03 agosto 2013

Breves Considerações Sobre VANDALISMO




A palavra vandalismo deriva de “Vândalos” uma tribo de origem germânica que saqueou Roma, no século V. Segundo a Enciclopédia Britânica, quando os Vândalos invadiram Roma, o império romano era um regime escravocrata e não apenas um centro de arte e de antiguidades.

Diz-se que “as colunas do coliseu e do senado romano foram erguidas ao custo alto de milhares de vidas que foram relegadas ao trabalho escravo, sob opressão e violência de uma minoria da elite romana”.

“O termo “vândalo” passou, pela primeira vez, a ser usado de forma casuística pelos donos do poder, durante a revolução Francesa, ocasião em que muitos dos antigos oprimidos passaram a radicalizar o processo político, e lançaram seu ódio contra a monarquia absolutista e suas instituições”. (vide artigo ― “Afinal quem Foram Esses Tais Vândalos”, no site “A Nova Democracia”)

Nos meus sessenta e seis anos de idade, não me lembro de uma época em que os termos Vandalismo e Vândalos foram tão usados e abusados por parte do governo, dos políticos, dos redatores da imprensa escrita e televisiva do país, quanto ocorreram nas recentes manifestações de ruas que pôs a presidenta Dilma, até o presente momento, a falar besteiróis e criar factóides para desmentir no dia seguinte.

Nas manifestações repleta de cartazes pedindo “Hospitais padrão FIFA”, os repórteres foram quase unànimes em classificar os Vândalos, como aqueles que infiltrados nos recentes protestos de um povo insatisfeito com os desmandos do governo, partiram para a depredação do patrimônio público em meio à grande maioria dos que de forma ordeira invadiu as ruas das grandes cidades de todo o país, sem a intermediação de partidos políticos e sindicatos.

Na noite fatídica em que o prédio do Congresso foi invadido por milhares de jovens, estava eu ligado no canal do Senado, vendo apenas quatro senadores que em meio a muitas cadeiras vazias, permaneciam no plenário do senado, numa espécie de vigília cívica. Os outros senadores temendo um desfecho violento, diante da aglomeração indignada de jovens, fugiram atabalhoadamente do recinto, em consonância com o ditado: “Pernas pra que te quero”.

Ficaram lá Pedro Simon, Pedro Taques, Magno Malta e Cristovam Buarque, trocando ideias sobre as manifestações inesperadas de uma juventude cansada de ser espezinhada e explorada pelo Governo Central.

Eis que em meio à conversa deles, chega a notícia de que Vândalos estavam quebrando as caríssimas e belas vidraças do Itamaraty. Lembro-me de que um dos senadores reagiu com vigor contra os atos de depredação de um prédio, para ele, revestido de alto simbolismo.

Surpreendi-me quando o senador Cristovam Buarque, emocionado, tomou o microfone e fez um emblemático discurso denunciando quem eram os verdadeiros vândalos, culpados por tudo que ali estava acontecendo.

Nos últimos dias, quando a presidenta e sua base aliada vêm de forma alucinada, tomando medidas arbitrárias, insanas, estapafúrdias, demagógicas e escravagistas, pisando a própria constituição que um dia prometeu defender, achei mais do que conveniente trazer à tona trechos da fala do grande educador Cristovam Buarque, naquela noite em que vidros foram estilhaçados no belo palácio do Itamaraty:

“Fala-se da violência dessa meninada lá fora. Gente, violência é aquilo contra o que eles lutam. Violência é o transporte público no Brasil, que deixa pais e mães de família uma hora num ônibus, três horas no trajeto para a casa todos os dias. Isso é violência. Violência é uma escola onde a criança não tem uma cadeira para sentar, uma cadeira desconfortável e estuda em um quadro negro, já nem mais aceito hoje. Violência é uma mãe e uma criança no colo em uma fila pra ser atendida porque a criança está doente. Isso é violência. Nós não temos jovens violentos. Temos um sistema violento.” ― disse

“E quando se fala em vandalismo: vandalismo de quebrar uma vidraça, que não devemos recomendar ou aceitar, é muito menor do que um vandalismo que se faz contra a vida dos brasileiros. Crianças morrendo por falta de UTI? Isso é vandalismo, porque o dinheiro foi para construir um estádio de 1 bilhão e seiscentos milhões de reais, onde só vai entrar quem paga 500 reais” ― disparou.

Um silêncio sepulcral dominava o plenário praticamente vazio, quando Cristovam desabafou: “O senado estar vazio, sem os outros senadores em um momento tão importante, é a maior forma de violência”.

“A violência não é da meninada nas ruas. A violência é do sistema que nós temos há 500 anos no Brasil, Violência é o senado vazio numa hora dessas.”
“Antes de acusarmos o vandalismo deles é preciso no perguntarmos: onde erramos? Antes de os chamarmos de vândalos é preciso admitirmos que fomos nós vândalos ainda maiores”.

“Nós políticos vandalizamos a Saúde Pública. Vandalizamos a Constituição. Vandalizamos a segurança pública. E o mais grave: vandalizamos a educação deste país”.

 “Quando dizem que no Brasil as crianças ficaram violentas na escola, eu digo: as crianças são pacíficas demais diante da violência da própria escola sobre elas, e o mesmo eu digo desses que estão quebrando as vidraças do Itamaraty.”

“Se em meio a uma multidão de manifestantes pacíficos, um pequeno grupo faz isso é porque matamos os sonhos dos nossos jovens e provocamos a ira dos outros. Nós políticos colaboramos para este ‘casamento’ perigoso entre o ‘sonho morto’ e a ‘raiva viva’ dos nossos jovens”.

“Se não nos perguntarmos onde erramos, não vamos parar com esses vândalos menores e muito menos com o vandalismo maior ― que é toda política social brasileira.”
 (Cristovam Buarque)

P.S.:

No próximo dia 14, o STF inicia a fase final do julgamento dos vândalos que estavam se locupletando no poder, e agora, vão  receber o veredicto final por crimes de peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
É mais uma COPA contra a Impunidade que os jovens, com certeza, acompanharão por telões, inundando as ruas de Brasília.

Enfim, uma notícia que nos transmite esperança de dias melhores:

“O decano da corte máxima do país, Celso Mello, acredita que em no máximo oito sessões será possível concluir o julgamento dos embargos interpostos pelos mensaleiros.” 

Vide link:



Por Levi B. Santos

Guarabira, 03 de agosto de 2013

Site da Imagem: lorotaspolíticaseverdades.blogspot.com

25 julho 2013

“Mais Médicos” ― Para Acalmar as Ruas




Foi Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), que editou o extravagante manual político ― “O Príncipe” ―, ainda em voga em nossas plagas, cujo conteúdo está repleto de astutas lições marqueteiras sobre como devem agir os reis, imperadores e príncipes, diante das massas sublevadas. Esse conselheiro político, diante da situação de inconformismo do povo, fez ver como as autoridades opressoras de sua época deveriam comportar-se: ante o povo insatisfeito deveriam lançar mão de medidas que apesar de ter fundo ilusório ― pudessem ter o condão de deixar as massas momentaneamente satisfeitas ou anestesiadas.

A frase maquiavélica usada para desviar a atenção da população do real problema de descaso no campo da Saúde Pública eu encontrei bem no miolo do discurso de lançamento do “Programa Mais Médicos” da atodoarda base aliada de um Governo que está, fale-se a verdade, com a cabeça inteira na campanha pela reeleição:

“Mas nós precisamos admitir, honestamente, que algo deve ser feito para que todos os brasileiros tenham direito a um médico, e é disso que se trata, se trata de garantir que todos os brasileiros tenham direito a um médico” ― disse a presidenta, omitindo a gravidade do gargalo entupido de uma garrafa, denominada SUS.

Aos sessenta e seis anos, como médico ginecologista, quero aqui enfatizar que fornecer uma medicina de qualidade, independe da distribuição de médicos generalistas indiscriminadamente por nossos rincões, como quem oferece pirulitos para agradar crianças.  As pessoas, cara presidenta, estão protestando nas ruas justamente por não aceitar mais os ditames do manual de Maquiavel. Elas parecem, presidenta, que resolveram deixar de ser massa de manobra. Tentar tapar o sol com uma peneira, escondendo da população os verdadeiros gargalos do sistema perverso dos atuais serviços de saúde, é o mesmo que brincar com fogo. Entenda, cara presidenta, que as pessoas desassistidas estão mandando-lhe um recado duríssimo: não aceitam mais profissionais de saúde a passar mezinhas e medidas paliativas, fazendo de conta que estão tratando-as. Elas já sabem, presidenta, que  estão a necessitar de cuidados de médicos especialistas. Elas já entendem o que faz um gastrenterologista, um colposcopista, um cardiologista, um reumatologista, um urologista, um nefrologista, um infectologista, um neurologista, um endocrinologista, um cancerologista como o que recentemente fez com sucesso o seu tratamento.

Já se foi aquele tempo, cara presidenta, em que como urgentista numa Maternidade recebia louvores e aprovação por fazer a anestesia, a cesariana e os cuidados ao recém-nato da parturiente tendo apenas uma auxiliar de enfermagem ao meu lado no centro cirúrgico.

Sabia, cara presidenta, que no linguajar nordestino, uma das frases que mais ouço em minhas atividades na Prevenção do Câncer Cérvico Uterino, é esta: “nós não somos mais bestas!”?

No meu campo de atuação, cara presidenta, as pessoas não aceitam mais saber que é suspeita de ser portadora de Neoplasia Epitelial Cervical e ter que esperar cerca de três meses para receber o resultado de sua biópsia de Colo uterino.

É triste, cara presidenta, constatar que seu “Programa Mais Médicos”, a meu ver de franca aparência eleitoreira, esteja esvaziando as policlínicas municipais, impedindo os médicos especialistas de, semanalmente ou quinzenalmente, saírem de grandes centros populacionais, para prestar um atendimento condigno às pacientes que não têm meios de tratar de suas específicas patologias longe da cidade onde residem.


Por Levi B. Santos (CRM/PB 900)

Guarabira, 25 de julho de 2013


Site da Imagembigfull.wordpress.com

21 julho 2013

Importação de Médicos Cubanos Pela Presidenta




Dilma, que na adolescência militou como guerrilheira no partido Socialista do mentor Fidel Castro, enfrentando prisão e tortura segundo o PT, ao que parece, continua com o seu coração na Ilha Cubana.

A presidente junto a sua equipe Petista não conseguiu implantar o regime cubano no Brasil e, agora, a meu ver, foi tomada de um surto psicótico socialista: em nome de uma vil produtividade que é regida pela quantidade de atendimentos médicos e não pela sua qualidade, quer importar médicos cubanos para tratar os pacientes do SUS em nosso país.

Diante da resolução dos marqueteiros petistas desse governo à deriva, não poderia deixar passar em branco, nessa ocasião, um fato verídico de que fui vítima:

Nos idos de 1980, pasmem, o Ministério da Saúde através de uma de suas diretorias, proibiu-me de realizar colposcopias no Controle do Câncer Cérvico Uterino em mulheres da 2ª e 3ª Regiões de Saúde do Estado da Paraíba, composta por mais de 25 municípios, sob a alegação de que esse tipo de exame não era coisa para as massas. (vide link: "Nocaute Em Pleno Seminário")

Para quem não sabe, aliada ao Exame Papanicolaou, a Colposcopia é um exame imprescindível, e pilar básico na prevenção do Câncer Cérvico-Uterino ― tipo de Neoplasia, responsável pela segunda causa de morte em mulheres no nosso imenso país.

Recentemente, recebi da direção do TCE/CGU, a notificação de um processo administrativo dando prazo para fazer minha defesa, pois, em sua concepção, como médico da FUNASA aposentado por tempo de serviço, não mais poderia prestar os exames colposcópicos (carga horária de 16 horas semanais) que vinha realizando em pacientes de risco para Câncer Cérvico Uterino em uma região extremamente carente de profissionais para esse fim, composta de mais de 25 municípios (2ª Região de Saúde da Paraíba). Desde os idos de 1980, os exames colposcópicos ― sem os quais não se pode dizer que se faz prevenção de neoplasia uterina ― eram por mim controlados nos municípios desta região. Pasmem: segundo as autoridades administrativas tenho que parar e fechar  serviços estratégicos de Controle do Câncer (a Colposcopia), e ficar, como diz o hino nacional: “deitado eternamente em berço esplêndido. Ao som do mar, e a luz do céu profundo...”

Tenho a impressão de que a presidenta e o seu ministro Dr. Padilha andam a brincar de saúde, ao tomarem medidas estapafúrdias, como a de importar médicos cubanos para cuidar da saúde do nosso povo, numa nítida intenção de encobrir a má gestão do Governo no campo da saúde pública.

Sinceramente, como gostaria mesmo que o Dr. Padilha pudesse aparecer aqui na 2ª região de Saúde para verificar in loco a situação em que se encontra a prevenção do câncer cérvico-uterino (com relação ao setor de Colposcopia), onde atuo desde os idos de 1978.

Com certeza, muitas pacientes serão prejudicadas e terão suas doenças agravadas, enquanto estiverem esperando as promessas mirabolantes dos guardiões da saúde brasileira com seus fantasiosos e eleitoreiros discursos ― medidas enganosas e apelativas que em pouco tempo caem no vazio ―, como venho sempre comprovando no decorrer de minhas atividades profissionais, desde o ano de 1971, quando concluí o curso de Medicina pela U.F.PB.

Tem razão de sobra o Conselho Federal de Medicina, em não se dobrar a tamanha insanidade e irreverência do Governo Central, tendo já entrando com medidas jurídicas para assegurar o Estado de Direito democrático visando impedir que profissionais sem os mínimos requisitos médicos venham atuar no interior do Brasil a seu bel prazer.

O que não podemos aceitar de forma alguma é o desrespeito e a falta de compromisso de um inepto governo, que para se manter em alta nas pesquisas faz um vil jogo eleitoreiro, tentando de forma temerária e irresponsável passar para a população a falsa ideia de que os médicos são culpados pelo caos e sucateamento das entidades hospitalares, quando todos nós sabemos que se não fossem os desvios de verbas destinadas à saúde, haveria condições de se fornecer serviços médicos seguros e de boa qualidade à população carente de nosso sofrido país.  

Aos 25 anos de idade, quando dava os primeiros passos na profissão de médico, sonhava em fazer medicina de verdade, sem ingerência político-eleitoreira. Hoje, aos 66 anos de idade, deixo aqui o meu repúdio e minha indignação diante do evidente descaso governamental na área da saúde pública, que chegou ao ponto de, após 40 anos de experiência profissional, ver-me impedido de continuar dando a minha colaboração em um setor tão vital na área de saúde da mulher.


P.S.:

"Há alguns anos, a presidente Dilma Rousseff foi vítima de grave problema de saúde. O tratamento aconteceu em centros de excelência do país e sob a supervisão de homens e mulheres capacitados em escolas médicas brasileiras. O povo quer acesso ao mesmo e não quer ser tratado como cidadão de segunda categoria, tratado por médicos com formação duvidosa e em instalações precárias".  
 [ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA (AMB) - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MÉDICOS RESIDENTES (ANMR) - CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM) - FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS (FENAM)

(Fonte: noticias.r7.com/brasil)


Levi Bronzeado dos Santos (CRM/PB 900)

Guarabira, 20 de julho de 2013 


Site da Imagem: cleubercarlos.blogspot.com

14 julho 2013

O Touro, a Criança e o 'Homem Maduro'.




O filósofo alemão que estudou com Husserl, Paul Ludwig Landsberg (1901 -1944), morto pela Gestapo num campo de concentração em Oranienburg (Brandemburgo- Alemanha) nos legou um instigante livro ― “Ensaio Sobre a Experiência da Morte”. No VIII capítulo, encimado pelo título, “Intermezzo tauromáquico”, o indigitado autor faz uma analogia digna de registro, inter-relacionando os momentos da inocente felicidade primeva com o desaguar da angústia existencial humana, que tem na morte ou no morrer, o seu ápice.

Ele recorreu a uma tourada, daquelas espanholas, para inserir pontos de intersecções metafóricas entre o touro que entra na arena e a criança que sai do corpo da mãe para em um pequeno espaço de tempo deslumbrar-se com um mundo fantástico a seu redor, sem ter a mínima idéia do que vem pela frente.

O autor germânico, que filosoficamente denomina a morte como a “presença-ausente” e o morto como a “ausência-presente”, inicia o seu brilhante ensaio metafórico falando da “criança-homem”, até chegar ao “homem maduro” dentro de sua  arena existencial:

“O touro que entra na arena não sabe nada do que o espera. Contente, ele foge da escuridão da cela e sente a plenitude de sua vitalidade de jovem atleta. Ofuscado pela súbita claridade, sente-se senhor do círculo fechado que se torna seu mundo e que ainda lhe aparece uma planície sem limite. Seu rabo chicoteia a areia vigorosamente. Ele percorre a arena em todos os sentidos, sem outra consciência além da alegria de sua força. ― Assim a criança sai do corpo da mãe e logo começa a brincar num mundo luminoso que a deixa ainda ignorar seu destino e seus perigos.

Chegam os primeiros adversários. Ainda é um jogo. Para o touro o combate é natural. A luta intensifica seu sentimento da vida e das próprias forças. As pequenas dificuldades iniciais só lhe aumentam a raiva. É a cólera do forte que atinge o auge da irritação. A luta desperta e revela o animal vigoroso que a vida cotidiana dissimulava. Nenhum sentimento desagradável além do jogo. Mas, aos poucos, aparece um elemento doloroso. O jogo é uma cilada. O adversário é muito esperto, provoca e se esquiva. Apesar de mais fraco o adversário se torna mais forte por que é mau. O pano vermelho torna-se um vexame, deixa de ser uma boa ocasião para lutar. ― Assim, o adolescente na escola e alhures faz suas primeiras experiências num mundo astuto contra o qual a sinceridade de sua força nada pode. Mas as canseiras da juventude não são graves.

Para o touro, o mais sério começa com a entrada dos inimigos centauros. Os picadores o atacam do alto de seus cavalos com piques que ferem de longe. O touro ataca e sua fúria se transforma, aumenta. É a cólera amargurada, magnífica, alucinante, na qual o cúmulo do frenesi vem secretamente da vitória sobre a desesperança vital, cólera que se fortifica por uma contínua vitória sobre a desesperança. É o inocente, é o pobre cavalo velho que sofre principalmente com tal encarniçamento. O picador manhoso vai embora depois dessa tarefa sangrenta. ― Assim, o homem entra na luta séria da vida. Jamais vencerá o mal. Se destrói algum adversário, só destruiu um inocente. Existem apenas inocentes; nossos adversários são as máscaras desse mal que nunca mataremos. ― Assim, o homem maduro chega ao sucesso e à glória no momento em que já está enfraquecido pelos ferimentos da vida. E a glória deste mundo nada mais é que uma ferida íntima, um enfeite tradicional e quase ridículo, um simulacro de vitória. O homem não venceu”.

P.S.:

Nessa tourada que não é bem no plano físico, o animal faz o papel da criança e do homem maduro(?). O Homem mesmo sabendo que no fundo de sua alma é também touro, faz o papel da divindade, pois sabe antecipadamente o que vai acontecer: sabe atacar e se esquivar, assim como percebe o momento de dar o golpe fatal.

Que o internauta ao ler esse metafórico e poético texto, possa viajar e revisitar os afetos tauromáquicos, que são seus e de mais ninguém.


Guarabira, 14 de julho de 2013

Site da Imagem: astrologiaeradeaquario.blogspot

01 julho 2013

...E Por Falar em Plebiscito




Para ofuscar as recentes manifestações populares contra a corrupção, as licitações fraudulentas, e a impunidade na base do Governo, muito se tem falado sobre referendo e plebiscito nas últimas semanas, coisa que o falecido Chavez (ídolo do PT) da Venezuela extraía de sua cachola com maestria, toda vez que se via em maus lençóis.

Roberto Pompeu Toledo, que escreve quinzenalmente na última página da revista VEJA, dirigindo-se a maioria dos cidadãos brasileiros (entre eles, os do “Bolsa Família”) expôs de uma maneira bem simples ou inteligível o que seria o tal do plebiscito que a falange chavista do PT, de má fé, planejava usá-la para desviar o foco dos protestos, a favor da reeleição de sua protegida e apadrinhada do,  até o momento, desaparecido Lula.

Plebiscitos se fazem com enunciados simples que envolvem no máximo rudimentares cálculos matemáticos” ― disparou o ensaísta da Veja logo no início do seu artigo. Para explicar o que seria o tal de plebiscito, ele se valeu de uma espécie de consulta à população sobre os gastos recentes de uma famosa cliente com seu cabeleireiro. Vamos lá:

“Em nove oportunidades, uma cliente pagou 400 reais ao profissional que lhe fez o penteado e a maquiagem. Na décima, pelo mesmo serviço foram-lhes propostos 3.125 reais. A cliente deve concordar com a proposta? SIM ou NÃO?

Para não me alongar, transcrevendo todo artigo de Pompeu Toledo, na Veja desta semana, irei direto ao que motivou o satírico ensaísta, a contar essa historieta de um plebiscito sobre os gastos da cara cliente com o seu cabeleireiro (rsrs):

“Daí não ser à toa que esteja posta, aí em cima, a história dos preços do cabeleireiro. A história é REAL. A cliente em questão é a presidente Dilma Rousseff, e os preços foram apurados pela reportagem da Folha de São Paulo. Em nove ocasiões, desde o início do mandato de Dilma, a Presidência pagou 400 reais pela preparação de seu visual antes das aparições na televisão. Na décima, em dezembro do ano passado, foi-lhe apresentada uma conta de 3.125 reais. O governo disse Sim ou Não? Advinhe o leitor. Advinhou: disse SIM. E continuou dizendo sim nas duas vezes seguintes, a última das quais na semana passada, quando pagou os mesmos 3.125 reais. Ora, direis, leitor, é uma mera conta do cabeleireiro. Se a conta do cabeleireiro, tão simples de calcular, é administrada desse jeito, imagine-se a da transposição do São Francisco.”

Dois dias atrás (dia 29),  Dirceu, em seu blog, pôs uma nota convocando a bancada do seu famigerado partido em prol da realização de um plebiscito sobre a reforma política com o intuito de beneficiar a reeleição de Dilma e sua trupe.

Que o povo esteja de olhos bem abertos, para mais tarde, quando for reprisada a tese de um plebiscito à La Chavez, lembrar-se desse exemplo, matematicamente bem simples, sobre as transações da Presidenta e o seu sortudo cabeleireiro.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 01 de julho de 2013


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24 junho 2013

O Risco da Letargia




O senador e professor universitário, Cristovam Buarque, trinta dias antes da deflagração dos protestos que varreram o país de ponta a ponta, fez um vaticinante discurso no plenário do senado. Por achá-lo antológico, resolvi não só guardá-lo, como divulgá-lo nesse espaço.

Talvez, a fala ou o “mea culpa” desse educador, possa servir de referência para aquele que deseja entender algumas das reais causas desse mega-movimento, popularmente cognominado de “Copa das Manifestações” que, partindo das redes sociais, atingiu às ruas sem a necessidade da UNE, das centrais sindicais e dos encamisados líderes políticos com seus jargões e bandeiras partidárias multicoloridas.


O Risco da Letargia
(Por Cristovam Buarque)



 Um país pode dormir em berço esplêndido, mas seu povo e suas lideranças não têm o direito de ficarem letárgicos quando seu futuro está ameaçado. Mas estamos sofrendo de letargia diante do esgotamento de um ciclo histórico que exige mudança de rumo.

É visível que nossa democracia está fragilizada por causa da corrupção, da desmoralização dos partidos tradicionais, do uso de “pacotes” elaborado conforme os interesses do momento, do elevado custo de campanhas, transformadas em batalhas de marqueteiros e advogados, e do financiamento corruptor destas  campanhas milionárias. Outro fato que demonstra esta fragilidade é o controle do Legislativo pelo Executivo e a insólita disputa entre Legislativo e Judiciário.

É visível o risco da perda do controle da inflação. Uma das conquistas da democracia foi o Plano Real, adotado por unanimidade pelas lideranças políticas nacionais e todos os governos dede 1994. Agora, elas parecem abandonar esta grande conquista. E o povo parece manter-se letárgico, sem despertar para o risco do monstro da inflação e suas consequências desestabilizadoras de todas as políticas, especialmente as sociais e econômicas.

Também estamos letárgicos diante da desmoralização de outra grande conquista da democracia: a transferência de renda. Estamos letárgicos também diante do risco do aumento real do salário mínimo, agora ameaçados pela volta da inflação e pelo risco de que sirva como indutor de mais inflação. Estamos letárgicos diante da aceitação de bolsas como instrumentos permanentes sem compromisso com a abolição da pobreza. Os brasileiros, especialmente os beneficiários das bolsas, ainda não se despertaram para um tempo em que se livrarão delas. E as lideranças políticas, especialmente as que se consideram de esquerda, parecem considerar que o Brasil já fez sua revolução, ao distribuir um mínimo de sua imensa renda para os pobres, mesmo mantendo o modelo social e econômico concentrador. É preciso despertar para a necessidade de que qualquer brasileiro e sua família estejam independentes da necessidade de bolsa.

Nosso povo e líderes também estão letárgicos diante do claro atraso da nossa economia que, mesmo quando cresce, faz como há cinco séculos, por meio da exportação de commodities, e há 60 anos por intermédio da produção industrial de bens sem conteúdo cientifico e tecnológico. É preciso despertar para o fato de estarmos aceitando no século XXI uma economia de meados do século XX.

A letargia fica mais grave porque as eleições presidenciais são o momento de despertar, mas até agora não se vê qualquer dos candidatos com propostas que permitam reorientar o país. Nenhum deles parece estar interessado em despertar o povo da letargia diante de uma sexta economia baseada em commodities, de uma sociedade não emancipadora, de volta da inflação e de uma democracia acanhada e instável, que parece ser de brincadeira.

É muito arriscado ficar dormindo enquanto o mundo inteiro se mexe, mesmo quando em crise de crescimento na produção.


Guarabira, 24 de junho de 2013


Site da Imagem: votozero.blogspot.com

15 junho 2013

Os Protestos e as Redes Sociais




Depois da Internet o mundo não é mais o mesmo. Esse poderoso canal cibernético invadiu de forma avassaladora os nossos lares. Os protestos, as guerras, os grandes acontecimentos que ocorrem em qualquer parte no mundo são instantaneamente vistas e comentadas nas redes sociais. Não há como negar que a comunicação por estas redes impactou de forma definitiva a relação do indivíduo frente à sociedade e àqueles que detêm o poder de comandá-la.

Só no Brasil, nada menos que oito entre dez pessoas estão conectadas em redes virtuais. A rapidez com que se absorvem as informações fez da internet um campo propício para divulgação de ideais, de convocação dos mais diversos tipos de protestos, de bate-bocas entre líderes políticos, de exposição dos discursos sem pé nem cabeça dos representantes de nossa república. Enfim, não há um só que não seja atraído pela telinha dessa influente vitrine virtual.  Já se diz por aí, que os notebooks, os tablets, os smart-phones, são a nossa segunda pele.

Não muito longe do foco das recentes ondas de protestos na nossa maior metrópole (São Paulo), no Espaço Cultural Tomie Ohktake, o renomado sociólogo espanhol, Manuel Castells, fazia uma palestra sobre a “autocomunicação de massas no âmbito da internet”. Por incrível que possa parecer, no momento em que os manifestantes paulistas reprimidos pela polícia protestavam contra o aumento das passagens dos transportes coletivos, o famoso palestrante internacionalmente conhecido, teorizava justamente “sobre as manifestações que nascem na rede e depois ganham as ruas”.

Em um artigo veiculado anteontem (dia 13), na Folha de São Paulo ― o especialista em mídia e política ―, sobre o comportamento dos internautas nesse seu novo espaço, disse algo emblemático, que não poderia deixar de trazer ao conhecimento dos leitores. Castells fez ver que “a autocomunicação através das redes, retirou a mediação dos outros meios de comunicação. Segundo ele, a internet leva as pessoas a perderem o medo de reivindicar e reclamar seus direitos, na medida em que passam a se reunir em comunidades virtuais. Disse ele, na reportagem: “já vivemos uma ‘virtualidade real’ e não mais uma ‘realidade virtual’. A internet é a infraestrutura de nossas vidas. Somos anjos e demônios. Viver na internet tem um perigo: nós mesmos”.

O sociólogo foi muito lúcido ao frisar que nas redes o que mais se vê no que concerne ao combate de natureza política são as polarizações extremistas onde há sempre um “rosto a ser eleito”, e um “rosto a ser destruído”.

Quando os maiores sites de informação, como o UOL, ao invés de servirem de moderadores insuflam ainda mais os conflitos disponibilizando em suas primeiras páginas enquetes, tipo: “Você é a favor ou Contra os protestos ocorridos em São Paulo?”, o que podemos esperar do futuro desse espaço cibernético?

Uma explicação de cunho psicanalítico cai bem para explicar as pulsões intuitivo-destrutivas presentes nas redes sociais: “A internet nos atrai tanto porque somos órfãos de identidades estabilizadas”. (Contardo Calligaris)


P.S.:  
No Facebook, os paulistanos já organizam o próximo protesto, marcado para segunda feira (17). O ato será realizado no Largo do Batata, em São Paulo. O evento foi criado pelo Movimento Passe Livre, principal organizador das manifestações, e já conta com mais de 93 mil presenças confirmadas pelo Facebook .  [FONTE: infoabril.com.br]


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de junho de 2013


Site da Imagem: capitaldopantanal.com.br

10 junho 2013

Pequeno Ensaio sobre Alteridade e Singularidade




Alteridade significa entender que uma pessoa é constituída ou intermediada a partir da história do outro. Para entrar nesse campo se faz necessário compreender o conceito de singularidade. Singularidade vem da palavra “singular”, que significa “o que é único”, em contraposição ao que é plural. 

Respeitar a singularidade do outro começa pela compreensão de que cada indivíduo tem a sua percepção própria de vivenciar seus desejos, que passa, automaticamente, pelo reconhecimento de que cada ser humano tem seu estilo ou ritmo peculiar de existência. Cada indivíduo tem a sua marca sentimental indelével, impossível de ser duplicada no outro.

A Alteridade pressupõe o diálogo com o outro (diferente), sem que haja a possibilidade de um transformar o outro. A percepção de que a homogeneização dos indivíduos em seu modo de pensar possa ser alcançada é o estopim de todo mal estar na civilização, e das intermináveis, infrutíferas e utópicas missões em prol de um só tipo de rebanho e um só tipo de pastor.

A própria Torah adverte que não se deve afligir ou constranger o estrangeiro (Êxodo 23:9). Não constranger implica em respeitar a individualidade, acolhendo e não repelindo a singularidade dos desejos e sentimentos do seu oposto. Aniquilo psicologicamente o outro quando apresento a minha experiência histórica como a única verdadeira a ser seguida.

O filósofo, Derrida, em seu estudo sobre a “diffèrance” questiona a auto-suficiência do discurso de um só caminho, convocando a nos deter sobre a ambiguidade dos signos dentro de cada ser, evidenciando, com isso, que não há representação auto-suficiente ou mais verdadeira que a do outro.

A repressão da universalidade, simbolizada na psicologia pelo arquétipo patriarcal, deu lugar à expressão da criatividade interior que leva em conta a singularidade do sujeito. Segundo Jung, “é a consciência da alteridade que deixa acontecer as polaridades do “eu” dialeticamente com as polaridades do outro”.

Alteridade, enfim, significa acolher o outro em sua diferença. E isso só se consegue entendendo que a singularidade ― que diz respeito à experiência particular do sujeito com os seus desejos ―, é única e não se repete com as mesmas nuances, no outro.

Entre as várias lições tiradas do mito de “Caim e Abel”, aprendemos, também, a de que não se deve oprimir o estrangeiro, que por sua estranheza é marginalizado.

Estamos, de certa forma, sentenciados a dialogar com as nossas estranhezas refletidas em cada encontro que entabulamos com o outro. O mito de “Caim e Abel”, que poderia ser denominada de “Parábola do Avesso da Alteridade”, quer mostrar, sobretudo, a percepção de que existe um “Eu” e um “TU” igualmente pessoais e ao mesmo tempo distintos em suas subjetividades. Nesse caso, a alteridade nada mais seria que olhar um pouco de si com os olhos do outro. Apesar de reconhecer que esse olhar é sempre míope, pelo menos, poderíamos através de sua opacidade ou imprecisão, ter uma tênue percepção de que a destruição do outro seria o nosso próprio suicídio.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 10 de junho de 2013

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05 junho 2013

O Homem e a Gaiola




Quão adorável era a sensação de se ver dono de si. Iria satisfazer, enfim, o desejo que o consumia de se ver livre do pedaço de chão dos seus ancestrais. O prazer de não necessitar de uma autoridade a ensinar-lhe gestos ou posturas, afinal, chegara. Conseguiu deixar a gaiola para voar ao seu bel prazer, sem amarras e barreiras. Muito embora tenha nascido dependente do outro e permanecido neste estado por algum tempo, agora, estava a usufruir a liberdade infinita que a natureza lhe oferecia. Saiu do recinto fechado e sufocante das grades de uma gaiola denominada “tradição dos pais” que o mantinha preso desde o seu nascimento. Rompeu com o destino de conservar e repetir indefinidamente o lustro dos objetos paternos que, agora, percebia como peças velhas e inaproveitáveis de um museu. Decidiu não contemplar mais os originais da obra prima que o moldara. As coleções de artes que agora criava, dizia ser fruto de uma inspiração autêntica, que não mais guardava nenhuma influência das produções antigas que estava acostumado a receber de graça num aconchegante engradado.

Nunca que pudesse imaginar que as suas obras artísticas fossem testemunhar algo do passado longínquo de sua prisão primeva. Embora suas produções de arte fossem construídas do mesmo material de quando estava enjaulado, ele as via exprimirem um novo valor, uma nova razão de ser de sua existência. Preferia manter-se a uma certa distância dos engaiolados, temendo que ao encontrá-los, fosse tomado pelo desejo de cumprimentá-los, coisa que o levaria ao maior dos constrangimentos.  Se, por acaso, chegasse bem pertinho deles seria para chamá-los de frouxos ou covardes. Algumas vezes, repelia o sentimento fastidioso de que havia perdido alguma coisa. Outras vezes ouvia como que uma melodia de ninar, do tempo dos seus primeiros vagidos. Passou a andar vigilante para não ser traído por sonhos. Quedava-se, às vezes, medindo os seus novos feitos pelo padrão de beleza das obras antigas feitas sob encomenda dos seus predecessores ― que o deixava com a vaga sensação de que o que produzia tinha alguma semelhança com as da antiga gaiola. Quando fugia do seu lar, a mulher do personagem bíblico, Ló, resolveu satisfazer o forte desejo de olhar para trás, o que a transformou em uma estátua de sal. Tal qual uma escultura de museu, era assim que se sentia, quando em pensamentos revisitava o seu antigo habitat.

Pôs então no seu coração a intenção de não se deixar seduzir por sugestões loucas que o levassem a sentir saudade da antiga morada.

Uma noite, em sonho, se viu repentinamente em Roma. Não suportou a bela e antiga cidade porque os seus ouvidos doíam ante as inquietantes vozes que o convidavam a apreciar museus e coleções de antiguidades. O certo é que depois de muito refletir, dispôs-se a tirar algum proveito científico de todo aquele tesouro arqueológico.

Muito embora a Ciência e a Fantasia fossem instâncias antagônicas, decidiu não dispensar uma rápida ida àqueles lugares que lhe puxavam para trás.

Nutrindo a esperança de que a Ciência sepultasse tudo aquilo, fazendo nascer algo novo sem nenhuma relação com o velho, o fugitivo, obedecendo ao instinto, pôs-se a caminhar, desaparecendo no horizonte.

 Conseguirá esse Novo Homem abandonar por completo o desejo arqueológico de escavar as ruínas do mundo dos mortos, que também são suas?

 O futuro o dirá.

(Ensaio baseado no Romance “Gradiva” ― de Wilhelm Jensen ― Jorge Zahar Editor)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 05 de junho de 2013

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