27 fevereiro 2018

Trump, a Bíblia e o Lobby de Armas





O presidente e religioso fundamentalista, Donald Trump e os senhores do lobby de armas que o apoiaram, querem, por cima de pau e pedra, armar os professores em salas de aulas, como medida saneadora de massacres em escolas dos EUA.

Mas a coisa pode tomar proporções maiores. Nunca é demais lembrar a chacina do dia 05 de novembro de 2017, quando um homem armado matou 26 fiéis (deixando mais de 20 feridos), no momento em que se realizava um culto matinal, no Templo Batista de Sutherland Springs no Texas.

Pelos atos, cada vez mais loucos que vem executando, falta pouco para que o profeta-presidente tente obrigar pastores e demais líderes religiosos a portarem fuzis como medida preventiva contra massacres no interior das igrejas.

Tudo, mas tudo mesmo, por mais incrível que pareça, pode sair da cartola do poderoso presidente fundamentalista americano. Empunhar a bandeira do lobby sagrado de porte irrestrito de armas dentro dos templos, pode ser a próxima jogada. Não se assustem, se, para tal empreitada, de forma utilitária e abusiva, Trump venha descontextualizar a fala do Messias perante seus discípulos, descrita por Lucas em seu evangelho (Lucas 22: 35 à 38):

Disse-lhes Jesus: Quando vos mandei sem bolsa, alforge ou sandália, faltou-vos, porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhe, pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforge; e o que não tem espada, venda a sua veste e compre-a”.

Aliás, o presidente do “Fim do Mundo ou do Armagedom” vem dando profetadas em nome do seu Senhor, para tudo quanto é lado. Recentemente ganhou apoio da maioria dos evangélicos fundamentalistas dos EUA, ao prometer transferir a embaixada americana de Israel para Jerusalém, bem de acordo com a profecia altamente beligerante de atiçar a reconstrução do Templo de Salomão, destruído no ano 70 d.C (hoje, no local, encontra-se a mesquita de Al-Aqsa — erigida pelos muçulmanos no século VII)
.
Voltando ao tema sobre o forte lobby de armas dos EUA, e, ao mesmo tempo, querendo esquentar a nossa memória, replico aqui, uma declaração do servo maior do Senhor das Armas, colhida de um discurso seu de tom retributivo realizado em abril de 2017, na Associação Nacional de Rifles (NRA):

Eu lhes prometo que, como presidente, jamais vou interferir no direito das pessoas de possuir e portar armas. A liberdade é um presente de Deus. Vocês me apoiaram e eu vou apoiá-los agora” ― acrescentou, Trump, sabedor de que em mais de 28 estados americanos não  exigem, sequer, a idade mínima para que se possa comprar uma arma.

Após o tiroteio numa escola da Flórida, que deixou 17 mortos (dia 14), Trump, pressionado pela sociedade, esboçou uma leve reação (prometeu proibir a transformação de armas legais em fuzis automáticos). Mas o lobby de armas (NRA), reagiu de imediato, rechaçando as propostas do presidente.


Pergunta-se:


Até quando o “Lobby dos Exércitos de Israel” junto com o interesse do mercado fundamentalista dos EUA usarão o nome de Javé para insuflar o Mercado de Armamentos e a desova de suas armas letais nas terras que o patriarca Abraão sonhou, um dia, tomar para si e sua conflituosa geração?


Como o paradoxal “Senhor das Armas” vai permitir que Jerusalém seja a cidade da paz, se é o conflito eterno que mantém a poderosíssima indústria armamentista a todo vapor? Ou não estão lembrado da segunda guerra mundial ― conflito ―, em que os poderosos e riquíssimos judeus Rothschild, através do seu “inteligentíssimo-deus-mercado”, lucraram como nunca na história, financiando os dois lados da guerra: tanto o exército de Hitler quanto os aliados anti-Hitler?


Resumo da Ópera: Jamais Jerusalém será símbolo de triunfo de uma facção sobre a outra. Nominá-la de “Muro das Lamentações”, por enquanto, lhe cai muito bem como representação da soberba humana, até que pelas armas sejam derrotados todos os guerreiros.




P.S.:


Nas redes sociais também se guerreia. Jerusalém pode ser minha ou sua. Para ver quem ganha, registre seu voto pela internet. (rsrs)


Por Levi B. Santos

08 fevereiro 2018

O Samba "Politicamente Incorreto" de Stanislaw Ponte Preta




Como estamos iniciando o período momesco, nada melhor do que trazer para o momento, algo risível e emblemático de nossa história carnavalesca, que consagrou a expressão “Samba do Crioulo Doido”, criada por Sergio Porto (1923 ― 1968). O cronista sempre assinava suas crônicas com o pseudônimo, Stanislaw Ponte Preta. Esse samba, composto em 1967 e gravado em 1968 (anos de chumbo) fez sua fama, que já era grande, repercutir estrondosamente pelo país inteiro. Foi no ano de 1966 que lançou o antológico livro  "Febeapá: Festival de Besteira que Assola o País",  o qual, versava sobre "causos" risíveis da "Redentora" (como ele denominava a Ditadura Militar).

No fundo o que Stanislaw queria com seu "Samba do Crioulo Doido", era ironizar a ditadura militar e seu exagerado e obtuso nacionalismo. A letra do samba é toda sem sentido, como que para demonstrar a confusão político-militar reinante na época.

A atitude excêntrica dos que organizavam a vida social era totalmente tresloucada ― um total paradoxo com o que se tinha, anteriormente, como habitual no Brasil.

O samba sem pé nem cabeça do satírico autor, afinal, refletia a louca conjuntura ditatorial que ele considerava carnavalesca ―, subentendido na “história de um compositor que durante muitos anos obedecia ao regulamento...”.

Nas estrofes desse samba-enredo perfilam celebridades históricas totalmente destituídas do seu contexto histórico, um embaralhamento estapafúrdio no que concerne a cronologia e a lógica dos fatos. Então, no samba doido, Tiradentes, o herói da Inconfidência, seguia planos de Chica da Silva, que depois se casaria com a princesa Leopoldina.

Inclusive, como acréscimo ao brilhante ensaio da doutora Berenice Cavalcanti (Professora de História da PUC) na revista "Nossa História" (outubro de 2004) -, garimpamos  dois elementos preciosos que destacam o gênio e a sutileza de Sérgio Porto: Quando ele se refere ao sobrenome "SILVA", faz alusão ao Presidente da República, Artur da Costa e Silva, que não por acaso, foi escolhido para governar o país em pleno carnaval de 1967. Para avivar a nossa memória, foi da pena desse General que saiu o famigerado AI.5 que, praticamente, pôs fim a liberdade de imprensa no país.

"Joaquim, que era também da Silva Xavier, queria ser dono do mundo, e se elegeu Pedro II" ― diz, uma estrofe do envenenado samba que, em seu final, faz referência a Proclamação da Escravidão.

Mas esse fenomenal samba encerra uma moral: "D. Pedro se transforma em uma estação e D. Leopoldina vira trem" A gozação chega ao máximo na parte final da melodia, que assim diz ― “O Trem tá atrasado ou já passou”.

O leitor pode conferir abaixo o vídeo do “Samba do Crioulo doido”, gravado originariamente pelo Quarteto em Cy, interpretado aqui pelos “Demônios da Garoa”.


FONTE CONSULTADA: Revista Nossa História – Ano 1/ n° 12

Site da Imagem: devign.com.br 

Título da Postagem Original - "Sobre o Samba do Crioulo Doido" (Ensaios & Prosas - 09 de fevereiro de 2013)

04 fevereiro 2018

A IDADE MÉDIA, A ANTIGUIDADE E O PRIMITIVISMO DE NOSSA PSIQUE ─ FRENTE AOS “NOVOS TEMPOS”

Torre de Carl G. Jung em Bollingen – Suíça (1955)


Carl Gustav Jung, um dos fundadores da psicanálise, nos últimos trinta anos de sua vida decidiu construir uma Torre à beira de um belo e tranquilo lago em Bollingen (Suíça), para lhe servir de refúgio. Nesse pequeno castelo tencionava viver intensamente os conteúdos do seu inconsciente, longe da algazarra e correria louca das cidades. Deu início a essa empreitada em 1922. A obra, após várias reformas, só atingiu sua forma definitiva em 1955, seis anos antes de sua morte.

Do seu livro “Memórias, Sonhos, Reflexões” (Editora Nova Fronteira, 2016 – 30ª Edição) trago um trecho (página 236) que, em sua essência, está em consonância com os sombrios e fugazes “Tempos Novos” que estamos a experimentar na atualidade. Em sua época, o autor já realçava a fluidez da pós-modernidade que, com seu impetuoso avanço, ambicionava dissolver todo conteúdo sólido do primitivismo de nossa psique.

Com a perspicácia de um exímio escavador do nosso fértil solo psíquico, Jung, nos mostra, de forma contundente, como o mal estar atual, em grande parte, tem sua causa na pressa e na expectativa doentia de se tomar posse de um futuro fantasioso e ilusório, rotulado de “novo”. Vejamos o que diz o psicanalista e profundo estudioso dos meandros da alma humana, nesse precioso retalho de seu expressivo Livro de Memórias:


Tanto nossa alma quanto nosso corpo são compostos de elementos que já existiram na linhagem de nossos antepassados. O “novo” na alma individual é uma recombinação variável ao infinito de componentes extremamente antigos. Nosso corpo e nossa alma têm um caráter eminentemente histórico e não encontram no “realmente-novo-que-acaba-de-aparecer” lugar conveniente, isto é, os traços ancestrais só se encontram parcialmente realizados.

Estamos longe de ter liquidado a Idade Média, a Antiguidade, o primitivismo e de ter respondido às exigências de nossa psique a respeito deles. Entrementes, somos lançados num jato de progresso que nos empurra para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos arranca de nossas raízes. Mas é precisamente a perda de relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal “mal estar na civilização”, a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente, que o futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamos-nos desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais do que possuímos, porém de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, porém perscrutamos a sombra do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não queremos compreender que o melhor é sempre compensado pelo pior. A esperança de uma liberdade maior é anulada pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos quais nos expõem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos, e contribuímos com todas as nossas forças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas raízes.


O que concluir enfim, senão que somos incapazes de cancelar o conteúdo primitivo de nossa psique. Tentar reprimir esse conteúdo seria um mecanismo de defesa para se evitar o desprazer; sublimá-lo, por sua vez, seria alcançar um nível de satisfação a que, por exemplo, os poetas, em seus versos, estão acostumados a experimentar. As metáforas representativas de seus afetos paradoxais, o artista retira de suas próprias profundezas mentais, tal qual uma bordadeira o faz com a agulha e seu novelo de linha: o intrincado bordado, fruto do exercício de memória, acaba por deixar impresso no tecido toda a expressão de sua divina arte. Do mesmo modo, acontece com o músico que, ao organizar ou criar a partir dos elementos arcaicos ou primitivos de sua psique, presenteia-nos com sua expressiva e divinal sinfonia; sinfonia que ao reverberar nas cordas de nossos corações nos contagia de alegria e beatitude.

Mas o que nos reserva o futuro diante do fulminante progresso tecnológico? Para evitar o que se considera “desperdício de tempo”, em nome de um hipotético futuro, o mercado procura tudo massificar, visando exclusivamente o lucro. Tempo é Ouro!. Aqui, você tem tudo de bom sem a necessidade de demorados momentos de reflexão e esforço mental” —, diz o lema estampado e oferecido em suas atraentes embalagens.

O certo é que o passado, a idade média e o que é visto como antiquado, não morre, mas continua arquivado em nossa memória. Ressonâncias da trágica, cômica, feliz, inebriante e melancólica história de nossos ancestrais nunca deixam de fluir em nossa alma. Foi para ficar em paz e harmonia com a natureza e ouvir os ecos e vozes ancestrais do seu “eu” interior, em toda sua plenitude, que Carl G. Jung construiu sua Torre em um local aprazível e evocador das moradas primitivas da humanidade, bem longe da avassaladora modernidade que a tudo liquefaz.

É longe da balbúrdia geral denominada “O Futuro em Suas Mãos” , que se pode escutar a suave melodia que emana de nossas profundezas. Só realizando essa fuga, será possível reviver gratas sensações depositadas e esquecidas nos velhos porões de nossa psique. Só distante do frenesi consumista que a mídia nos impõe é que poderemos, enfim, revisitar prazeres esquecidos na poeira do tempo, coisas sublimes que a agitação do nosso dia-a-dia, em nome de um futuro mecanizado e hostil, inviabilizou.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de fevereiro de 2018

23 janeiro 2018

“Cada Caso é Um Caso”



Dr. Chico Porto - de saudosa memória


Nós médicos, para não cair na armadilha de desenganar um doente grave e depois ter que curtir o nosso próprio engano, costumamos dizer para o doente ansioso em saber se o prognóstico de sua patologia é grave ou não: “Cada Caso é um Caso!”. Será que conhecemos por dentro aquele que sofre suas dores? O experiente poeta Lusitano, Fernando Pessoa, com razão sobrada, nos aconselha a não cairmos no auto-engano de um dia poder compreender o sujeito por dentro: “Nada sabemos da alma senão da nossa; as dores dos outros são olhares, são gestos, são palavras, com a suposição de qualquer semelhança no fundo”. (Fernando Pessoa)

Os sintomas do enfermo no desenvolvimento de sua patologia variam conforme as inúmeras situações: de fundo biológico, psíquico, cultural e religioso. Essa realidade, hoje, nos desencoraja a desenganar alguém em seu sofrimento físico e psíquico. Afinal, como iríamos desenganar alguém, se não temos 100% de certeza quanto ao desfecho de quadros patológicos que dependendo da eficiência do sistema imunológico pode retardar o enlace final? Sabemos, hoje, que os estados imunológico e psicológico de um paciente, podem, de uma hora para outra, modificar todo um quadro que se considerava de suma gravidade.

O psiquiatra, Luís Carlos Bethancourt, em um recente artigo (de 23 de janeiro de 2018) “Doença mental: Cada caso é um caso” , realça bem o que tento demonstrar. O Dr. Luís Carlos, no final do seu brilhante texto, nos brinda com essa insofismável conclusão que, com os devidos créditos, faço questão de aqui reproduzi-la:

Não é porque somos todos da espécie humana que todos somos iguais. Cada um de nós tem a sua singularidade, sua unicidade, que não se repete. Somos parecidos com nossos pais, mas não somos iguais. Não é porque funcionou um remédio em fulano de tal que irá funcionar em nós de maneira semelhante. Existe uma grande probabilidade de que sim, mas há também a probabilidade que não”.

Tenho muito vivo na lembrança os conselhos do professor, Chico Porto (Professor de Clínica Cirúrgica da Faculdade Medicina da UFPB). Em suas magnas aulas no ambulatório do Hospital Santa Isabel costumava repetir uma frase que ficou célebre entre os colegas da Turma de Medicina de 1971. Quando o sábio e experiente médico dissertava sobre apendicite aguda (no tempo em que os únicos meios de diagnósticos, além da história contada pelo doente, eram os exames de sangue, a palpação/ percussão do abdome e o Raios X), perguntávamos em uníssono: “opera ou não opera o doente, professor?”. Ao que ele respondia, expondo um sorriso inconfundível: Em Medicina, nem nunca, nem sempre!”. Foi através de sua pequena, mas profunda frase, que ficamos entendendo o cerne do que ele queria nos passar: Como médicos e não deuses, em hipótese alguma, poderíamos afirmar ou atestar nunca isso vai acontecer!”, ou “determinada doença, terá sempre tal modo de evolução ou resolução!”.

Nunca desenganar, porque desenganar é enganar a si próprio e ao doente; nem sempre devemos agir como se nossos parcos conhecimentos nos dessem autorização para emitir decretos sobre a vida dos outros, pois como escreveu o profeta bíblico, Jeremias, “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de janeiro de 2018

Site da Imagem: http://www.portalmedico.org.br/Regional/crmpb/jornalcrmpb/ano2003/Maio-Junho/memoria.htm

15 janeiro 2018

"Escapismo Escatológico"





Para Paul Ricoeur, as narrativas bíblicas sobre a “criação”, sobre as “origens” e os “tempos finais”, convidam-nos a uma reflexão bem mais profunda do que a mera especulação exterior e interesseira que, para seu bel prazer, grupos religiosos tomaram para si, ensejando uma batalha final sangrenta entre um povo escolhido por Javeh e seus opositores (Batalha do Armagedom).

Nesse mesmo diapasão, e longe da especulação simplória e eufórica do Livro do Apocalipse (que no imaginário pentecostalista aparece com a conotação do “quanto pior, melhor”), John Joseph Collins comunga da ideia de que o núcleo essencial da literatura apocalíptica é aquela que visa superar as dificuldades. Para esse autor, a simbologia da narrativa do apocalipse serviria mais para reforçar a esperança do que relacionar os acontecimentos catastróficos, a um mero cumprimento de uma profecia tramada e azeitada pelos instintos humanos de destruição.

R. N. Champlin, sobre a Literatura Apocalíptica, em sua volumosa coleção “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo”, faz uma emblemática observação que vai de encontro à argumentação de fundo escapista dos que estão embasados na narrativa literal do livro do Apocalipse (página 352 Volume VI Editora Candeia 1995):

A tentativa de emprestar um caráter literal à linguagem simbólica do Apocalipse redunda em fracasso, além de impedir o entendimento da própria natureza mística das visões.

Como membro da Assembleia de Deus (maior denominação pentecostal do Brasil), César Moisés Carvalho, foi feliz e bem ousado ao dissertar sobre o “Escapismo escatológico” que grassa com ímpeto incomum no meio pentecostal. No seu instigante livro, em linguagem simples e objetiva, pude perceber, nas entrelinhas, o anseio de natureza escapista reinante nas hostes pentecostais, representado pela necessidade defensiva de exibir um Triunfo Apoteótico ante os inimigos ou os diferentes a serem derrotados ou esmagados numa imaginária batalha final. O autor, de modo desenvolto e sem viajar muito ao mundo de além, fala de como seria bem mais interessante a interpretação não polarizada das metáforas contidas na literatura apocalíptica e sua aplicação no contexto cristão da pós-modernidade. No trecho abaixo, replicado do seu instigante livro, ele disseca, um a um, os argumentos sólidos que vão de encontro ao catastrofismo tão insensatamente apregoado no pentecostalismo de resultados da atualidade.



Escapismo Escatológico”

Trecho do Livro — “Pentecostalismo e Pós-Modernidade” (página 288 e 289) — de César Moisés Carvalho



“A maioria de nós apela para a escatologia de forma escapista. Uma proposta que, além de desvirtuar o propósito da escatologia, acaba incidindo justamente no contrário do que recomenda Jesus em Atos 1.7, acerca da proibição de se especular o amanhã lançando mão de um perigoso exercício de futurologia.

Lamentavelmente, no transcorrer da história, a escatologia deixou de ser vista como a maior das esperanças daqueles que creem e foram alcançados pelo Evangelho, tornando-se uma fonte de exploração sensacionalista. Por isso, raramente se discutiu o inegável fato de que, antes de se especular acerca dos acontecimentos e mudanças, vendo-os como 'sinais da vinda de Cristo', era imprescindível preparar os seguidores do Senhor para interagir em um mundo que já não era mais o mesmo (Ef 4.11-16). Contudo, diante das mudanças e transformações, o máximo que tem sido feito é prognosticar, dando-se apenas ao trabalho de encontrar um texto para encaixar determinado evento na Bíblia. O resultado é justamente esse que tem se apresentado ao longo dos anos, isto é, sobra especulação e falta atitude.

Tal omissão, além de colocar-nos à margem e obrigar-nos a viver a reboque da história, produz um sentimento pessimista de acomodação: 'Nada pode ser feito'; 'As coisas são assim mesmo', e muitas outras escusas. O problema maior é que o corolário desse pessimismo, ou do catastrofismo escatológico, é justamente a imobilidade mental, social e cultural e até mesmo espiritual. Isto é, além da famosa desculpa de que 'Se o mundo está destinado ao caos, nada podemos fazer', há outra pior, que é aquela que se pretende piedosa: 'É cumprimento da Palavra de Deus, tem que ser assim, pois é sinal da vinda de Jesus'. Nessa lógica impera mesmo que irrefletidamente, aquela ideia de que 'quanto pior, melhor'. Da esperança passamos ao individualismo e ao egoísmo”.



O trecho acima, colhido do livro publicado recentemente pela CPAD, “Pentecostalismo e Pós-Modernidade”, de César Moisés Carvalho (Pastor graduado em Teologia pela PUC - Rio), vai contra a maré geradora do terrorismo psicológico o “escapismo apocalíptico que nos EUA incita os corações dos fiéis de Donald Trump. Muitos evangélicos do cenário religioso brasileiro e estadunidense (cerca de 80% votaram em Trump) chegam a ficar eufóricos com a possibilidade de uma guerra fratricida no Oriente Médio. Acreditam piamente no cumprimento literal do Apocalipse de João. As armas não são mais as espadas e as lanças da Idade Média, mas caças supersônicos, bombas, mísseis teleguiados, além de incitações beligerantes, veiculadas nas redes sociais. Para esses cruzados, portadores do que Freud denominava “Pulsão de Morte” ou “Pulsão Destrutiva”, é chegada a hora da reparação histórica de Israel, com a devolução de Jerusalém ao “povo eleito de Deus”. Entusiasmados, veem a transferência da embaixada dos EUA de Tel Aviv para Jerusalém, como o primeiro petardo de Javeh, no sentido de dar início a carnificina no “Vale do Armagedom”. A preparadí$$ima indú$tria de armamentos dos EUA, não está nem um pouco preocupada com as vítimas de futuros conflitos; ela está mais interessada em fomentar o sentimento destrutivo de vingança nos corações dos ressentidos que, em seu imaginário doentio, exige o pagamento através do derramamento de sangue dos inimigos de Javeh. Para a poderosíssima indústria bélica da maior Economia do Mundo, não existe melhor ocasião para de$ovar suas mais recentes e potentes armas, que os tempos atuais, em que predomina no meio religioso fundamentalista o anseio pela volta do espírito guerreiro que banhou a terra sagrada na época das Cruzadas. A poderosíssima indústria bélica se alimenta de consensos, como o que reproduzo abaixo:

“Ao discutir com seu professor sobre a resolução do conflito Palestino-Israelense, um aluno de ascendência judaica deu a versão tradicional de que o mais frágil deve-se dobrar ante aquele que tem mais poder. 'Os dois têm direito à terra; quem tiver as armas melhores vai fazer valer o seu direito' concluiu de maneira instantânea seu raciocínio”.

A ideia de uma solução bélica para resolver o conflito religioso no Oriente Médio vem varrendo, com uma intensidade nunca vista, as terras de Tio Sam, e consequentemente seu quintal o Brasil. Em um artigo publicado na Folha de São Paulo (07/12/2017), sob o título “Crença no Fim do Mundo Pesou na Decisão de Trump Sobre Jerusalém”, Igor Gielow foi certeiro na explicação dos motivos que levaram Trump a se valer do fantasioso escapismo do religioso fundamentalista. O financiamento e apoio do segmento evangélico que acredita piamente nas profecias de que o “Estado Judeu precisa estar plenamente estabelecido par dar curso à volta de Jesus Cristo à Terra” será determinante para a ascensão da figura do Anticristo no imaginário “cristão”. O Escapismo Apocalíptico, agora, mais do que nunca, vem sendo reativado. Em um primeiro momento pode-se até pensar que a prece tão repetida “Ora vem Senhor Jesus!” , não esteja carregando em seu bojo o ressentimento e o desejo de vingança. O que eles precisam saber é que “o Triunfo representa a mais efêmera das seguranças”. Os judeus, que já derrotaram assírios, gregos, romanos, bizantinos, cruzados e otomanos, conhecem a fundo essa matéria.

O desejo de escapar através da destruição do outro, tem sido uma tônica na psique do cristão fundamentalista desde os tempos mais remotos. Para esse grupo religioso, o argumento interesseiro e simplório, de apressar a “Vinda de Cristo”, nega o próprio cerne do cristianismo que não coaduna com a abdicação de se lutar por uma negociação ou conciliação, como tão bem fez ver, César Moisés Carvalho, no final de seu instigante ensaio Escapismo Escatológico”: “Vão pelo mundo inteiro anunciando a Boa Notícia para toda a humanidade (Marcos 16:15)”. Isso é o que nos cabe, mas especular sobre a Vinda de Cristo, gerando terrorismo psicológico em lugar de esperança, definitivamente é algo que não encontra respaldo algum nas palavras de Jesus”



Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de janeiro de 2018



18 dezembro 2017

O Natal e os Anjos do "Senhor Mercado"






Às vésperas do Natal de 2010 escrevi, nesse meu recanto do Google, o ensaio “NATAL: É Tempo de Rever Nossos Anjos” . No prólogo do artigo postado naquela época, dizia eu: “A história dos anjos se confunde com a história do homem, estando, relacionada ao nosso lado profano e ao nosso lado divino. A presença invisível dos anjos se confunde com o universo de nossos sentimentos, ambições, virtudes e falhas. Uma história repleta de contradições.”

Em sentido metafórico, a mente é a morada dos anjos. No mês de dezembro suas vozes se tornam mais audíveis, mais estridentes, atiçando de forma violenta os desejos humanos narcisistas. Na atual sociedade de consumo, as vozes angelicais do Natal têm ressoado fortemente no coração de muitos. O Rei e poeta bíblico Davi em seu mais famoso poema(Salmo de n° 23), cantava: “O Senhor é meu Pastor, Nada Me Faltará”. O desenvolvimento tecnológico criador de necessidades e impulsionador de desejos, na era moderna, para elevar as vozes de seus anjos, fez do título da poesia de Davi um bordão para servir de marketing a um indomável Senhor: O Mercado. Segundo os evangelhos, Cristo, uma vez, tentou expulsar os anjos desse “Senhor Mercado” do interior do Templo de Jerusalém, no episódio que ficou conhecido como “A Expulsão dos Vendilhões do Templo”. Eles faziam comércio com o sagrado, ocasião em que o Messias prometido sapecou a célebre frase “minha casa é casa de oração, e não covil de ladrões!”.

No Natal, os anjos do “Senhor Mercado” parecem redobrar os decibéis de suas vozes. Os que resistem ir às compras, usando seu décimo terceiro salário para pagar suas dívidas, são poucos. “Corra, você pode chegar atrasado aos nossos standards!” ecoa em uníssono o coral de anjos do Senhor Mercado, ao som de emocionantes cantos natalinos. É impossível o consumidor resistir ao apelo dos anjos que se encontram em torno do messias abarrotado de presentes em sua manjedoura. No imaginário coletivo da civilização ocidental, os mensageiros angelicais, nas festas do período natalino, portam uma rica faixa com dizeres em letras garrafais imensamente coloridas e flamejantes, condicionadores de êxtases consumistas irresistíveis:
A via para a felicidade ou o máximo de prazer passa pela satisfação irrestrita de todos os desejos. Não temam começar o próximo ano endividado, o que importa é seu prazer, aqui e agora. O Nosso Deus Mercado promete que todos os gastos que ultrapassar o salário de seus clientes serão beneficamente negociados no futuro”.


Na “Tentação do Deserto” metáfora dos “Desejos humanos”, relativa ao TER” , até mesmo Cristo se viu diante de um oferecimento, cuja essência tem tudo a ver com a lógica mercantil do mundo de hoje: “Tudo Isso Te Darei se Prostrado me Adorares”. É na época natalina que os anjos do Senhor Mercado mais martelam em nossos ouvidos uma musicazinha mundialmente conhecida, símbolo maior do $eu “céu paradi$íaco”, que assim termina: “...muito dinheiro no bolso, saúde pra “dar” e VENDER”. Enquanto Javeh, no Velho Testamento, conjuga o verbo SER, ao afirmar “Eu Sou o Que Sou!”, o deus do Mercado global troca o SER pela forma verbal TER, o mais almejado verbo da supermoderna sociedade de consumo. Para ele o consumir é bem mais interessante: alivia a ansiedade porque o que se tem não pode ser tirado. Pode, sim, ser trocado por outro bem que mais se identifique com a moda da época. Talvez por isso, o Deus Mercado, através de seus anjos, não cansam de anunciar em bom som: “Eu Sou o Que Tenho e o Que Consumo”. Enquanto a mensagem do Messias visa não ceder às tentações do Desejo no Modo TER, Papai Noel, o anjo maior do “Deus Mercado” insufla a capitulação. Os anjos comerciais estimulam o sujeito a não resistir a esse tipo de tentação, induzido-o dessa forma, a uma relação de completa inércia e não de vida com os objetos que obsessivamente adquirem. Se as pessoas não podem conter o imbatível Deus Mercado, é porque se encontram Nele contidos ou entranhados, desde tempos imemoriais.

Não nos causa surpresa, o Evangelho da Prosperidade Econômica ser, hoje, o que mais cresce no mundo ocidental, Seus anjos estão anunciando suas “Boa$ Nova$” por toda a parte, mais especialmente no âmbito da Televisão (os Tele-Anjos). A adoração que os humanos têm por eles é irresistivelmente tentadora. Esses hábeis anjos conjugam o verbo TER em todas as pessoas. É Importante salientar, aqui, que a locução “eu tenho”, no hebraico de forma indireta, significa o maravilhoso sentimento de posse: “é para mim”. “Quem me livrará do corpo dessa morte?!” escreveu o apóstolo Paulo aos Romanos. Parafraseando o apóstolo fundador do cristianismo, eu diria: quem resistirá ao divinal/profano chamamento do Deus Mercado, autor de anúncios como este?:

Esse mês todas as famílias serão ricamente compensadas. Todos poderão ter acesso a generosa oferta de oportunidades de endividamento. Não importam a desigualdade social, a corrupção endêmica e a miséria que assolam o país, o que importa é que Deus se fez Mercado e habitou entre os seus para a glória de todos que possuem a sua poderosa moeda de troca”.

Robert Merton, sociólogo estadunidense, há meio século, já falava do “Efeito Mateus”, que Wolfgang Streeck redenonimou de “Princípio de Mateus”, e que o Deus Mercado tomou emprestado dos evangelhos, para fazer de seu: “Pois a qualquer que tiver, será dado, e terá com abundância. Ao que não tiver, até o que tem será tomado.(Mateus 25:29)
O homem moderno não pode conter o imbatível Deus Mercado, exatamente por estar Nele contido. É precisamente no mês de Dezembro que os anjos do Deus Mercado se soltam para sussurrar aos ouvidos de muitos:

Você quer Ter(se apossar) das Boa$ Nova$ de $alvação? Se responder, SIM, cuide de trocar seu carro, trocar seu smartphone ultrapassado por um mais moderno, não deixe de adquirir sapatos novos, calça e camisa de grife, seu vestido estiloso e brilhoso sempre a combinar com joias de última geração. Dirija-se aos templos modernos de consumo(shoppings), e procure se encantar e se embevecer com os sensacionais objetos irrecusáveis que estamos exibindo em nossas vitrines celestiais. Se, por outro lado, responder 'NÃO', será condenado ao ostracismo eterno”.

O Deus Mercado não quer que ninguém se perca: A rendição aos Desejos de Posse será a única opção para não se cair na “Perdição Eterna”.


Por Levi B. Santos
  Guarabira, 18 de dezembro de 2017


Site da Imagem 1: www.mundoemtranse.com,br

14 dezembro 2017

O Poeta e o “Desejo de Falar com Deus”




Nada melhor que a palavra poética para exprimir o vazio existencial do sujeito. A ânsia de retomar o desejo inefável das benesses sagradas de um pai simbólico, faz com que o individuo “tenha que” abdicar das vestimentas que recobrem sua nudez. É justamente a falta que provoca em nós o desejo. Uma vez, satisfeito o desejo, o vazio volta a nos encontrar em uma outra parte de nossa trágica vida.

...A arte é, em si, capaz de comover o humano, desde os primórdios da civilização” afirmou a psicanalista Marília Brandão Lemos, em um artigo publicado na conceituada Revista “Estudos de Psicanálise” (PEPSIC) de setembro de 2006, sob o título: “Poesia, Psicanálise e Ato Criativo” , citando, em seguida, a providencial frase do poeta Mário Quintana: “E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da criação.”

Toda criatura é atravessada por um Desejo de Ser (ou de Ter), desejo intermediado pela palavra. Parafraseando o prólogo do Evangelho de S. João, eu diria que, o desejo se fez gerado em nossa carne, antes mesmo de termos consciência: É sobre essedesejo criador”, que Marília Lemos, em seu artigo abaixo, faz a seguinte alusão:

O Poeta, é um artesão da palavra, que forja o verbo com martelo e bigorna. Forjar a coisicidade da mesma. Como disse Lacan: 'à dignidade do indizível', do objeto perdido, do pulsional em seu efeito sublimatório que se sustenta sobre o NADA.
Segundo o criador da psicanálise, o desejo expresso nas artes, na literatura (poesia) adviria de redutos do processo psíquico primário, e o artista teria acesso privilegiado aos elementos do Inconsciente, pelo seu talento natural”.

No imaginário do poeta/religioso, à linguagem universalizante do Superego (imago divina paterna) é representada por algo interno que não cessa de ordenar ou exigir(simbolizado no poema de Gil, pela expressão repetitiva “tenho que...”). O “tenho que calar a voz/ tenho que aceitar a dor” é a condição necessária para que o amargor existencial do sujeito seja amenizado.

Todo esse preâmbulo de divagações pelos meandros da arte poética, da psicanálise e da Religião tem um propósito salutar. Portanto, não me alongarei, partindo para o que realmente interessa:

Movido por um processo dialético/simbólico/existencial, Gilberto Gil, elaborou, em 1980, um poema metafórico, representação da ambivalência dos afetos humanos Se Eu Quiser Falar com Deus”.

Nas palavras da psicanalista, Marília Brandão Lemos: “… o artista para criar, cria do despoder, da fraqueza humana, da impotência, do desamparo humano e não da Providência Divina. Cria da finitude e não da Eternidade Divina”.

Na realidade, o poema de Gil revela, mais que tudo, o desejo do artista, em seu caos interno, por “...um espaço onde ainda seja possível se mexer, quiçá voar”.

Decidido pela estrada/Que ao findar vai dar em nada/Nada, nada, nada/ Do que eu pensava encontrar” O desfecho do poema evidencia elementos de fundo psicanalítico.

Como a linguagem do Inconsciente (Deus – Pai simbólico) corresponde ao avesso do discurso do sujeito, o desejo é, ao inverso, dom daquilo que não temos. É confusão da falta, do vazio; é o oco ou espaço vazio de um vaso, ou seja, é o Nada. Nas palavras do psicanalista francês, Philippe julien, “o Desejo está para além da linguagem, hiância sempre aberta, a um só tempo lugar de medo e de fascinação”.

O “Nada do que desejava encontrar” do final do poema de Gilberto Gil, é uma espécie de queixa, e em termos psicanalíticos corresponde ao que Philippe Julien, aqui, afirma:

O que ele busca no outro é o precipício de seu desejo, para que o abismo de sua própria ausência tenha mais atrativos para o outro que sua limitada presença”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de dezembro de 2017