliticamente a uma de suas dúbias almas, não sofra.

Geralmente demonizamos os nossos afetos negativos. Freud deu o nome de mecanismos de defesa aos atos instantâneos que sempre nos leva a deslocar ou projetar o nosso lado sombrio no outro que estranhamos. O poeta Olavo Bilac imortalizou em versos o conflito ou antagonismo entre essas duas almas: “E no perpétuo IDEAL que te devora/Residem juntamente no teu peito/Um demônio que ruge e um deus que chora.”
Xenofonte (430 a.C.), em termos metafísicos expressou muito bem a velha ambivalência dos afetos: “...Ó Ciro, estou convencido que tenho duas almas; quando a alma boa domina passo a praticar ações nobres e virtuosas; mas quando a alma má predomina, sou constrangido a praticar o mal.”

Na psicanálise, a expressão freudiana “ideal do eu” está no epicentro de todo o pensamento ideológico. “Do ideal do eu parte um importante caminho para compreensão da psicologia coletiva. Este ideal tem, além de sua parte individual, sua parte social, que é também o ideal comum de uma família, de uma classe ou de uma nação” escreveu Freud em “Introdução ao Narcisismo”.

André Singer, porta-voz da presidência da república (2003-07) em seu livro Os Sentidos do Lulismo”, faz uso de linguagem metafórica (ou porque não dizer psicológica?) para dissecar as duas almas (ou polos ambíguos) que habitam a psique petista. Aos polos paradoxais da ambivalência lulista ele deu os nomes: “espírito de Sion” e “espírito de Anhembi”. Por “espírito de Sion” entenda-se o anseio aguerrido de forte teor anticapitalista presente no coração dos militantes que frequentavam as salas do colégio Sion em Higienópolis (São Paulo) - na segunda metade dos anos 1970 – local onde a maioria da juventude reivindicava uma sociedade sem patrões. O “espírito de Anhembi” caracterizava a segunda alma do PT, que tem na “Carta ao Povo Brasileiro”(junho de 2002) um Lula se comprometendo com as exigências do capitalismo (época do Lulinha Paz e Amor), tanto é que agregou como vice de sua chapa um empresário do partido Liberal, o mineiro José de Alencar. Essa alma paradoxal do lulismo, através de um processo sutil de identificação, estaria a flertar com o neo-liberalismo praticado por FHC.

Segundo André Singer, a guinada do Lulismo para a direita na campanha pela presidência da república em 2002 deixou atônita boa parte da esquerda petista. Por incrível que pareça, foi a segunda alma do lulismo com vestes de direita, que levou as camadas mais escolarizadas a elegê-lo para o primeiro mandato: 32% dos votos obtidos por Lula em 2002 foram daqueles que ganhavam mais de dez salários mínimos, e 28% dos que ganhavam em torno de cinco salários. A parcela dos pobres (até dois salários mínimos) contribuiu apenas com 15% do total de votos adquiridos por Lula. (Fonte: Datafolha).

No segundo mandato de Lula (2006) as classes (abastada e média) que o elegeram em 2002 abandonaram o barco petista. A decepção provocada pelo mensalão, sob o lema enganoso de Zé Dirceu (O PT não rouba nem deixa roubar), foi responsável pela debandada da classe média. Ocorreu então uma inversão: o lulismo deslocou-se da metade superior da pirâmide para a base (população de baixa renda). O estilo individual de ascensão social levou os mais pobres a fazer vista grossa ao moinho da corrupção nas altas esferas da coalizão petista. O eleitorado menos escolarizado do Nordeste (reduto pertencente ao PMDB) que não aprovara o lulismo no primeiro mandato, nessa nova edição deu a vitória a seu maior expoente.

No dizer de André Singer, “os dois mandatos de Lula à frente do executivo formaram síntese contraditória das duas almas que hoje habitam o PT. Foi o fato de ter sido viável promover simultaneamente políticas que beneficiavam o capital e a inclusão dos mais pobres, com melhora relativa na situação dos trabalhadores, que permitiu a convivência dos espíritos de Anhembi e de Sion”.

A militância entusiasmada petista, polarizada na alma ou espírito de Sion nos anos 1980, apregoava a apropriação social dos meios de produção e uma utópica sociedade sem patrões. O arrefecimento nas suas hostes, hoje, creio que se deve mais a compreensão de que as duas almas do Lulismo poderiam coexistir sem turbulências ou maiores atritos. Os argumentos ideológicos (de direita e de esquerda) por mais dissonantes que pudessem ser, bem que poderiam conviver pacificamente com as forças do mercado, desde que as facções dos idealistas não viessem a se lambuzar no farto mel nem se atrevessem a ir com muita sede ao pote.

Em suma, numa leitura freudiana, o “espírito de Sion” seria nada mais nada menos que resquício de um poderoso afeto da vivência primeva do indivíduo, uma espécie de ressonância do vínculo paterno a que estavam ligados indissociavelmente na tenra infância. Por um processo psicológico de identificação/deslocamento, o poder paterno estaria representado pelo Estado: ele seria o eterno provedor das massas inflamadas. Já o “espírito de Anhembia segunda alma do lulismo , corresponderia àquela fase de rebeldia (adolescência) onde a rua, e não mais a casa ou o lar, é que tinha o condão de atrair os meninotes do meu tempo para o campo do liberalismo com suas luzes, seu maravilhoso mercado de troca de Gibis e de revistas novelescas da Abril Cultural, além de uma parafernália de objetos que estimulavam o desejo prazeroso de possuí-los. Eu diria, até, que o espírito do Anhembi foi o grande responsável pelo deslumbramento da pós-modernidade. Como o homem é um animal contraditório por natureza, um fato não se pode negar: às vezes, o espírito de Sion entra sorrateiro na sala do pensamento do sujeito, provocando uma pungente nostalgia, tal qual um grito saído da boca dos ancestrais a invocar o primitivismo latente mas não morto que habita os porões sombrios de sua psique.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de maio de 2016

Site da Imagem: quiltsareforever.blogspot.com

13 maio 2016

Novo Presidente Evoca o Positivismo




O Positivismo, sistema filosófico criado pelo francês Auguste Comte em 1852, pretendia dar ares de ciência aos pensamentos metafísicos da religião. Republicanos de nossa história, como Benjamin Constant e Cândido Rondon foram ardorosos seguidores dessa corrente humanista.

Segundo a doutrina positivista o ser humano passava por três fases. Na primeira fase (Teológica) os fenômenos naturais e sociais eram percebidos como ações divinas. A segunda fase (metafísica) abrangia o estágio em que o indivíduo, pela reflexão, interpretava o mundo através de conceitos abstratos. A terceira fase (Positivista) compreendia o estágio mais avançado em que os fenômenos eram bem mais dissecados, através de elaborações preconizadas pela metodologia científica.

Da célebre frase cunhada por Auguste Comte, “o Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim” foi derivado o lema Ordem e Progresso” que adorna nossa bandeira nacional.

Hoje, em plena pós-modernidade, ecos da construção filosófica Comteana ainda emite seus eflúvios. Influências do positivismo, por exemplo, inspiraram recentemente Michel Temer a adotar o logotipo para seu curto governo em meio a uma crise sem precedentes: A logomarca “Pátria Educadora” que servia de pano de fundo televisivo para as aparições da presidenta recém-afastada, deu lugar a um globo estrelado na cor azul sobre um fundo também azul com a faixa “Ordem e Progresso” em amarelo, tendo abaixo a inscrição “BRASIL Governo Federal” símbolo do presidente interino que pretende ir até o final de 2018.

Dizem que Religião e Política não se misturam: são como o óleo e água. Mas só mesmo o Michel Temer, no alto de seu último estágio compreendido por altas e profundas elaborações metafóricas(Positivismo), é quem sabe as motivações reais que o levaram a tecer considerações “temerosas” sobre o tema “religião” no encerramento do seu discurso de posse:

Religião vem do Latim “religare”. Portanto quando você é religioso você está fazendo uma religação. O que queremos fazer agora com o Brasil é um ato religioso, um ato de religação de toda a sociedade brasileira com os valores fundamentais do nosso país” finalizou de forma enfática.

A filosofia positivista de Auguste Comte influenciou a nossa nascente república nos idos de 1889, ao trazer em seu modus operandi conceitos de cunho religioso para os campos da sociologia e da política. A psicanálise diz que nunca podemos estar seguros de que uma ideia que se apodera de nós é realmente nova. A instância psíquica denominada “Inconsciente” costuma pregar peças na Consciência. Quem sabe se esse mesmo pensamento positivista que inaugurou a república de Deodoro e Floriano, não está arraigado no inconsciente dos intelectuais republicanos de hoje? O próprio Temer, pode ter sido vítima das forças poderosas do inconsciente quando, poucos dias atrás ao sondar quem deveria fazer parte do seu quadro de governo, convidou um líder religioso para a Pasta da Ciência e Tenologia. Como religião e ciência aqui em nossas plagas são instâncias inconciliáveis, o novo presidente prontamente se desvinculou da ideia positivista de unir essas duas categorias: a pasta da Indústria e Comércio caiu melhor nas mãos do religioso.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de maio de 2016

08 maio 2016

Na Casa de Bazinha (Nove anos atrás)







Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a ideia de que “a vida é um eterno retorno”, pois o tempo gira, gira, gira e está sempre a nos levar ao ponto de partida.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, ele ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dou o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas não ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, fala por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?


Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço vem do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castiga há anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias dos doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado, meio dormindo, vou ouvindo os seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas ela vai dizendo:

Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui…

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo como sempre:

Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E é assim, bem junto a minha rede, após o almoço, que ela vai desfiando suas demais queixas, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─ continua falando minha mãe.

Essa sua última queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, falo sério para ela:

A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, ela se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

Já são duas horas da tarde. Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba, café com biscoito e “delicia” lá na mesa.

Ela continua com aquele mesmo cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde. No horário exato diz: “levanta”! E eu, preguiçosamente saio em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que ela sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participo desse rito médico-sentimental. Até quando? Só Deus sabe.


Crônica por: Levi B. Santos
Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007



06 maio 2016

A República de Volta ao Éden



Numa época de grave crise moral, política, ética e econômica em que sentimentos, os mais diversos, inflamam corações, não custa nada recorrermos a um pouco de humor para amenizar a febre que, de forma pendular, nos faz passear para lá e pra cá revisitando os polos de nossa natureza contraditória ou paradoxal, sem se fixar em nenhum deles.

Em um momento grave como este que estamos passando, nada melhor que fazer uma releitura da velha história de “Adão e Eva”, referência religiosa e mítica de nossos afetos ambivalentes. Os polos antagônicos representativos das dualidades amizade e traição, amor e ódio, vingança(ressentimento) e misericórdia, “verdade” e mentira, tais quais ondas em um mar agitado se batem sem dó nem piedade contra perigosos rochedos litorâneos.

O Colunista e escritor, Ruy Castro, na Folha de São Paulo de hoje (dia 06)nos brinda com um artigo que vem bem a calhar com os hilários e últimos acontecimentos de Nossa Republiqueta. O autor em “A História da Maçã” evoca os arquétipos antagônicos internalizados nos personagens Adão e Eva, que de forma risível mas também simbólica, estão imortalizados nas letras das marchinhas dos antigos carnavais.


A História da Maçã [Por Ruy Castro]


"Eva querida/ Quero ser o teu Adão/ Dar-te-ei o meu amor e a minha vida/ Em troca do teu coração// Hei de conquistar/ O teu amor se Deus quiser/ Custe o que custar/ Haja o que houver/ Serei capaz de qualquer prejuízo/ Mas te darei o Paraíso"– "Eva Querida", de Benedito Lacerda e Luiz Vassalo, com Mario Reis, Carnaval de 1935.

"Adão/ Meu querido Adão/ Todo mundo sabe/ Que perdeste o juízo/ Por causa da serpente tentadora/ O nosso Mestre/ Te expulsou do Paraíso// Mas, em compensação/ No teu pobre coração/ Que era muito pobre/ Pobre, pobre de amor/ Cresceu e se eternizou/ Meu Adão/ O teu pecado encantador"– "Querido Adão", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, com Carmen Miranda, Carnaval de 1936.

"Papai Adão/ Papai Adão/ Papai Adão já foi o tal / Hoje é Eva / Quem manobra/ E a culpada foi a cobra// Uma folha de parreira/ Uma Eva sem juízo/ Uma cobra traiçoeira/ Lá se foi o Paraíso!" – "Papai Adão", de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, com Blecaute, Carnaval de 1951.

"Eva, me leva/ Pro Paraíso agora/ Se estou com muita roupa/ Eu jogo a roupa fora// Você vive bem/ Em pleno verão/ Você vai ao baile/ Até de calção/ Queria também/ Usar pouca roupa/ Mas é que a polícia/ Daqui não dá sopa" – "Eva", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, com Marlene, Carnaval de 1952.

"A história da maçã/ É pura fantasia/ Maçã igual àquela o papai também comia/ Eu li no almanaque que um dia, de manhã/ Adão tava com fome e comeu a tal maçã/ Comeu com casca e tudo/ Não deixando nem semente/ Depois botou a culpa/ Na pobre da serpente" – "História da Maçã", idem Haroldo e Milton, com Jorge Veiga, Carnaval de 1954.

São teses que reuni para um eventual debate sobre Darwin com o bispo Marcos Pereira, provável ministro da Ciência e Tecnologia do governo Temer.  [Ruy Castro]