15 agosto 2015

De Que Rimos nas Piadas?



A História conta que no papiro de Leiden (século III) foi encontrada a inscrição: “O Universo nasceu de uma enorme gargalhada”. Mas, quatro séculos antes de Cristo, os sábios gregos já tinham o riso como centro de suas atenções. “Aqueles que não fazem brincadeiras e não suportam os que as fazem são, tudo indica, rústicos e rabugentos” ─ diziam eles. É do filósofo Aristóteles (322 a.C) a célebre frase,“O Homem é o único animal que ri” [História do Riso e do Escárnio ─ de Georges Minois]

O certo é que foram os gregos (e não podia ser outro povo) que acabaram por transferir seus sentimentos e afetos para o âmbito do sagrado. O brincar com as palavras adquiriu uma aura divina, e pôs Deus como o autor do primeiro riso. Daí então ele se tornou inextinguível. Existe até um prólogo helenizado do Gêneses bíblico:

“Tendo Deus rido, nasceram os sete deuses que governam o mundo… Quando Ele gargalhou fez-se a luz… Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo. Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas Ele ri tanto que chora, e de suas lágrima nascem a alma”. [ História do Riso e do Escárnio ‒ Georges Minois ]

Mas deixando de lado o campo mitológico-poético, afinal, de que rimos nas piadas?

Freud, que se debruçou intensamente sobre esse tema, no seu livro “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, definiu os humoristas como “aqueles que captam a fragilidade do homem, seus conflitos, sua finitude, sua dor e seu sofrimento, cravam as unhas no mal-estar, desviam do interdito e dali saem com um dito espirituoso que os faz rir de si mesmos, ou do outro e faz o outro rir. São eles que revelam nossas contradições, nossas falhas, nossas imperfeições. Através do humor, todo poder constituído é gozado, as teorias perdem sua pomposidade, as religiões, as ideologias mostram sua face frágil e nua”.

O velho e mundialmente conhecido ditado, “Rir é o melhor remédio”, por si só, já resume bem o efeito terapêutico proporcionado pelo riso. Quando o sujeito rir realiza uma catarse. Na piada, o álibi carrega uma verdade do sujeito que, de outra forma, não viria à tona. Fica aí claro que, quem conta a piada pesca no ouvinte algo já existente em seu próprio subconsciente.

Por ofender nossos valores morais, políticos e religiosos ‒ a anedota ‒, é considerada politicamente incorreta. O psicanalista Renato Mezan, em seu livro, “Estudos de História da Psicanálise”, diz que rimos até de nossa própria mãe. Para evidenciar esse fato, o autor supra-citado narra a seguinte piada:

O vovô propõe que, antes de comer, todos façam uma oração. “Eu não vou fazer oração nenhuma”, diz o Jacozinho. A mãe o repreende: “Mas como? Na nossa casa, sempre rezamos antes das refeições. Por que não na casa da vovó?”. E o menino: “Por que ela sabe cozinhar!”.

Rimos ao nos identificar com o Jacozinho, sinal de que, lá no fundo, alguma queixa ou reclamação temos contra a nossa mãe. “Na identificação acolhemos um pensamento que, sem o admitir, já abrigávamos em nossa mente ‒ e o riso manifesta o alívio por poder fazer isso sem culpa”.

Da grande coleção de anedotas judaicas tiradas da história da psicanálise, Renato Mezan nos brinda ainda com uma primorosa, onde o um dos dogmas centrais do cristianismo é posto em cheque de modo engenhosamente provocante. Por ser uma piada globalizante, talvez, quem sabe, dela rirá tanto o ateu, quanto o judeu, o cristão e o pagão:

Dizem que um cidadão levou toda a família para conhecer Jerusalém: Esposa, filhos, a babá – e a sogra. No segundo dia da visita, a senhora tem um mal súbito, e parte desta para melhor. Muito embaraçado, o homem vai até uma agência funerária, onde o encarregado lhe diz que tem duas opções: enterrar a falecida lá mesmo, o que custaria 5 mil dólares, ou repatriar o corpo, o que sairia por 25 mil dólares. Depois de pensar um pouco, ele escolhe a segunda opção. Um tanto espantado o funcionário pergunta por que o cliente prefere gastar cinco vezes mais para resolver o seu problema. Resposta: “porque aqui já houve um caso de ressurreição”.

A piada é transgressora na medida que toca o pólo “negativo” de nossa ambivalência que normalmente relutamos para que não apareça perante os outros. Ela evidencia, acima de tudo, o nosso lado “anti”. Damos gargalhadas de nós mesmos, ou seja, rimos do nosso lado anti-católico, antipuritano, anti-nobre, antissocial, anti-deísta, antidemocrático, etc, exposto de forma desconcertante pelo humorista em seus “fictícios” personagens. Poderíamos até dizer que a piada expõe o nosso próprio pré-conceito inconscientemente internalizado. Rimos até do ridículo humano, tão humanamente exposto em situações constrangedoras. O gracejo tem o poder de suspender a nossa inibição sobre determinados aspectos ocultos em nossa personalidade, deixando-nos livres para rir do ridículo que há em nós. Quando o hilário, que socialmente nos é negado, aparece no outro (personagem central do gracejo), somos levados à irresistíveis risadas. Em suma, rimos de uma piada porque ela viola o que culturalmente foi instituído como um “bem moral”. “Quando a piada é entendida a inibição que pesa sobre determinadas ideias passa a ser supérflua ‒ o inconsciente se torna consciente” (Renato Mezan)

Piadas ofensivas e ditos jocosos envolvendo autoridades políticas que perderam sua credibilidade são compartilhadas entre amigos nas redes sociais com o intuito de provocar riso. É no mundo virtual que a união das gargalhadas de muitos dos internautas se tornam uma demonstração de força. O meio cibernético favorece a disseminação de todo tipo de piada. Sem o temor de ser retaliado, o indivíduo nesse ambiente, experimenta e até abusa do prazer de trucidar o adversário através do riso.

O riso também tem seus insondáveis mistérios. Conta-se que certo pregador, após cumprir o dever religioso, notou que a plateia permanecia silenciosa e triste. Como era um dia de domingo, onde cairiam bem a folga e o riso, dirigiu-se aos fiéis de forma espirituosa:

“Desperte o dom de fazer rir que há em você. Olhe para seu irmão aí do seu lado e conte-lhe uma piada bem engraçada!”

Não demorou muito para o poder do riso tomar a todos. E riram-se deles mesmos, como nunca antes haviam rido.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de agosto de 2015

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08 agosto 2015

O Software dos Afetos





O software é um programa micro-eletrônico destinado a armazenar uma sequência de instruções escritas, a fim de que tarefas específicas possam ser interpretadas e executadas pelo computador. Acho que poderíamos transportar o conceito desse elemento do mundo cibernético para a vida instintiva do indivíduo (com seus impulsos e afetos). Não é à toa que, pela sua complexidade operacional, comumente se compara o computador ao cérebro humano.

Sendo assim, os dois primeiros softwares humanos corresponderiam ou conteriam as primeiras experiências do bebê: a de gratificação que embute o prazer e a de frustração, representada pelo desprazer. Esses dois softwares centrais, com o tempo se conectariam a softwares secundários, como o da submissão, da inveja, do ciúme, da agressividade contra o intruso, do afeto de afeição e apego. Diríamos que o software dos afetos, que agem a partir do primeiro vagir do bebê, continua a reverberar indefinidamente, toda vez que o adulto se confronta com situações análogas às vivenciadas nos seus primeiros anos de vida.

“Recordar, repetir e elaborar” constituiriam a base do mecanismo consciente/inconsciente da psique, diria Freud em “Além do Princípio do Prazer”. Ou seja, as reações instintivas com sua gama de afetos ambivalentes repercutidas no adulto, no fundo, são repetições de cenas que vivenciou em sua tenra infância. A psicanálise faz ver que o modo de inserção do adulto na vida social, está repleta de ecos vindo lá de trás, implantados ou inscritos em softwares do intricado campo mental. Às vezes, tal qual um computador com alguns arquivos travados, conservamos certos gestos ou um tipo de conduta, sem saber que nesses atos compulsivos exibimos um ordenamento previamente programado.

O software responsável pelo sentimento da criança que, para evitar o desprazer de não ter um brinquedo igual ao do seu amiguinho, toma-o e o destrói, é o mesmo que age na vida adulta. Como muito bem definiu, Zuenir Ventura, em seu livro “Mal Secreto”: “A inveja é não querer que o outro tenha”.

Como tudo na vida é repetição, o sentimento de inveja, no adulto, não passa de uma reprise da primeira inveja vivenciada. É para evitar o doloroso desprazer de ver nossos recalques sendo expostos, que reprovamos no outro (o invejoso) o sentimento de inveja que experimentamos primariamente na infância. Dizem os filósofos que, dos sete pecados capitais, só a inveja se esconde. O escritor, dramaturgo e torcedor fanático do Fluminense do Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues, já dizia: “há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista, nem ao médium depois de morto. Uma delas certamente é a inveja”.

Donald W. Winnicott, pediatra inglês, cuidou de crianças adolescentes traumatizadas na época da segunda guerra mundial e, para melhor compreender o seu drama interessou-se pela psicanálise. Ele, por fim, entendeu que a vida social e afetiva do adulto dependia muito da criança que um dia existiu.

Françoise Dolto, psicanalista francesa que dedicou toda sua vida a cuidar de crianças que perderam os pais na segunda guerra mundial, assim se referiu, ressaltando o sofrimento nascido das separações primeiras, dos primeiros sentimentos de frustração e desamparo experenciados por meninos e meninas de seu tempo:

“Esses momentos de graça do fenômeno humano ― que somos para nós mesmos ―, todos nós conhecemos desde a infância. […] Cada um de nós, quando estreitado pelo sentimento de não ser compreendido, de ter um sentimento impossível de comunicar; sentimento doloroso que faz o corpo estar mal em meio aos outros, em família, em sociedade, num grupo, na multidão, cada um de nós sente a solidão amarga que traduzimos por tédio, angústia, tristeza e melancolia”.

Tanto na criança já grandinha de seis anos de idade quanto no adulto, o software do prazer bebe de uma mesma fonte. O “princípio da realidade”, no entanto, vem sempre se opondo ao “princípio do prazer”, para que não se morra de uma overdose de gozo, como mostra o pequeno excerto abaixo reproduzido.

Um menino de seis anos de idade, ao observar seu irmão mamando no peito da mãe, fala: “Mamãe, eu também quero mamar!”. A mãe responde: “Mas você já mamou...”. E ele exclama: “Mas eu não sabia!”. O menino almeja retornar ao gozo que ele supõe que teve, agora, sabendo… Como se diria, sabendo das coisas… Essa fantasia (ressonância emitida pelo software dos afetos – grifo meu) parece ser a mesma que se revela no dito coloquial dos adultos: “Eu era feliz e não sabia!” [Trecho do livro – “Lacan, o grande freudiano” – de Marco Antonio Coutinho]

O software que agia na primeira fase da existência do indivíduo é o mesmo que ainda hoje ressoa no peito do adulto. Por isso é que se convencionou (e com razão sobrada) que o passado tem muito a dizer ao presente. Às vezes, enxergamos viajando conosco a criança astuta, chorona e rebelde de tempos atrás. Por que não dizer que há momentos em que somos surpreendidos repetindo gestos, cacoetes e atitudes apreendidas e aparentemente perdidas nas brumas do tempo ou encaixotadas em um porão obscuro da mente?



P.S.:

Ao falar em “porão obscuro” e sobre a influência de fatos do passado de criança sobre o nosso cotidiano de adulto, lembrei-me de uns versos que fiz e postei aqui nesse recanto em junho de 2012. O(a) leitor(a) que desejar conferir é só clicar aqui no título ― “Porão Esquecido”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de agosto de 2015

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02 agosto 2015

Foi-se a Utopia: “Tudo é Permitido na República”




“Cuidemos de tornar esta vida tolerável; ou, se for demais, que pelo menos sonhemos que assim é” ― sentenciou Louis-Sébastien Mercier, tomado pelo espírito utópico. Disse isso, em seu livro, “Memórias do ano 2440”, publicado no longínquo 1771.

Longe ainda de 2440 e, em pleno 2015, o que vemos e sentimos, na realidade, é o declínio acentuado dos impulsos utopistas do Homo Sapiens brasileiro, por um mundo mais digno e justo.

Aqui, nas terras de Dom João VI, navegamos em um mar de escândalos nunca vistos ou imaginados. Ninguém mais acredita num futuro promissor. E como se poderia acreditar, quando o que mais se pensa é na maneira mais esperta de manipular a barca do estado que se encontra à deriva?

A situação vexaminosa que estamos enfrentando nos últimos anos, trouxe-me à mente a peça “Ascensão e Queda de Mahagonny”, do famoso dramaturgo alemão, Bertolt Brecht (1898 ― 1956):

No primeiro ato da peça, o procurador Willy e seu subordinado encontram-se perdidos no meio de um vasto deserto. O caminhão em que viajavam à procura de ouro pifou ou emperrou, e não tinha como ir nem para frente, nem para trás. O procurador, então, é tomado por uma ideal, em tudo parecido com o que comumente se ver no submundo de nossa republiqueta. De uma forma muito usual entre nós, o personagem principal do enredo de Bertolt Brecht, dispara:

“Bem, tive uma ideia: já que não podemos tocar para frente, vamos fundar uma cidade, e lhe dar o nome de Mahagony, que quer dizer ― cidade arapuca. Ela vai ser como a arapuca que se arma para os passarinhos. Em toda parte se dá duro e se trabalha, mas aqui se goza”.

Enquanto Mahagonny está a espera de um tufão, os grandes e inteligentes homens chegam a uma “sábia” decisão:

“Nós não precisamos de furacão nem precisamos de tufão, porque todo o horror de seu poder, nós mesmos podemos fazer.
Não tenham vã esperança/Não há retorno mais/O dia traz bonança/ E logo a noite avança,/mas a manhã jamais.
Quando há algo que podes comprar com grana/ Pega então a grana/ Quando alguém passar com grana,/Dá-lhe uma paulada e toma a grana/ Isto é permitido.
No interesse da ordem/Em benefício do Estado,/Para o futuro da humanidade,/Pelo teu próprio conforto/ Tudo é permitido”.

Com o fim da guerra fria, na década de 1980, a utopia de um mundo melhor e justo, ainda dava ar de sua graça entre os de minha geração. Pensávamos que a gastança de bilhões em armas e bombas, se transportaria para a saúde, educação e para as necessidades comunitárias, como num passe de mágica.

Em nossa tenra e inocente imaginação pululavam heróis, messias e salvadores da pátria mãe gentil. Tempo em que não tínhamos ciência ou noção de que o herói e o vilão ― paradoxais e indissociáveis habitantes da alma humana ―, compunham o enredo fantasioso dos autores de livros de História, com suas máximas por nós consideradas sagradas. Não sabíamos que esses dois personagens internos, no decorrer do tempo, constantemente trocavam de papéis, sempre de acordo com suas temporais conveniências.

Foi-se o tempo da utopia edênica do homem monolítico, que expulsa de si toda a maldade para ser ilusoriamente, só bom. A inteligência manipulativa do Homo Sapiens da atualidade trabalha, incessantemente, para que seu lado vilão não apareça aos olhos dos outros. Uma vez no poder, modificam-se até as leis para que resplandeça perante a sociedade apenas a sua face de herói. 

Na Mahagonny de Bertolt Brecht, assim como nas altas esferas de Brasília (Centro dos três poderes republicanos), tudo é permitido no interesse da ordem e em benefício do Estado, desde que os anseios da plebe não entrem em rota de colisão com o próprio conforto dos legisladores e guardiões das leis. O “tudo é permitido” em nome da governabilidade, lá atrás, no começo da comédia republicana, tinha um outro nome ― “Encilhamento”. Esse termo usado no alvorecer de nossa fantasiosa república (por volta de 1890)correspondia a um desastroso programa econômico de endividamento que transformou o dinheiro da Fazenda em papel. No teatro republicano de hoje, esse nome quer dizer o mesmo que: “Pela governabilidade, tudo é permitido.”
 
Pouco antes das chamas tomarem conta de Mahagonny, um cortejo de manifestantes andando sem ordem, uns contra outros, portam cartazes com os seguintes dizeres:

“Esta bela Mahagonny tem de tudo,/Enquanto vocês tiverem dinheiro./Tem o que se pretenda,/Pois tudo está à venda,/ E não há nada que não se possa comprar.”


P.S.:

Na ausência de princípios morais, o que aparece em seu lugar é o oportunismo dissimulado travestido de “boas ações”. Uma vez no poder, os indivíduos são tendenciosos a promover a autofagia, fragmentando-se em grupos rivais a serviço da própria agressividade adormecida.

Ao apagar a luz da Utopia, o Homem Sapiens da pós-modernidade mergulhou na escuridão de uma vida sem expectativa. Dessa forma, além de sombrio, frio e cruel, converteu-se definitivamente em um predador de si mesmo e dos outros. O seu “modus vivendi” está, agora, intimamente ligado ao uso e abuso do instinto humano mais primitivo e perverso ― o instinto de destruição.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de agosto de 2015


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20 julho 2015

Tanto em Atenas Quanto no Brasil





Atenas era a capital do mundo da política, da cultura e da filosofia quatrocentos anos antes de Saulo de Tarso, fundador do cristianismo, fazer menção a um “corpo corruptível” ―, um corpo que não era imune ao vírus maléfico da corrupção.

Do livro de Eduardo Giannetti, “Auto-Engano”, um formidável e irrefutável trecho do capítulo “Dissimulação Social e Parcialidade Moral” sobre a natureza corruptível do homem, replico aqui, à guisa de reflexão:

“O fato é que, por mais diversificada e heterogênea que se conceba a experiência psicocultural da humanidade no longo percurso histórico desde a conquista da linguagem, é difícil imaginar uma sociedade na qual os indivíduos não prefiram ser respeitados a ser desprezados por aqueles com quem vivem, e não prefiram sentir orgulho a sentir vergonha em serem quem são. Mesmo o membro de uma comunidade ultratradicional — alguém que, digamos nem sequer se pense a si próprio como indivíduo enquanto obedece cegamente às normas e tabus de sua tribo ― não escapam de ter de cuidar, vez por outra, de sua imagem e reputação aos olhos dos demais. Mesmo ele só poderá sentir de uma forma individual e privada, no silêncio de sua mente, o terror secreto de que os outros membros da comunidade cheguem a descobrir a sua eventual ― capciosa ou inadvertida ― transgressão da norma”.

Que fique claro que o autor de “Auto-engano” não está fazendo uma apologia à corrupção, tanto é que na contracapa de seu emblemático livro, o editor faz essa enfática declaração:

“Para o nosso bem ou nossa ruína, o auto-engano permeia grande parte das opções e julgamentos que fazemos. […] Eduardo Giannetti faz aqui uma reflexão profunda e original sobre a necessidade que tem o ser humano de iludir a si mesmo,”

“O cinismo substantivo e dissimulado existe, é inegável, mas o auto-engano e a racionalização sincera também.” ― afirmou reticente o autor, neste mesmo capítulo, mais a frente.

Quando o oportunismo imediatista que faz com que membros dos poderes de nossa república se enfrentem numa querela sem fim, procurando cada um defender-se dos contornos imprecisos de suas próprias sombras, refletidas no espelho do outro, faz mister citar o sábio grego, Tucídides (460 a.C), pela pena do historiador irlandês, Eric Robertson Dodds:


“A tremenda falta de respeito às leis que ocorreu por toda a cidade de Atenas durante a guerra de Peloponeso teve início com essa epidemia, pois, à medida que os ricos morriam e os que antes nada possuíam tomavam conta de suas posses, as pessoas começaram a ver diante dos seus olhos reversões tão abruptas que passaram a fazer livremente coisas que antes teriam ocultado ― coisas que jamais admitiriam fazer por prazer. E, desse modo, vendo que suas vidas e suas posses eram igualmente efêmeras, eles justificavam a sua busca de satisfação rápida em prazeres fáceis. Quanto a fazer o que era considerado nobre, ninguém se daria a esse trabalho, visto que era incerto se morreriam ou não antes de realizá-lo. Mas o prazer do momento e tudo que contribuía para isso tornou-se o padrão de nobreza e utilidade. Ninguém recuava com assombro, seja por temor dos deuses ou das leis dos homens: não dos deuses, visto que os homens concluíram não fazer diferença cultuá-los ou não, já que todos pereceriam da mesma forma; e não das leis, visto que ninguém esperava viver até o momento de ser julgado e punido por seus crimes. Mas eles sabiam que uma sentença muito mais severa pairava agora sobre as suas cabeças, e antes que ela desabasse eles tinham alguma razão para tirar algum prazer da vida.”


O texto acima, de Tucídides, fala do “modus vivendi”, da ganância, da iniquidade e do desrespeito às leis na sociedade Ateniense de dois mil e quatrocentos anos atrás. A sua fala continua tão atual e intimamente ligada à nossa corrupta republiqueta que, sem tirar nem por, poderia ser estampada em nossos principais veículos de imprensa, como a crônica do dia.


Dando um pulo da Grécia (em apuros no momento) para o Brasil pré-republicano de 1882, vamos encontrar um emblemático conto de Machado de Assis ― “A Sereníssima República”. Como mostra o livro, “Retorno ao Republicanismo” de Sérgio Cardoso, Machado se vale da vida das aranhas, para definir as artimanhas do mundo político de seu tempo, que em nada difere do nosso:


“Antes de significar desvio ou roubo do patrimônio público, a corrupção que cabe no conto de Machado significa degradação dos costumes” — diz Sérgio Cardoso, bem no início de sua narrativa.


Não poderia deixar de trazer à tona um imperdível trecho do conto machadiano — “A Sereníssima República” — carregado de humor satírico, retrato fiel da hipocrisia presente nos criadores e gestores dos partidos políticos (sopa de letrinhas da atualidade):


“Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o partido retilíneo; ― outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: as teias devem se urdidas de fios retos e fios curvos, é o partido reto-curvilíneo; e finalmente uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve em que não há linhas de espécie alguma.”


Sérgio Cardoso, no seu livro, faz uma conclusão que, a meu ver, explica muito bem o que se esconde por trás das crises fomentadas nos dias atuais, onde os destinados a permanecerem no andar de baixo são os que verdadeiramente pagam o pato. Diz ele:


“Mais do que isso, talvez, o efeito da corrupção política acentua as condições da maioria ao argumento, na aparência, irrefutável de que parece tolice obedecer às regras quando se espera que os demais venham a obedecê-las e quem, porventura, deixa escapar uma chance de obter algum tipo de vantagem ou benefício pessoal nessa sociedade, ainda que trapaceando suas normas, passa necessariamente por otário”.


Em grego, a POLIS deriva de “murar”. Tanto na Atenas de Tucídides e Péricles quanto no Brasil de hoje, a corrosão desse muro de separação entre o privado e o bem público tem sido fator prepoderante na degradação da sociedade.


Não há como negar que o conluio criminoso entre a esfera pública e o interesse privado, nos últimos tempos, tem sido a causa do assombroso nível de corrupção que assola, de uma maneira geral, as nossas instituições.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2015

11 julho 2015

Fragmentos Sobre Ressentimento




Na Literatura, Política, Psicologia e Sociologia muito já se debateu e se escreveu sobre “ressentimento”. Foi no livro “Aurora”(página 237), que Nietzsche expôs, de forma simples e sem rodeios, o que vai no âmago da alma do ressentido:

“Aquele que é incapaz de realizar certa coisa, acaba por exclamar cheio de revolta: 'Que o mundo inteiro pereça!'. Este sentimento odioso é o cúmulo da inveja que gostaria de deduzir: 'uma vez que não posso ter uma coisa, o mundo inteiro não deve ter nada! O mundo inteiro deve não ser!”.

Na atualidade, esse sintoma social, como uma colante vestimenta, anda tão arraigado em nossas vidas, que já o percebemos como coisa mais natural do mundo. Mesmo sabendo que o ressentimento nos prejudica, recusamos sair debaixo de seu guarda-chuva protecional. A doutora e psicanalista da PUC (São Paulo), Maria Rita kehl, logo na introdução de seu livro “Ressentimento” (Editora Casa do Psicólogo) deixou uma pérola de definição sobre o que seria esse afeto que grassa como uma epidemia nos mais variados relacionamentos interpessoais.

“Ressentir-se significa atribuir a um outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar. […] O ressentido não luta para recuperar àquilo que cedeu e sim para que o outro reconheça o mal que lhe fez”.

Em todos os setores do mundo contemporâneo, o ressentimento se encontra sutilmente imiscuído na quase totalidade dos conflitos sociais. Para o ressentido ― àquele que não duvida de suas certezas sintomáticas —, o problema está sempre no outro, seu superior na escala hierárquica.

Por sua vez, Jacques Lacan, ao fazer uma releitura de Freud, percebeu que o ressentido, no fundo, “não quer esquecer o objeto perdido”, razão pela qual mantém sua queixa indefinidamente. Ele faz da lamentação seu maior gozo.

Hegel, na dialética do Senhor (àquele que conseguiu ser vitorioso arriscando a própria vida) e do Servo (àquele que abdicou da guerra para não perder a vida) mostra que o ressentido, é o eternamente queixoso que, para compensar o que perdeu, vive inconscientemente adiando sua vingança. A agressividade daquele que se tornou servo para preservar a vida, retorna sobre a forma de ressentimento, afeto este expresso na forma de uma acusação moral contra o seu Senhor (representação daqueles que estão na escala social mais alta).

Discorrendo sobre o ressentimento na esfera política da sociedade brasileira, Maria Rita Kehl, no trecho abaixo, nada mais faz que ressoar o que Nietzsche tão bem dissecou sobre este ambíguo afeto em sua emblemática obra - “Genealogia da Moral”:

“Ora, a origem do ressentimento reside justamente no apartamento entre os sujeitos e sua própria potência de agir. Nesses termos, a decepção com as promessas não-cumpridas não predispõe à ação; ela produz um exército de queixosos passivos, prontos a (se)realinhar ao que existe de pior entre os conservadores, como forma de reação amarga e estéril, carregada de desejos de vingança”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 11 de julho de 2015

24 junho 2015

Os Predadores e um Zoológico Sem Dono


Hipopótamo de zoológico inundado invade cidade de Tbilisi - Geórgia



Um colunista brasileiro tem se destacado por seus primorosos ensaios, na maioria, quase sempre relacionados a fatos do risível cotidiano de nossa república. Trata-se de Roberto Pompeu de Toledo, que escreve na última página da revista semanal – Veja. O autor, na atualidade, vem discorrendo mais sobre os acontecimentos da esfera político-administrativa que têm como palco, o Congresso em Brasília.

Aprecio muito seus artigos, tanto pela verve carregada de humor e doces metáforas quanto pelas analogias que interligam as presepadas semanais dos nossos constituintes a fatos pitorescos colhidos de nossa Literatura/História e do mundo internacional.

Pelo que se assiste na TV Senado, TV Câmara e se lê nos principais jornais do país, o Congresso virou uma verdadeira Torre de Babel, lugar conturbado pela confusão de línguas estranhas, onde ninguém se entende. Lá são criadas leis a toque de caixa, leis que se chocam entre si, como a sobremesa bizarra de grilo com chocolate.

Na revista Veja - edição 2431 - que saiu nas bancas domingo (dia 21), Roberto Pompeu de Toledo resume, de forma magistral, a balbúrdia reinante em Brasília nos últimos dias, onde a grande vítima é a “Pobre Constituição” (título que encabeça seu artigo). A sagaz analogia, que o ensaísta faz das ações sem nexo dos nossos constituintes com uma enchente ocorrida recentemente nas terras da antiga União Soviética, é digna de nota. Para que o(a) leitor(a) possa comprovar o que digo, transcrevo abaixo, com os devidos créditos, um trecho desse seu antológico ensaio:

“Com a autoridade do presidente no chão, o ministério (à exceção da Fazenda) inoperante, o PT disputando com a oposição quem incomoda mais o governo e o Congresso despirocado, os predadores estão soltos. A situação é comparável à de Tbilisi, a capital da república caucasiana da Geórgia, onde uma enchente na semana passada provocou, entre outros estragos, a inundação do zoológico e a dispersão dos animais pela cidade. Deu-se então, segundo inventariou o The News York Times que um urso foi flagrado tentando se equilibrar na janela de um 2° andar, um crocodilo foi visto a espreitar os carros parados numa rodovia intransitável e um hipopótamo acabou pendurado nos galhos de uma árvore. Aqui, a dona do zoológico, de medo de ser demitida, demitiu-se, os funcionários entregaram os pontos e as feras se jogam cada uma a um naco do texto constitucional. A última vítima é o artigo 228, aquele que declara que são penalmente inimputáveis os menores de 18 anos. Ele veio se juntar aos atentados contra a ordem constitucional que, já há algumas semanas, são disparados pela “reforma política” do deputado Eduardo Cunha”.
[Roberto Pompeu de Toledo]


Convenhamos, foi por nosso intermédio que, lá fora, o Brasil ficou conhecido como o país do Carnaval, do futebol fantástico repleto de jogadores exímios em seus sensacionais dribles, sabendo fingir como nenhum outro, diante de suas esfuziantes torcidas.

Por ocasião da primeira aprovação da proposta de diminuição da maioridade penal para 16 anos, parlamentares agiram como se estivessem comemorando a vitória de seu time. Com toda a força de seus pulmões gritaram o estribilho que comumente se exibe nas arenas futebolísticas ― “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” ―, como se esse pequeno obstáculo ultrapassado fosse a senha mágica definitiva para o arrefecimento da criminalidade.

E o que dizer da recente manifestação no plenário da Câmara, quando mais de uma dezena de militantes da bancada evangélica, de mãos dadas, rezaram em alto e bom som o “Pai Nosso”? Em êxtase, encerraram a encenação com um “Viva Jesus Cristo!”, pela vitória alcançada com a aprovação da cláusula de crime hediondo para quem profanar símbolos religiosos. Por certo, o sentimento que os dominava naquele momento nada mais era que resquícios do contagiante idealismo religioso das cruzadas da idade média.

De nada adiantou uma figura solitária, abafada pela maioria vitoriosa, a bradar lá do fundo do palco montado: “Vamos respeitar a república laica brasileira!”

Pois é caro(a) leitor(a), estamos na estação do inverno, propícia a enchentes como a que aconteceu na Geórgia. O nosso Zoológico sem dono pode estar, sutilmente, sendo invadido pelas águas das torrenciais chuvas tão comuns nessa época. O grande perigo é que as feras, antes domadas em seus apriscos, podem sair fazendo estragos ao entrar por caminhos nunca dantes percorridos. Aí, sim, a depredação daquilo que se denominou de bem público pode atingir níveis nunca imaginados.

Como a alegria da maior folia das terras de Dom João VI “termina” numa quarta-feira de cinzas, não custa lembrar aqui o refrão do samba enredo da União da Ilha (Rio de Janeiro) no carnaval de 1978:

“Como será o amanhã, responda quem puder...” (bis)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 24 de junho de 2015


Site da Imagem: www.bbc.com/notícias

18 junho 2015

Por Amor aos Necessitados





“Quem pode fazer o bem e não faz comete pecado” ― afirmou São Tiago, em seu evangelho. O apóstolo, São Paulo, por sua vez, evidenciou em sua epístola aos Romanos que o amor estaria acima da Lei.

O místico da primeira escolástica, Hugo de São Victor, fez uma categórica afirmação: “Nós amamos a Deus e Lhe servimos mas não buscamos nenhum prêmio, pois não queremos passar por mercenários. Amamos com um amor puro, desinteressado e filial e nada procuramos. Que Deus decida se lhe apraz dar-nos alguma coisa; de nossa parte nada lhe solicitamos. Nós o amamos, mas nada procuramos, nem mesmo Aquele a quem amamos.”

Não esqueçamos, porém, da versão mundana do dito de São Francisco de Assis: “...É dando que se recebe”. Segundo o psicanalista Flávio Gikovate, esse refrão (tão usado e vezado no meio político – grifo meu), pode indicar a disposição de dar de si e se dedicar a alguém (ou um grupo – grifo meu) com o objetivo de receber o tratamento que gostaria.

O leitor(a) a essas alturas deve estar se contorcendo, com essa história de amor desinteressado, achando, talvez, que ele não exista.
Está posta então, a questão: existe ou não existe o amor desinteressado?
Para a Psicologia Profunda, mesmo que seja “desinteressado”, esse amor, exige uma gratificação que não precisa, necessariamente, ser retribuída na mesma moeda.

Atualmente, nos meios de comunicação, as pedaladas fiscais que o governo deu com a finalidade de não deixar os bolsistas a ver navios, vêm ocasionando um acalorado debate. Melhor explicando, O TCU não quer dar o aval à inusitada operação posta em prática pela maior autoridade da nação: a de realizar créditos fictícios ou sem lastro nas contas dos necessitados do “bolsa família”, à revelia da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Andei pensando com os meus botões sobre a vexatória situação dos beneficiários do Bolsa Família, quando no calor da campanha (2014) pela reeleição da presidenta, correram o sério risco de não receber seus proventos, pois o orçamento governamental encontrava-se estourado. Pergunta-se: O governo e seus conselheiros mais fiéis, agiram ou não por amor, quando, para não deixar os pobres sem o seu pão de cada dia, recorreram a um artifício acima da Lei para contornar o grave problema?

Muitos condenam o Governo por aplicar dinheiro em outras instâncias de seu interesse, cobrindo um santo e descobrindo outro. Mas como estamos em um país cristão, respaldado nos evangelhos, sabemos que isso é coisa para se deixar vir às claras por ocasião do Julgamento Final, onde cada alma vai dar conta de si e ter pesadas suas obras. Depois de satisfeito o seu desejo, o governo então diria ao Supremo Juiz: os recursos para as pedaladas saíram dos bolsos da minha grande comunidade de fiéis. A bicicleta não é minha, é do povo que me elegeu; eu apenas pedalo nela pra sobreviver e para ser vista como uma grande equilibrista na grande arena política do segundo maior país cristão do mundo.

Quem sabe se Ele, comovido pela fraqueza que permeia o humano, não diria ao apagar das luzes: Eu Sou brasileiro, perdoada estais!



Por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de junho de 2015


Link da Imagem: vejaabril.com.br/blog/reinaldo

13 junho 2015

Breves Considerações Sobre os "Mortos-Vivos" de Dostoiévski






Debruçar-se sobre as obras literárias do fenomenal escritor russo, Fiódor Dostoiévski é o mesmo que mergulhar no profundo e sombrio abismo da psique — instância que à semelhança do tenebroso oceano ― esconde em seu interior monstros, fantasmas e tesouros incrustados em carcaças de embarcações perdidas no tempo.

Nas entrelinhas de seu antológico conto, “Bobók”, o autor revela como funciona o mecanismo psíquico (consciente/inconsciente). Seus escritos de caráter dialógico mostram, de forma nítida e serena, que o desejo do outro está sempre infiltrado em nossas ações e reações. “Cada um de nós é um EU somente porque há um conceito do Outro” — diria mais tarde, Jacques Lacan.

“Bobók”, conta a história de Ivan Ivánitch: um bêbado que sofre de alucinações vai a um enterro e, depois de todo mundo ter ido embora do cemitério, resolve descansar um pouco sobre a laje de uma sepultura e, de repente, começa a ouvir vozes abafadas vindo de dentro dos túmulos a seu redor. Os mortos se identificam e começam a conversar entre si, como se a consciência humana continuasse a existir por algum tempo depois da morte. Sabedores que tinham, agora, total liberdade, diferente das condições terrenas, decidem, divertidamente, contar seus causos que, na vida anterior, mantinham guardados sob sete chaves.

“Mas por enquanto eu quero é que não se minta. É só o que quero, porque isso é o essencial. Na terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos; mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir. Aos diabos, ora, pois o túmulo significa alguma coisa! Todos nós vamos contar em voz alta as nossas histórias já sem nos envergonharmos de nada. Serei o primeiro de todos a contar a minha história[…]. Abaixo as cordas, e vivamos esses dois meses na mais desavergonhada verdade.” (Bobók – página 35)

Eis que involuntariamente, Ivan Ivánitch, nauseado pelo forte odor de corpos em decomposição dá um sonoro espirro, o bastante para calar os mortos-vivos. Tudo ficou em um silêncio sepulcral.

“Não acho que tenham sentido vergonha de mim: haviam resolvido não se envergonhar de nada! Esperei uns cinco minutos e… nem uma palavra, nem um som. Também não dá para supor que tenham temido ser denunciados à polícia; porque, o que a polícia pode fazer neste caso? Concluo involuntariamente que, apesar de tudo, eles devem ter algum segredo desconhecido dos mortais, e que eles escondem cuidadosamente de todo mortal.” (Ivan Ivanitch – página 37)

Traduzindo os elementos do conto “Bobók” pela via metafórica, o que se evidencia? O polêmico Slavoj Zizek faz uma incursão sobre a assertiva dostoievskiana de que “Sem Deus tudo é permitido”. Para ele, o que o escritor russo quer retratar em sua ilustração de um apavorante “Universo sem Deus” em que “tudo é permitido” é o mundo imaginário do fundamentalista religioso. Se o Deus do cristão está lá, irreversivelmente com eles, então poderiam concluir, “Com Deus tudo é permitido”. Por que não?

Mas eis que o espirro inesperado do observador/narrador faz calar os mortos. Paradoxalmente, o que isso significa, senão o entendimento de que o impulso de contar toda a verdade não é livre? A presença incômoda do “outro-ouvinte-testemunha” barra ou impede os “vivos-mortos” de expor sem amarras os seus recalques.

A imagem desse agente ético repressor internalizado é o que Lacan denominou, o “Grande Outro”, que Freud rotulou de Superego, que o mundo judaico-cristão percebe como um Ser antropomórfico radicado nas maiores alturas. Ao que parece, não há jogo sem essas instâncias patriarcais. Diante da impossibilidade de eliminar por completo o olho dessa “imago paterna” que espreita o homem de perto, fazer uma trégua ou acordo amigável com ela, seria a solução mais viável.

Para que a fábula dos “mortos-vivos” não se transforme numa “mentira Suprema”, é bom dissecá-la pelo lado avesso. Só desta forma, é que poderíamos colher uma real compreensão do que se passa nos escaninhos desse ambivalente “reino psíquico”.

No mundo judaico-cristão não é raro a citação — “Universo sem Deus” —, para expressar o desconforto do crente frente àquele que se diz ateu. O que o fiel piedoso talvez não saiba é que esse “Utópico Universo Psíquico sem Mediador” percebido no OUTRO, nada mais é que a projeção do submundo reprimido da própria religião, recalcada nos porões de sua mente. A proteção rígida do idealista religioso contra o gozo jubiloso do “pagão” não passa de uma reação defensiva contra o que existe no outro – causa de seu desconforto. No fundo, o que ele percebe como “terreno inóspito do pagão sem Deus”, na verdade, é o seu sonho supremo. Como dizia, Chesterton: “...mas dentro dessa proteção desumana, você encontrará a velha vida humana dançando como dançam as crianças e bebendo vinho como bebem os homens, pois o cristianismo é a única moldura para liberdade pagã.”

Na verdade, o que os “mortos-vivos” de Dostoiévski escondem do personagem, Ivan Ivánicth (símbolo do Outro), é o “obsceno gozo compulsivo de sua natureza”. O espirro que fazem calar os mortos, impedindo de contarem suas vergonhas, é o cruel Superego entronizado nas profundezas psíquicas. A volta, enfim, do silêncio sepulcral, é sinal de que os “mortos” continuam mais vivos do que nunca no imaginário do escritor.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de junho de 2015




08 junho 2015

Seu Último Yom Kipur




Morreu na madrugada do feriado judaico da expiação, após tomar a terceira injeção de morfina. Desde o início de sua doença fizera ver que não aceitaria “a paralisia da capacidade pela miséria corporal”. Não mais suportando as dores e o odor forte e fétido que inundava todo o seu quarto, proveniente do câncer de mandíbula que necrosara parte de sua face, de forma lúcida, despediu-se de seu médico de cabeceira, dando-lhe autorização para encerrar de uma vez por todas seu intenso sofrimento. Tentativas frustradas de debelar seu mal renderam-lhe mais de trinta cirurgias e penosas convalescenças.

O barulho lá fora, provocado pelas passadas de muitos judeus em Londres a caminho das sinagogas onde realizariam seus rituais de jejum e orações (Yom Kipur), ele deve ter escutado por um breve tempo até cair num sono profundo para não mais acordar. Coincidência ou não, veio entrar suavemente na imensurabilidade do tempo em uma fria madrugada de um sábado festivo ─ “dia do perdão” ─, cerimonial judaico que em criança junto aos familiares o deixava extasiado por seus cânticos e pela magnífica ceia final.

Fora o criador da ciência da alma, que tem na “culpa imaginária” seu epicentro. A culpa e o perdão teriam alguma coisa a ver com a escolha do feriado sagrado do Yom Kipur, para, ainda em sã consciência, praticar a eutanásia?

Ao divã por ele criado quis dar um propósito aparentemente oposto ao que de fato acontecia no divã confessionário do judaísmo. Foi longe, a pretensão de que sua ciência, um dia, geraria no homem, a ausência de acusação com a concomitante ausência de perdão. Fato este, talvez impossível diante de nossa condição de transgressor, aturdido por afetos ambivalentes provenientes dos desvãos mais íntimos de nosso inconsciente, onde guardados estão crimes não ditos e recalques de toda ordem.

“O modo de pensamento talmúdico não pode ter desaparecido de nós” ─ confidenciou-lhe, certa vez, um amigo que frequentava as famosas reuniões científicas das quartas-feiras, ao notar que havia uma íntima relação entre as modalidades de interpretação do texto bíblico e a abordagem na análise psíquica. Era evidente a estreita ligação entre a psicanálise e a tradição Judaica. Não custa lembrar que no divã do confessionário da ortodoxia judaica da qual seu pai foi um membro ativo, era através da confissão da culpa a um Pai imaginário que o judeu, por ocasião do Yom Kipur, percebía-se isento ou redimido da própria dor psíquica de culpa. A figura do Superego que criara, não seria uma forma de confirmar que um pai continuava a viver no inconsciente do sonhador?

Diante de seus discípulos, reagia de modo enfático: “o analista não inclui nem exclui, não culpa nem absorve”. Foi rebelde até o fim. Quis ser senhor até do dia de sua morte, provocando polêmica entre os ortodoxos de sua nação ao escolher a comemoração do Yom Kipur para se despedir da vida.

Logo cedo aprendera da mãe a resignar-se aos ditames da condição humana: “um dia teria que retornar ao pó, de onde veio”. O que não se poderia imaginar naquela época, era que, ele mesmo, seria o capataz a dar ordem para o início da metamorfose última ─ sentença javélica registrada no livro de Gênesis ─, tantas vezes repetida por sua genitora nas aulas diuturnas de catecismo religioso.

Por toda a cidade de Londres, seu último refúgio em vida, máscaras de gás eram distribuídas para fazer face aos terríveis bombardeios aéreos que a Alemanha de Hitler iniciara naqueles trágicos dias de setembro de 1939. “Será a minha última guerra” ─ afirmou ele ao médico que cuidara de sua saúde nos seus últimos dez anos de vida. A guerra tinha sido um tema recorrente em suas palestras. Só via duas formas de descarregar a libido agressiva que cada um carrega dentro de si: através da pulsão destrutiva (assassinatos, guerras), ou da sublimação, entendendo-se por esta última, a conversão da poderosa energia instintiva humana em criações artísticas, em produções de cunho científico, político ou econômico.


P.S.:

“Freud morreu num processo de Eutanásia, segundo Ernest Jones, seu biógrafo. Eu acho necessário que nós possamos ter a coragem, em uma sociedade aberta e plural de discutir essa questão com serenidade, mesmo porque a qualquer instante nós estamos sujeitos a nos transformarmos num objeto passivo de uma decisão politica e biológica a respeito de nossa existência sem que sequer possamos ser ouvidos. Eu acho esta a maior das violências em relação a questão da minha morte”. [Jacob Pinheiro Goldberg]


  Por Levi B. Santos
 Guarabira, 08 de junho de 2015