30 janeiro 2020
26 janeiro 2020
“Não Estou Preparada!” ― Um Dilema Shakespeariano
Para
o grande dramaturgo britânico, Oscar Wilde (1854 ― 1900), autor do
famoso “O Retrato de Dorian Gray”, “a vida
imita a arte mais do que a arte imita a vida”.
Ancorando-me
no enunciado (verso e reverso) elaborado por esse renomado escritor, detenho-me agora
no assunto mais comentado dos dias atuais nas redes sociais, nos
jornais e na TV. Manchetes, tipo “A Namoradinha do Brasil é
convidada pelo governo para assumir a Secretaria da Cultura”
infestaram de forma maciça os meios de comunicações.
A
consagrada atriz continua, ainda, ligada a Globo ― emissora de TV que a lançou no
mercado televisivo. Lá, teve um inusitado sucesso de público em sua longa carreira. Em seu trabalho
novelístico e artístico a atriz imitava tanto a vida de personagens das mais altas famílias, como a dos mais humildes moradores de antiquados rincões de
nosso país.
O
ator Lima Duarte (ex-companheiro de Regina Duarte na Novela Roque
Santeiro), com a verve humorística que lhe é peculiar, fez uma
inserção interessante entre o mundo da arte e o da vida real, reproduzida por Mônica Bérgamo em sua coluna na Folha de S. Paulo.
Disse,
Lima Duarte, que na telenovela "Roque Santeiro" fazia o papel de um
impulsivo coronel do interior:
“A
união de Regina com Bolsonaro é perfeita para o Brasil de hoje:
Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura” ―
afirmou, como que evocando o papel dos dois em Roque Santeiro(drama que bateu todos os recordes de audiência da Globo, em 1985).
Entrar
na vida Política sem a muleta da fantasia ou da ficção parece ser
coisa praticamente impossível. É que as coisas do Estado, de há muito, andam muito parecidas com o mundo ficcional das novelas.
“Não
estou preparada!”. Bem, isso é o que, até agora, a
atriz Global afirma em suas falas recentes sobre assumir ou não
assumir a Secretaria da Cultura.
Divagando sobre o que pode estar escondido no âmago da afirmação defensiva da
artista:
Como
carregamos em nossa índole a ambivalência desde os tempos mais
remotos, na arte da política podemos agradar ou provocar. É em
tempos de polarização excessiva que ocorrem os mais sérios
atritos: se meu lado conservador se sobressai posso até agradar aos
meus que militam na direita, mas, ao mesmo tempo, desagrado aos do
lado oposto. E aí surge a pertubadora dúvida: a do pender ou não pender para o lado político que, momentaneamente, comanda a situação.
Na
vida, equilibrando os dois lados de sua ambiguidade interna, a atriz
muito representou, quer do lado do conservadorismo, quer do lado
engajado na vanguarda pelos direitos femininos. Em “Malu
Mulher” a atriz, em seu papel, vivenciou a violência
doméstica, a submissão psicológica, a revolta contra o machismo.
Tudo isso numa época em que não se aceitava a independência da
mulher.
Acontece que depois de ter, por muito tempo, representado as contradições e idiossincrasias humanas através das
novelas e mini-séries, a intérprete talvez esteja se vendo numa encruzilhada, sem ter ideia de como conciliar sua alma de desejos dúbios; sem o poder de efetuar a síntese dos
dois lados antagônicos de seu duplo eu, para que haja, enfim, o mínimo de apaziguamento interior.
Agora,
sob o peso da idade e depois de muitos anos atuando na Vida de
Representação, como sair dessa enrascada?
Abraão
Grinberg e Bertha Grinberg em “A Arte de Envelhecer com Sabedoria”
escreveram algo muito contundente sobre a consciência-de-si, que, com maior nitidez, aparece naquela fase da vida em que, pela soma das muitas experiências vivenciadas, já nos encontramos bem mais amadurecidos:
“...É
o instante da vida em que deixamos de ser a montanha para sermos um
simples vale. O vale das montanhas do mundo dos homens. O instante em
que a Locomotiva será conduzida pelos vagões”.
Coincidência,
ou não, no campo da arte política, não vamos, somos levados.
Vigiemos, pois é na terceira idade que a impetuosa necessidade de
reflexão nos surpreende com mais intensidade.
Por Levi B. Santos
Guarabira,
26 de janeiro de 2020
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18 janeiro 2020
SÓ O TEMPO DIRÁ POR QUE O SECRETÁRIO ESPECIAL DA CULTURA FOI REVISITAR O MONSTRO NAZISTA JOSEPH GOEBBELS
Adolf Hitler e Joseph Goebbels
Foi
com essa História de “Regeneração Cultural” que os dois
monstros, Adolf Hitler e Joseph Goebbels (carrascos responsáveis pelo
Holocausto Judeu), alienaram ou cegaram quase toda a população da
Alemanha de sua época.
Aqui,
pra nós, quero dizer, antes de tudo, que toda a forma de
totalitarismo é deletéria, quer seja ela de extrema esquerda, ou de
extrema direita.
Já
martelamos demais a respeito dessa insana polarização. Quem não
sabe que quanto mais inclinação tivermos para um dos dois lados tentando anular ou destruir o outro que nos é diferente, certamente iremos cair numa espécie de Totalitarismo?
A
coisa funciona tão sutil, que a própria Censura psíquica pode
aprontar surpresas desagradáveis, como o de fazer aflorar o que está
guardado a sete chaves na instância que a psicanálise deu o nome de
INCONSCIENTE.
O
Inconsciente é a sede de memórias e sentimentos antigos que com o
tempo, foram recalcados ou soterrados em lugares profundos da psique.
Grande parte do que nos motiva advém dessa instância,
principalmente no que tange aos “lapsos” que cometemos no dia a dia em
situações de estresse ou de grande emoção. Aí dizemos numa
espécie de racionalização (mecanismo de defesa): “Ops!
Cometí um equívoco!”.
Quem
porventura não sabe que, nos momentos que estamos submetidos a forte
tensão em nossos discursos, desejos ou impulsos independentemente de
nossa vontade consciente podem de um segundo para outro aflorar,
trazendo-nos tormenta?
Atos
falhos, ambivalências, chistes, citações embaraçosas são
fundamentais no trabalho do analista. Essas idiossincrasias, pelo
avesso daquilo que é consciente, fornecem ao examinador elementos
essenciais para que a verdade ofuscada do sujeito venha à tona ―
assim reza a psicanálise
Nos
sentimos como que traídos quando desejos e impulsos que
considerávamos inaceitáveis em nós, rompem a barreira da Censura, deixando-nos repentinamente de saia justa. É em ocasiões como
esta que, para evitar o desprazer, reagimos de forma racional
tentando mascarar o que de verdade aflorou do inconsciente. Nessas
horas, sempre de forma defensiva, costumamos dizer: “Eu não
queria dizer isso”, ou “Fui mal entendido”, “Foi
um lapso”, “Eu não sabia”, etc.
Foi
em um discurso carregado de emoção, sob um suposto intuito de
regenerar a sociedade brasileira que, inconscientemente, o ministro
Roberto Alvim deixou escapar, em seus mínimos detalhes, uma
excrescência do pensamento totalitarista do monstro nazista,
Goebbels.
Mas,
que fique claro: esses sentimentos ou afetos destrutivos já residiam
em seus profundos arquivos mentais, desde muito tempo. Ressalte-se,
aqui, que não quero execrar ninguém, pois, não somos diferentes:
nossas inclinações autoritárias e de outras origens instintuais
estão indefinidamente adormecidas nos arquivos indeletáveis de
nossa Psique.
Mesmo
a Bíblia afirmando que é preciso vigiar para não cair em
tentação, quando menos se espera, ou quando o vigia postado na portaria da Censura resolve dar um cochilo, os recalques se imiscuem em nossa
sala de visitas deixando-nos desarticulados.
Cabe
a nós, dominar nossas feras interiores. Ou não foi assim que
Javeh, o Deus dos Hebreus, se apresentou a Caim, quando ele
premeditou assassinar seu irmão Abel? Sob a forma de uma voz
poderosa vinda do Inconsciente, Caim parou para ouvir: “O
Pecado jaz à Porta, e sobre ti será o teu desejo, mas sobre ele
deves dominar” (Gênesis 4 : 7)
Para
finalizar esse breve ensaio, quero recorrer a emblemática confissão
do psicanalista Carl Gustav Jung, quando após a Segunda Grande Guerra
Mundial recolheu-se em sua casa às margens do lago de Zurique da sua
amada Suíça, onde viveu seus últimos cinco anos de vida.
Durante
a segunda guerra mundial, dizia-se “boca a boca” que o
psicanalista Carls G. Jung tinha colaborado com o governo de Hitler
Em
1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor
judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de
uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: “Está
certo, eu vacilei.”(Jung―Uma
Biografia―Frank
McLynn―Record
Editora)
Mesmo
tardia, compreendo que a confissão de Carl G.
Jung tirou um grande peso
de sua consciência, além de ter resgatado sua biografia.
Entretanto, sei
o quanto
é difícil para o senhor, Roberto Alvim, confessar que vacilou e, por essa
razão, não
entro no mérito da questão que foi notícia em todos os jornais do
mundo.
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
18 de janeiro de 2019
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01 janeiro 2020
O DEUS JANUS, O VELHO E O NOVO ANO
O
Deus romano JANUS, portava duas faces: uma olhando para trás (o
passado) e outro olhando para frente (o futuro). Na mitologia, esse
deus tinha o poder de acabar com o velho para dar lugar ao novo.
Na
verdade, indo na contramão da lógica mítica, acho que não
acabamos com o velho. A Ciência, hoje, assegura que o presente se
nutre do passado e ao mesmo tempo, emite suas ressonâncias para o
devir.
A
metáfora das duas faces do deus Janus, representação simbólica de
que o passado e o presente sempre se complementam ―, está mais
viva do que nunca.
A
cada passagem de ano, lá estamos realizando o “eterno retorno”
de que falou Nietzsche. O desejo de fazer uma retrospectiva dos
acontecimentos mais marcantes de nossas vidas está aí para provar
que precisamos do passado para confrontarmos com o presente e mais
tarde com o que há de vir.
Hoje
mesmo, por ocasião do aniversário de minha esposa, ressonâncias
dessa história mítica de Janus, creio eu, vieram à tona.
Todos
ficaram encantados com o trabalho artístico executado no computador,
por Thiago (meu filho mais novo) e sua esposa Charly. Eles colocaram
lado a lado o passado e o presente: Fotos do passado do pai e da mãe
em ordem cronológica, como se faziam antigamente: retratos, em
sequência cronológica, colados nas páginas grossas dos velhos
álbuns do tempo da máquina de fotografar - KODAK. Ao mesmo tempo
passava em vídeo musicalizado toda a roda viva das fotos até os
dias atuais, como se fazem nos filmes de documentários. Mas isso o
deus Jânus do Facebook, de tempos em tempos, já faz, ao oferecer a
opção “retrospectiva” aos seus usuários, tipo: “quer
relembrar momentos marcantes de você com seus amigos, tantos anos
atrás?” E, com um clique, fatos que você talvez já tivesse
esquecido são transportados instantaneamente para o tempo presente.
Quanto
aos velhos, a Face do deus Janus voltada para frente é tenebrosa,
pois aponta o pouco tempo que lhes resta na caminhada terrena.
Graças
à tecnologia digital, eis que a face do deus Janus voltada para o
passado, capta e expôe as marcas que o tempo imprimiu nas
fisionomias dos que já se sentem fisicamente cansados. Quanto aos
joviais e cheios de vida que se encontram no início ou na metade da
jornada, a face da frente desse deus bifronte pode até sorrir.
Gosto
de me debruçar sobre as histórias míticas, porque, mais do que
tudo, elas nos ensinam a voltar para dentro de nós, a fim de captar
a grandeza das mensagens que residem nos símbolos. Acho os Mitos
fascinantes pela simples razão de falar do mistério que há em cada
um de nós. "Até quando sonhamos, estamos navegando no vasto oceano
da Mitologia" ― disse certa vez, o mitólogo Joseph Campbell.
Por
Levi B. Santos
Guarabira, 01 de janeiro de 2020
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21 novembro 2019
REVISITANDO O PROFESSOR DE JAVANÊS
Ontem
(20), dia da Consciência Negra, o ministro Toffoli trouxe ao pleno do STF o
“escritor negro que nunca esqueceu a sua classe” ― Lima Barreto
─, autor do risível “O Homem Que Sabia Javanês”.
No
conto, o personagem Castelo criado por Lima Barreto “era um
diplomata que chefiava um consulado, mas não sabia a língua exótica
que um dia se propôs ensinar”. Em conversa com seu amigo Castro
numa Confeitaria exibia orgulhoso as peças que pregava no
seu ambiente de trabalho...
Bem,
vou parar por aqui. Deixo a cargo do leitor, a leitura ou (releitura)
da fenomenal obra desse venerado escritor. E que venham boas gargalhadas.
O
voto de Toffoli, que não disse coisa com coisa por mais de quatro
horas (no caso COAF), com certeza, será lembrado pelas futuras
gerações como um dos maiores fiascos da História do STF.
Mas
foi o indefectível Luís Roberto Barroso que, já saindo do
plenário, após o truncado julgamento, sapecou a frase que evocou
Lima Barreto:
“Tem
que trazer um professor de Javanês!!!”
Ainda
bem que Barroso, um apreciador da boa literatura, chamou-nos a
atenção para o memorável conto de nosso corajoso escritor negro -
Lima Barreto - na noite do Dia da Consciência Negra.
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
21 de novembro de 2019
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18 novembro 2019
AINDA SOBRE OS "ABUSOS DO STF"
A
interpretação do Supremo ― no que diz respeito ao momento de
prisão do réu ─ vem sofrendo variações conforme as
circunstâncias ou contingências que o momento político oferece, o
que provoca uma total insegurança jurídica.
Tanto
é assim, que Eduardo El Hage, procurador que pediu a prisão de
Sérgio Cabral, já teme pela soltura do ex-governador do Rio de
Janeiro, condenado a 33 anos de prisão. Somando, todas suas penas
chegariam a 267 anos de encarceramento (Leia na íntegra o artigo de Italo Nogueira – na Folha de S. Paulo de hoje, dia 18 de novembro
de 2019).
Para
El Hage, só haveria um caminho para acabar com o “vaivém” de
abstratos entendimentos: o Senado atuar como contrapeso ao que
classifica como abusos do STF.
Mas,
ao que parece, herdamos toda a gama de atrocidades da dúbia
democracia grega em seus primeiros e trôpegos passos.
Foi
o dramaturgo Sófocles que, antevendo o destino da capenga democracia
de Atenas, colocou palavras lapidares na boca de Creonte, palavras
que ressoam de modo mais dolorido em nosso atual e sombrio tempo. O
eco daquelas palavras, hoje, mais do que nunca, fazem travar a nossa
língua de um amargor muito mais forte e cruel do que o experimentado
pelos filósofos do sonho democrático abortado nos tempos imemoriais
da frágil Grécia Antiga.
Creonte,
ao abrir os olhos para o óbvio ululante, do fundo de seu ser fez
emergir essa insofismável verdade, que retrata, sem tirar nem por, o
final melancólico do enredo trágico encenado pelos poderes de nossa
república das bananas ― versão 2020:
― “Não
é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo de
sua alma, seus sentimentos e seus pensamentos mesmos, antes de o
vermos no exercício do poder”.
“Será
que os meliantes de nossas ‘sagradas casas’, não percebem que
tudo se inicia no vácuo da falta de vigilância, uma vez que o estar
sempre alerta no domínio de suas feras interiores, afastaria o
narcisismo doentio e infantil responsável pela insana AUTOFAGIA ―
processo esse que, ao fim e ao cabo, não deixará ninguém de pé?”
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
PB
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31 outubro 2019
AS EXÉQUIAS DO EXCÊNTRICO BIOANALISTA
O
laboratório era sua segunda casa. A bem dizer, quase todos habitantes da
pequenina cidade já tinham passado por suas mãos. Respeitavam-no, pois era a quem recorriam; a quem entregavam seu sangue, seus excrementos sólidos e
líquidos a ser examinados minuciosamente.
Na
tarde cinzenta e fria de seu sepultamento ninguém ousou dizer uma palavra
sequer. O sacerdote esperava que alguém se pronunciasse, antes do féretro descer
à cova, mas nenhum tomou essa iniciativa. Aliás, nada podiam fazer, pois estavam
perplexos, como que atacados por uma sisudez mórbida, como se uma aura paralisante
tivesse caído abruptamente sobre seus nervos e músculos. Uma mistura de
perplexidade e tristeza transparecia em todos os olhares.
O
silêncio que reinou minutos antes do corpo do cientista descer à sepultura,
talvez fosse resultado do clima de extrema religiosidade da população a colidir
com a personalidade paradoxal do douto senhor. Talvez, os seus defeitos estivessem
a anular as suas virtudes, impedindo os discursos fúnebres, que geralmente se
nutrem do lado “bom” do sujeito. O certo é que um clima de temor caiu sobre os
que estavam ao pé de sua cova. Uns temiam que surgisse algum antipático
a falar, ali, sobre as fraquezas e as excentricidades do defunto; outros
receavam que as palavras de elogios ao morto, pudessem desaguar em um sonoro “não é
verdade!”.
Não
é que deu para ouvir o que uma das garotas, ali presente, balbuciou ao ouvido da outra?! É que o
falecido tinha encontrado tantas variedades de vermes nas fezes dela que, ao
apresentar-lhe o resultado, chamou-a de “verminosa” ― termo compreendido pela examinada como um xingamento.
Enfim,
o doutor era o paradoxo em pessoa ― o que não é novidade nenhuma, pois é exatamente
a contradição que caracteriza o humano. Por vezes, pessoas que compareciam a
seu laboratório para lhe fazer perguntas sobre resultados de exames, recebiam
como resposta, o silêncio, ou, quando muito, o lembrete: “Não abra o envelope, seu médico
é quem vai informar o que você tem.”
Denotando todo seu modo ambivalente de ser, às vezes, quando inquirido insistentemente
sobre o que tinha dado nos exames, disparava: “Huuuuumm! Parece uma infecção aguda!”.
Não
encontrando fórmulas para dizer a verdade, em toda sua plenitude, naquele cair de tarde, a maneira melhor, mais simples e sincera
que encontraram foi não emitir opiniões sobre o incrível homem de branco. Na falta de expressões que
abarcassem toda a verdade sobre o falecido, resolveram aproveitar o silêncio ou
o vazio de palavras do momento para recordar fatos pitorescos e engraçados da
vida do doutor ― homem que conhecia muito bem o que estava oculto no sangue e
nos excrementos de todos que o acompanhavam em sua derradeira viagem.
As
últimas palavras do sacerdote confirmaram o que preconizam os filósofos e
estudiosos da alma humana: “Não existe olhar neutro ― ele está sempre
carregado de subjetividades nas relações que construímos uns com os outros”.
O
enunciado bíblico “... e as suas obras o sigam” ― recitado
pelo pároco no final do ritual fúnebre ―, mudara instantaneamente o ar dos velhos
amigos de infância do analista a caminho de sua última morada. A estranheza
denunciada pelo olhar deles, talvez se devesse a palavra “obra”. Este termo parece ter sido a senha para que viessem à tona
fatos longínquos de suas vidas. É de se pensar que chegaram instantaneamente às suas mentes,
lembranças reprimidas do tempo em que depositavam as latinhas com os dejetos dos filhos e netos sobre o balcão de madeira do velho laboratório a serem analisados.
“Eu vim trazer a obra de meu menino para o senhor examinar” ― era assim que os ex-colegas de infância, com o olhar cabisbaixo e carregado de vergonha, se dirigiam a esse homem sisudo de avental branco, que passava a maior parte de seu tempo cercado de tubos de ensaios, tendo bem ao centro de uma grande mesa de madeira de lei o inseparável e velho microscópio cheirando a clorofórmio.
“Eu vim trazer a obra de meu menino para o senhor examinar” ― era assim que os ex-colegas de infância, com o olhar cabisbaixo e carregado de vergonha, se dirigiam a esse homem sisudo de avental branco, que passava a maior parte de seu tempo cercado de tubos de ensaios, tendo bem ao centro de uma grande mesa de madeira de lei o inseparável e velho microscópio cheirando a clorofórmio.
Depois
do enterro de um ente querido, comumente, há sempre pessoas que têm o dom de
contagiar o ambiente com suas traquinices, como que para quebrar a monotonia de
fundo melancólico instaurada em ocasiões como essa. O certo é que ao descerem a ladeira do
cemitério, rumo às suas casas, riram muito a respeito do paralelismo lingüístico
entre “fezes” e “obras”(*).
Até confidenciaram entre si que o falecido poderia (por que não?) ter sua
função re-exercida na eternidade.
Por Levi B. Santos
Guarabira,
30 de outubro de 2013
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14 setembro 2019
EM RUÍNAS A CATEDRAL DO INÍCIO DE NOSSA VIDA ACADÊMICA (Turma de 1971)
O
mitólogo, Joseph Campbell, falando sobre o PODER do Simbólico em
nossa realidade psíquica, o comparou a esfera do Sagrado. Disse ele:
“Um templo é uma paisagem da alma”.
Fui,
não nego, inundado por uma imensa tristeza, ao contemplar o Velho
edifício que nos serviu de Templo no início de nossa jornada como
acadêmicos de Medicina; templo, agora, em completa ruína e total
abandono.
Transtornado,
a mim mesmo perguntei e ao mesmo tempo respondi: o que aconteceu com
a nossa primeira CATEDRAL? Só pode ter sido vítima de uma violação
sacrílega.
Não
à toa, os nossos guias ou mestres eram denominados catedráticos. Se
vivos fossem, que diriam, hoje, os sacerdotes, Asdrúbal, Amílcar,
Aníbal, Vitorino, Genival Veloso, e outros que os arquivos travados
de minha memória, por ora, não me permitem trazer à tona?
Só
sei que esses denodados guias, foram os primeiros a abrir nossos
olhos para o estudo macroscópico e microscópico do corpo humano
inerte e fatiado, porém sagrado.
Que
extasiantes aulas recebíamos dos veneráveis mestres! Lembro de que,
lá fora, enquanto nossos “xamãs”(líderes inspirados pelos
espíritos para condução das cerimônias) se preparavam para
execução do doce/crucial rito (as aulas), as alamedas que
contornavam o Templo Sagrado, nos intervalos das ministrações, nos
serviam de espaço profano para extravasamento do lado oposto da
dualidade intrínseca de nosso mundo afetivo ou interno, como faz ver
bem, Elíade Mircea, no trecho, abaixo, pinçado de seu antológico
livro ─ “O Sagrado e o
Profano”:
“Sagrado
é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado
especial para uma pessoa ou grupo. Profano é tudo que não é
sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os fatos e atos da rotina”.
O
certo é que quando adentrávamos nos recintos mais íntimos da
Catedral primeira de nosso passado de acadêmico, algo nos
transformava: um misto de medo, temor e tremor nos contagiava, algo
como uma voz angelical a imbuir em nosso espírito o mesmo sentimento
solene que assoma os corações dos fiéis que ascendem ao altar da
catedral para, em sua prece dominical, oferecer seus sacrifícios
vivos e agradáveis a Deus.
Cada
um de nós da turma de 1971, com certeza, guarda célebres lembranças
desse longínquo passado. O nosso colega Evaldo Carneiro, portador de
uma fantástica memória, foi buscar no baú de seu abismo psíquico,
memoráveis lembranças, uma delas retocadas pelo colega Joaquim. Não
poderia deixar de ressaltar, aqui, o brilhante passeio histórico que
saiu da pena do colega Jaime Xavier.
Quantas
imagens, quantas memórias surgiriam se o caleidoscópio do nosso
inconsciente coletivo daquele saudoso tempo pudesse, um dia,
destravar seus arquivos e deixar fluir seu conteúdo por completo.
Com certeza, livro nenhum caberia a autobiografia do nosso primeiro
ano de faculdade (peço vênias ao nosso genial biógrafo ― o irmão
Fonseca).
Ao
olhar demoradamente o que restou de nosso primeiro palácio sagrado,
me vieram à lembrança a melodia e a letra de “Saudosa Maloca”
─ magistralmente
interpretada pelos “Demônios da Garoa”. O estribilho desse
memorável samba, cai bem aqui, como epílogo de minha melancólica
descrição:
“Saudosa
maloca, maloca querida
Din
din donde nos passemos
Os
dias feliz de nossas vidas”
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
14 de setembro de 2019
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31 agosto 2019
DA ANGÚSTIA DO JUIZ EM TEMPOS DE POLARIZAÇÕES
“A primeira lição que podemos extrair dos escritos de Sartre diz respeito à natureza existencialmente desafiadora do juiz. Ele é constantemente chamado a fazer escolhas que podem alterar radicalmente o curso de uma partida. [...]Segundo Sartre, o sentimento de contingência permeia a experiência humana da escolha. Por mais certeza que tenhamos sobre uma determinada decisão, temos consciência, não obstante, de que outra alternativa seria possível. Uma vez que cada caminho está cheio de possibilidades, parece que não podemos deixar de aceitar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Sartre argumenta que esse sentimento de responsabilidade inescapável tende a provocar angústia”.
O Trecho acima entre aspas - sob o título - A Solidão do Juiz - é de Jonathan Crowe – replicado da Revista Piauí nº 50 (Novembro de 2010), e trata do dilema do juiz de futebol que, mesmo diante de um lance duvidoso, é obrigado a punir o time que ele supõe ter sido desleal.
Penso que o artigo - “A Solidão do Juiz” - pode ser aplicado aos momentos atuais de nossa frágil república. Ao fim e ao cabo, o veredicto cabe aos magistrados da mais alta instância jurídica. “Rigorosos/lenientes - intransigentes/complacentes” são adjetivos que retratam as características dúbias das almas dos dois grupos políticos que se digladiam para que suas argumentações, racionalizações ou manobras sejam acatadas pelos doutos ministros.
Sobre o resultado imprevisível do jogo, Jonathan Crowe, assim se expressou:
"O bandeirinha pode sinalizar, os jogadores podem reclamar e a multidão pode rugir, mas em última análise tudo depende do juiz. Este é o momento da decisão, quando o destino do jogo pousa sobre os ombros do árbitro.
É bom não esquecer do que, aqui, Sartre inferiu: "nenhum juiz está livre do sentimento de contigência". A contigência, que tem como fundamento a incerteza, quer se queira ou não, é produtora de angústia.
Sobre o resultado imprevisível do jogo, Jonathan Crowe, assim se expressou:
"O bandeirinha pode sinalizar, os jogadores podem reclamar e a multidão pode rugir, mas em última análise tudo depende do juiz. Este é o momento da decisão, quando o destino do jogo pousa sobre os ombros do árbitro.
É bom não esquecer do que, aqui, Sartre inferiu: "nenhum juiz está livre do sentimento de contigência". A contigência, que tem como fundamento a incerteza, quer se queira ou não, é produtora de angústia.
Por
Levi B. Santos
Guarabira,
31 de agosto de 2019
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27 julho 2019
O Preconceito Que a Gente Nem Enxerga.
As
diversas formas de preconceito estão intimamente ligadas à
intolerância. Com o advento da psicanálise ficou finalmente
demonstrado que esse sentimento hostil se estabelece sorrateiramente
durante a nossa tenra infância. Hoje, já adultos, nos vigiamos o
tempo todo para não dar expressão àquilo que continua arquivado
nos arquivos indeletáveis de nossa mente. A canção - "Revelação"
(de Fagner) - fala da cruel e dura realidade desse obscuro afeto:
"Quando a gente tenta de toda maneira/Dele se
guardar/Sentimento lhado/Morto amordaçado/Volta a incomodar".
Apesar
de todo o esforço para não cair nessa modalidade de tentação, o
homem, em sua linguagem dubiamente simbólica (ou através de
lapsos), vez por outra, deixa escapar ressonâncias de algo que nunca
ousou enxergar através de seus olhos internos.
O
certo é que o preconceito tem suas raízes profundas fincadas no
nosso inconsciente. Por isso mesmo, nem percebemos o quanto ele está
a nos influenciar, se imiscuindo sutilmente em nossas decisões.
Seguem
aqui algumas perguntas que podem nos levar a dirigir nosso olhar para
os fantasmas inconvenientes que nos habitam, sabendo de antemão que
induzir à auto-reflexão não é o mesmo que fazer apologia ao
preconceito.
● Será
que realmente somos pessoas sem nenhum tipo de preconceito? Será que
a imagem que fazemos de nós para os outros é 100% verdadeira?
● Será
que lá nos recônditos obscuros de nossa psique não se escondem
sementes de intolerância que em nossa vida pregressa foram plantadas
em nosso próprio seio familiar?
● Será
que, em menor ou maior grau, não somos todos preconceituosos?
Em
analogia ao convite à reflexão que o Messias dos Evangelhos fez aos
fariseus por ocasião da aplicação da pena de apedrejamento à
mulher adúltera:
“Quem
nunca sofreu ou teve preconceito que atire a primeira pedra!”
P.S.:
Fernando
Pessoa no capítulo X de “O Guardador de Rebanhos” −
fala de um Tu contido em seu próprio Eu. Ao encerrar seu
significativo poema, com a frase: “a mentira está em ti”,
o poeta demonstra que por meio desse “Ti” é induzido a
olhar para dentro de si mesmo. Em seus versos, o insuperável Pessoa
sempre recorre a heterônimos. Os heterônimos lhe serviam de
receptáculos para projeção de seus próprios recalques.
Leia
e reflita bem sobre esse emblemático trecho de ─ “O Guardador de
Rebanhos” ―, do fenomenal poeta do “Desassossego”. O poema
revela, mais que tudo, a nossa alma de sentimentos dúbios, e, tem
muito a ver com o tal preconceito aqui ventilado.
«Olá,
guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
Que
é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?
Muita
cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.
Nunca
ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti. »
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti. »
Por
Levi B. Santos
Guarabira, 27 de julho de 2019
Guarabira, 27 de julho de 2019
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